Reforma tributária prevê devolução de impostos para famílias cadastradas no CadÚnico
por
João Moura
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22/05/2026 - 12h

Para os brasileiros com baixa renda, cada compra no mercado carrega um peso invisível: o imposto embutido no preço dos alimentos, do sabão, do gás de cozinha. Um fardo silencioso que consome parte significativa de uma renda já escassa. A reforma tributária trouxe uma proposta para aliviar esse peso. A devolução de impostos prevista no novo sistema reacendeu o debate sobre o papel do cashback tributário no combate à desigualdade social. A ideia é devolver parte dos tributos pagos no consumo para famílias de baixa renda cadastradas no CadÚnico.

A economista Juliana Inhaz,, em entrevista à AGEMT, vê potencial na proposta, sobretudo pela promessa de simplificar o sistema tributário brasileiro e dar mais transparência aos impostos cobrados em produtos e serviços. "A reforma traz um sistema mais simples e mais transparente. As pessoas vão saber o quanto estão pagando de imposto, e isso pode fazer com que elas passem a prestar mais atenção nesse aspecto", afirma.

Hoje, poucos percebem. A falta de clareza sobre a carga tributária faz com que a maior parte dos brasileiros não note o quanto paga de imposto a cada ida ao supermercado. "Talvez a pessoa olhe para um produto simples e perceba que há um valor elevado de imposto embutido ali. Isso pode gerar uma conscientização maior sobre tributação e cidadania fiscal", diz Juliana.

O potencial existe. Mas os limites também. A especialista ressalta que o impacto da medida dependerá diretamente da forma como a política será implementada. "Se o modelo funcionar apenas como uma devolução proporcional ao consumo, famílias de baixa renda tendem a receber muito pouco, porque consomem menos", explica. A saída, segundo ela, está no desenho do sistema. Para que o cashback seja efetivamente redistributivo, parte dos tributos arrecadados de consumidores de maior renda precisaria ser revertida para as famílias mais vulneráveis. "O impacto pode ser favorável se houver redistribuição. Caso contrário, o efeito tende a ser pequeno", afirma.

Há ainda outro obstáculo, menos visível, mas igualmente concreto: o acesso digital. Muitos brasileiros ainda enfrentam dificuldades para navegar em plataformas governamentais e acessar benefícios financeiros. "Muita gente tem dificuldade para acessar sistemas digitais, fazer login e entender os processos necessários para solicitar benefícios como, por exemplo, acesso ao Gov.Br. Isso acaba afastando parte da população", avalia.

E mesmo que o acesso seja garantido, o cashback, sozinho, não resolve o que é estrutural. "O que realmente melhora a vida das famílias é aumento de renda, produtividade, qualificação profissional e crescimento econômico. Sem isso, mesmo com benefícios, o poder de compra continua comprometido", explica Juliana. Ainda assim, ela enxerga no novo modelo uma oportunidade além da devolução financeira: a de engajar o consumidor na fiscalização tributária e ampliar a formalização da economia. "Quando o consumidor entende que pode receber algum retorno, ele tende a exigir mais transparência nas transações. Isso ajuda a reduzir a informalidade e a evasão fiscal", conclui

Parcelados para sobreviver: como o endividamento virou rotina entre as famílias brasileiras
por
Eduarda Amaral
Wildner Félix
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22/05/2026 - 12h

No Brasil, parcelar deixou de ser uma escolha pontual. Virou rotina. Da compra do mercado ao remédio na farmácia, o crédito ocupa um espaço cada vez maior no orçamento das famílias e transforma a dívida em estratégia de sobrevivência. Atualmente, 80,2% das famílias brasileiras convivem com algum tipo de débito, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), o maior índice registrado desde 2010. O cartão de crédito é a principal modalidade de dívida, seguido pelos carnês de lojas. Confira os principais dados desta reportagem no nosso carrossel do Instagram. 

Grafico sobre as principais modalidades da dívida brasileira
Principais modalidade de dívida - Arte: Eduarda Amaral/Canva

Cerca de 29% das famílias estão inadimplentes, com contas atrasadas há mais de três meses, e 12% afirmam não ter condições de pagar esses débitos. Em um cenário de juros altos, renda baixa e aumento do custo de vida, o crédito deixou de ser acesso ao consumo supérfluo e passou a sustentar despesas básicas. 

A dívida no Brasil não nasce do desejo. Ela nasce da carência. O país terminou 2024 com quase 82 milhões de pessoas que não conseguiram pagar as contas em dia, o maior patamar desde 2012, segundo dados do Banco Central. Desde o encerramento da primeira fase do programa Desenrola, em julho de 2023, foram 9 milhões de novos inadimplentes e para boa parte dessas famílias, o endividamento não foi uma escolha impulsiva, mas um mecanismo de sobrevivência. 

"A dívida das famílias brasileiras tem caráter estrutural, baseada na má distribuição de renda e no monopólio das grandes redes na distribuição de alimentos e itens essenciais", afirma Paulo Romaro, professor de finanças da PUC-SP. "O crédito fácil não é a causa: é a solução disponível para as famílias de baixa renda. Quando os itens de primeira necessidade pesam no orçamento ou quando algum membro perde sua renda, o endividamento via crédito é a saída disponível.”

Essa engrenagem foi investigada de perto pelo geógrafo Kauê Lopes dos Santos, professor da Unicamp, entrevistado no episódio "Parcelados e endividados no Brasil" do podcast Café da Manhã. Em seu livro Parcelado: dinâmicas de consumo na periferia, resultado de 150 entrevistas em bairros como Brasilândia e Jardim Helena em São Paulo, argumenta que o crédito não é apenas um facilitador do consumo. É um modo de gerir a escassez. 

Enquanto o Estado e o mercado falham em oferecer saneamento e transporte de qualidade, as grandes redes de varejo são onipresentes. A compra parcelada se torna o motor de um ciclo que nunca se encerra: a publicidade estimula o desejo, a obsolescência dos produtos reduz seu tempo de vida e a sobreposição de parcelas compromete a renda de forma contínua, mês após mês. 

O geógrafo chama esse fenômeno de endividamento crônico. "Tudo aqui foi comprado parcelado", resumiu Maria do Carmo, uma de suas entrevistadas, que se orgulhava de uma TV de 43 polegadas mesmo vivendo em uma casa com marcas de umidade e rachaduras nas paredes, um retrato fiel da modernização do consumo que coexiste, sem contradição aparente, com a precariedade estrutural.

A ausência de educação financeira agrava o cenário, mas Romaro é preciso ao delimitar seu papel: "A população não consegue avaliar a situação em que vai se meter." Ainda assim, o economista ressalta que ela seria fundamental em um contexto diferente. "Se o indivíduo soubesse avaliar as opções de onde buscar os recursos necessários e mais adequados para a sua situação, seria muito bom", pondera, sobretudo diante de juros estratosféricos, como os do rotativo do cartão de crédito, que podem ultrapassar 400% ao ano.

Somam-se ainda as bets: "os jogos de azar em profusão viciam, causando um problema endêmico de saúde pública", aponta o professor. Os efeitos se espalham pela vida cotidiana. "Como pagar a mensalidade da escola do filho? Como pagar o aluguel em atraso? O impacto na saúde mental e nas relações é natural que aconteça." 

O endividamento no país tem um recorte racial claro. Pessoas pretas e pardas concentram os maiores índices de insegurança alimentar, moradia precária e informalidade. O rendimento médio dos negros é 40% inferior ao dos não negros diferença que persiste em 32% mesmo entre quem tem ensino superior, segundo o DIEESE. Quando a crise chega para essa parcela da população, o cartão de crédito passa a ser a última linha de defesa para colocar comida na mesa.

No entanto, esse recurso voltado para a baixa renda é também o mais caro, transformando o socorro emergencial em armadilha estrutural. Em Parcelado, o autor mostra que a população pobre e negra, antes excluída do consumo, está hoje subordinada ao capital financeiro. Essa inclusão, celebrada como conquista social, revelou seu lado sombrio nas periferias: a dívida chegou antes da infraestrutura e do saneamento, capturando uma demanda reprimida por décadas.

Com milhões de brasileiros negativados, o governo federal tem apostado em programas de renegociação de dívidas para conter a inadimplência e aliviar o orçamento doméstico. Entre as principais iniciativas recentes estão o Desenrola Brasil e a sua nova versão, o Desenrola 2.0, criados para fechar acordos de pagamentos e devolver o poder de compra à população.

Lançado em maio de 2026, o Desenrola 2.0 incentiva brasileiros com renda de até cinco salários mínimos e que possuem dívidas atrasadas entre 90 dias e dois anos. A medida oferece descontos de até 90% do valor total e permite o uso de até 20% do saldo do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para quitar débitos.

No entanto, para ter direito aos benefícios do programa, o participante não pode comprometer sua renda com apostas digitais pelo período de um ano, um alerta ao comportamento recente da população que tem intensificado o cenário de endividamento no país. 

Ainda assim, Kauê Lopes é direto sobre os limites da iniciativa e afirma que essas políticas têm caráter momentâneo e não resolvem a estrutura do endividamento crônico no Brasil. “Você pode até resolver uma circunstância particular num determinado momento, mas a tendência é que isso volte mais para frente”, explica.

O endividamento, portanto, não é um dado neutro: ele tem cor, endereço e nome. E enquanto o debate político se concentra em medidas paliativas, a raiz do problema permanece intacta. Para Romaro, o combate ao endividamento exige mais do que renegociação de dívidas ou educação financeira. Enquanto parte significativa da população permanecer próxima da linha da sobrevivência, o crédito continuará funcionando como extensão da renda. A saída, segundo ele, passa por distribuição de renda, empregos de melhor qualidade e políticas de desenvolvimento econômico.

Enquanto plataformas ultra-rápidas dominam o mercado, a manufatura tradicional enfrenta o desafio de sobreviver
por
Victória Miranda
Ana Julia Mira
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22/05/2026 - 12h

A ascensão da inteligência artificial (IA) redefiniu o varejo de moda, elevando o fast fashion ao patamar de 'ultra-rápido'. Marcas como a Shein lideram essa revolução ao utilizarem sistemas proprietários que decodificam tendências de redes sociais e comportamentos de influenciadores, transformando dados em coleções físicas em apenas cinco a sete dias. Diferente do modelo tradicional — baseado em  previsões sazonais e produções em massa — o machine learning (processo de usar dados e algoritmos para ensinar computadores a identificar padrões e tomar decisões) permite a fabricação de lotes precisos (100 a 200 unidades), o que minimiza o risco de estoques parados e garante um ajuste em tempo real à demanda. Esse ecossistema, que já diminui a relevância de gigantes tradicionais como a H&M e domina o consumo da Geração Z. Projetam movimentar US$ 388,5 bilhões (aproximadamente R$1,93 trilhão) até 2034. Esse predomínio econômico consolida um abismo em relação ao slow fashion, que luta para promover o consumo consciente em um cenário onde o algoritmo prioriza a gratificação instantânea e preços agressivos.

O descarte pode gerar um aumento para o consumidor na hora do pagamento
por
Júlio Antônio Poças Pinto
Gabriel Flores
Theo Fratucci
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21/05/2026 - 12h

Segundo pesquisa da "Food Agriculture Organization of the United Nations (FAO)", Organização para a Alimentação e a Agricultura, 28% das perdas/desperdícios de alimentos orgânicos acontecem no estágio de consumo (famílias, restaurantes etc.), que é o final da cadeia, quando viram lixo. Essa problemática do descarte de alimentos por conta do descuido com a matéria prima da comida, gera bastantes transtornos tanto do ponto de vista econômico como do social. O Brasil, por exemplo, descarta mais do que o necessário para neutralizar a insegurança alimentar no país.  O diretor da Embrapa no Tocantins, especialista no assunto, Roberto Manolio Valladão Flores, em entrevista à AGEMT, esclarece nosso entendimento sobre o lixo orgânico no Brasil. Assista aqui. 

Alta do petróleo afeta marcas que buscam estratégias para evitar o repasse imediato ao consumidor
por
Laura Petroucic
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21/05/2026 - 12h

Os conflitos no Oriente Médio vêm provocando impactos em diferentes setores da economia mundial, como combustíveis, alimentos e transporte. Um dos segmentos que muitas vezes fica de fora do debate é a indústria da moda. O aumento no preço do petróleo impacta diretamente toda a cadeia de produção têxtil em um mercado marcado pela inflação e pela dependência de importações. A designer Brenda Saad Santos Guimarães, em entrevista à AGEMT, comenta sobre os esforços de marcas para reduzir os impactos da alta nos custos de produção: “Sempre é possível definir estratégias antes de mudar o valor final, como entender o que pode ter um custo menor, características do produto que podem ser mais simples para que caiba no orçamento, número de peças produzidas, onde serão distribuídas ou até mesmo reduzir a margem de lucro no produto para manter a constância de vendas”, diz Brenda.

Justamente por causa dessas estratégias que, muitas vezes, esse aumento pode passar despercebido pelo consumidor final, ao menos em um primeiro momento. No caso do algodão, os conflitos afetam o combustível utilizado em máquinas agrícolas, o transporte de mercadorias, fertilizantes e até o funcionamento da indústria responsável por transformar a fibra em tecido. Já com as fibras sintéticas, como poliéster, nylon e acrílico, o impacto é ainda mais direto: esses materiais são derivados do petróleo. Segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), há relatos de aumentos de até 40% no poliéster desde o início do conflito. Além de matéria-prima mais cara, o setor também enfrenta dificuldades logísticas. Com o Estreito de Ormuz sendo uma das áreas mais instáveis e afetadas, rotas marítimas foram alteradas por questões de segurança, resultando em custos de frete elevados. Brenda nota que o aumento foi constante nos últimos anos. “Fatores como guerras, eleições ou altas repentinas de demanda por conta de tendências influenciam na porcentagem desse aumento”, explica. Para ela, a oscilação da economia global já faz parte da rotina da moda, principalmente em um mercado dependente de importações.

O impacto é ainda maior para pequenas marcas que não podem se dar ao luxo de cortar lucros para manter vendas. A designer destaca que a cadeia têxtil brasileira perdeu força nacionalmente, abrindo mais espaço para materiais importados, o que dificulta ainda mais produtores independentes. “Por exemplo, pedidos mínimos de certos materiais que às vezes são mais do que uma marca independente pode investir. Os planejamentos das marcas precisam trabalhar com antecedência e criar acordos que garantam precauções para situações como inflação absurda ou uma nova pandemia”, afirma.

Apesar das tentativas, o consumo de roupas tende a cair em períodos de inflação, que não é considerado essencial como alimentação ou transporte. Uma alternativa nestes momentos são as fast fashions de plataformas internacionais, como a SHEIN, chinesa, que são de pior qualidade mas dificultam a competição por preço. 
“É um momento de duas balanças, dois pesos. Tem muita coisa sendo produzida, muita coisa sendo consumida, aumento do preço de venda, instabilidade do preço de produção”, resume Brenda, que acredita que estamos em um momento de grande transformação em vários pilares da moda, e que só serão compreendidos em sua totalidade quando estivermos afastados disso. 
 

Diferentes estratégias de vendas adotadas pelos produtores, como delivery e e-commerce, e a adoção do cultivo de plantas como hobby pelos brasileiros, ajudaram alta no setor
por
Ana Vitória Marcelino Borges
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28/06/2021 - 12h

A jardinagem está se tornando um dos mais novos e promissores setores da agricultura brasileira na pandemia. Plantas e flores estão se tornando cada vez mais um objeto de conforto para as pessoas que se veem presas dentro de casa nesta pandemia. Este novo hobby proporciona uma sensação de conforto e paz para os consumidores, além de deixar suas casas mais bonitas e aconchegantes. Mesmo com a expectativa de baixa no mercado no começo de 2020, o ano ainda fechou com registro de alta para o setor, o que marca um grande interesse do consumidor, e uma boa previsão para os anos seguintes.

Lojistas e produtores vêm surgindo com novas estratégias de venda e distribuição, o que tem sido fundamental para a ascensão desse mercado. Uma das razões para os bons números esperados neste ano. Segundo o Instituto Brasileiro da Floricultura (Ibraflor), essa mudança no perfil do consumidor, agora voltado para a decoração de suas casas, e os novos formatos adotados pelos vendedores, como o delivery e o e-commerce, devem proporcionar um crescimento de 5% no mercado em 2021.

Ainda segundo o Ibraflor, houve um aumento registrado por alguns produtores de até 20% nos negócios. O que acontece é que um crescimento de 5% ainda é pouco considerando os anos anteriores à pandemia. A decaída no setor de festas e eventos fez com que as vendas de flores de corte caíssem consideravelmente, o que deixa os 8.200 produtores da área dependentes majoritariamente da venda de plantas.

Mesmo assim, esse novo interesse pelo plantio e por plantas em geral vem assumindo um papel muito importante na vida do consumidor brasileiro. É o que diz Aline Jorge, dona da loja online Botanismo, criada em 2020, “Nasci na pandemia, mas percebo sim o aumento da procura das pessoas por produtos que possam inspirar mais suas vidas e trazer mais inspiração para o cotidiano, que é um dos objetivos do Botanismo”.

Ela acrescenta que a marca vem crescendo desde o seu nascimento, em setembro de 2020, e que a cada mês a margem de lucro tem aumentado. A loja Botanismo é um e-commerce de objetos inspirados e com temas de plantas e flores, o que explica essa nova atenção do consumidor pelo assunto. Outro meio digital que explora esse interesse são podcasts e blogs botânicos. A PlantaconsCiência, por exemplo, é um blog criado por alunas da Escola Superior de Agricultura Luis de Queiroz (Esalq), que tem como proposta “divulgar ciência para aqueles que não têm acesso direto à academia e também para os próprios cientistas”, segundo matéria no site da Esalq. A própria instituição divulga esse projeto pelo podcast Estação Esalq, que também trata do assunto.

Em entrevista publicada no Jornal da USP, a psicóloga Leila Tardivo explica que “um ambiente agradável é capaz de melhorar o astral” e que “estar num lugar onde se sente bem é superimportante”.

Ao adotar esse hobby, o consumidor brasileiro ajuda no crescimento do setor no Brasil, fazendo com que lojas de plantas tenham uma oportunidade de ficar no mercado durante a pandemia.  O que não significa que tais lojas não tiveram que fazer mudanças para se adequar ao ambiente pandêmico.

”Como no começo da pandemia passamos por algumas dificuldades, fechamos a loja física e começamos a fazer o atendimento por Whatsapp, com a entrega dos produtos feita por delivery” conta Caroline Carvalho, responsável pela comunicação e marketing da loja Selvvva. “No começo da pandemia, foi necessário reduzirmos a equipe e a oferta de produtos e plantas. Posteriormente, alinhamos mês a mês conforme as demandas, e fizemos algumas novas contratações. Com relação aos produtos e plantas, em alguns momentos foi necessário diminuir a quantidade, em outros, fomos surpreendidos pela necessidade de aumento”, acrescenta Caroline.

Ainda assim, esse interesse pelo assunto se manteve alto nas pesquisas durante 2020, de acordo com o Google Trends. Apesar da informação acessível, as dúvidas são muitas entre os leigos. O que faz com que as lojas de plantas e artigos botânicos criem ou adicionem em suas contas no Instagram dicas e artigos de como cuidar, cultivar e plantar cada tipo de planta. Exemplos de contas no Instagram que foram criadas somente para estes propósitos são @plants.be e @prof.cactus.e.suculentas, que ajudam o consumidor a entender o mundo do plantio e, em alguns casos, vendem folhetos e artigos informacionais, sendo assim uma fonte de renda para o dono da conta.

 

Mesmo na pandemia, moeda local em Fortaleza estimula a economia e o crescimento de pequenos negócios
por
Sarah Catherine Seles
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27/06/2021 - 12h

A construção do Banco Palmas em 1998, o primeiro banco comunitário do Brasil, surgiu a partir da necessidade dos moradores do Conjunto Palmeiras, localizado na periferia de Fortaleza. Joaquim Melo, fundador do banco, conta que a urbanização do bairro fez com que o custo de vida aumentasse. “Em meados dos anos 90, quando o bairro foi urbanizado, começaram a chegar conta de água, luz, telefone, IPTU, essas taxas todas, e as famílias mais pobres começaram a vender os barracos e ir morar em outras favelas.”

A pergunta “por que nós somos pobres?” foi o fio condutor para compreender o estilo de vida das pessoas. A maioria das respostas foi: pela falta de dinheiro. Por isso, Melo e alguns companheiros do bairro decidiram realizar uma pesquisa sobre o hábito de consumo das famílias. O Mapa da Produção e do Consumo Local apontou que as compras mensais das famílias somavam R$ 1,2 milhão, com cerca de 25 mil moradores na época. “E se viu que a maioria das pessoas ali, por mais pobres economicamente que fossem, já tinha algum dinheiro circulando, o grande problema é que tudo vinha de fora do bairro”, conta Melo. 

Após analisarem a situação, surgiu a ideia de criar um banco comunitário para que o capital girasse entre os negócios locais. “Começou como um projeto de desenvolvimento local, mas a ideia sempre foi criar um circuito econômico local onde as pessoas pudessem consumir e produzir aqui mesmo”, explica o fundador. 

Um empréstimo inicial de R$ 2 mil da ONG Ceará Periferia deu início ao banco. “E o que a gente tinha era muito simples: um cartão de crédito de papelão que era feito no mimeógrafo. A gente organizou a carteira de crédito e nem tinha computador na época, nem tinha internet, a gente tinha um caderninho para fazer a contabilidade”, lembra. Os empréstimos eram feitos para os moradores, com intuito de incentivar os pequenos negócios do bairro. 

Além disso, a criação da moeda “palmas” foi essencial para que a circulação de dinheiro dentro da comunidade fosse efetiva, sistema que perdura até hoje. “A essência do banco comunitário, a sua natureza e seu maior serviço, é fazer esse dinheiro circular localmente. Quando o dinheiro circula localmente gera trabalho, gera renda. Então a moeda social é o coração da atividade do banco”, explica o empreendedor. 

A iniciativa se popularizou ao longo dos anos e se estruturou como Instituto Banco Palmas, que também oferece cursos profissionalizantes, oficinas e projetos para a comunidade. O banco passou a apoiar a criação de iniciativas similares em outros municípios do Brasil, formando a Rede Brasileira de Bancos Comunitários. “Cada município com seu próprio banco, mas todos foram criados e acompanhados inicialmente pelo Banco Palmas”, conta Melo. Hoje o banco funciona em todo país por meio da plataforma digital E-dinheiro. 

As ações impulsionaram a vida de diversos moradores, reunindo diversas trajetórias de vida junto ao banco. Uma pesquisa da Universidade Federal do Ceará mediu o impacto da iniciativa para os moradores e 90% apontaram melhora na qualidade de vida. “Não é só emprestar o dinheiro, é ajudar as pessoas a se mobilizarem, a se organizarem, a participar da comunidade e criar essa conexão com o bairro, com a vida e com a economia”, diz Melo. 

Katiana Oliveira, 38, moradora do Conjunto Palmeiras desde 1989, é um dos exemplos citados pelo fundador. Ela conheceu o Banco Palmas em 2013, quando precisou de um empréstimo para uso pessoal. Nas idas ao banco para pagar as parcelas, ela soube dos cursos oferecidos e se inscreveu para gastronomia e corte e costura. 

Após as especializações, Katiana participou da Oficina de Educação Financeira, que a ajudou a conquistar sua independência financeira e emocional. “Eu me apaixonei [pela educação financeira] porque comecei a aprender a administrar o dinheiro”, conta. Hoje, além de ser presidente do Centro de Nutrição e coordenadora do Prato Colorido (que oferece os cursos), ela também é assistente social do Banco Palmas. 

"Também participei de uma roda de conversa sobre empoderamento feminino e descobri que sofria violência psicológica e comecei a trabalhar nisso no grupo, me fortalecendo com as minhas colegas”, lembra Katiana. Ela descreve mudanças em todas as áreas de sua vida, tanto em seu ambiente familiar, quanto profissional. 

Então, a empreendedora enxergou potencial dentro da comunidade e desenvolveu projetos, oficinas, cursos e rodas de conversa. Como a Cozinha Delas, criada para auxiliar mulheres que passaram pelas mesmas situações que Katiana. O principal intuito é arrecadar dinheiro para as mulheres da comunidade com a venda dos pratos que aprenderam a fazer nas especializações. Eu não queria sofrer mais nenhum tipo de violência e eu queria que outras mulheres tivessem a oportunidade de superar e criar suas iniciativas e suas ações para sair dessa situação”, conta. 

Durante a pandemia, a desigualdade social foi escancarada e acentuou a fome no país. Por isso, Katiana utilizou seus projetos para lançar a campanha “Bucho Cheinho”.  Ela explica: “A ideia é que ninguém fique com bucho vazio nessa pandemia. Então a gente lançou essa campanha de arrecadação de alimentos, de doação de dinheiro e cesta básica, [sempre] acompanhando as famílias, fazendo monitoramentos, fazendo visitas”. 

Além da alimentação dos brasileiros, o período pandêmico acentuou a crise econômica que o Brasil já enfrentava. A Pesquisa Pulso Empresa, realizada pelo IBGE, mapeia o impacto da Covid-19 nas empresas, realizada em julho de 2020, os negócios representaram mais da metade dos estabelecimentos fechados apenas no primeiro semestre do ano e mais de 716 mil fecharam desde o início da pandemia. 

Os bancos comunitários, no entanto, foram em outra direção. Apesar do impacto sobre os pequenos negócios, houve um aumento nas empresas registradas na plataforma E-Dinheiro. “Por outro lado, os bancos comunitários cresceram na pandemia, pelo fato de serem digitais e estarem presentes na periferia. Nós recebemos muitas doações, tanto do poder público, da prefeitura, como do empresariado”, comenta Joaquim Melo. 

A Rede Brasileira de Bancos Comunitários, em conjunto com os líderes locais, criou contas digitais para os moradores. Com doações de R$ 100 a R$ 200, eles puderam comprar do comércio do próprio bairro, “salvando a vida das pessoas porque tinham o que comer e salvando também as economias locais”, conclui Melo. 

Coletores menstruais, absorventes de pano e calcinhas absorventes ganham espaço como opções mais econômicas e ecológicas
por
Heloisa Tiemi Shibuya
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27/06/2021 - 12h

Embora a menstruação continue sendo um tabu na sociedade, muitas mulheres têm falado abertamente sobre o assunto e comentado sobre terem trocado os absorventes descartáveis convencionais por utensílios mais sustentáveis durante o período menstrual. Dentre eles, estão os coletores menstruais, calcinhas absorventes, absorventes de pano e outros produtos que produzem menos lixo e podem ser usados a longo prazo.

Em uma pesquisa feita pela Agemt em um grupo do Facebook, a maioria das 26 mulheres que responderam disseram que nunca haviam usado coletor menstrual ou calcinha absorvente, entretanto, também manifestaram que têm vontade de experimentar esses produtos.

Quanto às respostas das mulheres que já usavam coletores ou calcinhas absorventes, grande parte delas disseram que sentiam incômodo físico ou alergia quando utilizavam as opções descartáveis. Elas também afirmaram ter economizado ao adquirir os produtos que duram por um longo tempo e não exigem a aquisição mensal, como os absorventes comuns. Além disso, ao final da pesquisa, cerca de 80% das mulheres disseram crer que os coletores menstruais e calcinhas absorventes vão se tornar uma tendência de consumo pela praticidade e sustentabilidade que oferecem.

Bianca Pavanello, estudante de música do Conservatório de Tatuí, decidiu usar o coletor por motivos parecidos aos das entrevistadas pela pesquisa. Ela tem gostado bastante do produto e percebeu que economizou bastante ao adquiri-lo. “Na minha casa três pessoas menstruam, então eram vários pacotes de absorvente todos os meses. Hoje nós reutilizamos e não nos preocupamos em gastar aquela ‘grana’ alta”, conta ela.

Nathalia Silva, que utiliza o seu Instagram para falar um pouco de tudo, mas principalmente de assuntos que envolvem beleza e saúde, diz que comprou o coletor por ter incômodos e alergias na região íntima. Ela conta que a experiência tem sido positiva. “É meio complicado mesmo para colocar, mas é só uma questão de prática e paciência, pois, assim que você consegue, você sequer sente o coletor. É confortável para todas as atividades, eu danço, vou à piscina, durmo sem calcinha, faço exercícios e ele continua ali, no lugar, sem vazar ou manchar roupas.”

As marcas mais procuradas desses produtos são: a Korui, Pantys, Inciclo, Fleurity e Herself. Em reportagem publicada em março desse ano na revista Exame, a Inciclo diz que conseguiu crescer 156% em 2020, contratou 50 funcionários e abriu 600 novos pontos de revenda. A Korui também afirmou que “houve um aumento significativo nas vendas”, em entrevista realizada para a Agemt. A marca também conta que já tem novos produtos em fase de criação, e, depois de abrir uma loja física em São Paulo, pretende expandir para mais locais.

Mesmo a menstruação deixando de ser um tabu entre as pessoas ao longo dos últimos anos, ainda há muitas que não têm acesso ou condições de comprar absorventes internos ou externos, questão chamada pobreza menstrual. Segundo a ONU Mulheres, das 1,8 bilhão de pessoas que menstruam ao redor do mundo, 12,5% delas têm dificuldades em todos os ciclos para obter produtos menstruais, produtos de higiene geral e até mesmo saneamento básico, banheiros próprios, água tratada e educação adequada para saber lidar com o período. Em torno de 1 bilhão de mulheres não possui acesso a um banheiro seguro e limpo e outras 526 milhões não têm sequer um banheiro em casa.

Apesar disso, a menstruação tem sido pauta para questões ambientais que impulsionam a demanda por produtos como coletores e calcinhas absorventes. O aumento das vendas das marcas que fabricam esses produtos mostra uma divulgação maior desses produtos, não apenas pelas marcas, mas também por quem os utiliza. Nathalia fez uma série de stories em seu Instagram falando sobre sua experiência com o coletor menstrual e recebeu diversos feedbacks de pessoas que compraram o produto. “Recebi inúmeras mensagens de meninas que compraram o coletor ou o disco menstrual ou ficaram interessadas em saber mais, o que é muito bom. A partir daí, senti que o que eu levaria para elas deu muito certo, pois é mais do que influenciar a compra de um produto, é adotar um hábito mais benéfico para nossa saúde íntima e assim se conhecer melhor. Fiquei muito feliz”, diz ela.

Imagem da capa: Ilustração de coletores menstruais| Via: Toda Teen - UOL

 

Longe do público e com oportunidades reduzidas, profissionais comemoram prorrogação de auxílio da Lei Aldir Blanc
por
Bruna Janz
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26/06/2021 - 12h

Em março de 2020, quando foi declarada a pandemia do novo coronavírus pela OMS, as aglomerações e os eventos sociais foram suspensos. Em meio ao cenário da crise de saúde brasileira, os profissionais da cultura foram duramente prejudicados, com 458 mil postos de trabalho, tanto formais quanto informais, perdidos ao final do ano passado, em comparação com o último trimestre de 2019, segundo informações do Painel de Dados do Observatório Itaú Cultural.

Antes da pandemia, o segmento cultural, junto com o setor criativo, movimentava cerca de R$ 171,5 bilhões por ano, correspondente a quase 3% da riqueza nacional. A previsão era de que esses segmentos gerassem R$ 43,7 bilhões para o PIB brasileiro até 2021, porem 35% desse valor deixou de ser gerado devido às paralisações causadas pela crise do novo coronavírus, como foi apresentado nos resultados preliminares da pesquisa Percepção dos Impactos da Covid-19 nos Setores Culturais e Criativos do Brasil, divulgados em 29 de abril e feita pela Universidade de São Paulo (USP).

No terceiro trimestre de 2020 que a Lei Aldir Blanc entrou em vigor, prevendo uma renda emergencial de três parcelas de R$ 600 para profissionais da cultura, além de um subsídio mensal de R$ 3 mil a R$10 mil para a manutenção de pequenas empresas, organizações culturais e espaços artísticos que ficaram paralisados.

Também foi disponibilizado um montante de R$ 3 bilhões, repassado pelo governo federal para o pagamento desse auxílio. Porém, segundo o Ministério do Turismo em abril de 2021, 25% desse valor, que corresponde a R$ 773,9 milhões, não foram utilizados nos 120 dias do prazo inicial, permanecendo, assim, nas contas dos Executivos locais.

Esse atraso na utilização da verba destinada aos profissionais da cultura ocorreu devido a irregularidade de diversas regulamentações que deveriam ser feitas por prefeitos e governadores dentro do prazo inicial. Assim, em 21 de abril de 2021, foi aprovado um projeto de lei que reformulou a Lei Aldir Blanc, permitindo aos Estados e Municípios a utilização do saldo remanescente do montante até dia 31 de dezembro.

A prorrogação da lei foi vista como uma vitória por muitos do setor cultural, já que ainda não existe um meio viável para criar ambientes presenciais seguros para muitos segmentos artísticos, e o auxílio permite que muitos profissionais mantenham seus trabalhos. 

O ator, pesquisador e estudante Pitágoras Lemos ressalta que a Lei Aldir Blanc foi sancionada em um momento altamente necessário, porém nada é perfeito. “Para muitas pessoas pode parecer só um ‘legal, ganhei 600 reais’, mas nós (artistas) precisamos continuar trabalhando, e pra isso eu preciso apresentar uma peça, uma dança, uma performance. E eu, que faço teatro, sei lidar com o público, mas não sei lidar com edição de imagem, então eu vou ter que contratar alguém que saiba, e aí esses 600 reais já se transformaram em 500, em 400... Isso é o suficiente para uma compra do mês?”

Compartilhando a mesma visão acerca do auxílio, a dançarina, professora e estudante Deborah Lugli também ressalta que continuar trabalhando não precisa significar um trabalho contínuo ou automático, e sim de forma que seja possível e acessível para cada profissional no meio virtual. “É preciso olhar para o todo, e não apenas para o individual. Então, esses coletivos que se juntaram para repensar o setor cultural devem continuar a se fortalecer, é preciso olhar para o todo”, adiciona.

Porém, os impactos no meio cultural vão muito além das questões financeiras e do auxílio emergencial. A vida longe dos palcos físicos e sem a possibilidade de trocar experiências e sensações com o público dificultam muito o trabalho dos artistas, assim como a diminuição das oportunidades no mercado de trabalho  e a maneira com que o governo tem tratado as questões referentes ao setor. 

“Quando a gente está finalizando a graduação, é um momento complicado, é um momento de caminharmos com as próprias pernas, mas descobrir isso no meio de uma crise sanitária, em um momento que tudo se transformou, é bastante difícil de lidar, porque a cena mudou, e ter estudado a cena presencial e me formar na cena digital nesse período da crise é algo difícil de entender”, aponta Deborah.

Já para Pitágoras, a falta de contato com os espectadores é o principal desafio: “Há a perda da troca, da crítica. O que é apresentar para uma tela? Como é para o público receber isso? Nós não sabemos mais, tudo é mediado pelo computador, não há mais troca física”.

Sem mais a possibilidade de juntar um público, as peças via Zoom, lives no Instagram, exposições virtuais e até ensaios fotográficos via FaceTime explodiram por todo o país, e mesmo entre tantas dificuldades, os artistas ainda veem no cenário digital, uma premissa para o futuro, afirmando que dificilmente haverá o rompimento com o virtual, por já ter se tornado uma camada incorporada à arte, capaz de conectar pessoas de todo o Brasil e do mundo em um único lugar.

Ainda assim, as soluções à distância não são o bastante para manter economicamente os mais de 6 milhões de profissionais que trabalham no segmento cultural, tornando um subsídio do Estado uma necessidade para todo o setor, que deverá ser o último a retomar as atividades presenciais, em razão das medidas sanitárias necessárias para tal acontecimento.

Foto da capa: O ator Luis Carlos Shinoda, fundador do Cangaias Coletivo Teatral. Imagem de divulgação da peça "Na colônia penal", transmitida pelo YouTube. 

 

Com o avanço da vacinação contra o coronavirus, países como EUA querem vacinar seus turistas, mas a que preço?
por
Suzana Rufino e Silvana Luz
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24/06/2021 - 12h

Por Suzana Rufino e Silva Luz

Enquanto o Brasil caminha em passos lentos, países como os Estados Unidos e Rússia entre outros, já pensam em vacinar turistas. A prioridade é vacinar sua população, porém, como o comprovante residencial não está sendo solicitado, muitos estrangeiros, inclusive brasileiros, estão comprando pacotes de viagens rumo a nação estadunidense (o que mais se destaca). No entanto, para o Brasil, há um cumprimento obrigatório de ficar em quarentena no México ou em uma ilha Caribenha antes de ir aos EUA, devido os altos números de óbitos por covid-19. Por esse lado, parece uma questão de organização, dinheiro e lucro, pois para os que têm condições financeiras, só basta comprar um pacote de voo, ficar 15 dias em um país emergente ou ilha, e depois, partir para o destino final, e os que lucram, simplesmente ganham o título de “acolhedor” e “esperto”. O deficit dessa questão, são os quem podem e não podem aderir esse turismo, por que, no caso do Brasil, a maioria da população, hoje, busca o auxilio emergencial para sobreviver, então, percebe-se que, os únicos que podem adquirir o “passaporte da salvação” são os ricos.

Os EUA aceitam turistas para vacinarem, porém, para os brasileiros, a quarentena terá que ser cumprida em um país subdesenvolvido, como o México (o mais optado). E qual a vantagem desse último? Nada, risco de mais contágios e surgimento de novas cepas. Mas o turismo, um dos setores mais atingidos em meio a pandemia, os mexicanos podem lucrar com isso? Não! Pois, será uma estadia sem lazer de 15 dias, com o intuito de observar se o turista não foi contagiado, por que não pode viajar para os Estados Unidos nessas condições “eles querem pessoas sadias, que se vacinam lá e gastem”. Isso mostra o quão o Brasil tem uma governaça precária, pois se não tivesse negado as altas subnotificações de mortes por coronavírus, muitas vidas estariam preservadas. O fator é que não foi só o governo de Jair Bolsonaro que preferiu tapar os olhos para não assistir o colapso de sua má administração em meio a pandemia da covid-19, a população também contribuiu, seus seguidores, principalmente (a maioria) ricos, que até hoje, negam a proporção da doença e defendem o tratamento precoce. As agências de turismo foram as que mais perderam com essa pandemia, e provável, que lucrem com essa empreitada. Porém, lucrar com algo incerto, pois não é certeza que os turistas que comprarem o pacote vão se vacinar, e não se preocupar com o país que recebem essas pessoas para quarentena, não é sensato, é imoral e egoísta.

O publicitário Diego Silvero de 29 anos, mora desde 2002 na Califórnia e conta com olhares atentos, como está sendo a vacinação da população e turistas (brasileiros). “O governo incentiva a vacinação em locais públicos como shoppings e metrôs, e a vacina que está sendo aplicada é a Janssen, a de dose única. O incentivo vem de diversas formas, exemplo, no metrô, o cidadão americano que for vacinado, ganha passagem durante sete dias, pois existem algumas pessoas relutantes em se vacinar, então o governo faz dessa forma para poder incentivar a vacinação, porém isso é restrito a cidadãos. Já para os brasileiros, eles devem fazer uma quarentena de 15 dias  no México ou em alguma ilha Caribenha antes de poder ser vacinado. Todos os brasileiros estão sujeitos a essa quarentena. Situação triste, pois somos vistos como um País que pouco se importa com a crise sanitária e seus cidadãos. Enfim, os Estados Unidos estão descrentes perante a nós”.     

O economista, mestre em economia e professor Marcos Henrique do Espírito Santo, fala sobre a precariedade do Turismo da Vacina. “Uma coisa muito nova que está acontecendo agora que é essa questão do turismo da vacina, que em primeiro lugar, países, como por exemplo, o México ou os caribenhos, que tem servido de quarentena para poder entrar nos Estados Unidos, no meu ponto de vista revela muito mais da nossa miséria e da nossa mediocridade do que propriamente de um negócio. Dada a incompetência do governo brasileiro pensando no nosso caso, dos ricos que podem fazer esse turismo da vacina, pensando na nossa mediocridade na nossa desigualdade gigantesca, os ricos que primeiro trouxeram o vírus para cá, uma parte deles negou a pandemia, forçou a economia abrir, ajudou a fazer um discurso junto com esse presidente negacionista para colocar o povo na rua para trabalhar, e claro para que suas vendas não caíssem, para que seus lucros não caíssem, vão para um país pobre também como o México fazer quarentena, porque os Estados Unidos não são bobos nem nada, eles falam *você fica aí fora um tempinho até poder entrar aqui tomar vacina*. Isso revela o tamanho da miséria que a gente vive, quer dizer, a gente vive um caos completo aqui dentro, meia dúzia de sujeitos com poder aquisitivo altíssimo, saem daqui e vão fazer quarentena em outro país pobre, para depois poder chegar nos Estados Unidos e tomar a vacina. Quer dizer, que no fim a vacina realmente é o que salva vidas, essa gente sempre soube disso, mas fez questão de negar porque colocar os outros para trabalhar em aglomeração é muito mais fácil que a própria vida deles. Então nesse ponto de vista, não vejo vantagem nenhuma para o país que recebe esses turistas ricos, que vão fazer a quarentena. O México por exemplo, também vive um problema não como nosso, mas muito parecido com grau alto de contaminação e que corre um risco sério de ter novas cepas, de misturar esses vírus que estão circulando etc". 

"No ponto de vista comercial, as agências de viagem claro, devem estar conseguindo ganhar alguma coisa tendo em vista que o turismo foi o principal setor atingido, junto com comércio e serviços nessa pandemia, porque fechou tudo, impôs restrição etc., mas eu acho que isso é mais um problema moral, intelectual e da nossa formação mesmo do que uma questão econômica e revela o tamanho do buraco que a gente se meteu. Um governo que não pode se chamar de governo, isso que a gente tem, negou a pandemia propositalmente para reforçar um discurso para os seus apoiadores para manter a sua narrativa com a sua base, arriscou matar quase meio milhão de pessoas, isso se desconsiderar a subnotificação. E agora, essa meia dúzia de ricos que apoiou isso que se chama de governo, que pega o seu bom dinheirinho que vai para os Estados Unidos tomar vacina. Então, isso é uma coisa que não tem como achar legal, é uma questão a meu ver, medíocre nossa brasileira, latino-americana, do ponto de vista financeiro, eu realmente não sei avaliar porque acho que são tão poucos casos que  isso revela muito mais uma a uma questão exótica que é a elite latino-americana, que ter propriamente um impacto econômico efetivo. Acho que é só para rir da nossa cara mesmo mostrar o quão miserável nós somos,  mesmo com o tamanho do SUS, a competência vacinação e a gente não conseguir dar conta disso e permitir que essa gente deite e  role literalmente em cima da nossa desgraça brasileira. Do ponto de vista de problemas que as agências podem ter, eu não vejo nenhum problema elas estão é ganhando dinheiro e aproveitando essa demanda peculiar, eu acho que quem ganha e quem perde são sempre os ricos que ganham e a grande massa sempre perde para os ricos. Daqui a pouco ano que vem os ricos vão apoiar novamente esse governo desde que ele mantenha essa agenda de destruição nacional e por aí vai e vai continuar dessa forma mesmo é uma questão eminentemente política, então a manutenção desta narrativa, apoiada por esses ricos que vão para fora tomar vacina revela quanto medíocre nós somos de maneira geral.