Em São Paulo, o Dia Internacional da Mulher lembra das que se foram e luta pelas que ainda vivem
por
Carolina Machado
Isabela Sallum
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09/03/2026 - 12h

Neste domingo (8), manifestantes lideradas pelo Levante Mulheres Vivas, ato orgânico criado pelas atrizes Rachel Ripani e Livia La Gatto, concentraram-se na Avenida Paulista e seguiram do Masp até a Praça Roosevelt, na Consolação. O trajeto foi marcado pela presença de representantes de diversas organizações, partidos políticos, coletivos feministas e militantes independentes.

O aumento de crimes brutais lembra à população o que os números indicam há anos: o Brasil não é um lugar seguro para as mulheres. Cartazes denunciavam um estado de emergência por feminicídio, exibiram pedidos por mulheres vivas, o fim do discurso "red pill” (movimento misógino online), liberdade e reafirmam que criança não é mãe. Mulheres recentemente assassinadas foram lembradas por um pequeno cemitério de bonecas e um longo pano vermelho, que reunia sapatos, representando as vítimas. 

Representação de cemitério ilustra o número crescente de feminicídios. Foto: Carolina Machado/AGEMT
Representação de cemitério ilustra o número crescente de feminicídios. Foto: Carolina Machado/AGEMT

Em 2025, o Brasil registrou recorde de feminicídios, foram 1.568 vítimas, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Só em janeiro deste ano, 27 mulheres foram mortas no estado paulista. “Em um país que registra milhares de casos de violência doméstica, estupros e uma epidemia de feminicídios, no dia 8 de março é para se estar nas ruas”, publicou o movimento no perfil @levantemulheresvivas, no Instagram.

Um dos casos mais marcantes lembrados no ato é o de Thainara Souza dos Santos, de 31 anos, que foi atropelada e arrastada por um quilômetro, presa ao carro pelo próprio companheiro, na zona norte de São Paulo, em novembro do ano passado. Ela morreu após um ano internada.

Rosana, de 40 anos, manifestava pelas que se foram, pelas que virão e por ela mesma. “Nós nos queremos vivas e livres. Por isso estamos aqui desconstruindo, derrubando e combatendo o que nos impede: a misoginia e a violência.”, diz à AGEMT. “Não é só indignação, é luta”, completa. 

Cartaz “Pela criminalização do discurso red pill” engrossa discurso contra a misoginia. Foto: Carolina Machado/AGEMT.
Cartaz contra a misoginia engrossa discurso pelos direitos das mulheres. Foto: Carolina Machado/AGEMT.

As reivindicações reuniram diferentes movimentos sociais, organizações políticas e militantes independentes que pautavam não apenas o combate à violência contra mulher, mas também o fim da escala 6x1 e do imperialismo, além da defesa da democracia e da soberania nacional. 

A alta nos índices de feminicídio indica que o problema não é apenas estatístico, mas é fruto de uma cultura patriarcal presente desde a formação do Brasil. Essa realidade também se reflete na falta de políticas públicas voltadas à proteção das mulheres. Em dezembro de 2025, o Portal da Transparência publicou o planejamento orçamentário do estado de São Paulo para o enfrentamento da violência contra a mulher, que previa apenas R$0,18 por mulher na faixa de 15 a 59 anos.

Como consequência, o estado lidera os rankings nacionais de feminicídio, registrando um aumento de 96,4%, o segundo maior do país, atrás apenas do Amapá, segundo o Fórum de Segurança Pública de 2025.

“O governo do Estado colocou à frente apenas 15% do orçamento público no combate ao feminicídio. Por isso, é papel do ativismo feminino ir para as ruas pelo combate às violências contra a mulher, à precarização do trabalho e aos ataques do imperialismo contemporâneo. Querendo, ou não, os assuntos se entrelaçam”, afirma Júlia Cardoso, de 23 anos, estudante e militante da Faísca Revolucionária.
 

Manifestação feminista une-se ao fim da escala 6x1. Foto: Isabela Sallum/AGEMT
Manifestação feminista também defende o fim da escala 6x1. Foto: Isabela Sallum/AGEMT

As mulheres enfrentam jornadas duplas ou triplas de trabalho, pois ainda são, em grande parte,  responsáveis pelos afazeres domésticos e cuidados familiares. São elas, também, as principais vítimas da escalada de ataques norte-americanos contra outras nações. “Trump bombardeou uma escola de meninas iranianas, durante a guerra vigente entre Estados Unidos, Israel e Irã”, lembra Júlia.

Em meio a exigências por direitos femininos básicos, Joyce, de 27 anos, militante do Levante Popular da Juventude, lembra o significado histórico do Dia Internacional da Mulher. “Não se trata de homenagem, e sim de mobilização social.”, afirma.
 

Mulheres protestam junto a partidos e grupos militantes na Avenida Paulista. Foto: Isabela Sallum/AGEMT.
Mulheres protestam junto a partidos e grupos militantes na Avenida Paulista. Foto: Isabela Sallum/AGEMT.

A jovem relembra a mobilização das mulheres socialistas russas contra o regime czarista, com a organização de atos e protestos no movimento operário. “Pelo fim do patriarcado, contra o machismo e a violência contra a mulher. Hoje o que me traz aqui nas ruas é contar e fazer história para transformar radicalmente a sociedade", conclui Joyce. 

Entre o palco e a sala de aula, construiu sua trajetória unindo a arte e a transformação social
por
Anna Cândida Xavier
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09/03/2026 - 12h

Isabel Marques, de 61 anos, é artista e pioneira no estudo do ensino de dança no Brasil. É doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e diretora do Caleidos Cia. de Dança desde 1996. Sua trajetória na dança começou ainda criança, nas clássicas aulas de balé, mas na adolescência começou a questionar as metodologias e práticas de ensino. “A repetição, imitação, controle e a busca do corpo ideal das bailarinas não cabiam mais em mim. Tudo isso estava em oposição à possibilidade de criação”.

Isabel Marques sorrindo em um espetáculo de dança
Isabel Marques no espetáculo “Entrevista”, 2024 – Foto: Fábio Brazil/Caleidos Cia. de Dança 

Com 16 anos, ganhou uma bolsa de estudos do United World Colleges (UWC) para estudar no Canadá. Isabel conta que a experiência em um colégio internacional abriu seus horizontes, fez amizades com jovens de todo o mundo e cursou o ensino médio longe da censura da Ditadura Militar. Decidiu fazer pedagogia após ler “Pedagogia do Oprimido” de Paulo Freire. “Encontrei o livro em inglês na mesa dos alunos de filosofia, fiquei curiosa por ser um autor brasileiro e me encantei por ele e pela a educação”, conta. 

Ao voltar para o Brasil, ingressou na USP e retomou as aulas de dança – agora com foco na improvisação – onde conheceu os princípios e processos de criação de Rudolf Laban, um dos precursores da dança moderna. Isabel conta que Laban foi crucial para sua trajetória, uma vez que ele foi responsável pelo primeiro currículo escolar que inclui dança, criado em 1958 na Inglaterra.

A carreira de Isabel Marques é permeada pelas interfaces entre dança e educação, entre a vivência acadêmica e o fazer artístico. Em 1991, após terminar seu mestrado em Londres, começou a dar aula na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) como professora convidada. Na universidade, criou um grupo de pesquisa voltado à integração entre arte e educação, que mais tarde se transformou na companhia de dança contemporânea Caleidos.

Isabel Marques, sentada em uma mesa escrevendo.
Isabel Marques em sua defesa de doutorado, 1996 – Foto: Arquivo Caleidos Cia. de Dança 

Na mesma época, foi convidada por Ana Mae Barbosa para fazer parte da equipe de Paulo Freire na Secretaria da Educação da prefeitura de Luiza Erundina em São Paulo. “A ideia era abrir o leque de possibilidades do ensino de arte nas escolas, porque antes só tinham artes visuais e música. Em 1993, nós lançamos um novo currículo, desenhado a muitas mãos, que incluía o teatro e a dança e aprofundava as outras linguagens”, conta Isabel. 

Em 1997, foi responsável por elaborar os currículos nacionais de dança do Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). Isabel acredita que a importância da dança na escola em um país que dança é a possibilidade de compreendê-la como linguagem e como arte. “A escola trata a dança como área do conhecimento, não só como entretenimento, lazer, diversão, religião – todas muito importantes e muito significativas e cruciais para o Brasil. Mas, ao estudar a linguagem da dança é possível atribuir significado aos movimentos, você tem a possibilidade de questionar, de perguntar, de recriar e de ser co-criador do mundo mesmo, da arte”. 

Isabel Marques ministrando uma palestra.
Isabel Marques ministrando uma palestra, 2009 – Foto: Fábio Brazil/Caleidos Cia. de Dança

Ao longo das últimas décadas, Isabel lecionou diversos cursos de formação de professores para a rede de escolas públicas de São Paulo. “É importante que as professoras entendam que esse corpo delas, que muitas vezes não é o corpo ideal, que não é o corpo da bailarina, esbelto e flexível, também dança. É a volta ao corpo, ao movimento e à vida que as torna professoras diferenciadas”. Isabel destaca o direito à dança e ao movimento nas escolas. “A escola tradicional supervaloriza a mente, o corpo é morto na escola. Quando a gente trabalha com a dança na escola pública, a gente introduz a importância da diversidade corporal”. 

O trabalho com as escolas públicas é central em sua trajetória.“É na escola que a gente trabalha em prol da transformação social, da conscientização e da visão crítica do mundo”. Para ela, é a partir de um diálogo estabelecido com o mundo que é possível transformá-lo. Afirma que as redes de relação que criamos com o mundo podem partir de uma elaboração mental ou da experiência não verbal, de percepção através do movimento. “Você percebe o mundo através do movimento, você conhece as pessoas… Uma coisa é você falar eu te amo, outra coisa é você abraçar e beijar. São complementares”. 

Em seu livro “Ensino de Dança Hoje”, publicado em 1999, Isabel Marques propõe o conceito de “dança no contexto”. Para ela, é preciso relacionar as suas aulas de dança aos contextos sociais, afetivos, culturais e políticos, o objetivo não é simplesmente aprender uma sequência de passos, mas criar dança a partir de um contexto. “Eu conheço praticamente todos os estados do Brasil ensinando dança e dançando, sempre com um cuidado de não impor a cultura paulistana, sempre estabelecendo um diálogo com o local”.

Em suas peregrinações pelo país, Isabel lançou seis livros sobre dança e educação e ministrou cursos de especialização, incluindo aulas inaugurais em faculdades de dança. Ela conta que, no início de sua carreira, havia somente três graduações em dança no Brasil. Hoje, após o programa Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), de 2008, existem mais de 40. 

Este ano, o Caleidos, companhia de dança dirigida por Isabel Marques e Fábio Brazil, completa 30 anos. “A gente brinca que 30 anos de dança no Brasil equivalem a 200 na Europa”, comenta Isabel frente às dificuldades de viver enquanto artista no Brasil. O Caleidos já produziu 35 espetáculos de dança e ganhou 16 prêmios de fomento à dança, em nível municipal, estadual e federal. Uma das marcas da companhia é a interatividade com o público, chamar as pessoas para participar do espetáculo, dançar com os bailarinos. 

Alunos da escola pública participam de um espetáculo de dança do Caleidos
Espetáculo “Coreológicas Ludus” na sede do Caleidos com alunos da Rede Pública de Ensino de São Paulo, 2011 – Foto: Fábio Brazil/Caleidos Cia. de Dança 

Os espetáculos do Caleidos nascem de imperativos sociais, explica Isabel, “é quase um chamamento”. Destaca a importância de experienciar o mundo como parte do processo criativo, muitas cenas surgem da experiência do cotidiano, com um olhar artístico apurado. O processo de construção dos espetáculos costuma envolver muita pesquisa, “eu sou pesquisadora então eu valorizo muito as pesquisas acadêmicas, é a partir dessas discussões que conseguimos ir além da experiência pessoal. O artista é um interlocutor da sociedade em que vive, do seu contexto, propõe diálogos que abrangem algo além de si mesmo”. 

Em 2025, Isabel Marques foi homenageada no XI Congresso Internacional SESC de Arte/Educação, produzido em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco. Durante o evento, estreiou seu primeiro solo de dança: ‘Outonos’. Para ela, o espetáculo surgiu da necessidade de falar sobre o envelhecimento, “envelhecer não é uma sensação, você é avisado que está mais velha pelo diálogo com as novas gerações”. “É o comportamento dos outros em relação a você que faz você se sentir mais velha. Eu adoro o assento reservado para idosos no metrô, mas alguém levantar para você sentar causa um estranhamento”. O espetáculo volta em cartaz no segundo semestre de 2026.

Isabel Marques dançando no espetáculo “Outonos”
Isabel Marques dançando no espetáculo “Outonos”, 2025 – Foto: Lino Fly/Arquivo Caleidos Cia. de Dança

 

Especialistas ressaltam que conteúdos misóginos nas redes sociais podem influenciar a escalada da violência contra mulheres
por
Carolina Nader
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03/03/2026 - 12h

O Brasil registrou, em 2025, média de 42 julgamentos de feminicídio por dia, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), aumento de 17% em relação ao ano anterior. O dado reacende o debate sobre a efetividade das políticas públicas de proteção às mulheres e os fatores sociais associados à permanência da violência no país.

Tipificado como crime hediondo desde 2015, o feminicídio é caracterizado pelo assassinato de mulheres em razão do gênero. Especialistas apontam que o crime raramente ocorre de forma repentina, sendo resultado de uma série de agressões ao longo do tempo.

Em entrevista à AGEMT, a delegada da Polícia Civil de Arujá (SP), Fernanda Pastor de Morais, afirmou que casos de feminicídio costumam ser precedidos por ameaças, perseguições e violência psicológica. “O feminicídio é o ápice de um cotidiano de violência”, disse. Segundo ela, comportamentos controladores tendem a se intensificar quando o agressor não aceita a autonomia da vítima ou o fim do relacionamento. “O crime também ocorre em maior escala no âmbito doméstico e familiar, em que o parceiro não “aceita” a autonomia da mulher ou o rompimento da relação”, afirma.

Manifestação reúne pessoas em luta por direitos femininos no dia Internacional da Mulher no Rio de Janeiro, em 2024. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Manifestação reúne pessoas em luta por direitos femininos no dia Internacional da Mulher no Rio de Janeiro, em 2024. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Nos últimos anos, comunidades virtuais associadas à chamada “machosfera”, como o movimento red pill — ideologia online contra mulheres — ganharam visibilidade nas redes sociais, difundindo conteúdos que reforçam estereótipos machistas e discursos de hostilidade. Esse cenário, em alguns casos, aparece associado a episódios de violência ao reforçar e naturalizar a desigualdade de gênero.

Na prática investigativa, o ambiente digital aparece frequentemente como extensão da violência doméstica. De acordo com a delegada, redes sociais são utilizadas por agressores para monitorar, intimidar e expor vítimas, funcionando como instrumento de controle psicológico que pode anteceder agressões físicas. 

A repercussão dos casos nas plataformas digitais também produz efeitos ambíguos. Se, por um lado, amplia a conscientização pública, por outro pode gerar desinformação, pressão sobre investigações e revitimização das mulheres envolvidas. Comentários que culpabilizam as vítimas, segundo Morais, reforçam a cultura de violência ao deslocarem a responsabilidade do agressor.

Apesar do Brasil possuir uma legislação considerada avançada no enfrentamento à violência de gênero, alguns desafios ainda persistem na aplicação das normas e na investigação de crimes digitais, especialmente diante do anonimato online e da rápida disseminação de conteúdos.

Ato denúncia em frente à Câmara Municipal, organizado pelo campanha Levante Feminista contra o feminicídio. Foto: Tânia Rego/Agência Brasil
Ato denúncia em frente à Câmara Municipal, organizado pelo campanha Levante Feminista contra o feminicídio. Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

Para a delegada, a prevenção passa pela combinação entre educação para igualdade de gênero, fortalecimento das investigações e maior responsabilidade das plataformas digitais na moderação de conteúdos violentos. “A internet não é uma terra sem lei. O que muda é apenas o meio; a responsabilidade continua existindo”, afirma. O aumento dos registros indica que a violência contra mulheres é resultado de estruturas históricas que seguem sendo reproduzidas e amplificadas no ambiente digital. 

Atriz e cantora cearense afirma que ninguém se torna artista, nasce
por
Carolina Machado
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02/03/2026 - 12h

Desde a infância, Tabatha Almeida, 24 anos, transitou entre diferentes expressões artísticas. Do canto à dança, ou até a mescla dos dois, no teatro musical, a arte sempre esteve ali por e para ela. “Minha casa sempre foi um ambiente muito musical. Meu pai é músico e foi muito importante para mim, cantávamos juntos. Quando descobri os musicais, concluí que aquilo era a salvação da minha vida. Enquanto minhas amigas queriam ser médicas ou advogadas, eu só queria cantar e dançar”, relata em entrevista. A artista já realizou pelo menos cinco grandes produções teatrais, participando como cover da personagem Elphaba recentemente, durante a temporada de 2025 de Wicked Brasil.

Myra Ruiz e Tabatha Almeida nos camarins de Wicked Brasil - Imagem via Instagram @tabatha
Myra Ruiz e Tabatha Almeida nos camarins de Wicked Brasil - Imagem via Instagram @tabatha

Quando pequena, Almeida realizava inúmeras performances, cantando e fazendo acrobacias por todos os cantos. Aos 14 anos, participou da nona edição do The Voice Kids Brasil. “Para mim, é muito louco olhar para trás e pensar: o que eu faço hoje sempre esteve ali, não tinha como seguir outro caminho”, reflete. Em um mundo criado por homens e voltado para seus desejos, a atriz considera corajoso expressar-se por inteiro, como ela faz, e é grata à menina que foi por moldar quem ela é hoje. 

Aos 17 anos, mudou-se de Recife para o Rio de Janeiro, passando por inúmeros imprevistos, desilusões amorosas e muito, muito trabalho. A partir desse processo, Tabatha descobriu que o machismo não é disfarçado no mundo das artes, pelo contrário ele faz parte de uma das indignações do seu dia a dia profissional. Em entrevista à AGEMT, ela afirma que, apesar de se considerar uma pessoa que sempre conseguiu se expressar livremente em sociedade, existe uma disparidade de salários e de holofotes, e declara essa uma questão latente. Ainda assim, acredita que as mulheres encontrarão seu lugar ao se posicionarem, mostrando-se abertas e comprometidas, percorrendo diferentes caminhos e lutando por espaços.

Tabatha Almeida, nos ensaios  de Wicked Brasil - Imagem via Instagram @tabatha
Tabatha Almeida, nos ensaios  de Wicked Brasil - Imagem via Instagram @tabatha

A atriz destaca e entende a importância das amizades e parcerias femininas nesse processo. “Tento me cercar de mulheres fortes. Levo minhas grandes amigas dos trabalhos que realizei para a vida e pretendo estar no topo com elas”, disse. Almeida acrescenta sobre as relações, afirmando ser uma forma de empoderamento e fortalecimento do coletivo feminino, em que se fomentam opiniões e posicionamentos com o objetivo de enfrentar o mundo que é o mesmo para todas: difícil e injusto.
 

Tabatha Almeida e colegas de profissão - Imagem via Instagram @tabatha
Tabatha Almeida e colegas de profissão - Imagem via Instagram @tabatha

Tabatha acredita que ter uma rede de apoio é essencial. Isso porque sua própria família e amigas sempre estiveram por perto, nunca a deixando à mercê de situações que comprometessem seu trabalho e, sobretudo, sua integridade como mulher. “Foi fundamental me rodear de pessoas. Tentei nunca me ‘dobrar e desdobrar’ por ninguém, e sim aprender com as experiências, fortalecer laços e a mim mesma”, conclui.

Influencer brasileira viaja em um celta para o Peru com a sua companheira de quatro patas
por
João Luiz Freitas Souza
Fernanda Dias
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17/06/2025 - 12h

Ana Clara Uchoa, 24 anos, iniciou sua jornada com sua cadela Ísis pelas estradas em novembro de 2023, após sentir-se sufocada pela rotina. “Eu ficava muito frustrada com a minha vida parada. Trabalhar, voltar pra casa, passear com a Ísis na praça por meia hora. Eu queria mais” relata em entrevista via Google Meet. Hoje em dia, a influenciadora está a um mês na nova temporada dessa jornada e novamente o seu destino é o Peru. 

Aos 22 anos, Uchoa iniciou uma mudança de vida em novembro de 2023, deixando seu trabalho para concretizar um sonho. Após algumas viagens de ônibus sozinha, planejou e economizou para adquirir um Celta, nomeado Ozzy, e dar início à sua própria jornada com a sua cadela Ísis. Por mais de um ano, ela percorreu o litoral do país, e em 1 ano e 3 meses de viagem, destacou sua afeição pela Bahia e por Minas Gerais e suas cachoeiras, além da experiência de conhecer novas pessoas e culturas. No Natal, optou por retornar e passar a data com a família, interrompendo o cronograma inicial.

 

Ana Uchoa com sua cachorra Isis na frente de seu carro
Ana Clara e Isis em São José dos Campos, São Paulo - Imagem via Instagram @anaclarauchoa 

A vida no carro, no entanto, não é só paisagem bonita e liberdade, um exemplo disso foi quando ela fundiu o motor em Pernambuco, teve o bagageiro voando na ponte Rio-Niterói e dormiu em lugares improvisados e esses foram alguns dos perrengues enfrentados. Mesmo assim, Uchoa vê cada obstáculo como aprendizado pois apesar dos contratempos ela nunca precisou guinchar o carro. "O Celta nunca andou de guincho, ele sempre quebra do lado da oficina. Está tudo certo”, brinca. 

Além de viajar, Uchoa decidiu documentar tudo nas redes sociais, apesar de ser uma vontade desde sempre, contou que tinha muita vergonha, mas acabou quebrando essa barreira pessoal e postando seu primeiro conteúdo no TikTok, que hoje conta com mais de 330 mil seguidores. Sem filtros ou roteiros, seu conteúdo viralizou mostrando sua simples rotina de viagem com a Ísis, como preparar um café, escovar os dentes ao lado do carro ou improvisar uma refeição. “Eu achava que ninguém ia querer ver isso. Mas hoje, se eu não posto o café, o povo pergunta: ‘cadê o café?’”, conta, entre risos. Sua rotina virou inspiração para muitos e sua presença online, um espaço de empoderamento. 

O machismo ainda marca a rotina de quem se aventura sozinha pelas estradas do país. Ao relatar situações desconfortáveis, ela contou sobre um episódio em que, mesmo repleta de orientações técnicas do próprio mecânico, foi tratada com desdém por outro profissional. “Falei com todo cuidado, mas ele me mandou sentar e disse que quem estava trabalhando era ele. Só depois de ouvir o áudio, resolveu o problema em cinco minutos.” 

Ana Uchoa com sua cachorra Isis na frente de um monumento em Brasília
Ana Clara e Isis em Brasília, Distrito Federal - Imagem via Instagram @anaclarauchoa 

A influenciadora compartilhou que quando o assunto é segurança, o planejamento é indispensável pois dormir em locais desertos nunca é uma opção. “Mesmo se estiver no meio do nada, vou procurar um estacionamento, um posto com movimento. Se alguém percebe que estou sozinha, já sou vista como vulnerável.” Comentou ainda que, em muitos casos, “homem só respeita homem”, o que torna cada decisão na estrada mais estratégica. 

Algumas mulheres adotam medidas como deixar sapatos masculinos ao lado do carro para simular a presença de um homem. Ela prefere não recorrer a isso, mas entende quem o faz. “Ser mulher na estrada exige atenção, inteligência e muita resiliência.” 

Ao mesmo tempo, existe uma rede de apoio não oficial que prova a força da sororidade. “Se eu chego num posto e tem outra mulher sozinha, ela já fala: para aqui do lado.” Esse cuidado mútuo, que surge mesmo entre desconhecidas, mostra como mulheres viajantes criam um laço imediato de proteção e solidariedade. “O homem às vezes até acha legal, mas a mulher age. Ela acolhe, ela cuida.” 

Uchoa relata que viajar sozinha é mais do que uma escolha, é um ato de coragem e autonomia diante de um mundo que ainda questiona a liberdade feminina. 

Feministas negras conquistam palcos do Hip Hop, Rap e Trap na cena brasileira
por
José Pedro dos Santos
Ian Valente
Francisco Vecchia
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02/06/2022 - 12h

O feminismo negro surgiu a partir de mulheres que não se sentiam representadas dentro das pautas do feminismo hegemônico. O movimento feminino existente em meados da década de 1980 era representado majoritariamente por mulheres brancas e de classe média. As populações femininas negras e periféricas se encontravam marginalizadas tanto da sociedade como do movimento das mulheres. Visto que tanto o feminismo hegemônico não pensava nestas mulheres negras, como as próprias pautas do movimento se mostravam insuficientes para a emancipação de mulheres que além de serem oprimidas pelo patriarcado também sofreram racismo. 

O “hip-hop” abraçou de sua maneira este novo feminismo; todavia, como o machismo é onipresente na sociedade, ate mesmo em um movimento negro as mulheres precisaram e precisam lutar parra se fazerem ouvidas.

A cena do rap foi construída com bases masculinas, entretanto mulheres ocupam este espaço para mostrar realidade questões de gênero que não são abordadas pelo patriarcado. O cenário nacional ganhou as primeiras vozes femininas no final da década de 1980, quando surgiu Dina Di, nome artístico de Viviane Lopes Matia, ela afirmava que o homem pode ver, mas não pode sentir o medo que cada mulher sente durante sua vida. Além disso a rapper comentava sobre a forma como os homens definem as mulheres no rap, com palavras que questionam a imagem do sexo feminino, fazendo com que as artistas se sentissem obrigadas a se vestirem com roupas largas ou masculinas.

Nos anos 2000 o Rappers MV Bill se juntou com Kamila CDD, e lançaram a música “estilo vagabundo” que retrata uma discussão de um casal, onde ela não se cala e afronta as ações e argumentos machistas e misóginos masculinos dentro do relacionamento. “tu tá muito confiante, me tratando tipo Amelia. Cansei de ser boba e me vestir tipo uma velha.” 

Alguns anos depois as irmãs gêmeas Tasha e Tracie Okereke surgiam na cena do Hip-Hop nacional com o blog e movimento Expensive shit, que tinha como intenção valorizar a autoestima e autonomia de jovens periféricos e negros pelo conhecimento, moda e cultura. 

Em 2019 a dupla lançou o EP Rouff, em parceria com a cantora Ashira. O trabalho tem 6 músicas compostas por diversos produtores famosos da cena do rap, como Mu540, Devasto, CESRV e Pizzol, além da direção artística do rapper DonCesão e ser lançado pelo selo Ceia Ent.

O trabalho seguinte delas, “Diretoria'', é um EP feito em parceria com Pizzol, onde as cantoras falam sobre conquistas e empoderamento, que se relaciona com toda a trajetória delas como ativistas e cantoras. No portal popline, Tasha e Tracie afirmam que apesar de ser um álbum mais denso, Diretoria foi mais divertido, apesar de tudo o que alguém marginalizado dizer ser politizado, segundo elas o álbum traz uma proposta mais leve do que Rouff.

Ainda na entrevista as duas se dizem se considerar ativistas periféricas, não querendo se limitar dentro de um grupo ou área de atuação, já que seus trabalhos giram em prol da luta das pessoas negras.

O que a sexualização dos corpos femininos diz sobre a sociedade atual e como a indústria lucra com o "empoderamento" das mulheres.
por
Isadora Verardo Taveira
Laura Melo de Carvalho
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29/06/2022 - 12h

Quando falamos sobre o papel da mulher na sociedade, inúmeros padrões e estereótipos vem à mente de maneira automática. Mesmo com os avanços acerca da existência feminina em uma sociedade extremamente patriarcal, o machismo ainda segue atrás de cada passo em direção à emancipação das mulheres, que precisam se reafirmar a cada minuto diante de um país que resiste em renunciar ao conservadorismo. Atualmente, com o sucesso de cantoras do pop e funk brasileiro como “Anitta” e “Luísa Sonza", o debate sobre o tema da sexualização dos corpos femininos veio à tona e divide opiniões nas redes sociais: empoderamento ou objetificação?

A relação de poder com o próprio corpo mudou de acordo com as conquistas femininas, assim como o aumento da representatividade e o crescimento do número de mulheres nos espaços de poder. Em entrevista para o GNT, a cantora e produtora musical Larissa Luz afirma que alcançar o poder financeiro é um passo enorme para a liberdade: "Se para isso a mulher escolhe sensualizar e vender a sua sensualidade, isso não é legítimo? A diferença agora está nesse lugar, elas escolhem” - completa. Entretanto, a linha entre conquistar espaços que nunca foram alcançados por figuras femininas e servir ao patriarcado e a uma indústria que sempre lucrou com mulheres é extremamente tênue. A historiadora e criadora de conteúdo digital Amanda Maia aborda a pauta com ênfase no processo histórico: “Existe um movimento, a terceira onda feminista, que vai dizer justamente que a beleza é um sistema monetário, além de patriarcal. Foi instaurado a questão da mulher padrão, no sentido de as mulheres competirem entre si, em vias de conquistarem os espaços que os homens já tinham adquirido”.

Com a ascensão do capitalismo e a ditadura da beleza, a imagem feminina e o estereótipo do “corpo violão” da mulher brasileira - primeiramente indígena matriz da miscigenação, e depois negras, descendentes das africanas escravizadas - viraram produtos. A colonização do Brasil ressalta a objetificação e erotização do corpo das mulheres brasileiras, e como coloca Amanda, os homens europeus vieram e iniciaram o processo de miscigenação, abusando das mulheres indígenas. E hoje, é documentada a visão que eles tinham sobre o corpo da mulher, com esse arquétipo da brasileira e de sua hipersexualização. A imagem das mulheres com corpos estruturais, garota de Ipanema do corpo dourado, ou Anitta e Luísa são alguns dos exemplos que a mídia machista transformou em produtos, como posiciona Amanda, “Eu acho que é uma questão de como o capitalismo afeta a mulher em si, eu vendo pro público masculino uma ideia erótica e para as mulheres uma ideia de meta a ser atingida porque cria um padrão inalcançável”.

Diferente do inalcançável, na cena do funk e pop nacional surge com a tomada dos lugares predominantemente masculinos o empoderamento da imagem feminina. Entretanto, é necessário destacar que mesmo ocupando espaços que sempre foram dos homens, as mulheres que estão nessas posições são, em sua maioria, brancas e se encaixam nos padrões estéticos que a sociedade estabelece. A sexualização do corpo da mulher nasceu junto com a miscigenação no brasil e hoje está interligada com a cultura do país. Mulheres negras, mesmo com os grandes avanços obtidos ao longo dos anos e com o crescimento da representatividade, ainda são alvos de racismo e muitas vezes colocadas em posições de subalternidade, além da notória hipersexualização sobre os corpos pretos. A historiadora afirma que é necessário, no recorte brasileiro, separar as questões étnicas e sociais, “A mulher preta vai ser mais erotizada que a mulher branca, se a gente fosse datar uma época em que começou essa sexualização seria a colonização, com os homens europeus que vieram e iniciaram o processo de miscigenação, abusando das mulheres indígenas”.

Nessa mesma linha de discussão, é possível estabelecer um paralelo comparativo com a obra de Paul B. Preciado, “Testo Junkie”. O filósofo espanhol afirma que dado em certo momento histórico, com a criação de medicamentos como Viagra e os anticoncepcionais, o surgimento da indústria pornográfica e o feminismo liberal, o sexo se tornou um produto audiovisual e mercantilizado, e desde então, o mundo vive em uma "era famarcopornopolítica". Na atualidade somos nós mesmos que transformamos nossos corpos em produtos comerciáveis e mercadológicos, que são vendidos de forma naturalizada em plataformas digitais e muitas vezes camuflado por trás de um falso empoderamento. Para além da questão de gênero, esse fenômeno vai mais adiante do machismo, e questiona o uso da nossa própria identidade em prol de um esquema de lucratividade do sistema capitalista. Nessa lógica é válido pontuar que, mesmo que de maneira disfarçada, a sociedade sempre segue a lógica da indústria e daquilo que vende. Independente de mulheres estarem no topo, as estruturas da sociedade patriarcal ainda permanecem estabelecidas, ainda que estejam se adaptando às demandas da geração atual. “Eu entendo que esse processo sexual de cantoras do pop é uma questão monetária, por mais que exista um empoderamento, uma questão do feminismo liberal, eu me posiciono contra porque elas estão vendendo a imagem delas, isso não contaria como um movimento social, uma luta de fato feminista.” - complementa Amanda.

Fica claro que, como na colonização, tanto quanto com Anitta e Luísa Sonza, o capitalismo na sociedade patriarcal usa das mulheres e de seus corpos para seus benefícios, em lucro, em prazer ou em prol do sistema. Hoje, algumas mulheres, como no feminismo liberal que Amanda cita, viram na exposição de seus corpos o empoderamento e a sororidade. Logo, se instaurou na sociedade um paradoxo dentro da questão da sexualização do corpo feminino, as vítimas indígenas do colonialismo não negam que houve violência, objetificação e erotização no processo de miscigenação do país. Entretanto, apesar de ainda ferir, principalmente corpos pretos, mulheres lucrando com sua própria imagem pode ser visto como empoderamento e uma maneira de ‘passar por cima’ de uma sociedade estruturada no patriarcalismo. Assim, mesmo que de algum modo a sexualização do corpo feminino - que atualmente parte das próprias mulheres – seja problemática, é importante valorizar a conquista do movimento feminista, uma vez que as mulheres agora possuem a chance de escolher sua própria narrativa, além de ser estritamente necessário questionar a sociedade e a indústria audiovisual, que é moldada em referências de um Brasil extremamente conservador, patriarcal e misógino.

Mesmo com sucesso de novos empreendimentos, a desigualdade grita e mulheres anseiam por mudança.
por
Laura Paro
Lídia Rodrigues
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28/04/2022 - 12h
Foto: Getty Images.
Foto: Getty Images.

 

“As pessoas confiam mais nos homens” afirma a professora de educação física, Vanessa Rodrigues, criadora do projeto “Envelheça Forte”, mesmo com alto índice de contratação, a desigualdade em relação aos profissionais homens da área da saúde é gritante, assunto que foi alvo de pesquisas da SEBRAE, mostram que mulheres empreendedoras conseguiram guardar muito menos dinheiro do que os homens em 2021, sendo 47% abaixo; o que explica a diferença entre os gêneros nesse sentido é a hipótese de que, quem fatura menos, guarda menos, sendo resultado da altíssima diferença de salários entre homens e mulheres – pessoas do sexo feminino chegam a ganhar até 34% a menos do que os homens ganham. As mulheres negras são ainda mais inferiorizadas nesse sentido. “Uma das minhas maiores metas é poder contribuir com o desenvolvimento financeiro de outras mulheres negras no país”, diz Alyne Campos, criadora da loja Iwosan e do projeto Jaleco com História.

      “Não queria depender de ninguém, queria tomar todas as atitudes e resoluções do meu jeito sem nenhuma interferência, principalmente masculina”, diz Márcia Fernandes, criadora da “Love Lettering” que nasceu durante a pandemia. Pesquisas realizadas pelo G1 apontam que, com o avanço da Covid-19, mulheres foram as mais impactadas pela crise; porém, pôde-se perceber que a insegurança financeira do ano pandêmico fez com que se tornasse grande o número de novas microempreendedoras no país.

Segundo dados da SEBRAE do ano de 2021, o número de mulheres donas de negócios na pandemia têm renda média menor do que a de empresários homens e suas empregabilidades reduziram em 15% em anos pandêmicos. Dessa forma, fica clara a existência de dificuldades financeiras ao desenvolver novos empreendimentos. Fernandes, afirma que teve que passar por muitos momentos difíceis, "a maior dificuldade foi pagar aluguel, condomínio e impostos altos” e que “a solução foi trabalhar mais e vender mais''. A empresária pontua também que mesmo já trabalhando como empresária há 32 anos, seu objetivo segue sendo “pagar com tranquilidade todas as contas e ter uma vida mais tranquila e agora com a presença do seu próprio negócio.”

Por outro lado, Campos e Rodrigues ressaltam que o desenvolvimento desses projetos resultou num avanço muito grande em suas vidas profissionais, pois garantiu independência e conforto no caos da pandemia. Mesmo assim, a professora não deixa de enfatizar que seu maior obstáculo foi conseguir cobrar o real valor do seu trabalho num período de insegurança financeira, principalmente feminina do país.

 

Dia das mães: A despolitização das pautas relacionadas à maternidade e do cuidado com a infância e a exclusão de mulheres no mercado de trabalho e nos espaços públicos
por
Patrícia Mamede
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28/04/2022 - 12h

A maternidade e os cuidados com a infância têm sido discussões recorrentes dentro do movimento feminista - materialista. No entanto, dentro da agenda política são pautas pouco mencionadas por aparentar ser uma discussão que diz respeito única e exclusivamente às mulheres, portanto, secundárias, de menor importância. Brisa Kamulenge, formada em ciências sociais pela USP, mãe, feminista e ativista, aponta um descaso vigente em relação as pautas relacionadas à maternidade, "Como a gente tem um processo de atomização dos movimentos políticos organizados, essas pautas são vistas como especificamente de mulheres, quando na verdade não são’’. A inviabilização das discussões em relação à infância causa um impacto direto na vida das mulheres e na sua autonomia e liberdade individual, afetando sua inserção no mercado de trabalho e, consequentemente, sua ascensão financeira.

Em 2017, uma pesquisa levantada pelo IBGE detectou que em 2015, mais de 11 milhões de mulheres criavam seus filhos sozinhas. Em 2019, o Conselho Nacional de Justiça revelou dados levantados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) que apontam para um número de 5.494.267 milhões de crianças que não possuem o nome do pai nos seus registros. Os dados que ressaltam o número alarmante de mães solos, têm uma relação direta com a pobreza feminina. O IBGE aponta que 63% das famílias chefiadas por mulheres estão abaixo da linha da pobreza. No terceiro trimestre de 2020, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE, informa que 8,5 milhões de mulheres deixaram o mercado de trabalho comparado ao mesmo período do ano anterior.

Brisa explica que a romantização da maternidade é uma ideologia fundamental para frear o avanço das mulheres nos espaços de poder. "Foi um processo paralelo, no momento em que as mulheres começam a ter aspirações de poder a resposta vai ser atar a mulher à maternidade, aí [a maternidade] se torna a razão de ser da vida das mulheres’’. Ela acrescenta que não há possibilidade de construir mudanças efetivas que possam beneficiar mulheres, mães e crianças sem mexer nas estruturas. "Me parece um pouco fantasioso ou ilusório pensar que tem como existir uma sociedade mais acolhedora para mães e crianças sem mexer em tudo, porque está tudo estruturado sobre a exploração do trabalho não remunerado das mulheres’’, e complementa, "o neoliberalismo está intrinsecamente relacionado às formas mais intensas de exploração do trabalho feminino’’.

O problema não está apenas na dificuldade de inserção no mercado de trabalho, mas ele é, em grande parte, resultado da falta de políticas públicas para a socialização dos trabalhos de cuidados. ‘’Apesar de todos os esforços dessas mulheres, elas são admitidas por conta da maior ou menor, em geral maior, conformidade delas às regras masculinas, e uma dessas regras é elas se comportarem como se não tivessem filhos’’, coloca Brisa, ‘’se a mulher perder oportunidades de crescimento dentro de alguma empresa ou ter o emprego ameaçado porque teve que exercer a maternidade, então esse é um espaço hostil às mães’’.

Associada à falta de políticas públicas de socialização do trabalho de cuidar, a desigualdade salarial faz com que as mulheres tenham que abdicar do emprego para cuidar dos filhos, ‘’se a mãe ganha X e o marido ganha 2X, quem é que vai sair do trabalho para cuidar da criança? Obviamente a mãe. Então pagar mais para os homens não é um acaso. Os dados mostram que no Brasil, mulheres brancas têm mais tempo de estudos e mais qualificação do que homens brancos, no entanto, elas ganham menos que os homens. Mesmo que tenham vantagens sobre homens negros e mulheres negras, tendo em vista os homens de sua própria raça, elas estão em desvantagem’’, contextualiza a cientista social.

A criação de creches públicas de qualidade e em quantidade suficiente é uma política pouco implementada mas que seria imprescindível para as mães não abandonarem os estudos ou desistir da carreira, ‘’Quando meu filho nasceu, eu estudava na USP e lá tinha um sistema de amparo social muito bom naquela ocasião. Então a creche [da USP], por exemplo, era um lugar que as crianças podiam ficar até 12 horas. A creche foi a mãe que eu não tive, a rede social que eu não tive e foi fundamental para que eu pudesse me dedicar quase integralmente ao meu curso. E quando eu saí estava capacitada para entrar no mercado de trabalho’’, enfatiza Brisa.

A pandemia, e o consequente fechamento das creches e escolas, dificultou demasiadamente a vida das mães que não podem, sob hipótese alguma, abrir mão do trabalho, "’especialmente às mulheres empobrecidas, negras, indígenas e racializadas, em geral, ainda tem a questão de conciliar trabalho e os cuidados com os filhos. Porque nem sempre elas têm para quem delegar, então essas crianças vão ficar numa situação de vulnerabilidade, de precariedade, tendo, muitas vezes, que contar com a sorte’’, adverte Brisa.

A maternidade compulsória é um debate que está começando a ganhar alguma visibilidade, "a gente é muito manipulada afetivamente. Pensando no contexto brasileiro, a mulher não tem incentivo nenhum para ser mãe em vista da quantidade de prejuízos que a maternidade traz para a mulher trabalhadora. Ela reduz as oportunidades de trabalho, as chances de crescimento na carreira, reduz as possibilidades de aperfeiçoamento e qualificação’’, mas ainda assim existe uma pressão social que empurra as mulheres à ideia romantizada de criar uma criança.

Outro exemplo de dificuldade de exercer a maternidade é a falta de espaços receptivos para crianças na vida pública cotidiana, "’é tudo muito mais difícil. Se você resolve entrar num banco e precisa ficar ali uma hora esperando, normalmente não tem nada ali que pode ser usado para distrair uma criança. Não tem nenhum cantinho da infância’’, coloca a cientista.

"Outro dia eu fui comprar esses óculos e aconteceu uma coisa muito interessante. Fui numa ótica que era administrada por uma mulher e tinha um cantinho muito bonitinho com livros, brinquedos. Eu fiquei provavelmente o dobro ou o triplo de tempo que eu teria ficado para escolher meus óculos se não tivesse nenhum espaço ali para minha filha se entreter, se sentir acolhida’’, e acrescenta, "o espaço público, se ele vai ser frequentado por mães, ele precisa estar adequado para crianças de alguma maneira’’.

Apesar da maternidade compulsória e dos cuidados com a infância serem pautas cada vez mais discutidas entre mulheres, criar a consciência de que essas são pautas coletivas poderá viabilizar políticas que beneficiem não apenas as mulheres e as crianças, mas toda a sociedade. ‘’O menosprezo às crianças, visível na falta de espaços seguros e adequados para elas na vida pública, é reflexo do menosprezo à mulher’’, pontua Brisa. "O cuidado das crianças é uma responsabilidade de todos os adultos. A culpa que insufla nas mães advém justamente da impossibilidade de darmos conta sozinhas desse trabalho numa sociedade que segrega as crianças”.

A cientista social ainda destaca a importância do pensar criticamente a maternidade, "eu defendo muito o pensar criticamente a maternidade. Ponderar seriamente sobre o não-lugar das crianças na sociedade e optar por exercê-la apenas como expressão do amor às crianças, sabe?

Com quantas crianças uma mulher conviveu antes de optar por ser mãe? Por quanto tempo conviveu com elas após se tornar adulta? A candidata a mãe perceberá que crianças são tratadas como propriedade privada, portanto, como um problema privado. Amar crianças pressupõe libertá-las da condição de ‘negócio privado’ e isso exige a transformação de toda a sociedade para recebê-las como agentes sociais plenos e livres’’.

 

Febre nas redes sociais, as reações da pele em relação à diferentes cores de tecido chamaram a atenção dos internautas
por
Gisele Cardoso dos Santos
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07/04/2022 - 12h

Estes testes encontram as cores que melhor se comportam com o tom de pele de cada pessoa, possibilitando que todos saibam quais opções de cabelo, maquiagem e roupa lhe valorizam mais, são 16 tipos de cartelas de cor. Essa ferramenta, que pode ser feita de forma presencial ou online, é nova para o público em geral e surpreendeu tanto que está sendo registrada e compartilhada em todas as redes sociais.

 

Arquivo pessoal Jessica Dearo em atendimento
Arquivo pessoal Jessica Dearo em atendimento

O principal objetivo desse teste é ajudar as pessoas a entenderem o que realmente funciona para elas e com essa informação elas se tornam mais confiantes, sua autoestima melhora e elas conseguem comunicar ao mundo qualquer impressão que elas desejem através do seu próprio visual.

“O resultado da coloração traz uma segurança para a mulher que ela sempre precisou e nunca teve, a tal história de mudar o cabelo... fazendo o teste a pessoa sabe qual mudança ela pode fazer porque já sabe que vai ficar bom” Comenta a especialista em imagem e autoconhecimento Amanda Moretti.

A pandemia também teve grande influência nesse sucesso, em meio a um momento no qual só era possível se comunicar a distância e todos foram obrigados a se ver em frente

as câmeras e a cuidar mais de si mesmos, a aparência passou a ser mais importante do que nunca e tudo relacionado a imagem própria e autocuidado ganhou mais relevância.

Para aqueles que não possuem condições financeiras para fazer essa análise com um profissional, a internet também oferece testes simples e feitos em casa, que prometem chegar em um resultado tão eficiente quanto. Mas Moretti alerta:

“Precisa de um profissional, a grande roubada de fazer sozinha em casa é ser tendenciosa, eu amo prata e durante o meu teste achei que estava lindo, porque eu queria que estivesse. Mesmo conhecendo a técnica foram as minhas alunas que me mostraram que o dourado ficava bem melhor em mim”. E completa: “Esse negócio de ver a cor da veia, ver se fica bronzeada ou rosada no sol não existe.”

 Amanda Moretti (@amandamorettis)
Amanda Moretti(@amandamorettis)

 

Outro ponto importante é o papel da coloração no movimento de moda sustentável, visto que no Brasil são descartadas 170 toneladas de resíduos têxteis por ano. O conhecimento sobre o que fica bom ou não é extremamente importante para que o consumidor faça uma compra consciente e fique satisfeito com suas peças, sem precisar comprar várias vezes e se desfazer das peças que se arrependeu de adquirir. Além de ajudar também a clientela que possui uma renda baixa a comprar somente o necessário e mesmo assim se sentir bem consigo mesma.

A coloração pessoal também gerou alguns questionamentos, muitas pessoas se preocuparam com a possibilidade de ser algo limitante por definir apenas alguns tons como adequados para cada pessoa, podendo dificultar ao invés de auxiliar, mas a consultora de imagem e estilo Jessica Dearo explica que:

“Sempre tem solução, todos meus clientes saem sabendo quais cores mais harmonizam com a beleza deles, mas todos saem sabendo usar todas as cores. A ideia não é trazer limitação, e sim, conhecimento para que a pessoa saiba compensar quando for usar uma cor que não cai tão bem”.

 Jessica Dearo (@jessica.dearo)
 Jessica Dearo (@jessica.dearo)

Tanta visibilidade não despertou interesse apenas em quem pretende melhorar a sua imagem, mas também em pessoas que desejam se aprofundar no assunto para empreender nesse mercado. Vale a pena ressaltar que a coloração pessoal é apenas um braço do ramo de Consultoria de imagem que possui vários tipos de especialização e que existem muitos cursos para a profissionalização nessa área.