No acumulado entre janeiro e julho de 2026, a dívida ultrapassou os R$ 78 bilhões
por
Renata Lopes
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16/09/2026 - 12h

A dívida pública brasileira voltou a subir e atingiu o maior patamar nos últimos cinco anos, com mais de R$78 bilhões no acumulado entre janeiro e julho deste ano.

A dívida pública é o estoque de débitos de responsabilidade do setor público, ou seja, é o saldo total de compromissos financeiros que o Estado precisa pagar. Ela é medida de várias maneiras, entre elas podemos destacar: a dívida pública federal, a estadual, municipal, a dívida de estatais e a dívida consolidada do setor público. 

Para José Geraldo Portugal Júnior, professor de economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a alta se dá pela soma do estoque de dívidas referente a anos anteriores mais o volume das novas contraídas em 2025.

Essa é a maior dívida bruta, ou seja, o valor total da dívida, já registrada desde que aumentaram os gastos para enfrentar a pandemia de COVID-19. Nos meses de junho e julho de 2026, o endividamento do setor público cresceu mais de R$100 bilhões e chegou a R$10,9 trilhões, isso quer dizer que a dívida do primeiro semestre de 2026 se somou com o estoque de dívidas preexistentes que gera esse valor. 

Esse resultado é equivalente a 82,5% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, isso significa que a dívida cresceu a tal ponto que o Brasil teria de pegar o PIB de dez dos doze meses do ano para quitá-la. 

A dívida pública afeta desse jeito o PIB porque quanto mais a dívida fica alta, mais os juros aumentam e quanto mais esses juros aumentam mais baixo vai ser o crescimento econômico. 

Para o professor Portugal a dívida não só reflete a administração do atual governo, para ele nenhum dos governos foi capaz de dar ao país um regime fiscal sustentável.

“Os gastos são realizados de maneira pouco eficiente e acentuam a desigualdade já enorme da sociedade brasileira”, afirma ele

De 2023 a 2026, a trajetória da dívida cresceu mais de onze pontos percentuais. Esse endividamento acontece quando o dinheiro arrecadado com os impostos não são o suficiente para pagar as despesas.

Sem o dinheiro em caixa, o governo é obrigado a pegar mais dinheiro emprestado a um juros mais alto. A consequência disso é o comprometimento do Orçamento Público com despesas financeiras.

Mesmo com o registro de superávit primário de R$1,4 bilhão pelo setor público, a dívida ainda assim aumentou. 

O professor também comenta que a questão fiscal estará no centro da agenda de 2027. “O governo, qualquer que seja ele, terá que decidir entre cortar privilégios ou cortar gastos sociais. O caminho que será adotado indicará a matriz político-ideológica do governo”, explica. 

E ainda diz como esse assunto pode ser usado para palanque político, tanto do governo quanto da oposição: “ Pela oposição, o discurso eleitoral virá sob a forma de crítica ao governo por não promover o ajuste fiscal. Mas nada falam da herança fiscal deixada quando estavam no poder."

Já pelo governo, o professor explica que o discurso será duplo, de um lado exibir os efeitos das medidas tomadas (taxa das blusinhas, fim da escala 6X1) e de outro tentar convencer aos credores que a dívida se resolve no ano que vem.

Um dos maiores problemas de se ter uma dívida pública alta para o Professor Portugal é a taxa de juros, já que esta também fica alta pois o risco percebido pelos investidores é maior. 

Para Portugal, ter uma taxa de juros alta inibe os investimentos já que nem todos terão o retorno esperado que sejam superiores ao rendimento com juros e também, para ele, encarecem o crédito que financiam esses investimentos, sendo assim cai o emprego, a renda e o consumo.

Por isso, segundo Portugal não se pode falar que o Brasil está em pé de igualdade perante a outros países do G20.

“Temos que ter cuidado com comparações. Um exemplo é o Japão, com endividamento extremo (dívida 2,5 vezes o PIB) mas financia sua dívida com juros básicos de 1% ao ano. O Brasil tem relação dívida/PIB de 86% e a taxa de juros básica está em 14% ao ano”, completa.

Para o professor, uma das maneiras do Estado reduzir a sua dívida pública é aumentar receitas, ou seja, impostos, o que resulta na diminuição de despesas, segundo ele, inclusive as com juros.

Reforma tributária prevê devolução de impostos para famílias cadastradas no CadÚnico
por
João Moura
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22/05/2026 - 12h

Para os brasileiros com baixa renda, cada compra no mercado carrega um peso invisível: o imposto embutido no preço dos alimentos, do sabão, do gás de cozinha. Um fardo silencioso que consome parte significativa de uma renda já escassa. A reforma tributária trouxe uma proposta para aliviar esse peso. A devolução de impostos prevista no novo sistema reacendeu o debate sobre o papel do cashback tributário no combate à desigualdade social. A ideia é devolver parte dos tributos pagos no consumo para famílias de baixa renda cadastradas no CadÚnico.

A economista Juliana Inhaz,, em entrevista à AGEMT, vê potencial na proposta, sobretudo pela promessa de simplificar o sistema tributário brasileiro e dar mais transparência aos impostos cobrados em produtos e serviços. "A reforma traz um sistema mais simples e mais transparente. As pessoas vão saber o quanto estão pagando de imposto, e isso pode fazer com que elas passem a prestar mais atenção nesse aspecto", afirma.

Hoje, poucos percebem. A falta de clareza sobre a carga tributária faz com que a maior parte dos brasileiros não note o quanto paga de imposto a cada ida ao supermercado. "Talvez a pessoa olhe para um produto simples e perceba que há um valor elevado de imposto embutido ali. Isso pode gerar uma conscientização maior sobre tributação e cidadania fiscal", diz Juliana.

O potencial existe. Mas os limites também. A especialista ressalta que o impacto da medida dependerá diretamente da forma como a política será implementada. "Se o modelo funcionar apenas como uma devolução proporcional ao consumo, famílias de baixa renda tendem a receber muito pouco, porque consomem menos", explica. A saída, segundo ela, está no desenho do sistema. Para que o cashback seja efetivamente redistributivo, parte dos tributos arrecadados de consumidores de maior renda precisaria ser revertida para as famílias mais vulneráveis. "O impacto pode ser favorável se houver redistribuição. Caso contrário, o efeito tende a ser pequeno", afirma.

Há ainda outro obstáculo, menos visível, mas igualmente concreto: o acesso digital. Muitos brasileiros ainda enfrentam dificuldades para navegar em plataformas governamentais e acessar benefícios financeiros. "Muita gente tem dificuldade para acessar sistemas digitais, fazer login e entender os processos necessários para solicitar benefícios como, por exemplo, acesso ao Gov.Br. Isso acaba afastando parte da população", avalia.

E mesmo que o acesso seja garantido, o cashback, sozinho, não resolve o que é estrutural. "O que realmente melhora a vida das famílias é aumento de renda, produtividade, qualificação profissional e crescimento econômico. Sem isso, mesmo com benefícios, o poder de compra continua comprometido", explica Juliana. Ainda assim, ela enxerga no novo modelo uma oportunidade além da devolução financeira: a de engajar o consumidor na fiscalização tributária e ampliar a formalização da economia. "Quando o consumidor entende que pode receber algum retorno, ele tende a exigir mais transparência nas transações. Isso ajuda a reduzir a informalidade e a evasão fiscal", conclui

Parcelados para sobreviver: como o endividamento virou rotina entre as famílias brasileiras
por
Eduarda Amaral
Wildner Félix
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22/05/2026 - 12h

No Brasil, parcelar deixou de ser uma escolha pontual. Virou rotina. Da compra do mercado ao remédio na farmácia, o crédito ocupa um espaço cada vez maior no orçamento das famílias e transforma a dívida em estratégia de sobrevivência. Atualmente, 80,2% das famílias brasileiras convivem com algum tipo de débito, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), o maior índice registrado desde 2010. O cartão de crédito é a principal modalidade de dívida, seguido pelos carnês de lojas. Confira os principais dados desta reportagem no nosso carrossel do Instagram. 

Grafico sobre as principais modalidades da dívida brasileira
Principais modalidade de dívida - Arte: Eduarda Amaral/Canva

Cerca de 29% das famílias estão inadimplentes, com contas atrasadas há mais de três meses, e 12% afirmam não ter condições de pagar esses débitos. Em um cenário de juros altos, renda baixa e aumento do custo de vida, o crédito deixou de ser acesso ao consumo supérfluo e passou a sustentar despesas básicas. 

A dívida no Brasil não nasce do desejo. Ela nasce da carência. O país terminou 2024 com quase 82 milhões de pessoas que não conseguiram pagar as contas em dia, o maior patamar desde 2012, segundo dados do Banco Central. Desde o encerramento da primeira fase do programa Desenrola, em julho de 2023, foram 9 milhões de novos inadimplentes e para boa parte dessas famílias, o endividamento não foi uma escolha impulsiva, mas um mecanismo de sobrevivência. 

"A dívida das famílias brasileiras tem caráter estrutural, baseada na má distribuição de renda e no monopólio das grandes redes na distribuição de alimentos e itens essenciais", afirma Paulo Romaro, professor de finanças da PUC-SP. "O crédito fácil não é a causa: é a solução disponível para as famílias de baixa renda. Quando os itens de primeira necessidade pesam no orçamento ou quando algum membro perde sua renda, o endividamento via crédito é a saída disponível.”

Essa engrenagem foi investigada de perto pelo geógrafo Kauê Lopes dos Santos, professor da Unicamp, entrevistado no episódio "Parcelados e endividados no Brasil" do podcast Café da Manhã. Em seu livro Parcelado: dinâmicas de consumo na periferia, resultado de 150 entrevistas em bairros como Brasilândia e Jardim Helena em São Paulo, argumenta que o crédito não é apenas um facilitador do consumo. É um modo de gerir a escassez. 

Enquanto o Estado e o mercado falham em oferecer saneamento e transporte de qualidade, as grandes redes de varejo são onipresentes. A compra parcelada se torna o motor de um ciclo que nunca se encerra: a publicidade estimula o desejo, a obsolescência dos produtos reduz seu tempo de vida e a sobreposição de parcelas compromete a renda de forma contínua, mês após mês. 

O geógrafo chama esse fenômeno de endividamento crônico. "Tudo aqui foi comprado parcelado", resumiu Maria do Carmo, uma de suas entrevistadas, que se orgulhava de uma TV de 43 polegadas mesmo vivendo em uma casa com marcas de umidade e rachaduras nas paredes, um retrato fiel da modernização do consumo que coexiste, sem contradição aparente, com a precariedade estrutural.

A ausência de educação financeira agrava o cenário, mas Romaro é preciso ao delimitar seu papel: "A população não consegue avaliar a situação em que vai se meter." Ainda assim, o economista ressalta que ela seria fundamental em um contexto diferente. "Se o indivíduo soubesse avaliar as opções de onde buscar os recursos necessários e mais adequados para a sua situação, seria muito bom", pondera, sobretudo diante de juros estratosféricos, como os do rotativo do cartão de crédito, que podem ultrapassar 400% ao ano.

Somam-se ainda as bets: "os jogos de azar em profusão viciam, causando um problema endêmico de saúde pública", aponta o professor. Os efeitos se espalham pela vida cotidiana. "Como pagar a mensalidade da escola do filho? Como pagar o aluguel em atraso? O impacto na saúde mental e nas relações é natural que aconteça." 

O endividamento no país tem um recorte racial claro. Pessoas pretas e pardas concentram os maiores índices de insegurança alimentar, moradia precária e informalidade. O rendimento médio dos negros é 40% inferior ao dos não negros diferença que persiste em 32% mesmo entre quem tem ensino superior, segundo o DIEESE. Quando a crise chega para essa parcela da população, o cartão de crédito passa a ser a última linha de defesa para colocar comida na mesa.

No entanto, esse recurso voltado para a baixa renda é também o mais caro, transformando o socorro emergencial em armadilha estrutural. Em Parcelado, o autor mostra que a população pobre e negra, antes excluída do consumo, está hoje subordinada ao capital financeiro. Essa inclusão, celebrada como conquista social, revelou seu lado sombrio nas periferias: a dívida chegou antes da infraestrutura e do saneamento, capturando uma demanda reprimida por décadas.

Com milhões de brasileiros negativados, o governo federal tem apostado em programas de renegociação de dívidas para conter a inadimplência e aliviar o orçamento doméstico. Entre as principais iniciativas recentes estão o Desenrola Brasil e a sua nova versão, o Desenrola 2.0, criados para fechar acordos de pagamentos e devolver o poder de compra à população.

Lançado em maio de 2026, o Desenrola 2.0 incentiva brasileiros com renda de até cinco salários mínimos e que possuem dívidas atrasadas entre 90 dias e dois anos. A medida oferece descontos de até 90% do valor total e permite o uso de até 20% do saldo do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para quitar débitos.

No entanto, para ter direito aos benefícios do programa, o participante não pode comprometer sua renda com apostas digitais pelo período de um ano, um alerta ao comportamento recente da população que tem intensificado o cenário de endividamento no país. 

Ainda assim, Kauê Lopes é direto sobre os limites da iniciativa e afirma que essas políticas têm caráter momentâneo e não resolvem a estrutura do endividamento crônico no Brasil. “Você pode até resolver uma circunstância particular num determinado momento, mas a tendência é que isso volte mais para frente”, explica.

O endividamento, portanto, não é um dado neutro: ele tem cor, endereço e nome. E enquanto o debate político se concentra em medidas paliativas, a raiz do problema permanece intacta. Para Romaro, o combate ao endividamento exige mais do que renegociação de dívidas ou educação financeira. Enquanto parte significativa da população permanecer próxima da linha da sobrevivência, o crédito continuará funcionando como extensão da renda. A saída, segundo ele, passa por distribuição de renda, empregos de melhor qualidade e políticas de desenvolvimento econômico.

Enquanto plataformas ultra-rápidas dominam o mercado, a manufatura tradicional enfrenta o desafio de sobreviver
por
Victória Miranda
Ana Julia Mira
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22/05/2026 - 12h

A ascensão da inteligência artificial (IA) redefiniu o varejo de moda, elevando o fast fashion ao patamar de 'ultra-rápido'. Marcas como a Shein lideram essa revolução ao utilizarem sistemas proprietários que decodificam tendências de redes sociais e comportamentos de influenciadores, transformando dados em coleções físicas em apenas cinco a sete dias. Diferente do modelo tradicional — baseado em  previsões sazonais e produções em massa — o machine learning (processo de usar dados e algoritmos para ensinar computadores a identificar padrões e tomar decisões) permite a fabricação de lotes precisos (100 a 200 unidades), o que minimiza o risco de estoques parados e garante um ajuste em tempo real à demanda. Esse ecossistema, que já diminui a relevância de gigantes tradicionais como a H&M e domina o consumo da Geração Z. Projetam movimentar US$ 388,5 bilhões (aproximadamente R$1,93 trilhão) até 2034. Esse predomínio econômico consolida um abismo em relação ao slow fashion, que luta para promover o consumo consciente em um cenário onde o algoritmo prioriza a gratificação instantânea e preços agressivos.

O descarte pode gerar um aumento para o consumidor na hora do pagamento
por
Júlio Antônio Poças Pinto
Gabriel Flores
Theo Fratucci
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21/05/2026 - 12h

Segundo pesquisa da "Food Agriculture Organization of the United Nations (FAO)", Organização para a Alimentação e a Agricultura, 28% das perdas/desperdícios de alimentos orgânicos acontecem no estágio de consumo (famílias, restaurantes etc.), que é o final da cadeia, quando viram lixo. Essa problemática do descarte de alimentos por conta do descuido com a matéria prima da comida, gera bastantes transtornos tanto do ponto de vista econômico como do social. O Brasil, por exemplo, descarta mais do que o necessário para neutralizar a insegurança alimentar no país.  O diretor da Embrapa no Tocantins, especialista no assunto, Roberto Manolio Valladão Flores, em entrevista à AGEMT, esclarece nosso entendimento sobre o lixo orgânico no Brasil. Assista aqui. 

Contingente de desempregados aumentou 2 milhões em um ano, chegando a 15,2 milhões; desalento e subocupação também disparam
por
Rafaele Oliveira
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04/06/2021 - 12h

A taxa de desemprego chegou a 14,7% em março de 2021, o que significa uma alta de 2,5 pontos percentuais (p.p) quando comparado ao mesmo período do ano anterior, no início da pandemia de Covid-19. Os indicadores foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no dia 27 de maio e fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua. 

Considerada em termos mensais – conforme a metodologia do pesquisador Marcos Hecksher, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) –, a taxa de desemprego atingiu  15,1% em março, maior do que o registrado no mesmo mês de 2020 (12,8%). De acordo com o Ipea, anulando os efeitos sazonais, a taxa de desemprego passou de 14,3%, em fevereiro, para 14,8%, em março.

taxa de desocupação e população ocupada
Taxa de desocupação e população ocupada no período entre março de 2012 e março de 2021.
Gráficos retirados da Carta de Conjuntura 51 | Nota 19 | 2˚ trimestre de 2021
 

O Brasil possuía, em março de 2021, 15,2 milhões de desempregados, um aumento de 15,1% em relação a março de 2020 (13,2 milhões). Já a população ocupada era de 85,6 milhões, representando uma queda de 4,8% em comparação ao mesmo mês do ano passado (89,9 milhões), quando o início da pandemia já vinha reduzindo os postos de trabalho. 

As estimativas mensais para a Pnad Contínua constam da Carta de Conjuntura número 51 do Ipea, em relatório sobre o mercado de trabalho assinado por Marcos Hecksher e Maria Andreia Parente Lameiras, técnicos de Planejamento  e Pesquisa da Diretoria de Estudos e Políticas Macroeconômicas da instituição.   

População desocupada, subocupada e desalentada

Considera-se desocupada a pessoa com idade para trabalhar que não está trabalhando, mas encontra-se disponível e à procura de trabalho. Rogério dos Santos perdeu o emprego como vendedor de uma loja de conveniência em agosto de 2020. Desde então, busca uma recolocação. “Está difícil arrumar um emprego, ainda mais na minha idade. Eu faço alguns bicos para conseguir pagar as contas, mas todo mês eu tenho medo de não conseguir o suficiente”, conta.

Rogério faz parte de uma parcela da população que entrou na categoria de subocupados por insuficiência de horas trabalhadas, ou seja, trabalhadores que têm uma jornada de trabalho inferior a 40 horas semanais, mas gostariam de trabalhar mais horas e estão disponíveis. Conforme dados do IBGE, o número de subocupados no trimestre móvel de janeiro  a março  de 2021 foi de 7 milhões de pessoas, crescendo 8,7% em relação ao mesmo trimestre de 2020.

Ainda há a força de trabalho potencial, que engloba duas categorias: primeira, os que não estão empregados, nem procuraram emprego recentemente, mas estariam disponíveis para trabalhar e, segunda, os que procuraram trabalho, mas não estavam disponíveis na semana de referência. Da soma desses três grupos origina-se a taxa composta de subutilização, cujo total foi de 29,7% no trimestre  encerrado em março, crescendo 0,9 p.p. frente ao trimestre móvel anterior (28,7%) e  5,3 p.p em comparação com o mesmo trimestre de 2020 (24,4%). 

Por fim, a população desalentada inclui pessoas que gostariam de trabalhar e estariam disponíveis, porém não procuraram trabalho por acharem que não encontrariam. O número de desalentados no trimestre móvel de janeiro a março de 2021 foi de 6 milhões, um recorde da série histórica iniciada em 2012, crescendo 25,1% ante o mesmo período de 2020.

O que está por trás das altas taxas de desemprego?

A crise econômica, iniciada em 2014, abriu feridas no mercado de trabalho, que até hoje não cicatrizaram. A redução dos investimentos em vários setores levou empresas a produzir menos e demitir parte de seus funcionários. O reflexo disso está na diminuição do consumo de bens e serviços, resultando em um encolhimento da economia no país. 

O professor de economia da FMU Marcos Henrique do Espírito Santo explica que o alto índice de desemprego é uma questão estrutural. “O desemprego alto é motivado por vários fatores, entre eles, uma desaceleração da economia nacional, que começa com as manifestações de 2013, depois piora com a Lava Jato. Desde então, a gente está nesse marasmo de altas taxas de desemprego, com investimento que não decola e com uma péssima confiança em relação ao futuro.” 

O futuro do mercado de trabalho no Brasil

Especialistas não estão otimistas quanto às perspectivas para o desemprego no Brasil. Segundo Marcos Henrique, além dos 15 milhões de desocupados, há outros 6 milhões de desalentados que, quando voltarem a procurar emprego, irão aumentar a taxa de desemprego.

A previsão é de que, a partir do segundo semestre, a atividade econômica comece a aumentar um pouco. “A perspectiva é que essa taxa de desemprego possa vir a cair, de 14,7% para 13%, algo assim”, estima o professor. Para ele, o setor de serviços, principal afetado pela pandemia, também é o que pode se recuperar mais rápido, à medida que as restrições vão terminando. Até mesmo categorias menos prejudicadas, como construção civil e agropecuária, ainda estão muito longe do período anterior à crise sanitária.

Qual é a solução?

Os estudiosos entendem que é preciso pensar em um novo plano econômico, com o objetivo de aumentar o investimento. “Derrubar o teto de gastos e discutir o tripé macroeconômico, além de reordenar tudo isso em um plano nacional que inclua empregos e investimento de alta tecnologia, é fundamental para que o Brasil recupere o ciclo de crescimento e, portanto, consiga derrubar de maneira estrutural essas taxas de desemprego tão altas”, finaliza Marcos Henrique.

Referência nacional, principalmente em vestuário infantojuvenil, bairro paulistano vê fechamento de lojas em meio a queda no movimento
por
Filipe Saochuk
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03/06/2021 - 12h

“O Arnesto nos convidou para um samba, ele mora lá no Brás.” Este é um trecho do icônico samba de Adoniran Barbosa chamado “Samba do Arnesto”, que conta a história de um desencontro entre amigos  no bairro do Brás. Eternizado na voz de Adoniran, o tradicional distrito do centro de São Paulo é um dos principais pontos de comércio da maior cidade da América Latina.

No início do século 20, o Brás se tornou um ponto de referência da comunidade italiana em terras tupiniquins, que deixavam a Europa para buscar uma vida melhor no Brasil através da imigração. O bairro iniciava nesta época o seu processo de industrialização, do qual  seria o carro-chefe da região.

Porém, após a Segunda Grande Guerra, com um aumento da industrialização em São Paulo, a cidade  passa a atrair muita mão de obra das regiões rurais do país. Com isso, as estações de trem do Brás começam a receber muitas famílias nordestinas que decidiram se mudar para o Sudeste, e uma comunidade que tinha predominantemente italianos  se torna também um ponto de referência da cultura do Nordeste, em pleno  centro da cidade de São Paulo.

Com o passar das décadas, o  bairro do Brás se tornou não apenas uma região de muita cultura na capital, mas, principalmente, de muita força econômica. Majoritariamente, a indústria e o comércio de confecções em atacado e varejo são as principais atividades do bairro, sobretudo de roupas infantojuvenis. Em avenidas como Rangel Pestana e Celso Garcia, a comercialização de produtos populares, como na Avenida 25 de Março, é muito comum e atrai centenas de milhares de pessoas que passam pela região todos os dias. Ou melhor, passavam…

Antes do início da pandemia de Covid-19, mais de 400 mil pessoas passavam pelas ruas do Brás diariamente. Ao todo, eram 4 mil lojas fixadas na região e 8 mil boxes, que geram  mais de 600 mil empregos  diretos e indiretos, como informou Juliana Munaro, em matéria publicada em maio de 2020 no portal G1.

Em 2019, a Secretaria Especial de Comunicação da Cidade de São Paulo divulgou que o bairro do Brás lidera a capital paulista em número de microempreendedores, com um total de 8 mil pessoas, ficando à frente de outros importantes bairros para a economia paulista, como a Bela Vista, com 7.404, Pinheiros (6.988), Vila Mariana (5.982) e Americanópolis (4.949).

Ainda sobre os dados divulgados pela Secretaria Especial de Comunicação da Cidade de São Paulo, em 2019 o Brás já tinha mais de dez shoppings em funcionamento. Cada vez mais os comerciantes querem se afastar do trabalho informal e se aproximar do formal, sendo que mais de 42 mil microempreendedores da capital estavam no meio do comércio varejista de roupas, representando 6% do total de São Paulo. Entre 2014 e 2019, 66 mil pessoas iniciaram um empreendimento neste ramo.

Uma boa parte destes trabalhadores que abriram seus negócios estão localizados no Brás, demonstrando toda a importância que o bairro  tem não apenas no setor de produção e comercialização de roupas e acessórios, mas também em toda a economia da cidade.

A lojista Maria Valéria Veríssimo, dona de um comércio de roupas infantojuvenis em Campinas, comentou um pouco de sua experiência com o bairro do Brás e como a região movimentava pessoas e dinheiro antes da pandemia.

“Procurávamos ir para o Brás às segundas-feiras de manhã, para tentar evitar o movimento do bairro, que era muito grande. O comércio do Brás não atende apenas lojistas de São Paulo, costumava ver ônibus com comerciantes de outros estados, como Minas Gerais, Mato Grosso… todos indo atrás de uma boa oferta em variedade e preços, sendo um ‘paraíso das roupas’, não apenas no atacado, mas também no varejo.”

No quesito valores, Maria Valéria conta  quanto costumava investir em novas peças para sua loja, confirmando que o movimento do bairro não se refere apenas a pessoas, mas principalmente a cifras.

“Diversas vezes já fomos ao Brás para renovar nosso estoque, em praticamente todas as mudanças de coleção. A cada ida, eram pelo menos R$ 20 mil em novas roupas, sendo que algumas vezes os gastos chegaram na casa dos R$ 50 mil.  Tratava-se apenas de uma empresa, agora, se pensarmos em todos os clientes e comerciantes que passam e gastam por lá todos os dias, imagine o quanto de dinheiro que o Brás não gera e movimenta? Não à toa é um dos principais pontos de comércio, não apenas de São Paulo, mas do Brasil.”

Porém, ao final do primeiro trimestre de 2020, essa realidade acabou ficando no passado, e o Brás já não era mais o mesmo, nos mais diversos quesitos. Com a pandemia, o movimento, que era tão intenso, foi repentinamente zerado. O dinheiro que o comércio movimentava já não corria mais e tanto aqueles que precisavam vender, quanto os que precisavam comprar, foram diretamente afetados.

“Logo no início da pandemia, fomos impedidos de comprar no Brás. As lojas costumam ser lotadas, e aglomeração é o que não falta. As incertezas sobre a pandemia e o tempo que levaria até que o mercado pudesse operar normalmente fizeram com que as empresas optassem por não investir em novas peças, o que prejudicou e muito não apenas fornecedores do Brás, mas do país como um todo”,  comentou Valéria.

Com o ápice da pandemia, muitas lojas entraram para o mundo do e-commerce e conseguiram, ainda que não da mesma maneira, vender seus produtos. Porém, para muitos comerciantes e estabelecimentos, quando as atividades presenciais começaram a ser retomadas, já era tarde demais.

“Quando iniciou o processo de reabertura do Brás, percebemos um número muito grande não apenas de lojas, mas também de fábricas, que encerraram suas atividades. É realmente muito triste, porque vemos o desemprego aumentar cada vez mais, em um mercado que, antes de tudo isso, crescia muito, estava em verdadeira ascensão. Já os que conseguiram se manter tiveram uma alta nos preços, por conta de uma oferta menor, e uma necessidade de compensar o que foi perdido durante a paralisação. A pandemia só gerou perdas para o ramo, tanto para quem compra, quanto para quem vende”,  completou Maria Valéria Veríssimo.

Mesmo após alguns meses com o comércio funcionando, o bairro  seguiu extremamente afetado. Movimento reduzido, menor variedade, preços elevados… Até que em março deste ano, com o agravamento dos casos de Covid em São Paulo, foi decretado um novo fechamento total dos serviços não essenciais, o que inclui o comércio. Por mais de um mês, as ruas do Brás voltaram a se esvaziar, e, depois de dar um pequeno passo em direção à normalidade, a região voltou a andar para trás.

Em 19 de abril, o primeiro dia após a reabertura do comércio, o tradicional bairro voltou a ter suas ruas preenchidas de ambulantes e clientes, que foram às compras desde a madrugada. A tendência é que, com o tempo, a situação no Brás vá se normalizando, sendo algo longe do imediato.

Os danos causados pela pandemia foram profundos, e o comércio no bairro  continua sendo afetado. Muitas empresas e fábricas faliram, lojistas não conseguiram mais realizar compras para renovar seus estoques, os preços subiram e a oferta de produtos diminuiu. Assim como em outros aspectos da sociedade, o Brás terá que se adaptar a uma nova realidade para poder voltar a ser uma das grandes forças da economia paulista o quanto antes.

A pandemia e o isolamento social potencializaram um mercado que há tempos deixou de ser promessa para se tornar uma lucrativa realidade
por
Geovanna Hora
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02/06/2021 - 12h

A indústria dos jogos eletrônicos é, de longe, a maior do entretenimento mundial. Somente em 2020, o setor registrou um crescimento de 19% em relação ao ano anterior e um faturamento superior aos US$ 174 bilhões, de acordo com dados da empresa Newzoo, especialista em análises sobre o mercado dos games. Para efeitos de comparação, no mesmo período, o cinema apresentou uma queda de 72% e uma receita de apenas US$ 12 bilhões, segundo informações da consultoria americana ComScore.

Os resultados de 2020 foram afetados pela pandemia de Covid-19, que levou a maior parte dos setores a registrar queda no faturamento. Mas, enquanto as outras áreas do entretenimento sofriam com as medidas restritivas adotadas, os jogos eletrônicos foram beneficiados, justamente, pela necessidade de isolamento.

 

75,8% dos gamers afirmaram jogar mais durante o período de isolamento social
75,8% dos gamers afirmaram jogar mais durante o período de isolamento social. | Imagem: Freepik/Mego-Studio​​​​

 

“Esse período trouxe uma mudança positiva para o setor, pois à medida que as pessoas passam mais tempo em casa, a quantidade de horas gastas jogando aumenta muito, independentemente da plataforma”, analisa Renato Ramos, coordenador do curso de Jogos Digitais na PUC-SP e sócio fundador das empresas de desenvolvimento de games T4 Interactive e QUByte Interactive. 

A afirmação de Ramos está em sintonia com os resultados apresentados pela 8ª Pesquisa Game Brasil (PGB) – o mais importante levantamento anual sobre o consumo de jogos eletrônicos, divulgado em 2021. De acordo com a PGB, 75,8% dos gamers afirmaram jogar mais durante o período de isolamento social. A pesquisa apontou ainda que 72% da população brasileira joga algum game e 42,2% dos entrevistados disseram que investiram mais dinheiro em jogos nessa época.

 

O contato virtual como alternativa para o isolamento 

 

O game “Animal Crossing: New Horizons”, da Nintendo, lançado em março de 2020, é uma prova de que as pessoas passaram a considerar o mundo dos jogos virtuais um refúgio para a realidade. Neste game, o jogador precisa criar um personagem para viver em uma ilha deserta e explorar o local, com a possibilidade de convidar amigos para jogarem juntos e interagirem em tempo real.

Segundo dados apresentados pelo portal de games americano Polygon, menos de dois meses após o lançamento, o título já havia vendido 13 milhões de unidades e, em novembro, ultrapassou a marca de 26 milhões de cópias vendidas, o que o tornou o segundo game mais comercializado da história do Nintendo Switch – mais recente console da empresa japonesa, lançado em 2017.

O crescimento alcançado pela indústria de games já é surpreendente, mas esses números podem se tornar ainda mais expressivos com a rápida expansão do setor. Segundo previsões feitas pela Newzoo, este mercado deve ultrapassar a marca de US$ 200 bilhões em receitas até o ano de 2023. “A expectativa para a indústria dos jogos eletrônicos é enorme em qualquer área, mas principalmente nos setores de treinamento e educacional”, aponta Ramos.

 

O mercado de trabalho no mundo dos games 

 

Com a constante alta no faturamento, a indústria de jogos eletrônicos passou a ser responsável por gerar cada vez mais empregos. Só nos Estados Unidos, em 2019, cerca de 429 mil pessoas trabalhavam na área, segundo dados da Associação de Software de Entretenimento (ESA, na sigla em inglês), organização norte-americana especializada no mercado de games.

Já no Brasil, entre os anos de 2015 e 2018, a quantidade de vagas oferecidas por esse setor atingiu alta de 73%, de acordo com a plataforma de buscas de empregos Indeed. O crescimento alcançado desde o começo da pandemia provocou um novo aumento na demanda por profissionais da área, o que permitiu que muitas pessoas unissem a paixão pelos games à necessidade de trabalhar.

O gamer Arthur Silva, conhecido como Apeste, é um exemplo. Apesar de participar de competições profissionais desde 2012, somente em 2021 o paulista assinou o seu primeiro contrato como profissional da área. Agora ele faz parte do elenco do São Paulo de Pro Evolution Soccer (PES), jogo de futebol virtual que está entre os mais vendidos no Brasil.

“No geral, esse período foi positivo para os gamers, porque os patrocinadores e os clubes oficiais começaram a enxergar os e-sports como uma saída para atrair o público e vender o seu produto”, afirma Apeste. “Para alguns, essa foi a única saída para conseguir uma renda, já que muitas pessoas perderam os seus empregos tradicionais”, completa o gamer.

 

Arthur e Babi
A esquerda, Arthur Silva, o Apeste, e a  direita, Babi Micheletto | Imagem: Instagram/Reprodução. 

 

Para a narradora de jogos eletrônicos Babi Micheletto, essa época representou uma transformação na sua trajetória. Ela pensou em desistir do mundo dos games e voltar a trabalhar como educadora física, sua profissão de formação, mas, no início da pandemia, recebeu um convite para integrar a equipe de narradores da Gaulês TV, um dos maiores canais da plataforma de streaming Twitch, o que alavancou a sua carreira.

“Eu trabalho somente com a narração e vivo disso, com direito a todos os benefícios que um trabalhador de uma área tradicional tem'', conta Babi, que atualmente é contratada da equipe Case Esports. “Apesar de todo o desastre causado pela pandemia, o ano de 2020 foi o que mais impactou o meu trabalho, com oportunidades únicas, como ir para Dubai cobrir um campeonato mundial”, completa a narradora.

 

Após subir 8,48% no primeiro trimestre, moeda norte-americana começou a recuar em abril e deve fechar o ano em R$ 5,30
por
Luiza Nascimento
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01/06/2021 - 12h

A pesquisa Focus do Banco Central atualizou, na sexta-feira (28/5), as projeções do mercado financeiro para o dólar no fim do ano. Pela terceira semana seguida, as expectativas ficaram em R$ 5,30, confirmando a aposta numa estabilização da moeda americana, que subiu 8,48% no primeiro trimestre, caiu 3,49% em abril e, em maio, vem registrando nova queda (1,84% até o dia 25).  A previsão para 2022, no entanto, segue com o dólar equivalente a R$ 5,40 e caindo nos próximos anos, com uma estimativa de R$ 5,10 em 2024. Esses valores, contudo, sofrerão mudanças e podem aumentar ou diminuir conforme o mercado se desenvolva.

O dólar possui uma previsão ainda incerta dentro do mercado brasileiro. | Foto: Freepik.

 

Previsão do dólar é incerta, mas sua tendência é de queda

Após um aumento de 29,36% em 2020, com um valor de câmbio maior que R$ 5 desde junho do ano passado, o dólar possui um futuro incerto no Brasil.

A pandemia do novo coronavírus, a CPI da Covid-19, a instabilidade política entre outros fatores, atuam como pêndulos para o câmbio. Cada ocasião influencia na cotação do real, que pode subir ou descer frente à moeda norte-americana.

O câmbio, entretanto, está agora em um período de queda, com uma previsão que indica valores menores do que os registrados nos últimos dois meses. O dólar começou 2021 negociado a R$ 5,18 e atingiu a máxima do ano no dia 9 de março, quando chegou a R$ 5,79. Em 25 de maio, a moeda norte-americana fechou cotada a R$ 5,33, acumulando alta de 2,89% desde janeiro. 

Especialistas atribuíram a recuperação do real nos últimos dois meses à aprovação do orçamento de 2021 e ao maior otimismo com a economia global. Segundo o analista Luiz Otávio Fonseca, da empresa Suzano, outro fator que contribuiu para a queda do dólar foram os aumentos da taxa básica de juros pelo Banco Central no Brasil. Apesar disso, ele observa que o atual patamar do câmbio ainda reflete a percepção de risco dos investidores em relação a aplicações em reais.

 “O mercado como um todo tem entendido que os patamares de R$ 5,50 para o dólar embutem um certo prêmio de risco dado o momento econômico brasileiro vindo das indefinições sobre algumas pautas referentes ao orçamento federal e, por isto, há uma expectativa de que o dólar perca valor frente ao real nos próximos meses. Aliado a isto, o Banco Central deve continuar o exercício de aumento nas taxas referenciais de juros para ajudar a conter a inflação mais alta gerada pelo ambiente de incentivo econômico que vinha desde o ano passado. Combinando esses dois fatores, a expectativa é que haja uma redução do nível de câmbio, embora o câmbio tenha em si um componente de alta volatilidade e sensibilidade a notícias que nunca deve ser deixado de lado”, avalia Otávio.

Outro fator determinante para o comportamento do câmbio nas últimas semanas é a inflação estadunidense. Uma possível alta gerou queda nas principais bolsas de valores do mundo, contribuindo para a valorização de outras moedas em relação ao dólar.

 Como funciona a previsão de câmbio para o dólar?

Quando questionado sobre a previsão para o dólar e o real, utilizando como base uma fala do ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre a instabilidade da moeda norte-americana ser algo corriqueiro, Luiz Otávio explica como funciona essa análise de câmbio.

“As teorias de câmbio que mostram mais aderência aos dados reais são a teoria da paridade do poder de compra e a teoria da paridade da taxa de juros coberta. A primeira tem muita aderência no longo prazo e diz que uma moeda atrelada a um país com inflação mais alta que a moeda de referência (o dólar) vai no tempo se desvalorizar pelo diferencial das inflações. A segunda teoria tem mais aderência no curto prazo e não permite arbitragem (ganho sem risco) e diz que moedas com uma taxa de juros mais alta se depreciaram em relação à moeda de referência pela diferença entre essas taxas de juros.”

Segundo o analista, na situação atual do mercado, ambas as teorias indicam a queda do dólar. Ele cita ainda novos fatores que corroboram essa tendência.

“Para ambos os casos, de fato há uma expectativa para que a tendência seja do dólar se valorizar frente ao real ao longo do tempo pela menor inflação e taxas de juros dos EUA, indicadores típicos que uma economia mais madura que a nossa. Além disso, o câmbio apresenta uma volatilidade histórica de 15% ao ano que faz com que movimentos bruscos como os vistos no último ano não sejam de forma alguma algo raro. Portanto, o aumento de dois desvios-padrão, duas vezes a volatilidade citada, é algo que, apesar de ter impactos significativos, não deixa de ser algo relativamente esperado.”

De acordo com o analista, apesar do desafio de prever níveis de câmbio, o aumento das taxas de juros brasileiras deve atrair mais capital internacional no curto prazo, ajudando a reduzir os patamares atuais. Além disso, a redução de incertezas sobre questões fiscais deve reduzir a visão de risco dos investidores, colaborando com essa tendência de redução do valor do dólar. Para o longo prazo, depois desta “normalização”, porém, uma alta deve ser esperada devido à teoria da paridade do poder de compra.

Outras previsões

Além de analistas, instituições financeiras, como bancos, acompanham o câmbio no mercado brasileiro. O Itaú manteve sua previsão, realizada no final de 2020, para o dólar até o término de 2021 e 2022 de, respectivamente, R$ 5,30 e R$ 5,50. O banco leva em consideração a segunda onda do novo coronavírus no país e seu arrefecimento em meio às campanhas de vacinação contra a doença. A instituição, entretanto, afirma que ainda há riscos em relação à pandemia, como um novo colapso nos sistemas de saúde e consequências das novas variantes.

Enquanto as previsões de analistas brasileiros apontam uma futura valorização do real, o banco francês Société Générale Bertrand Delgado tem outro prognóstico.

Segundo seus analistas, em relatório divulgado no dia 05/05, o dólar poderá encerrar o ano em R$ 6. Sua previsão para o decorrer do ano difere das estimativas apontadas pelo Boletim Focus. O banco francês aponta que o dólar fechará em R$ 5,50 em junho e em R$ 5,80 até o final de setembro. O Banco Central, por sua vez, indica queda do valor até o fim do ano e, após isso, estabilidade.

Medidas de contenção da Covid-19 derrubam vendas e geram onda de demissões; 30% fecharam definitivamente
por
Anna Carolina Ferreira
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01/06/2021 - 12h

“O cinto está cada vez mais apertado. Não sei o quanto ainda aguentaremos”, desabafa André Sarkissian Tucci, proprietário da Brinquedos Beija-Flor, uma das 4.800 lojas que funcionam na região da 25 de Março. A angústia de André é a mesma de muitos comerciantes locais, que vivem momentos de incertezas desde março de 2020, quando o comércio fechou em função do avanço do coronavírus.

A assessora-executiva da União dos Lojistas da Rua 25 de Março e Adjacências (Univinco), Claudia Hurias, expõe que os meses de paralisação e a diminuição de consumidores no local provocaram uma queda de 68% nas vendas em 2020. Até antes de a pandemia se instaurar, o comércio da 25 de Março contava com 40 mil funcionários e atendia um público diário de 400 mil pessoas – chegando a 1 milhão em fins de semana e datas especiais. No entanto, a assessora afirma que, desde então, 30% dos estabelecimentos fecharam as portas definitivamente, provocando 15 mil demissões.

                                                                                                                                       

Ladeira Porto Geral vazia em decorrência do fechamento do comércio
Fechamento do comércio da 25 de Março provoca instabilidade para os comerciantes e funcionários (Imagem: Rovena Rosa/Agência Brasil)

O quadro é mais preocupante ao se levar em conta que esses comerciantes ainda sofriam consequências de uma turbulenta recuperação financeira. Isso porque o mercado da 25 de Março ainda não tinha se reerguido por completo da crise de 2015 – ano em que o faturamento caiu de R$ 13 bilhões para R$ 8 bilhões, em consequência do colapso na economia nacional. O crescimento anual era baixo e a situação econômica não oferecia muita segurança para os lojistas. “Antes da pandemia, as vendas já andavam ruins, já estávamos tendo que diminuir o número de funcionários”, relembra André.

Os primeiros meses de adaptação à nova realidade geraram grandes prejuízos para os comerciantes. Mesmo com a retração nas vendas - que chegaram a cair 85% durante o primeiro fechamento -, os comerciantes precisavam arcar com os custos dos estabelecimentos. As contas de água e luz, os impostos, as taxas de funcionamento, o aluguel e o salário dos funcionários continuaram sendo cobrados, mas com a redução do capital embolsado as despesas não conseguiam ser pagas.

André conta que para tentar reverter o prejuízo passou a investir nas vendas online. “Como a loja estava fechada, eu trouxe muitos produtos aqui para casa, para fornecer a quem encomendasse. Nesse período, a casa ficou lotada de mercadoria”, lembra, descrevendo uma confusão de pacotes que não poupava nem mesmo o banheirinho de serviço.

Assim como André, muitos outros comerciantes da região também recorreram ao comércio digital. Para quem já possuía a estrutura de e-commerce, as vendas online corresponderam de 5% a 15% dos negócios. Já os menos familiarizados, precisaram se adaptar rapidamente com a comercialização através das redes sociais. Apesar disso, esses recursos não supriam as grandes perdas obtidas com a falta das vendas físicas. “Mesmo trabalhando com serviços online, muitos não conseguiram permanecer abertos, levando à falência” relata Claudia.

Em junho passado houve a primeira reabertura do comércio - seguindo todos os protocolos de segurança sanitária -, porém, com o descontrole da pandemia, já foram necessários novos períodos de fechamento. Tal instabilidade e o medo da contaminação desanimam os consumidores a frequentarem a 25 de Março. Por isso, mesmo com a reabertura, o faturamento continua encolhendo. “Desde que reabrimos, no ano passado, o movimento está muito fraco. Apenas em outubro, por conta dos artigos de Halloween, tivemos um aumento nas vendas. O período de festas juninas era o mais lucrativo em minha loja, porém ano passado não teve festas e pelo visto este ano também não”, conta André.

Nesse cenário tão desanimador e com o futuro do país tão incerto - seja pela pandemia ou pela instabilidade da economia no setor de serviços - é difícil fazer projeções, no entanto Claudia faz um breve balanço. “O forte da 25 é o atacado, se o comerciante não vende ele não compra para abastecer e todos perdem. Se este cenário econômico não mudar, se a vacina não acelerar, o comercio será o setor mais afetado e teremos muitos CNPJ encerrados até acabar este ano. Dependemos de ações governamentais para projetar algo e infelizmente não temos isso”.