Segundo a ONU em 60% dos casos os crimes são cometidos por parceiros ou membros da família
por
Leticia Alcântara
Sophia Razel
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02/12/2024 - 12h
Escadaria com cruz e flores representando luto
Escadaria marcada por cruzes e girassóis simboliza luto pela morte de mulheres Imagem: Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil

Na segunda-feira, 25 de novembro, Dia Internacional Pela Eliminação Da Violência contra as Mulheres,  a Organização das Nações Unidas (ONU)   divulgou os dados de mapeamento de assassinatos de meninas e mulheres ao redor do mundo em 2023. Ao todo, 85 mil mulheres foram assassinadas  no ano passado, o equivalente a 140 vítimas por dia e uma a cada dez minutos, dessas, 64% foram assassinadas em ambiente doméstico por seus próprios parceiros.

 

Gráfico mostra proporção de vitimas mulheres vs homens
O gráfico “Proporção de vítimas de homicídio masculino e feminino mortas por parceiros íntimos ou outros familiares (2023)” compara a porcentagem de homicídios cometidos por parceiros íntimos ou familiares, diferenciando entre homens e mulheres. Ele mostra que apenas  11,8% dos homens assassinados foram mortos por parceiros íntimos ou familiares, enquanto a porcentagem de mulheres é de 60,2%.Fonte: UNODC Homicide Dataset (2023).

 

Segundo o relatório, o continente africano registrou a maior incidência de casos de feminicídio, seguido pelas Américas e pela Oceânia. O feminicídio é o assassinato de mulheres motivado por razões de gênero, ou seja, quando a violência ocorre pelo simples fato de a vítima ser mulher.

 

Feminicidios por região
O gráfico “Taxa estimada de feminicídios por parceiros íntimos ou familiares por 100.000 mulheres, por região (2023)” revela as taxas regionais de feminicídios por parceiros íntimos ou familiares em 2023, destacando a África com a maior taxa, seguida pelas Américas e Oceania, enquanto Europa e Ásia têm os índices mais baixos. Fonte: Estimativas da UNODC com base no UNODC Homicide Dataset (2023).

 

Brasil registra recorde de feminicídios 

O cenário brasileiro é igualmente preocupante. De acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, durante o ano passado, o país bateu recorde de casos de feminicídio, ocorrendo um caso a cada 6 horas, totalizando 1.463 registros. O Conselho Nacional de Justiça brasileiro iniciou, no dia 20 de novembro, os 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher, campanha que visa debater as questões de violência de gênero no país.

Na ocasião da divulgação do relatório, foi destacado que os números não refletem fielmente o cenário e que a pandemia de COVID-19 reduziu pela metade a quantidade de países que coletam ou divulgam informações sobre mulheres vítimas de violência por parceiros.

Ainda segundo a ONU, os números coletados são alarmantes, evidenciam a gravidade da violência de gênero e a necessidade de ações para enfrentamento do problema, que é global.

Confira o relatório completo AQUI.

 

 

O então piloto de F1 disse a ela que em seu país não se tinha mulheres nessa função e a presenteou com seu próprio boné
por
Vinícus Evangelista
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20/11/2024 - 12h

O GP de Interlagos de 2005 teve em sua equipe de bombeiros civis Patrícia Alves Cardoso, uma das primeiras mulheres nesse ofício no estado de São Paulo. O fato chamou a atenção do alemão Michael Schumacher que fez questão de conversar com a brasileira e, admirado, afirmou que a função de bombeiro em seu país, à época, não era exercida por pessoas do gênero feminino. Ele ainda a presenteou com seu boné oficial, que tem nele chip contendo as informações de Schumacher naquela corrida. “Me ofereceram muitos dólares e eu não aceitei, fora de cogitação. Tenho até hoje, ele (o boné) tem um apego sentimental muito grande”, afirma Patrícia.

 

Foto 1
Patrícia e Cristina, as duas únicas mulheres que trabalharam na equipe de bombeiros do GP, são citadas no “jornal da tarde”, em 22 de setembro de 2005. Foto: arquivo pessoal 

Após alguns anos, foi a vez de Martinho da Vila conhece-la e se ver admirado pela postura da bombeira, que solicitou ao cantor que apagasse seu cigarro devido ao risco de incêndio. Martinho teria dito que em 64 anos de carreira, ninguém nunca tinha feito ele apagar um cigarro e que só fez porque Patrícia tinha “um jeitinho muito maneiro de pedir”.  

“Bati na porta e disse ‘oi, tudo bem com o senhor?’ e ele com um cigarrão na mão, ‘está vendo esse negócio aí em cima? Se chama detector de fumaça, o senhor não pode fumar aqui. Se quiser um outro lugar em que o público não veja o senhor fumar eu arrumo sem problema algum’”, ela conta. “Ele não me respondeu nada, só virou as costas, foi até o banheiro, apagou o cigarro, mostrou o cigarro apagado e jogou fora”, relembra. 

Apesar do reconhecimento de celebridades, Patrícia enfatiza as dificuldades que teve, principalmente no começo de carreira, em que pouco existiam mulheres no ramo. “Comecei há 23 anos, não tinha bombeiro civil feminino em São Paulo, logo quando eu entrei, nos meses seguintes começaram a chegar mulheres que não aguentaram o peso da profissão”, explica. “Hoje é um pouco mais fácil, mas antigamente tinha muita discriminação de você chegar no local de ocorrência e a pessoa falava: ‘você pode chamar seu superior?’, sempre viam você como um sexo frágil”, afirma. 

Ela revela que seu sonho de consumo não era ser bombeira, mas sim, parteira, “não obstetra – parteira!”, como faz questão de enfatizar. O desejo não teria tido nenhuma motivação específica, sendo essa uma paixão do qual se identificava desde pequena, e que a vida a fez realizar de outra forma, sendo ela a responsável pelo parto de sua irmã. “Eu fui até o hospital, já era bombeira, mas não tinha feito parto.

Foram 36 horas, e na hora que o bebê foi nascer ela travou as pernas. Tinha duas enfermeiras bem menores do que eu”, conta. “Não conseguiam destravar as pernas dela e a cabeça dele (do filho) estava sendo espremida. Eu consegui debruçá-la para que o processo de parto fosse feito. A médica falou que foi ali que eu salvei mais uma vida, que foi a do meu sobrinho”, explica. 

Mesmo que o sonho de realizar partos tenha se transformado na realidade de apagar incêndios, é possível dizer que o codinome salva-vidas sempre esteve no DNA de Patrícia que, com apenas 16 anos de idade, socorreu por três vezes um garoto de apenas quatro anos, que morava na casa ao lado. A primeira vez foi quando seu vizinho caiu no topo do telhado da casa em que ela morava. A adolescente prestou os cuidados, porém, ao retirar o menino do telhando, ele teve uma convulsão seguida de parada cardiorrespiratória. “Posso dizer que foi Deus que me ensinou a como fazer massagem cardíaca”, comenta. 

“Alguns meses depois esse moleque estava sentado no meio da rua e um caminhão sem freio desceu a rua da minha casa. Não pensei nas consequências, simplesmente atravessei e joguei ele para o outro lado”, relata Patrícia, sobre o segundo salvamento à mesma criança. No terceiro episódio, ela conta que o mesmo menino estava convulsionando em casa, até que a mãe dele, já sabendo do histórico de salvamentos por parte da vizinha, bateu a sua porta desesperada e conseguiu novamente com que a futura bombeira salvasse seu filho.  

Patrícia diz que a principal inspiração para seguir no ofício que exerce partiu de seu falecido marido, que era bombeiro. Segundo ela, a morte do esposo a motivou em fazer o curso da profissão. Essa, porém, não foi a primeira relação afetiva dela. A bombeira conta que passou por uma relação abusiva em seu primeiro casamento, em que teve um filho, passando por agressões e ofensas pelo fato de ser mulher.  

“Casei com uma pessoa de um jeito e ao longo dos meses ele foi se tornando quem ele é, um cara machista ao último, de bater na minha cara na frente dos outros, de gritar comigo como eu não tinha direito a voz”, revela. Ela conta que durante essa relação ela era proibida de trabalhar ou ter amizades, e fugiu de casa com o filho após seguidos episódios. “Ali foi meu grito de guerra, quando eu decidi que eu não queria mais aquilo. Eu preferia morar num barraco de madeira que não tinha piso do que estar ali”, afirma. 

A maior dificuldade da carreira para uma mulher na função de bombeiro, segundo ela, foi lidar com o ambiente masculino em sua volta, passando por dificuldades estruturais que transmitem a mensagem de “você tem que se virar, a mulher que se vire”, como ela diz, ao explicar que já trabalhou em lugares sem local para se trocar ou um banheiro próprio para mulheres. 

“Você está no alojamento e os bombeiros olham para você perguntando ‘vai se trocar onde? Não tem lugar para você’, parece ser simples, mas não é, isso magoa, ver todos guardando suas roupas e você não ter esse direito mínimo”. Patrícia ainda afirma ter sido assediada moralmente e perseguida durante sete anos em um local em que trabalhou, tendo entrado com fama de “amante do gerente” por parte de outros funcionários que colocavam sua capacidade em xeque diante do fato de ser uma mulher exercendo aquela profissão.

“Acontecia de eu estar na minha sala fazendo o serviço e vir um segurança bem devagarzinho para ver se eu estava com um homem lá dentro”, relata. Segundo seu depoimento, acontecia de pessoas colocarem falsas evidências em seu carro para apontarem ela como amante de outro homem que teria lhe cedido o emprego. Nesse mesmo serviço, ela relembra de alguns outros episódios em que duvidaram de sua capacidade profissional em detrimento de gênero. Em um desses, ela teria alertado o chefe de manutenção do estabelecimento sobre uma árvore que estava prestes a cair, dizendo que era melhor arrancá-la antes que caísse e machucasse alguém.

“Eu escutei a seguinte frase: ‘Patrícia, eu vou pedir para um homem ir lá e ver o serviço, se ele falar que vai cair, daí a gente arranca’, não deu tempo de eu chegar na minha sala e a árvore caiu, graças a Deus não pegou ninguém”, comenta. “Ele podia dizer que ia pedir a um outro funcionário, que era um jeito dele não me ofender, mas enfatizava a palavra homem”, reitera. “Hoje eu não tolero muita coisa que eu tolerava, se uma pessoa falar para mim que vai pedir a opinião de um homem eu levo para a delegacia”, afirma. 

Por fim, ela comenta sobre o movimento feminista no país, elucidando que "tem que ser mais objetivo e sem se perder”, relatando que viu vários movimentos feministas perdendo o foco de sua pauta principal. “Se você se propôs por uma causa, vá até o fim, não importa quantos nãos vão te falar, mas vá em frente! O feminismo não é só para mulher”, opina. 

Em 2023, nenhuma outra violência contra a mulher cresceu como a psicológica. Entre as atitudes que enfraquecem a saúde mental feminina está o stalking, comportamento abusivo 34,5% mais incidente no último ano
por
Bianca Abreu
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12/11/2024 - 12h

Por Bianca Abreu

 

Reta final do segundo semestre de 2024, sexta-feira, nove e meia da noite. Data e horário propícios para os estudantes de Jornalismo se encontrarem para curtir o final de mais uma semana rumo às férias. Após sair da aula na unidade Monte Alegre da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, um grupo desce as escadas da saída da universidade que desemboca na rua Ministro Godói. Ali se concentram os bares onde os Puquianos costumam confraternizar - e foi na frente de um deles em que esses universitários pararam e se reuniram.

Alguns bebem, outros comem e todos conversam. Trabalhos finais, estágio (a rotina ou a falta dele), futebol e família são alguns dos assuntos. Conversa vai, conversa vem, em dado momento, entre esse grupo majoritariamente feminino, o papo afunilou em torno da perseguição masculina. Em todas as histórias naquela noite, os algozes eram estudantes do sexo masculino - em alguns momentos, reincidentes, com mais de um relato que os envolvia. O assunto surgiu porque um deles passou próximo delas fazendo menção de se aproximar, fato que as deixaram apreensivas. Elas desviaram seus olhares e viraram o corpo, como que criando um escudo contra a aproximação que foi parcialmente repelida, visto que se aproximaram por instantes mas acabaram se afastando em seguida, indo ao encontro de outras colegas que estavam por ali.

Quando um dos algozes se afastou, Marcela, a primeira estudante a compartilhar a situação que ocorreu consigo, contou que chegou a receber chamadas de vídeo durante a madrugada, via WhatsApp, em que dois estudantes insistiam em falar com ela. Foram recusados e, em dado momento, cessaram as tentativas. Na relação entre ela e a dupla que estava do outro lado da linha nunca houve afinidade, sua intenção era apenas nutrir uma boa convivência. O que, para a estudante, não justificava receber uma ligação deles altas horas da madrugada. Ainda mais por considerar que, provavelmente, eles estariam alcoolizados naquele momento, já que se tratava de um final de semana. Outro fator que a fez, de primeira, desconsiderar atender a ligação foi o fato de que o comportamento de ambos, nos momentos de interação ainda no ambiente acadêmico, a deixava desconfortável - são intrusivos e se aproximam corporalmente de maneira exagerada, sem respeitar seu espaço pessoal e tampouco o afastamento que ela própria provoca em resposta a essas atitudes.

Mas as investidas não pararam nas ligações. Marcela evita ocupar o mesmo espaço que qualquer um dos dois estudantes e, por isso, quando coincide de sair da universidade no mesmo horário que eles, ela retarda sua chegada ao ponto de ônibus para que haja tempo hábil deles terem ido embora. Assim não precisa se preocupar em passar por situações desconfortáveis mais uma vez, principalmente se estiver sozinha. Só que agora, em vez do celular, o caminho para casa se tornou o ambiente em que ela seria novamente abordada. Um dos indivíduos da dupla passou a esperar por ela no ponto de ônibus à noite. Esse comportamento foi percebido pelo fato de que ele a viu saindo ao mesmo tempo que ele, vários coletivos subiram a Rua Cardoso de Almeida e, quando ela chegou para aguardar o transporte, ele ainda estava lá, e fez questão de se juntar a ela durante o caminho, mesmo que Marcela tenha demonstrado desinteresse pela sua companhia. Na estação de Metrô, parada em comum, ela se despediu e desviou seu caminho, a fim de aguardar que ele entrasse na próxima locomotiva para, em seguida, ir sozinha na seguinte, evitando a situação indesejada. Para sua surpresa, quando olhou para a plataforma antes de descer as escadas, ele continuava lá. Outros vagões passaram por aqueles trilhos e ele lá permanecia - aliás, permaneciam, pois Marcela também não se moveu. Após longos minutos naquela situação, ele finalmente embarcou e ela pôde, já tarde da noite, enfim seguir o caminho para casa. Enquanto ela contava o que aconteceu, sua amiga Fernanda confirmava tudo, acenando com a cabeça. Elas estavam juntas quando, uma vez mais, isso aconteceu. Exatamente nos mesmos moldes, com a única diferença de que, desta vez, elas estavam juntas. Fernanda também foi contatada pela amiga quando as ligações na madrugada aconteceram. Com os acontecimentos, a presença de qualquer um dos dois indivíduos causa mal-estar emocional a Marcela.

A perseguição pessoal e virtualmente vivida pela estudante é tipificada pelo Código Penal (CP) brasileiro como stalking. O artigo 147-A explica que essa é a atitude de “Perseguir alguém, reiteradamente e por qualquer meio, ameaçando-lhe a integridade física ou psicológica, restringindo-lhe a capacidade de locomoção ou, de qualquer forma, invadindo ou perturbando sua esfera de liberdade ou privacidade” - foram 77.083 casos apontados em 2023, representando um crescimento de 34,5% em relação ao ano anterior, de acordo com dados do 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. O documento também expôs que o Brasil registrou aumento de todas as modalidades de violência contra mulheres no ano passado. Mas a que mais cresceu foi a psicológica - onde enquadra-se o stalking. Foram 38.507 registros, 33,8% a mais que em 2022. Por meio do artigo 147-B, o CP define a violência psicológica contra a mulher a atitude de “Causar dano emocional à mulher que a prejudique e perturbe seu pleno desenvolvimento ou que vise a degradar ou a controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, chantagem, ridicularização, limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que cause prejuízo à sua saúde psicológica e autodeterminação”. E não é só Marcela, entre o grupo ali reunido, quem está passando pelo desconforto de ser pressionada a tolerar uma presença masculina indesejada. Assim que ela terminou de contar sua história, outra de suas colegas compartilhou que também não vinha se agradando da insistência por atenção que um desses mesmos estudantes cobrava por parte dela.

Com frequência, os mesmos grupos de universitários se reúnem em frente à PUC-SP e curtem a sexta-feira à noite. Todas as vezes que Joana está lá com seus amigos, com quem tem real afinidade, um dos estudantes presente no relato de Marcela se achega junto ao grupo e busca forçar sua inclusão - principalmente, junto à Joana. Ela, assim como a colega, convive com o outro estudante, mas não alimenta nenhuma relação afetuosa que justifique a busca pela proximidade em momentos de descontração fora do ambiente acadêmico. Quando eles se movem e trocam de lugar, ele os segue. Mesmo quando se despedem, ele novamente se aproxima. Certa vez, quando ela estava entrando em um carro por aplicativo para ir para outro lugar com outro grupo de amigos, ele insistiu por longos minutos para ir junto, mesmo não tendo sido convidado - pelo contrário, Joana falou para ele, com todas as letras, que nem ela, nem o restante do grupo, levariam ele junto pois sua presença, por unanimidade, não era desejada junto aquelas pessoas. Ela entrou no carro, fechou a porta e foi embora, deixando-o falando sozinho, pois ele ainda insistia. Quando é confrontado por seu comportamento, ele coloca no álcool a culpa por suas atitudes, mas seu comportamento intrusivo também se manifesta em dias e ambientes onde ninguém está bebendo - como foi com Marcela. E assim como ela, a preocupação e o desconforto se tornaram sentimentos constantes, mesmo em momentos em que o relaxamento deveria ser a lei.

Colocar a culpa de comportamentos abusivos em fatores externos, como a ingestão do álcool, em algum acontecimento pontual ou questionar a reação da vítima ao ser importunada são atitudes comuns entre os homens que praticam essas ações. Sem autocrítica, eles perpetuam a reprodução de comportamentos nocivos que respingam em todo o cotidiano da mulher afetada, pois introduz a aflição, a ansiedade, a angústia, a insegurança e os demais sentimentos de preocupação que possam vir nesse combo. Não sendo respeitada, a mulher se vê na posição de tentar evitar, a todo custo, passar por situações onde seu espaço pessoal seja invadido, seu corpo seja tocado ou sua mente, perturbada. E isso acarreta mudanças no trajeto, no comportamento, nas companhias e em todos os demais detalhes que dizem respeito às suas escolhas individuais - ou seja, opta por tolher sua própria liberdade em nome de resguardar sua integridade física e mental. 

A inquietação diante do desrespeito é um sentimento coletivo entre as mulheres no Brasil. Uma pesquisa nacional realizada em 2023 pelo instituto DataSenado, em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), mostra que 46% das brasileiras acreditam que as mulheres não são respeitadas no Brasil. Em São Paulo, 48% das cidadãs paulistas consideram que as mulheres não são tratadas com respeito no país e 59% delas reforçam que a formação social brasileira é muito machista.

Em uma de suas aulas na universidade, Fabio Fernandes destacou a seus alunos do sexo masculino a importância de que eles, enquanto homens, façam uma leitura séria e comprometida de suas atitudes. Pois a masculinidade é formada a partir de elementos que estão intrínseco ao cotidiano masculino, o que lapida e direciona muitas de suas ações, pensamentos e atitudes. Sem isso, eles estão fadados a reproduzir comportamentos abusivos e nocivos contra as mulheres que encontram no caminho. As histórias contadas por Marcela, Joana e Fernanda reforçam que, enquanto as bases do patriarcado não são atacadas, o gênero masculino encontra caminhos abertos para, despretensiosamente, importunar, assediar, incomodar e atrapalhar o cotidiano das pessoas do sexo feminino em nome das suas vontades - como historicamente sempre fizeram.
 

Manifestação na Avenida Paulista contra o PL da gravidez infantil reúne cerca de 1.100 pessoas
por
Helena Maluf
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17/06/2024 - 12h

A Avenida Paulista foi palco, neste último sábado, 15, de uma das manifestações contra o Projeto de Lei (PL) da Gravidez Infantil. O protesto teve como objetivo principal denunciar os riscos e as implicações negativas do PL para a saúde e os direitos de mulheres, crianças e adolescentes no Brasil.

A concentração, organizada por entidades feministas, começou por volta das 15h, no vão livre do MASP. Participantes de todas as idades se reuniram, empunhando cartazes e gritando palavras de ordem como "Criança não é mãe!Estuprador não é pai". Simone Nascimento, CoDeputada estadual da bancada feminista do PSOL, e uma das líderes do movimento e ativista pelos direitos das mulheres, discursou para a multidão: "Nós estamos aqui para dizer, que contra a bancada do estupro, eles tem as feministas na rua! E nós mulheres, principalmente mulheres negras, estamos cansadas de estupros, de violência, é por isso que estamos protestando".

manifestação
A concentração se estendeu ao longo da avenida mais famosa de São Paulo. Foto: Helena Maluf
fumaça
Manifestantes soltam fumaça nas cores que representam a luta pelos direitos reprodutivos. Roxo, tom do movimento feminista, e verde, tom da luta pela legalização do aborto. Foto: Helena Maluf

No Brasil, as mulheres negras são as mais vulneráveis ao aborto devido a uma combinação de fatores sociais, econômicos e raciais que exacerbam suas condições de vida. Para cada 10 mulheres brancas que fizerem aborto, haverá 15 mulheres negras, aproximadamente, de acordo com um estudo realizado por universidades da América Latina e publicado na revista Ciência e Saúde Coletiva. 

A desigualdade racial no acesso a serviços de saúde de qualidade, somada à precariedade econômica e à discriminação institucional, resulta em um maior risco para essas mulheres. Elas frequentemente enfrentam dificuldades para obter informações e métodos contraceptivos, além de sofrerem violência obstétrica e terem acesso limitado a abortos seguros e legais. Esses obstáculos levam muitas mulheres negras a recorrerem a abortos clandestinos e inseguros, colocando suas vidas em perigo e perpetuando um ciclo de vulnerabilidade e marginalização.

cartaz
Manifestante levantando cartaz escrito “Criança não é mãe!”. Foto: Helena Maluf
cartaz
O grito "Criança não é mãe. Estuprador não é pai" foi entoado pelos manifestantes ao longo de toda a mobilização contra a PL. Foto: Helena Maluf

A mobilização é considerada uma das maiores nos últimos meses na capital paulista e reflete a crescente insatisfação popular com medidas que restringem os direitos reprodutivos. O ato contou com o apoio de várias organizações não-governamentais, entidades de direitos humanos e movimentos feministas. Entre os presentes, destacaram-se representantes da Minha Sampa, Bancada feminista do PSOL, Juntas SP, Rede Feminista de Saúde, Campanha Nem Presa Nem Morta, Frente contra a Criminalização das Mulheres e pela Legalização do Aborto, Anis - Instituto de Bioética, Marcha Mundial de Mulheres e Associação Nacional das Defensoras e Defensores Públicos (Anadep).

Beatriz Almeida, de 26 anos,participou do protesto e afirmou "estou aqui hoje porque não consigo nem imaginar a dor, e o desespero das minhas amigas, e de todas as mulheres que estão prestes a se tornarem, ou já são mães passando por isso. A decisão sobre o nosso corpo deve ser nossa". Já Thais Oliv, mãe de uma menina de 10 anos, destacou a importância de informar e educar: "precisamos de mais educação sexual nas escolas, não de leis que punam nossas meninas".

criança
Dados do Ministério da Saúde indicam que, em 2020, mais de 400 mil gestantes brasileiras possuíam entre 10 e 14 anos. Foto: Helena Maluf

 

cartaz
Militantes também pediram a saída do presidente da Câmara do Congresso. Foto: Helena Maluf

 

Direito ao aborto legal, igualdade de gênero e o fim da guerra em Gaza são algumas das reivindicações.
por
Marcela Rocha
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12/03/2024 - 12h

Nessa sexta-feira, dia 08 de março, centenas de manifestantes estiveram presentes na Avenida Paulista para protestar durante o Dia Internacional da Mulher. A pista sentido Consolação foi tomada por mulheres e apoiadores da causa, segurando cartazes e realizando cantos que reforçam a necessidade da luta da mulher e o reconhecimento de seus direitos.

O protesto teve início às 17h em frente ao MASP, e a diversidade de pessoas presentes chamou a atenção: cidadãos comuns não organizados politicamente se juntavam aos militantes de movimentos sociais de gênero, raça e de luta por moradia. Organizações ligadas à juventude e à defesa de uma educação de qualidade também compunham o ato para além de parlamentares de diferentes partidos políticos.

Entre as bandeiras, um novo chamado aparece, pelo cessar-fogo em Gaza e em apoio às mulheres palestinas. Ao final da tarde ouvia-se cantos como: “mulheres livres, do Brasil à Palestina. Não vai ter morte, vai ter luta!”

 

Legalização do aborto

A ação interseccional dos movimentos sociais presentes foi destaque, desde carcerários femininos, sindicais, pastorais e de estudantes. Isabela Reis, universitária de Relações Internacionais pela PUC-SP, atua no coletivo Juntas!:

“Somos um coletivo feminista antirracista de corrente marxista, fundado por mulheres, como a deputada Sâmia Bomfim. Atuamos pela legalização do aborto, uma luta internacional e que aqui no Brasil vem sendo muito atacada, principalmente no Estado de São Paulo, por conta do Hospital Cachoeirinha. A gente sabe que a luta pela libertação das mulheres inclui a libertação das mulheres palestinas e da população palestina, que sofre com os ataques em Gaza.”

O Hospital Vila Nova Cachoeirinha citado por Isabela, é referência em aborto legal em São Paulo em casos em que a motivação da gestação ocorre por crimes de violência sexual, quando há o diagnóstico de anencefalia (isto é, quando o cérebro do feto é subdesenvolvido), ou quando há risco à vida da mulher.

No ano de 2023 a prefeitura determinou que o atendimento no local para abortos legais fosse suspenso, alegando necessidade de aumentar a capacidade para outros tipos de cirurgias. O hospital era o único a oferecer os serviços de aborto legal após 22 semanas de gestação. Desde então, os serviços correm risco de serem descontinuados.

 

Mulheres em situação de cárcere

A coordenadora da Pastoral Carcerária, Rosilda Ribeiro, explica que a dificuldade das mulheres no sistema prisional ocorre principalmente por motivação de gênero, e que o movimento Pastoral acolhe também mulheres transexuais: “Para provar que está menstruada, por exemplo, o sangue tem que escorrer entre as pernas. As mulheres trans sofrem discriminação. Elas são privadas de sorrir, de cantar, de abraçar… é muito triste. A maior dor delas é a saudade. Então a gente pede isso, que elas sejam livres. Lutamos pelo desencarceramento das mulheres.”

Mulher segurando cartaz contra o sistema carcerário feminino
Rosilda Ribeiro, representante da Pastoral Carcerária de mulheres. Foto: Marcela Rocha.

A manifestação contou ainda com faixas contra a privatização da Sabesp, além do envolvimento de civis não organizados, como o caso de Samuel Santos, de 47 anos, que trabalha em um prédio comercial da Avenida Paulista e que viu a movimentação ainda de dentro da torre: “Vi tudo lá de cima (do prédio) e aí desci. É bom porque está bem pacífico. A Paulista é o centro da diversidade, né, então tudo acontece aqui! Eu acho legal.”

Mulheres manifestantes com faixas contra a privatização de serviços de saneamento
Mulheres seguram faixa contra a privatização dos serviços de saneamento. Foto: Marcela Rocha.

 

A presença de parlamentares em ano eleitoral

A causa das mulheres está presente no planejamento de mandato de muitas vereadoras e deputadas. Gleisi Hoffmann, atual presidente nacional do Partido dos Trabalhadores, discursou de cima do carro de som pedindo pelo fim dos massacres em Gaza e em defesa da democracia. No caso de Juliana Cardoso, deputada federal também pelo PT, a parlamentar caminhou entre a população e tirou fotos com manifestantes. Em suas falas, Juliana saudou a conquista de direitos das mulheres e denunciou o aumento do número de casos de feminicídio no Brasil e os acontecimento na faixa de Gaza: “somos contra tudo o que tem acontecido contra o povo palestino.”

A deputada federal Sâmia Bomfim também esteve entre a população civil. Sâmia foi a parlamentar de esquerda com maior número de votos no ano de 2022, com leis nas áreas de direito reprodutivo, doméstico e de trabalho e cuidado. Apresentou coautoria no projeto que institui a Política Nacional de Promoção do Parto Humanizado, Digno e Respeitoso (PL 516/2022) e a Lei 14.245/21, baseada no caso Mari Ferrer, que visa o combate à revitimização de mulheres por parte do poder judiciário em crimes de caráter sexual, zelando assim pela integridade física e psicológica da vítima. Sâmia também sugeriu a lei que institui a igualdade salarial entre homens e mulheres no Brasil (PL 111/2023).

Ediane Maria, deputada estadual por São Paulo, fez aparição no ato. Ediane iniciou sua vida política por ser uma mulher preta, periférica e empregada doméstica. A desigualdade racial e de gênero faz parte de sua realidade, e hoje eleita, participa da Comissão de Defesa e dos Direitos das Mulheres na Assembleia Legislativa do Estado, além de continuar atuando no Raiz da Liberdade e no Mulheres em Movimento, coletivos do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).

O comparecimento de parlamentares de diferentes partidos políticos, em pleno ano de eleição municipal, explica parte das motivações para além das próprias vivências, aproveitando o momento para angariar apoiadores para a campanha de seus pares e colaborar com as propostas de seus próprios mandatos.

Militantes seguram bandeira com frases a favor da legalização do aborto
Militantes seguram bandeira a favor de direitos. Foto: Marcela Rocha.

 

Incômodo

Conflitos internos foram relatados. Um grupo de pessoas que estavam próximas ao carro de som, entre o MASP e a grade da via de ciclistas, relata ter sentido efeitos de gás lacrimogêneo. Enquanto os manifestantes se dispersaram para fugir da inalação do gás, os policiais presentes não se moveram.

Bianca Abreu, de 25 anos, estava no ato para fotografar para um trabalho da faculdade, quando começou a tossir: “Onde há policiamento a truculência pode acontecer, não fiquei surpresa com isso. O que me surpreendeu foi não ter uma justificativa para isso, para a inalação do gás, porque não teve um princípio de confusão, nenhum tipo de situação que pudesse justificar. Foi uma maneira deles causarem incômodo.”

Desfecho

Durante todo o ato, dezenas de viaturas da Polícia Militar fecharam os três quarteirões entre a Alameda Campinas, na esquina do Shopping Cidade, e a Rua Itapeva, até a esquina do MASP. Já a pé, na via de ciclistas, uma corrente de policiais era perceptível.

Policiais militares enfileirados
Policiais Militares na vida de ciclistas. Foto: Marcela Rocha.

Às 18h uma forte chuva atingiu os manifestantes que continuaram com o ato entre cantos, batuques de instrumentos e carros de som, caminhando com as bandeiras até a Praça Roosevelt.

A concentração de pessoas provocou a interrupção da passagem de veículos e o desvio de trajetos das linhas de ônibus da Av. Paulista, Rua Augusta e Consolação, normalizando o trânsito por volta de 21h.

 

Dia das mães: A despolitização das pautas relacionadas à maternidade e do cuidado com a infância e a exclusão de mulheres no mercado de trabalho e nos espaços públicos
por
Patrícia Mamede
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28/04/2022 - 12h

A maternidade e os cuidados com a infância têm sido discussões recorrentes dentro do movimento feminista - materialista. No entanto, dentro da agenda política são pautas pouco mencionadas por aparentar ser uma discussão que diz respeito única e exclusivamente às mulheres, portanto, secundárias, de menor importância. Brisa Kamulenge, formada em ciências sociais pela USP, mãe, feminista e ativista, aponta um descaso vigente em relação as pautas relacionadas à maternidade, "Como a gente tem um processo de atomização dos movimentos políticos organizados, essas pautas são vistas como especificamente de mulheres, quando na verdade não são’’. A inviabilização das discussões em relação à infância causa um impacto direto na vida das mulheres e na sua autonomia e liberdade individual, afetando sua inserção no mercado de trabalho e, consequentemente, sua ascensão financeira.

Em 2017, uma pesquisa levantada pelo IBGE detectou que em 2015, mais de 11 milhões de mulheres criavam seus filhos sozinhas. Em 2019, o Conselho Nacional de Justiça revelou dados levantados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) que apontam para um número de 5.494.267 milhões de crianças que não possuem o nome do pai nos seus registros. Os dados que ressaltam o número alarmante de mães solos, têm uma relação direta com a pobreza feminina. O IBGE aponta que 63% das famílias chefiadas por mulheres estão abaixo da linha da pobreza. No terceiro trimestre de 2020, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE, informa que 8,5 milhões de mulheres deixaram o mercado de trabalho comparado ao mesmo período do ano anterior.

Brisa explica que a romantização da maternidade é uma ideologia fundamental para frear o avanço das mulheres nos espaços de poder. "Foi um processo paralelo, no momento em que as mulheres começam a ter aspirações de poder a resposta vai ser atar a mulher à maternidade, aí [a maternidade] se torna a razão de ser da vida das mulheres’’. Ela acrescenta que não há possibilidade de construir mudanças efetivas que possam beneficiar mulheres, mães e crianças sem mexer nas estruturas. "Me parece um pouco fantasioso ou ilusório pensar que tem como existir uma sociedade mais acolhedora para mães e crianças sem mexer em tudo, porque está tudo estruturado sobre a exploração do trabalho não remunerado das mulheres’’, e complementa, "o neoliberalismo está intrinsecamente relacionado às formas mais intensas de exploração do trabalho feminino’’.

O problema não está apenas na dificuldade de inserção no mercado de trabalho, mas ele é, em grande parte, resultado da falta de políticas públicas para a socialização dos trabalhos de cuidados. ‘’Apesar de todos os esforços dessas mulheres, elas são admitidas por conta da maior ou menor, em geral maior, conformidade delas às regras masculinas, e uma dessas regras é elas se comportarem como se não tivessem filhos’’, coloca Brisa, ‘’se a mulher perder oportunidades de crescimento dentro de alguma empresa ou ter o emprego ameaçado porque teve que exercer a maternidade, então esse é um espaço hostil às mães’’.

Associada à falta de políticas públicas de socialização do trabalho de cuidar, a desigualdade salarial faz com que as mulheres tenham que abdicar do emprego para cuidar dos filhos, ‘’se a mãe ganha X e o marido ganha 2X, quem é que vai sair do trabalho para cuidar da criança? Obviamente a mãe. Então pagar mais para os homens não é um acaso. Os dados mostram que no Brasil, mulheres brancas têm mais tempo de estudos e mais qualificação do que homens brancos, no entanto, elas ganham menos que os homens. Mesmo que tenham vantagens sobre homens negros e mulheres negras, tendo em vista os homens de sua própria raça, elas estão em desvantagem’’, contextualiza a cientista social.

A criação de creches públicas de qualidade e em quantidade suficiente é uma política pouco implementada mas que seria imprescindível para as mães não abandonarem os estudos ou desistir da carreira, ‘’Quando meu filho nasceu, eu estudava na USP e lá tinha um sistema de amparo social muito bom naquela ocasião. Então a creche [da USP], por exemplo, era um lugar que as crianças podiam ficar até 12 horas. A creche foi a mãe que eu não tive, a rede social que eu não tive e foi fundamental para que eu pudesse me dedicar quase integralmente ao meu curso. E quando eu saí estava capacitada para entrar no mercado de trabalho’’, enfatiza Brisa.

A pandemia, e o consequente fechamento das creches e escolas, dificultou demasiadamente a vida das mães que não podem, sob hipótese alguma, abrir mão do trabalho, "’especialmente às mulheres empobrecidas, negras, indígenas e racializadas, em geral, ainda tem a questão de conciliar trabalho e os cuidados com os filhos. Porque nem sempre elas têm para quem delegar, então essas crianças vão ficar numa situação de vulnerabilidade, de precariedade, tendo, muitas vezes, que contar com a sorte’’, adverte Brisa.

A maternidade compulsória é um debate que está começando a ganhar alguma visibilidade, "a gente é muito manipulada afetivamente. Pensando no contexto brasileiro, a mulher não tem incentivo nenhum para ser mãe em vista da quantidade de prejuízos que a maternidade traz para a mulher trabalhadora. Ela reduz as oportunidades de trabalho, as chances de crescimento na carreira, reduz as possibilidades de aperfeiçoamento e qualificação’’, mas ainda assim existe uma pressão social que empurra as mulheres à ideia romantizada de criar uma criança.

Outro exemplo de dificuldade de exercer a maternidade é a falta de espaços receptivos para crianças na vida pública cotidiana, "’é tudo muito mais difícil. Se você resolve entrar num banco e precisa ficar ali uma hora esperando, normalmente não tem nada ali que pode ser usado para distrair uma criança. Não tem nenhum cantinho da infância’’, coloca a cientista.

"Outro dia eu fui comprar esses óculos e aconteceu uma coisa muito interessante. Fui numa ótica que era administrada por uma mulher e tinha um cantinho muito bonitinho com livros, brinquedos. Eu fiquei provavelmente o dobro ou o triplo de tempo que eu teria ficado para escolher meus óculos se não tivesse nenhum espaço ali para minha filha se entreter, se sentir acolhida’’, e acrescenta, "o espaço público, se ele vai ser frequentado por mães, ele precisa estar adequado para crianças de alguma maneira’’.

Apesar da maternidade compulsória e dos cuidados com a infância serem pautas cada vez mais discutidas entre mulheres, criar a consciência de que essas são pautas coletivas poderá viabilizar políticas que beneficiem não apenas as mulheres e as crianças, mas toda a sociedade. ‘’O menosprezo às crianças, visível na falta de espaços seguros e adequados para elas na vida pública, é reflexo do menosprezo à mulher’’, pontua Brisa. "O cuidado das crianças é uma responsabilidade de todos os adultos. A culpa que insufla nas mães advém justamente da impossibilidade de darmos conta sozinhas desse trabalho numa sociedade que segrega as crianças”.

A cientista social ainda destaca a importância do pensar criticamente a maternidade, "eu defendo muito o pensar criticamente a maternidade. Ponderar seriamente sobre o não-lugar das crianças na sociedade e optar por exercê-la apenas como expressão do amor às crianças, sabe?

Com quantas crianças uma mulher conviveu antes de optar por ser mãe? Por quanto tempo conviveu com elas após se tornar adulta? A candidata a mãe perceberá que crianças são tratadas como propriedade privada, portanto, como um problema privado. Amar crianças pressupõe libertá-las da condição de ‘negócio privado’ e isso exige a transformação de toda a sociedade para recebê-las como agentes sociais plenos e livres’’.

 

Febre nas redes sociais, as reações da pele em relação à diferentes cores de tecido chamaram a atenção dos internautas
por
Gisele Cardoso dos Santos
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07/04/2022 - 12h

Estes testes encontram as cores que melhor se comportam com o tom de pele de cada pessoa, possibilitando que todos saibam quais opções de cabelo, maquiagem e roupa lhe valorizam mais, são 16 tipos de cartelas de cor. Essa ferramenta, que pode ser feita de forma presencial ou online, é nova para o público em geral e surpreendeu tanto que está sendo registrada e compartilhada em todas as redes sociais.

 

Arquivo pessoal Jessica Dearo em atendimento
Arquivo pessoal Jessica Dearo em atendimento

O principal objetivo desse teste é ajudar as pessoas a entenderem o que realmente funciona para elas e com essa informação elas se tornam mais confiantes, sua autoestima melhora e elas conseguem comunicar ao mundo qualquer impressão que elas desejem através do seu próprio visual.

“O resultado da coloração traz uma segurança para a mulher que ela sempre precisou e nunca teve, a tal história de mudar o cabelo... fazendo o teste a pessoa sabe qual mudança ela pode fazer porque já sabe que vai ficar bom” Comenta a especialista em imagem e autoconhecimento Amanda Moretti.

A pandemia também teve grande influência nesse sucesso, em meio a um momento no qual só era possível se comunicar a distância e todos foram obrigados a se ver em frente

as câmeras e a cuidar mais de si mesmos, a aparência passou a ser mais importante do que nunca e tudo relacionado a imagem própria e autocuidado ganhou mais relevância.

Para aqueles que não possuem condições financeiras para fazer essa análise com um profissional, a internet também oferece testes simples e feitos em casa, que prometem chegar em um resultado tão eficiente quanto. Mas Moretti alerta:

“Precisa de um profissional, a grande roubada de fazer sozinha em casa é ser tendenciosa, eu amo prata e durante o meu teste achei que estava lindo, porque eu queria que estivesse. Mesmo conhecendo a técnica foram as minhas alunas que me mostraram que o dourado ficava bem melhor em mim”. E completa: “Esse negócio de ver a cor da veia, ver se fica bronzeada ou rosada no sol não existe.”

 Amanda Moretti (@amandamorettis)
Amanda Moretti(@amandamorettis)

 

Outro ponto importante é o papel da coloração no movimento de moda sustentável, visto que no Brasil são descartadas 170 toneladas de resíduos têxteis por ano. O conhecimento sobre o que fica bom ou não é extremamente importante para que o consumidor faça uma compra consciente e fique satisfeito com suas peças, sem precisar comprar várias vezes e se desfazer das peças que se arrependeu de adquirir. Além de ajudar também a clientela que possui uma renda baixa a comprar somente o necessário e mesmo assim se sentir bem consigo mesma.

A coloração pessoal também gerou alguns questionamentos, muitas pessoas se preocuparam com a possibilidade de ser algo limitante por definir apenas alguns tons como adequados para cada pessoa, podendo dificultar ao invés de auxiliar, mas a consultora de imagem e estilo Jessica Dearo explica que:

“Sempre tem solução, todos meus clientes saem sabendo quais cores mais harmonizam com a beleza deles, mas todos saem sabendo usar todas as cores. A ideia não é trazer limitação, e sim, conhecimento para que a pessoa saiba compensar quando for usar uma cor que não cai tão bem”.

 Jessica Dearo (@jessica.dearo)
 Jessica Dearo (@jessica.dearo)

Tanta visibilidade não despertou interesse apenas em quem pretende melhorar a sua imagem, mas também em pessoas que desejam se aprofundar no assunto para empreender nesse mercado. Vale a pena ressaltar que a coloração pessoal é apenas um braço do ramo de Consultoria de imagem que possui vários tipos de especialização e que existem muitos cursos para a profissionalização nessa área.

Sobrevivente de violência doméstica explica como o medo é utilizado para perpetuar a violência contra às mulheres e destaca a importância de dar continuidade no processo contra o agressor
por
Patrícia Mamede
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31/03/2022 - 12h

O cotidiano da mulher carrega números assustadores dos mais diversos tipos de violência. Entre elas a violência física, psicológica e sexual. No Brasil, as ruas são tão perigosas para as mulheres quanto seus lares, visto que a maioria dos abusos acontecem dentro de casa, onde seus agressores são, na maioria das vezes, alguém com quem tem que dividir a cama. Uma pesquisa realizada pelo DataSenado em parceria com o Observatório da Mulher Contra a Violência aponta que 68% das mulheres brasileiras conhecem uma ou mais mulheres vítimas de violência doméstica ou familiar . A pesquisa coletou informações de 3 mil pessoas, das quais 27% já sofreram agressão por um homem. Em 2014, o Instituto Avon em parceria com DataPopular indica que três a cada cinco mulheres já sofreram algum tipo de violência em relacionamentos.  A Agencia Brasil diz que a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos parece confirmar um aumento de 36% nas violações aos direitos e à integridade das mulheres com a chegada da pandemia.
 

Isabella C., sobrevivente de violência doméstica, estudante de Investigação Forense e Perícia Criminal é também comunicadora e utiliza das redes sociais para abordar temas como a violência doméstica e outras pautas feministas. Isabella diz que o silêncio é o maior aliado dos homens, ‘’Os homens só fazem o que fazem porque eles já contam com o nosso medo’’. A sobrevivente relata as dificuldades de atravessar um processo judicial contra seu ex-namorado investigado pelos crimes de: estupro, estupro de vulnerável, violência psicológica, coação no curso do processo e perseguição, além de ser réu em ação penal por descumprimento de medida protetiva. Conforme reportagem publicada pelo jornal Estado de Minas, em 30 de janeiro de 2022, o fotógrafo de surfe Mateus Prior Barbosa é apontado como o agressor de Isabella. A reportagem baseia-se nas postagens realizadas pelo próprio em suas redes sociais .


            ‘’Como estudante de criminologia - e não de direito -  tenho um problema sério com o sistema de justiça criminal brasileiro, porque ele não educa e nem evidencia os verdadeiros problemas. Os princípios básicos do direito, como o in dubio pro reo, são pensados e fazem sentido quando tratamos, por exemplo, de crimes patrimoniais, que é o que interessa pro Estado. Não são a dignidade sexual, a integridade física e psicológica das mulheres que interessam ao Estado, e sim a sua exploração. O sistema penal não é pensado pela ótica de quem é vítima da violência masculina, mas sim pelos próprios agressores’’. A comunicadora verbaliza a insatisfação em relação ao andamento do processo, criticando as instituições. Mas diz que apesar de todo trabalho e toda a burocracia é importante que mulheres não deixem de relatar, ‘’Embora o trânsito das ações possa ser, sim, uma via para a retraumatização, para revitimização, é também uma cura’’ argumenta, ‘’É importante que as sobreviventes não se corrompam no meio desse processo, sabe? Que elas entendam o peso que tem, na vida de todas as mulheres,  cada caso que se torna midiático. Denúncias, processos, absolvições e condenações de crimes cometidos por um homem contra uma mulher, não são apenas sobre esse homem e essa mulher, são sobre toda a sociedade’’.

Apesar da realidade econômica de algumas mulheres não possibilitar uma renda suficiente para contratar uma advogada, existem ONGs como a Mapa do Acolhimento, que oferecem apoio jurídico e psicológico gratuito para sobreviventes. Isabella diz que é interessante que as sobreviventes busquem conversar e avaliar a situação com o respaldo da justiça, pois algumas ações precipitadas como exposed ou a difamação do agressor podem certamente prejudicar a vítima. A advogada Natalia Veroneze, que possui um escritório de advocacia feminista, adverte: "o agressor pode te acusar de difamação e de outros crimes contra a honra. Sempre converse com sua advogada antes de falar com a imprensa ou de postar nas redes sociais’’ e complementa, ‘’se não tiver como pagar, procure a Defensoria Pública no Núcleo de atendimento às mulheres’’.

O medo é o maior fator que leva as vítimas a não denunciarem, muitas vezes, por influência da mídia sensacionalista que busca ofuscar as vitórias de alguns casos, enfatizando as derrotas daqueles em que as vidas das vítimas foram totalmente destruídas,  como por exemplo, o caso da Mariana Ferrer. ‘’A mídia quer fazer parecer que uma condenação é impossível, mas é apenas difícil. É preciso compreender o sistema e, assim, descobrir como enfrentar ele, tendo o que ele não quer que a gente tenha: provas, estratégia e saúde mental. A certeza da impunidade dos homens é tão grande, que eles se incriminam sozinhos’’, coloca Isabella, ‘‘O sistema, ele faz de propósito, ele quer que a gente se mate no meio do processo, que a gente desista de tudo e de nós mesmas, só que às vezes ele não consegue. E quando isso acontece, o efeito é exatamente o oposto: acaba criando monstros, que é o caso da Mariana, o da Duda Reis e o meu também. Quem deseja que a gente perca alguma coisa, já pode começar a chorar’’. Apesar do sofrimento que as sobreviventes carregam ao longo do processo, a comunicadora aponta um lado que é pouco mostrado pela mídia no caso de Ferrer, ‘’Um homem não foi condenado - até agora -, mas duas leis já foram criadas a partir desse caso. Então o sistema pode tentar o quanto quiser, não vai adiantar, sempre vai haver mulheres que se recusam a desistir. E não adianta apenas aprovarem as leis, nós vamos exigir que elas sejam cumpridas’’, explica.

Além da palavra da vítima, Natalia cita outros recursos que podem ser utilizados como provas: "vídeos, prints de WhatsApp (exclua o nome é deixe apenas o número à mostra. Mostre a data. Se tiver grana, peça transcrição da conversa no cartório)’’. Em casos de violência psicológica a advogada sugere ‘’laudo psiquiátrico, laudo psicológico, depoimento de testemunhas que tenham acompanhado a evolução da vítima, laudos de afastamento por pânico, Burnout ou surto psicótico, entre outros’’. A elaboração de provas é importante para construir um processo sólido, no entanto, Isabella percebe que existe uma dificuldade das vítimas na hora de avaliar os recursos que podem ser utilizados, "As mulheres não entendem o que é uma prova, e a infinidade de elementos que podem ser usados como prova’’, adverte, ‘’quando você treina o seu olhar, você vê que tem provas em absolutamente tudo. Você vai entendendo como se constrói uma narrativa que reconstrói os fatos’’, explica a sobrevivente. Aplicativos do próprio celular como, Saúde, Flo e Uber foram utilizados enquanto importantes recursos no seu processo.

 Mediante toda a violência que as sobreviventes são expostas durante todo o processo, Isabella aponta para uma questão que é necessária por parte de todas as mulheres: a rede de apoio. "É importante esse apoio entre mulheres, porque hoje sou eu e amanhã é você’’. A comunicadora salienta que este é o papel da ética feminista nisso tudo, ‘’Não pode mais haver seletividade para escolher acreditar ou não na palavra de uma vítima. Esse é o maior problema e a maior função do feminismo nisso. Acreditar nas mulheres, acreditar na palavra da vítima e não deixar que ela carregue esses processos sozinha, porque eles são feitos para nos destruir, mas se tivermos uma boa rede de apoio podemos sobreviver’’, afirma. Natalia também ressalta a importância de uma advogada com um estudo feminista na hora de buscar alguém para acompanhar o caso, "é imprescindível. Por isso ano passado o CNJ lançou o Protocolo para Julgamento com perspectiva de gênero. Para capacitar os juízes, desembargadores e serventuários a ter perspectiva de gênero na defesa de mulheres e meninas’’.

Registrar a ocorrência se faz importante em qualquer caso, pois por mais que o agressor não seja condenado no processo de uma determinada vítima, uma acusação ou indiciamento marcará o histórico em seu nome, ''Quando um mesmo homem comete crimes contra outras mulheres, já na investigação é possível compreender que as violências fazem parte de um comportamento reiterado dele. Além disso, políticas públicas só são criadas a partir de estatísticas. Somada à óbvia negligência do Estado, a subnotificação também é responsável pela precariedade dos sistemas de acolhimento, a falta de capacitação dos agentes que atuam nos casos e a compreensão das verdadeiras dimensões desses problemas'', explica Isabella. ‘’A coragem para relatar tem que sair do mesmo lugar de onde saiu a coragem do homem para fazer o que fez: eles acham que agredir é direito deles, nós sabemos que uma vida sem violência é direito nosso’’, encoraja a sobrevivente.