Mulheres enfrentam desigualdades estruturais que alteram sua rotina e sua identidade, de acordo com padrões femininos impostos pela sociedade
por
Carolina Machado
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07/05/2026 - 12h

Segundo relatório do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizado em 2025, as mulheres dedicam cerca de 21 horas semanais aos cuidados da casa e dos filhos, praticamente o dobro do tempo gasto pelos homens. Na escala 6x1, por exemplo, o único dia de folga para essas mães é dedicado à limpeza, alimentação e cuidados com os filhos; são 65 horas semanais, contando trabalho formal e informal invisibilizado. Essa jornada dupla, realizada por mais de 90% das brasileiras, altera a rotina e identidade feminina de acordo com cada realidade, a partir de exigências sociais e construções culturais relacionadas à mulher. 

Mesmo fazendo parte de um recorte privilegiado dessas brasileiras, Estéfi Machado, de 48 anos, não romantiza a rotina como mãe nas redes sociais. Ela trabalha de casa e, com a chegada de seu filho Teo, hoje aos 18 anos, tudo se tornou mais caótico. “Eu fazia meus freelas em um quartinho e, quando ele nasceu, não tinha mais tempo para terminar minhas coisas”, relata em entrevista. 

“Mesmo com o apoio do meu marido e da minha família, as tarefas sempre ficaram para mim. Eu me desdobrei, me sacrifiquei e desejo ser vista. Afinal, tanto eu, quanto outras mulheres criamos novos cidadãos para o mundo”, conta. Ela ressalta que, como qualquer mãe, adora presentes e cartinhas, mas reconhece que isso não é suficiente no Dia das Mães, o reconhecimento precisa vir acompanhado de uma mudança real do comportamento dos filhos e dos maridos dentro de casa. 

Estéfi Machado e seu filho Teo, de 18 anos. Reprodução: vInstagram/@blog.estefi.machado
Estéfi Machado e seu filho Teo, de 18 anos. Reprodução: vInstagram/@blog.estefi.machado

Adriana Machado, psicóloga clínica formada pelo Mackenzie, descreve a maternidade como uma construção subjetiva e sociopolítica profunda, marcada pela reestruturação feminina. “É uma complexa transição de vida que exige escolhas e adaptação aos desafios impostos ao novo papel”, esclarece. Ela acrescenta que, apesar de ser uma vivência individual e única para cada mulher, todas são atravessadas por imposições sociais e culturais, provenientes da estrutura de uma sociedade patriarcal, que acarretam mudanças de rotina e na própria identidade feminina.

No caso de Estéfi, sua formação como designer se fundiu com a maternidade e, assim, começou a dividir com o público suas invenções criativas que mãe e filho projetavam enquanto cuidava de Teo em casa. “Essa é uma realidade que não faz parte da maioria das brasileiras”, reconhece. Mesmo assim, a criação de conteúdo surgiu em sua vida como um desabafo, assim como qualquer outra mãe gostaria: enxergar-se e ser enxergada por outras mulheres que exercem a mesma função. “Não é blogueiragem, não. Ele brincava com tecido, papel e papelão, e criávamos juntos invenções com os meus materiais de design”, explica. 

Colagem com amor de mãe, feito por Estéfi Machado Reprodução: Instagram: @blog.estefi.machado
Colagem "com amor de mãe", feito por Estéfi Machado Reprodução: Instagram: @blog.estefi.machado

A designer completa sobre a importância de desconstruir estereótipos e papéis de gênero sendo mãe de um menino. “Isso é importante para mim, estou toda hora falando para ele prestar atenção no jeito com o qual trata as amigas, as primas, as tias, a avó e, futuramente, a parceira”, relata. Estéfi  acrescenta, dizendo que Teo reconhece o esforço da mãe em orientá-lo ao apontar situações, dentro e fora de sua rotina, que diminuem as mulheres e o trabalho realizado por elas nas jornadas de cuidado.

Já Adriana complementa, declarando que o ato de cuidar não se refere apenas ao aspecto prático: “faz parte da estrutura para a constituição do psiquismo e da identidade de outro ser humano”. A psicóloga complementa, dizendo que a experiência materna é um encontro entre o desejo, as responsabilidades e um novo modo de ser e criar no mundo. Ainda assim, é um trabalho informal que não é reconhecido, independentemente da posição social em que a mãe ocupa.

Estéfi Machado em ensaio fotográfico. Reprodução:Instagram/ @blog.estefi.machado
Estéfi Machado em ensaio fotográfico. Reprodução:Instagram/ @blog.estefi.machado

Estéfi e Adriana concordam que até  mesmo as mães feministas lidam com uma relação desigual dentro de casa, fruto de uma estrutura patriarcal que incentiva mulheres a assumirem todas essas responsabilidades. “Se nem mesmo quem tem voz consegue se libertar dessas estruturas, o que dizer daquelas muitas que sofrem com a sobrecarga caladas e solitárias, sem tempo de questionar e repensar sua própria realidade”, conclui a psicóloga. 
 

Papel da imprensa na consolidação feminina no esporte e a importância dos registros para a construção de uma identidade nacional
por
Carolina Nader
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28/04/2026 - 12h

Localizado no Estádio do Pacaembu, o Museu do Futebol foi inaugurado na capital paulista em setembro de 2008. A experiência é interativa e está repleta de curiosidades, incluindo um extenso acervo histórico e atrações sobre ídolos, como Pelé e Marta. Em 2024, passou por reformas para atender questões contemporâneas, como a naturalização da participação feminina no esporte.

Suas exposições narram para além do mundo esportivo. Algumas são baseadas nos trabalhos da imprensa: manchetes estão por toda parte e as fotografias contam histórias. A popularização dessa prática esportiva se desenvolve no Brasil especialmente pela influência do rádio. Por volta de 1920, os jornais passaram a investir na veiculação das notícias e incentivaram a promoção dos jogos ao perceberem a lucratividade, criando uma dinâmica econômica que passou a se sustentar de maneira circular.

Durante a década de 1940, houve a proibição das mulheres no futebol. Nesse período, existiam impressos, como o “Jornal dos Esportes”, que apoiavam e defendiam a participação feminina e a cobriam positivamente. Em contrapartida, jornais mais conservadores, como o “A Batalha”, se posicionavam de forma contrária e evitavam noticiar sobre as jogadoras.

Segundo Renata Beltrão, guia do Museu do Futebol, “a imprensa não é uma coisa única, cada veículo defende seus pontos de vista.” Para ela o futebol feminino, por muito tempo, foi retratado como algo exótico. “As perguntas nunca fogem do padrão. Querem saber quanto calçam, como se maquiam e se querem casar”, afirma.

Time feminino de futebol do Rio Grande do Norte, década de 1920. Foto: Carolina Nader (@nadercaroll)
Time feminino de futebol do Rio Grande do Norte, década de 1920. Foto: Carolina Nader (@nadercaroll)

A partir da liberação dos jogos femininos, na década de 1980, a primeira seleção feminina foi formada para o Mundial experimental da China em 1988. A cobertura midiática era praticamente inexistente. Uma única repórter, Claudia Jacobs, acompanhou a equipe brasileira, registrando sozinha os acontecimentos. As imagens que existem desse momento são de autoria da própria jornalista e das jogadoras.

Renata conta que houve um período considerável na linha do tempo do Brasil no qual a imprensa silenciou. De acordo com ela, não tratar os arquivos feitos caseiramente e de forma amadora como fontes históricas leva a perda identidária da nação. “Isso é muito importante. Saber de que ponto de vista você conta essa história, que memórias você valoriza, o que você considera como um registro digno de ser guardado, preservado e mostrado,” relata Beltrão.

Após a reforma, algumas salas passaram a enfatizar a ideia da nação brasileira a partir das coberturas jornalísticas e pela fotojornalismo. O museu trata em paralelo os acontecimentos do futebol e os do Brasil, mostrando como o esporte influencia o desenvolvimento da identidade social.

“O que queremos mostrar é o que é o Brasil e como o futebol vem junto, a forma como caminham lado a lado”, a guia finaliza.

Ações de governos como Rússia e França tentam tratar “sintoma” ao invés da causa da queda na natalidade
por
Daniela Cid
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09/04/2026 - 12h

 

Medidas controversas vêm sendo adotadas por países onde a crise demográfica já é um risco para a manutenção do sistema. Vladimir Putin, na Rússia, já vinha se preocupando com a queda da fertilidade desde que chegou ao poder, e recentemente aprovou medida para que mulheres que não queiram engravidar sejam direcionadas a um psicólogo para que mudem de ideiaDesde 2024, o presidente da França Emmanuel Macron, desenvolve política chamada de “rearmamento demográfico” contra a infertilidade. Na época, o anúncio gerou forte controvérsia com a Federação Nacional dos Centros de Informação sobre os Diretos das mulheres e das Famílias, e desde fevereiro de 2026 o governo passou a enviar cartas a todos os jovens franceses de 29 anos com orientações sobre fertilidade e o risco de não congelamento de óvulos.  Na mesma linha, Japão e Coreia do Sul têm adotado outras medidas isoladas devido à queda populacional, como a gratuidade de creches e aumento da licença paternidade.    

Em entrevista para a AGEMT, a antropóloga Mariana Maiara Soares Silva afirma que tais medidas, diante do empoderamento feminino, podem ser vistas como uma tentativa de se tratar um “sintoma” ao invés da causa da queda na gravidez, que reside nas condições sociais nas quais mulheres não se sentem seguras para gerar e criar um filho. “Em certa medida, podemos considerar uma violação de direitos quando, no caso da Rússia, mulheres são coagidas a consultar profissionais de saúde mental por não quererem filhos, como se não fossem conscientes ou capazes de suas escolhas”, argumenta. No caso da França, Mariana comenta ser uma ameaça à autonomia já conquistada, pois instrumentaliza o corpo de mulheres que não querem engravidar e reforça estigma conservador que sofrem devido a essa escolha, tendo seus direitos e sexualidade questionados.  

De acordo com Beatriz Rodriguez Sanchez, doutora em ciência política pela USP e pesquisadora da Rede de Pesquisas em Feminismos, dentre os vários motivos pelos quais cada vez mais mulheres escolhem não engravidar estão: a dificuldade de conciliar trabalho remunerado com ascensão profissional e maternidade, e a divisão desigual do cuidado dos filhos, que sempre recai sobre a mulher.  

A consciência da escolha 

Vitória Lemos Amaro, 37 anos, brasileira autônoma vivendo em Paris há quase 7 anos, tomou a decisão de não ter filhos após compreender que tinha muitos sonhos a realizar. Foi percebendo, com o tempo, que engravidar não era exatamente um desejo, mas sim uma construção social, algo que era esperado dela como mulher: “Eu sempre dizia ‘se eu tiver filhos’ ou ‘quando eu tiver filhos’, mas no momento em que pude olhar com os meus olhos para a minha vida e entender que isso de fato não cabia, foi quando eu parei de falar ‘se eu tiver filho’, ‘quando eu tiver filhos’ e passei a dizer ‘eu não quero ter filhos’, ‘eu não vou ter filhos’, e passei a construir a minha vida a partir dessa escolha”, explica. Ela também comenta que enxerga a ação do governo francês de enviar uma carta aos jovens falando sobre os riscos da infertilidade como uma tentativa de solucionar os motivos errados. “Eu não sei de onde eles tiraram que isso vai fazer com que aumente o número de mulheres grávidas, como se o problema fosse a falta de informação, e não é” 

Beatriz Rodriguez pondera que incentivos aliados a agendas conservadoras podem tensionar os direitos reprodutivos, reforçando expectativas tradicionais sobre a maternidade ao invés de ampliar a autonomia da mulher, mas que os impactos demográficos também servem para pressionar o Estado e o mercado a repensarem políticas de cuidado e de trabalho. “Políticas públicas devem garantir condições para que as mulheres possam escolher livremente se querem ou não ter filhos”declara.  

 

Mulheres participam de uma marcha para marcar o Dia Internacional da Mulher em São Paulo, Brasil, em 8 de março de 2025. Foto: Amanda Perobelli/REUTERS
Mulheres participam de marcha do Dia Internacional da Mulher em São Paulo, Brasil, em 8 de março de 2025. Foto: Amanda Perobelli/REUTERS

 

Escolha individual em sociedade individualista  

Um outro argumento em comum dado pelas entrevistadas para optarem por não terem filhos tem a ver com o aumento do consumo de telas, da violência e de conflitos bélicos e discursos de ódio. Mariana Maiara também traz seu ponto de vista como mulher que repensa a maternidade: “existe o custo físico e psíquico de gerar um filho em uma sociedade que não está minimamente preocupada com questões climáticas e sociais; uma sociedade em que os direitos humanos e o bem-estar social não são vistos como prioridade, mas sim uma política de guerra e armamentista. Isso sem contar os casos alarmantes de violência de gênero”.  

Vitória Lemos comenta que sempre conversa com amigas que também não desejam ter filhos sobre o ideal de uma sociedade mais colaborativa: “Pensar em projetos de como criar uma sociedade que vive como uma comunidade e que se ajuda. Já falei com muitas amigas minhas que se existisse uma comunidade de várias mulheres e elas pudessem se ajudar a cuidar dos filhos e criar de fato uma comunidade. Se a gente visse mais além dessa instituição do casal apenas”, argumenta.  

De acordo com Beatriz Rodrigues, esse tema é cada vez mais relevante considerando que o Brasil também passa por um envelhecimento populacional, e que com a queda da natalidade, haverá cada vez mais mulheres idosas sem filhos, representando uma possível fragilidade em suas redes de apoio. Através da recente aprovação da Política Nacional de Cuidados, existe o reconhecimento do Estado de que o cuidado é uma responsabilidade coletiva, não só para crianças, mas também para idosos. E a partir dela, mais ações públicas deverão ser geradas para que as mulheres se sintam seguras para terem filhos, ou não.  

Grupos misóginos online disseminam ódio contra as mulheres e a violência dispara
por
Pedro Timm
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24/03/2026 - 12h

Nos últimos 10 anos, os casos de feminicídio no Brasil dispararam. Juntamente com o aumento dos crimes, se têm a proliferação de discursos de ódio online. Nas redes sociais, os movimentos misóginos, conhecidos como "manosfera", vão influenciando cada vez mais homens a serem mais másculos, ao mesmo tempo que incita o ódio ao feminino, contribuindo com a violência contra as mulheres. O feminicídio é um conceito criado por Diana Russel, em 1976, com o objetivo de nomear o assassinato de mulher por questões de gênero, assim diferenciando de um homicídio comum. No Brasil, se tornou um crime em 2015 pela Lei 13.104/2015. Mesmo sendo um crime hediondo, e com a maior pena para crimes autônomos no código penal, os casos vem aumentando vertiginosamente.

De acordo com dados disponibilizados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2025 foram registradas 1.568 vítimas de feminicídio, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Estima-se que pelo menos 13 mil mulheres perderam suas vidas em decorrência desse crime desde a criação da lei. É necessário analisar o número e entender motivos de seu crescimento.

Gráfico em linha dos casos de feminicídio no Brasil entre 2015 a 2025
Gráfico disponibilizado pelo Fórum de Segurança Pública sobre os casos de feminicídio. Disponível em https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2026/03/nota-tecnica-dia-mulher-2026.pdf 

A "manosfera" é uma comunidade online focada no desenvolvimento pessoal masculino com frequentes críticas ao feminismo e incitação ao ódio contra mulheres. Surgiu na década de 1990 na internet, porém ainda estava muito difuso. O movimento ganhou força a partir de 2010. Foi dentro da "manosfera" que surgiu o movimento atualmente chamamos de red pill. Começou com grupos online com ideologias misóginas para disseminar a ideia de que as mulheres estariam tomando o espaço social dos homens, criando uma narrativa de homens contra as mulheres.

Angelita Herrmann, consultora do Instituto ProMundo, explicou a adesão do discurso entre os homens. “Colocar uns contra os outros é muito mais fácil. Então, vai se criando um movimento de que homens são vitimizados. É um terreno fértil para o ódio. É a ideia de estar perdendo as oportunidades por causa de uma mulher", explica Herman e acrescenta: "a sociedade moldada pelo patriarcado está em crise".

As mulheres sempre foram obrigadas a serem submissas aos homens, enquanto o gênero oposto foi ensinado a prover e não sofrer em nenhuma ocasião, só sendo possível canalizar seus sentimentos a partir da raiva.  Ao passo que os coletivos feministas foi reivindicando seus direitos nas últimas décadas, a mudança da ocupação social das mulheres se tornou uma insegurança para homens. Muitos se veem sozinhos, em crise de identificação com o ideal masculino da sociedade. “Nós nunca tivemos uma sociedade tão solitária. Não tem mais esse tecido social, ela é individualista, é solitária, e aí você pega uma pessoa solitária, que não consegue se relacionar e cria-se um ambiente favorável para (se eu não consigo me relacionar) para culpar a mulher. Então, tem essa dificuldade inconsciente, subjetiva, em relação à masculinidade”, explica Herrmann.

O meio de disseminação do ódio começou e continua sendo, principalmente, nas redes sociais, que não regulamentadas permitem a produção desse conteúdo. O ECA Digital, vigente desde março de 2026, é uma tentativa de regulamentá-las. Assim como o PL 6396/2025 proposto por Érika Hilton (PSOL/SP), onde o conteúdo misógino propagado nas redes sociais teria sua monetização proibida. Os influenciadores que participam e disseminam a ideia do red pill têm milhões de seguidores. .

Para combater o movimento red pill, que de forma indireta influencia nos casos de feminicídio, a regulamentação das redes é um caminho possível. A ressignificação de masculinidade na sociedade atual é outro. Pensando e analisando a situação, a ONG ProMundo vem trabalhando com a ressignificação da masculinidade e da paternidade. São 28 anos trabalhando nesse objetivo, transformando homens e famílias.

O jeito com que os homens vivem a sua própria masculinidade tem matado os próprios homens.  A presença no debate sobre o feminicídio e sobre a masculinidade é extremamente necessária. “A melhor forma que os homens têm de se engajar é por si próprio. Se engajar mesmo, dizer, gente, não está dando mais, eu não aguento ser este homem que a sociedade está me impondo que eu seja. Então, de que nova masculinidade nós estamos falando? É importante ressignificar”, diz Herrmann.

Os aumentos de casos de feminicídio não aconteceram de forma isolada. Existe uma sociedade que cria mecanismos que facilitam os crimes e o preconceito contra as mulheres e o debate qualificado e o engajamento de todos é um dos caminhos para uma sociedade mais justa.

Cantora lança seu primeiro disco com single em parceria com Danilo Caymmi
por
Daniela Cid
Manuela Abbate
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24/03/2026 - 12h

Em Embu das Artes, a festa de aniversário da cidade foi também a data em que Elisa Dias viu seu destino traçado pela música.   

Mulher preta e periférica, a cantora nascida na Terra das Artes conta à Agemt sua trajetória de amor e dedicação à música em um contexto de dificuldades financeiras, preconceitos e bullying.  

Nascida em uma família musical onde o pai e, principalmente, o irmão, Elcio Dias, cantor, compositor e instrumentista, passavam horas ouvindo e estudando Elis Regina, Tom Jobim, Chico Buarque e Milton Nascimento, que hoje são suas maiores referências. A partir desses momentos com o irmão, Elisa desenvolveu seu gosto musical e pensamento crítico: “Ele me explicava as mensagens subliminares nas letras das músicas do Chico”, relembra.  

A artista conta que o casamento entre sua vida e a música se deu logo na primeira infância. Graças à figura do irmão músico que logo cedo percebeu o potencial da irmã mais nova, que já “cantava afinadinho”, começaram a ensaiar um repertório de músicas sertanejas, muito tradicional em sua cidade, para cantarem às quintas-feiras em um palco aberto de música folclórica de Embu das Artes.  

Apesar da vergonha de cantar sozinha neste palco, Elisa se esforçava nos ensaios com o irmão para cantar junto com ele, no palco dos adultos. Aos 9 anos, participou da festa de aniversário da cidade, onde cantou “Cuitelinho” de Pena Branca & Xavantinho para mais de 5 mil pessoas. Foi ali que teve certeza de que deveria fazer aquilo pelo resto da vida.

“Eu achava que todo mundo vivia daquele jeito. Que a música era o centro da vida das outras pessoas, como era o centro da vida da minha família”, comenta. 

Cartaz de divulgação de Festival de Inverno de Embu das Artes em que Elisa cantou com grandes nomes da música popular brasileira. Fonte: Instagram @elisadiass
Cartaz de divulgação de Festival de Inverno de Embu das Artes em que Elisa cantou com grandes nomes da música popular brasileira. Fonte: Instagram @elisadiass 

 

Com a sua infância tecida pela arte, Elisa sabia que seguiria o caminho da música, o caminho que sempre foi o seu: “Quando eu era criança, eu não falava que eu ia ser cantora quando crescer. Eu falava ‘eu sou cantora’”.

O PRECONCEITO 

Desde sua infância, Elisa foi atravessada pelo olhar do outro; olhar esse que a desencorajava a seguir cantando. A artista conta que sempre se sentiu fora dos padrões físicos, era rechaçada por colegas e figuras de autoridade, como professores. 

Entretanto, a música era vista por Elisa como uma ferramenta para se conectar com o outro que a recusava, além de ser sua fonte de acolhimento e, principalmente, sua companhia. “Todo artista no fundo só quer ser amado”, ela analisa sua relação com expor seu talento em busca de aceitação e reconhecimento.  

Elisa conta que, ao expor seu talento pela primeira vez no sarau da escola, com seus colegas e professora a plateia, finalmente se sentiu pertencente. 

Elisa em sua primeira apresentação na escola, em que, pela primeira vez, foi recebida com adoração por seus colegas. Reprodução: Acervo pessoal/Elisa Dias
Elisa em sua primeira apresentação na escola, em que, pela primeira vez, foi recebida com adoração por seus colegas. Reprodução: Acervo pessoal/Elisa Dias 

A artista, após cantar “Coração de Estudante” de Milton Nascimento, se deparou com uma nova realidade, “foi a primeira vez na vida que ninguém riu de mim”. Ela relata que mesmo as crianças que faziam bullying com ela a receberam com abraços e que sua professora, que não havia acreditado que ela subiria no palco para cantar, chorou de emoção.   

Ao longo de sua trajetória, Elisa seguiu se encontrando com os efeitos do julgamento do outro quanto às suas habilidades.  

 

Entrou muito nova na faculdade de música, onde as dificuldades se intensificaram por também ser uma das únicas mulheres em um grupo majoritariamente masculino que não a levavam a sério: “Alguns me acolhiam como filha; achavam tudo que eu fazia era fofinho. Outros, nitidamente deixavam bem claro que não entendiam o que eu estava fazendo ali”, declara.  

A cantora menciona, inclusive, um colega específico que a quase fez desistir de sua graduação devido às suas falas: “Me gerou traumas e bloqueios que até pouco tempo atrás eu tinha”, confessa. Ela também diz que, no geral, se sente mais cobrada que os homens dentro da música.  

O fato de ser mulher trouxe muitos desafios à sua carreira. Apesar de hoje  trabalhar com homens mais desconstruídos, que a respeitam mais do que na época da faculdade, Elisa afirma que ainda enfrenta discriminação por ser negra: “Eu também sou professora (...) e por eu ser uma mulher negra, primeiro que tudo o que eu falo soa como agressão, e as pessoas duvidam muito da minha metodologia, do meu conhecimento. Todo semestre eu tenho um aluno que duvida do meu conhecimento, que não aceita que uma mulher negra tenha aquilo o que ele busca”, relata.  

O preconceito que sofre também se intensifica pelo meio musical que a cantora participa: A MPB. 

A MPB 

“Infelizmente a MPB é um estilo de música elitizado”, aponta Elisa ao refletir sobre a falta de espaço que encontra nesse âmbito por sua raça e gênero.   

A cantora direciona sua crítica à indústria que, dentro de um país com uma riqueza grandiosa de gêneros musicais, favorece uns em detrimento de outros: “Eu acho que tem que existir mesmo, música para falar de amor, de relacionamento, de término, de bebida, de balada. A minha grande questão é que a indústria cultural pega um determinado gênero musical e faz ele ser muito popular, e os outros gêneros musicais ficam completamente esquecidos”, explica.  

Dentro de suas maiores referências musicais estão: Tatiana Parra, Lívia Nestrovski, Vanessa Moreno, Mônica Salmaso, Helene Fisher, Nana Caymmi, Zizi Possi, Gal Costa, Milton Nascimento. 

“A primeira vez que eu ouvi uma música do Milton Nascimento, com uns 7,8 anos, eu chorei da hora que eu ouvi a música até eu ir dormir. O nome da música é Fazenda. Eu tenho inclusive a capa desse disco tatuada no meu braço”.

Além da música, Elisa também é atriz e,  menciona Aline Cunha como uma grande referência dentro do Teatro Musical, que inclusive foi sua aluna, e possui uma trajetória semelhante à sua. 

Quando era pequena, Elisa sonhava em ser uma verdadeira popstar. Esse sonho foi sendo moldado conforme foi crescendo e se vendo fora dos padrões que são aceitos na sociedade para alcançar o estrelato.   

Entretanto, no decorrer de sua carreira, foi realizando muitos outros sonhos. Alguns já desejados, como cantar no Raul Gil, participar de um programa musical da TV Cultura e cantar ao lado de Márcio Borges, outros que nunca imaginou ser possível, como lançar um disco. “Eu sou uma mulher negra de periferia. Eu acessei lugares que pessoas como eu jamais acessariam, e eu sei que foi através da música”, declara.  

Hoje, Elisa sonha em ter mais estabilidade em sua carreira, conseguir levar sua banda para tocar fora, trabalhando um pouco menos e ganhando mais. 

NOVO ALBUM 

Elisa confessa que nunca havia sonhado em ter um álbum, pois nunca se viu sendo compositora, apesar de sempre escrever. 

Elisa cantando com Danilo Caymmi no Sarau Brasilis. Fonte: Acervo Pessoal/Elisa Dias
Elisa cantando com Danilo Caymmi no Sarau Brasilis. Fonte: Acervo Pessoal/Elisa Dias

 

A artista diz que seu bloqueio era advindo da pessoalidade e da intimidade do seu trabalho, vinda do quanto ela se coloca em suas músicas, “É um pedaço da minha alma que eu coloco para fora”.  

Ela conta que a transição veio após mostrar seus projetos para sua banda que, então, passou a interpretá-las em seus shows. Assim, a artista ganhou, em 2024, o financiamento de metade de seu álbum pela Lei Aldir Blanc, política de fomento à cultura brasileira, o que a possibilitou embarcar nesse novo sonho.  

Em seu disco, os arranjos e a direção musical são feitos pelo Dino Barioni, os músicos que participam são os que a acompanham há mais de cinco anos. O seu caminho musical se encontrou com o de Danilo Caymmi, instrumentista, cantor e compositor, em o que Dias caracteriza como uma “feliz surpresa”. A partir de uma performance juntos, Elisa recebeu um convite para participar da turnê de Caymmi que ocorrerá ainda neste ano e, posteriormente, o convidou para realizar uma participação em seu disco. Elisa Dias conta sobre o que essa participação significa para sua história: “Eu cresci ouvindo a família Caymmi”. 

A participação acontece no single “Curumim do Mato”, disponível já para pré-save, que retrata a história de migração dos pais de Elisa, enredo universal para os brasileiros do norte e do nordeste que se deparam com a precarização do sudeste. Danilo surge na faixa com seu próprio repertório, também sendo, assim como Elisa, filho de pais que passaram pelo mesmo processo.  

“Esse é um sonho que eu nunca ousei sonhar”, Elisa encerra ao pintar a realidade a sua frente, produto de tantos obstáculos vencidos.  

 

 

 

Influência nas meninas vai de repressão a incentivos
por
Gabriela S. Thier
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20/06/2023 - 12h

Chegando a ser considerada um brinquedo obsceno e inapropriado pra crianças em sua primeira versão, no ano de 1959, mas ainda assim se tornando um sucesso que transformou a Mattel a terceira maior empresa de brinquedos do mundo em seu primeiro ano de vendas, a boneca Barbie recebeu ao longo de sua história muitos “títulos”, sempre dividindo opiniões, com as tentativas de definir sua influência nas meninas que tiveram contato com ela na infância.

Essa dualidade é presente desde sua popularização nos anos 60, de um lado com a relutância de alguns pais em deixar as filhas brincarem com a figura de uma “mulher adulta que morava sozinha” e de outro lado sendo anunciada como um incentivo para as meninas cuidarem de sua aparência, o que acabava por reforçar estereótipos de beleza. “A preocupação dos pais vinha justamente por conta desses estereótipos”, diz o pedagogo Marco Antonio Delgado .

Segundo ele, a Barbie representava uma mulher elegante, que está dentro dos padrões de beleza vigentes na sociedade , esquecendo dos valores íntimos de cada um. “Claro que essa realidade não acrescentaria nada para aquela criança que estava brincando de casinha, até porque a Barbie, na verdade, mostra uma executiva, aquela mulher que vai para fora, que trabalha, que está atuando, uma coisa que não acontecia”, acrescenta Delgado.

O pedagogo destaca a diferença entre a figura emancipada representada pela boneca e o imaginário das crianças na época em que foi lançada. “As meninas não brincavam dessa situação, mas sim de uma brincadeira de mãe, do lar, e a Barbie traz uma coisa que naquela época era mais os homens que ocupavam.” 

Delgado cita a aparência da Barbie como um de seus aspectos prejudiciais:

”Por causa do estilo da própria boneca, porque ela traz um perfil de uma mocinha, de uma miss com o corpo definido, com uma situação de que seria uma ‘perfeição’, ela mostra uma boneca branca com seu estereótipo de magra, mas não são todas as crianças que têm este  perfil. Existem meninas gordas, existem meninas negras, que não atingem aquele estereótipo de beleza e isso pode trazer uma certa depressão para a criança, porque ela foge daquele conceito de perfeição”.

Contudo, mesmo mantendo como sua imagem principal uma boneca branca, magra e loira, a Mattel já apresentou diversas vezes boneca com perfis diferentes, indo das mais atléticas  até  de diferentes etnias, formatos de corpo e profissões.

Muitas vezes o design da boneca pode ser visto como um retrato da cultura popular de uma época. Um exemplo é a famosa “Malibu Barbie” (1971), que virou um símbolo por aparentar um rosto “sem maquiagem” e ser a primeira Barbie que olhava para frente, uma mudança que, apesar de sutil, trouxe uma imagem mais ativa e menos delicada para a boneca.

Um exemplo mais significativo de mudança foi a primeira Barbie Negra, lançada em 1980. Por mais que já houvessem sido lançadas versões negras de amigas da Barbie, como a Black Francie (1967), haver uma boneca negra denominada como  Barbie foi muito mais significativo. 

 

Edição de Aniversário da Malibu Barbie
Edição de aniversário da Malibu Barbie

 

Edição de Aniversário da Primeira Barbie Negra
Edição de aniversário da primeira Barbie Negra

A psicóloga Vanderléa Soares explica a importância da possibilidade de se ver nos brinquedos: 

“A identificação com um adulto de referência é parte da constituição de qualquer indivíduo”, diz Soares. “Dentro do lúdico e da fantasia, imaginar-se em outros papéis é criar possibilidades ampliando a visão de si mesmo e do mundo. O processo de formação do eu se dá a partir do outro”, acrescenta a psicóloga. 

Porém, mesmo com o aumento da representatividade, existem contrapontos em se tratando da boneca mais famosa do mundo. Até o slogan “você pode ser tudo o que quiser” pode ser prejudicial às crianças.

“Todos nós nos deparamos com limites. Se nos dedicamos a uma atividade ou brincadeira, não podemos praticar outras. Isso é estendido para toda uma vida humana. Existem limites de tempo, lugar, espaço, e do que é possível viver. Se eu escolho ser jornalista, provavelmente não conseguirei na mesma existência ser médica, advogada e psicóloga. Mesmo pensando no sentido de que sempre temos escolhas, ainda assim essas escolhas são limitadas pelo contexto de possibilidades sociais presentes num determinado tempo e momento histórico”, analisa Soares. 

Pequeno Estado africano apresenta índices de igualdade de gênero semelhantes a Finlândia e Noruega
por
Francisco Barreto Dalla Vecchia
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23/05/2023 - 12h
Estudantes da Academia Gashora para meninas, em Ruanda. Fonte: National Geographic
Estudantes da Academia Gashora para meninas, em Ruanda. Fonte: National Geographic

Recentemente, a Women, Peace and Security - iniciativa dedicada a promover a igualdade de gênero - elegeu Ruanda como o país com mais representatividade feminina na política, com 55% das cadeiras do parlamento ocupadas por elas. Ruanda também foi eleito como o segundo destino mais seguro para mulheres viajarem sozinhas.

A pequena nação insular da África Oriental, possui 12 milhões de habitantes e uma economia que cresce 7% ao ano desde 2000. O genocídio ocorrido em 1994 afetou profundamente a sociedade local, mas o povo ruandês reagiu à tragédia de forma transformadora: elaborando reformas políticas e sociais, que foram fundamentais para que a nação desfrutasse do atual cenário de igualdade de gênero.

Cem dias de genocídio 

Por décadas, Ruanda foi dividida em duas etnias: a minoria Tutsi, composta por uma elite pecuarista tradicional, e a maioria Hutu, historicamente desfavorecida e composta por agricultores. Essa divisão já existia no período pré-colonial, mas foi intensificada pelos colonizadores belgas e alemães, que buscavam facilitar a dominação.

De 7 de abril até de julho de 1994, instaurou-se um período de terror no país africano: Hutus extremistas caçaram os Tutsis por toda Ruanda. Durante cem dias, mais de 800 mil Tutsis e Hutus moderados foram mortos. As vítimas eram frequentemente conhecidas dos assassinos. O facão virou símbolo da barbárie: A ferramenta onipresente na vida dos agricultores converteu-se na arma mais popular entre os criminosos. 

Ruanda era um país rural e pré-industrial. No livro “Uma Temporada de Facões”, o jornalista francês Jean Hatzfeld demonstra como os diferentes estágios de desenvolvimento econômico influenciam na forma como os genocídios são executados. 

Hatzfeld faz paralelo com os crimes Nazistas, indicando que aspectos das sociedades industriais, como o desenvolvimento tecnológico - na forma de malhas ferroviárias - e a divisão do trabalho foram decisivas na execução do holocausto: um genocídio burocratizado e pensado na lógica da eficiência produtiva. 

O complexo e impessoal método de extermínio adotado pelo terceiro Reich, contrasta com a rudimentariedade e ampla participação da população no curso da limpeza étnica em Ruanda.  

O renascer das ruandesas 

No fim da carnificina, as ruandesas representavam 70% da população. Desde então, elas passaram a ocupar cargos antes exclusivamente destinados aos homens, exercendo um papel-chave na reconstrução do país e de sua sociedade.

A maioria dos assassinos e das vítimas eram homens. Os extremistas foram presos ou fugiram para a República Democrática do Congo, deixando para trás suas terras. Para garantir a própria sobrevivência e a de suas famílias, as mulheres precisaram obter a posse legal das roças de seus maridos ausentes.

Em 1999 foi feita uma reforma legislativa, na qual mulheres garantiram o direito legal de herdar as terras de seus cônjuges. Outros direitos foram assegurados na constituição de 2003: 30% dos cargos políticos passariam a ser exclusivamente femininos; foi instituído a igualdade de gênero na posse das terras, assim como no acesso à educação.

No ano da nova constituição, 48% dos cargos eram ocupados por ruandesas. Em 2008, Ruanda tornou-se a nação com mais mulheres no Parlamento. Hoje elas já ocupam quase 70% dos assentos e mais de 50% dos cargos ministeriais.

 Presidente Paul Kagame, em encontro com parlamentares ruandesas. Fonte:JusBrasil
 Presidente Paul Kagame, em encontro com parlamentares ruandesas. Fonte:JusBrasil

O último levantamento sobre igualdade de gênero realizado pelo Fórum Econômico Mundial (2021) considerou quatro aspectos: educação, saúde, política e economia. Ruanda foi apontada como o sexto país com mais igualdade entre os gêneros no mundo, colocando o pequeno país em pé de igualdade com a Finlândia e a Noruega. O Brasil, por sua vez se localiza na 92.ª posição, segundo o Global Gender Gap Report (2021)

Os limites da igualdade 

Atualmente, cerca de 88% das mulheres em Ruanda exercem alguma tarefa remunerada, número este superior ao dos homens. Mesmo tendo crescido a participação feminina na política e no mercado de trabalho, a situação doméstica pouco se alterou. O maior desafio tem sido transferir a igualdade conquistada na vida pública para dentro dos lares de Ruanda.

A cientista política ruandesa Justine Uvuza, em seu doutorado, pesquisou a vida de mulheres que ocupam cargos públicos em seu país. Constatando que muitas são obrigadas pelos maridos a realizar trabalhos domésticos, mesmo ocupando posições importantes no Estado. Segundo Uvuza, no senso comum, uma boa ruandesa é patriótica, trabalhadora e obediente ao marido. O movimento feminista costuma ser visto como algo ocidental e "importado" dos Estados Unidos.

A desigualdade social também é um desafio enfrentado pelo governo do presidente Paul Kagame, com o país ocupando o 165º lugar no ranking dos países com maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), conforme o relatório anual do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) de 2021.

Como o mercado de cursos online se apropria do comportamento feminino
por
Lídia Rodrigues de Castro Alves
Fabiana Caminha
|
18/04/2023 - 12h

Mentora de deusas. É assim que a arquiteta e empresária Camila Pastório, de 32 anos, é conhecida entre os mais de 300 mil seguidores de seu Instagram. Camila ficou mais popular entre o público feminino por abordar temas de relacionamentos e feminilidade. Depois de se popularizar nas redes, Camila resolveu dar o próximo passo e começou uma mentoria online. Por cerca de 400 reais, a arquiteta disponibiliza vídeos e e-books que prometem revelar “tudo o que uma mulher feminina precisa saber para ser naturalmente poderosa e conquistar o homem dos sonhos”, como está descrito na página de venda.

“Eu trabalho de duas formas, individualmente e coletivamente”, explica Camila. “Se a aluna optar pelo atendimento individual, eu faço através de uma ligação, escuto a queixa dela e partimos daí. A outra opção é a mais comum, que é a coletiva. Eu já tenho uma plataforma onde a aluna tem acesso aos meus conteúdos separados por tema. Aí ela consegue acessar mais facilmente o que faz mais sentido para o caso dela.” A arquiteta ainda diz que esses temas vão desde dicas para “edificar o lar” até conselhos para deixar o perfil do Instagram mais atraente para os homens.

Quanto à origem do apelido, a empresária diz ter se autodenominado dessa forma. “Quando eu falo o termo deusa, todo mundo leva para esse lado mais espiritual, mas eu acredito que uma deusa seja uma mulher de alto valor, com os princípios firmados na espiritualidade. Eu sou de uma família cristã, e eu tenho os meus princípios firmados… e é isso que eu tento trazer para as minhas alunas também, eu quero que elas sejam realmente deusas, que aflorem seus encantos, e é isso que elas conseguem com o meu método.”

No site da empresária, onde é possível adquirir um dos seus três cursos disponíveis atualmente, existem dezenas de relatos de ex-alunas comprovando a eficácia do método das deusas. Na página principal estão comentários, fotos e até mesmo vídeos dessas consumidoras relatando a sua experiência depois da compra. Com certo destaque, podemos ver o relato (em caps lock e negrito) de uma aluna que foi pedida em namoro apenas três semanas depois de concluir a mentoria. Até mesmo o link da live do Instagram que comprova o momento do pedido está disponível.

Segundo Camila, o motivo de seu sucesso não se dá exclusivamente pela qualidade do curso, mas também pela pós-mentoria, o acompanhamento depois que a aluna adquiriu o material. “Por uma taxa de 30 reais, essa aluna pode também fazer parte de um grupo de WhatsApp que eu mantenho sempre atualizado com novidades exclusivas. Eu criei esse grupo para dar um senso de comunidade, eu quero que a minha aluna se sinta valorizada. No Deusas Online, ela tem isso, ela faz parte de algo maior.”

Camila é apenas uma das milhares de pessoas que passaram a oferecer cursos de mentoria para ganhar a vida. A devastadora maioria desses cursos é comercializada através da Hotmart, uma plataforma brasileira voltada para a venda e distribuição de produtos digitais. Grande parte desses produtos são de caráter “educacional”. Ou seja, são cursos e e-books que buscam ensinar algo, independente se o mentor é especialista no assunto.

O mercado desses produtos digitais para mulheres é, no mínimo, curioso. Em uma busca rápida, é possível encontrar métodos de emagrecimento, aulas de crochê, mentorias bíblicas, guias de relacionamento e até mesmo um curso sobre posições sexuais. O “Como sentar 2.0” é a continuação da bem-sucedida mentoria de Beatriz Rangel, que pode ser encontrada na categoria de desenvolvimento pessoal da plataforma. Na descrição do curso, a mentora promete resultados infalíveis. “Com vocês a versão atualizada e melhorada da tia Bea do curso “Como sentar”! Através dessa experiência eu vou te ensinar a como se sentir confiante para ir por cima na hora do sexo. A sentir prazer, não brigar com seu corpo, a controlar seus pensamentos para aproveitar a experiência e muito mais! Bora tomar coragem pra ser sua melhor versão?”

A facilidade na venda de aulas digitais pode ser perigosa. O “Como manter seu homem na palma da mão”, da pioneira da autoajuda feminina digital, Vanessa de Oliveira, traz discurso um tanto quanto problemático, e o fato do conteúdo não passar por nenhum tipo de aprovação intensifica o risco. A comercialização da imagem e do comportamento feminino torna-se cada vez mais comum.

MULHER MAGNÉTICA VANESSA DE OLIVEIRA 30 DIAS PARA TRANSFORMAR A SUA VIDA  COM - PDF Free Download

Em entrevista, uma mulher que preferiu não se identificar relata que desde que entrou nesse mundo de cursos não conseguiu parar. "Percebi que estava ficando viciada em discursos que muitas vezes não passavam de textos prontos para enganar qualquer pessoa. Eu fui enganada. Claro, não são todas as “especialistas” digitais que apostam no sensacionalismo. Mas a padronização da fala e da condução das aulas é sempre muito parecida. O principal motivo de as mulheres assinarem esses pacotes sempre gira em torno do homem. “Aprenda a fazer crochê para deixar a casa mais bonita para seu marido”, “como ser a melhor esposa do mundo”, “20 posições sexuais que deixam qualquer homem louco”, e por aí vai. O que faz refletir, para quem é o curso? Para as mulheres ou para seus companheiros? A quem interessa a venda da feminilidade?

 “Fiz mais de 20 cursos de empoderamento feminino, “Como ser a mulher perfeita, “Como mandar bem na cozinha para conquistar os homens” e um que realmente me convenceu a vender imagens sensuais por um preço de banana na plataforma Onlyfans", relata a entrevistada.

Esse é outro problema da banalização de temas no mundo digital, a capacidade de convencer e influenciar pessoas. O Onlyfans é um dos principais sites do gênero na atualidade. Ele indiretamente pode aproximar mulheres, principalmente jovens, da prostituição. “Assinei um curso que prometia trazer qualquer homem que eu quisesse, se eu fosse uma mulher sensual, se tivesse belas fotos nas redes, e então pensei: já que tenho que postar essas fotos, por que não vendê-las?" O relato só comprova a naturalização da venda do corpo feminino, e, desta vez, incentivada por mulheres que são idolatradas por outras que muitas vezes caem em ciladas por conta de títulos chamativos e fragilidades pessoais. Portanto, é importante entender que, apesar da passagem do tempo, a sensualidade feminina continua sendo usada para vender produtos e ideais.

AGEMT EXPLICA: Nem romântico, nem comercial, o Dia das Mulheres é político.
por
Barbara Ferreira
Maria Ferreira dos Santos
|
09/03/2023 - 12h

O Dia das Mulheres é celebrado por mais de 100 países. Mas qual a origem desse dia tão importante? E quando foi que surgiu?

O século XX foi marcado por grandes mudanças, muitas delas, inclusive, aconteceram por meio de greves e manifestações. Um exemplo disso foi a luta das mulheres por melhores condições de vida (principalmente de trabalho) no período da Revolução Industrial e da Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Diversos acontecimentos foram não só essenciais para a determinação da data, como para luta feminista. Vale ressaltar que as mulheres estavam se organizando politicamente em diversos lugares do globo. E, por isso, é difícil atribuir o 08 de março em si a um único acontecimento. 

É comum a data ser atribuída ao incêndio numa fábrica têxtil em Nova York, EUA, em 1911. O episódio em questão aconteceu no dia 25 de março, e escancarou as horríveis condições de trabalho às quais os trabalhadores eram submetidos. Sendo que anos antes as trabalhadoras da fábrica já haviam feito graves, o que, é claro, foi recusado pela empresa. O que resultou depois na morte de 146 trabalhadores, 125 destes eram mulheres.

Incêndio na fábrica Triangle Shirtwaist, em 1911, Nova York. Foto: Reprodução
Incêndio na fábrica Triangle Shirtwaist, em 1911, Nova York. Foto: Reprodução

Já na Alemanha, foi Clara Zetkin, membro do Partido Comunista Alemão e defensora dos direitos das mulheres no contexto trabalhista, que deu início à proposta de criar o Dia Internacional das Mulheres. Mas ainda não havia uma data definida.

O 8 de março só se tornaria uma referência em 1917, quando operárias russas foram às ruas para protestar contra a fome e a Primeira Guerra Mundial. Em plena Revolução Industrial, tais movimentações são consideradas determinantes para o início da Revolução Russa (1917 -1923).

A data só foi reconhecida pela ONU em 1975, que considerou este ano como o Ano Internacional das Mulheres. Hoje, a data não se atenta apenas para a comemoração dos avanços que as mulheres conquistaram ao longo dos anos, mas para a conscientização em relação a desigualdade de gênero e engajamento das novas gerações. 

Manifestação contra a fome, as condições da Primeira Guerra Mundial e o regime czarista. Foto: Reprodução
Manifestação contra a fome, as condições da Primeira Guerra Mundial e o regime czarista. Foto: Reprodução

 

Reconhecer e homenagear mulheres faz parte do processo de luta e resistência desse grupo.
por
Maria Ferreira dos Santos
Giuliana Barrios Zanin
Carolina Rouchou
|
09/03/2023 - 12h

O dia 08 de março para as mulheres é, como todos os outros dias, um dia de luta. Não é uma data comercial tampouco uma data romântica, por isso, presentear uma mulher com flores talvez não seja a melhor opção. O problema não está nas flores, muito pelo contrário. A questão é que infelizmente as flores não resolvem temas como a opressão e o apagamento histórico das mulheres.

Por isso, no dia 08 de março é importante lembrar de mulheres que lutaram contra a opressão e o apagamento. Por isso, como forma de homenagear mulheres inspiradoras e não deixa-lás num lugar de esquecimento, esse texto homenageia sete mulheres jornalistas e suas histórias.

 

Marie Colvin (EUA)

Foto: Dave M. Benett/Getty Images
Foto: Dave M. Benett/Getty Images

Correspondente de relações exteriores do Sunday Times de Londres, conhecida por cobrir locais de conflito principalmente no Oriente Médio, foi assassinada na Síria em 2012 enquanto cobria a guerra na cidade de Homs.

Em 2016 sua família abriu um processo contra o governo Sírio ao saber que esse estava envolvido em seu assassinato. Em 2019 eles ganham o processo e recebem 302 milhões de dólares do governo sírio.

 

Constance Cummings-John (Serra Leoa)

Foto: arquivo
Foto: Arquivo

Em 1936, Constance recebe uma bolsa de estudos nos EUA e vai trabalhar na Cornell University. Lá vivencia a violência racial e os impactos do colonialismo, assim torna a educação sua principal bandeira de luta e depois da Segunda Guerra participa de movimentos pan-africanos e movimentos pela educação feminina.

 

Mona Eltahawy (Egito)

Foto: Salam Plan
Foto: Salam Plan

Jornalista e comentarista egípcio-americana que escreveu sobre os direitos das mulheres no Oriente Médio e Norte da África. Já publicou no The Guardian, the International Herald-Tribune, The Washington Post, U.S. News & World Report and The New York Times. Ela tem sido uma crítica da violência de gênero na região e tem defendido a igualdade de gênero e a libertação das mulheres. Seu livro "Headscarves and Hymens: Why the Middle East Needs a Sexual Revolution" é uma poderosa crítica ao tratamento dado às mulheres na região. 

 

Elisabeth Adekogbe (Nigéria)

Foto: Arquivo
Foto: Arquivo

Inspetora de preços durante o período da II Guerra Mundial,  como professora, diretora de escola e jornalista, se tornou uma das mais importantes ativistas dos direitos das mulheres, fundando em 1952 o movimento conhecido como Women Movement of Nigeria – WMO (Movimento das Mulheres da Nigéria). Dois anos mais tarde, em 1954, Elizabeth Adekogbe  participou da direção do Council of Women’s Societies of Nigerian and the Cameroons (Conselho das Sociedades de Mulheres da Nigéria e dos Camarões), que em 1959 foi  uma das importantes coalizões que atuou durante o período da independência do país.

 

Maria Ressa (Filipinas)

Rappler News / AFP
Foto: Rappler News / AFP

Em 2012, Maria Ressa ajudou a fundar o Rappler, um website jornalístico que começou como uma página no Facebook e que tinha por objetivo lutar pela democracia e liberdade de informação nas Filipinas.E cada a repercussão de seu trabalho, ganhou o Prêmio Nobel da Paz juntamente do seu parceiro russo Dmitry Muratov. Foi incluída na lista Personalidade do Ano 2018 da revista Time como membro de um grupo de jornalistas de todo o mundo que combatem notícias falsas.Ela foi presa por "difamação cibernética" em meio a acusações de vários casos de notícias falsas e sonegação de impostos corporativos em 13 de fevereiro de 2019. Em 15 de junho de 2020, um tribunal de Manila a considerou culpada de ciberlibel. Em 2023, seu processo ainda está em aberto, mas já dissolveu 4 dos 7 processos movidos pelo Governo do País.

Jineth Bedoya Lima (Colômbia)

Foto: Alamy
Foto: Alamy

Jineth Bedoya Lima cobriu o conflito armado da Colômbia assim como o processo de paz e casos de violência sexual a mulheres.

Em 2000, enquanto trabalhava para o Jornal El Espectador, ela foi sequestrada e estuprada. Três anos depois, militantes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, Farc, sequestraram a repórter que atuava para o jornal El Tiempo.

Glória Maria (Brasil)

Foto: Divulgação / Paulo Belote
Foto: Divulgação / Paulo Belote

Foi a primeira jornalista negra na televisão brasileira, além de ter sido a primeira comunicadora a transmitir uma matéria na televisão com cor. Sua primeira aparição foi nos anos 70, durante o governo Médici e, desde então, viajou ao mundo e vivenciou as diversas culturas de cada país, com a esperança de mostrar aos brasileiros a sua coragem e força. Foi uma figura importante para o jornalismo, para o feminismo, para a representatividade negra.