Reforma tributária prevê devolução de impostos para famílias cadastradas no CadÚnico
por
João Moura
|
22/05/2026 - 12h

Para os brasileiros com baixa renda, cada compra no mercado carrega um peso invisível: o imposto embutido no preço dos alimentos, do sabão, do gás de cozinha. Um fardo silencioso que consome parte significativa de uma renda já escassa. A reforma tributária trouxe uma proposta para aliviar esse peso. A devolução de impostos prevista no novo sistema reacendeu o debate sobre o papel do cashback tributário no combate à desigualdade social. A ideia é devolver parte dos tributos pagos no consumo para famílias de baixa renda cadastradas no CadÚnico.

A economista Juliana Inhaz,, em entrevista à AGEMT, vê potencial na proposta, sobretudo pela promessa de simplificar o sistema tributário brasileiro e dar mais transparência aos impostos cobrados em produtos e serviços. "A reforma traz um sistema mais simples e mais transparente. As pessoas vão saber o quanto estão pagando de imposto, e isso pode fazer com que elas passem a prestar mais atenção nesse aspecto", afirma.

Hoje, poucos percebem. A falta de clareza sobre a carga tributária faz com que a maior parte dos brasileiros não note o quanto paga de imposto a cada ida ao supermercado. "Talvez a pessoa olhe para um produto simples e perceba que há um valor elevado de imposto embutido ali. Isso pode gerar uma conscientização maior sobre tributação e cidadania fiscal", diz Juliana.

O potencial existe. Mas os limites também. A especialista ressalta que o impacto da medida dependerá diretamente da forma como a política será implementada. "Se o modelo funcionar apenas como uma devolução proporcional ao consumo, famílias de baixa renda tendem a receber muito pouco, porque consomem menos", explica. A saída, segundo ela, está no desenho do sistema. Para que o cashback seja efetivamente redistributivo, parte dos tributos arrecadados de consumidores de maior renda precisaria ser revertida para as famílias mais vulneráveis. "O impacto pode ser favorável se houver redistribuição. Caso contrário, o efeito tende a ser pequeno", afirma.

Há ainda outro obstáculo, menos visível, mas igualmente concreto: o acesso digital. Muitos brasileiros ainda enfrentam dificuldades para navegar em plataformas governamentais e acessar benefícios financeiros. "Muita gente tem dificuldade para acessar sistemas digitais, fazer login e entender os processos necessários para solicitar benefícios como, por exemplo, acesso ao Gov.Br. Isso acaba afastando parte da população", avalia.

E mesmo que o acesso seja garantido, o cashback, sozinho, não resolve o que é estrutural. "O que realmente melhora a vida das famílias é aumento de renda, produtividade, qualificação profissional e crescimento econômico. Sem isso, mesmo com benefícios, o poder de compra continua comprometido", explica Juliana. Ainda assim, ela enxerga no novo modelo uma oportunidade além da devolução financeira: a de engajar o consumidor na fiscalização tributária e ampliar a formalização da economia. "Quando o consumidor entende que pode receber algum retorno, ele tende a exigir mais transparência nas transações. Isso ajuda a reduzir a informalidade e a evasão fiscal", conclui

Parcelados para sobreviver: como o endividamento virou rotina entre as famílias brasileiras
por
Eduarda Amaral
Wildner Félix
|
22/05/2026 - 12h

No Brasil, parcelar deixou de ser uma escolha pontual. Virou rotina. Da compra do mercado ao remédio na farmácia, o crédito ocupa um espaço cada vez maior no orçamento das famílias e transforma a dívida em estratégia de sobrevivência. Atualmente, 80,2% das famílias brasileiras convivem com algum tipo de débito, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), o maior índice registrado desde 2010. O cartão de crédito é a principal modalidade de dívida, seguido pelos carnês de lojas. Confira os principais dados desta reportagem no nosso carrossel do Instagram. 

Grafico sobre as principais modalidades da dívida brasileira
Principais modalidade de dívida - Arte: Eduarda Amaral/Canva

Cerca de 29% das famílias estão inadimplentes, com contas atrasadas há mais de três meses, e 12% afirmam não ter condições de pagar esses débitos. Em um cenário de juros altos, renda baixa e aumento do custo de vida, o crédito deixou de ser acesso ao consumo supérfluo e passou a sustentar despesas básicas. 

A dívida no Brasil não nasce do desejo. Ela nasce da carência. O país terminou 2024 com quase 82 milhões de pessoas que não conseguiram pagar as contas em dia, o maior patamar desde 2012, segundo dados do Banco Central. Desde o encerramento da primeira fase do programa Desenrola, em julho de 2023, foram 9 milhões de novos inadimplentes e para boa parte dessas famílias, o endividamento não foi uma escolha impulsiva, mas um mecanismo de sobrevivência. 

"A dívida das famílias brasileiras tem caráter estrutural, baseada na má distribuição de renda e no monopólio das grandes redes na distribuição de alimentos e itens essenciais", afirma Paulo Romaro, professor de finanças da PUC-SP. "O crédito fácil não é a causa: é a solução disponível para as famílias de baixa renda. Quando os itens de primeira necessidade pesam no orçamento ou quando algum membro perde sua renda, o endividamento via crédito é a saída disponível.”

Essa engrenagem foi investigada de perto pelo geógrafo Kauê Lopes dos Santos, professor da Unicamp, entrevistado no episódio "Parcelados e endividados no Brasil" do podcast Café da Manhã. Em seu livro Parcelado: dinâmicas de consumo na periferia, resultado de 150 entrevistas em bairros como Brasilândia e Jardim Helena em São Paulo, argumenta que o crédito não é apenas um facilitador do consumo. É um modo de gerir a escassez. 

Enquanto o Estado e o mercado falham em oferecer saneamento e transporte de qualidade, as grandes redes de varejo são onipresentes. A compra parcelada se torna o motor de um ciclo que nunca se encerra: a publicidade estimula o desejo, a obsolescência dos produtos reduz seu tempo de vida e a sobreposição de parcelas compromete a renda de forma contínua, mês após mês. 

O geógrafo chama esse fenômeno de endividamento crônico. "Tudo aqui foi comprado parcelado", resumiu Maria do Carmo, uma de suas entrevistadas, que se orgulhava de uma TV de 43 polegadas mesmo vivendo em uma casa com marcas de umidade e rachaduras nas paredes, um retrato fiel da modernização do consumo que coexiste, sem contradição aparente, com a precariedade estrutural.

A ausência de educação financeira agrava o cenário, mas Romaro é preciso ao delimitar seu papel: "A população não consegue avaliar a situação em que vai se meter." Ainda assim, o economista ressalta que ela seria fundamental em um contexto diferente. "Se o indivíduo soubesse avaliar as opções de onde buscar os recursos necessários e mais adequados para a sua situação, seria muito bom", pondera, sobretudo diante de juros estratosféricos, como os do rotativo do cartão de crédito, que podem ultrapassar 400% ao ano.

Somam-se ainda as bets: "os jogos de azar em profusão viciam, causando um problema endêmico de saúde pública", aponta o professor. Os efeitos se espalham pela vida cotidiana. "Como pagar a mensalidade da escola do filho? Como pagar o aluguel em atraso? O impacto na saúde mental e nas relações é natural que aconteça." 

O endividamento no país tem um recorte racial claro. Pessoas pretas e pardas concentram os maiores índices de insegurança alimentar, moradia precária e informalidade. O rendimento médio dos negros é 40% inferior ao dos não negros diferença que persiste em 32% mesmo entre quem tem ensino superior, segundo o DIEESE. Quando a crise chega para essa parcela da população, o cartão de crédito passa a ser a última linha de defesa para colocar comida na mesa.

No entanto, esse recurso voltado para a baixa renda é também o mais caro, transformando o socorro emergencial em armadilha estrutural. Em Parcelado, o autor mostra que a população pobre e negra, antes excluída do consumo, está hoje subordinada ao capital financeiro. Essa inclusão, celebrada como conquista social, revelou seu lado sombrio nas periferias: a dívida chegou antes da infraestrutura e do saneamento, capturando uma demanda reprimida por décadas.

Com milhões de brasileiros negativados, o governo federal tem apostado em programas de renegociação de dívidas para conter a inadimplência e aliviar o orçamento doméstico. Entre as principais iniciativas recentes estão o Desenrola Brasil e a sua nova versão, o Desenrola 2.0, criados para fechar acordos de pagamentos e devolver o poder de compra à população.

Lançado em maio de 2026, o Desenrola 2.0 incentiva brasileiros com renda de até cinco salários mínimos e que possuem dívidas atrasadas entre 90 dias e dois anos. A medida oferece descontos de até 90% do valor total e permite o uso de até 20% do saldo do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para quitar débitos.

No entanto, para ter direito aos benefícios do programa, o participante não pode comprometer sua renda com apostas digitais pelo período de um ano, um alerta ao comportamento recente da população que tem intensificado o cenário de endividamento no país. 

Ainda assim, Kauê Lopes é direto sobre os limites da iniciativa e afirma que essas políticas têm caráter momentâneo e não resolvem a estrutura do endividamento crônico no Brasil. “Você pode até resolver uma circunstância particular num determinado momento, mas a tendência é que isso volte mais para frente”, explica.

O endividamento, portanto, não é um dado neutro: ele tem cor, endereço e nome. E enquanto o debate político se concentra em medidas paliativas, a raiz do problema permanece intacta. Para Romaro, o combate ao endividamento exige mais do que renegociação de dívidas ou educação financeira. Enquanto parte significativa da população permanecer próxima da linha da sobrevivência, o crédito continuará funcionando como extensão da renda. A saída, segundo ele, passa por distribuição de renda, empregos de melhor qualidade e políticas de desenvolvimento econômico.

Enquanto plataformas ultra-rápidas dominam o mercado, a manufatura tradicional enfrenta o desafio de sobreviver
por
Victória Miranda
Ana Julia Mira
|
22/05/2026 - 12h

A ascensão da inteligência artificial (IA) redefiniu o varejo de moda, elevando o fast fashion ao patamar de 'ultra-rápido'. Marcas como a Shein lideram essa revolução ao utilizarem sistemas proprietários que decodificam tendências de redes sociais e comportamentos de influenciadores, transformando dados em coleções físicas em apenas cinco a sete dias. Diferente do modelo tradicional — baseado em  previsões sazonais e produções em massa — o machine learning (processo de usar dados e algoritmos para ensinar computadores a identificar padrões e tomar decisões) permite a fabricação de lotes precisos (100 a 200 unidades), o que minimiza o risco de estoques parados e garante um ajuste em tempo real à demanda. Esse ecossistema, que já diminui a relevância de gigantes tradicionais como a H&M e domina o consumo da Geração Z. Projetam movimentar US$ 388,5 bilhões (aproximadamente R$1,93 trilhão) até 2034. Esse predomínio econômico consolida um abismo em relação ao slow fashion, que luta para promover o consumo consciente em um cenário onde o algoritmo prioriza a gratificação instantânea e preços agressivos.

O descarte pode gerar um aumento para o consumidor na hora do pagamento
por
Júlio Antônio Poças Pinto
Gabriel Flores
Theo Fratucci
|
21/05/2026 - 12h

Segundo pesquisa da "Food Agriculture Organization of the United Nations (FAO)", Organização para a Alimentação e a Agricultura, 28% das perdas/desperdícios de alimentos orgânicos acontecem no estágio de consumo (famílias, restaurantes etc.), que é o final da cadeia, quando viram lixo. Essa problemática do descarte de alimentos por conta do descuido com a matéria prima da comida, gera bastantes transtornos tanto do ponto de vista econômico como do social. O Brasil, por exemplo, descarta mais do que o necessário para neutralizar a insegurança alimentar no país.  O diretor da Embrapa no Tocantins, especialista no assunto, Roberto Manolio Valladão Flores, em entrevista à AGEMT, esclarece nosso entendimento sobre o lixo orgânico no Brasil. Assista aqui. 

Alta do petróleo afeta marcas que buscam estratégias para evitar o repasse imediato ao consumidor
por
Laura Petroucic
|
21/05/2026 - 12h

Os conflitos no Oriente Médio vêm provocando impactos em diferentes setores da economia mundial, como combustíveis, alimentos e transporte. Um dos segmentos que muitas vezes fica de fora do debate é a indústria da moda. O aumento no preço do petróleo impacta diretamente toda a cadeia de produção têxtil em um mercado marcado pela inflação e pela dependência de importações. A designer Brenda Saad Santos Guimarães, em entrevista à AGEMT, comenta sobre os esforços de marcas para reduzir os impactos da alta nos custos de produção: “Sempre é possível definir estratégias antes de mudar o valor final, como entender o que pode ter um custo menor, características do produto que podem ser mais simples para que caiba no orçamento, número de peças produzidas, onde serão distribuídas ou até mesmo reduzir a margem de lucro no produto para manter a constância de vendas”, diz Brenda.

Justamente por causa dessas estratégias que, muitas vezes, esse aumento pode passar despercebido pelo consumidor final, ao menos em um primeiro momento. No caso do algodão, os conflitos afetam o combustível utilizado em máquinas agrícolas, o transporte de mercadorias, fertilizantes e até o funcionamento da indústria responsável por transformar a fibra em tecido. Já com as fibras sintéticas, como poliéster, nylon e acrílico, o impacto é ainda mais direto: esses materiais são derivados do petróleo. Segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), há relatos de aumentos de até 40% no poliéster desde o início do conflito. Além de matéria-prima mais cara, o setor também enfrenta dificuldades logísticas. Com o Estreito de Ormuz sendo uma das áreas mais instáveis e afetadas, rotas marítimas foram alteradas por questões de segurança, resultando em custos de frete elevados. Brenda nota que o aumento foi constante nos últimos anos. “Fatores como guerras, eleições ou altas repentinas de demanda por conta de tendências influenciam na porcentagem desse aumento”, explica. Para ela, a oscilação da economia global já faz parte da rotina da moda, principalmente em um mercado dependente de importações.

O impacto é ainda maior para pequenas marcas que não podem se dar ao luxo de cortar lucros para manter vendas. A designer destaca que a cadeia têxtil brasileira perdeu força nacionalmente, abrindo mais espaço para materiais importados, o que dificulta ainda mais produtores independentes. “Por exemplo, pedidos mínimos de certos materiais que às vezes são mais do que uma marca independente pode investir. Os planejamentos das marcas precisam trabalhar com antecedência e criar acordos que garantam precauções para situações como inflação absurda ou uma nova pandemia”, afirma.

Apesar das tentativas, o consumo de roupas tende a cair em períodos de inflação, que não é considerado essencial como alimentação ou transporte. Uma alternativa nestes momentos são as fast fashions de plataformas internacionais, como a SHEIN, chinesa, que são de pior qualidade mas dificultam a competição por preço. 
“É um momento de duas balanças, dois pesos. Tem muita coisa sendo produzida, muita coisa sendo consumida, aumento do preço de venda, instabilidade do preço de produção”, resume Brenda, que acredita que estamos em um momento de grande transformação em vários pilares da moda, e que só serão compreendidos em sua totalidade quando estivermos afastados disso. 
 

Escândalo monetário ultrapassa sistema financeiro e movimenta STF e Congresso
por
Iasmim Silva
Martim Tarifa
|
04/03/2026 - 12h

O Banco Master foi colocado em liquidação extrajudicial pelo Banco Central do Brasil em novembro de 2025, após meses de acompanhamento da situação financeira da instituição e tentativas frustradas de venda do controle. O banco, de médio porte e com atuação em São Paulo, já vinha sendo monitorado pela autoridade monetária por problemas de liquidez e fragilidades na carteira de crédito.

Antes da decisão, houve o anúncio de uma possível compra pelo Banco de Brasília (BRB), que não foi aprovada. Em seguida, um grupo ligado ao Fictor também tentou assumir a instituição, mas a operação igualmente não avançou. Paralelamente, a Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, passou a investigar suspeitas de criação e venda de carteiras de crédito inexistentes. 

A primeira fase resultou na prisão do controlador Daniel Vorcaro e no afastamento de Paulo Henrique Costa do comando do BRB. Posteriormente, Vorcaro foi solto por decisão judicial e passou a responder às investigações em liberdade.

Nesta quarta-feira (04), Daniel Vorcaro foi preso novamente pela Polícia Federal, em nova fase da Operação Compliance Zero. A medida foi autorizada pelo ministro André Mendonça, atual relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), e faz parte do aprofundamento das investigações sobre possíveis crimes financeiros e tentativa de obstrução das apurações.

Daniel Vorcaro
Dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. Foto: Márcio Gustavo Vasconcelos

O caso ganhou repercussão nacional quando surgiram citações a autoridades com foro privilegiado. As investigações passaram a tramitar no STF, após menções aos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli em reportagens e nos autos. O Banco Central já havia divulgado, ao longo de 2025, relatórios apontando problemas na estrutura financeira do Master.

Modelo de negócios e risco

Em entrevista à AGEMT, o economista Rafael Prado afirmou que o modelo de negócios do banco apresentava sinais claros de desequilíbrio. Segundo ele, o Master adotava uma estratégia agressiva de captação, oferecendo CDBs com rentabilidade entre 120% e 140% do CDI, taxa que serve como referência para investimentos considerados de baixo risco no país.

“Era claro o descasamento entre ativos e passivos do banco”, afirmou Prado. “Quando você oferece 120% ou 140% do CDI, está prometendo uma rentabilidade acima do que é considerado livre de risco. O investidor precisa estar ciente de que existe risco nessa operação, mesmo sendo um papel de renda fixa.”

O economista também destacou que parte relevante dos ativos estava concentrada em precatórios e participações em empresas com dificuldades financeiras, além de operações de baixa liquidez. Essa combinação, segundo ele, contribuiu para o comprometimento do balanço e para a perda de capacidade de honrar compromissos.

A crise trouxe ainda discussões sobre o papel do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que garante até R$ 250 mil por CPF em determinados produtos bancários. Embora o fundo seja considerado sólido, especialistas ressaltam que a garantia não elimina o risco da aplicação e não deve ser usada como principal argumento para decisão de investimento.

Para Prado, a atuação do Banco Central seguiu os instrumentos previstos na legislação, passando por etapas de acompanhamento antes de decretar a liquidação. Ele avalia que o episódio é pontual e não indica, até o momento, risco sistêmico para o sistema financeiro brasileiro.

Implicações no STF e suspeitas de conflito

Após a prisão de Daniel Vorcaro em novembro de 2025, relatório da Operação Compliance Zero apontou possível relação do ministro relator com o caso. Menções diretas ao nome de Dias Toffoli apareceram em conversas no celular do dono do Banco Master.

Toffoli
Ministro Dias Toffoli. Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

A empresa Maridt Participações, da qual o ministro é sócio, tinha relações comerciais com a Reag, gestora de fundos de investimento suspeita de compor uma rede fraudulenta de finanças junto ao Master e que também teve a liquidação decretada pelo Banco Central. Em nota, o gabinete de Toffoli afirmou que, apesar de ser um dos sócios, quem gere a empresa são seus irmãos.

Após reunião realizada no dia 12 de fevereiro, o STF comunicou o afastamento do ministro Dias Toffoli em votação unânime, mas informou que todos os ministros reconhecem a validade das decisões tomadas por ele durante o período de relatoria do caso. Após novo sorteio, o ministro André Mendonça assumiu a condução do processo.

O doutor em Direito e comentarista político Wagner Gundim afirmou à AGEMT que “a presença de Dias Toffoli no caso Master, do ponto de vista institucional, é profundamente problemática”. Segundo ele, independentemente da conduta do magistrado, o STF, como guardião da Constituição, não pode conviver com rumores de parcialidade.

Como relator, Toffoli decretou sigilo durante as investigações após apontar possível envolvimento de um deputado e determinou a centralização do caso no Supremo, medida prevista para situações com autoridades com foro privilegiado.

O ministro Alexandre de Moraes também foi vinculado ao Banco Master após a divulgação de informação sobre um suposto contrato em nome de sua esposa com empresa ligada a Daniel Vorcaro. Segundo a jornalista Malu Gaspar, o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes teria contrato com o Master que poderia atingir R$ 129 milhões em três anos. O documento, contudo, não foi apresentado publicamente, e a fonte não foi revelada.

Repercussões no Congresso

No Congresso, o senador Ciro Nogueira (PP) apresentou proposta que ficou conhecida como “Emenda Master”, prevendo a ampliação da cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão.

Para Wagner Gundim, a iniciativa evidencia o impacto do poder econômico sobre o poder político. Ele avalia que o caso expõe a atuação de um “lobby institucionalizado, não regularizado” nos bastidores da política brasileira.

O escândalo também passou a ser investigado pela CPI do Crime Organizado, que aprovou a quebra do sigilo decretado por Dias Toffoli e a convocação dos irmãos do ministro, sócios da Maridt Participações. A sessão da CPI que aconteceria nesta quarta-feira (04) foi cancelada após a prisão de Vorcaro. 

As decisões, no entanto, foram suspensas por ministros do STF. Gilmar Mendes anulou a quebra de sigilo das investigações, enquanto André Mendonça acatou pedido da defesa dos irmãos de Toffoli para que não fossem obrigados a depor. A eventual ida à CPI ficou, portanto, a cargo deles.

Por seis votos a três, a corte estadunidense limitou o tarifaço de Donald Trump, com impactos para parceiros comerciais e possível benefício ao Brasil nas exportações
por
Beatriz Neves Barbosa
Amanda Lemos
|
03/03/2026 - 12h

A Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu, no sábado (21), que o atual presidente Donald Trump violou a lei federal ao impor tarifas a mais de 180 países. A decisão derrubou o tarifaço de Trump, que estava sendo aplicado havia 10 meses.

As tarifas se constituíram como o maior meio para obtenção de investimentos desde abril do ano passado e início do governo Trump, as quais foram utilizadas para acordos comerciais com a China e a União Europeia com intuito de reduzir déficits e proteger as produções nacionais visando o fortalecimento da posição negociadora dos Estados Unidos.

A decisão da corte foi concretizada após a tomada de decisão de que o atual presidente extrapolou os limites legais da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional de 1977, que permite congelar bens estrangeiros e controlar o comércio ao declarar estado de emergência nacional devido a ameaças externas atípicas.

A questão representa uma derrota para a Casa Branca em relação a uma das questões mais importantes da política externa e da economia dos Estados Unidos. Ainda assim, poucas horas após a decisão da Suprema Corte, Donald Trump declarou que tarifas aplicadas a determinados países seriam elevadas a 10%, anteriormente divulgado na sexta-feira (20), tendo como base de medida a Seção da Lei de Comércio americano de 1974, que permite que o presidente imponha taxas de até 15% por 150 dias sobre importações de países exteriores sem a necessidade de aprovação do Congresso.

Trump sentado no tribunal no segundo dia de julgamento — Foto: JUSTIN LANE/Pool via REUTERS
Trump sentado no tribunal no segundo dia de julgamento — Foto: JUSTIN LANE/Pool via REUTERS

O Brasil foi um dos maiores beneficiados com a decisão

Perante a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, a média das tarifas sobre produtos brasileiros caiu para cerca de 12,2%, beneficiando assim muitos setores e gerando um impacto positivo na economia brasileira.

Os principais setores impactados foram o aeronáutico, que estava tributado entre 10% e 25%, o da indústria de transformação (que inclui máquinas, equipamentos, autopeças e bens industriais) que estava tributado entre 15% e 30% e o de agropecuária industrializada, que estava tributado entre 10% e 20%.

Com quase metade das exportações do Brasil, cerca de 46%, sem tarifa adicional, produtos brasileiros voltam à competitividade no cenário econômico global. O “alívio tarifário” possibilita ao Brasil maior espaço no mercado norte-americano, tornando-o mais disputado em relação aos demais concorrentes internacionais.

A decisão influenciou positivamente os mercados brasileiros. O Ibovespa, principal índice da bolsa no Brasil, apresentou valorização como resposta direta às expectativas de melhora nas perspectivas comerciais. Além disso, em 2025, a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos somou cerca de 82,8 bilhões de dólares, com um déficit para o Brasil de 7,5 bilhões de dólares. A proibição e redução das tarifas de Trump pela Suprema Corte podem ajudar a reduzir essa diferença, contribuindo consequentemente para o equilíbrio comercial brasileiro por meio do aumento significativo das exportações.

A Suprema Corte dos Estados Unidos. Na primeira fila, da esq. para dir. Stephen G. Breyer, Clarence Thomas, John G. Roberts (líder); Ruth Bader Ginsburg, and Samuel A. Alito. Atrás, da esq. para dir.: Neil Gorsuch, Sonia Sotomayor, Elena Kagan e Brett Kavanaugh - Foto: Fred Schilling, Collection of the Supreme Court of the United States
A Suprema Corte dos Estados Unidos. Na primeira fila, da esq. para dir. Stephen G. Breyer, Clarence Thomas, John G. Roberts (líder); Ruth Bader Ginsburg, and Samuel A. Alito. Atrás, da esq. para dir.: Neil Gorsuch, Sonia Sotomayor, Elena Kagan e Brett Kavanaugh - Foto: Fred Schilling, Collection of the Supreme Court of the United States

Segundo Cristina Helena Pinto de Mello, professora de Economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), houve tópicos que ficaram por fora da decisão, como, por exemplo, tarifas para práticas desleais e a segurança nacional americana. A professora sustenta que Donald Trump, mesmo com um parlamento majoritariamente republicano, atende a todos os requisitos e que o governo americano possui uma política robusta, afirmando que “ele não consegue promover um desequilíbrio entre o executivo e o judiciário”.

Cristina aponta que os principais setores brasileiros beneficiados com a decisão são os de aço e alumínio. Por fim, a economista acrescentou que as empresas brasileiras ganham créditos por pagar tarifas e ressaltou também que não houve apenas impactos negativos; um impacto positivo, por exemplo, foi o acordo firmado com a União Europeia após 30 anos de negociações.

Financeirização do mercado imobiliário, a visão de imóveis como propriedades mais seguras e ações do próprio governo dificultam acesso à moradia digna
por
Henrique Silva Rodrigues
|
28/11/2025 - 12h

Por Henrique Silva Rodrigues

Quem navega pela Internet com frequência provavelmente já se deparou com memes comparando a geração de jovens atuais com os pais quando tinham a mesma idade. Enquanto os genitores aparecem como proprietários de casa própria e com família já formada aos na casa dos 20, a geração seguinte é apresentada com pouquíssimas chances de conseguir o próprio imóvel. Apesar do tom de gozação, é fato que o valor para financiar uma residência cresce em um ritmo mais rápido do que nossos salários podem acompanhar. 

Segundo dados da FipeZAP, os preços de imóveis em São Paulo subiram em 192% entre 2005 e 2014, e dados do primeiro semestre de 2025 apresentam crescimento de 3,33%, maior do que o crescimento da inflação no mesmo período, que foi de 3,06%. O que estes dados comprovam é que o valor de mercado deste segmento cresce exponencialmente, assim como a dificuldade de alcançar o sonho da casa própria. 

Os preços dos aluguéis cresceram em um percentual ainda maior, tendo elevado seu custo em 5,6%, como mostra o Índice de Localização Residencial, também da FipeZAP, que analisou 35 cidades, das quais 34 apresentaram elevação nos preços. Portanto, não importa em qual aspecto foquemos, ter um teto sobre a cabeça está cada dia mais caro e a tendência é que isso continue. 

O resultado é uma crise habitacional com um número cada vez maior de famílias lutando para ter onde morar. O Mapeamento Nacional de Conflitos Pela Terra e Moradia, divulgado pela Campanha Despejo Zero, que mapeia conflitos habitacionais desde 2020, registrou um total de 2.098.948 de pessoas impactadas de alguma forma pela questão do despejo e remoção forçada em território nacional nos últimos cinco anos. Os dados atuais são de 437.455 de famílias sob ameaça, 62.381 que foram efetivamente despejadas, e 107.356 casos de famílias com despejos suspensos. 

Matheus é um dos vários casos de pessoas que tiveram de sair de suas moradias por não serem capazes de sustentar o preço dos aluguéis. Ele relata que trabalhava de manobrista em escala 6x1 e em bicos que conseguia em eventos e que, na época, pagava cerca de 1000 reais de aluguel em um quarto com banheiro. O gasto com a moradia drenava sozinho a maior parte de sua renda, nas palavras dele: “tinha dinheiro somente para pagar o aluguel”. Insatisfeito com a situação, decidiu sair do emprego e alugar um carro para trabalhar como motorista de aplicativo, mas não calculou direito o dinheiro que receberia e não conseguiu concluir o plano. Precisou pedir ajuda de parentes e amigos próximos para conseguir o veículo, o que fez com que demorasse para juntar o dinheiro que devia. Após conflitos com a proprietária pela longa demora em pagar o aluguel, foi expulso de onde habitava e buscou um quarto menor com mensalidades mais baixas para conseguir se estabilizar. 

Isso aconteceu em São Paulo, onde se concentram a maioria dos casos. Foram, somente neste estado, 160.092 de ameaças e 17.274 despejos na última meia década. A situação do entrevistado é uma realidade cada dia mais próxima para grande parte dos brasileiros. A valorização imobiliária faz com que os proprietários ajustem o preço cobrado nos aluguéis nas renovações de contratos, mas, muitas vezes, o salário dos inquilinos não consegue acompanhar essa subida. 

A professora da USP Maria Camila Loffredo D’Ottaviano, Arquiteta e Urbanista, mestre em Estruturas Ambientais Urbanas e doutora em HABITAT/Arquitetura e Urbanismo, explica que um dos motivos dessa valorização é o fato dos imóveis serem vistos como uma espécie de garantia, algo que não pode ser retirado de você. Ela conta que, desde algumas gerações passadas, ter um segundo imóvel para gerar renda extra, assim como ser algo a se deixar de herança para seus filhos, é alvo de interesse da maioria das pessoas. Essa visão de que a propriedade imobiliária é a forma mais segura de guardar seu dinheiro foi reforçada pelo congelamento de contas bancárias e poupanças em 16 de março de 1990, medida tomada por Fernando Collor de Mello um dia após sua posse presidencial para tentar combater a hiperinflação. 

Outro motivo para essa valorização o imóvel passando a ser visto como um ativo do ponto de vista financeiro e fundos imobiliários recebendo um grande volume de dinheiro. Com a chegada de grandes construtoras que estavam inseridas na bolsa de valores. Sendo empresas de capital aberto, com suas ações a venda no mercado, era necessário gerar lucro e retorno para seus acionistas, fazendo com que elas comprassem grandes volumes de terra para construções imobiliárias, gerando seus dividendos através delas. A professora conta que esse processo é recente, tendo iniciado há cerca de 20 anos atrás. 

Este setor entrou em crise em 2008, devido ao estouro da bolha do mercado imobiliário nos Estados Unidos da América, o que acabou afetando o mundo todo. Daí surgiu o programa Minha Casa Minha Vida, que Loffredo caracteriza como anticíclico, isto é, uma medida que visa combater os efeitos de ciclos econômicos. Tendo sido originado no segundo governo Lula, o governo federal investia dinheiro do FGTS e do Orçamento Geral da União para a produção de moradias para famílias de diversas faixas de renda, mantendo o mercado da construção civil aquecido, o que garantia emprego para muitas pessoas desqualificadas, ocasionando em um ganho bilateral de diminuição do desemprego e grandes lucros para estas construtoras. O investimento no setor foi especialmente grande no fim da segunda gestão Lula e no primeiro governo da Dilma. 

Em São Paulo, vivemos uma lógica diferente. Houve uma revisão do plano diretor, que incentivou o adensamento das construções em vias com corredores de ônibus e proximidade às linhas de metrô, permitindo acesso facilitado de mais moradores ao transporte público. Isto porque parte destas moradias deveriam se encaixar na categoria de HIS, habitação de interesse social, que possui algumas condições especiais, dentre elas, não poderiam ter garagem. Isto deveria garantir um maior volume de construções e diminuição no preço de moradias. Porém, na prática, o que acontece é que a maioria dessas moradias acabaram se tornando quitinetes e que muitos prédios inteiros são comprados por um único investidor para serem alugados, muitos deles em curta temporada, no estilo de Airbnb. 

Além disso, muitas famílias acabam sendo expulsas de comunidades por um processo de “higienização”. A doutora D’Ottaviano cita a remoção forçada de famílias da Favela do Moinho como exemplo. Ela diz que o interesse não é em construir na área atualmente ocupada pela favela, especialmente pelo fato dela se encontrar ao longo da linha do trem, portanto, ninguém teria interesse em realizar obras no local. O que acontece é que, enquanto a favela estiver lá, a área ao redor não vai possuir valor de mercado. O governo do Tarcísio de Freitas pretende estender a sede administrativa do governo para a Praça da Princesa Isabel, que fica a menos de um quilômetro da favela, onde eles pretendem fazer uma “limpeza” para a construção de um parque, “revitalizando” a região. 

A Favela do Moinho persiste e resiste à remoção forçada, com diversos protestos sendo promovidos pelos moradores sendo reprimidos violentamente pelas forças policiais. Os moradores dessa comunidade lutam pelo acesso à moradia contra o governo do mesmo país que garante acesso à moradia como um direito básico em sua constituição. 

Sem orientação adequada, donas de pequenos negócios relatam dificuldades para entender as mudanças na economia e veem sua renda ameaçada
por
Manuela Dias
|
28/11/2025 - 12h

A falta de informação qualificada tem se tornado uma das principais barreiras para microempreendedoras brasileiras que dependem de insumos importados ou de produtos cujo preço varia conforme fatores globais. Em meio a mudanças recentes nas taxas, oscilações cambiais e aumento da burocracia para transações internacionais, muitas afirmam que não sabem onde buscar apoio técnico. É o caso de Danielle Nayara, maquiadora e microempreendedora, que iniciou seu negócio após deixar o emprego formal para trabalhar com eventos.

“Eu sempre gostei de maquiagem, mas nunca tinha pensado em maquiar outras pessoas. Só comecei depois de uma sugestão, fiz um curso e acabei me apaixonando pela profissão”, conta. Hoje, ela atende clientes em casa, em eventos e até pernoita em residências para preparar noivas e madrinhas. Mas apesar da agenda cheia, manter o negócio funcionando tem se tornado cada vez mais complexo.

Um desafio diário

Para Danielle, o principal custo do seu trabalho é a compra de materiais: produtos que sofrem variações constantes de preço, muitas delas impactadas por fatores externos. “Um produto que eu comprei por um valor semana passada já está mais caro hoje. Quando isso acontece, eu preciso ajustar meus preços, porque se não aumento, perco margem”, explica.

Ela relata que, muitas vezes, não entende o motivo dessas oscilações nem encontra informação clara sobre o que está influenciando o aumento. Esse descompasso entre preço e explicação não só dificulta o planejamento, como a impede de aproveitar oportunidades.

“A qualidade dos produtos é essencial. Se o material é ruim, não adianta eu ser boa. Só que para comprar produtos bons, eu preciso pesquisar muito. E os preços mudam rápido demais”, diz.

A falta de informação também interfere na profissionalização. Em eventos como a Beauty Fair, Danielle conseguiu adquirir produtos de alta qualidade com preço reduzido, mas admite que depende do acaso: “Eu fico sabendo por redes sociais. Se eu não vejo no Instagram ou no TikTok, eu perco a chance.”

Redes sociais como principal fonte

Como muitas microempreendedoras, Danielle se informa principalmente pelas redes sociais. “É onde está tudo hoje: Instagram, TikTok, WhatsApp. É ali que vejo notícias, promoções e mudanças”, afirma. O problema, segundo especialistas, é que essa dependência de canais informais deixa empreendedoras vulneráveis. Notícias sobre variações cambiais, tarifas, mudanças em importações ou novas regras para comercialização de cosméticos dificilmente chegam a essas mulheres de forma clara e estruturada. Isso faz com que muitas decisões sejam tomadas às cegas.

Economistas e organizações ligadas ao empreendedorismo feminino têm reiterado que a falta de informação clara é hoje um dos maiores riscos para pequenos negócios liderados por mulheres. À medida que insumos sofrem com oscilações globais, e que o comércio exterior se torna mais complexo, milhares de empreendedoras enfrentam um mercado imprevisível sem apoio técnico.

No caso de Danielle, o impacto ainda é administrável, mas ela admite a preocupação: “Eu tento acompanhar tudo, mas é difícil saber o que realmente vai afetar meu trabalho. Às vezes, descubro um aumento só quando chego na loja para comprar”, relata.

Qualidade e confiança são os dois principais pilares do trabalho de uma maquiadora”.
“Qualidade e confiança são os dois principais pilares do trabalho de uma maquiadora”. Reprodução: arquivo pessoal 

Força para manter o negócio! 

Apesar dos desafios impostos pela falta de informação, pelos custos instáveis e pelas mudanças constantes no mercado, mulheres como Danielle continuam sustentando seus negócios com esforço diário, intuição e dedicação. A realidade que enfrentam é marcada por incertezas, mas também por uma determinação que atravessa jornadas longas, madrugadas de trabalho e decisões tomadas sem o suporte adequado.

No fim das contas, o que sustenta esses negócios não é apenas acesso a crédito ou políticas públicas: é a força de mulheres que, todos os dias, escolhem continuar. A luta feminina, silenciosa ou coletiva, segue sendo a certeza em meio ao cenário incerto e continua provando que, quando essas mulheres resistem, elas transformam não só suas próprias histórias, mas também o futuro do empreendedorismo no país.

 

Transformando a vida de milhões de pessoas todo ano, merece mais reconhecimento e recursos para manter o Brasil vivo
por
Vítor Nhoatto
|
28/11/2025 - 12h

Por Vítor Nhoatto

 

Uma das poucas certezas de todo ser humano, tal qual a morte, é a doença. Sabe aquele resfriado que vem junto ao seco do frio, uma ferida que infecciona depois de cair de bicicleta, até aquelas mais sérias que podem aparecer. Fato é que sem saúde não se vive, sendo um direito constitucional não por acaso. Sendo assim, é preciso que o acesso a essa necessidade tão básica quanto respirar e se alimentar seja universal, e não um bem a se comprar apenas por aqueles que podem.

Para isso então que existe o Sistema Único de Saúde (SUS), tão falado e muito mais presente na vida do que alguns podem sequer imaginar, ou querer. Para se ter uma ideia, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), órgão regulador dos medicamentos disponíveis no país, de controle alimentar e hídrico, faz parte do SUS. Regulamentado em 1990, é responsável pelas vacinas e desenvolvimento científico ainda, e sabe os planos de saúde, a Agência Nacional de Saúde (ANS), que os regula, também é integrante do sistema.

Para falar dessa diferença real na vida, antes é preciso até olhar nos papéis para lembrar já a quanto tempo ele é médico, enfermeiro, farmácia. De cabelos curtos hoje, depois de uma repaginada no visual devido ao câncer de pulmão que teve justamente na pandemia de COVID-19, Léia Marisa celebra que há dois anos consegue receber na AME Maria Zélia o micofenolato de Mofetila. Pois é, muitas vezes quando o nome é chique o preço é alto, uns R$500 por caixa, mil reais por mês gastos antes da papelada ficar pronta e ser aceita em 30 de novembro de 2023, já que a doença não espera os trâmites e filas.

A ex-professora, atual dona de casa e empresária a distância do seu restaurante, conta como o período de descoberta e tratamento do câncer, que levou até questões reumatológicas, e ajudou a descobrir uma artrite reumatoide, foi muito difícil. Entre dezenas de idas ao hospital de 2020 até 2023 até chegar ao diagnóstico, foram dias desgastantes, assustadores, e toda ajuda foi essencial, principalmente com os custos de sobreviver à doença. No caso dela, o tratamento do tumor foi feito em rede privada graças ao seu plano de saúde empresarial, que custa salgados R$5 mil reais ao mês. Só aqui são quase quatro salários mínimos, um privilégio muito grande, como ela destaca, olhando para um país em que apenas 7,60% da população ganha entre 5 e 10 salários como o Censo de 2022 do Instituto brasileiro de Geografia e Estatística revela. 

Se aprofundando mais ainda nos fatos, de acordo com o estudo “Quanto custa o câncer” de 2023 do Observatório de Oncologia, do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE) e do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer, os custos de tratamento da doença quadruplicaram nos últimos três anos. Uma sessão de radioterapia ou quimioterapia custava quase R$800 em 2022, e dezenas são necessárias na maioria das vezes. Acrescentando nessa conta, consultas, tomografias e biópsias, mil reais ali e cinco acolá, o custo chega facilmente ultrapassa dezenas de milhares de reais. Isso é ainda mais preocupante tendo em conta a incidência do câncer na população, que segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA) entre 2023 e 2025, 704 mil pessoas terão a doença como Marisa. 

E com isso que o SUS se mostra como algo tão relevante, oferecendo tratamento integral e gratuito contra todos os tipos de cânceres. Claro que muitos problemas existem, como destaca Marisa ao lembrar que quando estava no meio do tratamento enfrentou problemas com o plano de saúde, mas que só o medo de depender da demora do SUS caso fosse preciso, a preocupava muito. A saúde é o bem mais precioso para, o que para todos provavelmente deva ser, e por isso justamente que em 2012 a lei 12.732/12 obriga que o tratamento contra o câncer tem que ser iniciado em até 60 dias após o diagnóstico. 

Mas além disso, com os olhos marejados depois de navegar novamente no mar agitado que foi a jornada até a vida que tem hoje, curada e com o diagnóstico da sua doença crônica, ela volta e lembra que a diferença que não ter que pagar pelo Micofenolato que a mantém respirando faz.  Quando tinha que arcar com as despesas era como um fardo a mais imposto a ela, que considera a saúde hoje como o bem mais valioso. As idas mensais  ao posto são um alívio hoje para ela, destacando que o seu medicamento nunca faltou até então, mas que já presenciou pessoas na situação contrária e que não tinham como arcar pessoalmente com os gastos. Essa é uma realidade infelizmente, segundo fiscalização de 2023 da secretaria de contas do Estado de São Paulo, em quase metade dos postos visitados faltavam algum medicamento.

papéis
A cada seis meses Marisa tem que renovar a receita e toda a papelada para solicitação do seu medicamento junto a AME - Foto: Vítor Nhoatto

Milhões de uns

Mesmo que falte muito, afinal, só 4,16% do orçamento federal foi destinado à saúde em 2024 segundo o Painel do Orçamento Federal, a porcentagem vem aumentando desde 2022, e milhões de brasileiros são atendidos todos os dias. O Brasil é o único país do mundo com mais de 100 milhões de habitantes com um sistema universal de saúde, e 213 milhões dependem diretamente do SUS, segundo o Ministério da Saúde, que contabiliza em média 2,8 bilhões de atendimentos por ano, empregando 3,5 milhões de profissionais.

E mais um desses uns é Valdir Sousa, que do alto de seus 63 anos de idade é um típico caso brasieleiro. Com diabetes do tipo II há 20 anos e hipertenso, conta que se não fosse o acesso ao sistema gratuito, sua vida seria muito diferente, obviamente pelo lado financeiro, e muito também pelo bem-estar. O mineiro nascido em São João do Paraíso e que vive em São Paulo há décadas já viu tanto na vida, e com o passar do tempo o que todos querem e merecem é justamente qualidade de vida. Essa no caso, em grande parte possível graças a insulina que busca no posto na Freguesia do Ó e os comprimidos que cuidam do seu coração acelerado.

Justamente essa hipertensão que é a doença mais presente nos peitos animados dos brasileiros, e 52% da população é diagnosticada com alguma DCNTs, como revela a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019. Além disso, segundo dados de 2020 da Organização Mundial da Saúde (OMS), as doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) como as de Valdir são tecnicamente chamadas, são as mais comuns no mundo e no Brasil, com o diabetes inclusive tendo aumentado 70% entre 2000 e 2019. 

Para contextualização, nos Estados Unidos existe há alguns anos o movimento nas redes sociais insulin4all, criado pela organização sem fins lucrativos T1 International, que denuncia os altos custos da insulina no país, onde um frasco de 10ml gira em torno de U$330. Tal situação vem levando inclusive pessoas a racionarem o medicamento, o que pode levar a complicações e até a morte em casos mais graves. Já no Brasil, o mesmo remédio é disponibilizado pelo SUS, e o preço máximo permitido por lei é de R$125,30. 

Diante desses dados e o envelhecimento da população fica claro como a saúde vai ser cada vez mais necessária, tal qual destaca o jovem de espírito Valdir, que já foi pedreiro e auxiliar de manutenção geral em uma lanchonete, justamente no Hospital das Clínicas. As histórias que já viu na maior referência de saúde pública brasileira enchem a sua mente, e as palavras saem inquietas sobre as melhorias que o SUS precisa e as pessoas merecem. Ele conta em meio a suspiros que quando precisa de exames mais urgentes, ou consultas em meio a crises, tem que recorrer ao plano de saúde da sua esposa, do qual é dependente, já que as unidades de saúde estão sempre cheias e a fila de espera passa de meses algumas vezes. 

Foi nessas passagens obrigadas pela rede privada que ele inclusive descobriu mais um integrante do seu pacote, a doença renal crônica há um ano. Porém, é no SUS que o acompanhamento com nutricionista, nefrologista e endocrinologista foi possível, uma rotina de cuidados essenciais para uma boa qualidade de vida para quem tem a condição. É graças a essa rede de profissionais e a farmácia popular que Valdir vai aproveitando com os dois filhos e a mulher os seus dias, frisando com a voz até meia trêmula, que sem isso não poderia se ter o seu direito de viver com saúde exercido plenamente.

medicamentos
São graças a compostos como esses que tanto Marisa ou Valdir, e os mais de 100 milhões de brasileiros com doenças crônicas podem viver bem tal qual a constituição garante - Foto: Vítor Nhoatto