Diversidade nos games ainda enfrenta resistência por parte significativa dos jogadores
por
Gabriela Thier
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04/07/2026 - 12h

O anúncio de um novo jogo da franquia God of War, feito pela PlayStation no último dia 2 de junho, reacendeu discussões sobre a presença do machismo no universo dos videogames. Desta vez, a personagem principal será Laufey, guerreira e esposa de Kratos, protagonista tradicional da série. A escolha, porém, foi recebida com críticas e ataques por uma parcela do público nas redes sociais, evidenciando um debate que acompanha a indústria dos games há anos.

Apesar dos avanços na representatividade dentro dos jogos eletrônicos, manifestações de misoginia continuam presentes entre parte dos consumidores. Para a psicóloga Isabela Reis, o crescimento dos discursos de ódio ocorre paralelamente às iniciativas de inclusão promovidas pelas empresas do setor.

“As campanhas em favor da diversidade e da inclusão crescem em paralelo aos discursos de ódio e à misoginia, sustentados por processos geopolíticos associados à extrema-direita, que influenciam a disseminação dessa violência. Vale lembrar que o conservadorismo tem crescido de forma significativa entre os jovens, juntamente com o movimento redpill.”, explica a psicóloga.

Reações negativas do público no X ao anuncio do novo jogo.
Foto: Reprodução do X / colagem por Gabriela Thier

A rejeição a uma personagem fictícia levanta questionamentos sobre os fatores que levam parte dos jogadores a reagir de forma intensa a mudanças em franquias consolidadas, principalmente quando elas são entendidas como um resultado da busca por representatividade.

Segundo Reis, esse comportamento pode ser compreendido por diferentes conceitos da psicologia. “Podemos compreender que os sentimentos de revolta despertados pela personagem funcionam por meio de um mecanismo de projeção, no qual os próprios conflitos psíquicos, considerados intoleráveis pelos sujeitos, são atribuídos ao outro, uma vez que esses indivíduos se recusam a reconhecê-los em si mesmos. Aqui, o sujeito misógino, ao se deparar com sua própria falta constitutiva, recusa-se a reconhecê-la e faz uso do discurso de ódio como forma de atribuir ao outro aquilo que não suporta admitir em si mesmo.”

A psicóloga também apresenta outra leitura sobre o fenômeno: “outra interpretação possível refere-se ao conceito de narcisismo das pequenas diferenças, termo utilizado por Freud para explicar como grupos minoritários, ao longo da história, tornam-se alvo de hostilidade e ridicularização por parte de grupos socialmente mais favorecidos.”

Especialistas defendem que o enfrentamento desse tipo de comportamento passa pela educação e debate constante sobre diversidade e respeito desde a infância, ressaltando a importância da  representatividade nos jogos. “Pensar em prevenção nos leva à ideia de que esses conteúdos devem ser debatidos em sala de aula desde os anos iniciais da educação. Para que haja conscientização, é necessário que o governo esteja, de fato, comprometido com essas pautas, pois, como representante da população, ele possui o poder de promover mudanças em estruturas sociais complexas”, conclui.

Mulheres enfrentam desigualdades estruturais que alteram sua rotina e sua identidade, de acordo com padrões femininos impostos pela sociedade
por
Carolina Machado
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07/05/2026 - 12h

Segundo relatório do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizado em 2025, as mulheres dedicam cerca de 21 horas semanais aos cuidados da casa e dos filhos, praticamente o dobro do tempo gasto pelos homens. Na escala 6x1, por exemplo, o único dia de folga para essas mães é dedicado à limpeza, alimentação e cuidados com os filhos; são 65 horas semanais, contando trabalho formal e informal invisibilizado. Essa jornada dupla, realizada por mais de 90% das brasileiras, altera a rotina e identidade feminina de acordo com cada realidade, a partir de exigências sociais e construções culturais relacionadas à mulher. 

Mesmo fazendo parte de um recorte privilegiado dessas brasileiras, Estéfi Machado, de 48 anos, não romantiza a rotina como mãe nas redes sociais. Ela trabalha de casa e, com a chegada de seu filho Teo, hoje aos 18 anos, tudo se tornou mais caótico. “Eu fazia meus freelas em um quartinho e, quando ele nasceu, não tinha mais tempo para terminar minhas coisas”, relata em entrevista. 

“Mesmo com o apoio do meu marido e da minha família, as tarefas sempre ficaram para mim. Eu me desdobrei, me sacrifiquei e desejo ser vista. Afinal, tanto eu, quanto outras mulheres criamos novos cidadãos para o mundo”, conta. Ela ressalta que, como qualquer mãe, adora presentes e cartinhas, mas reconhece que isso não é suficiente no Dia das Mães, o reconhecimento precisa vir acompanhado de uma mudança real do comportamento dos filhos e dos maridos dentro de casa. 

Estéfi Machado e seu filho Teo, de 18 anos. Reprodução: vInstagram/@blog.estefi.machado
Estéfi Machado e seu filho Teo, de 18 anos. Reprodução: vInstagram/@blog.estefi.machado

Adriana Machado, psicóloga clínica formada pelo Mackenzie, descreve a maternidade como uma construção subjetiva e sociopolítica profunda, marcada pela reestruturação feminina. “É uma complexa transição de vida que exige escolhas e adaptação aos desafios impostos ao novo papel”, esclarece. Ela acrescenta que, apesar de ser uma vivência individual e única para cada mulher, todas são atravessadas por imposições sociais e culturais, provenientes da estrutura de uma sociedade patriarcal, que acarretam mudanças de rotina e na própria identidade feminina.

No caso de Estéfi, sua formação como designer se fundiu com a maternidade e, assim, começou a dividir com o público suas invenções criativas que mãe e filho projetavam enquanto cuidava de Teo em casa. “Essa é uma realidade que não faz parte da maioria das brasileiras”, reconhece. Mesmo assim, a criação de conteúdo surgiu em sua vida como um desabafo, assim como qualquer outra mãe gostaria: enxergar-se e ser enxergada por outras mulheres que exercem a mesma função. “Não é blogueiragem, não. Ele brincava com tecido, papel e papelão, e criávamos juntos invenções com os meus materiais de design”, explica. 

Colagem com amor de mãe, feito por Estéfi Machado Reprodução: Instagram: @blog.estefi.machado
Colagem "com amor de mãe", feito por Estéfi Machado Reprodução: Instagram: @blog.estefi.machado

A designer completa sobre a importância de desconstruir estereótipos e papéis de gênero sendo mãe de um menino. “Isso é importante para mim, estou toda hora falando para ele prestar atenção no jeito com o qual trata as amigas, as primas, as tias, a avó e, futuramente, a parceira”, relata. Estéfi  acrescenta, dizendo que Teo reconhece o esforço da mãe em orientá-lo ao apontar situações, dentro e fora de sua rotina, que diminuem as mulheres e o trabalho realizado por elas nas jornadas de cuidado.

Já Adriana complementa, declarando que o ato de cuidar não se refere apenas ao aspecto prático: “faz parte da estrutura para a constituição do psiquismo e da identidade de outro ser humano”. A psicóloga complementa, dizendo que a experiência materna é um encontro entre o desejo, as responsabilidades e um novo modo de ser e criar no mundo. Ainda assim, é um trabalho informal que não é reconhecido, independentemente da posição social em que a mãe ocupa.

Estéfi Machado em ensaio fotográfico. Reprodução:Instagram/ @blog.estefi.machado
Estéfi Machado em ensaio fotográfico. Reprodução:Instagram/ @blog.estefi.machado

Estéfi e Adriana concordam que até  mesmo as mães feministas lidam com uma relação desigual dentro de casa, fruto de uma estrutura patriarcal que incentiva mulheres a assumirem todas essas responsabilidades. “Se nem mesmo quem tem voz consegue se libertar dessas estruturas, o que dizer daquelas muitas que sofrem com a sobrecarga caladas e solitárias, sem tempo de questionar e repensar sua própria realidade”, conclui a psicóloga. 
 

Papel da imprensa na consolidação feminina no esporte e a importância dos registros para a construção de uma identidade nacional
por
Carolina Nader
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28/04/2026 - 12h

Localizado no Estádio do Pacaembu, o Museu do Futebol foi inaugurado na capital paulista em setembro de 2008. A experiência é interativa e está repleta de curiosidades, incluindo um extenso acervo histórico e atrações sobre ídolos, como Pelé e Marta. Em 2024, passou por reformas para atender questões contemporâneas, como a naturalização da participação feminina no esporte.

Suas exposições narram para além do mundo esportivo. Algumas são baseadas nos trabalhos da imprensa: manchetes estão por toda parte e as fotografias contam histórias. A popularização dessa prática esportiva se desenvolve no Brasil especialmente pela influência do rádio. Por volta de 1920, os jornais passaram a investir na veiculação das notícias e incentivaram a promoção dos jogos ao perceberem a lucratividade, criando uma dinâmica econômica que passou a se sustentar de maneira circular.

Durante a década de 1940, houve a proibição das mulheres no futebol. Nesse período, existiam impressos, como o “Jornal dos Esportes”, que apoiavam e defendiam a participação feminina e a cobriam positivamente. Em contrapartida, jornais mais conservadores, como o “A Batalha”, se posicionavam de forma contrária e evitavam noticiar sobre as jogadoras.

Segundo Renata Beltrão, guia do Museu do Futebol, “a imprensa não é uma coisa única, cada veículo defende seus pontos de vista.” Para ela o futebol feminino, por muito tempo, foi retratado como algo exótico. “As perguntas nunca fogem do padrão. Querem saber quanto calçam, como se maquiam e se querem casar”, afirma.

Time feminino de futebol do Rio Grande do Norte, década de 1920. Foto: Carolina Nader (@nadercaroll)
Time feminino de futebol do Rio Grande do Norte, década de 1920. Foto: Carolina Nader (@nadercaroll)

A partir da liberação dos jogos femininos, na década de 1980, a primeira seleção feminina foi formada para o Mundial experimental da China em 1988. A cobertura midiática era praticamente inexistente. Uma única repórter, Claudia Jacobs, acompanhou a equipe brasileira, registrando sozinha os acontecimentos. As imagens que existem desse momento são de autoria da própria jornalista e das jogadoras.

Renata conta que houve um período considerável na linha do tempo do Brasil no qual a imprensa silenciou. De acordo com ela, não tratar os arquivos feitos caseiramente e de forma amadora como fontes históricas leva a perda identidária da nação. “Isso é muito importante. Saber de que ponto de vista você conta essa história, que memórias você valoriza, o que você considera como um registro digno de ser guardado, preservado e mostrado,” relata Beltrão.

Após a reforma, algumas salas passaram a enfatizar a ideia da nação brasileira a partir das coberturas jornalísticas e pela fotojornalismo. O museu trata em paralelo os acontecimentos do futebol e os do Brasil, mostrando como o esporte influencia o desenvolvimento da identidade social.

“O que queremos mostrar é o que é o Brasil e como o futebol vem junto, a forma como caminham lado a lado”, a guia finaliza.

Ações de governos como Rússia e França tentam tratar “sintoma” ao invés da causa da queda na natalidade
por
Daniela Cid
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09/04/2026 - 12h

 

Medidas controversas vêm sendo adotadas por países onde a crise demográfica já é um risco para a manutenção do sistema. Vladimir Putin, na Rússia, já vinha se preocupando com a queda da fertilidade desde que chegou ao poder, e recentemente aprovou medida para que mulheres que não queiram engravidar sejam direcionadas a um psicólogo para que mudem de ideiaDesde 2024, o presidente da França Emmanuel Macron, desenvolve política chamada de “rearmamento demográfico” contra a infertilidade. Na época, o anúncio gerou forte controvérsia com a Federação Nacional dos Centros de Informação sobre os Diretos das mulheres e das Famílias, e desde fevereiro de 2026 o governo passou a enviar cartas a todos os jovens franceses de 29 anos com orientações sobre fertilidade e o risco de não congelamento de óvulos.  Na mesma linha, Japão e Coreia do Sul têm adotado outras medidas isoladas devido à queda populacional, como a gratuidade de creches e aumento da licença paternidade.    

Em entrevista para a AGEMT, a antropóloga Mariana Maiara Soares Silva afirma que tais medidas, diante do empoderamento feminino, podem ser vistas como uma tentativa de se tratar um “sintoma” ao invés da causa da queda na gravidez, que reside nas condições sociais nas quais mulheres não se sentem seguras para gerar e criar um filho. “Em certa medida, podemos considerar uma violação de direitos quando, no caso da Rússia, mulheres são coagidas a consultar profissionais de saúde mental por não quererem filhos, como se não fossem conscientes ou capazes de suas escolhas”, argumenta. No caso da França, Mariana comenta ser uma ameaça à autonomia já conquistada, pois instrumentaliza o corpo de mulheres que não querem engravidar e reforça estigma conservador que sofrem devido a essa escolha, tendo seus direitos e sexualidade questionados.  

De acordo com Beatriz Rodriguez Sanchez, doutora em ciência política pela USP e pesquisadora da Rede de Pesquisas em Feminismos, dentre os vários motivos pelos quais cada vez mais mulheres escolhem não engravidar estão: a dificuldade de conciliar trabalho remunerado com ascensão profissional e maternidade, e a divisão desigual do cuidado dos filhos, que sempre recai sobre a mulher.  

A consciência da escolha 

Vitória Lemos Amaro, 37 anos, brasileira autônoma vivendo em Paris há quase 7 anos, tomou a decisão de não ter filhos após compreender que tinha muitos sonhos a realizar. Foi percebendo, com o tempo, que engravidar não era exatamente um desejo, mas sim uma construção social, algo que era esperado dela como mulher: “Eu sempre dizia ‘se eu tiver filhos’ ou ‘quando eu tiver filhos’, mas no momento em que pude olhar com os meus olhos para a minha vida e entender que isso de fato não cabia, foi quando eu parei de falar ‘se eu tiver filho’, ‘quando eu tiver filhos’ e passei a dizer ‘eu não quero ter filhos’, ‘eu não vou ter filhos’, e passei a construir a minha vida a partir dessa escolha”, explica. Ela também comenta que enxerga a ação do governo francês de enviar uma carta aos jovens falando sobre os riscos da infertilidade como uma tentativa de solucionar os motivos errados. “Eu não sei de onde eles tiraram que isso vai fazer com que aumente o número de mulheres grávidas, como se o problema fosse a falta de informação, e não é” 

Beatriz Rodriguez pondera que incentivos aliados a agendas conservadoras podem tensionar os direitos reprodutivos, reforçando expectativas tradicionais sobre a maternidade ao invés de ampliar a autonomia da mulher, mas que os impactos demográficos também servem para pressionar o Estado e o mercado a repensarem políticas de cuidado e de trabalho. “Políticas públicas devem garantir condições para que as mulheres possam escolher livremente se querem ou não ter filhos”declara.  

 

Mulheres participam de uma marcha para marcar o Dia Internacional da Mulher em São Paulo, Brasil, em 8 de março de 2025. Foto: Amanda Perobelli/REUTERS
Mulheres participam de marcha do Dia Internacional da Mulher em São Paulo, Brasil, em 8 de março de 2025. Foto: Amanda Perobelli/REUTERS

 

Escolha individual em sociedade individualista  

Um outro argumento em comum dado pelas entrevistadas para optarem por não terem filhos tem a ver com o aumento do consumo de telas, da violência e de conflitos bélicos e discursos de ódio. Mariana Maiara também traz seu ponto de vista como mulher que repensa a maternidade: “existe o custo físico e psíquico de gerar um filho em uma sociedade que não está minimamente preocupada com questões climáticas e sociais; uma sociedade em que os direitos humanos e o bem-estar social não são vistos como prioridade, mas sim uma política de guerra e armamentista. Isso sem contar os casos alarmantes de violência de gênero”.  

Vitória Lemos comenta que sempre conversa com amigas que também não desejam ter filhos sobre o ideal de uma sociedade mais colaborativa: “Pensar em projetos de como criar uma sociedade que vive como uma comunidade e que se ajuda. Já falei com muitas amigas minhas que se existisse uma comunidade de várias mulheres e elas pudessem se ajudar a cuidar dos filhos e criar de fato uma comunidade. Se a gente visse mais além dessa instituição do casal apenas”, argumenta.  

De acordo com Beatriz Rodrigues, esse tema é cada vez mais relevante considerando que o Brasil também passa por um envelhecimento populacional, e que com a queda da natalidade, haverá cada vez mais mulheres idosas sem filhos, representando uma possível fragilidade em suas redes de apoio. Através da recente aprovação da Política Nacional de Cuidados, existe o reconhecimento do Estado de que o cuidado é uma responsabilidade coletiva, não só para crianças, mas também para idosos. E a partir dela, mais ações públicas deverão ser geradas para que as mulheres se sintam seguras para terem filhos, ou não.  

Repercussões vão além das vítimas diretas e influenciam relações, hábitos e a formação social de jovens
por
Catarina Lafetá
Gabriela Dias
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09/04/2026 - 12h

O crescimento dos casos de violência contra a mulher no Brasil tem acendido um alerta não apenas para a segurança feminina, mas também para os efeitos diretos na vida de adolescentes. Jovens expostos a esse cenário, seja como vítimas indiretas ou diretas, enfrentam consequências emocionais, sociais e educacionais a longo prazo.

Em 2025, a pesquisa DataSenado detectou que cerca de 3,7 milhões de mulheres brasileiras sofreram algum tipo de violência doméstica ou familiar. Dados do estudo “Elas Vivem: a urgência da vida”, da Rede Observatórios da Segurança indicam que casos de agressão contra mulheres são registrados diariamente em todo o país. No seu auge, 1.568 casos de feminicídio, o maior número da última década, sendo que a maioria ocorreu dentro de casa, cometida por parceiros ou ex-companheiros. Em ​​relação aos crimes sexuais, pesquisa do IPEA conduzida em 2023 aponta cerca de 822 mil casos de estupro por ano no Brasil. 

“Quando a gente tem esse nível de violência crescendo bruscamente, tem impactos em todas as áreas, saúde, comportamento e hipervigilância, por exemplo” afirma a psicóloga colaboradora da FMUSP, Monik Pauli Augusto, discutindo o impacto direto desse cenário na vida de adolescentes. Os efeitos da violência vão além do momento do crime, a exposição constante a notícias de violência, somada a experiências cotidianas de assédio, tem alterado comportamentos desde cedo. Entre meninas, é cada vez mais comum evitar sair sozinhas, mudar rotas, deixar de frequentar determinados espaços e até modificar a forma de se vestir por medo, impactando sua autonomia. 

Reprodução/CEDM
Campanha contra a agressão da mulher. Foto: Reprodução/Conselho Estadual dos Direitos da Mulher

O medo e a insegurança interferem na forma como os jovens se relacionam, dificultando a criação de vínculos de confiança. Para a psicóloga, “[...] as meninas têm medo e acabam evitando [certas relações sociais] e eles [meninos adolescentes] acabam tendo a reação de ir ao extremo, que é o red pill [...]”. Este movimento está se tornando cada vez mais popular entre adolescentes, disseminando e normalizando ideais misóginos e regressivos sobre o papel da mulher. Uma pesquisa conduzida pela King's College de Londres que engloba 29 países, incluindo o Brasil, mostra que homens da geração z, os nascidos entre 1997 e 2012, são duas vezes mais propensos a acreditar que mulheres devem se submeter a seus maridos do que os Baby Boomers (1946-1964), assim, relacionamentos amorosos podem se tornar marcados por ciúmes excessivos, controle e comportamentos abusivos.

Além dos espaços físicos, a violência também se expande no ambiente digital. Casos de exposição íntima sem consentimento, chantagem, cyberbullying e controle em relacionamentos têm se tornado frequentes entre jovens. Esse cenário reforça a importância de legislações como o Estatuto da Criança e do Adolescente e os princípios do chamado ECA Digital, que reconhecem a necessidade de proteção integral também nas redes sociais.

O Brasil possui legislações no enfrentamento à violência de gênero, como a Lei Maria da Penha, que estabelece mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica contra a mulher, incluindo medidas protetivas de urgência, a Lei do Feminicídio, que  tipifica o assassinato de mulheres por razões de gênero como crime hediondo. No entanto, o aumento dos casos indica que a existência das leis, por si só, não tem sido suficiente. Especialistas defendem que o enfrentamento do problema exige mais do que punição, sendo necessário investir em educação, prevenção e conscientização desde cedo, “Nós mulheres precisamos nos unir, formar redes de apoio”, diz Pauli.

Reprodução/CEDM
Cartazes de conscientização na Central de Atendimento à Mulher. Foto: Conselho Estadual dos Direitos da Mulher

A educação, tanto em escolas quanto dentro de casa, políticas públicas e o fortalecimento de canais de denúncia têm papel fundamental na remediação desse problema. “Esse papel pode ser compreendido em três níveis: repressivo, protetivo e preventivo” , diz a socióloga Julia Garcia, a respeito do encargo dessas instituições. 

Para Garcia, o repressivo é composto por mecanismos de segurança e leis, que precisam ser aplicadas de forma eficaz, enquanto o protetivo consiste no acolhimento de vítimas. Mas a prevenção é onde a escola tem papel central, “por meio da educação é possível transformar a socialização”, diz Garcia. Dessa forma é possível olhar para a raiz do problema e tentar encerrar um ciclo de violência milenar. 

Com o slogan “Constituinte Pra Valer Tem Que Ter Palavra De Mulher”, brasileiras se uniram para reivindicar os direitos das mulheres na elaboração da Constituição de 88
por
Giuliana Zanin
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12/03/2024 - 12h

“Lobby do Batom” surgiu em 1986 como uma aliança nacional de 26 mulheres que foram eleitas por voto direto. Elas revolucionaram um espaço masculino e atuaram na Constituição de 1988 com a inserção afirmativa de direitos femininos representativos. Até a década de 1980, o espaço conquistado pelo Lobby era de Carlota Pereira, a única mulher participante da Assembleia Constituinte de 1934.

Até 2022, a parcela ocupada por mulheres na Câmara dos Deputados era de 15% e no Senado, 14%, de acordo com o site do Congresso Nacional. Há 36 anos, a porcentagem era muito menor: 5,3% do corpo parlamentar. Apesar do número inferiorizado, para aquela época, a conquista da participação parlamentar de advogadas, médicas, jornalistas, professoras e outras profissionais dentro do Congresso foi expressiva.

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Mulheres levaram suas reivindicações ao Congresso e se uniam a quem as apoiavam. Foto: Arquivo Nacional

Maria Ruth dos Santos, Comba Marques Porto e Benedita da Silva, que já eram atuantes e estudiosas do movimento feminista no Brasil, foram convidadas a participar de um Congresso patrocinado pela Organização das Nações Unidas (ONU), realizado no Rio de Janeiro, nos anos 1970, uma década antes da criação do Lobby do Batom.

O evento reuniu feministas e militantes da causa para discutirem o papel feminino dentro da sociedade brasileira. O sucesso foi grande e, ao longo dos anos, as intelectuais criaram grupos de estudo para revisar o Código Civil vigente desde os anos 1920 e participaram de sindicatos por todo o país.

 

CRIAÇÃO DO NOME

O “Lobby do Batom” foi idealizado satiricamente por jornalistas homens do Jornal do Brasil, que nomeavam o batom como a única representação respeitada de uma mulher.

As primeiras ondas feministas procuravam se distanciar da feminilidade estruturada pelo salto alto e maquiagem. Por isso, algumas integrantes ainda atuantes não concordaram com o nome do movimento, mesmo que ele tenha revolucionado a participação feminina na política. Isso porque a referência a batom remetia a um símbolo de fragilidade.

“Fui uma feminista contra o sistema, contra uma mentalidade, mas, principalmente, contra uma realidade”, afirma Silvia Pimentel, professora de filosofia do Direito da PUC-SP e integrante do movimento feminista nos anos 1980. A intelectual conta como a experiência de conhecer mulheres de tantas regiões do Brasil permitiu que as reivindicações de cada uma fossem incluídas na Carta Constituinte. “Elas me perguntavam, ‘O que vocês vieram fazer aqui no Sertão da Bahia, querer ouvir da gente?’, e era muito bonita a experiência porque eu dizia que ‘a gente veio ouvir de vocês, o que é que as mulheres brasileiras do Sertão precisam’”, conta a integrante do Comitê para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher na ONU durante os anos de 2005 e 2016.

As pautas de 1975, como foram chamadas as reivindicações levantadas naquela época, colocaram em questão, além da resistência pela luta do direito ao voto - defendida pela primeira onda do feminismo -, temas como a violência doméstica, a concepção hierárquica familiar e direitos reprodutivos, inclusive a descriminalização do aborto.

Nas votações diretas de 1986, dos 559 deputados eleitos, 26 cadeiras foram compostas pelo grupo feminino. Após 20 anos de regime autoritário, a Constituição estava em processo de revisão e foi o momento prático em que as ativistas conquistaram espaço na elaboração da nova Carta.

Com o sucesso das lutas e dos congressos ao redor de todo o Brasil, elas conquistaram um Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres (CNDM), projeto federal que reforçou o nome feminino na Assembleia Constituinte e serviu de subsídio para mais de mil mulheres no dia 26 de agosto de 1986 elaborarem a Carta das Mulheres Brasileiras aos Constituintes.

Dentro e fora do Congresso, o CNDM organizou a campanha “Mulher e Constituinte”, que tinha o slogan “Constituinte Pra Valer Tem Que Ter Palavra De Mulher”. Assim, ao ganhar reconhecimento, o órgão trabalhou junto aos parlamentares constituintes pela reivindicação da eleição de mais mulheres para a elaboração da nova Carta Magna, e incluiu as 26 eleitas no processo, em 1987.

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Silvia Pimentel viajou pelo Brasil ouvindo mulheres. Foto: Claudio Margini Junior

“O que foi notável é que a luta não se limitou a  nós mulheres, não às suas especificidades, elas mostraram que essa conquista nos coloca dentro de um contexto mais amplo das questões gerais da Democracia que interessam a todos, homens e mulheres”, conta Silvia sobre a importância da participação das mulheres no texto jurídico. Ela afirma que essa conquista foi “a mais ampla e profunda articulação reivindicatória feminina brasileira". 

Um marco histórico da política da mulher grandemente influenciada pela teoria e práxis feministas dos 10 anos anteriores a 1986, conduziu a representação  da mulher urbana e a mulher rural; a mulher dos meios acadêmicos, a semi analfabeta e a analfabeta; a branca e a negra; a jovem, a madura e a idosa; a trabalhadora e a dona de casa; patroa e empregada; a casada, a companheira e a mãe solteira; a bem assalariada e a explorada.

 

MUDANÇAS IMEDIATAS

Silvia relembra com muita facilidade de alguns feitos realizados pelas militantes logo após a promulgação da Constituição de 1988: “Nós conseguimos repetir no artigo 226, no caderno matrimonial, que homens e mulheres tivessem igualdade na condição na família. Que mulheres não fossem designadas apenas ao trabalho doméstico. Inserimos no parágrafo oitavo deste artigo, a responsabilidade e obrigação do Estado coibir qualquer tipo de violência doméstica”. Outras também foram relevantes, como a licença-maternidade de 120 dias, ações para combater a violência doméstica, igualdade salarial entre homem e mulher e o direito à posse da terra igual ao homem e à mulher.

Na escritura da Carta, as mulheres apresentaram 3.321 emendas – 5% em relação ao total apresentado por todos os deputados e senadores (62 mil aproximadamente). Entre as conquistas da questão feminina, 80% foram aprovadas.




 

Em 2023, as brasileiras sofreram com a maior ocorrência de feminicídios da história desde a existência da Lei acerca do crime, aponta o FBSP
por
Luísa Ayres
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08/03/2024 - 12h

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 1.463 mulheres foram assassinadas em 2023 em decorrência, principalmente, de violência doméstica. Em comparação ao ano anterior, no mesmo período, o aumento deste tipo de crime foi de 1,6%.

Desde 2015, quando a Lei foi sancionada, 10.655 mulheres perderam a vida.

Gráfico 1

 

O relatório ainda aponta que o estado mais violento para uma mulher foi o Mato Grosso, enquanto que os com menores índices foram São Paulo e Amapá. O Ceará, apesar de líder das mais baixas taxas do crime de feminicídio do país, passa por uma crise de subnotificações, em que casos estão sendo registrados apenas como homicídio, distorcendo a realidade dos dados. Essa situação agrava o real mapeamento da situação e compromete a eficácia da Lei.

Já em São Paulo, apesar de menores ocorrências em comparação às outras unidades federativas, houve um aumento de 13,3% quando comparado ao ano de 2022. Isso coloca a região sudeste como a que mais avançou negativamente no assunto.

 

gráfico 2

 

O que é feminicídio?

Segundo a legislação, é considerado feminicídio o assassinato de mulheres cis em decorrência de violência doméstica, familiar, menosprezo ou discriminação à condição de ser mulher.

A pena varia entre 12 a 30 anos e é considerado um crime hediondo, isto é, de natureza grave, sem possibilidade de anistia, fiança, graça ou indulto.

Infelizmente, apenas a Lei Maria da Penha compreende as mulheres trans - o que também é um direito conquistado recentemente (em janeiro deste ano).

Estado, substantivo masculino e opressor

Em meio a este cenário, cada vez mais preocupante e aterrorizador, é preciso que medidas efetivas sejam tomadas e que culpados sejam nomeados e responsabilizados. A começar pelo Governo.

Apesar do aumento do número de feminicídios, o governador de São Paulo, Tarcisio de Freitas, congelou os investimentos destinados ao combate à violência contra a mulher. Essa decisão não só não freou os índices de mortes, como pode ter contribuído ativamente para o aumento de casos de estupro, também em alta nos últimos anos.

Além disso, as delegacias da mulher sofreram para operar com apenas 3% do valor que deveria ter sido entregue conforme a Lei Orçamentária Anual, isto é, R$ 24 milhões. 

Quem somos nós?

Os dados mais recentes que analisam o perfil das vítimas são do ano de 2022. Nele, ficou comprovado que a maioria das mulheres assassinadas tem entre 18 e 44 anos, cerca de 71,9% do total analisado.

Além disso, mulheres pretas e pardas continuam em um lugar de maior vulnerabilidade e constituindo a maioria das vítimas.

Quem são eles?

Os assassinos quase sempre são companheiros atuais ou ex-namorados/esposos. A minoria deles é desconhecida pela mulher, o que nos leva a perceber que em nossos lares, onde mais deveríamos nos sentir seguras, é onde mora o maior perigo - literalmente.

o Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que, quando mortas por estranhos, quase sempre a vítima veio a óbito após o estupro.

Além disso, é preciso analisar também as armas usadas para que crimes como esses aconteçam com tanta frequência. Apesar de muitos continuarem lutando pela liberação e ampliação do porte de armas, elas continuam sendo os instrumentos mais usados para nos matar.

Em 68,6% dos casos, as mulheres foram mortas à tiros. 

Como se proteger

Na maioria dos casos, feminicídios decorrem de relações abusivas. Por isso, estar atenta aos mínimos sinais é fundamental para garantir sua segurança.

Em entrevista à AGEMT, a psicóloga Marta dos Reis Marioni, especialista em psicologia clínica e mediação de conflitos, explica como atitudes tóxicas e controladoras se manifestam dentro das relações até que cheguem no estopim da violência física.

“Eu me referiria a alguns exemplos, no qual começam de forma sútil e em escalada de mudanças de postura no sentido ações e reações mais agressivas, criação e necessidade da implantação de ideias ou fantasias que tem que ser aceito pela outra pessoa de qualquer forma. Estas situações vão levando ao empoderamento, no sentido negativo, de uma das pessoas envolvidas, e a um desempoderamento de posicionamento da outra”, explica.

Nesta fase, é importante perceber que já existe violência psicológica e que consequências mais duras já podem ser sentidas pela vítima. 

“A pessoa em situação de desempoderamento pode começar a perceber mudanças emocionais, comportamentais , cognitivas, físicas e sexuais que levam a um sofrimento psíquico muitas vezes com um não reconhecimento das causas e origens”, pontua. 

Por isso, ao se sentir dessa forma ou perceber sinais de alerta, procure por ajuda e denuncie.

Onde encontrar suporte 

180

O Ligue 180 é um serviço de utilidade pública destinado ao enfrentamento à violência contra a mulher. Além de receber denúncias de violações contra as mulheres, a central encaminha o conteúdo dos relatos aos órgãos competentes e monitora o andamento dos processos. Além disso, ainda é possível se informar sobre os direitos da mulher, sobre a legislação vigente acerca do tema e até mesmo buscar por redes de atendimento e acolhimento.

App SOS Maria da Penha

app 1
Print do app SOS Maria da Penha / Reprodução própria.

O aplicativo SOS Maria da Penha conta com botões de emergência que permitem acionar instantaneamente a polícia além de disponibilizar informações sobre redes de apoio próximas à sua residência, como abrigos seguros e possibilidade de assistência jurídica especializada. 

App S.O.S Mulher

Desenvolvido pela Polícia Militar do Estado de São Paulo, destina-se mais especificamente às mulheres que já possuem medida protetiva, também permitindo o acionamento 24h da polícia.

Delegacia da Mulher

Tratam-se de delegacias especializadas no atendimento de mulheres em situação de vulnerabilidade ou exposição à violência doméstica, familiar e crimes sexuais.  

Apesar da demora frequente para atendimento e, por vezes, a desumanização da vítima, é um espaço preparado para realizar o exame de corpo de delito, solicitar por transporte ou escolta para que possa retirar itens de sua casa sem correr maiores riscos e realizar denúncias. 

Até quando?

Infelizmente, a luta das mulheres na sociedade perpassa por diversas camadas. Equidade, igualdade salarial, direito de tomar decisões acerca de seu próprio corpo, viver em segurança e poder contar com políticas públicas são algumas delas.

Por isso, é importante que o dia 8 de março não seja apenas uma data comemorativa marcada em um calendário, fortemente influenciada pela indústria capitalista para a venda de presentes e flores.

Experimente, neste Dia das Mulheres, repensar atitudes, comportamentos e falas, juntando-se à nossa luta.

 

Argela Laya, a mulher que inspira o feminismo venezuelano
por
Luísa Ayres
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08/03/2024 - 12h

O sangue venezuelano sempre fora derramado em regimes ditatoriais. Ainda assim, é este mesmo sangue que faz pulsar a luta social e a sede de mudanças do país. 

Em uma nação com uma democracia frágil, nasce então uma mulher forte. 

Forte ao ponto de sustentar o peso de ser uma mulher negra, pobre, mãe solteira, militante, deputada, vereadora e sobrevivente de um estupro. 

Argelia Laya
Argelia Laya, as multifacetas da grandeza  / Reprodução: Venezuelanalysis

Argelia Laya nasceu em 1926. E com ela o feminismo latino-americano  deu a luz à consciência de outras milhares de mulheres por décadas no país.

Laya vem de uma família composta por uma mãe militante da Agrupação Cultural Feminina e por um pai integrante de guerrilhas populares. Nesta época, se combateu fortemente a entrada do comunismo no país. Inclusive, o Presidente Juan Bautista Pérez foi acusado pelo Parlamento de permitir a circulação do primeiro Manifesto do recém formado Partido Comunista da Venezuela.

Quando completou 5 anos de idade, Argelia Laya vivenciou a prisão de seu pai. Acabou por isso, migrando para um bairro popular e sofrendo com a pobreza. 

Em sua escola, a Escola Normal, pode provar que de normal mesmo não tinha nada. E que tão pouco aceitaria que a normalidade em seguir padrões lhe guiasse. Passou a fazer parte da União de Mulheres Jovens (organização do Partido Comunista), do jornal da instituição de ensino e tornou-se porta-voz de sua comunidade. 

Ao se formar professora, com 19 anos, é vítima de crime sexual - e para piorar, acaba ficando grávida. Preferiu enfrentar então, mais uma vez, os julgamentos da sociedade, ao viver o resto de sua vida com o estuprador. 

Para muitos, um escândalo. Para Laya, liberdade. E foi pelo anseio desta liberdade que lutou durante toda sua vida. 

Em seus primeiros anos no Partido Comunista da Venezuela (PCV), resistiu ao ditador Marcos Pérez Jiménez, organizando mulheres na Junta Patriótica Feminina, lutando pelo sufrágio e divulgando manifestos. 

E nesta mesma data, 8 de março, há 66 anos atrás, participou da comemoração do Dia Internacional da Mulher de 1958, no Novo Circo de Caracas, integrando a delegação do mesmo evento no ano seguinte. Anos depois, mobilizou junto a outras mulheres a Comissão Bicameral para os Direitos da Mulher no Congresso Nacional, criada para fiscalizar o cumprimento da Convenção Internacional para a Eliminação de toda Forma de Discriminação contra a Mulher. 

Hoje, a Escuela Feminista Del Sur Argelia Laya, extende seu legado, oferecendo planos de parto humanizado, programas de formação, pesquisas de gênero e contribuições ao feminismo socialista. A história de Argela Laya continua viva em cada protesto e organização social venezuelana, transpassando gerações e democratizando o conhecimento.

 

Sua batalha continua e incentiva outras minorias a enfrentarem opressões
por
Júlia Zuin
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07/03/2024 - 12h

Genocídio é uma palavra forte. Não à toa o chanceler de Israel declarou o presidente Lula como “persona non grata” ao seu Estado após a figura brasileira “dar nome aos bois” quando disse a respeito do exterminio que hoje ocorre na faixa de Gaza. Essa afirmação de fato incomoda, já que ser reconhecido desta forma não é das melhores. 

De acordo com o Museu do Holocasto Estadunidense, a expressão “genocídio” não existia antes de 1944; ela foi feita para denominar crimes que frisam eliminar a existência física de grupos. Quem desenvolveu o conceito foi Raphael Lemkin, advogado judeu, que juntou a palavra grega “geno”, que significa “raça”, com a expressão latina “cídio”, cuja tradução é “matar”.

É interessante que na raiz deste substantivo há a presença de uma derivação do latim, uma língua antiga que influenciou tantas românicas na América Latina - isso porque é uma região que sofreu ao extremo com colonizações que resultaram em extermínio de povos originários. 

A Guatemala, na América Central, é um destes exemplos. Colonizada pelos espanhóis desde 1519, o país foi exposto a banhos de sangue e doenças europeias, estas, antes desconhecidas pelos povos ameríndios. Mesmo após sua independência, em 1821, o país segue colhendo frutos de um passado tenebroso.

Em situações de opressão não é incomum a existência de figuras de resistência; neste caso, Rigoberta Menchú é uma delas. Nascida em 9 de janeiro de 1959, a mulher é uma ativista fiel aos direitos humanos, principalmente dos povos indígenas. Descendente do grupo maia quiché, Rigoberta, em sua infância, viveu durante um período político turbulento, uma guerra civil que durou em média 40 anos.

 

Foto de autoria de Joshua Nv
Foto de autoria de Joshua Nv

 

Menchú foi vítima do conflito de diversas maneiras; uma delas, e talvez a mais brutal, tenha sido o assasinato de seus pais e irmãos, que foram perseguidos acusados de envolvimento com a resistência armada contra o regime vigente. 

Aos vinte anos, Rigoberta se filiou ao Comité de Unidad Campesina, CUC, uma organização nascida em 1978 que rejeitava a militarização, a discriminação dos povos indígenas e tinha como objetivo melhores salários agrícolas - ela era formada principalmente por camponeses e trabalhadores da terra.

No início dos anos 80, Rigoberta se juntou à Frente Popular, um ato que chamou a atenção dos governadores da época, estes, que eram subordinados ao general e ex-ditador Efraín Ríos Montt. Em 2013, Efraín foi julgado pelo assassinato de 17.771 indígenas ixiles e maias, e foi condenado a 80 anos de prisão; entretanto, 10 dias depois, o veredito foi suspenso pela Corte de Constitucionalidade. 

A militante se exilou no México e, lá, não se silenciou; muito pelo contrário, Menchú divulgou a situação em que a Guatemala se encontrava e influenciou outros indivíduos em situações precarizadas a lutar pelos seus direitos. 

Durante sua estadia no país vizinho, a escritora venezuelana Elisabeth Burgos-Debray reconheceu sua história e a contou em um livro cujo título é: “Me llamo Rigoberta Menchú y así me nació la conciencia”, ou seja, “Me chamo Rigoberta Menchú e assim me nasceu a consciência”.

Rigoberta tentou voltar ao seu território natal pela primeira vez em 1988, mas não foi bem recebida no país; ela teve sua vida ameaçada e foi detida. Entretanto, após o episódio, conseguiu, aos poucos, retornar à Guatemala. 

Em 1992, 500 anos após a chegada dos espanhóis às Américas, Rigoberta Menchú foi ganhadora do Prêmio Nobel da Paz “pela sua luta por justiça social e reconciliação étnico-cultural baseada no respeito aos direitos dos povos indígenas” (FUNDAÇÃO NOBEL, 1992). Já houveram 621 premiações de Nobel. Apenas 65 mulheres o venceram - e Menchú foi uma delas. 

 

Foto de autoria de Daniel Hernández-Salazar
Foto de autoria de Daniel Hernández-Salazar

 

Após o recebimento do prêmio, foi aberta a “Fundación Rigoberta Menchú Tum”, uma organização que tem como função propagar a cultura da paz. De acordo com o site, “É guiado por princípios, valores humanos e cosmogônicos e pela diversidade étnica, cultural e política dos povos do mundo. Trabalhamos pela justiça, pela democracia, pelo pleno respeito pela Mãe Terra e pelos direitos humanos, especialmente dos povos indígenas.”.

Em 1996 foi assinado um acordo de paz entre o governo e os guerrilheiros, o que pôs fim à maior guerra civil da América Latina. O envolvimento político e social de Menchú continuou mesmo depois do fim do embate. 

Hoje em dia, Rigoberta Menchú é promotora da Década Internacional dos Povos Indígenas, um plano da UNESCO que incentiva a visibilidade para culturas indígenas; além disso, a mulher não parou de propagar seus ideais e luta, sempre com mais força, a favor de boas causas. 

Conheça as lutas e avanços de mulheres latino-americanas fundamentais para a evolução do feminismo ao longo dos séculos.
por
Luísa Ayres Dias de Oliveira
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06/03/2024 - 12h

Não há muito o que comemorar no dia 8 de março. Afinal, as mulheres continuam vivenciando cenários de terror e opressão, dia após dia.  

Em 2023, a Central de Atendimento à Mulher, do governo federal, recebeu quase 75 mil denúncias de violência pelo 180, aponta o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Além disso, no mesmo ano, o número de estupros aumentou em quase 14,9%. Foram 34.000 vítimas em apenas 6 meses, conforme o Fórum de Segurança.  

Ainda assim, a AGEMT luta para que as pautas sobre mulheres não se limitem às tragédias, colocando a população feminina quase sempre como personagem secundário e indefeso de histórias tristes.  

Por isso, vamos falar sobre mulheres latino-americanas que talvez você nem conheça - mas que se apresentaram como lideranças revolucionárias em suas lutas e defesa de seus ideais. 

A primeira delas é Nísia Floresta. 

 

Imagem Nísia Floresta
Nísia Floresta é considerada por muitos estudiosos como "a primeira feminista do Brasil" / Reprodução: Centro de Referências em Educação Integral.

A potiguar Nísia Floresta, pseudônimo para Dionísia Gonçalves Pinto, nasce em 12 de outubro de 1810 – e vem ao mundo como quem já tinha certeza de que poderia mudá-lo.  

Pertencente à elite local, casou-se aos 13 anos de idade com o proprietário de terras Manuel Alexandre Seabra de Melo. Meses depois, decide romper os laços e retornar à casa de seus pais. Uma atitude praticamente impensável em sua época. 

Mais tarde, com apenas 22 anos, escreve a obra "Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens", debruçando-se sobre as diferenças e opressões sociais às quais as mulheres são submetidas.  

Nísia sabia que aquela que escreve é a mesma que deseja ensinar algo com o que diz. 

E assim o fez: aos 28 anos, decide abrir uma escola para meninas, numa época em que o ser feminino era destinado apenas aos serviços domésticos, repassados nas instituições de ensino como saberes únicos e fundamentais.  

A jovem, porém, se preocupou com o ensinamento da gramática, da escrita e leitura do português, do francês e italiano, das ciências naturais e sociais, da matemática, da música e até mesmo da dança. 

O "Colégio Augusto", como fora nomeado, estava localizado no Rio de Janeiro, destino escolhido por Nísia Floresta  após a explosão da Guerra dos Farrapos. Naquele momento, a feminista residia em Porto Alegre e teve inclusive a oportunidade de conhecer os revolucionários Anita e Giussepe Garibaldi. 

Vale destacar que os embasamentos de Floresta foram influenciados pelo filósofo Augusto Comte, pai do positivismo. Assim, a autora teve a oportunidade de conviver com essa linha de pensamento, em que era fundamental que as mulheres fossem tidas como figuras sociais imprescindíveis para a evolução e crescimento das sociedades. 

A  imprensa, no entanto, tratou de condená-la fortemente ao longo de sua vida ativista, acusando-a de promíscua e deturpadora. O jornal O Mercantil, de 2 de janeiro de 1847, opinava: 

“… trabalhos de língua não faltaram; os de agulha ficaram no escuro. Os maridos precisam de mulher que trabalhe mais e fale menos”. 

Afinal, eles sabiam que a jornada de grandes mulheres em universidades e cargos de poder começava ali. Trata-se de um dos primeiros momentos de ruptura estrutural em um Brasil imperial. 

Ainda assim, é importante considerar que, enquanto muitas garotas brancas da alta sociedade tiveram a chance de aprender com Nísia Floresta, outras mulheres negras ainda eram escravizadas no mesmo período.