Em São Paulo, o Dia Internacional da Mulher lembra das que se foram e luta pelas que ainda vivem
por
Carolina Machado
Isabela Sallum
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09/03/2026 - 12h

Neste domingo (8), manifestantes lideradas pelo Levante Mulheres Vivas, ato orgânico criado pelas atrizes Rachel Ripani e Livia La Gatto, concentraram-se na Avenida Paulista e seguiram do Masp até a Praça Roosevelt, na Consolação. O trajeto foi marcado pela presença de representantes de diversas organizações, partidos políticos, coletivos feministas e militantes independentes.

O aumento de crimes brutais lembra à população o que os números indicam há anos: o Brasil não é um lugar seguro para as mulheres. Cartazes denunciavam um estado de emergência por feminicídio, exibiram pedidos por mulheres vivas, o fim do discurso "red pill” (movimento misógino online), liberdade e reafirmam que criança não é mãe. Mulheres recentemente assassinadas foram lembradas por um pequeno cemitério de bonecas e um longo pano vermelho, que reunia sapatos, representando as vítimas. 

Representação de cemitério ilustra o número crescente de feminicídios. Foto: Carolina Machado/AGEMT
Representação de cemitério ilustra o número crescente de feminicídios. Foto: Carolina Machado/AGEMT

Em 2025, o Brasil registrou recorde de feminicídios, foram 1.568 vítimas, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Só em janeiro deste ano, 27 mulheres foram mortas no estado paulista. “Em um país que registra milhares de casos de violência doméstica, estupros e uma epidemia de feminicídios, no dia 8 de março é para se estar nas ruas”, publicou o movimento no perfil @levantemulheresvivas, no Instagram.

Um dos casos mais marcantes lembrados no ato é o de Thainara Souza dos Santos, de 31 anos, que foi atropelada e arrastada por um quilômetro, presa ao carro pelo próprio companheiro, na zona norte de São Paulo, em novembro do ano passado. Ela morreu após um ano internada.

Rosana, de 40 anos, manifestava pelas que se foram, pelas que virão e por ela mesma. “Nós nos queremos vivas e livres. Por isso estamos aqui desconstruindo, derrubando e combatendo o que nos impede: a misoginia e a violência.”, diz à AGEMT. “Não é só indignação, é luta”, completa. 

Cartaz “Pela criminalização do discurso red pill” engrossa discurso contra a misoginia. Foto: Carolina Machado/AGEMT.
Cartaz contra a misoginia engrossa discurso pelos direitos das mulheres. Foto: Carolina Machado/AGEMT.

As reivindicações reuniram diferentes movimentos sociais, organizações políticas e militantes independentes que pautavam não apenas o combate à violência contra mulher, mas também o fim da escala 6x1 e do imperialismo, além da defesa da democracia e da soberania nacional. 

A alta nos índices de feminicídio indica que o problema não é apenas estatístico, mas é fruto de uma cultura patriarcal presente desde a formação do Brasil. Essa realidade também se reflete na falta de políticas públicas voltadas à proteção das mulheres. Em dezembro de 2025, o Portal da Transparência publicou o planejamento orçamentário do estado de São Paulo para o enfrentamento da violência contra a mulher, que previa apenas R$0,18 por mulher na faixa de 15 a 59 anos.

Como consequência, o estado lidera os rankings nacionais de feminicídio, registrando um aumento de 96,4%, o segundo maior do país, atrás apenas do Amapá, segundo o Fórum de Segurança Pública de 2025.

“O governo do Estado colocou à frente apenas 15% do orçamento público no combate ao feminicídio. Por isso, é papel do ativismo feminino ir para as ruas pelo combate às violências contra a mulher, à precarização do trabalho e aos ataques do imperialismo contemporâneo. Querendo, ou não, os assuntos se entrelaçam”, afirma Júlia Cardoso, de 23 anos, estudante e militante da Faísca Revolucionária.
 

Manifestação feminista une-se ao fim da escala 6x1. Foto: Isabela Sallum/AGEMT
Manifestação feminista também defende o fim da escala 6x1. Foto: Isabela Sallum/AGEMT

As mulheres enfrentam jornadas duplas ou triplas de trabalho, pois ainda são, em grande parte,  responsáveis pelos afazeres domésticos e cuidados familiares. São elas, também, as principais vítimas da escalada de ataques norte-americanos contra outras nações. “Trump bombardeou uma escola de meninas iranianas, durante a guerra vigente entre Estados Unidos, Israel e Irã”, lembra Júlia.

Em meio a exigências por direitos femininos básicos, Joyce, de 27 anos, militante do Levante Popular da Juventude, lembra o significado histórico do Dia Internacional da Mulher. “Não se trata de homenagem, e sim de mobilização social.”, afirma.
 

Mulheres protestam junto a partidos e grupos militantes na Avenida Paulista. Foto: Isabela Sallum/AGEMT.
Mulheres protestam junto a partidos e grupos militantes na Avenida Paulista. Foto: Isabela Sallum/AGEMT.

A jovem relembra a mobilização das mulheres socialistas russas contra o regime czarista, com a organização de atos e protestos no movimento operário. “Pelo fim do patriarcado, contra o machismo e a violência contra a mulher. Hoje o que me traz aqui nas ruas é contar e fazer história para transformar radicalmente a sociedade", conclui Joyce. 

Entre o palco e a sala de aula, construiu sua trajetória unindo a arte e a transformação social
por
Anna Cândida Xavier
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09/03/2026 - 12h

Isabel Marques, de 61 anos, é artista e pioneira no estudo do ensino de dança no Brasil. É doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e diretora do Caleidos Cia. de Dança desde 1996. Sua trajetória na dança começou ainda criança, nas clássicas aulas de balé, mas na adolescência começou a questionar as metodologias e práticas de ensino. “A repetição, imitação, controle e a busca do corpo ideal das bailarinas não cabiam mais em mim. Tudo isso estava em oposição à possibilidade de criação”.

Isabel Marques sorrindo em um espetáculo de dança
Isabel Marques no espetáculo “Entrevista”, 2024 – Foto: Fábio Brazil/Caleidos Cia. de Dança 

Com 16 anos, ganhou uma bolsa de estudos do United World Colleges (UWC) para estudar no Canadá. Isabel conta que a experiência em um colégio internacional abriu seus horizontes, fez amizades com jovens de todo o mundo e cursou o ensino médio longe da censura da Ditadura Militar. Decidiu fazer pedagogia após ler “Pedagogia do Oprimido” de Paulo Freire. “Encontrei o livro em inglês na mesa dos alunos de filosofia, fiquei curiosa por ser um autor brasileiro e me encantei por ele e pela a educação”, conta. 

Ao voltar para o Brasil, ingressou na USP e retomou as aulas de dança – agora com foco na improvisação – onde conheceu os princípios e processos de criação de Rudolf Laban, um dos precursores da dança moderna. Isabel conta que Laban foi crucial para sua trajetória, uma vez que ele foi responsável pelo primeiro currículo escolar que inclui dança, criado em 1958 na Inglaterra.

A carreira de Isabel Marques é permeada pelas interfaces entre dança e educação, entre a vivência acadêmica e o fazer artístico. Em 1991, após terminar seu mestrado em Londres, começou a dar aula na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) como professora convidada. Na universidade, criou um grupo de pesquisa voltado à integração entre arte e educação, que mais tarde se transformou na companhia de dança contemporânea Caleidos.

Isabel Marques, sentada em uma mesa escrevendo.
Isabel Marques em sua defesa de doutorado, 1996 – Foto: Arquivo Caleidos Cia. de Dança 

Na mesma época, foi convidada por Ana Mae Barbosa para fazer parte da equipe de Paulo Freire na Secretaria da Educação da prefeitura de Luiza Erundina em São Paulo. “A ideia era abrir o leque de possibilidades do ensino de arte nas escolas, porque antes só tinham artes visuais e música. Em 1993, nós lançamos um novo currículo, desenhado a muitas mãos, que incluía o teatro e a dança e aprofundava as outras linguagens”, conta Isabel. 

Em 1997, foi responsável por elaborar os currículos nacionais de dança do Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). Isabel acredita que a importância da dança na escola em um país que dança é a possibilidade de compreendê-la como linguagem e como arte. “A escola trata a dança como área do conhecimento, não só como entretenimento, lazer, diversão, religião – todas muito importantes e muito significativas e cruciais para o Brasil. Mas, ao estudar a linguagem da dança é possível atribuir significado aos movimentos, você tem a possibilidade de questionar, de perguntar, de recriar e de ser co-criador do mundo mesmo, da arte”. 

Isabel Marques ministrando uma palestra.
Isabel Marques ministrando uma palestra, 2009 – Foto: Fábio Brazil/Caleidos Cia. de Dança

Ao longo das últimas décadas, Isabel lecionou diversos cursos de formação de professores para a rede de escolas públicas de São Paulo. “É importante que as professoras entendam que esse corpo delas, que muitas vezes não é o corpo ideal, que não é o corpo da bailarina, esbelto e flexível, também dança. É a volta ao corpo, ao movimento e à vida que as torna professoras diferenciadas”. Isabel destaca o direito à dança e ao movimento nas escolas. “A escola tradicional supervaloriza a mente, o corpo é morto na escola. Quando a gente trabalha com a dança na escola pública, a gente introduz a importância da diversidade corporal”. 

O trabalho com as escolas públicas é central em sua trajetória.“É na escola que a gente trabalha em prol da transformação social, da conscientização e da visão crítica do mundo”. Para ela, é a partir de um diálogo estabelecido com o mundo que é possível transformá-lo. Afirma que as redes de relação que criamos com o mundo podem partir de uma elaboração mental ou da experiência não verbal, de percepção através do movimento. “Você percebe o mundo através do movimento, você conhece as pessoas… Uma coisa é você falar eu te amo, outra coisa é você abraçar e beijar. São complementares”. 

Em seu livro “Ensino de Dança Hoje”, publicado em 1999, Isabel Marques propõe o conceito de “dança no contexto”. Para ela, é preciso relacionar as suas aulas de dança aos contextos sociais, afetivos, culturais e políticos, o objetivo não é simplesmente aprender uma sequência de passos, mas criar dança a partir de um contexto. “Eu conheço praticamente todos os estados do Brasil ensinando dança e dançando, sempre com um cuidado de não impor a cultura paulistana, sempre estabelecendo um diálogo com o local”.

Em suas peregrinações pelo país, Isabel lançou seis livros sobre dança e educação e ministrou cursos de especialização, incluindo aulas inaugurais em faculdades de dança. Ela conta que, no início de sua carreira, havia somente três graduações em dança no Brasil. Hoje, após o programa Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), de 2008, existem mais de 40. 

Este ano, o Caleidos, companhia de dança dirigida por Isabel Marques e Fábio Brazil, completa 30 anos. “A gente brinca que 30 anos de dança no Brasil equivalem a 200 na Europa”, comenta Isabel frente às dificuldades de viver enquanto artista no Brasil. O Caleidos já produziu 35 espetáculos de dança e ganhou 16 prêmios de fomento à dança, em nível municipal, estadual e federal. Uma das marcas da companhia é a interatividade com o público, chamar as pessoas para participar do espetáculo, dançar com os bailarinos. 

Alunos da escola pública participam de um espetáculo de dança do Caleidos
Espetáculo “Coreológicas Ludus” na sede do Caleidos com alunos da Rede Pública de Ensino de São Paulo, 2011 – Foto: Fábio Brazil/Caleidos Cia. de Dança 

Os espetáculos do Caleidos nascem de imperativos sociais, explica Isabel, “é quase um chamamento”. Destaca a importância de experienciar o mundo como parte do processo criativo, muitas cenas surgem da experiência do cotidiano, com um olhar artístico apurado. O processo de construção dos espetáculos costuma envolver muita pesquisa, “eu sou pesquisadora então eu valorizo muito as pesquisas acadêmicas, é a partir dessas discussões que conseguimos ir além da experiência pessoal. O artista é um interlocutor da sociedade em que vive, do seu contexto, propõe diálogos que abrangem algo além de si mesmo”. 

Em 2025, Isabel Marques foi homenageada no XI Congresso Internacional SESC de Arte/Educação, produzido em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco. Durante o evento, estreiou seu primeiro solo de dança: ‘Outonos’. Para ela, o espetáculo surgiu da necessidade de falar sobre o envelhecimento, “envelhecer não é uma sensação, você é avisado que está mais velha pelo diálogo com as novas gerações”. “É o comportamento dos outros em relação a você que faz você se sentir mais velha. Eu adoro o assento reservado para idosos no metrô, mas alguém levantar para você sentar causa um estranhamento”. O espetáculo volta em cartaz no segundo semestre de 2026.

Isabel Marques dançando no espetáculo “Outonos”
Isabel Marques dançando no espetáculo “Outonos”, 2025 – Foto: Lino Fly/Arquivo Caleidos Cia. de Dança

 

Especialistas ressaltam que conteúdos misóginos nas redes sociais podem influenciar a escalada da violência contra mulheres
por
Carolina Nader
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03/03/2026 - 12h

O Brasil registrou, em 2025, média de 42 julgamentos de feminicídio por dia, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), aumento de 17% em relação ao ano anterior. O dado reacende o debate sobre a efetividade das políticas públicas de proteção às mulheres e os fatores sociais associados à permanência da violência no país.

Tipificado como crime hediondo desde 2015, o feminicídio é caracterizado pelo assassinato de mulheres em razão do gênero. Especialistas apontam que o crime raramente ocorre de forma repentina, sendo resultado de uma série de agressões ao longo do tempo.

Em entrevista à AGEMT, a delegada da Polícia Civil de Arujá (SP), Fernanda Pastor de Morais, afirmou que casos de feminicídio costumam ser precedidos por ameaças, perseguições e violência psicológica. “O feminicídio é o ápice de um cotidiano de violência”, disse. Segundo ela, comportamentos controladores tendem a se intensificar quando o agressor não aceita a autonomia da vítima ou o fim do relacionamento. “O crime também ocorre em maior escala no âmbito doméstico e familiar, em que o parceiro não “aceita” a autonomia da mulher ou o rompimento da relação”, afirma.

Manifestação reúne pessoas em luta por direitos femininos no dia Internacional da Mulher no Rio de Janeiro, em 2024. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Manifestação reúne pessoas em luta por direitos femininos no dia Internacional da Mulher no Rio de Janeiro, em 2024. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Nos últimos anos, comunidades virtuais associadas à chamada “machosfera”, como o movimento red pill — ideologia online contra mulheres — ganharam visibilidade nas redes sociais, difundindo conteúdos que reforçam estereótipos machistas e discursos de hostilidade. Esse cenário, em alguns casos, aparece associado a episódios de violência ao reforçar e naturalizar a desigualdade de gênero.

Na prática investigativa, o ambiente digital aparece frequentemente como extensão da violência doméstica. De acordo com a delegada, redes sociais são utilizadas por agressores para monitorar, intimidar e expor vítimas, funcionando como instrumento de controle psicológico que pode anteceder agressões físicas. 

A repercussão dos casos nas plataformas digitais também produz efeitos ambíguos. Se, por um lado, amplia a conscientização pública, por outro pode gerar desinformação, pressão sobre investigações e revitimização das mulheres envolvidas. Comentários que culpabilizam as vítimas, segundo Morais, reforçam a cultura de violência ao deslocarem a responsabilidade do agressor.

Apesar do Brasil possuir uma legislação considerada avançada no enfrentamento à violência de gênero, alguns desafios ainda persistem na aplicação das normas e na investigação de crimes digitais, especialmente diante do anonimato online e da rápida disseminação de conteúdos.

Ato denúncia em frente à Câmara Municipal, organizado pelo campanha Levante Feminista contra o feminicídio. Foto: Tânia Rego/Agência Brasil
Ato denúncia em frente à Câmara Municipal, organizado pelo campanha Levante Feminista contra o feminicídio. Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

Para a delegada, a prevenção passa pela combinação entre educação para igualdade de gênero, fortalecimento das investigações e maior responsabilidade das plataformas digitais na moderação de conteúdos violentos. “A internet não é uma terra sem lei. O que muda é apenas o meio; a responsabilidade continua existindo”, afirma. O aumento dos registros indica que a violência contra mulheres é resultado de estruturas históricas que seguem sendo reproduzidas e amplificadas no ambiente digital. 

Atriz e cantora cearense afirma que ninguém se torna artista, nasce
por
Carolina Machado
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02/03/2026 - 12h

Desde a infância, Tabatha Almeida, 24 anos, transitou entre diferentes expressões artísticas. Do canto à dança, ou até a mescla dos dois, no teatro musical, a arte sempre esteve ali por e para ela. “Minha casa sempre foi um ambiente muito musical. Meu pai é músico e foi muito importante para mim, cantávamos juntos. Quando descobri os musicais, concluí que aquilo era a salvação da minha vida. Enquanto minhas amigas queriam ser médicas ou advogadas, eu só queria cantar e dançar”, relata em entrevista. A artista já realizou pelo menos cinco grandes produções teatrais, participando como cover da personagem Elphaba recentemente, durante a temporada de 2025 de Wicked Brasil.

Myra Ruiz e Tabatha Almeida nos camarins de Wicked Brasil - Imagem via Instagram @tabatha
Myra Ruiz e Tabatha Almeida nos camarins de Wicked Brasil - Imagem via Instagram @tabatha

Quando pequena, Almeida realizava inúmeras performances, cantando e fazendo acrobacias por todos os cantos. Aos 14 anos, participou da nona edição do The Voice Kids Brasil. “Para mim, é muito louco olhar para trás e pensar: o que eu faço hoje sempre esteve ali, não tinha como seguir outro caminho”, reflete. Em um mundo criado por homens e voltado para seus desejos, a atriz considera corajoso expressar-se por inteiro, como ela faz, e é grata à menina que foi por moldar quem ela é hoje. 

Aos 17 anos, mudou-se de Recife para o Rio de Janeiro, passando por inúmeros imprevistos, desilusões amorosas e muito, muito trabalho. A partir desse processo, Tabatha descobriu que o machismo não é disfarçado no mundo das artes, pelo contrário ele faz parte de uma das indignações do seu dia a dia profissional. Em entrevista à AGEMT, ela afirma que, apesar de se considerar uma pessoa que sempre conseguiu se expressar livremente em sociedade, existe uma disparidade de salários e de holofotes, e declara essa uma questão latente. Ainda assim, acredita que as mulheres encontrarão seu lugar ao se posicionarem, mostrando-se abertas e comprometidas, percorrendo diferentes caminhos e lutando por espaços.

Tabatha Almeida, nos ensaios  de Wicked Brasil - Imagem via Instagram @tabatha
Tabatha Almeida, nos ensaios  de Wicked Brasil - Imagem via Instagram @tabatha

A atriz destaca e entende a importância das amizades e parcerias femininas nesse processo. “Tento me cercar de mulheres fortes. Levo minhas grandes amigas dos trabalhos que realizei para a vida e pretendo estar no topo com elas”, disse. Almeida acrescenta sobre as relações, afirmando ser uma forma de empoderamento e fortalecimento do coletivo feminino, em que se fomentam opiniões e posicionamentos com o objetivo de enfrentar o mundo que é o mesmo para todas: difícil e injusto.
 

Tabatha Almeida e colegas de profissão - Imagem via Instagram @tabatha
Tabatha Almeida e colegas de profissão - Imagem via Instagram @tabatha

Tabatha acredita que ter uma rede de apoio é essencial. Isso porque sua própria família e amigas sempre estiveram por perto, nunca a deixando à mercê de situações que comprometessem seu trabalho e, sobretudo, sua integridade como mulher. “Foi fundamental me rodear de pessoas. Tentei nunca me ‘dobrar e desdobrar’ por ninguém, e sim aprender com as experiências, fortalecer laços e a mim mesma”, conclui.

Influencer brasileira viaja em um celta para o Peru com a sua companheira de quatro patas
por
João Luiz Freitas Souza
Fernanda Dias
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17/06/2025 - 12h

Ana Clara Uchoa, 24 anos, iniciou sua jornada com sua cadela Ísis pelas estradas em novembro de 2023, após sentir-se sufocada pela rotina. “Eu ficava muito frustrada com a minha vida parada. Trabalhar, voltar pra casa, passear com a Ísis na praça por meia hora. Eu queria mais” relata em entrevista via Google Meet. Hoje em dia, a influenciadora está a um mês na nova temporada dessa jornada e novamente o seu destino é o Peru. 

Aos 22 anos, Uchoa iniciou uma mudança de vida em novembro de 2023, deixando seu trabalho para concretizar um sonho. Após algumas viagens de ônibus sozinha, planejou e economizou para adquirir um Celta, nomeado Ozzy, e dar início à sua própria jornada com a sua cadela Ísis. Por mais de um ano, ela percorreu o litoral do país, e em 1 ano e 3 meses de viagem, destacou sua afeição pela Bahia e por Minas Gerais e suas cachoeiras, além da experiência de conhecer novas pessoas e culturas. No Natal, optou por retornar e passar a data com a família, interrompendo o cronograma inicial.

 

Ana Uchoa com sua cachorra Isis na frente de seu carro
Ana Clara e Isis em São José dos Campos, São Paulo - Imagem via Instagram @anaclarauchoa 

A vida no carro, no entanto, não é só paisagem bonita e liberdade, um exemplo disso foi quando ela fundiu o motor em Pernambuco, teve o bagageiro voando na ponte Rio-Niterói e dormiu em lugares improvisados e esses foram alguns dos perrengues enfrentados. Mesmo assim, Uchoa vê cada obstáculo como aprendizado pois apesar dos contratempos ela nunca precisou guinchar o carro. "O Celta nunca andou de guincho, ele sempre quebra do lado da oficina. Está tudo certo”, brinca. 

Além de viajar, Uchoa decidiu documentar tudo nas redes sociais, apesar de ser uma vontade desde sempre, contou que tinha muita vergonha, mas acabou quebrando essa barreira pessoal e postando seu primeiro conteúdo no TikTok, que hoje conta com mais de 330 mil seguidores. Sem filtros ou roteiros, seu conteúdo viralizou mostrando sua simples rotina de viagem com a Ísis, como preparar um café, escovar os dentes ao lado do carro ou improvisar uma refeição. “Eu achava que ninguém ia querer ver isso. Mas hoje, se eu não posto o café, o povo pergunta: ‘cadê o café?’”, conta, entre risos. Sua rotina virou inspiração para muitos e sua presença online, um espaço de empoderamento. 

O machismo ainda marca a rotina de quem se aventura sozinha pelas estradas do país. Ao relatar situações desconfortáveis, ela contou sobre um episódio em que, mesmo repleta de orientações técnicas do próprio mecânico, foi tratada com desdém por outro profissional. “Falei com todo cuidado, mas ele me mandou sentar e disse que quem estava trabalhando era ele. Só depois de ouvir o áudio, resolveu o problema em cinco minutos.” 

Ana Uchoa com sua cachorra Isis na frente de um monumento em Brasília
Ana Clara e Isis em Brasília, Distrito Federal - Imagem via Instagram @anaclarauchoa 

A influenciadora compartilhou que quando o assunto é segurança, o planejamento é indispensável pois dormir em locais desertos nunca é uma opção. “Mesmo se estiver no meio do nada, vou procurar um estacionamento, um posto com movimento. Se alguém percebe que estou sozinha, já sou vista como vulnerável.” Comentou ainda que, em muitos casos, “homem só respeita homem”, o que torna cada decisão na estrada mais estratégica. 

Algumas mulheres adotam medidas como deixar sapatos masculinos ao lado do carro para simular a presença de um homem. Ela prefere não recorrer a isso, mas entende quem o faz. “Ser mulher na estrada exige atenção, inteligência e muita resiliência.” 

Ao mesmo tempo, existe uma rede de apoio não oficial que prova a força da sororidade. “Se eu chego num posto e tem outra mulher sozinha, ela já fala: para aqui do lado.” Esse cuidado mútuo, que surge mesmo entre desconhecidas, mostra como mulheres viajantes criam um laço imediato de proteção e solidariedade. “O homem às vezes até acha legal, mas a mulher age. Ela acolhe, ela cuida.” 

Uchoa relata que viajar sozinha é mais do que uma escolha, é um ato de coragem e autonomia diante de um mundo que ainda questiona a liberdade feminina. 

Influência nas meninas vai de repressão a incentivos
por
Gabriela S. Thier
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20/06/2023 - 12h

Chegando a ser considerada um brinquedo obsceno e inapropriado pra crianças em sua primeira versão, no ano de 1959, mas ainda assim se tornando um sucesso que transformou a Mattel a terceira maior empresa de brinquedos do mundo em seu primeiro ano de vendas, a boneca Barbie recebeu ao longo de sua história muitos “títulos”, sempre dividindo opiniões, com as tentativas de definir sua influência nas meninas que tiveram contato com ela na infância.

Essa dualidade é presente desde sua popularização nos anos 60, de um lado com a relutância de alguns pais em deixar as filhas brincarem com a figura de uma “mulher adulta que morava sozinha” e de outro lado sendo anunciada como um incentivo para as meninas cuidarem de sua aparência, o que acabava por reforçar estereótipos de beleza. “A preocupação dos pais vinha justamente por conta desses estereótipos”, diz o pedagogo Marco Antonio Delgado .

Segundo ele, a Barbie representava uma mulher elegante, que está dentro dos padrões de beleza vigentes na sociedade , esquecendo dos valores íntimos de cada um. “Claro que essa realidade não acrescentaria nada para aquela criança que estava brincando de casinha, até porque a Barbie, na verdade, mostra uma executiva, aquela mulher que vai para fora, que trabalha, que está atuando, uma coisa que não acontecia”, acrescenta Delgado.

O pedagogo destaca a diferença entre a figura emancipada representada pela boneca e o imaginário das crianças na época em que foi lançada. “As meninas não brincavam dessa situação, mas sim de uma brincadeira de mãe, do lar, e a Barbie traz uma coisa que naquela época era mais os homens que ocupavam.” 

Delgado cita a aparência da Barbie como um de seus aspectos prejudiciais:

”Por causa do estilo da própria boneca, porque ela traz um perfil de uma mocinha, de uma miss com o corpo definido, com uma situação de que seria uma ‘perfeição’, ela mostra uma boneca branca com seu estereótipo de magra, mas não são todas as crianças que têm este  perfil. Existem meninas gordas, existem meninas negras, que não atingem aquele estereótipo de beleza e isso pode trazer uma certa depressão para a criança, porque ela foge daquele conceito de perfeição”.

Contudo, mesmo mantendo como sua imagem principal uma boneca branca, magra e loira, a Mattel já apresentou diversas vezes boneca com perfis diferentes, indo das mais atléticas  até  de diferentes etnias, formatos de corpo e profissões.

Muitas vezes o design da boneca pode ser visto como um retrato da cultura popular de uma época. Um exemplo é a famosa “Malibu Barbie” (1971), que virou um símbolo por aparentar um rosto “sem maquiagem” e ser a primeira Barbie que olhava para frente, uma mudança que, apesar de sutil, trouxe uma imagem mais ativa e menos delicada para a boneca.

Um exemplo mais significativo de mudança foi a primeira Barbie Negra, lançada em 1980. Por mais que já houvessem sido lançadas versões negras de amigas da Barbie, como a Black Francie (1967), haver uma boneca negra denominada como  Barbie foi muito mais significativo. 

 

Edição de Aniversário da Malibu Barbie
Edição de aniversário da Malibu Barbie

 

Edição de Aniversário da Primeira Barbie Negra
Edição de aniversário da primeira Barbie Negra

A psicóloga Vanderléa Soares explica a importância da possibilidade de se ver nos brinquedos: 

“A identificação com um adulto de referência é parte da constituição de qualquer indivíduo”, diz Soares. “Dentro do lúdico e da fantasia, imaginar-se em outros papéis é criar possibilidades ampliando a visão de si mesmo e do mundo. O processo de formação do eu se dá a partir do outro”, acrescenta a psicóloga. 

Porém, mesmo com o aumento da representatividade, existem contrapontos em se tratando da boneca mais famosa do mundo. Até o slogan “você pode ser tudo o que quiser” pode ser prejudicial às crianças.

“Todos nós nos deparamos com limites. Se nos dedicamos a uma atividade ou brincadeira, não podemos praticar outras. Isso é estendido para toda uma vida humana. Existem limites de tempo, lugar, espaço, e do que é possível viver. Se eu escolho ser jornalista, provavelmente não conseguirei na mesma existência ser médica, advogada e psicóloga. Mesmo pensando no sentido de que sempre temos escolhas, ainda assim essas escolhas são limitadas pelo contexto de possibilidades sociais presentes num determinado tempo e momento histórico”, analisa Soares. 

Pequeno Estado africano apresenta índices de igualdade de gênero semelhantes a Finlândia e Noruega
por
Francisco Barreto Dalla Vecchia
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23/05/2023 - 12h
Estudantes da Academia Gashora para meninas, em Ruanda. Fonte: National Geographic
Estudantes da Academia Gashora para meninas, em Ruanda. Fonte: National Geographic

Recentemente, a Women, Peace and Security - iniciativa dedicada a promover a igualdade de gênero - elegeu Ruanda como o país com mais representatividade feminina na política, com 55% das cadeiras do parlamento ocupadas por elas. Ruanda também foi eleito como o segundo destino mais seguro para mulheres viajarem sozinhas.

A pequena nação insular da África Oriental, possui 12 milhões de habitantes e uma economia que cresce 7% ao ano desde 2000. O genocídio ocorrido em 1994 afetou profundamente a sociedade local, mas o povo ruandês reagiu à tragédia de forma transformadora: elaborando reformas políticas e sociais, que foram fundamentais para que a nação desfrutasse do atual cenário de igualdade de gênero.

Cem dias de genocídio 

Por décadas, Ruanda foi dividida em duas etnias: a minoria Tutsi, composta por uma elite pecuarista tradicional, e a maioria Hutu, historicamente desfavorecida e composta por agricultores. Essa divisão já existia no período pré-colonial, mas foi intensificada pelos colonizadores belgas e alemães, que buscavam facilitar a dominação.

De 7 de abril até de julho de 1994, instaurou-se um período de terror no país africano: Hutus extremistas caçaram os Tutsis por toda Ruanda. Durante cem dias, mais de 800 mil Tutsis e Hutus moderados foram mortos. As vítimas eram frequentemente conhecidas dos assassinos. O facão virou símbolo da barbárie: A ferramenta onipresente na vida dos agricultores converteu-se na arma mais popular entre os criminosos. 

Ruanda era um país rural e pré-industrial. No livro “Uma Temporada de Facões”, o jornalista francês Jean Hatzfeld demonstra como os diferentes estágios de desenvolvimento econômico influenciam na forma como os genocídios são executados. 

Hatzfeld faz paralelo com os crimes Nazistas, indicando que aspectos das sociedades industriais, como o desenvolvimento tecnológico - na forma de malhas ferroviárias - e a divisão do trabalho foram decisivas na execução do holocausto: um genocídio burocratizado e pensado na lógica da eficiência produtiva. 

O complexo e impessoal método de extermínio adotado pelo terceiro Reich, contrasta com a rudimentariedade e ampla participação da população no curso da limpeza étnica em Ruanda.  

O renascer das ruandesas 

No fim da carnificina, as ruandesas representavam 70% da população. Desde então, elas passaram a ocupar cargos antes exclusivamente destinados aos homens, exercendo um papel-chave na reconstrução do país e de sua sociedade.

A maioria dos assassinos e das vítimas eram homens. Os extremistas foram presos ou fugiram para a República Democrática do Congo, deixando para trás suas terras. Para garantir a própria sobrevivência e a de suas famílias, as mulheres precisaram obter a posse legal das roças de seus maridos ausentes.

Em 1999 foi feita uma reforma legislativa, na qual mulheres garantiram o direito legal de herdar as terras de seus cônjuges. Outros direitos foram assegurados na constituição de 2003: 30% dos cargos políticos passariam a ser exclusivamente femininos; foi instituído a igualdade de gênero na posse das terras, assim como no acesso à educação.

No ano da nova constituição, 48% dos cargos eram ocupados por ruandesas. Em 2008, Ruanda tornou-se a nação com mais mulheres no Parlamento. Hoje elas já ocupam quase 70% dos assentos e mais de 50% dos cargos ministeriais.

 Presidente Paul Kagame, em encontro com parlamentares ruandesas. Fonte:JusBrasil
 Presidente Paul Kagame, em encontro com parlamentares ruandesas. Fonte:JusBrasil

O último levantamento sobre igualdade de gênero realizado pelo Fórum Econômico Mundial (2021) considerou quatro aspectos: educação, saúde, política e economia. Ruanda foi apontada como o sexto país com mais igualdade entre os gêneros no mundo, colocando o pequeno país em pé de igualdade com a Finlândia e a Noruega. O Brasil, por sua vez se localiza na 92.ª posição, segundo o Global Gender Gap Report (2021)

Os limites da igualdade 

Atualmente, cerca de 88% das mulheres em Ruanda exercem alguma tarefa remunerada, número este superior ao dos homens. Mesmo tendo crescido a participação feminina na política e no mercado de trabalho, a situação doméstica pouco se alterou. O maior desafio tem sido transferir a igualdade conquistada na vida pública para dentro dos lares de Ruanda.

A cientista política ruandesa Justine Uvuza, em seu doutorado, pesquisou a vida de mulheres que ocupam cargos públicos em seu país. Constatando que muitas são obrigadas pelos maridos a realizar trabalhos domésticos, mesmo ocupando posições importantes no Estado. Segundo Uvuza, no senso comum, uma boa ruandesa é patriótica, trabalhadora e obediente ao marido. O movimento feminista costuma ser visto como algo ocidental e "importado" dos Estados Unidos.

A desigualdade social também é um desafio enfrentado pelo governo do presidente Paul Kagame, com o país ocupando o 165º lugar no ranking dos países com maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), conforme o relatório anual do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) de 2021.

Como o mercado de cursos online se apropria do comportamento feminino
por
Lídia Rodrigues de Castro Alves
Fabiana Caminha
|
18/04/2023 - 12h

Mentora de deusas. É assim que a arquiteta e empresária Camila Pastório, de 32 anos, é conhecida entre os mais de 300 mil seguidores de seu Instagram. Camila ficou mais popular entre o público feminino por abordar temas de relacionamentos e feminilidade. Depois de se popularizar nas redes, Camila resolveu dar o próximo passo e começou uma mentoria online. Por cerca de 400 reais, a arquiteta disponibiliza vídeos e e-books que prometem revelar “tudo o que uma mulher feminina precisa saber para ser naturalmente poderosa e conquistar o homem dos sonhos”, como está descrito na página de venda.

“Eu trabalho de duas formas, individualmente e coletivamente”, explica Camila. “Se a aluna optar pelo atendimento individual, eu faço através de uma ligação, escuto a queixa dela e partimos daí. A outra opção é a mais comum, que é a coletiva. Eu já tenho uma plataforma onde a aluna tem acesso aos meus conteúdos separados por tema. Aí ela consegue acessar mais facilmente o que faz mais sentido para o caso dela.” A arquiteta ainda diz que esses temas vão desde dicas para “edificar o lar” até conselhos para deixar o perfil do Instagram mais atraente para os homens.

Quanto à origem do apelido, a empresária diz ter se autodenominado dessa forma. “Quando eu falo o termo deusa, todo mundo leva para esse lado mais espiritual, mas eu acredito que uma deusa seja uma mulher de alto valor, com os princípios firmados na espiritualidade. Eu sou de uma família cristã, e eu tenho os meus princípios firmados… e é isso que eu tento trazer para as minhas alunas também, eu quero que elas sejam realmente deusas, que aflorem seus encantos, e é isso que elas conseguem com o meu método.”

No site da empresária, onde é possível adquirir um dos seus três cursos disponíveis atualmente, existem dezenas de relatos de ex-alunas comprovando a eficácia do método das deusas. Na página principal estão comentários, fotos e até mesmo vídeos dessas consumidoras relatando a sua experiência depois da compra. Com certo destaque, podemos ver o relato (em caps lock e negrito) de uma aluna que foi pedida em namoro apenas três semanas depois de concluir a mentoria. Até mesmo o link da live do Instagram que comprova o momento do pedido está disponível.

Segundo Camila, o motivo de seu sucesso não se dá exclusivamente pela qualidade do curso, mas também pela pós-mentoria, o acompanhamento depois que a aluna adquiriu o material. “Por uma taxa de 30 reais, essa aluna pode também fazer parte de um grupo de WhatsApp que eu mantenho sempre atualizado com novidades exclusivas. Eu criei esse grupo para dar um senso de comunidade, eu quero que a minha aluna se sinta valorizada. No Deusas Online, ela tem isso, ela faz parte de algo maior.”

Camila é apenas uma das milhares de pessoas que passaram a oferecer cursos de mentoria para ganhar a vida. A devastadora maioria desses cursos é comercializada através da Hotmart, uma plataforma brasileira voltada para a venda e distribuição de produtos digitais. Grande parte desses produtos são de caráter “educacional”. Ou seja, são cursos e e-books que buscam ensinar algo, independente se o mentor é especialista no assunto.

O mercado desses produtos digitais para mulheres é, no mínimo, curioso. Em uma busca rápida, é possível encontrar métodos de emagrecimento, aulas de crochê, mentorias bíblicas, guias de relacionamento e até mesmo um curso sobre posições sexuais. O “Como sentar 2.0” é a continuação da bem-sucedida mentoria de Beatriz Rangel, que pode ser encontrada na categoria de desenvolvimento pessoal da plataforma. Na descrição do curso, a mentora promete resultados infalíveis. “Com vocês a versão atualizada e melhorada da tia Bea do curso “Como sentar”! Através dessa experiência eu vou te ensinar a como se sentir confiante para ir por cima na hora do sexo. A sentir prazer, não brigar com seu corpo, a controlar seus pensamentos para aproveitar a experiência e muito mais! Bora tomar coragem pra ser sua melhor versão?”

A facilidade na venda de aulas digitais pode ser perigosa. O “Como manter seu homem na palma da mão”, da pioneira da autoajuda feminina digital, Vanessa de Oliveira, traz discurso um tanto quanto problemático, e o fato do conteúdo não passar por nenhum tipo de aprovação intensifica o risco. A comercialização da imagem e do comportamento feminino torna-se cada vez mais comum.

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Em entrevista, uma mulher que preferiu não se identificar relata que desde que entrou nesse mundo de cursos não conseguiu parar. "Percebi que estava ficando viciada em discursos que muitas vezes não passavam de textos prontos para enganar qualquer pessoa. Eu fui enganada. Claro, não são todas as “especialistas” digitais que apostam no sensacionalismo. Mas a padronização da fala e da condução das aulas é sempre muito parecida. O principal motivo de as mulheres assinarem esses pacotes sempre gira em torno do homem. “Aprenda a fazer crochê para deixar a casa mais bonita para seu marido”, “como ser a melhor esposa do mundo”, “20 posições sexuais que deixam qualquer homem louco”, e por aí vai. O que faz refletir, para quem é o curso? Para as mulheres ou para seus companheiros? A quem interessa a venda da feminilidade?

 “Fiz mais de 20 cursos de empoderamento feminino, “Como ser a mulher perfeita, “Como mandar bem na cozinha para conquistar os homens” e um que realmente me convenceu a vender imagens sensuais por um preço de banana na plataforma Onlyfans", relata a entrevistada.

Esse é outro problema da banalização de temas no mundo digital, a capacidade de convencer e influenciar pessoas. O Onlyfans é um dos principais sites do gênero na atualidade. Ele indiretamente pode aproximar mulheres, principalmente jovens, da prostituição. “Assinei um curso que prometia trazer qualquer homem que eu quisesse, se eu fosse uma mulher sensual, se tivesse belas fotos nas redes, e então pensei: já que tenho que postar essas fotos, por que não vendê-las?" O relato só comprova a naturalização da venda do corpo feminino, e, desta vez, incentivada por mulheres que são idolatradas por outras que muitas vezes caem em ciladas por conta de títulos chamativos e fragilidades pessoais. Portanto, é importante entender que, apesar da passagem do tempo, a sensualidade feminina continua sendo usada para vender produtos e ideais.

AGEMT EXPLICA: Nem romântico, nem comercial, o Dia das Mulheres é político.
por
Barbara Ferreira
Maria Ferreira dos Santos
|
09/03/2023 - 12h

O Dia das Mulheres é celebrado por mais de 100 países. Mas qual a origem desse dia tão importante? E quando foi que surgiu?

O século XX foi marcado por grandes mudanças, muitas delas, inclusive, aconteceram por meio de greves e manifestações. Um exemplo disso foi a luta das mulheres por melhores condições de vida (principalmente de trabalho) no período da Revolução Industrial e da Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Diversos acontecimentos foram não só essenciais para a determinação da data, como para luta feminista. Vale ressaltar que as mulheres estavam se organizando politicamente em diversos lugares do globo. E, por isso, é difícil atribuir o 08 de março em si a um único acontecimento. 

É comum a data ser atribuída ao incêndio numa fábrica têxtil em Nova York, EUA, em 1911. O episódio em questão aconteceu no dia 25 de março, e escancarou as horríveis condições de trabalho às quais os trabalhadores eram submetidos. Sendo que anos antes as trabalhadoras da fábrica já haviam feito graves, o que, é claro, foi recusado pela empresa. O que resultou depois na morte de 146 trabalhadores, 125 destes eram mulheres.

Incêndio na fábrica Triangle Shirtwaist, em 1911, Nova York. Foto: Reprodução
Incêndio na fábrica Triangle Shirtwaist, em 1911, Nova York. Foto: Reprodução

Já na Alemanha, foi Clara Zetkin, membro do Partido Comunista Alemão e defensora dos direitos das mulheres no contexto trabalhista, que deu início à proposta de criar o Dia Internacional das Mulheres. Mas ainda não havia uma data definida.

O 8 de março só se tornaria uma referência em 1917, quando operárias russas foram às ruas para protestar contra a fome e a Primeira Guerra Mundial. Em plena Revolução Industrial, tais movimentações são consideradas determinantes para o início da Revolução Russa (1917 -1923).

A data só foi reconhecida pela ONU em 1975, que considerou este ano como o Ano Internacional das Mulheres. Hoje, a data não se atenta apenas para a comemoração dos avanços que as mulheres conquistaram ao longo dos anos, mas para a conscientização em relação a desigualdade de gênero e engajamento das novas gerações. 

Manifestação contra a fome, as condições da Primeira Guerra Mundial e o regime czarista. Foto: Reprodução
Manifestação contra a fome, as condições da Primeira Guerra Mundial e o regime czarista. Foto: Reprodução

 

Reconhecer e homenagear mulheres faz parte do processo de luta e resistência desse grupo.
por
Maria Ferreira dos Santos
Giuliana Barrios Zanin
Carolina Rouchou
|
09/03/2023 - 12h

O dia 08 de março para as mulheres é, como todos os outros dias, um dia de luta. Não é uma data comercial tampouco uma data romântica, por isso, presentear uma mulher com flores talvez não seja a melhor opção. O problema não está nas flores, muito pelo contrário. A questão é que infelizmente as flores não resolvem temas como a opressão e o apagamento histórico das mulheres.

Por isso, no dia 08 de março é importante lembrar de mulheres que lutaram contra a opressão e o apagamento. Por isso, como forma de homenagear mulheres inspiradoras e não deixa-lás num lugar de esquecimento, esse texto homenageia sete mulheres jornalistas e suas histórias.

 

Marie Colvin (EUA)

Foto: Dave M. Benett/Getty Images
Foto: Dave M. Benett/Getty Images

Correspondente de relações exteriores do Sunday Times de Londres, conhecida por cobrir locais de conflito principalmente no Oriente Médio, foi assassinada na Síria em 2012 enquanto cobria a guerra na cidade de Homs.

Em 2016 sua família abriu um processo contra o governo Sírio ao saber que esse estava envolvido em seu assassinato. Em 2019 eles ganham o processo e recebem 302 milhões de dólares do governo sírio.

 

Constance Cummings-John (Serra Leoa)

Foto: arquivo
Foto: Arquivo

Em 1936, Constance recebe uma bolsa de estudos nos EUA e vai trabalhar na Cornell University. Lá vivencia a violência racial e os impactos do colonialismo, assim torna a educação sua principal bandeira de luta e depois da Segunda Guerra participa de movimentos pan-africanos e movimentos pela educação feminina.

 

Mona Eltahawy (Egito)

Foto: Salam Plan
Foto: Salam Plan

Jornalista e comentarista egípcio-americana que escreveu sobre os direitos das mulheres no Oriente Médio e Norte da África. Já publicou no The Guardian, the International Herald-Tribune, The Washington Post, U.S. News & World Report and The New York Times. Ela tem sido uma crítica da violência de gênero na região e tem defendido a igualdade de gênero e a libertação das mulheres. Seu livro "Headscarves and Hymens: Why the Middle East Needs a Sexual Revolution" é uma poderosa crítica ao tratamento dado às mulheres na região. 

 

Elisabeth Adekogbe (Nigéria)

Foto: Arquivo
Foto: Arquivo

Inspetora de preços durante o período da II Guerra Mundial,  como professora, diretora de escola e jornalista, se tornou uma das mais importantes ativistas dos direitos das mulheres, fundando em 1952 o movimento conhecido como Women Movement of Nigeria – WMO (Movimento das Mulheres da Nigéria). Dois anos mais tarde, em 1954, Elizabeth Adekogbe  participou da direção do Council of Women’s Societies of Nigerian and the Cameroons (Conselho das Sociedades de Mulheres da Nigéria e dos Camarões), que em 1959 foi  uma das importantes coalizões que atuou durante o período da independência do país.

 

Maria Ressa (Filipinas)

Rappler News / AFP
Foto: Rappler News / AFP

Em 2012, Maria Ressa ajudou a fundar o Rappler, um website jornalístico que começou como uma página no Facebook e que tinha por objetivo lutar pela democracia e liberdade de informação nas Filipinas.E cada a repercussão de seu trabalho, ganhou o Prêmio Nobel da Paz juntamente do seu parceiro russo Dmitry Muratov. Foi incluída na lista Personalidade do Ano 2018 da revista Time como membro de um grupo de jornalistas de todo o mundo que combatem notícias falsas.Ela foi presa por "difamação cibernética" em meio a acusações de vários casos de notícias falsas e sonegação de impostos corporativos em 13 de fevereiro de 2019. Em 15 de junho de 2020, um tribunal de Manila a considerou culpada de ciberlibel. Em 2023, seu processo ainda está em aberto, mas já dissolveu 4 dos 7 processos movidos pelo Governo do País.

Jineth Bedoya Lima (Colômbia)

Foto: Alamy
Foto: Alamy

Jineth Bedoya Lima cobriu o conflito armado da Colômbia assim como o processo de paz e casos de violência sexual a mulheres.

Em 2000, enquanto trabalhava para o Jornal El Espectador, ela foi sequestrada e estuprada. Três anos depois, militantes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, Farc, sequestraram a repórter que atuava para o jornal El Tiempo.

Glória Maria (Brasil)

Foto: Divulgação / Paulo Belote
Foto: Divulgação / Paulo Belote

Foi a primeira jornalista negra na televisão brasileira, além de ter sido a primeira comunicadora a transmitir uma matéria na televisão com cor. Sua primeira aparição foi nos anos 70, durante o governo Médici e, desde então, viajou ao mundo e vivenciou as diversas culturas de cada país, com a esperança de mostrar aos brasileiros a sua coragem e força. Foi uma figura importante para o jornalismo, para o feminismo, para a representatividade negra.