O Banco Master foi colocado em liquidação extrajudicial pelo Banco Central do Brasil em novembro de 2025, após meses de acompanhamento da situação financeira da instituição e tentativas frustradas de venda do controle. O banco, de médio porte e com atuação em São Paulo, já vinha sendo monitorado pela autoridade monetária por problemas de liquidez e fragilidades na carteira de crédito.
Antes da decisão, houve o anúncio de uma possível compra pelo Banco de Brasília (BRB), que não foi aprovada. Em seguida, um grupo ligado ao Fictor também tentou assumir a instituição, mas a operação igualmente não avançou. Paralelamente, a Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, passou a investigar suspeitas de criação e venda de carteiras de crédito inexistentes.
A primeira fase resultou na prisão do controlador Daniel Vorcaro e no afastamento de Paulo Henrique Costa do comando do BRB. Posteriormente, Vorcaro foi solto por decisão judicial e passou a responder às investigações em liberdade.
Nesta quarta-feira (04), Daniel Vorcaro foi preso novamente pela Polícia Federal, em nova fase da Operação Compliance Zero. A medida foi autorizada pelo ministro André Mendonça, atual relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), e faz parte do aprofundamento das investigações sobre possíveis crimes financeiros e tentativa de obstrução das apurações.
O caso ganhou repercussão nacional quando surgiram citações a autoridades com foro privilegiado. As investigações passaram a tramitar no STF, após menções aos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli em reportagens e nos autos. O Banco Central já havia divulgado, ao longo de 2025, relatórios apontando problemas na estrutura financeira do Master.
Modelo de negócios e risco
Em entrevista à AGEMT, o economista Rafael Prado afirmou que o modelo de negócios do banco apresentava sinais claros de desequilíbrio. Segundo ele, o Master adotava uma estratégia agressiva de captação, oferecendo CDBs com rentabilidade entre 120% e 140% do CDI, taxa que serve como referência para investimentos considerados de baixo risco no país.
“Era claro o descasamento entre ativos e passivos do banco”, afirmou Prado. “Quando você oferece 120% ou 140% do CDI, está prometendo uma rentabilidade acima do que é considerado livre de risco. O investidor precisa estar ciente de que existe risco nessa operação, mesmo sendo um papel de renda fixa.”
O economista também destacou que parte relevante dos ativos estava concentrada em precatórios e participações em empresas com dificuldades financeiras, além de operações de baixa liquidez. Essa combinação, segundo ele, contribuiu para o comprometimento do balanço e para a perda de capacidade de honrar compromissos.
A crise trouxe ainda discussões sobre o papel do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que garante até R$ 250 mil por CPF em determinados produtos bancários. Embora o fundo seja considerado sólido, especialistas ressaltam que a garantia não elimina o risco da aplicação e não deve ser usada como principal argumento para decisão de investimento.
Para Prado, a atuação do Banco Central seguiu os instrumentos previstos na legislação, passando por etapas de acompanhamento antes de decretar a liquidação. Ele avalia que o episódio é pontual e não indica, até o momento, risco sistêmico para o sistema financeiro brasileiro.
Implicações no STF e suspeitas de conflito
Após a prisão de Daniel Vorcaro em novembro de 2025, relatório da Operação Compliance Zero apontou possível relação do ministro relator com o caso. Menções diretas ao nome de Dias Toffoli apareceram em conversas no celular do dono do Banco Master.
A empresa Maridt Participações, da qual o ministro é sócio, tinha relações comerciais com a Reag, gestora de fundos de investimento suspeita de compor uma rede fraudulenta de finanças junto ao Master e que também teve a liquidação decretada pelo Banco Central. Em nota, o gabinete de Toffoli afirmou que, apesar de ser um dos sócios, quem gere a empresa são seus irmãos.
Após reunião realizada no dia 12 de fevereiro, o STF comunicou o afastamento do ministro Dias Toffoli em votação unânime, mas informou que todos os ministros reconhecem a validade das decisões tomadas por ele durante o período de relatoria do caso. Após novo sorteio, o ministro André Mendonça assumiu a condução do processo.
O doutor em Direito e comentarista político Wagner Gundim afirmou à AGEMT que “a presença de Dias Toffoli no caso Master, do ponto de vista institucional, é profundamente problemática”. Segundo ele, independentemente da conduta do magistrado, o STF, como guardião da Constituição, não pode conviver com rumores de parcialidade.
Como relator, Toffoli decretou sigilo durante as investigações após apontar possível envolvimento de um deputado e determinou a centralização do caso no Supremo, medida prevista para situações com autoridades com foro privilegiado.
O ministro Alexandre de Moraes também foi vinculado ao Banco Master após a divulgação de informação sobre um suposto contrato em nome de sua esposa com empresa ligada a Daniel Vorcaro. Segundo a jornalista Malu Gaspar, o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes teria contrato com o Master que poderia atingir R$ 129 milhões em três anos. O documento, contudo, não foi apresentado publicamente, e a fonte não foi revelada.
Repercussões no Congresso
No Congresso, o senador Ciro Nogueira (PP) apresentou proposta que ficou conhecida como “Emenda Master”, prevendo a ampliação da cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão.
Para Wagner Gundim, a iniciativa evidencia o impacto do poder econômico sobre o poder político. Ele avalia que o caso expõe a atuação de um “lobby institucionalizado, não regularizado” nos bastidores da política brasileira.
O escândalo também passou a ser investigado pela CPI do Crime Organizado, que aprovou a quebra do sigilo decretado por Dias Toffoli e a convocação dos irmãos do ministro, sócios da Maridt Participações. A sessão da CPI que aconteceria nesta quarta-feira (04) foi cancelada após a prisão de Vorcaro.
As decisões, no entanto, foram suspensas por ministros do STF. Gilmar Mendes anulou a quebra de sigilo das investigações, enquanto André Mendonça acatou pedido da defesa dos irmãos de Toffoli para que não fossem obrigados a depor. A eventual ida à CPI ficou, portanto, a cargo deles.
A Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu, no sábado (21), que o atual presidente Donald Trump violou a lei federal ao impor tarifas a mais de 180 países. A decisão derrubou o tarifaço de Trump, que estava sendo aplicado havia 10 meses.
As tarifas se constituíram como o maior meio para obtenção de investimentos desde abril do ano passado e início do governo Trump, as quais foram utilizadas para acordos comerciais com a China e a União Europeia com intuito de reduzir déficits e proteger as produções nacionais visando o fortalecimento da posição negociadora dos Estados Unidos.
A decisão da corte foi concretizada após a tomada de decisão de que o atual presidente extrapolou os limites legais da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional de 1977, que permite congelar bens estrangeiros e controlar o comércio ao declarar estado de emergência nacional devido a ameaças externas atípicas.
A questão representa uma derrota para a Casa Branca em relação a uma das questões mais importantes da política externa e da economia dos Estados Unidos. Ainda assim, poucas horas após a decisão da Suprema Corte, Donald Trump declarou que tarifas aplicadas a determinados países seriam elevadas a 10%, anteriormente divulgado na sexta-feira (20), tendo como base de medida a Seção da Lei de Comércio americano de 1974, que permite que o presidente imponha taxas de até 15% por 150 dias sobre importações de países exteriores sem a necessidade de aprovação do Congresso.
O Brasil foi um dos maiores beneficiados com a decisão
Perante a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, a média das tarifas sobre produtos brasileiros caiu para cerca de 12,2%, beneficiando assim muitos setores e gerando um impacto positivo na economia brasileira.
Os principais setores impactados foram o aeronáutico, que estava tributado entre 10% e 25%, o da indústria de transformação (que inclui máquinas, equipamentos, autopeças e bens industriais) que estava tributado entre 15% e 30% e o de agropecuária industrializada, que estava tributado entre 10% e 20%.
Com quase metade das exportações do Brasil, cerca de 46%, sem tarifa adicional, produtos brasileiros voltam à competitividade no cenário econômico global. O “alívio tarifário” possibilita ao Brasil maior espaço no mercado norte-americano, tornando-o mais disputado em relação aos demais concorrentes internacionais.
A decisão influenciou positivamente os mercados brasileiros. O Ibovespa, principal índice da bolsa no Brasil, apresentou valorização como resposta direta às expectativas de melhora nas perspectivas comerciais. Além disso, em 2025, a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos somou cerca de 82,8 bilhões de dólares, com um déficit para o Brasil de 7,5 bilhões de dólares. A proibição e redução das tarifas de Trump pela Suprema Corte podem ajudar a reduzir essa diferença, contribuindo consequentemente para o equilíbrio comercial brasileiro por meio do aumento significativo das exportações.
Segundo Cristina Helena Pinto de Mello, professora de Economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), houve tópicos que ficaram por fora da decisão, como, por exemplo, tarifas para práticas desleais e a segurança nacional americana. A professora sustenta que Donald Trump, mesmo com um parlamento majoritariamente republicano, atende a todos os requisitos e que o governo americano possui uma política robusta, afirmando que “ele não consegue promover um desequilíbrio entre o executivo e o judiciário”.
Cristina aponta que os principais setores brasileiros beneficiados com a decisão são os de aço e alumínio. Por fim, a economista acrescentou que as empresas brasileiras ganham créditos por pagar tarifas e ressaltou também que não houve apenas impactos negativos; um impacto positivo, por exemplo, foi o acordo firmado com a União Europeia após 30 anos de negociações.
Por Henrique Silva Rodrigues
Quem navega pela Internet com frequência provavelmente já se deparou com memes comparando a geração de jovens atuais com os pais quando tinham a mesma idade. Enquanto os genitores aparecem como proprietários de casa própria e com família já formada aos na casa dos 20, a geração seguinte é apresentada com pouquíssimas chances de conseguir o próprio imóvel. Apesar do tom de gozação, é fato que o valor para financiar uma residência cresce em um ritmo mais rápido do que nossos salários podem acompanhar.
Segundo dados da FipeZAP, os preços de imóveis em São Paulo subiram em 192% entre 2005 e 2014, e dados do primeiro semestre de 2025 apresentam crescimento de 3,33%, maior do que o crescimento da inflação no mesmo período, que foi de 3,06%. O que estes dados comprovam é que o valor de mercado deste segmento cresce exponencialmente, assim como a dificuldade de alcançar o sonho da casa própria.
Os preços dos aluguéis cresceram em um percentual ainda maior, tendo elevado seu custo em 5,6%, como mostra o Índice de Localização Residencial, também da FipeZAP, que analisou 35 cidades, das quais 34 apresentaram elevação nos preços. Portanto, não importa em qual aspecto foquemos, ter um teto sobre a cabeça está cada dia mais caro e a tendência é que isso continue.
O resultado é uma crise habitacional com um número cada vez maior de famílias lutando para ter onde morar. O Mapeamento Nacional de Conflitos Pela Terra e Moradia, divulgado pela Campanha Despejo Zero, que mapeia conflitos habitacionais desde 2020, registrou um total de 2.098.948 de pessoas impactadas de alguma forma pela questão do despejo e remoção forçada em território nacional nos últimos cinco anos. Os dados atuais são de 437.455 de famílias sob ameaça, 62.381 que foram efetivamente despejadas, e 107.356 casos de famílias com despejos suspensos.
Matheus é um dos vários casos de pessoas que tiveram de sair de suas moradias por não serem capazes de sustentar o preço dos aluguéis. Ele relata que trabalhava de manobrista em escala 6x1 e em bicos que conseguia em eventos e que, na época, pagava cerca de 1000 reais de aluguel em um quarto com banheiro. O gasto com a moradia drenava sozinho a maior parte de sua renda, nas palavras dele: “tinha dinheiro somente para pagar o aluguel”. Insatisfeito com a situação, decidiu sair do emprego e alugar um carro para trabalhar como motorista de aplicativo, mas não calculou direito o dinheiro que receberia e não conseguiu concluir o plano. Precisou pedir ajuda de parentes e amigos próximos para conseguir o veículo, o que fez com que demorasse para juntar o dinheiro que devia. Após conflitos com a proprietária pela longa demora em pagar o aluguel, foi expulso de onde habitava e buscou um quarto menor com mensalidades mais baixas para conseguir se estabilizar.
Isso aconteceu em São Paulo, onde se concentram a maioria dos casos. Foram, somente neste estado, 160.092 de ameaças e 17.274 despejos na última meia década. A situação do entrevistado é uma realidade cada dia mais próxima para grande parte dos brasileiros. A valorização imobiliária faz com que os proprietários ajustem o preço cobrado nos aluguéis nas renovações de contratos, mas, muitas vezes, o salário dos inquilinos não consegue acompanhar essa subida.
A professora da USP Maria Camila Loffredo D’Ottaviano, Arquiteta e Urbanista, mestre em Estruturas Ambientais Urbanas e doutora em HABITAT/Arquitetura e Urbanismo, explica que um dos motivos dessa valorização é o fato dos imóveis serem vistos como uma espécie de garantia, algo que não pode ser retirado de você. Ela conta que, desde algumas gerações passadas, ter um segundo imóvel para gerar renda extra, assim como ser algo a se deixar de herança para seus filhos, é alvo de interesse da maioria das pessoas. Essa visão de que a propriedade imobiliária é a forma mais segura de guardar seu dinheiro foi reforçada pelo congelamento de contas bancárias e poupanças em 16 de março de 1990, medida tomada por Fernando Collor de Mello um dia após sua posse presidencial para tentar combater a hiperinflação.
Outro motivo para essa valorização o imóvel passando a ser visto como um ativo do ponto de vista financeiro e fundos imobiliários recebendo um grande volume de dinheiro. Com a chegada de grandes construtoras que estavam inseridas na bolsa de valores. Sendo empresas de capital aberto, com suas ações a venda no mercado, era necessário gerar lucro e retorno para seus acionistas, fazendo com que elas comprassem grandes volumes de terra para construções imobiliárias, gerando seus dividendos através delas. A professora conta que esse processo é recente, tendo iniciado há cerca de 20 anos atrás.
Este setor entrou em crise em 2008, devido ao estouro da bolha do mercado imobiliário nos Estados Unidos da América, o que acabou afetando o mundo todo. Daí surgiu o programa Minha Casa Minha Vida, que Loffredo caracteriza como anticíclico, isto é, uma medida que visa combater os efeitos de ciclos econômicos. Tendo sido originado no segundo governo Lula, o governo federal investia dinheiro do FGTS e do Orçamento Geral da União para a produção de moradias para famílias de diversas faixas de renda, mantendo o mercado da construção civil aquecido, o que garantia emprego para muitas pessoas desqualificadas, ocasionando em um ganho bilateral de diminuição do desemprego e grandes lucros para estas construtoras. O investimento no setor foi especialmente grande no fim da segunda gestão Lula e no primeiro governo da Dilma.
Em São Paulo, vivemos uma lógica diferente. Houve uma revisão do plano diretor, que incentivou o adensamento das construções em vias com corredores de ônibus e proximidade às linhas de metrô, permitindo acesso facilitado de mais moradores ao transporte público. Isto porque parte destas moradias deveriam se encaixar na categoria de HIS, habitação de interesse social, que possui algumas condições especiais, dentre elas, não poderiam ter garagem. Isto deveria garantir um maior volume de construções e diminuição no preço de moradias. Porém, na prática, o que acontece é que a maioria dessas moradias acabaram se tornando quitinetes e que muitos prédios inteiros são comprados por um único investidor para serem alugados, muitos deles em curta temporada, no estilo de Airbnb.
Além disso, muitas famílias acabam sendo expulsas de comunidades por um processo de “higienização”. A doutora D’Ottaviano cita a remoção forçada de famílias da Favela do Moinho como exemplo. Ela diz que o interesse não é em construir na área atualmente ocupada pela favela, especialmente pelo fato dela se encontrar ao longo da linha do trem, portanto, ninguém teria interesse em realizar obras no local. O que acontece é que, enquanto a favela estiver lá, a área ao redor não vai possuir valor de mercado. O governo do Tarcísio de Freitas pretende estender a sede administrativa do governo para a Praça da Princesa Isabel, que fica a menos de um quilômetro da favela, onde eles pretendem fazer uma “limpeza” para a construção de um parque, “revitalizando” a região.
A Favela do Moinho persiste e resiste à remoção forçada, com diversos protestos sendo promovidos pelos moradores sendo reprimidos violentamente pelas forças policiais. Os moradores dessa comunidade lutam pelo acesso à moradia contra o governo do mesmo país que garante acesso à moradia como um direito básico em sua constituição.
A falta de informação qualificada tem se tornado uma das principais barreiras para microempreendedoras brasileiras que dependem de insumos importados ou de produtos cujo preço varia conforme fatores globais. Em meio a mudanças recentes nas taxas, oscilações cambiais e aumento da burocracia para transações internacionais, muitas afirmam que não sabem onde buscar apoio técnico. É o caso de Danielle Nayara, maquiadora e microempreendedora, que iniciou seu negócio após deixar o emprego formal para trabalhar com eventos.
“Eu sempre gostei de maquiagem, mas nunca tinha pensado em maquiar outras pessoas. Só comecei depois de uma sugestão, fiz um curso e acabei me apaixonando pela profissão”, conta. Hoje, ela atende clientes em casa, em eventos e até pernoita em residências para preparar noivas e madrinhas. Mas apesar da agenda cheia, manter o negócio funcionando tem se tornado cada vez mais complexo.
Um desafio diário
Para Danielle, o principal custo do seu trabalho é a compra de materiais: produtos que sofrem variações constantes de preço, muitas delas impactadas por fatores externos. “Um produto que eu comprei por um valor semana passada já está mais caro hoje. Quando isso acontece, eu preciso ajustar meus preços, porque se não aumento, perco margem”, explica.
Ela relata que, muitas vezes, não entende o motivo dessas oscilações nem encontra informação clara sobre o que está influenciando o aumento. Esse descompasso entre preço e explicação não só dificulta o planejamento, como a impede de aproveitar oportunidades.
“A qualidade dos produtos é essencial. Se o material é ruim, não adianta eu ser boa. Só que para comprar produtos bons, eu preciso pesquisar muito. E os preços mudam rápido demais”, diz.
A falta de informação também interfere na profissionalização. Em eventos como a Beauty Fair, Danielle conseguiu adquirir produtos de alta qualidade com preço reduzido, mas admite que depende do acaso: “Eu fico sabendo por redes sociais. Se eu não vejo no Instagram ou no TikTok, eu perco a chance.”
Redes sociais como principal fonte
Como muitas microempreendedoras, Danielle se informa principalmente pelas redes sociais. “É onde está tudo hoje: Instagram, TikTok, WhatsApp. É ali que vejo notícias, promoções e mudanças”, afirma. O problema, segundo especialistas, é que essa dependência de canais informais deixa empreendedoras vulneráveis. Notícias sobre variações cambiais, tarifas, mudanças em importações ou novas regras para comercialização de cosméticos dificilmente chegam a essas mulheres de forma clara e estruturada. Isso faz com que muitas decisões sejam tomadas às cegas.
Economistas e organizações ligadas ao empreendedorismo feminino têm reiterado que a falta de informação clara é hoje um dos maiores riscos para pequenos negócios liderados por mulheres. À medida que insumos sofrem com oscilações globais, e que o comércio exterior se torna mais complexo, milhares de empreendedoras enfrentam um mercado imprevisível sem apoio técnico.
No caso de Danielle, o impacto ainda é administrável, mas ela admite a preocupação: “Eu tento acompanhar tudo, mas é difícil saber o que realmente vai afetar meu trabalho. Às vezes, descubro um aumento só quando chego na loja para comprar”, relata.
Força para manter o negócio!
Apesar dos desafios impostos pela falta de informação, pelos custos instáveis e pelas mudanças constantes no mercado, mulheres como Danielle continuam sustentando seus negócios com esforço diário, intuição e dedicação. A realidade que enfrentam é marcada por incertezas, mas também por uma determinação que atravessa jornadas longas, madrugadas de trabalho e decisões tomadas sem o suporte adequado.
No fim das contas, o que sustenta esses negócios não é apenas acesso a crédito ou políticas públicas: é a força de mulheres que, todos os dias, escolhem continuar. A luta feminina, silenciosa ou coletiva, segue sendo a certeza em meio ao cenário incerto e continua provando que, quando essas mulheres resistem, elas transformam não só suas próprias histórias, mas também o futuro do empreendedorismo no país.
Por Vítor Nhoatto
Uma das poucas certezas de todo ser humano, tal qual a morte, é a doença. Sabe aquele resfriado que vem junto ao seco do frio, uma ferida que infecciona depois de cair de bicicleta, até aquelas mais sérias que podem aparecer. Fato é que sem saúde não se vive, sendo um direito constitucional não por acaso. Sendo assim, é preciso que o acesso a essa necessidade tão básica quanto respirar e se alimentar seja universal, e não um bem a se comprar apenas por aqueles que podem.
Para isso então que existe o Sistema Único de Saúde (SUS), tão falado e muito mais presente na vida do que alguns podem sequer imaginar, ou querer. Para se ter uma ideia, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), órgão regulador dos medicamentos disponíveis no país, de controle alimentar e hídrico, faz parte do SUS. Regulamentado em 1990, é responsável pelas vacinas e desenvolvimento científico ainda, e sabe os planos de saúde, a Agência Nacional de Saúde (ANS), que os regula, também é integrante do sistema.
Para falar dessa diferença real na vida, antes é preciso até olhar nos papéis para lembrar já a quanto tempo ele é médico, enfermeiro, farmácia. De cabelos curtos hoje, depois de uma repaginada no visual devido ao câncer de pulmão que teve justamente na pandemia de COVID-19, Léia Marisa celebra que há dois anos consegue receber na AME Maria Zélia o micofenolato de Mofetila. Pois é, muitas vezes quando o nome é chique o preço é alto, uns R$500 por caixa, mil reais por mês gastos antes da papelada ficar pronta e ser aceita em 30 de novembro de 2023, já que a doença não espera os trâmites e filas.
A ex-professora, atual dona de casa e empresária a distância do seu restaurante, conta como o período de descoberta e tratamento do câncer, que levou até questões reumatológicas, e ajudou a descobrir uma artrite reumatoide, foi muito difícil. Entre dezenas de idas ao hospital de 2020 até 2023 até chegar ao diagnóstico, foram dias desgastantes, assustadores, e toda ajuda foi essencial, principalmente com os custos de sobreviver à doença. No caso dela, o tratamento do tumor foi feito em rede privada graças ao seu plano de saúde empresarial, que custa salgados R$5 mil reais ao mês. Só aqui são quase quatro salários mínimos, um privilégio muito grande, como ela destaca, olhando para um país em que apenas 7,60% da população ganha entre 5 e 10 salários como o Censo de 2022 do Instituto brasileiro de Geografia e Estatística revela.
Se aprofundando mais ainda nos fatos, de acordo com o estudo “Quanto custa o câncer” de 2023 do Observatório de Oncologia, do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE) e do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer, os custos de tratamento da doença quadruplicaram nos últimos três anos. Uma sessão de radioterapia ou quimioterapia custava quase R$800 em 2022, e dezenas são necessárias na maioria das vezes. Acrescentando nessa conta, consultas, tomografias e biópsias, mil reais ali e cinco acolá, o custo chega facilmente ultrapassa dezenas de milhares de reais. Isso é ainda mais preocupante tendo em conta a incidência do câncer na população, que segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA) entre 2023 e 2025, 704 mil pessoas terão a doença como Marisa.
E com isso que o SUS se mostra como algo tão relevante, oferecendo tratamento integral e gratuito contra todos os tipos de cânceres. Claro que muitos problemas existem, como destaca Marisa ao lembrar que quando estava no meio do tratamento enfrentou problemas com o plano de saúde, mas que só o medo de depender da demora do SUS caso fosse preciso, a preocupava muito. A saúde é o bem mais precioso para, o que para todos provavelmente deva ser, e por isso justamente que em 2012 a lei 12.732/12 obriga que o tratamento contra o câncer tem que ser iniciado em até 60 dias após o diagnóstico.
Mas além disso, com os olhos marejados depois de navegar novamente no mar agitado que foi a jornada até a vida que tem hoje, curada e com o diagnóstico da sua doença crônica, ela volta e lembra que a diferença que não ter que pagar pelo Micofenolato que a mantém respirando faz. Quando tinha que arcar com as despesas era como um fardo a mais imposto a ela, que considera a saúde hoje como o bem mais valioso. As idas mensais ao posto são um alívio hoje para ela, destacando que o seu medicamento nunca faltou até então, mas que já presenciou pessoas na situação contrária e que não tinham como arcar pessoalmente com os gastos. Essa é uma realidade infelizmente, segundo fiscalização de 2023 da secretaria de contas do Estado de São Paulo, em quase metade dos postos visitados faltavam algum medicamento.
Milhões de uns
Mesmo que falte muito, afinal, só 4,16% do orçamento federal foi destinado à saúde em 2024 segundo o Painel do Orçamento Federal, a porcentagem vem aumentando desde 2022, e milhões de brasileiros são atendidos todos os dias. O Brasil é o único país do mundo com mais de 100 milhões de habitantes com um sistema universal de saúde, e 213 milhões dependem diretamente do SUS, segundo o Ministério da Saúde, que contabiliza em média 2,8 bilhões de atendimentos por ano, empregando 3,5 milhões de profissionais.
E mais um desses uns é Valdir Sousa, que do alto de seus 63 anos de idade é um típico caso brasieleiro. Com diabetes do tipo II há 20 anos e hipertenso, conta que se não fosse o acesso ao sistema gratuito, sua vida seria muito diferente, obviamente pelo lado financeiro, e muito também pelo bem-estar. O mineiro nascido em São João do Paraíso e que vive em São Paulo há décadas já viu tanto na vida, e com o passar do tempo o que todos querem e merecem é justamente qualidade de vida. Essa no caso, em grande parte possível graças a insulina que busca no posto na Freguesia do Ó e os comprimidos que cuidam do seu coração acelerado.
Justamente essa hipertensão que é a doença mais presente nos peitos animados dos brasileiros, e 52% da população é diagnosticada com alguma DCNTs, como revela a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019. Além disso, segundo dados de 2020 da Organização Mundial da Saúde (OMS), as doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) como as de Valdir são tecnicamente chamadas, são as mais comuns no mundo e no Brasil, com o diabetes inclusive tendo aumentado 70% entre 2000 e 2019.
Para contextualização, nos Estados Unidos existe há alguns anos o movimento nas redes sociais insulin4all, criado pela organização sem fins lucrativos T1 International, que denuncia os altos custos da insulina no país, onde um frasco de 10ml gira em torno de U$330. Tal situação vem levando inclusive pessoas a racionarem o medicamento, o que pode levar a complicações e até a morte em casos mais graves. Já no Brasil, o mesmo remédio é disponibilizado pelo SUS, e o preço máximo permitido por lei é de R$125,30.
Diante desses dados e o envelhecimento da população fica claro como a saúde vai ser cada vez mais necessária, tal qual destaca o jovem de espírito Valdir, que já foi pedreiro e auxiliar de manutenção geral em uma lanchonete, justamente no Hospital das Clínicas. As histórias que já viu na maior referência de saúde pública brasileira enchem a sua mente, e as palavras saem inquietas sobre as melhorias que o SUS precisa e as pessoas merecem. Ele conta em meio a suspiros que quando precisa de exames mais urgentes, ou consultas em meio a crises, tem que recorrer ao plano de saúde da sua esposa, do qual é dependente, já que as unidades de saúde estão sempre cheias e a fila de espera passa de meses algumas vezes.
Foi nessas passagens obrigadas pela rede privada que ele inclusive descobriu mais um integrante do seu pacote, a doença renal crônica há um ano. Porém, é no SUS que o acompanhamento com nutricionista, nefrologista e endocrinologista foi possível, uma rotina de cuidados essenciais para uma boa qualidade de vida para quem tem a condição. É graças a essa rede de profissionais e a farmácia popular que Valdir vai aproveitando com os dois filhos e a mulher os seus dias, frisando com a voz até meia trêmula, que sem isso não poderia se ter o seu direito de viver com saúde exercido plenamente.