Declarações podem ser entregues por programa disponível no site da Receita Federal ou de forma online pelo e-CAC;
por
Marcelo Barbosa Prado Filho
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26/03/2025 - 12h

 

A Receita Federal liberou acesso à Declaração Anual do Imposto de Renda na segunda (17). Será possível realizar a entrega até às 23:59 do dia 30 de maio. 

A Declaração desempenha um papel fundamental na captação de recursos para que o Governo tenha controle sobre a arrecadação de dinheiro que financia serviços públicos.

Dentre as principais mudanças neste ano estão: 

  • A ampliação de isenção para rendimentos tributáveis 

O valor de rendimentos tributáveis anuais que obrigam a entrega da declaração subiu de R$ 30.639,90 para R$ 33.888,00.
 

  • A declaração obrigatória para mais situações envolvendo bens e investimentos no exterior  

  • Trusts e contratos estrangeiros: Quem possuía trusts ou contratos similares no exterior em 31 de dezembro de 2024 agora precisa declarar;

  • Regime de Transparência Fiscal: Quem optou por declarar bens e rendimentos de entidades controladas no exterior como se fossem pessoais precisa informar na declaração;

  • Atualização de imóveis a valor de mercado: Quem optou por atualizar o valor dos imóveis no Brasil conforme a lei de bens e imóveis no exterior deve declarar essa escolha.

  • Declaração pré-preenchida mais completa

A Receita Federal ampliou o cruzamento de dados disponíveis na declaração pré-preenchida. Neste ano, informações sobre criptoativos e transações imobiliárias também estarão incluídas. 

  • Mudanças no pagamento e parcelamento 

O imposto pode ser parcelado em até 8 vezes, mas agora o débito automático só pode ser ativado até 9 de maio para a primeira parcela. Depois disso, só vale a partir da segunda parcela. Débitos abaixo de R$ 10,00 não precisam ser pagos imediatamente e podem ser acumulados para exercícios futuros.

  • Autorização para terceiros com novas regras

É possível, neste ano, autorizar apenas uma pessoa física para acessar e transmitir a declaração, com validade de até seis meses.

Quem deve declarar Imposto de Renda? 

 

  • É obrigatório a declaração das seguintes pessoas:

  • Quem recebeu rendimentos tributáveis acima de R$ 33.888,00 em 2024. O valor é um pouco maior do que o da declaração do IR do ano passado (R$ 30.639,90) por conta da ampliação da faixa de isenção;

  • Contribuintes que receberam rendimentos isentos, não-tributáveis ou tributados exclusivamente na fonte, cuja soma tenha sido superior a R$ 200 mil no ano passado;

  • Quem obteve, em qualquer mês de 2024, ganho de capital na alienação de bens ou direitos, sujeito à incidência do imposto, ou realizou operações em bolsas de valores, de mercadorias, de futuros e assemelhadas cuja soma foi superior a R$ 40 mil, ou com apuração de ganhos líquidos sujeitas à incidência do imposto;

  • Quem teve isenção de imposto sobre o ganho de capital na venda de imóveis residenciais, seguido de aquisição de outro imóvel residencial no prazo de 180 dias;

  • Quem teve, em 2024, receita bruta em valor superior a R$ 169.440,00 em atividade rural;

  • Quem tinha, até 31 de dezembro de 2024, a posse ou a propriedade de bens ou direitos, inclusive terra nua, de valor total superior a R$ 800 mil;

  • Quem passou para a condição de residente no Brasil em qualquer mês e se encontrava nessa condição até 31 de dezembro de 2024;

  • Quem optou por declarar os bens, direitos e obrigações detidos por entidade controlada no exterior (ou seja, uma empresa ou organização no exterior que é controlada direta ou indiretamente por uma pessoa física ou jurídica residente no Brasil), como se fossem detidos diretamente pela pessoa física;

  • Quem possui a titularidade de trust e demais contratos regidos por lei estrangeira com características similares;

  • Quem atualizou bens imóveis pagando ganho de capital diferenciado (forma específica de tributação sobre o lucro obtido na venda de vens ou direitos) em dezembro/2024;

  • Quem auferiu rendimentos no exterior de aplicações financeiras e de lucros e dividendos;

  • Quem deseja atualizar bens no exterior.

 

Como calcular a parcela que deve ser declarada? 

 

Para fazer o cálculo é importante saber o que significam as seguintes informações: base de cálculo, alíquota e parcela a ser deduzida. Base de cálculo: São os rendimentos tributáveis do contribuinte. Isto é, são os valores recebidos como salários, aluguel, pensão, remuneração por trabalho, investimentos, bônus etc.

Alíquota: Trata-se da porcentagem cobrada em cima dos seus rendimentos. A alíquota do Imposto de Renda é progressiva: quanto mais você ganha, maior a alíquota. 

Parcela a deduzir: Valor subtraído de sua renda para o cálculo do imposto ser proporcional à sua faixa de ganho.

A Receita Federal fornece uma tabela progressiva com os valores mencionados. 

 

Fonte: Ministério da Fazenda 

 

Depois de somar todos os seus rendimentos tributáveis (salário, pensão, bônus) recebidos mensalmente, verifique em que faixa você se enquadra e faça o seguinte cálculo: Salário x Alíquota - Valor a deduzir do IR. 

Por exemplo: uma pessoa que recebe R $2.730,50, já descontado os valores do INSS, se enquadra na faixa de alíquota de 7,5% e deve pagar, anualmente, R $743,85 de imposto de renda. 

Cálculo: 2.730,50 x 7,5/100 - 142,80 = 61,9875 (esse é o valor mensal de imposto que deve ser pago, multiplique por 12 e você terá  R $743,85 que é o valor anual a ser pago). 

Se você é um profissional com registro em carteira, a empresa desconta o pagamento do IR mensalmente do seu salário, então caso o valor que você tenha em receita seja superior ao valor que deve ser pago, você será restituído, caso contrário, deve pagar a diferença.

 

Como declarar? 

 

O aplicativo “Meu Imposto de Renda” não está mais disponível para download em dispositivos móveis. Para quem deseja realizar a entrega dessa forma, é necessário baixar o aplicativo da Receita Federal. Pelo computador você pode realizar o download do programa de Declaração de Imposto de Renda no próprio site da Receita.  A entrega também pode ser feita de forma online pelo  serviço “Meu Imposto de Renda” no Centro Virtual de Atendimento da Receita (e-CAC). A declaração pré-preenchida estará disponível para os contribuintes a partir do dia 1º de abril. 

 

Quais são os documentos necessários?

 

Para declarar o Imposto de Renda corretamente, é essencial reunir documentos que comprovem rendimentos, bens, direitos, dívidas e pagamentos. Isso inclui informes financeiros, comprovantes de salários, pró-labore, lucros, aposentadorias, pensões, aluguéis, doações e heranças. Também são necessários o Livro Caixa, DARFs( Documento de Arrecadação de Receitas Federais) do Carnê-Leão e informes de programas fiscais como a Nota Fiscal Paulista. Para quem opera com renda variável, é indispensável o controle de compra e venda de ações, apuração mensal do imposto e DARFs correspondentes.  

No caso de bens e direitos, devem ser apresentados documentos de compra e venda de imóveis, matrícula, IPTU e comprovação de participação acionária. Informações sobre dívidas e ônus também precisam ser incluídas. Já os pagamentos e deduções devem ser comprovados por recibos de plano de saúde, despesas médicas e odontológicas, educação, previdência, doações e pagamentos a prestadores de serviços. Caso haja empregada doméstica registrada, é necessário o recibo com o número NIT, um código que permite que trabalhadores autônomos contribuam para o INSS.

Além disso, são exigidos dados pessoais e de dependentes, endereço atualizado, cópia da última declaração entregue, dados bancários e atividade profissional. Dependendo dos bens, podem ser solicitadas informações complementares, como inscrição municipal e registro em cartório para imóveis, Renavam(Registro Nacional de veículos automotores) para veículos e CNPJ da instituição financeira para contas e aplicações. Reunir tudo antecipadamente facilita a declaração e evita problemas com a Receita Federal.

                                                                   Prioridade na restituição 

O processo de restituição ocorre para que os colaboradores recebam valores pagos em excesso ao longo do ano para a Receita Federal. As prioridades no procedimento segue da seguinte forma: 

  • Idosos acima de 80 anos; 

  • Idosos entre 60 e 79 anos, deficicientes ou portadores de moléstia grave; 

  • Contribuintes que possuem como a maior fonte de renda o magistério;

  • Quem optou pela declaração pré-preenchida e/ou receber a restituição pelo pix.

  • Outros contribuintes

 

Dentro de cada grupo de prioridade, recebe primeiro quem entregar a declaração mais cedo. 

Calendário de restituição:

1° lote: 30 de maio

2° lote: 30 de junho

3° lote: 31 de julho

4° lote: 29 de agosto 

5° lote: 30 de setembro
 

Quem não declarar o imposto até o dia estabelecido, corre o risco de pagar multa que corresponde a 20% do imposto em pendência, tendo como valor mínimo de R$ 165,74.

O governo federal apresentou, na terça-feira (18), uma medida que determina a faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até 5 mil mensais. O texto ainda precisa passar por votação no Congresso Nacional e ainda propõe descontos para quem recebe entre R$ 5 mil e R$ 7 mil e taxação mínima para alta renda.  

As cobranças estão previstas para 2 de abril
por
Marcelo Barbosa Prado Filho
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10/03/2025 - 12h

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recuou mais uma vez. Nessa última quinta-feira (06), o  mandatário adiou, para 2 de abril, o tarifaço de 25% sobre importações do México e Canadá que entrou em vigor nesta mesma semana (04).

Segundo Trump, os importadores norte-americanos não precisarão pagar tarifas sobre nenhum produto que se enquadre no USMCA, um acordo de livre comércio entre EUA, México e Canadá negociado em seu primeiro mandato.

O tratado abrange uma gama extensa de produtos e serviços. Entre eles, produtos agrícolas, manufaturados e de tecnologia.

Na rede social Truth Social, Trump justificou a decisão afirmando que o México tem “trabalhado duro” para garantir a segurança na fronteira: "Nosso relacionamento tem sido muito bom e estamos trabalhando duro, juntos, na fronteira, tanto em termos de impedir que estrangeiros ilegais entrem nos EUA quanto, da mesma forma, impedir o fentanil".

O tarifaço aos países é uma retaliação de Trump que julga que ambos não fazem o suficiente para conter a entrada de  imigrantes e do fentanil - uma espécie de analgésico mais forte que morfina e heroína e que a dependência é um problema de saúde pública nos EUA.

Sobre o Canadá, Trump escreveu na noite de quarta-feira que conversou com o primeiro-ministro do país, Justin Trudeau, mas não está "convencido" de que o governo canadense atuou o suficiente para resolver os problemas de entrada de fentanil e de imigrantes ilegais nos EUA.

Trump confirmou em 10% a elevação na taxa de cobranças contra a China e elevou a alíquota total de taxas para produtos chineses a 20% neste mandato.


Na mira de Donald Trump:

Apesar de não ter sido taxado diretamente, o Brasil pode sofrer com a imposição geral  de 25% para importações de aço e alumínio, que deve entrar em vigor no dia 12 de março.

Segundo dados do Governo Federal, em 2023, os EUA compraram 18% de todas as exportações brasileiras de ferro fundido, ferro ou aço. Em 2024 o país foi o segundo maior fornecedor de aço para os EUA, em volume, de acordo com dados do Departamento de Comércio americano, atrás apenas do Canadá.

Além da taxa geral para esses produtos, Donald Trump também prometeu uma taxa recíproca a países que cobram dos EUA, citando o Brasil: "Em média, a União Europeia, China, Brasil, Índia, México, Canadá e inúmeras outras nações nos cobram tarifas muito mais altas do que cobramos deles, o que é extremamente injusto", disse Trump, em longo discurso no Congresso dos EUA, na terça-feira (4).”

Além de ferro e aço, o petróleo e o café são as principais exportações do Brasil para os estadunidenses.


Imagens: Agência Brasil

Medida irá impactar benefícios que excedem limite constitucional recebidos pelos “funcionários de elite
por
Marcelo Barbosa
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06/12/2024 - 12h

 

O Governo enviou na segunda-feira (02), ao Congresso Nacional, a PEC que detalha uma série de medidas para conter os gastos das contas públicas. O intuito é gerar uma economia de mais de 300 bilhões até 2030.

A proposta visa alterações essenciais para aumentar a arrecadação e manter os limites do Arcabouço Fiscal. Uma das mudanças apresentadas está na redução dos chamados “supersalários” de servidores públicos.
 

Salário e adicionais no serviço público: regras e limites na teoria

Os servidores públicos têm um teto salarial estabelecido em R$44.008,52 mensais, além dos benefícios e adicionais, desde que observadas as regras específicas de cada caso.

O auxílio-moradia, por exemplo, é restrito a situações em que não haja imóvel funcional (cedido pela União para o funcionário público) disponível na localidade; o agente não more com outra pessoa que já ocupe um imóvel funcional ou receba o benefício; ou quando o servidor não possua residência própria na região.

Já o adicional de férias não pode superar um terço da remuneração e deve ser limitado a períodos de até 30 dias por exercício. Da mesma forma, as férias não aproveitadas só podem ser pagas em casos de demissão, aposentadoria ou falecimento, respeitando o limite de 30 dias por exercício.

Entre os auxílios mais comuns no cotidiano do servidor, o auxílio-alimentação tem seu valor máximo fixado em até 3% do teto salarial, o mesmo limite aplicado ao auxílio-transporte. Para filhos ou dependentes de até cinco anos, o auxílio-creche também é regulamentado, com um valor que não deve exceder 3% do teto por dependente.

Além disso, benefícios como o 13º salário, adicional noturno, remuneração por serviços extraordinários e aviso prévio proporcional ao tempo de serviço estão garantidos. Em ambientes de trabalho insalubres, o adicional de insalubridade é assegurado. Ressarcimentos relacionados ao exercício da função, como indenizações pelo uso de veículo próprio em serviço, são limitados a 7% do teto. Também está previsto o reembolso de mensalidades de planos de saúde, que pode chegar a até 5% do teto.

O salário-mínimo do trabalhador médio está em R$1.412 e, com as projeções do PIB para 2025, a previsão é de que chegue em R$ 1.525,00.  Professores, por exemplo, têm, em média, um salário de RS 4.250,00 reais, constatou o Glassdoor, uma plataforma online sobre o mercado de trabalho.  

No entanto, apesar do teto estabelecido ser de R$ 44.008,52 mensais, há diversas exceções e valores extras aos chamados “funcionários de elite”,  responsáveis por atuar em áreas específicas do setor público, como segurança, diplomacia e finanças, e que causam um rombo de até 3,9 bilhões de reais aos cofres públicos, de acordo com um estudo do CLP (Centro de Liderança Pública). 

 

Equipe econômica do governo Lula.
Projeto que pretende acabar com supersalarios enfrenta resistência de militares. Foto: Agência Brasil

Segundo dados do Tribunal de Contas da União (TCU), os salários dos militares reformados custam 16 vezes mais aos cofres públicos do que os aposentados do INSS. O gasto por pessoa com os militares foi de R$ 158,8 mil, enquanto o dos servidores públicos foi de R$ 69 mil e o dos aposentados do INSS foi de R$ 9.400.

A respeito do corte nos supersalários, a economista Cristina Helena Pinto de Mello pontua sobre o forte apelo público da proposta “Quando a gente pega o gasto do Governo com salários de toda a administração pública, incluindo o legislativo e o judiciário, que estão dentro dessa folha de pagamento, essa é uma das maiores despesas”, comenta, mas ressalta que os gastos com juros ainda ultrapassa o valor gasto com supersalários. 

Na segunda-feira (02) o presidente Lula se reuniu com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, outros três ministros do Palácio do Planalto e líderes do Congresso para discutir o tema. 

No caso da aposentadoria dos militares, a resistência das forças armadas fizeram com que o Ministério da Fazenda recuasse e retirasse, temporariamente, a regra da PEC. Entre os pontos do texto que seriam debatidos, estavam o fim da chamada "morte fictícia", que assegura pensão a militares expulsos ou excluídos das Forças Armadas e uma uma transição mais longa para a adoção da idade mínima de 55 anos para a aposentadoria dos militares (o projeto apresentado pela equipe econômica sugere ampliação de 50 para 55 anos). A ideia é implementar uma regra progressiva, permitindo que a exigência de 55 anos seja atingida apenas em 2030.

O Congresso tem apenas três semanas de atividades antes do recesso para apreciar essas medidas, além de outras propostas relevantes, como o projeto que finaliza a reforma tributária e a Lei de Diretrizes Orçamentárias.

Entenda proposta de corte de gastos de R$ 70 bilhões anunciado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad
por
Beatriz Alencar
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03/12/2024 - 12h

O texto do novo pacote de gastos e aumento da isenção do Imposto de Renda foi anunciado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, na última quinta-feira (28), e movimentou opiniões dentro do setor econômico e social, com dólar batendo o valor histórico de R$ 6,11.

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Ministro da Fazenda Fernando Haddad | Foto: Reprodução/Transmissão Ministério da Fazenda

Mas qual de fato é o objetivo desta pauta que demorou semanas para ser anunciada e o quê isso tem a ver com o salário mínimo e arcabouço fiscal?

Basicamente, a ideia de Haddad de fazer um pacote fiscal agora é tentar cortar R$ 70 bilhões para ajustar a explosão dos gastos públicos projetados para os próximos anos e garantir a sustentação do arcabouço fiscal, medida que tem como objetivo o equilíbrio entre arrecadação e despesas do governo, aprovada no ano passado. 

A primeira mudança citada pelo ministro para cumprir essas metas foi o reajuste no salário mínimo com a adequação aos limites do arcabouço fiscal e inflação, o que significa um ganho real entre 0,6% e 2,5%. Atualmente para o reajuste de salário, o Governo considera a inflação e o Produto Interno Bruto (PIB) do país . 

De acordo com o Economista e pesquisador Emerson Braz, o abono salarial e o teto do reajuste do salário-mínimo são medidas que representam direitos dos trabalhadores que hoje possuem menor representatividade no Congresso Nacional:“ [Isso] faz com que sejam medidas que não sofram ajustes significativos em seus textos na fase de aprovação”.

Braz acrescenta que esse reajuste pode ser uma perda de ganhos reais para os trabalhadores: “Imaginando um cenário em que o PIB possa estar estagnado e o arcabouço apertado, o salário-mínimo (SM) poderá não ter alterações e afetar a economia”, explica. O que pode gerar um problema considerável na desigualdade social ou na superação da pobreza. 

Com o novo pacote, o abono salarial, que é um benefício concedido uma vez por ano ao trabalhador que recebe até dois salários mínimos (R$2.824,00), seria limitado para quem recebe até R$2.640,00 e corrigido pelo INPC - Índice Nacional de Preços ao Consumidor. A medida, ao longo dos anos, irá reduzir a parcela beneficiada, já que o salário cairá gradualmente para um salário mínimo e meio por mês. 

Outra mudança que causou grande movimentação de opiniões foi a medida sobre o Imposto de Renda. Hoje, aqueles que ganham até R$ 2259,20 por mês não pagam imposto. A nova proposta prevê que a isenção será estendida para quem ganha até R$ 5 mil. Só essa alteração deve gerar um impacto de R$ 35 bilhões por ano nas contas da União.

“Essa é uma medida muito interessante e necessária. Pessoas que ganham até R$ 5 mil consomem a maior parte da sua renda e, ao sofrerem menos tributação, terão como destinar maior parte para o consumo, mantendo a economia aquecida”, argumenta o economista.

Como uma forma de cobrir essa isenção, o governo pretende aumentar a tributação para os rendimentos acima de R$50 mil e R$ 1 milhão mensais, como a forma “mais justa” de compensar a queda de arrecadação com a nova faixa de isenção, de acordo com Haddad.

“A alteração na alíquota do IR não deve ser vista apenas com o objetivo de equidade de renda, mas como um instrumento de manter a demanda (de mercado) aquecida”, acrescenta Braz.

O pacote também prevê a reforma das emendas parlamentares, que limita o crescimento das emendas impositivas ao arcabouço fiscal, estabelecendo um teto para o aumento das despesas parlamentares. Além disso, 50% dos recursos das emendas de comissão deverão ser destinados ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Equipe Econômica, pacote fiscal - Esther Dwek, Fernando Haddad, Simone Tebet, Rui Costa e Alexandre Padilha | Reprodução/Foto: Diogo Zacarias/Ministério da Fazenda

Equipe Econômica, pacote fiscal - Esther Dwek, Fernando Haddad, Simone Tebet, Rui Costa e Alexandre Padilha | Reprodução/Foto: Diogo Zacarias/Ministério da Fazenda

O texto apresentado pela equipe econômica também propõe mudanças na aposentadoria de militares. A medida sugere uma padronização da contribuição dos militares ao Fundo de Saúde e o fim da chamada “morte fictícia”, que garante uma espécie de pensão vitalícia para a família de um militar que foi expulso das forças, na mesma condição de falecimento do servidor. 

Alterações nos benefícios sociais como o Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada (BPC), também foram citadas no texto. Agora, passarão a ter mais regulações, como comprovação por biometria do beneficiado.

“O fato é que a comunicação do Governo para anunciar medidas de austeridade e controle das contas públicas junto com a medida de isenção do IR tornou o cenário caótico”, comenta o economista.

Após um mês de reuniões e tratativas, o presidente do Congresso Nacional, senador Rodrigo Pacheco, explicou que o debate do pacote fiscal será prioridade nas próximas semanas, antes do recesso de fim de ano no Senado. A proposta ainda pode sofrer mudanças nas aplicações ou exclusões de medidas.

Brasil passa por um momento decisivo entre mudanças para arrecadamento e corte de gastos
por
Maria Eduarda dos Anjos
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19/11/2024 - 12h

A penúltima reunião do ano do Copom (Comitê de Política Monetária) aconteceu semana passada e sua ata, publicada no dia 12, apresenta a decisão unânime de elevar a Selic (Sistema Especial de Liquidação e Custódia) a 0,5 pontos percentuais, levando a taxa de juros básico do país de 10,75% para 11,25%. 

Esse aumento vem como medida para, principalmente, conter a inflação, produto do balanço negativo entre os ganhos e gastos do Estado brasileiro, além de responder de forma defensiva à recente eleição de Donald Trump.

Primeiro, é importante entender o que o COPOM, SELIC, juros básicos e inflação significam na vida do brasileiro. O Copom é um grupo composto pelo presidente do Banco Central (BC) e seus diretores que, a cada 45 dias, decidem a taxa básica de juros da economia, a Selic. 

A taxa básica é a principal forma do BC tentar conter a inflação econômica. Na balança, são ponderados o estado das contas públicas, a situação internacional política e monetária, estado da inflação, movimentação do mercado de trabalho entre outros fatores, tudo para assegurar que o reajuste do juros contenha a inflação, não desvalorize o real perante outras moedas e não diminua o poder de compra da população. 

Uma das razões para o aumento da Selic é a diferença entre o gasto e o arrecadamento público de R$7,3 bilhões até setembro de 2024. Para exterminar esse déficit primário, o BC sobe o juros básico, ou seja, a promessa de valorização de seus ativos, e vende tais ativos aos bancos. 

Dessa forma, o Banco Central consegue caixa de forma mais imediata e oferece a promessa de lucro futuro para os bancos. O problema é que esse ciclo se repete e cria uma bola-de-neve. 

A economista e professora da PUC SP, Cristina Helena, explica que “o governo pega dinheiro emprestado todo mês para cobrir o déficit, que não conta com o valor dos juros dos demais empréstimos que já pegou, mas que precisa quitar simultaneamente”. O juros aumenta para pagar,também, o que já foi criado no passado pela mesma barganha que se repete.“ A conta da dívida tá fora do resultado primário, aí o montante a ser pago não para de crescer”. 

Essa medida para maior arrecadação vem junto com o pacote de corte de gastos públicos, que será anunciado por Fernando Haddad depois da reunião do G20. Representantes das pastas de Saúde, Educação, Previdência, Trabalho e Desenvolvimento Social foram chamados para discutir as reduções, já que detém a maior parte de recursos federais. 

Quando o assunto extrapola o doméstico, a eleição de Donald Trump é um fator central. O presidente já anunciou que pretende impor uma tarifa de 10% ou mais sobre todo produto importado do país, uma medida protecionista para privilegiar o mercado interno.

 

Donald Trump em sua campanha para presidência em 2024. Foto: reprodução/NYT
Donald Trump em sua campanha para presidência em 2024. Foto: reprodução/NYT

 Enquanto o aumento da Selic pode ajudar a manter o valor do Real no mercado internacional, a negociação tende ao soft power. “ O Brasil e os Estados Unidos são bons parceiros comerciais um ao outro, mas o Trump não quer só um bom parceiro comercial, ele também pede por um aliado que não seja mercado para a China, por exemplo. A América Latina vêm se beneficiando de compras mais baratas de produtos chineses e venda de minérios mais barato”, explica Cristina. 

Apesar de haver um plano de metas pelo qual a política monetária deveria se guiar, as medidas atuais de arrecadação precisam ser redesenhadas pela sua falta de efetividade, avalia a economista.Até o fim do ano,é previsto o aumento de mais 0,25 pontos para o juros básico, isso reverbera diferentemente entre compradores de títulos do governo e a população média: “ Meio ponto percentual é pouco do ponto de vista de contenção inflacionária e é muito para as famílias, e isso vira uma taxa enorme nos cartões de crédito e cheque especial”.

Segmento prevê alta na safra e já observa aumento no volume de exportações, impulsionado por recuperação da China
por
Giovana Macedo
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22/06/2020 - 12h

Diferente de outros segmentos, como comércio, indústria e serviços, que sofreram um forte recuo, o agronegócio é o setor menos impactado pela crise econômica provocada pela pandemia.

Apesar de o PIB (Produto Interno Bruto) ter apresentado retração de 1,5% no primeiro trimestre em relação  ao quarto trimestre de 2019, o PIB do setor agropecuário deve ter alta de 2,4% em 2020, segundo previsão do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Esta projeção se refere apenas ao setor primário, que representa em torno de 5,2% do PIB brasileiro. Se considerado, no entanto, o agronegócio como um todo – ou seja, englobando também os segmentos da indústria e serviços ligados à atividade –, a participação no PIB sobe para 21%.

O consultor e professor de economia da FMU Marcos Henrique do Espírito Santo diz que, diferentemente de outros setores, o agronegócio não costuma ser tão afetado pela queda da demanda em momentos de recessão. “O agronegócio produz basicamente commodities, bens de menor valor agregado, e boa parte desses bens é alimento, portanto, é algo que o mundo não deixa de comprar”, diz Espírito Santo.

O IBGE (Instituto Nacional de Geografia e Estatística) e a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) projetam um novo recorde para a safra 2019/20: a estimativa para a produção de grãos é de 250,9 milhões de toneladas, volume 3,6% maior do que o colhido em 2018/2019.

Outro fator que, segundo Espírito Santo, deixa o agronegócio numa situação mais favorável é a alta demanda de soja por parte da China, após a estagnação ocorrida no primeiro trimestre em função da Covid-19. “Hoje, o Brasil é o maior produtor de soja no mundo. Ano passado, a China comprou quase 80% da nossa soja e isso vem subindo em uma constante. Após essa estagnação, ela voltou com muita ‘sede’ de consumo e está demandando mais”, diz ele.

As exportações do setor somaram US$ 96,8 bilhões em 2019, o equivalente a 43,2% do total exportado pelo Brasil, segundo a Secretaria de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Em maio deste ano, esta participação atingiu 60,9%, graças ao aumento de 36,1% no volume de exportações da agropecuária. Esta alta foi fundamental para que as exportações brasileiras como um todo crescessem 5,6% no mês, também em termos de volume.

“O bom desempenho exportador do agronegócio tem compensado o recuo observado para as exportações de produtos industrializados, conferindo resiliência ao setor exportador nacional e contribuindo para uma queda menos acentuada da atividade doméstica, em um contexto de queda progressiva do PIB global”, afirmou o secretário de Comércio Exterior do Ministério da Economia, Lucas Ferraz, em nota divulgada com os resultados.

O diretor industrial da JBS Renato Prates conta que os frigoríficos estão acompanhando uma tendência crescente do agronegócio a nível internacional, principalmente em relação à China, que é uma grande cliente do Brasil por importar diversas commodities. Ele explica que, no começo da pandemia, alguns dos contratos com o país asiático ficaram prejudicados, mas que os frigoríficos agora estão vendo um fluxo positivo de demanda.

“Segundo alguns contatos no país, se ouve falar que o próprio governo está incentivando a compra de produtos de primeira necessidade [alimento], porque eles temem que possa ocorrer uma segunda onda do surto do coronavírus”, relata o diretor.

Com o aumento da tensão entre Estados Unidos e China pela pandemia e demais fatores, Prates comenta como o setor agropecuário pode se beneficiar. “Com a retaliação de Donald Trump sobre a China, é provável que a demanda pela carne brasileira seja ainda mais potencializada em comparação à carne americana, dado que os chineses vão preferir comprar do Mercosul.”

Segundo economista da FGV, recuperação pode levar mais de um ano
por
Maria Fernanda Hohlenwerger
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21/06/2020 - 12h

A taxa de desemprego disparou depois da adoção de medidas de isolamento para enfrentar a pandemia de Covid-19.  No Brasil, a taxa de desemprego atingiu a marca de 12,9% no trimestre encerrado em maio, um aumento de 1,2 ponto percentual em comparação ao trimestre anterior (dezembro a fevereiro), segundo o IBGE. O número de desempregados chegou a 12,7 milhões, com o acréscimo de 368 mil brasileiros à procura de trabalho, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua).  

As projeções para este ano são de forte queda no nível de atividade econômica, além de contínuo aumento na taxa de desemprego. De acordo com pesquisa feita pelo Ibre/FGV a pedido do Estadão/Broadcast, as empresas preveem mais demissões nos próximos três meses. A indústria de vestuários e acessórios e a indústria têxtil pretendem reduzir mais de 80% e 60% o quadro de funcionários, respectivamente. 

A expectativa é que essa situação seja revertida no longo prazo, quando empresários devem começar a planejar contratar, ao invés de demitir. Em entrevista à Agemt, o economista e coordenador da Sondagem do Comércio e Investimentos do Ibre/FGV, Rodolpho Guedon Tobler, comentou que a taxa de desemprego, por não considerar as pessoas que não procuraram uma vaga na semana de referência da pesquisa, não é a melhor métrica para observar as consequências da pandemia no mercado de trabalho. “Os primeiros resultados já mostram um impacto”, afirmou.

O economista destacou a queda recorde do número de pessoas ocupadas no trimestre encerrado em abril – um recuo de 5,2% em relação aos três meses encerrados em março. "Ao longo do ano, apesar de toda a incerteza, já existem previsões de 18% na taxa média de 2020", disse Tobler. Em 2019, a taxa média de desemprego foi de 11,9%.

O emprego vai se recuperar mais lentamente em relação à atividade econômica. As empresas levarão um tempo para se reerguer e, até que isso aconteça, a previsão é de que haja mais demissões com o objetivo de reduzir custos. Na avaliação de Tobler, a taxa de desemprego deve se recuperar ainda este ano, dependendo, no entanto, dos desdobramentos da pandemia de Covid-19. Ele afirma que, ao patamar de 11%, o indicador só deve retornar após 2021.

Até que haja uma melhora no cenário econômico, contratações não são uma opção, já que as empresas tentam conter gastos e encontrar maneiras de superar a crise, que deixará sequelas nos próximos anos.

 

Foto: WikiMedia Link: https://bityli.com/YjXqe
Foto: WikiMedia Link: https://bityli.com/YjXqe 

Em meio à instabilidade, o desemprego também está impactando a renda per capita. Segundo levantamento da empresa de pesquisa Plano CDE, 51% dos brasileiros das classes D e E, que possuem renda per capita de até R$ 500, perderam metade ou até mais de suas rendas durante a pandemia. 

Essas classes, em sua grande maioria, são compostas por trabalhadores informais, muito afetados pelas medidas de isolamento. Com isso, muito deles ficaram desempregados e, em consequência disso, acabaram por aceitar empregos com salários inferiores. Ao contrário dessa situação, nos postos de trabalho com carteira assinada, há um "conforto" maior, que permite passar por um período de crise com um pouco mais de tranquilidade. Um exemplo disso é a MP 936, que permite a suspensão de contratos e redução de salários, como uma tentativa para evitar demissões em grande escala. 

Tobler diz que a queda da renda deve se manter no médio prazo. "A tendência é de que os rendimentos fiquem um pouco abaixo, à medida que houver algum sinal de recuperação da atividade econômica, com um número excessivo de trabalhadores desocupados, espera-se que haja algum movimento de redução salarial." 

Diante desse cenário, a incerteza prevalece. As taxas de desemprego e a retração da economia acompanham a pandemia, que determinará as ações e medidas econômicas a serem tomadas. O mercado de trabalho sofrerá mudanças, e as empresas que conseguirem passar por essa crise terão que se reinventar e buscar novos jeitos de atender o público e a demanda. "A economia vai se recuperar em relação ao momento atual, com certeza, mas voltar ao nível pré-pandemia vai demorar mais de dois anos", afirmou o economista da FGV Daniel Duque ao jornal O Estado de S.Paulo.

Brasil tem mais de 800 mil catadores, além dos donos de depósitos e das empresas compradoras
por
Gabriela Neves
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19/06/2020 - 12h
Cacilda Souza e sua carroça - Acervo Pessoal
Cacilda Souza e sua carroça - Acervo Pessoal

“Eu sou uma catadora de reciclagem. Não é porque eu ando toda suja no meu trabalho, que eu sou uma pessoa drogada... Quando uma pessoa tem caráter, não importa o trabalho que ela está fazendo, ela pode não prestar andando toda engravatada, como pode ter caráter andando suja.” Essas palavras são de Cacilda Souza, que mora em Ourinhos (SP), tem 41 anos e trabalha desde criança como catadora de reciclagem.

Cacilda aprendeu a ser catadora com seu padrasto, que a levava ainda menina para ajudá-lo nas ruas. Quando já era adolescente, começou a trabalhar de forma fixa em um lixão. No local, ela permaneceu até 2011, quando a lei aprovada no governo Lula previa o fim dos lixões por questões sanitárias.

Depois disso, aos 33 anos, Cacilda  entrou em uma cooperativa, mas a experiência acabou frustrada por desentendimentos com uma família de cooperados. Voltou então a trabalhar nas ruas, desta vez com a própria carroça.

Cacilda ficou conhecida no Facebook como Rainha da Sucata, após começar a postar fotos e vídeos do seu trabalho. Neles, ela discutia a forma como a população julgava os catadores e desprezava sua importância. Apesar de parecer uma história de novela, o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) estima que existem 800 mil catadores no país, dos quais 70% mulheres.

Cacilda diz que consegue pouco dinheiro com a venda do material coletado, mas afirma que essa renda tem sido suficiente para se manter. Ela tem quatro filhos e hoje só a mais nova depende dela. Cacilda se divorciou do pai das crianças quando elas ainda eram pequenas, mas ele sempre ajudou e se mantém presente. “Eu trazia tudo do lixo mesmo, roupa e calçado eu nunca precisei comprar”, conta Cacilda. Ela  ressalta que também ajudou outras famílias com objetos que achou no lixo.

Cacilda diz que a vida dela melhorou muito depois que conheceu o movimento Pimp My Carroça, projeto social e cultural que visa tirar os catadores da invisibilidade. Outro achado foi  o aplicativo Cataki, que conecta moradores com catadores próximos a sua região. Cacilda afirma que não dava conta da demanda que vinha através do aplicativo, principalmente por precisar puxar sua carroça por toda a cidade.

Como ficou conhecida, Cacilda ganhou uma caminhonete de um programa de televisão, o que ampliou suas possibilidades de trabalho. Atualmente,  ela faz o curso de tecnólogo ambiental em uma faculdade. A vontade de estudar já era antiga e levou a catadora a recolher inúmeros livros que encontrou no lixo.

Cacilda conta que nesse período de quarentena determinado pelo coronavírus está vivendo com o dinheiro do Bolsa Família e não está trabalhando pela preocupação com a segurança e pelo fato de o depósito que compra seu material estar fechado. A situação, segundo ela,  é muito complicada, pois alguns catadores não puderam parar de trabalhar.

Na tentativa de ajudar, Cacilda está fazendo alguns vídeos conscientizando as pessoas da importância de separar os reciclados em casa, para diminuir os riscos de contágio para os catadores. Além do coronavírus, esses trabalhadores já são expostos a outras bactérias por muitas vezes precisarem separar o lixo comum do reciclado.

Para ajudar os catadores nesse período de quarentena, o movimento Pimp My Carroça e o aplicativo Cataki se uniram em um financiamento coletivo. A campanha usa uma frase de impacto: “Os que não sofrerem com o corona vão sofrer de fome”. O objetivo é garantir uma renda mínima a todos os catadores autônomos cadastrados no Cataki. A meta é obter R$ 500 mil . Até agora, foram arrecadados quase R$ 320 mil.

O MNCR também lançou uma campanha de doações para os catadores. Os recursos serão utilizados na distribuição de cartões de vale-alimentação com R$ 200 para as famílias que estão sendo selecionadas pelo comitê nacional da campanha. Qualquer pessoa física ou jurídica pode fazer uma doação, por depósito em conta ou também pelo PagSeguro.

Na outra ponta, estão os depósitos de materiais que compram desses carroceiros. Eles também têm sofrido com a pandemia. Primeiro, por não saberem ao certo se são ou não um serviço essencial. Quando continuam abertos, ficam expostos não apenas ao vírus, mas também à fiscalização, que pode lacrar o estabelecimento. Se decidem  interromper as atividades, acabam sem renda nenhuma.

O Instituto Nacional das Empresas de Sucata de Ferro e Aço (Inesfa) e o Sindicato das Empresas de Sucata de Ferro e Aço (Sindnesfa) declararam por meio de uma carta aberta, no final de março, que os serviços do comércio atacadista de resíduos de sucatas metálicas deveriam ser considerados essenciais, já que a reciclagem tem um impacto direto na saúde pública.

As instituições também fizeram campanhas e manuais de como esses locais poderiam funcionar de forma segura. Mas a realidade, na prática, é bem diferente. Com apenas uma parte do portão aberto, Pedro Vasques mantém o seu depósito de sucata operando na zona leste de São Paulo.

Nos primeiros dias da quarentena, o depósito de Pedro ficou fechado. Ele permaneceu em casa, principalmente ao ser advertido pelos filhos de que, aos 76 anos, faz parte do grupo de risco.

Mas, por ter um funcionário registrado e precisar pagar todas as contas, resolveu reabrir. Pedro está usando máscara e tomando cuidados redobrados com a higiene. Mesmo com o depósito funcionando, ele diz que os negócios estão parados: quase não compra nem vende. O seu filho César Vasques também tem um depósito de reciclados. O estabelecimento ficou fechado por quase três meses. Reabriu no começo de junho, quando o prefeito Bruno Covas (PSDB) flexibilizou as regras para o comércio.

Pedro Vasques sentado em seu depósito na zona leste de São Paulo
Pedro Vasques sentado em seu depósito na zona leste de São Paulo - Gabriela Neves

César lembra que alguns anos atrás o mercado de recicláveis estava em alta e propiciava um bom rendimento. Com a crise dos últimos anos, já havia acontecido uma queda, que se intensificou ainda mais com a chegada do coronavírus.

Quando o depósito ficou fechado, César se manteve com a venda de  materiais que já tinha comprado antes. O dinheiro que conseguiu foi para as contas básicas. Algumas ficaram atrasadas, como o aluguel de seu depósito, para o qual  está tentando uma negociação que lhe permita pagar os meses atrasados.

'Home fitness' cresce cerca de 200% na pandemia, agora com tecnologias que tornam treino menos solitário
por
Giordana Velluto
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18/06/2020 - 12h

Enquanto as principais redes de varejo sentem o impacto econômico causado pela pandemia do coronavírus, o “home fitness”, como é conhecido o segmento de equipamentos de ginástica para serem usados em casa, vive uma ascensão desde o início do confinamento. 

Lojas como Polishop, Magazine Luiza, Americanas e Netshoes apontam crescimento de cerca de 200% nesse segmento  desde meados de março, quando o governo de São Paulo recomendou o fechamento das academias e dos parques públicos.

Mario Sergio Andrade, sócio-fundador da assessoria esportiva Run&Fun, treina hoje 1.500 atletas, entre corredores e ciclistas. Com o fechamento dos parques públicos, a programação de treinos sofreu alterações.

Agora, os treinos são programados para ser feitos em casa com o auxílio de equipamentos. Cerca de 80% dos alunos de Mario Sergio alugaram esteiras e bicicletas, ou preferiram comprar rolos de bicicleta que simulam o treino de ciclismo. Para Andrade, o mercado brasileiro vem acompanhando esse movimento que já acontece nos Estados Unidos e agora é tendência nos demais países.

Em uma entrevista para o R7, o CEO da Polishop, João Appolinário, afirmou ser um fenômeno pelo qual o mundo todo está passando. “Quase que triplicamos o número de entregas. Tivemos que mexer e readequar a logística para isso”, disse.

Em 2018, de acordo com a Associação Brasileira de Academias (Acad), funcionavam cerca de 36.585 academias de ginástica pelo Brasil, com mais de 10 milhões de alunos. O Brasil é o segundo país com maior concentração desse tipo de estabelecimento, ficando atrás somente dos Estados Unidos. 

 

Foto: Freepik
                                                           
                                                                Aula de ioga em grupo dentro da academia
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A indústria de atividades físicas movimenta R$ 2,1 bilhões no Brasil, a maior receita da América Latina e a terceira das Américas. O setor mostra dados significativos tanto no estado quanto no município de São Paulo, onde o número de academias cresceu, respectivamente, 21,6% e 17,7% em 2018.

Para quem possui uma vida ativa e gosta de frequentar academia, os produtos de treino em casa têm sido um atrativo para tentar manter o mínimo da rotina e o bem-estar durante o isolamento. A vantagem é não precisar de muito espaço para conseguir realizar os exercícios, ideal para quem mora em apartamento.

A procura por esteiras, produto que custa a partir de R$ 3 mil, aumentou. Mas os elásticos, colchonetes, cordas e acessórios no geral são os que têm maior demanda. Além de não ocuparem muito espaço, costumam ser mais baratos, ficando entre R$ 30 e R$ 50.

O crescimento de vendas no e-commerce dessa categoria é o que tem ajudado a minimizar o impacto do fechamento das lojas físicas por conta da quarentena. Cada vez mais as pessoas buscam se modernizar, e hoje quem está mantendo essas redes na ativa é o setor tecnológico. Elásticos e faixas tiveram um crescimento de cerca de 2.700%; cordas de 2.100% e tapetes e halteres, de 2.000%, segundo a Netshoes e a Magazine Luiza.

As empresas se sentiram inclusive motivadas a fazer promoções e oferecer frete grátis para produtos dessa linha. Appolinário afirmou ainda que esse não é o momento para ser oportunista, afinal as pessoas estão comprando por uma necessidade. “Achamos que como medida seria interessante fazer algo que fizesse mais sentido agora”, disse.

Antes da Covid-19, 50% dos atletas da Run&Fun treinavam em academias e os outros 50% só treinavam no parque e ao ar livre. Com o atual cenário, não foram só os atletas que tiveram que se adaptar. Algumas marcas, como a Peloton, começaram a vender bicicletas e esteiras conectadas com treinadores. Já a Swift, plataforma americana, possibilita que através de rolos inteligentes você se conecte e consiga pedalar com outras pessoas do mundo, além de simular um percurso de ciclismo ou de corrida.

O aumento do home office durante esse período também teve um impacto. A maioria das pessoas teve um aumento da produtividade. Além da otimização do tempo, está acontecendo uma mudança na maneira como as pessoas lidam com o tempo. Mais do que nunca, o treino à distância tem mostrado seus benefícios.  Além de criar conexões entre o treinador e vários atletas, o uso da tecnologia é favorável pois mostra os resultados dos treinamentos de forma precisa, através de todos os dados que o equipamento entrega.

Criada em 2016, empresa brasileira Ribon intensifica crescimento durante a pandemia; diretor vê maior vontade de ajudar
por
Rafaela Soares
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17/06/2020 - 12h

Nascida em 2016 do desejo de três amigos de montar uma startup, a empresa brasileira Ribon teve um crescimento de cerca de 4 mil usuários semanais em seu aplicativo desde que a pandemia do coronavírus começou a afetar o país.

Inspirada na iniciativa americana ​Tab for a Cause​, o aplicativo Ribon converte o dinheiro da publicidade em “Ribons” dinheiro virtual dando autonomia aos seus usuários para doarem a causas disponíveis no aplicativo, das quais grande parte está ligada a ONGs que combatem a extrema pobreza.

Em entrevista à Agemt, o diretor de design e um dos fundadores da empresa, João Moraes, conta que a Ribon tem cerca de 40 mil usuários mensais, e que acredita que houve um crescimento no uso do aplicativo devido ao momento delicado que vivemos, fator que aumenta a vontade das pessoas de querer ajudar.

No entanto, Moraes afirma que considera a empresa pequena ainda, e que os maiores desafios no momento são melhorar a experiência do usuário no aplicativo e conseguir fechar contratos com mais empresas. Quanto a esse último desafio, o coronavírus tem sido um obstáculo. “Apesar das pessoas estarem mais dispostas a fazer doações, as empresas estão mais conservadoras. Ninguém quer investir”, diz o executivo.

Atualmente, a Ribon tem projetos apoiados por grandes marcas como Rock in Rio, Visa, Malwee e Tetra Pak, o que, na visão de Moraes, aumenta a confiança dos usuários no aplicativo, que arrecada quantias maiores graças ao interesse dessas grandes empresas.

De acordo com o diretor, a Ribon não arrecada recursos somente através da publicidade. É graças a projetos fechados com empresas e grandes doadores que a startup consegue aumentar o valor inicial destinado a alguma causa, viabilizando assim um impacto social que pode ser 50% maior ao que ocorreria se as doações não passassem pela plataforma.

Um exemplo disso foi o projeto realizado com a Tetra Pak neste ano, que tinha interesse em ajudar a ONG Pimp My Carroça, ligada a catadores de material reciclável autônomos do Brasil. Com a causa no aplicativo, o valor final destinado a essa ONG acabará sendo maior do que o pretendido pela Tetra Pak, uma vez que qualquer usuário do aplicativo também pode fazer doações a essa causa, seja através dos Ribons vindos da publicidade ou da compra dessa moeda virtual.

A aquisição de Ribons pode ser feita tanto de maneira avulsa quanto por assinaturas mensais, cujo valor varia conforme o pacote. Segundo Moraes, no entanto, menos de 5% dos usuários optam pela assinatura, o que ele não considera um problema, pois o mais importante é que exista engajamento de quem usa a plataforma. “O propósito do aplicativo é ser uma nova forma de doar, acessível para todos que tenham interesse em ajudar.”

De acordo com Moraes, a empresa tem registrado um crescimento estável, mas ainda insuficiente para permitir o retorno dos investimentos. Por se considerar em um estágio de amadurecimento, a Ribon, por enquanto, limita a divulgação ao boca a boca dos usuários, que falam do aplicativo para amigos e familiares.