A experiência de João Pedro mostra como tecnologias assistivas ampliam as possibilidades de mobilidade de pessoas com deficiência física.
por
Dhara Yuki
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26/10/2026 - 12h

Por Dhara Yuki

 

Para João Pedro sair de casa exige pensar além do destino. Antes de atravessar a porta é preciso considerar o caminho, a distância, o tempo que ficará em pé e os recursos que poderá precisar para chegar ao lugar desejado. Dependendo do compromisso, a escolha pode ser uma órtese, uma muleta ou uma cadeira de rodas. A decisão não é apenas sobre como se locomover, mas sobre qual equipamento oferecerá melhores condições para enfrentar o percurso.

Diagnosticado ainda durante a gestação com mielomeningocele, uma má-formação congênita da coluna vertebral, João teve contato com a tecnologia médica antes mesmo de nascer. Durante os exames de pré-natal, sua mãe descobriu a condição e soube que existia a possibilidade de uma cirurgia para corrigir a má-formação ainda dentro do útero. O procedimento, que envolve a abertura do útero para operar a coluna do feto e depois reposicioná-lo, foi uma das primeiras possibilidades de intervenção médica relacionadas à sua condição. Uma das complicações associadas à mielomeningocele é a hidrocefalia, caracterizada pelo acúmulo de líquido nos ventrículos cerebrais. Logo após o nascimento, João passou por uma cirurgia para tratar o problema e recebeu uma válvula que permitia drenar o excesso de líquido. O dispositivo, entretanto, exigia acompanhamento médico e poderia precisar ser substituído ao longo da vida. A possibilidade de depender de um equipamento por tempo indeterminado fez parte de sua história desde o começo. Anos depois, uma nova intervenção médica mudaria essa relação com a tecnologia.

Quando tinha dois anos, a mãe de João descobriu o Hospital Sarah Kubitschek, em Minas Gerais, uma instituição especializada em reabilitação. Lá, ele iniciou um tratamento direcionado às necessidades de pessoas com a mesma deficiência e passou a utilizar órteses de polipropileno, dispositivos que auxiliam a sustentação e o movimento das pernas, e esse acompanhamento durou dez anos. A órtese se tornou parte de sua rotina e permitiu que ele desenvolvesse sua mobilidade com o auxílio do equipamento. Entretanto, conforme crescia, as limitações do material começaram a aparecer. Por volta dos 12 anos, a equipe que o acompanhava informou que as órteses utilizadas até então não seriam mais suficientes para suportar seu peso. Era necessário encontrar outra alternativa.

A busca levou João à Ottobock, uma empresa especializada em soluções de tecnologia assistiva, entre elas órteses e próteses. A alternativa encontrada utilizava fibra de carbono, um material que permite produzir dispositivos leves e resistentes. Porém, o custo representava um obstáculo. Os equipamentos eram caros, e conseguir acesso a uma tecnologia mais adequada às suas necessidades não dependia apenas de sua existência. Na mesma época, João decidiu procurar uma cadeira de rodas motorizada. Embora conseguisse andar com o auxílio da órtese, percorrer longas distâncias provocava cansaço. A cadeira poderia facilitar esses deslocamentos, mas, para adquiri-la, foi necessário organizar uma vaquinha com a ajuda de amigos e familiares.

No entanto, a cadeira não correspondeu às expectativas, pois pesava aproximadamente 70 quilos, sendo difícil transportá-la, e as condições das ruas de Santo André tornavam a locomoção ainda mais complicada. A tecnologia havia sido pensada para facilitar seus deslocamentos, mas o peso do equipamento e as características do espaço urbano acabaram gerando novas dificuldades. A experiência evidencia uma contradição presente no cotidiano de muitas pessoas com deficiência, um dispositivo pode oferecer determinada solução sem necessariamente resolver os problemas encontrados no ambiente em que será utilizado. Não basta que um equipamento permita o deslocamento se o peso, o transporte ou as condições das calçadas dificultam sua utilização.

Aos 15 anos, João enfrentou outro episódio que mudaria sua relação com os recursos médicos. As dores de cabeça se tornaram intensas e não melhoraram nem com o uso de fortes analgésicos. Ao procurar um neurologista, recebeu a orientação de que a válvula implantada após o nascimento deveria ser substituída, mesmo sem estar completamente obstruída, porém outra possibilidade foi levantada, segundo João, o médico havia desenvolvido uma técnica cirúrgica que permitiria tratar a hidrocefalia sem a necessidade de manter a válvula. O procedimento foi realizado fora do convênio porque não oferecia cobertura, e teve o resultado esperado. Desde então, João não precisou mais utilizar o dispositivo. A cirurgia representou uma grande mudança, um recurso que havia acompanhado sua história desde os primeiros dias de vida deixou de ser necessário. O avanço médico não se limitou a substituir um equipamento antigo por outro, mas possibilitou uma nova condição de tratamento. O acesso, porém, teve um custo. A ausência de cobertura pelo convênio fez com que o procedimento dependesse de recursos particulares, revelando que a existência de uma tecnologia não significa que ela esteja disponível para todos que poderiam se beneficiar dela.

Na mesma fase, João conseguiu adquirir uma órtese de fibra de carbono. O equipamento permaneceu com ele por aproximadamente seis anos, período em que o dispositivo acompanhou seu crescimento e suas necessidades. Agora, ele se prepara para trocá-lo por um modelo mais recente, desenvolvido para corrigir melhor sua marcha e oferecer menor peso. A evolução das órteses mostra como a tecnologia assistiva não se resume à criação de um equipamento. Os dispositivos também passam por aperfeiçoamentos que podem modificar sua eficiência, seu conforto e a forma como se integram à rotina de quem os utiliza. Para João, a troca representa a possibilidade de contar com um recurso mais adequado às necessidades atuais, depois de anos utilizando o mesmo equipamento.

A cadeira de rodas também ganhou uma nova versão. Durante um intercâmbio na Itália, João passou os primeiros 15 dias acompanhado da mãe para compreender como seria sua rotina no país e avaliar as dificuldades de deslocamento. Percebeu que não conseguiria percorrer todos os trajetos apenas com a órtese. Dessa vez, encontrou uma cadeira mais leve, compacta e acessível financeiramente. O modelo atual pesa 27 quilos, dobra-se como um carrinho de bebê e custou menos da metade do preço da primeira cadeira motorizada que havia adquirido.

Hoje, João alterna os recursos de acordo com a necessidade. Nos dias em que precisa comparecer presencialmente a compromissos que exigem permanecer muito tempo em pé, utiliza a cadeira de rodas. Para ir à faculdade, quando considera o percurso viável, prefere a órtese e a muleta. A escolha também depende das condições do caminho. Em ruas irregulares ou em trajetos nos quais precisa ter maior controle dos movimentos, a cadeira pode ser menos prática do que a muleta. O equipamento mais avançado, portanto, não é necessariamente o mais adequado em todas as situações. A autonomia está também na possibilidade de escolher o recurso que melhor responde às necessidades de cada deslocamento.

Dentro de casa, a rotina é diferente. João utiliza um assento fixo durante o banho por causa da dificuldade para permanecer em pé por muito tempo, mas fora isso, sua casa não conta com adaptações específicas para sua condição, inclusive, consegue subir e descer escadas, mas algumas tarefas mais simples, como levar um copo ou um prato da pia até a mesa, exigem atenção para evitar desequilíbrios. A tecnologia, nesse contexto, não elimina todas as dificuldades. Mesmo com os equipamentos que utiliza, existem situações em que a organização dos espaços e as características do ambiente interferem diretamente em sua autonomia.

A mesma questão aparece quando João vai à faculdade. A instituição realiza a chamada por meio do sistema da catraca, mas a entrada principal não oferece acessibilidade. Para conseguir entrar, ele precisa utilizar o portão dos fundos, que permite a passagem, mas não conta com o sistema de registro de presença. A solução encontrada pela instituição para registrar presença aos alunos não contempla todos da mesma maneira. O problema não está na capacidade de João de frequentar as aulas, mas na ausência de uma estrutura que permita que ele acesse o espaço e cumpra os procedimentos institucionais nas mesmas condições que os demais estudantes. Segundo ele, mesmo após uma reforma na faculdade, a questão permaneceu sem solução. Essa situação diz que a acessibilidade não depende exclusivamente de equipamentos individuais ou de avanços na medicina, mas também de planejamento dos espaços coletivos e dos serviços utilizados diariamente.

A autonomia de João se estende ainda à direção de veículos. Desde 2023, ele tem carteira de habilitação e pode dirigir, mas precisa utilizar um carro adaptado. Como não consegue acionar os pedais convencionais da maneira habitual, o veículo possui uma haste que permite acelerar e frear manualmente e um pomo giratório instalado no volante que facilita as manobras com apenas uma das mãos. O carro também precisa ter câmbio automático, já que o sistema de adaptação utilizado não funciona com embreagem convencional.

Da cirurgia realizada ainda na infância aos equipamentos utilizados para andar e dirigir, a tecnologia atravessa diferentes etapas da vida de João. Em alguns momentos, aparece como uma intervenção médica capaz de modificar um tratamento, em outros, como um dispositivo que facilita um trajeto ou permite realizar uma atividade cotidiana. Mas sua experiência também mostra que a autonomia não depende apenas do desenvolvimento de novos recursos. O preço dos equipamentos, a cobertura dos procedimentos médicos, as condições das ruas e a acessibilidade das instituições interferem diretamente nos benefícios que essas tecnologias podem oferecer.

Para João, sair de casa sem nenhum dispositivo de auxílio não é uma possibilidade viável. Em seus deslocamentos, órtese, muleta e cadeira de rodas cumprem funções diferentes, escolhidas de acordo com o percurso e o tempo que precisará permanecer em movimento. O desenvolvimento de equipamentos mais leves, resistentes e funcionais amplia as possibilidades de mobilidade, mas não transforma automaticamente os espaços em ambientes acessíveis. Quando uma cadeira de rodas encontra dificuldades nas ruas ou um estudante precisa utilizar uma entrada alternativa para chegar à faculdade, fica evidente que a inovação tecnológica e a inclusão não avançam necessariamente no mesmo ritmo. A história de João revela duas dimensões de uma mesma questão, a importância de tecnologias que respondam às necessidades das pessoas com deficiência e a necessidade de ambientes preparados para que elas possam utilizá-las. Afinal, não basta desenvolver equipamentos capazes de ampliar a autonomia se os caminhos que levam à universidade, ao trabalho e aos demais espaços da vida cotidiana continuam impondo barreiras.

 

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Franquia de games do lendário skatista da Califórnia trouxe o universo do esporte para os holofotes ao longo das décadas
por
Ivo Leite
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23/10/2026 - 12h

 

Jogar videogame é uma atividade que pode inspirar e fazer sonhar, seja para ser jogador de futebol com títulos como FIFA e PES, por exemplo, ou skatista. Vários jovens começaram a se prestar atenção no universo das quatro rodinhas por meio de um amigo ou por si só. Mas, será que houve algo a mais que despertasse esse interesse?

Em 29 de Setembro de 1999, o jogo Tony Hawk Pro Skater, do skatista californiano Tony Hawk, chegou ao mercado para o console Playstation. O game foi um pontapé inicial para o surgimento de uma franquia de sucesso que vendeu mais de 350 mil cópias só nos três primeiros meses daquele ano. 

Versão do jogo para PC. Foto Ivo Leite/AGEMT
 Versão do jogo para PC. Foto Ivo Leite/AGEMT

 

Criada em parceria com a Activision, uma das maiores e mais influentes distribuidoras de jogos eletrônicos do mundo, a franquia ficou famosa por sua jogabilidade arcade rápida. Após grande êxito com o Playstation, o game foi para outros consoles como o Nintendo 64, Game Boy Color, Dreamcast e N-Gage.

As variações foram sendo criadas com a essência do jogo original. Tony Hawk Pro Skater Underground é um exemplo dessas sequências, dentre outras que surgiram. Houve alguns experimentos como em Tony Hawk Ride que, diferente de seus antecessores, usava um periférico físico em formato de skate como controle. 

 

Por conta do acessório, o jogo custava US$119,90, o dobro de um game comum na época - Reprodução/Mercado Livre
Por conta do acessório, o jogo custava US$119,90 - o dobro de um game comum na época Foto: Reprodução/ anúncio Mercado Livre 

Em 2020, a franquia foi remasterizada com gráficos hiper modernos, lançando o Tony Hawk 1 + 2, premiado como melhor jogo de esporte em eventos como o The Game Awards e o D.I.C.E. Awards. E em 2025, a coletânea Pro Skater 3 + 4 veio ao mercado para concretizar a volta do título.

“Cresci jogando e isso certamente me influenciou a me aventurar sobre quatro rodinhas”, afirma o gamer e skatista Felipe Dias, de 23 anos, que atualmente deseja se formar no curso de Design de Games. “Quero sempre me lembrar de como me apaixonei pelo esporte”, finaliza Dias.

 

Manobras e pistas com dinâmica real . Foto Ivo Leite/AGEMT
Manobras e pistas com dinâmica real Foto: Ivo Leite/AGEMT

 

Um dos pontos  altos da série de jogos Tony Hawk está nas trilhas sonoras marcantes. Gerações de apaixonados por grandes bandas ouviram e se lembram de pelo menos uma música presente nos jogos. A lista compõe diversos estilos musicais como hardcore, punk rock, hip-hop, ska punk e metal. Destaque para “No Cigar”, do Millencolin; “Guerrilla Radio” do Rage Against the Machine e “Superman”do Goldfinger. 

Nesse tempo, o skate se tornou um esporte de grande expressão chegando a compor até os Jogos Olímpicos, a partir de 2020. E a ascensão de sua prática também pode ser avaliada pela influência de jogos digitais como o Tony Hawk Pro Skater. 

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Uma mudança na mentalidade corporativista do brasileiro está atrelada à luta pela redução de horas trabalhadas
por
Clara Dell'Armelina
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19/05/2026 - 12h

O debate sobre o fim da escala 6x1 ganhou um maior fôlego nos últimos dias após a Câmara dos Deputados confirmar para 26 de maio deste ano a votação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que reduz a jornada semanal de trabalho e amplia o descanso dos trabalhadores brasileiros. A medida pode impactar cerca de 16 milhões de trabalhadores que atualmente atuam no modelo de seis dias de trabalho para apenas um de repouso. O avanço da proposta ocorre em meio à pressão popular, com apoio de centrais sindicais e resistência de parte do empresariado, e corrida eleitoral.

Foram reacendidas as discussões entre empresários, trabalhadores e especialistas sobre produtividade, saúde mental e reorganização do mercado de trabalho. Para a economista e CEO da DS Estratégia de Educação e Inteligência Financeira, Dirlene Silva, em entrevista à AGEMT, o debate vai além das planilhas econômicas e exige uma mudança estrutural na forma como o trabalho é pensado no Brasil, “essa transição exige mais do que um ajuste de escala, ela exige mudança de modelo de gestão e de mentalidade”, afirma.

Dirlene Silva: Economista e mestre em Gestão e Negócios, é fundadora e CEO da DS Estratégia de Educação e Inteligência Financeira.
Dirlene Silva (Foto: Fábio Chialastri)

Segundo Dirlene, experiências internacionais em países como Islândia e Reino Unido mostraram que jornadas reduzidas podem manter, ou até mesmo chegar a elevar, a produtividade quando acompanhadas de reorganização dos processos internos, “esses países demostraram que o ganho vem da reorganização do trabalho, não da redução pura e simples de horas. Na prática, as empresas precisam atuar nas frentes de revisão de processos, gestão por resultados, redistribuição de jornadas e mudança de mentalidade”, explica Silva, que sugere que devem especialmente procurar buscar uma transformação da cultura corporativa, abandonando a lógica de que longas jornadas representam maior eficiência e reconhecendo que descanso e bem-estar também impactam diretamente a produtividade do trabalhador. “A economia é, sobretudo, sobre pessoas. E pessoas não produzem de forma linear ao longo de horas extensas”, diz ela.

O aumento de receita registrado em empresas que adotaram jornadas reduzidas está ligado diretamente ao ganho de eficiência operacional e ao bem-estar dos trabalhadores. Experiências internacionais reforçam essa lógica de que menos horas de trabalho podem significar mais foco, menos retrabalho e melhor aproveitamento do tempo. Em 2019, a filial japonesa da Microsoft registrou aumento de quase 40% na produtividade após implementar uma semana de quatro dias de trabalho, além de reduzir gastos com energia e reuniões mais longas. Para Dirlene, empresas que cuidam das pessoas conseguem maior consistência na entrega de resultados. “Seres humanos precisam de descanso para produzirem melhor”, afirma.

Prédio da Microsoft - Imagem: Tang Yan Song/Shutterstock
Microsoft - Imagem: Tang Yan Song/Shutterstock

Falar sobre o adoecimento físico e mental dos trabalhadores é também falar sobre os impactos econômicos para empresas e para o próprio Estado, especialmente nas áreas de saúde pública e previdência. “Ao longo de mais de 30 anos no corporativo, vi muitas pessoas adoecerem e até morrerem por excesso de trabalho”, relata. Para Dirlene, jornadas menores favorecem equilíbrio emocional, melhora na tomada de decisão e redução do adoecimento mental. “Economia não acontece só na planilha, acontece também no comportamento. E comportamento melhora quando as condições melhoram”, explica.

Toda essa discussão também expõe desigualdades históricas do mercado de trabalho brasileiro, os trabalhadores submetidos às jornadas mais longas geralmente ocupam cargos menos valorizados e recebem salários menores. “Não é a quantidade de horas que determina o nível de renda, mas o tipo de trabalho, o nível de qualificação e a posição ocupada na estrutura produtiva”, afirma.

A CEO ainda aponta que, no Brasil, a cultura da hora extra muitas vezes se transforma em complemento salarial, refletindo baixos salários estruturais, “ainda convivemos com um cenário em que trabalhar mais horas não significa, necessariamente, ganhar mais”. Uma pesquisa da Catho reforça esse cenário apontando que 60,7% dos trabalhadores brasileiros fazem horas extras regularmente e, segundo o levantamento, muitas empresas ampliam a carga de trabalho dos funcionários como estratégia para aumentar a produtividade, algo que contribui para a normalização das jornadas extensas no mercado de trabalho do Brasil.

Gráfico da pesquisa da Catho
(Foto: Reprodução/Catho)

Dirlene acredita que a principal barreira para a aprovação definitiva da medida ainda é cultural, ela diz que ainda “existe uma lógica muito antiga baseada em controle de jornada, não em produtividade”. Ela defende que o país precisa compreender que desenvolvimento econômico sustentável depende diretamente das condições de vida dos trabalhadores pois “não existe desenvolvimento sustentável com pessoas adoecendo para sustentar o sistema”, conclui.

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Em meio ao envelhecimento de cada indivíduo, uma vida digna é garantida para todos. E deveria ser assim, mas a realidade de muitos é contraditória.
por
Alice Begnini
Rafaella Lalo
Heloá Hurtado
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09/04/2026 - 12h

Por trás de peles enrugadas, histórias invisíveis que não são contadas nas visitas, que por vezes nem se quer existem, um capítulo que não é mostrado nas fotos de família. Os corredores são silenciosos, com rotinas organizadas e uma saudade sem tamanho: A família. Abraços, ligações e o próprio calor humano se tornam ausentes, aquela presença de quem fez parte da história, não está mais ali. Os olhares esperançosos entre as portas, esperando a entrada de alguém que talvez não venha mais.

A carência, não é apenas algo físico, ela se torna algo estrutural. O dia que era marcado por encontros, passa a ser marcado por rotinas rígidas, silenciosas, que nem sempre são sinônimos de paz. As datas comemorativas, nem sequer existem, não são compartilhadas. Mesmo com profissionais dedicados e capazes, há um espaço que nenhuma instituição irá suprir, onde o abandono familiar se instala.

Pensando nesse sentido, observa-se que a superlotação piora a realidade. O espaço acolhedor se torna insuficiente perante a grande demanda, idosos começam a dividir quartos, rotinas e além de tudo suas histórias. Aquela atmosfera que indica transmitir cuidado, afeto e tranquilidade, torna- se hostil, provocando uma crise emocional, social e humana.

Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) registraram um grande aumento na população idosa entre 2010 e 2022, além de apontar que o número de idosos que residem em abrigos cresceu 65% em 10 anos.

Profissional auxiliando a mobilidade de um idoso que necessita de cuidados.
Idosos representam cerca de 15% da população. Foto:pixabay.

Segundo Flávia Damião, enfermeira, que atua no Lar Sant’Ana Residencial: “É muito comum a ocorrência de abandono, mesmo em residências de famílias com boas condições financeiras.” A afirmação da enfermeira evidencia que o abandono familiar perpassa a saúde mental e física dos idosos.

Há cinco anos atuando na área, Damião presencia o cotidiano e os desafios desse ambiente. No lugar onde trabalha, residem cerca de 100 idosos que estão inseridos em atividades de dança, exercício físico e fisioterapia. Segundo ela, essas práticas contribuem diretamente para a saúde mental e favorecem a socialização entre eles.

Contudo, o cuidado profissional não ocupa todas as faltas. “Apesar das condições, eles ainda são muito carinhosos “, afirma. Ao falar sobre o afastamento familiar, ela é clara: “É comum, inclusive em um residencial de alto padrão. “Eles sentem muito. Ela não sabe mais quem eu sou, mas eu sei quem ela é”. Aponta um relato presenciado pela enfermeira.

A força desse abandono é complexa e afeta a saúde física e mental. Entretanto, não é pontuado um único motivo para esse afastamento familiar, a falta de tempo, rotina de trabalho intenso, dificuldade em lidar com os cuidados e até mesmo o desespero emocional. Cada caso tem o peso de sua história, de suas vivências. “Eu não sei o passado deles, nem como era a convivência com a família. Eu não sei quem ele foi, eu sei o que ele é aqui”, aponta Flávia.

A psicóloga Normal Richter, explica que a solidão pode gerar ou piorar um quadro de saúde. “Quando estão em estado de lucidez, é comum que sintam raiva, tristeza e sentimentos que intensificam a impressão de abandono e ingratidão por parte da família.

Porém, nem sempre é assim dentro dessas casas. Ailton Luiz, filho de uma ex-residente dessas casas de repouso, aponta uma vivência diferente. Ailton acompanhou de perto o tempo que sua mãe esteve dentro desse ambiente e afirma o cuidado recebido. “Eles tinham bastante assistência. O cuidado era 24 horas, não só físico, mas com relação aos medicamentos também. Segundo ele, existia um cuidado com o bem-estar. “Eles passeavam com ela nos espaços da casa, conversavam, não deixavam ela parada, isso fazia a diferença.”

Idosos fazendo atividades em conjunto.
Pessoas da terceira idade que praticam atividades regulares tem até 30% menos risco de ter doenças como a depressão. Foto:@larsantanaresidencial.

O relato dele, aponta que, se existissem estruturas próprias e adequadas, profissionais prontos e investimentos para os medicamentos as residências poderiam sim cumprir seu objetivo, mas essa não é a realidade de muitos.

Flávia Damião relembra algumas situações delicadas em instituições públicas. “Os quartos estavam tão cheios que não tinha como passar. Em muitos casos, os idosos chegam por resgates, retirados de situações de extrema vulnerabilidade.”

A forma precária vai além da estrutura em si, em algumas instituições há ausência de medicamentos, fraldas e até mesmo itens de higiene básica. Por diversas vezes campanhas e organizações dos próprios funcionários arrecadam os itens necessários e se propõem para buscar vagas em outras casas que não estão superlotadas. É um apoio improvisado, que acaba mantendo de maneira básica aquele ambiente, por meio de iniciativas individuais ou coletivas do que propriamente de uma ação do poder público.

Flávia afirma que o cuidado emocional não pode ser sistematizado. “Trabalhar com idoso é um grande desafio”. Destaca que esse tipo de trabalho exige sim preparo, mas acima de tudo sensibilidade perante as histórias marcadas muitas vezes, pela própria ausência.

A enfermeira ainda conclui, “Gostaria que esse público fosse mais olhado. Que não precisassem ser abrigados em casas de níveis precários. Que todos pudessem ter um envelhecimento digno”.

Diante desse cenário, a superlotação e o afastamento familiar dos idosos apontam mais falhas estruturais, demonstram a forma com que a sociedade tem lidado com o envelhecimento. Provocada não apenas pela falta de recursos, mas também pela falta de vínculo, comprometimento e responsabilidade.

Desse modo, comportamentos que afetam a dignidade dos idosos violam e desrespeitam os direitos pregados pelo Estatuto da Pessoa Idosa, que prezam pela segurança e cuidado absoluto, protegendo de qualquer negligência, discriminação, violência e crueldade. 

Entretanto, com o aumento do envelhecimento populacional, o vínculo afetivo se destaca em meios de prevenção contra a decadência da saúde mental e física dos idosos, entregando para a sociedade conscientização das obrigações que são implementadas sobre os cuidados e responsabilidades sobre pessoas idosas. Por trás de um corpo que não tem a mesma agilidade de antes e uma mente que hoje não é tão lúcida, existem histórias que um dia foram momentos importantes e fizeram parte da trajetória de vida de alguém. Cabe à comunidade honrar essa história e lembrá-los de sua importância dentro do espaço onde vivem, reafirmando que eles são seres humanos e merecem respeito e qualidade de vida digna.

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Trajetória de Paulo Ignez revela a luta, persistência e um amor inabalável pelo desenho.
por
Victória Ignez
Isadora Cobra
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13/11/2025 - 12h

  

A primeira memória que Paulo Lemes Ignez Jr. guarda de si mesmo é ele desenhando. O papel, o lápis e o silêncio curioso da infância nunca foram passatempo, eram destino. Aos 8 anos, já imitava o pai, copiando cada linha com a urgência de quem sabia, mesmo sem saber, que a arte seria seu caminho. E foi. 

Fotografia de Paulo Ignez Junior
Acervo Pessoal: Paulo Ignez Junior

Hoje, aos 42 anos, Paulo é um dos nomes mais respeitados do mercado de animação e games, com mais de 23 anos de carreira. Atuou como Animador e Character Designer em produções nacionais e internacionais, como o filme “A Princesa e o Sapo” (Disney Feature Animation), os curtas “Eu Juro que Vi” (MultiRio) e o game “Chef Squad” (Eldorado Studios). Há 15 anos também ministra cursos sendo 13 deles na ICS, formando artistas que hoje vivem do que ele ensinou. Atualmente, trabalha como supervisor de animação em dois grandes estúdios e dedica parte de seus dias à carreira autoral como artista visual. 

Mas o caminho até aqui nunca foi linear. Nunca foi fácil. Nunca foi garantido. 

Paulo nasceu em 1983, cresceu entre mudanças, escolas diferentes e amigos que, por coincidência ou destino, também desenhavam. Uma sincronia que, hoje, ele entende como combustível. As referências vinham de todo lugar: animes, quadrinhos de super-heróis e revistas sobre games e animação. Assim a paixão dele por esse mundo foi crescendo. 

Aos 15, era impossível e injusto pedir que ele seguisse qualquer outro caminho. Começou a trabalhar cedo, entrou em uma escola de animação sem ter dinheiro para continuar pagando, foi nessa mesma instituição que conseguiu o primeiro emprego, porque o diretor da escola também tinha um estúdio de animação chamado HGN Produções e então surgiu a oportunidade de começar como estagiário, ele conta que ganhava “bem pouco”, mas seu talento falou primeiro, o diretor jogou no mercado, onde Paulo cresceu estúdio após estúdio, quadro após quadro. 

Paulo sempre teve vontade de trabalhar para fora do país, e durante os trabalhos no Brasil, conheceu um profissional de animação que trabalhou para produções da Disney. Ele conta que, no estúdio esse produtor, havia os livros dos filmes da Disney, como eram feitos, e tinha fitas de videocassete que mostravam os estúdios, o make-off dos filmes. Foi então que Paulo teve uma virada de chave e se programou para morar no Canadá. Seu objetivo era aprimorar seu inglês e se especializar ainda mais no seu trabalho. 

Ele sempre soube o que era capaz de fazer, o mundo ao redor é que demorou a perceber.  

No início, o desafio era ser levado a sério. Jovem demais, rápido de menos, eficiente de mais em um ambiente que testava seus limites diariamente. Aprendeu a se comunicar, a trabalhar em equipe, a entregar rápido, a lidar com pressões que quebram muitos no começo. Mais tarde, quando virou supervisor com pouco mais de 20 anos, sentiu a resistência de profissionais mais velhos que não o viam como autoridade. Era um menino em um cargo de adulto, mas ele persistiu. Foi ganhando confiança, velocidade, precisão. Foi deixando de ser promessa para se tornar referência. 

Paulo trabalhou na equipe brasileira que animou cenas de “A Princesa e o Sapo”, da Disney. Remotamente, mas com padrão internacional e supervisores exigentes. Foi selecionado para cenas complexas, revisou trabalhos de outros artistas, coordenou uma pequena equipe. Diz que foi um dos trabalhos mais cansativos da vida e um dos mais marcantes. Visitou o estúdio da Disney. Viu de perto aqueles que admirou por anos. Confirmou que conseguia ocupar esse espaço.  

Para ele, o mercado de animação no Brasil anda “em passos de formiga”. Falta investimento governamental, as políticas de incentivo oscilam e a maioria dos melhores artistas do país trabalha para fora como ele. Paulo não romantiza o setor, sabe que não é do governo que virá o reconhecimento, e sim da própria força de cada artista. 

Ainda assim, vê valor no que muitos produzem com poucos recursos, e acredita que artistas não podem depender do que nunca veio de forma consistente. 

Paulo não se vê como alguém que “transforma o mundo”, mas sabe que seu trabalho influencia principalmente crianças. Ao mesmo tempo, é crítico do conteúdo que chega ao público infantil, afirmando que a maioria dos desenhos e games consumidos hoje têm mais potência negativa do que positiva. Para ele, o filtro dos pais é essencial. E lembra algo importante: quem realmente molda a sociedade são as narrativas mais realistas, filmes, séries, histórias que tratam do humano. A animação, segundo ele, toca mais as crianças, mas não define culturas inteiras. 

O dia de Paulo começa cedo e termina tarde. Supervisiona equipes, revisa desenhos, faz correções, participa de reuniões com diretores internacionais e, à noite, dá aula até as 22h30. Quando sobra tempo e quase nunca sobra, ele relaxa desenhando para si, andando de patins ou tocando violão. Também mergulha em estudos de filosofia, religiões comparadas e mitologia. Esse é o espaço onde respira. 

O pai que viu o artista nascer 

Paulo Tadeu Ignez, pai, acompanhou tudo desde o primeiro traço. “Desde sempre. Começou com uns 8 anos, quando ele me via desenhando.” Ele não só viu, apoiou, pagou cursos, incentivou o que podia. Hoje, fala com orgulho: “Ele ensinou muita gente. Imagine quantas pessoas vivem de desenho porque aprenderam com ele. Na comunidade artística, ele é conhecido como mestre.” Mas também revela saudades: “Ele se tornou um pouco antissocial, sempre focado no trabalho dele, prioriza os estudos.” Nos próximos anos, Paulo, o filho, quer expandir o trabalho autoral, criar uma marca própria, produzir pinturas, ilustrações, fine art, talvez expor em galerias. Também quer manter o ensino vivo formando mais artistas, como quem devolve ao mundo aquilo que recebeu. Ele sabe que o Brasil talvez nunca dê o reconhecimento que sua área merece. Mas também sabe que o mundo reconhece e isso basta. Porque, no fim, Paulo continua sendo o menino que desenhava para mostrar às pessoas. Agora, a diferença é que o mundo inteiro olha de volta.

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A classe média ganhou tempo, mas as cozinhas estão menores e as pessoas não possuem tempo para cozinhar
por
Enzo Munhoz Cury, Henrique Sales Barros e João Victor Capricho Scalzaretto
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23/06/2021 - 12h

Por Enzo Munhoz Cury, Henrique Sales Barros e João Victor Capricho Scalzaretto

 

Parte da classe média entrou em home office ou em regime híbrido com a chegada da Covid-19 no Brasil e, mesmo assim, não possui tempo para cozinhar. As viagens estressantes de ônibus e metrô, assim como os trajetos cheios de trânsito para se dirigir e voltar do trabalho, deixaram de existir para muitos — mas de nada adiantou.

Sem tempo para preparar pratos capazes de dar energia para o corpo ao longo do dia, o delivery entrou em cena. Comparando os anos de 2019 com 2020, os gastos com comida por entrega nos três principais aplicativos do gênero no mercado brasileiro — Rappi, iFood e UberEats — cresceram quase 150%, segundo registros da startup de gestão financeira Mobills.

Dados coletados entre julho e agosto de 2020 pela Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) em pesquisa junto ao Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micros e Pequenas Empresas) vão na mesma linha. Antes da pandemia, 25% dos restaurantes, lanchonetes e correlatos usavam plataformas de delivery para fazer negócios. Depois da covid-19, o índice subiu para 72%.

“O número de pedidos no iFood já caminhava em crescimento gradativo, mas a pandemia trouxe um aumento bem significativo”, avalia Pedro Quilichini, analista pleno de insights e melhoria contínua do aplicativo. Para ele, o advento da crise sanitária fez com que as pessoas percebessem que fazer compras online “não é um bicho de sete cabeças”.

Mas para além da praticidade do delivery, há outra coisa que faz com que o modelo seja preferido quando comparado ao preparo alimentar nas cozinhas: as casas e, principalmente, os apartamentos, estão mais pequenos. Resultado: residências menores levam a copas menores — ou, como se convém chamar no mercado imobiliário: compactas.

Em 2019, 66% dos imóveis lançados na capital paulista possuíam menos de 45 m² — ou seja, eram compactos —, segundo dados do Secovi-SP, o sindicato do setor imobiliário de SP. O percentual estava muito acima da média histórica, de 25%, apontou Basílio Jafet, presidente da entidade, no balanço anual da associação, divulgado na época.

Delivery por aplicativos teve salto com a pandemia
Delivery por aplicativos teve salto com a pandemia. Imagem: Reprodução

Da comunhão para a compactação

Uma das primeiras tentativas de explicar a compactação das cozinhas modernas é o conceito de kitchenette (não confundir com os “apartamentos kitnet”, embora tenham raízes semelhantes). Cunhado nos Estados Unidos no início do século passado, ele buscava descrever o fenômeno das cozinhas diminutas que, muitas vezes, se conectavam com as salas e outros cômodos das residências.

No Brasil, em 2004, em dissertação para a obtenção do grau de mestre em Arquitetura e Urbanismo pela UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), Glauce de Albuquerque identificou apartamentos em Natal que dificultavam atividades de preparo alimentar e circulação por possuírem a cozinha e a área de serviço conjugadas.

O objeto do estudo foi o Plano 100, importado nos anos 1990 dos grandes centros urbanos do sul do país e tocado por uma construtora privada no RN. O projeto consistia em oferecer apartamentos menores em um condomínio verticalizado, com vários edifícios, e que cabiam no bolso de uma classe média empobrecida, já que era possível financiá-los em até 100 meses — daí, o nome.

Enquanto usavam o fogão da cozinha, os residentes do Plano 100 não podiam lavar roupa pois havia o risco de cair sabão nas panelas. Cozinhar enquanto a roupa secava no varal era ainda mais inviável, já que poderia impregnar as roupas com cheiro de gordura. “Nos condomínios, a insatisfação com relação ao fato da cozinha ser conjugada à área de serviço foi bastante elevada”, constatou.

Em artigo publicado em 2007, o professor da USP (Universidade de São Paulo) Marcelo Tramontano notou que os apartamentos em São Paulo estavam ficando cada vez menores, com as salas e as cozinhas fundindo-se. Resultado: desencorajamento da preparação de pratos elaborados e de longo cozimento, o que levava a uma alteração nos hábitos alimentares do paulistano médio.

Crises econômicas frequentes e um aumento populacional constante fizeram com que mais clientes entrassem no mercado imobiliário, só que mais empobrecidos que em tempos de outrora. Com isso, segundo o arquiteto, as imobiliárias passaram a oferecer apartamentos menores e mais baratos, que cabiam melhor no bolso — processo este que, em Natal, levou à criação do Plano 100.

“A cozinha foi ficando cada vez mais retangular e menor, limitando-se, via de regra, a uma parede equipada em um cômodo diminuto: um novo corredor, ligando o hall de entrada à área de serviço. Ganhou, no entanto, tomadas suplementares, em vista da invasão dos novos eletrodomésticos capitaneados pelo estímulo publicitário ao super-equipamento”, explicou.

A constatação de Tramontano vai ao encontro com o que pensa Vivian Sábio, 43 anos, que tem uma relação próxima com o preparo alimentar, trabalhando na cozinha de uma rede de confeitarias em São Paulo. Para ela, as copas antigas eram ambientes de reunião familiar, enquanto as de hoje parecem servir unicamente para nutrir o corpo no menor tempo de preparo e consumo possível.

“Estamos quase nos alimentando de cápsulas de vitaminas, de aminoácidos”, pontua, também citando a questão dos eletrodomésticos. Não é por menos: com toda a tecnologia que possuem, eles incentivaram a industrialização e o processamento de alimentos como, por exemplo, bolos (é só bater a massa pronta no liquidificador) e lasanhas (que tal no microondas?), que ficaram mais práticos para se preparar.

A cozinha de Vivian: compacta e superequipada
A cozinha de Vivian Sábio: compacta e superequipada. Imagem: Arquivo Pessoal

Inaptidão e necessidade

Mateus Dias Vilela, doutor em Comunicação Social pela PUCRS (Pontíficia Universidade Católica de São Paulo) explica que, antes da pandemia, a classe média vivia muito tempo fora de casa, atarefada com trabalhos e outros afazeres da vida moderna, e não tinha tempo para cozinhar. A consequência disso, acrescenta, foi a crescente inaptidão para o preparo alimentar neste estrato social.

A questão pode ser entendida retomando os dados da Abrasel junto ao Sebrae sobre a entrada dos restaurantes no modelo de delivery: agora, os clientes desses locais estavam em apartamentos com cozinhas compactas e sem aptidão para desenvolver pratos capazes de fornecer "sustância" ao corpo ao longo do dia. A 'solução delivery' veio ao socorro desse público.

“Os programas de televisão sobre culinária e alta gastronomia também têm contribuído para um uso da cozinha menos social e mais individualizado, com foco na satisfação pessoal e na criação”, diz ele, que, em 2015, ao lado de Tauana Mariana Weinberg Jeffman, escreveu o artigo “A cozinha pós-moderna do MasterChef Brasil: Social TV e mídia que se propaga no Twitter”.

No estudo "Implicações da pandemia da covid-19 nos hábitos alimentares", publicado este ano pela nutricionista Sabrina Alves Durães ao lado de outras três pesquisadoras, é destacado um aspecto ainda mais negativo sobre o aumento do consumo de delivery durante a crise sanitária: a facilidade que se ganhou para comprar produtos de baixa qualidade, como alimentos de restaurantes fast food.

O consumo de alimentos provenientes desses locais aliado ao baixo nível de atividade física da população devido às políticas de isolamento social, acrescenta, pode desencadear em uma série de doenças, como obesidade, doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão etc. — e todas estas citadas colocam o indivíduo em um ou mais grupo de risco de agravamento da covid-19.

Tendo em vista o potencial de desenvolvimento de uma série de comorbidades entre a população, a nutricionista adverte sobre a necessidade de uma alimentação mais saudável. “Faça dos alimentos in natura e minimamente processados a base da sua alimentação. Consuma diariamente frutas, legumes, verduras, grãos, carnes e ovos. Beba bastante água e utilize óleo, sal e açúcar com moderação”, pede.

Como dica, Durães recomenda a consulta do "Guia Alimentar para a População Brasileira", elaborado pelo Ministério da Saúde, e do “Guia para uma Alimentação Saudável em Tempos de Covid-19”, da Asbran (Associação Brasileira de Nutrição), que fornecem orientações e nortes para uma alimentação mais saudável e menos dependente de terceiros ou da indústria.

“O guia (da Asbran)  possui  dicas  de alimentação saudável na prática, com mudanças de hábitos, planejamento das refeições em casa, dicas para a  realização das compras sem desperdícios, higienização segura dos alimentos, armazenamento, preparo e conservação durante a pandemia de covid-19”, acrescenta.
 

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País retorna ao mapa da fome e 19 milhões de brasileiros são atingidos pela fome durante a pandemia da Covid-19, registra inquérito da Rede Penssan.
por
Lidiane Domiciano Miotta
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14/05/2021 - 12h

Junto com a pandemia de covid-19 o Brasil também está vivendo uma pandemia de fome, é isso que indica o inquérito nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, conduzido pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan). O estudo realizado em 2.180 domicílios nas cinco regiões do país, em áreas urbanas e rurais, entre 5 e 24 de dezembro de 2020, aponta que a insegurança alimentar grave afeta 19 milhões de brasileiros, ou seja 19 milhões de brasileiros estão passando fome, e que 43,4 milhões de brasileiros convivem com a insegurança alimentar, isso é, não contam com alimentos em quantidade suficiente para se alimentar adequadamente.

É perceptível que a combinação das crises econômica, política e sanitária provocou uma imensa redução da segurança alimentar em todo o Brasil, o inquérito mostra que voltamos aos patamares que não eram registrados desde 2004 e retornamos ao mapa da fome ao qual o Brasil avia sido excluído em 2013, quando a situação de fome da população havia caído para 4,2%, o nível mais baixo até então.

O Brasil tinha sido capaz de combater a fome até então com políticas públicas que combatiam à pobreza e à miséria. Mas o corte do auxílio emergência, de R$600 para R$ 300, que era concedido a 68 milhões de brasileiros pelo governo federal durante a pandemia de covid-19 contribuiu para chegarmos nesses números de fome. O inquérito mostra o aumento acentuado na proporção da insegurança alimentar leve em apenas dois anos, de 20,7% para 34,7%. Cerca de metade dos entrevistados pelo estudo relatam que houve, durante a pandemia, redução de renda familiar que consequentemente causou insegurança alimentar leve.

O inquérito também mostra que a pandemia acentuou desigualdades já existentes, os maiores afetados, segundo o estudo, são as regiões Nordeste e Norte, já que segundo os dados adquiridos os índices de insegurança alimentar estava acima dos 60% no Norte e dos 70% no Nordeste, enquanto o porcentual nacional é de 55,2%, e a fome foi registrada em 18,1% dos lares do Norte e em 13,8% do Nordeste.

A pandemia também acentuou desigualdades sociais, os dados mostram que a desigualdade de gênero e o racismo têm papel fundamental nessa realidade brasileira, já que o estudo aponta que 11,1% dos lares chefiados por mulheres os habitantes passam fome, contra 7,7% quando o chefe de família é um homem. Quando passamos para os dados de lares que pertencem a pessoas negras a fome estevava presente em 10,7%, mas entre lares de pessoas brancas o percentual foi de 7,5%.

O estudo da Rede Penssan aponta que a fome não está sozinha, ela anda junto com outras carências como a insegurança hídrica que também está presente nesses lares. Nas regiões Nordeste e Norte a porcentagem de insegurança hídrica chegou a 40,2% e 38,4%, o que é quase três vezes superior as porcentagens registradas nas demais regiões do Brasil. Esses dados são preocupantes quando lembramos que estamos vivendo uma pandemia de Covid-19 e a água é um fator fundamental para os cuidados de prevenção do vírus.

Apesar desse cenário assustador e da falta de políticas públicas governamentais, inúmeras organizações não governamentais estão realizando projetos para combater a fome que só vem crescendo no Brasil. Um dos projetos mais conhecidos e mais promovidos é a campanha “Tem Gente com Fome” promovida pela Coalizão Negra Por Direitos, em parceria com a Anistia Internacional, Oxfam Brasil, Redes da Maré, Ação Brasileira de Combate às Desigualdades, entre outras organizações da sociedade civil. O objetivo da campanha é realizar um financiamento coletivo para arrecadar fundos para ações emergenciais de enfrentamento à fome, à miséria e à violência na pandemia de Covid-19.

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Os funcionários do metrô e CPTM serão os próximos a entrarem na fila da vacinação, que terá início no dia 11 de maio, já aqueles que trabalham nos ônibus continuam sem previsão para tomar a vacina, embora a notícia seja boa para alguns, não é para outros
por
Julio Cesar Ferreira e Helena Monteleone Sereza
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06/05/2021 - 12h

Os funcionários da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Os metrôs, ônibus e trens não pararam desde o início da pandemia, o que expõe a necessidade da categoria de motoristas, condutores, cobradores e outros funcionários do transporte público se vacinarem com prioridade. Embora os motoristas de ônibus ainda não tenham entrado na fila, os funcionários do metrô e CPTM, conseguiram. 

Serão vacinadas 9.500 pessoas, incluindo todos os operadores de trens, independentemente da idade, e demais funcionários da operação, que lidam diretamente com o público, acima dos 47 anos. Entram ainda, os trabalhadores da operação das linhas 4-amarela e 5-lilás, que são privatizadas.

Em vídeo, Alexandre Baldy, secretário dos Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo, divulga que “estaremos vacinando trabalhadores das operações, aqueles que estão nas estações como operador, aqueles que estão como segurança e aqueles que estão para a limpeza, a higienização de todas as superfícies das pessoas que tocam a todo momento. Exclusivamente os que estão em contato com milhões de pessoas a cada dia estão sendo vacinados pelo Governo de São Paulo”.

A AGEMT conversou com o Altino Prazeres Jr, coordenador do Sindicato dos Metroviários de São Paulo e militante do PSTU. Perguntamos qual a visão dele sobre a vacinação para a categoria. Para ele, “O setor de transporte deveria ter sido incluído logo depois dos idosos e setores de saúde já que são grandes transmissores''. Ele acrescenta criticando a situação atual. 

“Se o governo bolsonaro tivesse comprado as vacinas antes, e não fizesse campanha contra elas no seu início. E também, os próprios laboratórios, se não tivessem fazendo leilão da vacina, mas quebrassem a patente, a vacinação ocorreria de forma mais abrangente em todo o mundo."

Em sua opinião, “a velocidade da imunização está muito atrasada, descaso de todas as esferas governamentais”. Altino ressalta ainda que, “A ganância das grandes empresas e milionários está impedindo a sociedade de colocar um fim na pandemia. A falta de esforço está sendo o maior obstáculo para a imunização mais rápida e trazer ajuda para o maior número de pessoas possíveis”, conclui.  

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Altino Prazeres, coordenador do Sindicato dos Metroviários e militante do PSTU. (Foto/Acervo Pessoal)

 

O Metrô já soma 22 mortes entre seus funcionários, além de cerca de 1.500 contaminados, segundo contagem do sindicato dos Metroviários, que convocou uma “greve sanitária”.

Prazeres traz também que, “Por mais que todos os trabalhadores sejam imunizados, ainda há o risco de serem infectados por diferentes mutações do vírus". O coordenador relata que tem ansiedade, pois  gostaria que "ele e os colegas fossem vacinados mais rápidos”. 

O relatório da Administração do Metrô divulgado, mostra que embora a pandemia tenha tirado passageiros nos primeiros meses da chegada do vírus ao Brasil, foram feitas quase 3 bilhões de viagens nos transportes públicos que passam pela capital, entre metrô (764 milhões), CPTM (505 milhões) e ônibus municipais (1,6 bilhão).

Prazeres ainda expõe, que a notícia deixou o sindicato contente, porém, frustrados por garantir a vacina apenas para os funcionários com idade a partir de 47 anos e o Governo do Estado de São Paulo não deu explicações ou informações para o sindicato, os trabalhadores e para os funcionários da área de segurança. “Há um desejo, mas ainda uma insatisfação, pois grande parte da categoria não vai ser vacinada no momento”. 

Na pandemia, o metrô do Estado teve um prejuízo de cerca de R$1,7 bilhões devido à queda do número de passageiros, acarretando diminuições de vagões e trens em circulação pela capital. As linhas 1 – azul e 3 – vermelha sofreram uma retirada de 17% comparado com anos anteriores, enquanto a linha 2 – verde foi a mais atingida, com menos 29% de viagens diárias. 

 

A profissão que surgiu como inovação, hoje é meio de sustento para milhares de brasileiros que recorreram aos aplicativos para terem uma renda mínima – ou menos.
por
Guilherme Campos
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06/05/2021 - 12h

   Fundada oficialmente em junho de 2010 na cidade de São Francisco, Estados Unidos, a Uber Technologies Inc. criou um novo nicho profissional, que inicialmente tinham a proposta de serem uma empresa de carros luxuosos, porém rapidamente notaram que compensaria absurdamente mais caso tornassem o negócio acessível à população como um todo – e sem dúvidas fizeram isso de forma esplêndida. Hoje distribuída pelo mundo todo, a empresa chegou ao Brasil em 2014 revolucionando completamente tudo o que conhecíamos que tangenciasse o quesito movimentar-se por meio de transporte particular.

   Com preços mais baixos para os consumidores e com ganhos mais altos para quem dirigia, rapidamente caiu no gosto e no inventário popular como uma alternativa prática para passeios com a família, retornos de festas, ou mesmo o deslocamento para o trabalho diariamente, isso justificado por motivos como o preço do combustível, pelo fato de ter uma flexibilidade muito maior com relação aos horários do que os táxis, que antes possuíam todos os mecanismos até então criados, e quanto pela praticidade do carro vir até o passageiro, e não vice-versa. Apesar dos benefícios que eram exaltados mídia e mundo afora, a crise brasileira em 2015 começou a acentuar um processo que desencadeou na realidade que muitos motoristas vivem hoje em dia. Por ser um serviço de certa forma considerado simples e de fácil ingresso, muitas pessoas que perderam seus empregos na época recorreram ao aplicativo como uma saída rápida e eficaz para continuarem arcando com os custos mínimo de uma vida digna. Esse movimento de transição para os aplicativos foi crescendo cada vez mais entre os brasileiros que precisassem de um serviço, independente do motivo, e não foi diferente na crise advinda do Covid-19, onde milhares de brasileiros que perderam suas ocupações precisavam de alguma forma de sustento, elevando essa curva do contingente de motoristas ao limiar, o que trouxe à tona problemas que muitos enfrentam há anos completamente em silêncio.

   Através de uma nota técnica publicada pelo Observatório Social da Covid-19 da UFMG, que analisou dados providos pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Covid-19 (Pnad-Covid) e de outras pesquisas realizadas em anos anteriores, em busca de padrões e/ou mudanças possíveis, realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é possível analisar o impacto dos aplicativos nos números de pessoas que já trabalhavam como motoristas e como essa taxa aumentou com o passar dos anos. A pesquisa nacional de 2011 afirma terem 614 mil condutores independentes para transporte particular no Brasil, número que se manteve estável até meados de 2015, época em que já eram registrados cerca de 643 mil motoristas na mesma condição. Após a chegada dos aplicativos e com o sucessivo boom da categoria, os números das pesquisas de 2019 e 2020 comprovam a existência de mais de 1,1 milhão de trabalhadores na área, ou seja, um aumento de mais de 500 mil novos membros. 

Foto: Guilherme Campos Legenda: Motorista João Carvalho dirigindo
Motorista João Carvalho dirigindo durante a noite.
Foto: Guilherme Campos

   João Carvalho Antunes de Souza , motorista que deu depoimento à AGEMT, relata que iniciou seus serviços através do aplicativo após maio de 2020, mas não por prazer ou vontade própria. “Eu trabalhei em empresas grandes antes de “virar Uber”, mas cê sabe que tem coisa que a gente não escolhe, a gente precisa fazer para viver”. “A gente tá precisando trabalhar umas 10 a 12 horas por dia se quiser tirar um dinheiro no final do mês, e ainda mais agora que tem muita gente precisando de dinheiro, cada vez vem menos.”

   Através das PNAD’s realizadas anualmente, é possível perceber a diferença bruta na carga horária semanal de outras profissões para aqueles que trabalham como motoristas. Bruno, outro motorista que aceitou depor, porém com seu nome e imagem velada, também aponta algumas questões cruciais dos riscos que corre todos os dias: “Antes eu fazia entre 2 mil até 2.500 por mês, agora eu preciso trabalhar o dobro para ganhar metade praticamente”. “Às vezes você tem que saber até onde pode ir, se vale à pena fazer tal corrida, porque se algo acontecer não vai ter ninguém preocupado em te socorrer, saca?”. Tendo em comparação o número de horas trabalhadas com a renda mensal final, o mínimo esperado era que atingisse ao menos o salário mínimo decretado pela legislação, porém a falta de vínculo com a empresa coloca em xeque as vidas desta classe, pois a necessidade de bater um valor mínimo para sobreviver faz com que pessoas como João, Bruno e outras milhares façam jornadas desgastantes todos os dias, sem a mínima segurança prevista pelos aplicativos que fornecem os pedidos, sem direitos trabalhistas ou sequer a certeza de que vão voltar para casa. 

Tabela: microdados PNAD Contínua / IBGE
Fonte: Microdados PNAD Contínua/ IBGE

   No início de 2019, em Londres, a suprema corte britânica decretou que motoristas da Uber teriam direitos como salário mínimo, descansos e intervalos entre corridas remuneradas, entre outros direitos trabalhistas. A empresa norte americana entretanto sempre alegou que se tratava somente de uma intermediária entre motoristas e passageiros, porém a decisão judicial foi contrária, entendendo que os motoristas estão em posição subordinada à Uber, sendo que a própria define o valor das corridas feitas, qual a tarifa cobrada mediante ao valor total, os termos previamente decretados pela Uber, penalizações e até possível suspensão do contrato dos motoristas caso hajam reclamações por parte dos passageiros, tudo isso sem que o motorista possua um mecanismo de diálogo para uma possível alteração ou algo que o valha. Tal decisão pode acabar reverberando e gerando outros movimentos ao redor do mundo, bem como aqui no Brasil, pois sem dúvidas as condições pré-impostas àqueles e àquelas que buscam nos aplicativos uma renda, seja ela extra ou única, são um tanto quanto irresponsáveis e preocupantes, ainda mais no período de pandemia, onde em um único dia estas pessoas que controlam os veículos se expõe agudamente ao vírus da Covid-19, mesmo com máscaras e outras proteções, pois o fluxo de pessoas é contínuo, circulam a cidade toda, e tristemente caso algo ocorra com qualquer um destes motoristas, ninguém se responsabilizará. A sobrevivência de muitos brasileiros depende exclusivamente desse dinheiro e não há opção de escolha para a grande maioria. O que nos resta é lutar pelos direitos que todos deveriam ter, pois não há dinheiro no mundo que valha mais que a vida de um ser humano.

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Sob os olhares do MBL, a possível candidatura de Gentili em 2022 é apoiada pela direita liberal, que repudia tanto Lula quanto Bolsonaro — embora uma parcela tenha apoiado o último em 2018
por
Henrique Sales Barros
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23/06/2021 - 12h

Por Henrique Sales Barros

 

“Estou depositando minha última gota de esperança em um País melhor no Danilo”. A afirmação é de um dos apoiadores políticos de Danilo Gentili, humorista e apresentador do talk show "The Noite", do SBT, exibido nas noites de segunda a sexta-feira, em um grupo de WhatsApp.

Há um movimento de liberais de direita que pede a candidatura do ex-repórter do CQC (Custe o Que Custar, antigo programa humorístico televisivo) para o posto de presidente do Brasil nas eleições de 2022 — e, ao que tudo indica, não há nenhuma piada aqui.

A possibilidade da candidatura começou a se concretizar no início de abril, quando a coluna da Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, noticiou que o MBL (Movimento Brasil Livre) testou o nome de Gentili em uma pesquisa sobre o cenário eleitoral de 2022 e o humorista obteve 4% das intenções de voto, empatando com Luciano Huck, Luiz Henrique Mandetta (DEM) e Ciro Gomes (PDT).

A ideia de incluir o nome de Gentili na pesquisa se deu, segundo o coordenador nacional do MBL, Renan Santos, depois de uma sondagem nas redes sociais identificar clamores pela candidatura do humorista. “É uma coisa que está surgindo de baixo para cima, como aconteceu com o [Jair] Bolsonaro em 2018”, disse à coluna.

Inclusive, muitos dos que hoje apoiam a candidatura do humorista votaram no capitão reformado do Exército em 2018. “Porr*, eu saia igual louco com camisa do Bozo na rua”, disse um apoiador no grupo, usando o nomenclatura do famoso palhaço da década de 1980 para se referir à Bolsonaro. 

O próprio Gentili também surfou na onda bolsonarista em 2018. Logo após a vitória de Bolsonaro, o humorista postou uma foto fazendo um “velório do PT” ao lado do cantor Lobão. Na imagem: um pixuleco do ex-presidente Luiz Inácio da Silva (PT) como presidiário e fatias de mortadela, produto que dá nome ao termo depreciativo criado pela direita aos militantes e simpatizantes do partido.

Com o caminhar do governo, o discurso anticorrupção e pró-reformas liberais de Bolsonaro foi minguando, e os entusiastas de Gentili começaram a abandonar o barco do presidente. “Na hora que ele entrou no governo e tirou o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) eu já vi que [ele] tava de sacanagem”, lembrou um membro do grupo.

Órgão responsável por identificar possíveis esquemas de lavagem de dinheiro, foi o Coaf que, em dezembro de 2018, produziu o relatório, enviado ao Ministério Público, com indícios de que o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente, estaria envolvido em um esquema de rachadinhas na Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro)

Antes de Bolsonaro subir ao poder, o Coaf era ligado ao antigo Ministério da Fazenda. Com a chegada do ex-juiz Sergio Moro ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, o órgão foi levado à pasta — mas devolvido, sem protestos de Bolsonaro, ao comando da Economia pelo Congresso. Atualmente, o órgão está subordinado ao Banco Central.

“Eu comecei a ficar put* quando o Moro caiu!”, afirmou outro apoiador, se referindo à saída do ex-juiz da Lava Jato do governo, em abril de 2020, quando pediu demissão e saiu acusando Jair Bolsonaro de querer interferir criminosamente nos trabalhos da PF (Polícia Federal).

A menção ao nome de Moro, por sinal, é comum entre os apoiadores. Para alguns, um cenário ideal seria com Gentili subindo a rampa do Palácio do Planalto e o ex-juiz da Lava Jato reassumindo o Ministério da Justiça — ou até mesmo sendo indicado para ser ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), a corte que tanto lhe tem imposto derrotas jurídicas nos últimos meses.

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Ferradura

Em uma arte, um apoiador político do humorista compartilhou um meme em que um carro, ao invés de “seguir reto” em direção à Bolsonaro e ao ex-presidente Lula, resolve fazer uma curva brusca à direita, onde a seta aponta os nomes de Gentili, Moro, Mandetta e do ex-presidente do Novo, João Amoêdo.

Em dado momento, um integrante do grupo, ainda receoso, pergunta se o humorista já fez algo em prol da população. Um outro responde que, só pelo fato do apresentador se colocar contrário ao bolsonarismo e ao petismo, já basta. A ideia é simples: nem Lula, nem Bolsonaro. Além do mais, Gentili não seria uma terceira via: seria a única opção.

O discurso dos apoiadores é paralelo ao do apoiado. Com a popularidade alavancada por discursos contrários ao PT, à esquerda e à política tradicional, Gentili, que chegou a receber Bolsonaro no “The Noite” em duas ocasiões, em março de 2017 e em maio de 2019, agora, se mostra crítico ao presidente.

Em julho do ano passado, quando Bolsonaro foi diagnosticado com covid-19, Gentili disse que esta havia sido a “primeira coisa positiva que o atual presidente apresentou” no governo. O comentário, que gerou repúdio entre os apoiadores do capitão reformado, fez com que o humorista rompesse de vez com o bolsonarismo.

“Tomei processo por defendê-lo (Bolsonaro) e esse 'fdp' foi lá pedir minha cabeça e censura no meu emprego quando critiquei o fundão eleitoral”, disse, na época, Gentili em um comentário nas redes sociais. Em live, porém, o presidente negou que tenha cobrado a demissão do humorista no SBT.

Antes das urnas decretarem a vitória de Bolsonaro em 2018, em entrevista à rádio Jovem Pan, Gentili prometia “continuar zoando” tanto o hoje ocupante do Palácio do Planalto como Fernando Haddad (PT), adversário do capitão reformado no segundo turno do pleito — mas, para o humorista, entre um deputado defensor do legado mortífero da ditadura militar e um professor universitário, quem simbolizava ataques à liberdade de expressão era o segundo.

“Se o Haddad ganhar, vou continuar zoando o Haddad, apesar de achar que vai ser um pouquinho mais complicado”, disse em entrevista ao programa “Pânico”. “O plano de governo dos caras é mudar a Constituição. A opção mais anti-democrática hoje é o Haddad, sem dúvida nenhuma”, afirmou.

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Estatística

Há algo que anima os apoiadores de Gentili no grupo de WhatsApp: pesquisas. Não as que são feitas com rigor estatístico por institutos, e sim aquelas que são realizadas por arrobas verificadas no Twitter, especialmente aquelas ligadas ao pensamento liberal e conversador brasileiro. Melhor: não são pesquisas, e sim enquetes.

Em um print screen (captura da tela) de uma enquete feita pelo economista Joel Pinheiro, colunista da Folha de S.Paulo e da revista Exame e comentarista do “Morning Show”, programa da Jovem Pan, Gentili aparecia com 50% das intenções de votos, enquanto Bolsonaro e Lula apareciam, respectivamente, com 29% e com 21%.

Há até um perfil no Twitter com cerca de 9 mil seguidores, o “Enquetes 2022”, que se dedica exclusivamente a realizar enquetes sem embasamento estatístico com aparência de pesquisas eleitorais com rigor científico — e, em uma votação realizada pela arroba, Gentili aparecia com 61% das intenções de voto para 2022, Bolsonaro com 25% e nulos e brancos somavam 14%.

Mas uma enquete negativa ao humorista chegou — esta, feita pelo deputado estadual Alexandre Freitas (Novo/RJ): Gentili aparecia com 31,8% das intenções, enquanto Bolsonaro estava em primeiro, com 35,4%. Quem enviou a captura de tela pediu que o grupo fosse em massa ao Twitter para reverter o resultado. “Boraaa (sic).”

O bombardeio de pesquisas no grupo acabou levando os integrantes a discutirem um cenário para 2022 sem a candidatura de Gentili. Para um apoiador, entre Bolsonaro e João Doria (PSDB), a opção deve ser pelo governador de São Paulo, sem sombra de dúvidas.

“Eu votava no Bolsonaro (risos)”, disse um segundo mais timidamente. Um terceiro entra na conversa: “Eu anulava” — e depois complementa, respondendo ao comentário do apoiador que prefere votar no capitão reformado do Exército ao empresário tucano, dizendo que “está mais fácil” de se fazer o mesmo.

Um quarto entra na conversa para pôr fim à discussão eleitoral. “Esqueçam isso. Esqueçam Doria. Vejam o nome do grupo. Isso nunca vai acontecer". E escalou um gabinete parcial: "Danilo Gentili presidente, Amoêdo ministro da Economia, Sergio Moro ministro da Justiça e depois STF. Vamos focar nisso!”.

“Se o bosta do Mito (como Bolsonaro é denominado por apoiadores) tivesse cumprido as suas promessas de campanha, a gente não ia precisar estar nesta situação”, apontou outro.

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Faltou combinar

Às 18h do dia 12 de abril, uma segunda-feira, apoiadores de Gentili planejavam realizar um tuítaço com a hashtag “Gentili2022”. Durante aquele dia, os apoiadores reunidos no grupo discutiram quem poderia ser o vice de Gentili na chapa para 2022.

Para alguns, o nome certo é do youtuber conservador liberal Nando Moura. Para outros, não é para tanto. Em 2018, o músico apoiou Bolsonaro e era discípulo do autoproclamado filósofo Olavo de Carvalho. Hoje, é mais um crítico pela direita do governo federal.

“Não gosto do Nando por ser extremamente mente fechada e conservador, mas eu acho que seria um ótimo vice”, ponderou um apoiador. “Nando precisa ser um conselheiro. Não precisa ser vice, tem que trazer alguém que tem mais voto. Na minha opinião, o Moro”, argumentou um segundo.

“O vice tem que ser um [Michel] Temer (MDB) não corrupto, para que a candidatura dele seja viável”, argumentou outro mais tarde, dizendo que o nome de Mandetta “seria top”, mas ponderando que o ex-ministro da Saúde de Bolsonaro “é corporativista, não é flor que se cheire”. Outra alternativa: Eduardo Leite (PSDB), governador do Rio Grande do Sul.

Quando o relógio bateu às 18h, começou o tuitaço. Prevendo que uma hashtag pedindo a candidatura de um humorista gestado pelo finado CQC poderia não ser levada tão a sério, um apoiador de Gentili enviou uma imagem grafitada do apresentador do “The Noite” com um charuto e mostrando o dedo do meio junto com a frase “cancela isso”. “Usem contra os militantes”, pediu.

Com o relógio quase batendo 19h, um integrante do grupo compartilhou uma captura de tela com a hashtag sendo marcada como um dos assuntos do momento no Brasil, com 1.295 tuítes. “Não para, gente”, cobrou. No fim da noite, porém, a avaliação que ficou é de que a estratégia não bombou.

Para a maioria, a hashtag apareceu rapidamente entre os assuntos do momento no Brasil, mas não nos trending topics nacionais, que é o que valeria ao final da empreitada. “Não foi extraordinário, mas também não foi uma merda", analisou um apoiador, que enxergou falta de engajamento do próprio apoiado. “A merda do Danilo não divulgou também”, reclamou.

Um segundo apoiador enviou uma captura da própria tela com os trending topics do momento no Twitter. Em destaque: “tiago” (Tiago Leifert, apresentador do “Big Brother Brasil”, da TV Globo), “jogodadiscordia” (dinâmica do reality show da emissora carioca) e “imperio” (novela do mesmo canal, que está sendo reprisada no horário nobre). “Só tem merda nos assuntos”, exclamou.

Mas não há tempo para desânimo. Para um um integrante do grupo, a receita para o sucesso de Gentili em 2022 se baseia no apoio de três nomes da direita brasileira ao humorista: Moro, Mandetta e Amôedo. Assim, o apresentador do “The Noite” poderia ser eleito ainda em primeiro turno. “Até porque, se a CPI da Covid se concretizar, o Bolsonaro já era”, analisou.

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Bastidores

Poucos dias depois da pesquisa do MBL vir à tona, o movimento planejou se reunir com Gentili para discutir a sério a possibilidade do humorista do SBT se candidatar ao posto de presidente da República em 2022, segundo a coluna Painel, da Folha de S.Paulo. O fato do apresentador ter apresentado o dobro de intenções de voto — ou seja, 8% — entre os jovens animou o grupo.

E se os apoiadores de Gentili anseiam por um apoio de Moro, ao menos um aceno já foi dado. Em coluna no site da revista Crosué, o ex-juiz da Lava Jato, após acompanhar a participação do humorista no programa de entrevistas “Manhattan Connection”, da TV Cultura, disse que votaria no cortejado pelo MBL em 2022.

Cerca de dez dias depois, a coluna da Bela Megale, do jornal O Globo, reportou que Gentili se encontrou por videoconferência com João Amoedo. Em pauta, é claro, estavam as eleições para 2022. “Foi uma conversa para entendermos como um poderia ajudar o outro a fazer algo pelo país”, disse o ex-presidente do Novo à coluna.

A possível candidatura do humorista acabou virando piada e meme nas redes sociais mas, para Amoêdo, o papo é sério. “Acho positiva a disposição do Danilo. O que não deveríamos aceitar é um presidente, pago por nós para administrar o país e na situação em que estamos, querer ser comediante”, disse o ex-candidato ao Planalto em um tuíte.

Ainda em abril, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Gentili disse que não há piada alguma em uma possível candidatura. “Os políticos me levam muito a sério, a ponto de eu colecionar pedidos de prisão e de censura vindos deles. Então, acho que eles é que temem que a minha candidatura seja levada a sério e não o contrário", disse.

Em pesquisa Exame/Ideia divulgada em 23 de abril, Gentili apareceu com 2% das intenções de voto em todos os cenários possíveis. Sem nenhum candidato indicando vitória ainda em primeiro turno, o humorista ficou a, no mínimo, 28% de distância dos dois candidatos com indicativo de ir ao segundo turno — que, no caso, eram Lula e Bolsonaro. 

Sobre a avaliação dos candidatos, Gentili apareceu empatado com Amoêdo em 36% no quesito "negativa, não votaria de jeito nenhum". São os dois piores candidatos no quesito, que não inclui Bolsonaro — que apareceu com o governo avaliado em 52% em “ruim” ou “péssimo”.

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