Influenciadora brasileira detalha a criação e o sucesso de seu body splash
por
Fernanda Dias
João Luiz Freitas
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30/03/2026 - 12h

Com 442 mil seguidores no Instagram, a influenciadora digital Lis Bella Andreazzi viu que seu público consumia muitos perfumes e teve a ideia de criar um produto com a sua cara. A parceria com a Ekomist, empresa que faz aromas para grandes marcas, foi o passo seguinte para tirar o plano do papel e lançar o  "Eighteen Seasons". Em entrevista à AGEMT ela detalha a estratégia de seu body splash e explica para o leitor o poder da influência digital sobre o consumo. 

A conversa revelou como criadores de conteúdo movem o mercado e fazem produtos esgotarem em poucas horas. Também contou sobre o processo de criação para garantir que o item faça parte da rotina de quem a segue.  Lis Bella entende o impacto de suas indicações no mundo digital e percebe que seu público confia muito no que ela usa no dia a dia. A influenciadora explica que nem todo produto vende com facilidade e o que importa é o alinhamento com o perfil de quem a acompanha. "Não é todo mundo que vai comprar? É quem se sentir atraído pelo produto, se divulgo maquiagem ou perfume, a chance de venda é maior", ressalta Lis Bella, que acrescenta: "as pessoas veem que ela usa o item de verdade e não apenas para uma propaganda". 

"Você ser uma influenciadora que passa essa confiança para o público, criando uma intimidade por meio de exemplos de sua rotina de cuidados com a pele gera muito engajamento". Segundo a influenciadora essa credibilidade está altamente ligada à escolha de não divulgar golpes ou casas de apostas, pois as marcas buscam influenciadores com boa reputação para parcerias de longo prazo. O nome "Eighteen Seasons" marca uma fase de transição na vida dela, pois o lançamento teve uma ativação estratégica em sua festa de 18 anos.

Além disso, ela chamou alguns de seus seguidores para estarem presentes nesse lançamento, reforçando a ideia de que ela preza pela proximidade ao público. A embalagem tem inspiração em produtos internacionais de sucesso e a marca atrai quem gosta de perfume e quem admira o estilo de Lis Bella.

Lis Bella Andreazzi - mulher segurando seu produto
Lis Bella Andreazzi na divulgação do seu produto "Eighteen Seasons". Fonte: divulgação. 

O mercado vê o surgimento de febres passageiras em alimentos e cosméticos, vários produtos viralizam e esgotam rapidamente. Exemplos recentes incluem o "morango do amor" e o "labubu". Esses itens mostram como um vídeo ou uma tendência pode criar uma demanda imediata e massiva. A velocidade com que esses produtos aparecem e desaparecem do mercado é um desafio para as marcas e um reflexo do consumo impulsionado pelas redes sociais.

A ideia de que um produto pode viralizar hoje e ser esquecido amanhã não é apenas percepção das redes sociais, mas já vem sendo discutida também no campo do marketing. Um estudo recente da Nanyang Business School, em Singapura, define esse cenário como “economia do momento”, em que marcas e consumidores passam a girar em torno de tendências rápidas, com picos de atenção que desaparecem em pouco tempo.

Na prática, o que se observa é um padrão recorrente. Um vídeo viraliza, o produto ganha visibilidade, a procura dispara e, em poucos dias, o interesse começa a cair. O ciclo é curto e, muitas vezes, substituído rapidamente por uma nova tendência. A influenciadora reforça, em entrevista, que a relação de confiança com o público acelera esse processo. Quando a indicação vem de alguém com quem o seguidor já se identifica, a decisão de compra tende a acontecer mais rápido, sem muita comparação ou planejamento. Ao mesmo tempo, o próprio estudo aponta um limite importante: chamar atenção não significa construir uma relação duradoura. Em um ambiente onde tudo é substituído rapidamente, ser visto não garante ser lembrado.

Andreazzi destaca que, nesse contexto, o timing se torna um dos fatores mais importantes. Participar de uma tendência no momento certo pode definir o alcance de um produto. Fora desse período, o interesse tende a cair rapidamente. Por fim, o eixo do comportamento do consumidor busca entender como essas dinâmicas afetam as escolhas. A repetição desse padrão indica um consumo mais impulsivo, influenciado pela urgência e pelo desejo de participar de algo coletivo. No entanto, esse comportamento nem sempre se traduz em fidelidade. A própria lógica da “economia do momento” sugere que o consumidor está sempre em busca do próximo viral. Segundo Andreazzi, a continuidade da relação depende menos do hype e mais da experiência real com o produto após a compra.

 

Bolhas de IAs e tensões geopolíticas afetam o valor final dos produtos eletrônicos
por
João Moura
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27/03/2026 - 12h

O consumidor brasileiro que planeja atualizar seus dispositivos eletrônicos nos próximos meses encontrará um cenário difícil. Segundo projeção da Gartner, empresa de consultoria no mercado de tecnologia, o preço dos computadores deve sofrer um reajuste de 17% em curto prazo. Ainda nessa análise, o mercado de PC’s deve sofrer uma retração de 10,4% em vendas. O aumento do preço é  impulsionado por uma combinação de fatores globais e decisões de política interna. O encarecimento de memórias RAM e unidades de armazenamento SSD, se transformou no principal vilão do orçamento doméstico e empresarial, agravando uma tendência de alta que se acumula desde o final de 2024.

O motivo principal dessa inflação está no crescimento do mercado de inteligência artificial (IA). A infraestrutura necessária para sustentar os modelos de linguagem (LLMs) e processamento de dados exige uma grande quantidade de hardware. Como resultado, as big techs estão direcionando seus investimentos para a construção e manutenção de data centers, consumindo a maior parte da produção mundial de semicondutores.

O apetite das gigantes da tecnologia acaba por "canibalizar" a oferta de produtos para o consumidor comum e pequenos varejistas. Um marco dessa mudança ocorreu em novembro de 2025, quando a Micron, uma das líderes globais do setor, anunciou o fim de sua linha de memórias padrão para consumidores, reajustando todo o seu portfólio para atender exclusivamente às demandas corporativas de alta escala. Para a economista e professora da PUC-SP, Leslie Denise Beloque, o momento exige cautela extra dos investidores e consumidores. “Temos uma imensa bolha no campo das big techs. Quer dizer que a valorização das ações dela na bolsa é extremamente grande, supondo que o desempenho delas na vida real também esteja. Isso fatalmente uma hora estoura, e todo mundo que tinha ação vai ver que isso era irreal, e perde dinheiro”, afirma Leslie.

Data centers dominam o mercado de memória RAM. Foto: wirestock/Freepick
Data centers dominam o mercado de memória RAM. Foto: wirestock/Freepick

Além da pressão de demanda, a oferta global de chips enfrenta problemas logísticos e diplomáticos. A guerra tarifária entre Estados Unidos e China impôs barreiras severas ao fluxo de recursos essenciais para a fabricação de microchips, afetando empresas cruciais como a TSMC e a Nvidia. A escalada de tensões entre os dois países também envolve restrições à exportação de tecnologias sensíveis e sanções comerciais estratégicas, especialmente no setor de semicondutores avançados.

Washington (EUA) tem ampliado o controle sobre o envio de equipamentos de litografia e chips de alto desempenho para empresas chinesas, enquanto Pequim responde com políticas de incentivo à produção doméstica e possíveis limitações na exportação de minerais críticos, como terras raras. Esse embate cria um ambiente de incerteza para toda a cadeia global de suprimentos, elevando custos, atrasando entregas e reduzindo a previsibilidade do mercado. No Brasil, o cenário é agravado pela questão tributária. A resolução Gecex 852, que entrou plenamente em vigor no início de  março de 2026, estabeleceu uma taxação de 12,6% sobre placas de vídeo, memórias RAM e placas-mãe. Embora o governo justifique a medida como uma forma de proteger a indústria nacional, que registrou um aumento de 33% na importação desses itens desde 2022, o impacto imediato é o desestímulo ao consumo.

Redes sociais passam a integrar entretenimento e consumo, acelerando o avanço do social commerce no Brasil
por
Eduarda Amaral
Kaleo Ferreira
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28/03/2026 - 12h

O comércio eletrônico brasileiro vive uma nova fase impulsionada pelos marketplaces, plataformas que conectam vendedores e consumidores em um mesmo ambiente digital. Nos últimos anos, esse modelo se consolidou como um dos principais motores de e-commerce no país, concentrando grande parte das vendas online e ampliando o alcance de marcas e pequenos empreendedores. Se preferir, ouça esta matéria em áudio.

Em 2026 um novo formato ganha espaço, o social commerce, que integra redes sociais às vendas online, permitindo ao consumidor descobrir e comprar produtos sem sair da plataforma. Um exemplo desse movimento é o TikTok Shop, que transforma vídeos curtos e transmissões ao vivo em vitrines digitais. O modelo se apoia no conceito de discovery commerce, o consumo por descoberta. Diferente da lógica tradicional, em que o cliente busca o que quer comprar, aqui ele os encontra de forma espontânea enquanto consome conteúdo. Para o especialista Felipe Couto, cofundador técnico e engenheiro principal da Jodda.ia, plataforma que integra gestão de dados e performance no e-commerce, os marketplaces deixaram de ser meros intermediários para se tornarem provedores de infraestrutura. Ao oferecerem soluções de logística, publicidade e crédito, essas plataformas geraram um "efeito de rede, em que mais vendedores atraem mais consumidores, fortalecendo o ciclo", explica Couto.

Nesse cenário, o entretenimento passa a desempenhar um papel central na decisão de compra, permitindo que marcas e criadores apresentem produtos de forma mais orgânica e próxima do consumidor. Essa estratégia transforma a navegação nas redes em um ambiente de descoberta constante, no qual recomendações e o algoritmo influenciam diretamente o comportamento do consumidor. Os números confirmam o avanço do setor. De acordo com a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), o e-commerce brasileiro faturou R$ 235 bilhões em 2025, alta de 15% em relação ao ano anterior. O período encerrou com 94 milhões de compradores online e aumento de 5,8% no volume de pedidos, com projeções que indicam a manutenção desse ritmo em 2026.

Gráfico faturamento do e-commerce no Brasil de 2020 a 2025 de acordo com a ABComm
Evolução do faturamento do e-commerce no Brasil de 2020 a 2025 - Fonte: ABComm

Essa alta-performance tem nos marketplaces seu principal motor, somada ao fenômeno do live commerce. O modelo popularizado na China em plataformas como Taobao Live e Douyin (versão chinesa do TikTok), onde o setor já movimenta centenas de bilhões de dólares anualmente, ganha força no Brasil como uma das formas mais autênticas de exposição de produtos. Nas transmissões ao vivo, vendedores e criadores respondem a dúvidas em tempo real, estabelecendo uma relação de proximidade que transforma o micro-influenciador em peça estratégica desse ecossistema.

Couto cita empresas que encontraram nas plataformas um atalho para expansão. A Growth Supplements, por exemplo, que já registrava alto faturamento em seu site próprio, alcançou milhões de pedidos em apenas um mês após migrar para o Mercado Livre. Para ele, o movimento evidencia que "não é só o pequeno seller (vendedor) que depende disso, até empresas grandes usam marketplaces como canal estratégico de crescimento". Mas esse formato, no entanto, começa a ser desafiado por um novo concorrente. Com cerca de 90 milhões de usuários no Brasil, o TikTok Shop registrou um crescimento de 26 vezes na receita diária média em apenas cinco meses desde sua chegada ao país, em 2025. 

Montagem com interface do TikTok Shop e vídeos de promoção de produtos — Imagem: Eduarda Amaral/Canva
Montagem com interface do TikTok Shop e vídeos de promoção de produtos - Arte: Eduarda Amaral/Canva

Ao aproximar entretenimento, recomendação e compra em um único ambiente, o social commerce redefine a jornada do consumidor e abre novas frentes de monetização. Nesse modelo, o conteúdo se transforma em vitrine e o criador em mediador, consolidando uma etapa do varejo digital em que as fronteiras entre diversão e consumo são cada vez mais difusas. 

Essa transição para novos canais exige mais do que presença digital, exige inteligência sobre o próprio negócio. É justamente esse o desafio que Couto enfrenta no dia a dia com a Jodda.ia. Segundo ele, a maioria dos vendedores tomam decisões com base em dados históricos e intuição: sabem quanto venderam, mas não entendem por que venderam ou onde perderam margem. "Um vendedor que não tem essa base analítica estruturada vai tentar replicar o que faz no Mercado Livre e vai se frustrar, porque as métricas são diferentes", afirma. Para ele, ter clareza sobre o lucro é o que permite avaliar com segurança se um item faz sentido no TikTok Shop, onde o giro é acelerado pela viralidade.

Essa disputa, no entanto, não deve se consolidar como uma competição direta entre modelos. O cenário aponta para uma convergência entre marketplaces e social commerce, à medida que plataformas de venda incorporam elementos de conteúdo, enquanto redes sociais avançam na estrutura operacional. Para Couto, essa transformação já está em curso e reflete uma adaptação do varejo digital a um consumidor mais orientado por experiência e conveniência.

Nesse processo, o avanço do TikTok Shop como ameaça real ainda depende de fatores como logística e confiança no pós-venda, áreas em que players consolidados mantêm vantagem. “Se o TikTok Shop conseguir fechar essa lacuna, aí o jogo muda”, afirma Couto. A disputa deixa de ser apenas por preço ou variedade e passa a envolver experiência e eficiência. “O marketplace venceu pela infraestrutura; o TikTok Shop cresce pela atenção; e o próximo ciclo será vencido por quem conseguir unir atenção, operação e margem no mesmo sistema”, conclui.

O que a crise gerada por Vorcaro conta sobre o letramento financeiro dos brasileiros
por
Leticia Falaschi
Anna Cândida Xavier
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27/03/2026 - 12h

O escândalo do banco Master tomou conta do noticiário brasileiro, promessas de rendimentos milagrosos, altas taxas de juros, ativos sem retaguarda e possível envolvimento de nomes importantes da política. A investigação da Polícia Federal estima que a crise do Master gerou R$50 bilhões em prejuízos generalizados, inclusive para investidores inexperientes que apostaram tudo o que tinham em uma cilada. Este caso deixa um alerta sobre a transformação do risco em produto e a expectativa em estratégia de mercado. Desde 2017, quando o empresário Daniel Vorcaro assumiu a presidência, o Banco Master apresentou um crescimento acelerado, baseado na emissão de Certificado de Depósito Bancários (CDB) com alto juros.

O CDB é um investimento de renda fixa emitido por bancos para captar dinheiro, ao investir, o cliente empresta dinheiro ao banco e recebe os juros. O Master oferecia uma rentabilidade muito superior à média de mercado, o que gerou uma captação expressiva e promessa de grandes retornos aos investidores. As operações eram complexas, de alto risco e pouco transparentes. A crise expõe não apenas uma falha financeira, mas um fenômeno social e comunicacional mais amplo, construído ao longo da última década no Brasil: a popularização do investimento em um ambiente mediado por linguagem simplificada, entretenimento e disputas de narrativa. Plataformas digitais, assessores e influenciadores passaram a traduzir o mercado financeiro em uma linguagem acessível, vendendo a ideia de que investir era simples e seguro. “As pessoas usam aquilo que é mais simples de acessar, que é a caderneta de poupança”, explica Cristina Helena Pinto, professora doutora em economia pela Fundação Getúlio Vargas.

Segundo ela, "o retorno monetário modesto deste tipo de investimento leva alguns à se arriscarem. Pessoas que têm baixo letramento financeiro, ou têm muita vontade de realizar rápido um ganho extraordinário”, caem, alerta Cristina. Nesse movimento, encontram um ecossistema financeiro pronto para oferecer soluções mais lucrativas, como CBD´s com juros muito altos.  Nesse percurso, muitos investidores se tornam vulneráveis a conteúdos que prometem ganhos rápidos, especialmente quando há muita vontade de realizar rápido um ganho extraordinário, o que se torna corriqueiro para boa parte da população.

É nesse ponto que a dimensão comunicacional se torna central. Segundo Davidson Carvalho, que defendeu mestrado na PUC-SP analisando o mercado financeiro para pequenos empreendedores, "há uma mudança estrutural na forma como o mercado financeiro se comunica: conteúdos sobre dinheiro passaram a adotar lógica de entretenimento, com ritmo acelerado, apelo visual e fragmentação". 

"O uso de memes e recursos visuais não é necessariamente um problema, como no caso do canal Me Poupe!, mas pode servir para “quebrar o ritmo racional do negócio”. O resultado é uma comunicação que privilegia engajamento em detrimento da profundidade", explica Carvalho. 

A economista Cristina Helena reforça essa ambiguidade ao apontar que, mesmo para quem possui conhecimento, há um conflito entre percepção de risco e confiança institucional: “olhava para aquilo e falava, está acima do que o mercado está pagando, tem alguma coisa de errado aqui”, mas, ao mesmo tempo, confiava que “dificilmente esse banco ia estar numa situação de risco tão elevado sem aparecer alguma coisa”. Essa confiança no sistema, combinada com a comunicação simplificada, contribuiu para diluir a percepção de risco entre investidores menos experientes.

Outro aspecto central é a disputa de narrativas entre instituições tradicionais e novos agentes comunicacionais. Como afirma Carvalho, “o banco não está isolado, não está conversando sozinho, pois compete diretamente com influenciadores que também se propõem a falar sobre educação financeira”, adverte. No entanto, há uma diferença de linguagem: enquanto instituições oferecem conteúdos mais técnicos, influenciadores alcançam grande audiência com formatos dinâmicos. 

Essa assimetria ajuda a explicar por que narrativas simplificadas têm maior alcance, mesmo quando menos completas. Nessa disputa por atenção, as instituições acabam por perder. “Os bancos também pensam em como decifrar a economia para o consumidor.” afirma Carvalho. 

Fundo Garantidor de Créditos (FGC)

Para a professora, a existência do (FGC) levou muitos investidores a acreditarem que estavam protegidos. Apesar dele garantir retorno para investimentos de até R$ 250 mil, muitas pessoas apostaram suas poucas fichas para além desse valor, confiando na segurança do CBD do Master. “O risco faz parte da estrutura do negócio de um banco, a diferença do caso Master são as fraudes, a emissão de ativos sem colateral, sem retaguarda” afirma Cristina. 

A crise do Master revela limites estruturais que vão além da comunicação. Carvalho destaca que muitos brasileiros simplesmente não têm tempo para se aprofundar: “um cara que está 12 horas numa moto, chega em casa e vai descansar, ele não vai fazer mais nada”, o que torna o consumo de informação rápida e superficial quase inevitável. Aí, a decisão de investimento deixa de ser apenas econômica e passa a ser mediada por cansaço, falta de tempo e excesso de estímulos", explica o mestre Carvalho. 

 

Produtos utilizados por integrantes da casa vigiada têm vendas aumentadas
por
Mariane Beraldes
Thainá Brito
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27/03/2026 - 12h

O Big Brother Brasil 26 se tornou uma das edições mais comentadas do reality nos últimos anos, com forte impacto nas redes sociais. Segundo a Rede Globo, o programa já acumula milhões de interações nas plataformas digitais, o que tem impulsionado a demanda por produtos utilizados pelos participantes. A transmissão 24h amplia o contato do público com os confinados e os itens exibidos dentro da casa, o que tem aumentado o interesse dos consumidores por esses itens. O fenômeno também alcançou pequenos empreendedores, que registram crescimento nas vendas, impulsionado pela visibilidade no ambiente digital. 

Entre os impactados está a estudante Patrícia Carvalho, que afirma já ter adquirido mercadorias motivadas pelo programa. “Eu ainda não me arrependi de nenhuma compra que fiz por conta do BBB. Acredito que isso acontece porque consigo ver o resultado do produto. Se é um item de maquiagem, por exemplo, posso acompanhar como ele se comporta na pele e o acabamento que oferece”, diz Carvalho. 

De acordo com o relatório da McKinsey, empresa global de consultoria e gestão estratégica, recomendações e experiências compartilhadas entre consumidores podem influenciar entre 20% e 50% nas decisões de compra. A lógica se manifesta de forma indireta no BBB, ao acompanhar o cotidiano dos brothers, o público pode observar o uso contínuo dos produtos, o que tende a aumentar a confiança na hora da compra. 

Nas redes sociais, o engajamento é intenso, especialmente em itens de skincare, cabelo e acessórios. A participante Ana Paula Renault garantiu aos pequenos empreendedores maior visibilidade, aumento do faturamento e até esgotamento rápido de seus produtos. Em alguns casos, as parcerias já existiam antes da entrada da sister na casa, como ocorreu com os acessórios da marca “Nega Lora”, que registrou crescimento de 60% nas vendas no início de 2026.

Ana Paula Renault utilizando acessórios da marca Nega Lora Foto: Globo/Divulgação
Participante Ana Paula Renault utilizando acessórios da marca Nega Lora Foto: Globo/Divulgação


Além das parcerias, perfis nas redes sociais, como @closetdaanapaularenault, divulgam as peças usadas pela participante e aumentam a procura por outros itens de pequenos empreendedores, mesmo sem acordos comerciais formais. Quando um produto ganha visibilidade na mídia, há tendência de crescimento nas vendas devido à maior demanda. Uma pesquisa da Wake, em parceria com a Opinion Box, revelou que 56% dos consumidores afirmam que produtos virais aumentam sua intenção de compra. Porém, especialistas em mercado alertam que esse tipo de movimento nem sempre se traduz em consumo contínuo. 

Esse efeito gera picos imediatos, principalmente no ambiente digital, tende a diminuir após o fim do programa, que dura apenas três meses. Essa movimentação exige das marcas, especialmente as menores, estratégias de fidelização para manter o crescimento de vendas a longo prazo. Segundo Davidson Carvalho, mestre em Tecnologias da Inteligência e Design Digital (TIDD), pela PUC-SP, o comportamento do público nas redes tem sido marcado por volatilidade: “Tudo é instantâneo, não necessariamente você lembra do vídeo que você viu, ou da série que você assistiu. Isso é muito rápido, dinâmico e instantâneo. Quem quiser conversar com o público, precisa mudar. Hoje em dia a comunicação está muito mais focada nas emoções, no sentimento, no visual, do que no próprio conteúdo”, explica Carvalho. 

Para Patrícia, esse comportamento pode também estar ligado à percepção inicial dos consumidores: “Quando um produto é lançado e tem aquele hype em cima, ele nunca tem nenhum defeito. Passam os meses, começam a surgir pequenas imperfeições no produto, que talvez façam você questionar se vai querer comprar ele ou não”, afirma.

Novo meio de pagamento foi implementado no dia 16 de novembro
por
Bruna Galati
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19/11/2020 - 12h

O Pix, novo meio de pagamento instantâneo criado pelo Banco Central, gerou uma série de incertezas para diversas áreas. O consumidor final não tem certeza sobre a segurança da ferramenta e as adquirentes buscam soluções para não saírem do mercado, já que o Pix veio para substituir o TED, DOC, cartões de débito e boletos bancários. Por outro lado, as varejistas estão felizes com as vantagens que o novo programa trará para elas. 

A Kaspersky, empresa internacional de cibersegurança, detectou só no primeiro dia de cadastro do Pix 30 domínios falsos criados com o mesmo nome. Esse é o primeiro estágio de um golpe, onde os fraudadores criam sites falsos para tentar distribuir vírus e capturar dados das pessoas, disparando esses links por meio de e-mails, redes sociais ou SMS. 

A recomendação dos especialistas e dos bancos para não ser vítima desse tipo de fraude é não clicar em links recebidos por outros meios que não sejam dentro do aplicativo do seu banco. O consumidor terá que ser mais ágil para evitar cair em fraudes simples na internet.  

Pensando em estágios mais avançados de fraude, a Inloco, empresa de identidade digital privada por tecnologia de localização, criou a solução Incognia Pix para evitar a fraude através do QR Code, que pode ser uma das formas de pagamento do Pix, além das chaves. 

"Os ataques de fraude vão se tornar muito mais fáceis de executar, porque não precisa de todo aparato tecnológico, é só o fraudador imprimir um novo QR Code e colar em cima do original", afirma André Ferraz, CEO e fundador da Inloco, sobre o progresso de fraude com a chegada do Pix. 

A solução da empresa protege todos os lados da transação. Começando pelo usuário ao confirmar a localização em tempo real do celular, para verificar se o cliente está no estabelecimento onde a compra é registrada, confirmando se o usuário é mesmo o proprietário da compra. Ao suspeitar de algo, o sistema pede uma nova prova de identidade para liberar o pagamento. 

Com a tecnologia de localização, a Inloco também sabe quais são os QR Code de pagamento que estão vinculados a todas lojas (que são suas clientes) e, caso detectem qualquer QR Code diferente, ele não permite o clique do usuário. A empresa também garante que o pagamento caia na loja certa.

Para as varejistas, o Pix trará redução nos custos das operações, dando eficiência às empresas e garantindo uma melhor experiência e rapidez para o consumidor. Em evento realizado pelo Banco Central (BC), Ana Honorato, gerente de tesouraria do Arcos Dourados (McDonald's), afirmou que o Pix diminuirá a busca interminável dos varejistas por moedas.

Os comércios e autônomos sofrem com as transações que demoram para cair devido aos finais de semana e feriados. Com o Pix, isso não acontecerá, já que ele é uma opção de transação que pode ser feita de segunda a segunda nas 24 horas do dia e incluindo os feriados. 

As empresas também correm o risco de a transferência não ser efetivada ou o consumidor desistir de pagar seu boleto bancário. Ao escolher pagar por boleto, o consumidor espera dois dias úteis em média, até que sua compra seja confirmada. Isso gera a trava do produto no estoque da varejista, sem saber se o pagamento de fato será realizado. Caso ele não ocorra, ela perdeu oportunidade de vender o produto para outro consumidor. Com o novo produto do BC, essa insegurança diminui, já que o dinheiro cai na conta do destinatário em até dez segundos. 

Embora não seja possível calcular exatamente quanto o comércio e prestadores de serviço irão economizar com as taxas de operações, já que o valor cobrado varia por estabelecimento e instituição financeira, as perspectivas para a redução de custos são altas. Em entrevista para a Folha, Jorge Gonçalves Filho, vice-presidente e conselheiro do IDV (Instituto para Desenvolvimento do Varejo), disse que a estimativa é que 30% das transações do comércio sejam na função débito, sendo cobrado 2% em cima disso pelas operadoras. 

Em 2019, o varejo paulista contabilizou faturamento de R$ 740 bilhões. Se levarmos  em conta o comentário de Jorge, o setor pagou mais de R$ 4 bilhões, apenas em taxas para as operadoras. O Pix traz suas vantagens para os comerciantes.

Já para muitas adquirentes (tradicional "maquininha" que faz a comunicação direta entre a loja, bandeiras e os bancos emissores de cartões), o Pix vai mudar o fluxo de pagamento. Mas, na visão de Rodrigo Luiz Teixeira, CEO da BMG Granito, o Pix não será um problema de curto e médio prazo. Apenas 20% de seus resultados vêm do débito e a instituição não acredita que inicialmente o Pix terá forças suficientes para passar essa porcentagem. 

A demora na adesão ao PIX vem da insegurança dos estabelecimentos de não terem informações concretas. As taxas ainda não foram divulgadas, nem a forma como eles irão conferir o recebimento do dinheiro. O novo sempre deixa todos com um pé atrás e a previsão é que o ciclo do Pix demore de dois a três anos para se consolidar. 

Outra preocupação da adquirente é fraude. Com o cartão de crédito, caso o consumidor não receba sua compra, ele liga no banco e confirma o não recebimento. O banco devolve o valor e é debitado do estabelecimento comercial. Com o Pix, ainda não há certeza de como isso irá funcionar. "Se o Pix gerar sensação de insegurança, o estabelecimento não vai querer usá-lo como forma de pagamento", completa Rodrigo Teixeira.

Ainda existe uma grande incerteza no mercado sobre a chegada do Pix. Alguns comércios menores da Zona Norte de São Paulo dizem que não estão interessados na implementação do sistema, que esperam novas informações sobre taxas, seguranças e quão favorável será essa nova opção de pagamento. 

Apesar da Lei de Cotas, profissionais são relegadas a segundo plano, sem dispor nem mesmo das condições adequadas
por
Letícia Galatro Alves
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17/11/2020 - 12h

Ao longo dos séculos, pessoas com deficiência foram impedidas de participar ativamente da vida social e do mercado de trabalho. Estas barreiras, longe de estar superadas, são visíveis ainda hoje. É difícil encontrar pessoas com deficiência que tenham experiências profissionais.

Em 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos apresentou o primeiro avanço. A partir desse documento, as pessoas com deficiência passaram a ser vistas como parte da sociedade e foram, pouco a pouco, conquistando seus direitos como cidadãs. Mais de quatro décadas depois, em 1991, surgiu no Brasil a Lei de Cotas, que obriga empresas com 100 ou mais funcionários a terem um percentual de 2% a 5% de empregados com deficiência. 

Porém, ainda hoje, as mulheres com deficiência são vistas através de uma postura assistencialista que as mantém como ´reservas de mão de obra´. “Infelizmente, nas empresas pelas quais passei, a deficiência física representa uma má qualificação de serviço. O que eu faço nunca vai ser o suficiente, sempre vão achar que tem alguém sem deficiência que faz melhor”, afirmou Simone Monteiro da Cunha, em uma entrevista para o site Universa

Outro panorama muito triste é o abandono do profissional com deficiência em seu ambiente de trabalho. Algumas PCDs (sigla para pessoa com deficiência) precisam de adaptações para conseguir trabalhar com 100% de sua eficiência. Muitas empresas contratam só para cumprir a cota e não pensam no bem-estar desse funcionário, não disponibilizando os recursos necessários. “Eu trabalhei dois anos no RH de uma empresa. As tarefas eram divididas entre as funcionárias, mas não eram passadas para mim. Eu era sempre enviada para cuidar do arquivo, o que impedia que eu me desenvolvesse”, contou Kelly Tavares Dias para o Universa

O Brasil possui mais de 45 milhões de pessoas com deficiência, das quais a maioria, 53,58%, são mulheres. Mesmo assim, segundo a mais recente pesquisa do IBGE, apenas 43,1% dessas mulheres conseguem atingir o trabalho formal. Considerando deficiências motoras severas ou intelectuais, o número de mulheres economicamente ativas caí para 34,8% e 20,8%, respectivamente.

Apesar dessa realidade desanimadora, movimentos em prol dessa inclusão vêm ganhando cada vez mais força. Um exemplo recente é o programa da Prefeitura de São Paulo para contratação de estagiários com deficiência. Para o jovem com deficiência, é uma oportunidade de ter um primeiro contato com trabalho formal e mostrar competência para desenvolver atividades como qualquer outro profissional dentro da empresa. Se os resultados forem positivos, ele pode crescer profissionalmente dentro desse ambiente.  Isso acontece, desde que sejam respeitadas suas limitações e lhe sejam oferecidas condições de acessibilidade ou recursos para esse fim.

Para a empresa, é mais do que uma oportunidade de cumprir uma obrigação legal. Constitui também um estratégico exercício de responsabilidade social. A melhor forma de desconstruir preconceitos é dando oportunidade para que essas pessoas possam mostrar sua competência. 

 


 

Com cuidados para prevenção do Covid-19 e ajustes para lidar com a crise, transportadoras não pararam durante a pandemia.
por
Pedro Kono e Renan Silva de Mello
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06/11/2020 - 12h

Em meio a pandemia, transportadoras ao longo do Brasil continuam operando enquanto são obrigadas a se adaptar à queda de desempenho e aos cuidados necessários para a prevenção da doença.

 

‘‘Não paramos. O mercado não parou e dependem muito da gente.’’, revela Djonatas Nascimento, gerente da unidade localizada em São Paulo da transportadora Solução Transporte e Logísticas. Nascimento, que contraiu a Covid-19 durante o período, também conta que no início da quarentena foi implementado um sistema de rodízio de funcionários e que alguns trabalhadores tiveram a opção de praticar o home office, mas ao longo dos meses o funcionamento voltou a ser totalmente presencial. Apesar de não se sentir totalmente seguro durante o expediente, Nascimento diz que buscou ‘‘trabalhar e enfrentar a Covid-19’’.

 

O gerente relata que foram seguidas as recomendações para a prevenção da doença, como o uso de máscaras por parte de todos os funcionários, a disponibilidade de álcool em gel em todos os pontos da empresa e uma quantidade maior de sabão nos lavatórios. Sobre o período em que esteve contaminado, Nascimento relata que teve todo o suporte necessário: ‘‘a empresa foi muito fiel comigo e me ajudou bastante’’. O gerente também diz não saber se contraiu a doença no local de trabalho.

 

Segundo o levantamento feito pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), apesar das transportadoras não pararem, a crise gerada pela pandemia desencadeou uma queda de 11,3% no valor adicionado ao transporte de cargas e passageiros no Brasil. O levantamento também avalia que a queda registrada em 2020 foi duas vezes maior que a ocorrida no auge da recessão entre 2014 a 2016 e que os índices são os piores desde o primeiro semestre de 1996.

 

Em relação aos empregos, a CNT avalia que houve uma perda de mais de 68 mil postos de trabalho no setor de transportes desde o início da pandemia, e que apenas a partir do mês de agosto houve uma estabilização na situação. Entre 40,6% dos transportadores que demitiram, 55,3% não pretendem realizar novos cortes, e 83,8% dos que não reduziram seus empregados não possuem a intenção de mandar embora. Em relação aos últimos meses do ano e as medidas de relaxamento do distanciamento social, a CNT encara o período como uma incógnita. Entre os índices de saldo mais negativo em relação ao emprego na área, Abril e Maio assumem a liderança, com -34.857 e -20.744 postos de trabalho, respectivamente.

 

Os setores mais afetados foram o de transporte de cargas e passageiros, o de comércio e o de outras atividades - que inclui serviços de alojamento, alimentação, saúde e educação. Já a agropecuária manteve um crescimento positivo de 1,6%, apesar de ainda abaixo do esperado. A Solução Transporte, empresa em que Nascimento trabalha, atua na área de agricultura, transportando seus produtos do estado do Mato Grosso, onde o setor agrícola é muito forte e não foi amplamente afetado pela quarentena. ‘‘No início, com a paralisação, tivemos uma queda, mas logo em seguida houve um crescimento muito grande durante a pandemia’’.

 

Em relação a ajuste e adaptações de logística decorrentes da pandemia, Nascimento cita que o único segmento que sofreu algum tipo de reinvenção foi a coleta dos produtos junto aos clientes, que passaram a ser feitas por agendamento específico e horário marcado, pelo fato de serem feitas em locais fechados.

Eduardo Fagnani e Alexandre Lucchesi apontam injustiças do sistema tributário e defendem maior cobrança sobre ricos 
por
Gabriella Lopes
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22/10/2020 - 12h

O ministro da Economia, Paulo Guedes, entregou no dia 21 de julho a proposta do governo federal para a reforma tributária. O governo de Bolsonaro tem sido marcado por reformas que o meio político brasileiro tem debatido há anos, mas que outros governos não levaram à frente, como a reforma da Previdência – já aprovada – e agora a reforma tributária. Contudo, a proposta apresentada por Guedes tem sofrido críticas.

Apresentada aos presidentes da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre, a proposta será entregue em quatro partes. A primeira propõe a fusão do PIS e da Confins, unindo em um único imposto chamado CBS (Contribuição Sobre Bens e Serviços).

Em entrevista ao Agemt, o economista  Eduardo Fagnani, professor da Unicamp e coordenador de um projeto alternativo centrado na defesa de maior tributação sobre os ricos, diz que não vê nenhuma vantagem na reforma entregue por Guedes.

A questão central do problema tributário brasileiro é que nós tributamos muito o consumo e pouco a renda e o patrimônio. Quando você tributa muito o consumo, penaliza mais os pobres. Primeiro, porque os pobres consomem tudo o que eles ganham e os ricos consomem uma parte. Segundo, porque o peso do tributo na renda do pobre é muito maior do que o peso na renda do rico. O grande problema do Brasil é esse,” explica Fagnani.

Alexandre Lucchesi, também professor de economia da Unicamp, percebe a mesma questão. Ele elucida que no Brasil a população consomem muito porque tem pouca renda.  “Tudo o que as pessoas recebem de ganho das suas atividades gastam rapidamente, porque no país não tem a possibilidade de poupar devido às condições orçamentárias e as exigências de uma vida aqui.” Ele complementa dizendo que “tudo o que você for tributar e que irá recair sobre o consumo vai gerar um problema de regressividade: quem está consumindo muito está pagando mais imposto, porque, se o imposto incide sobre o consumo, está saindo pior para quem precisa gastar quase tudo do que tem”.

Atualmente a maior parte das taxações incide sobre o consumo e serviços. Para Fagnani, o Brasil realmente tem muitos impostos e  isso afeta principalmente as pessoas de baixa renda e classe média. “As pessoas falam muito que a carga tributária no nosso país é alta e é verdade, os pobres e classe média podem falar isso. Realmente se paga muito imposto”, comenta o professor.

De acordo com uma pesquisa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), no Brasil 44% dos tributos são arrecadados do consumo; nos Estados Unidos, são 18%. Já a arrecadação oriunda da renda  é de 21% no Brasil e 44% nos Estados Unidos, enquanto sobre os percentuais relativos ao patrimônio são de, respectivamente, 6% e  12%. Para ambos os especialistas, a solução do problema só pode ser dada com a tributação da renda e do patrimônio.

Fagnani explica que a carga tributária só é alta para os pobres e a classe média porque é residual para os ricos e super-ricos. “A reforma tributária deveria ampliar a tributação sobre as altas rendas e os altos patrimônios de um lado e do outro lado reduzir a tributação do consumo. Nós temos que simplificar o consumo, mas também temos que reduzir a carga tributária sobre o consumo, porém só se pode fazer isso se tributar o outro lado.

Para Lucchesi, a ideia vai pelo mesmo caminho. Ele explica que o “ideal, para se ter um bom efeito a longo prazo, deveria [ser] distribuir a renda para não onerar muito o pobre, o trabalhador simples ou a pequena empresa”. Para ele é preciso “deslocar essa tributação do consumo para a renda e para o patrimônio. Isso foi uma coisa que não foi feita, mas poderia ter sido proposta.”

O professor Fagnani  completa dizendo que, em relação ao consumo, a proposta de Guedes só vai acabar com dois ou três impostos  e criar um outro que, no fim das contas, contribuirá para umpossível aumento da carga tributária para  o consumo. Por outro lado, Alexandre Lucchesi destaca que o positivo da reforma será “a simplificação e a união do sistema tributário brasileiro, porque ele é muito confuso, são muitos impostos e a as pessoas não sabem direito o que estão pagando, por que estão sendo cobrados e referentes ao quê”.

Criado nos Estados Unidos, movimento Stop Hate for Profit obtém mais de 1.100 apoiadores e alcança resultados expressivos
por
João Capricho
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08/10/2020 - 12h

Fake News e discurso de ódio são dois temas que estão em evidência na atualidade. Impulsionados pelas eleições estadunidenses de 2016 e pelas posses de governos de extrema-direita ao redor do globo, estes assuntos são constantemente alvos de debate. Esses assuntos geram discussões em vários âmbitos, mas principalmente considerando sua presença cada vez maior nas redes sociais. Até pouco tempo atrás, não existia no Brasil uma legislação que pudesse amparar vítimas de crimes cibernéticos A primeira lei sancionada é a de n° 12737 de 2012.

 Mas a falta de controle por parte dos governos em relação ao que é publicado na internet é apenas uma parte do problema, já que muitos dos sites onde ocorrem essas práticas não as condenam e não buscam maneiras efetivas de coibir essas atitudes. Também ocorrem casos em que marcas, de todos os tamanhos e alcances, acabam tendo seus anúncios veiculados em sites ou páginas que contêm conteúdo falso ou preconceituoso. Isso se dá tanto pelo algoritmo utilizado por mecanismos de pesquisas, como o Google, que publicam as propagandas e pop-ups em sites sem realizar uma filtragem prévia quanto pela falta de monitoramento por parte das empresas anunciantes.

Temendo as consequências do problema – e o limitado poder da internet de contê-lo com seus mecanismos de regulação –, grupos ativistas foram criados com o objetivo de trazer à tona essa questão. Em uma tentativa de conscientizar as marcas de que anunciar em páginas com esse tipo de conteúdo não é uma prática rentável e benéfica para a sociedade, o movimento Stop Hate for Profit (SHFP) foi formado nos Estados Unidos. Tendo como objetivo principal a denúncia de empresas que se mantinham caladas após ter publicações expostas, aos poucos o movimento foi migrando para diversos países com a colaboração de ativistas que aderiram à causa. Lançando comunicados e posts nas redes sociais, o grupo conseguiu atingir certa notoriedade, mas só após iniciar campanhas de boicote contra várias marcas multinacionais, sendo a de maior repercussão a do Facebook, que o SHFP alcançou um número expressivo de internautas. Atualmente, mais 1.100 de diversos segmentos, instituições não lucrativas e inúmeros consumidores apoiam o movimento.

O boicote contra o Facebook passou de uma ameaça e se tornou realidade. A campanha se iniciou após a rede social se recusar a apagar um post do presidente estadunidense, Donald Trump, em que o estadista pregava discurso de ódio contra minorias, mas atingiu seu ápice após o assassinato de George Floyd, homem negro que foi brutalmente morto por um oficial de polícia branco, gerando diversas manifestações antirracistas pelos EUA. Segundo os organizadores do movimento, a rede permitiu a incitação de violência contra os manifestantes e cedeu espaço a notícias falsas que tinham como objetivo enfraquecer e deslegitimar os protestos. Depois disso várias multinacionais começaram a ceder à pressão feita pelo movimento, como a Coca- Cola, Vans, Microsoft, Puma, Reebok e Unilever. O   boicote causou a perda de US$ 75 bilhões no valor da companhia, como resultado da desvalorização de suas ações. Após diversas tentativas de diálogo, o Facebook finalmente cedeu e atendeu às exigências dos grupos ativistas, comprometendo-se a realizar uma filtragem minuciosa em todas as postagens feitas na plataforma, a fim de coibir o discurso de ódio e a disseminação de Fake News.

Para o professor da PUC-SP Claudir Segura, doutor em processos cognitivos em ambientes digitais, mestre em design e education leader da Adobe no Brasil, o posicionamento de uma marca perante essas situações nunca pode ser de isenção;

“Como empresa se porta é de uma importância fundamental já que as coisas runs se replicam mais rápido do que as atitudes positivas feitas e veiculadas por essas marcas. As pessoas não ficam quietas com algo errado, elas sempre buscam o culpado por aquela atitude de alguma forma. Então quem trabalha no marketing de imagem dessas marcas sempre deve se perguntar ‘estamos fazendo algo de errado? ’”

Ele cita casos em que as marcas de fato conseguem lidar com a pressão por parte dos movimentos ativistas e se recuperam de maneira para ele, correta;

“ O consumidor generaliza a empresa, não busca responsáveis específicos por aquele deslize dentro da corporação. Um exemplo é o Carrefour, onde após uma abordagem completamente indevida e racista a um senhor negro que estava aguardando sua filha retornar da loja para irem embora, a marca começou a sofrer uma ‘onda hater’ por grande parte dos consumidores, tendo impacto negativo no seu faturamento. A solução encontrada foi o posicionamento público. Posicionamento de aprendizado. Não demitiram o segurança, mas o enviaram para uma oficina de reciclagem de profissionais para que fosse conscientizado sobre questões sociais e não cometesse os mesmos erros, além de se posicionar ao lado da família vítima do racismo, oferecendo auxilio jurídico e moral”.