No acumulado entre janeiro e julho de 2026, a dívida ultrapassou os R$ 78 bilhões
por
Renata Lopes
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16/09/2026 - 12h

A dívida pública brasileira voltou a subir e atingiu o maior patamar nos últimos cinco anos, com mais de R$78 bilhões no acumulado entre janeiro e julho deste ano.

A dívida pública é o estoque de débitos de responsabilidade do setor público, ou seja, é o saldo total de compromissos financeiros que o Estado precisa pagar. Ela é medida de várias maneiras, entre elas podemos destacar: a dívida pública federal, a estadual, municipal, a dívida de estatais e a dívida consolidada do setor público. 

Para José Geraldo Portugal Júnior, professor de economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a alta se dá pela soma do estoque de dívidas referente a anos anteriores mais o volume das novas contraídas em 2025.

Essa é a maior dívida bruta, ou seja, o valor total da dívida, já registrada desde que aumentaram os gastos para enfrentar a pandemia de COVID-19. Nos meses de junho e julho de 2026, o endividamento do setor público cresceu mais de R$100 bilhões e chegou a R$10,9 trilhões, isso quer dizer que a dívida do primeiro semestre de 2026 se somou com o estoque de dívidas preexistentes que gera esse valor. 

Esse resultado é equivalente a 82,5% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, isso significa que a dívida cresceu a tal ponto que o Brasil teria de pegar o PIB de dez dos doze meses do ano para quitá-la. 

A dívida pública afeta desse jeito o PIB porque quanto mais a dívida fica alta, mais os juros aumentam e quanto mais esses juros aumentam mais baixo vai ser o crescimento econômico. 

Para o professor Portugal a dívida não só reflete a administração do atual governo, para ele nenhum dos governos foi capaz de dar ao país um regime fiscal sustentável.

“Os gastos são realizados de maneira pouco eficiente e acentuam a desigualdade já enorme da sociedade brasileira”, afirma ele

De 2023 a 2026, a trajetória da dívida cresceu mais de onze pontos percentuais. Esse endividamento acontece quando o dinheiro arrecadado com os impostos não são o suficiente para pagar as despesas.

Sem o dinheiro em caixa, o governo é obrigado a pegar mais dinheiro emprestado a um juros mais alto. A consequência disso é o comprometimento do Orçamento Público com despesas financeiras.

Mesmo com o registro de superávit primário de R$1,4 bilhão pelo setor público, a dívida ainda assim aumentou. 

O professor também comenta que a questão fiscal estará no centro da agenda de 2027. “O governo, qualquer que seja ele, terá que decidir entre cortar privilégios ou cortar gastos sociais. O caminho que será adotado indicará a matriz político-ideológica do governo”, explica. 

E ainda diz como esse assunto pode ser usado para palanque político, tanto do governo quanto da oposição: “ Pela oposição, o discurso eleitoral virá sob a forma de crítica ao governo por não promover o ajuste fiscal. Mas nada falam da herança fiscal deixada quando estavam no poder."

Já pelo governo, o professor explica que o discurso será duplo, de um lado exibir os efeitos das medidas tomadas (taxa das blusinhas, fim da escala 6X1) e de outro tentar convencer aos credores que a dívida se resolve no ano que vem.

Um dos maiores problemas de se ter uma dívida pública alta para o Professor Portugal é a taxa de juros, já que esta também fica alta pois o risco percebido pelos investidores é maior. 

Para Portugal, ter uma taxa de juros alta inibe os investimentos já que nem todos terão o retorno esperado que sejam superiores ao rendimento com juros e também, para ele, encarecem o crédito que financiam esses investimentos, sendo assim cai o emprego, a renda e o consumo.

Por isso, segundo Portugal não se pode falar que o Brasil está em pé de igualdade perante a outros países do G20.

“Temos que ter cuidado com comparações. Um exemplo é o Japão, com endividamento extremo (dívida 2,5 vezes o PIB) mas financia sua dívida com juros básicos de 1% ao ano. O Brasil tem relação dívida/PIB de 86% e a taxa de juros básica está em 14% ao ano”, completa.

Para o professor, uma das maneiras do Estado reduzir a sua dívida pública é aumentar receitas, ou seja, impostos, o que resulta na diminuição de despesas, segundo ele, inclusive as com juros.

Reforma tributária prevê devolução de impostos para famílias cadastradas no CadÚnico
por
João Moura
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22/05/2026 - 12h

Para os brasileiros com baixa renda, cada compra no mercado carrega um peso invisível: o imposto embutido no preço dos alimentos, do sabão, do gás de cozinha. Um fardo silencioso que consome parte significativa de uma renda já escassa. A reforma tributária trouxe uma proposta para aliviar esse peso. A devolução de impostos prevista no novo sistema reacendeu o debate sobre o papel do cashback tributário no combate à desigualdade social. A ideia é devolver parte dos tributos pagos no consumo para famílias de baixa renda cadastradas no CadÚnico.

A economista Juliana Inhaz,, em entrevista à AGEMT, vê potencial na proposta, sobretudo pela promessa de simplificar o sistema tributário brasileiro e dar mais transparência aos impostos cobrados em produtos e serviços. "A reforma traz um sistema mais simples e mais transparente. As pessoas vão saber o quanto estão pagando de imposto, e isso pode fazer com que elas passem a prestar mais atenção nesse aspecto", afirma.

Hoje, poucos percebem. A falta de clareza sobre a carga tributária faz com que a maior parte dos brasileiros não note o quanto paga de imposto a cada ida ao supermercado. "Talvez a pessoa olhe para um produto simples e perceba que há um valor elevado de imposto embutido ali. Isso pode gerar uma conscientização maior sobre tributação e cidadania fiscal", diz Juliana.

O potencial existe. Mas os limites também. A especialista ressalta que o impacto da medida dependerá diretamente da forma como a política será implementada. "Se o modelo funcionar apenas como uma devolução proporcional ao consumo, famílias de baixa renda tendem a receber muito pouco, porque consomem menos", explica. A saída, segundo ela, está no desenho do sistema. Para que o cashback seja efetivamente redistributivo, parte dos tributos arrecadados de consumidores de maior renda precisaria ser revertida para as famílias mais vulneráveis. "O impacto pode ser favorável se houver redistribuição. Caso contrário, o efeito tende a ser pequeno", afirma.

Há ainda outro obstáculo, menos visível, mas igualmente concreto: o acesso digital. Muitos brasileiros ainda enfrentam dificuldades para navegar em plataformas governamentais e acessar benefícios financeiros. "Muita gente tem dificuldade para acessar sistemas digitais, fazer login e entender os processos necessários para solicitar benefícios como, por exemplo, acesso ao Gov.Br. Isso acaba afastando parte da população", avalia.

E mesmo que o acesso seja garantido, o cashback, sozinho, não resolve o que é estrutural. "O que realmente melhora a vida das famílias é aumento de renda, produtividade, qualificação profissional e crescimento econômico. Sem isso, mesmo com benefícios, o poder de compra continua comprometido", explica Juliana. Ainda assim, ela enxerga no novo modelo uma oportunidade além da devolução financeira: a de engajar o consumidor na fiscalização tributária e ampliar a formalização da economia. "Quando o consumidor entende que pode receber algum retorno, ele tende a exigir mais transparência nas transações. Isso ajuda a reduzir a informalidade e a evasão fiscal", conclui

Parcelados para sobreviver: como o endividamento virou rotina entre as famílias brasileiras
por
Eduarda Amaral
Wildner Félix
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22/05/2026 - 12h

No Brasil, parcelar deixou de ser uma escolha pontual. Virou rotina. Da compra do mercado ao remédio na farmácia, o crédito ocupa um espaço cada vez maior no orçamento das famílias e transforma a dívida em estratégia de sobrevivência. Atualmente, 80,2% das famílias brasileiras convivem com algum tipo de débito, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), o maior índice registrado desde 2010. O cartão de crédito é a principal modalidade de dívida, seguido pelos carnês de lojas. Confira os principais dados desta reportagem no nosso carrossel do Instagram. 

Grafico sobre as principais modalidades da dívida brasileira
Principais modalidade de dívida - Arte: Eduarda Amaral/Canva

Cerca de 29% das famílias estão inadimplentes, com contas atrasadas há mais de três meses, e 12% afirmam não ter condições de pagar esses débitos. Em um cenário de juros altos, renda baixa e aumento do custo de vida, o crédito deixou de ser acesso ao consumo supérfluo e passou a sustentar despesas básicas. 

A dívida no Brasil não nasce do desejo. Ela nasce da carência. O país terminou 2024 com quase 82 milhões de pessoas que não conseguiram pagar as contas em dia, o maior patamar desde 2012, segundo dados do Banco Central. Desde o encerramento da primeira fase do programa Desenrola, em julho de 2023, foram 9 milhões de novos inadimplentes e para boa parte dessas famílias, o endividamento não foi uma escolha impulsiva, mas um mecanismo de sobrevivência. 

"A dívida das famílias brasileiras tem caráter estrutural, baseada na má distribuição de renda e no monopólio das grandes redes na distribuição de alimentos e itens essenciais", afirma Paulo Romaro, professor de finanças da PUC-SP. "O crédito fácil não é a causa: é a solução disponível para as famílias de baixa renda. Quando os itens de primeira necessidade pesam no orçamento ou quando algum membro perde sua renda, o endividamento via crédito é a saída disponível.”

Essa engrenagem foi investigada de perto pelo geógrafo Kauê Lopes dos Santos, professor da Unicamp, entrevistado no episódio "Parcelados e endividados no Brasil" do podcast Café da Manhã. Em seu livro Parcelado: dinâmicas de consumo na periferia, resultado de 150 entrevistas em bairros como Brasilândia e Jardim Helena em São Paulo, argumenta que o crédito não é apenas um facilitador do consumo. É um modo de gerir a escassez. 

Enquanto o Estado e o mercado falham em oferecer saneamento e transporte de qualidade, as grandes redes de varejo são onipresentes. A compra parcelada se torna o motor de um ciclo que nunca se encerra: a publicidade estimula o desejo, a obsolescência dos produtos reduz seu tempo de vida e a sobreposição de parcelas compromete a renda de forma contínua, mês após mês. 

O geógrafo chama esse fenômeno de endividamento crônico. "Tudo aqui foi comprado parcelado", resumiu Maria do Carmo, uma de suas entrevistadas, que se orgulhava de uma TV de 43 polegadas mesmo vivendo em uma casa com marcas de umidade e rachaduras nas paredes, um retrato fiel da modernização do consumo que coexiste, sem contradição aparente, com a precariedade estrutural.

A ausência de educação financeira agrava o cenário, mas Romaro é preciso ao delimitar seu papel: "A população não consegue avaliar a situação em que vai se meter." Ainda assim, o economista ressalta que ela seria fundamental em um contexto diferente. "Se o indivíduo soubesse avaliar as opções de onde buscar os recursos necessários e mais adequados para a sua situação, seria muito bom", pondera, sobretudo diante de juros estratosféricos, como os do rotativo do cartão de crédito, que podem ultrapassar 400% ao ano.

Somam-se ainda as bets: "os jogos de azar em profusão viciam, causando um problema endêmico de saúde pública", aponta o professor. Os efeitos se espalham pela vida cotidiana. "Como pagar a mensalidade da escola do filho? Como pagar o aluguel em atraso? O impacto na saúde mental e nas relações é natural que aconteça." 

O endividamento no país tem um recorte racial claro. Pessoas pretas e pardas concentram os maiores índices de insegurança alimentar, moradia precária e informalidade. O rendimento médio dos negros é 40% inferior ao dos não negros diferença que persiste em 32% mesmo entre quem tem ensino superior, segundo o DIEESE. Quando a crise chega para essa parcela da população, o cartão de crédito passa a ser a última linha de defesa para colocar comida na mesa.

No entanto, esse recurso voltado para a baixa renda é também o mais caro, transformando o socorro emergencial em armadilha estrutural. Em Parcelado, o autor mostra que a população pobre e negra, antes excluída do consumo, está hoje subordinada ao capital financeiro. Essa inclusão, celebrada como conquista social, revelou seu lado sombrio nas periferias: a dívida chegou antes da infraestrutura e do saneamento, capturando uma demanda reprimida por décadas.

Com milhões de brasileiros negativados, o governo federal tem apostado em programas de renegociação de dívidas para conter a inadimplência e aliviar o orçamento doméstico. Entre as principais iniciativas recentes estão o Desenrola Brasil e a sua nova versão, o Desenrola 2.0, criados para fechar acordos de pagamentos e devolver o poder de compra à população.

Lançado em maio de 2026, o Desenrola 2.0 incentiva brasileiros com renda de até cinco salários mínimos e que possuem dívidas atrasadas entre 90 dias e dois anos. A medida oferece descontos de até 90% do valor total e permite o uso de até 20% do saldo do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para quitar débitos.

No entanto, para ter direito aos benefícios do programa, o participante não pode comprometer sua renda com apostas digitais pelo período de um ano, um alerta ao comportamento recente da população que tem intensificado o cenário de endividamento no país. 

Ainda assim, Kauê Lopes é direto sobre os limites da iniciativa e afirma que essas políticas têm caráter momentâneo e não resolvem a estrutura do endividamento crônico no Brasil. “Você pode até resolver uma circunstância particular num determinado momento, mas a tendência é que isso volte mais para frente”, explica.

O endividamento, portanto, não é um dado neutro: ele tem cor, endereço e nome. E enquanto o debate político se concentra em medidas paliativas, a raiz do problema permanece intacta. Para Romaro, o combate ao endividamento exige mais do que renegociação de dívidas ou educação financeira. Enquanto parte significativa da população permanecer próxima da linha da sobrevivência, o crédito continuará funcionando como extensão da renda. A saída, segundo ele, passa por distribuição de renda, empregos de melhor qualidade e políticas de desenvolvimento econômico.

Enquanto plataformas ultra-rápidas dominam o mercado, a manufatura tradicional enfrenta o desafio de sobreviver
por
Victória Miranda
Ana Julia Mira
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22/05/2026 - 12h

A ascensão da inteligência artificial (IA) redefiniu o varejo de moda, elevando o fast fashion ao patamar de 'ultra-rápido'. Marcas como a Shein lideram essa revolução ao utilizarem sistemas proprietários que decodificam tendências de redes sociais e comportamentos de influenciadores, transformando dados em coleções físicas em apenas cinco a sete dias. Diferente do modelo tradicional — baseado em  previsões sazonais e produções em massa — o machine learning (processo de usar dados e algoritmos para ensinar computadores a identificar padrões e tomar decisões) permite a fabricação de lotes precisos (100 a 200 unidades), o que minimiza o risco de estoques parados e garante um ajuste em tempo real à demanda. Esse ecossistema, que já diminui a relevância de gigantes tradicionais como a H&M e domina o consumo da Geração Z. Projetam movimentar US$ 388,5 bilhões (aproximadamente R$1,93 trilhão) até 2034. Esse predomínio econômico consolida um abismo em relação ao slow fashion, que luta para promover o consumo consciente em um cenário onde o algoritmo prioriza a gratificação instantânea e preços agressivos.

O descarte pode gerar um aumento para o consumidor na hora do pagamento
por
Júlio Antônio Poças Pinto
Gabriel Flores
Theo Fratucci
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21/05/2026 - 12h

Segundo pesquisa da "Food Agriculture Organization of the United Nations (FAO)", Organização para a Alimentação e a Agricultura, 28% das perdas/desperdícios de alimentos orgânicos acontecem no estágio de consumo (famílias, restaurantes etc.), que é o final da cadeia, quando viram lixo. Essa problemática do descarte de alimentos por conta do descuido com a matéria prima da comida, gera bastantes transtornos tanto do ponto de vista econômico como do social. O Brasil, por exemplo, descarta mais do que o necessário para neutralizar a insegurança alimentar no país.  O diretor da Embrapa no Tocantins, especialista no assunto, Roberto Manolio Valladão Flores, em entrevista à AGEMT, esclarece nosso entendimento sobre o lixo orgânico no Brasil. Assista aqui. 

Crise econômica e sanitária fortalece paradigmas sociais que submetem as mulheres à síndrome da impostora
por
Luíza Feniar Migliosi
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04/07/2021 - 12h
Ilustração: Icons 8 from Ouch!
Ilustração: Icons 8 from Ouch!

A desigualdade de gênero antecede o surgimento da Covid-19, mas a pandemia evidenciou a fragilidade que o mercado de trabalho representa para as mulheres. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgados em abril de 2021, o percentual de mulheres que trabalhavam foi de 45,8% no terceiro trimestre de 2020, aproximando-se do nível mais baixo já registrado desde 1990, que corresponde a 44,2%.

Ao comparar esse trimestre do ano passado com o mesmo período de 2019, que registrava 53,3% na participação, a queda das mulheres no mercado de trabalho foi de 7,5 pontos percentuais. Para os homens, no mesmo período, houve um recuo de 6,1 pontos percentuais – de 71,8% para 65,7%.

A equidade de gênero encontrou uma barreira inconciliável com a pandemia. A segregação ocupacional foi um dos parâmetros mais evidenciados durante esse período. Segundo dados do Ipea, as áreas em que há mais mulheres trabalhando foram as que mais perderam população ocupada. As trabalhadoras femininas estão mais presentes em categorias específicas, como, por exemplo, estética, serviços de limpeza doméstica e empresarial, comércio, turismo e serviços em geral. A divisão na área de atuação reforça os padrões sociais.

A crise sanitária e econômica acentuou as distâncias salariais entre os gêneros. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), realizada pelo IBGE, revelou que, ao ocupar cargos de gerência ou direção, o rendimento médio das mulheres foi de R$ 32,35 por hora em 2020. Para os homens, R$ 45,83. A diferença de R$ 13,48 superou a observada em 2019, que correspondia a R$ 9,21. Os dados também comprovam que os salários inferiores permaneceram para cargos com formação em nível superior, com pagamentos em torno de R$ 5 mil para mulheres e R$ 8 mil para os homens.

Para a psicóloga Fernanda Reis, a sociedade contribui para falta de confiança das mulheres. “Por décadas, as mulheres viveram em rotinas em que se expor de maneira espontânea e assertiva trazia muitos prejuízos, como rótulos de promiscuidade e, até mesmo, punições sociais, por motivos financeiros, de classes entre outros. Além disso, nota-se em maior intensidade a necessidade de agradar e de aceitação”, conclui.

Artigo publicado na Harvard Business Review, que viralizou na internet, escrito por Ruchika Tulshyan, premiada estrategista de inclusão, escritora e contribuinte do New York Times, e Jodi-Ann Burey, escritora e oradora, mostrou que o ambiente de trabalho tem influência direta nas discrepâncias de desempenho e responsabilidades entre os gêneros. Essa falta de autoconfiança pode ser resultado da chamada síndrome da impostora.

Conceito desenvolvido pelas psicólogas Pauline Rose Clance e Suzanne Imes, foi denominado, originalmente, como “imposter phenomenon” (“fenômeno impostor”, em tradução livre), em 1978. A pesquisa concluiu que as mulheres duvidavam de suas habilidades e sentiam-se como fraudes, questionando seu desempenho, conquistas e elogios. “Apesar das notáveis ​​realizações acadêmicas e profissionais, as mulheres que vivenciam o fenômeno impostor persistem em acreditar que realmente não são brilhantes e enganam quem pensa o contrário”, postula o estudo publicado pela Georgia State University.

Para a analista júnior de atendimento ao cliente, Geysa Losovoi, a ansiedade começou com os processos seletivos no final da graduação. Quando conquistou o estágio, foi obrigada a lidar com situações em que as questões de gênero eram predominantes. “Eu atuava na área de manutenção predial de um banco e presenciei diversos eventos que colocavam minha capacidade em prova. Não pelos meus superiores, mas, por vezes, pelos meus pares e pelos operadores.”

Apesar do seu trabalho atual ter um ambiente mais acolhedor e apresentar muitas referências de liderança feminina, Geysa ainda se sente insegura. Durante as conversas com sua chefe, ainda questiona suas atitudes e a possibilidade de ser demitida. “Inclusive, no primeiro dos feedbacks, não consegui conter meu medo e chorei na frente dela”, relata a analista.

A maioria das mulheres experimentam a síndrome da impostora durante grande parte da vida. Na faculdade, seja pela procura do primeiro estágio ou por participar das associações estudantis, o período de início de carreira coloca em xeque a bagagem desenvolvida durante a vida acadêmica. “A sensação de incapacidade, como podemos dizer, ou também senso de desvalia, pode nos impedir e lentificar algumas decisões e mudanças que precisam ser feitas em nossas vidas. Pensamos em um comprometimento maior se há prejuízo em vários eixos da vida da pessoa, como trabalho, família e relacionamentos”, conclui a psicóloga Fernanda Reis.

Lívia* é analista júnior da área comercial e relatou que, durante o final do segundo ano do seu curso, iniciou uma depressão leve e precisou procurar ajuda psicológica, o que a fez perceber que “a faculdade criou questões com a síndrome da impostora, não se achar capaz o bastante para lidar com tudo, se sentir inferior”. A experiência do primeiro estágio também contribuiu para que permanecesse receosa nos trabalhos futuros. “Principalmente, porque meu primeiro estágio foi no banco, um ambiente muito masculino. Sofri por ser mulher e estagiária. Senti que era menor e criei um medo de me desenvolver lá dentro.” 

Todavia, essa não é a única área marcada pela segregação ocupacional. Para Aline*, arquiteta recém-formada, por trabalhar em um campo de criatividade, a comparação acompanha todos os processos. “Acredito que foi quando fui idealizar o primeiro projeto da minha carreira que me deparei com a síndrome de impostora de fato, porque era a primeira vez que eu estava desenhando algo que era fruto da minha própria bagagem”, diz.

Além disso, a arquiteta relata que as redes sociais são fatores de grande impacto para as inseguranças. O Instagram, meio muito utilizado para divulgar projetos, foi a principal ferramenta que a fez questionar sua capacidade, já que a realidade da mídia transmite uma fluidez sem esforços que, segundo Aline, contribui para reforçar a sensação de impostora. “Não se mostra o lado B da coisa, mas, mesmo sabendo disso, é difícil não comparar com a minha realidade. Como meus colegas estão tão bem-sucedidos, tão seguros, e eu estou aqui, mergulhada na ansiedade sem conseguir dar um passo nos meus projetos?”, questiona.

“Uma vez que a síndrome está instaurada, ela irá repercutir em todos os eixos psicológicos, bem como a forma de enfrentamento sobre eles. É por essa razão que é importante o esclarecimento de altas expectativas e formação de uma comunicação e ação assertiva com si mesma e com os outros. Respeitando seus limites e buscando autocuidado”, conclui a psicóloga Fernanda Reis.

Livia acabou saindo do estágio para iniciar um intercâmbio em 2019. Retornou em julho do ano passado e, devido à crise sanitária, não encontrou o emprego que queria. “Acho que, inclusive, a própria pandemia me influenciou a não terminar processos que seriam bons para mim por esgotamento emocional. A pandemia afetou muito as minhas oportunidades e situações a que me submeti”. Ela teve que aceitar um contrato de trabalho por MEI (Microempreendedor Individual), recebendo menos do que no primeiro estágio e trabalhando por mais horas.

Para Helena*, estagiária de comunicação corporativa, o ambiente atual de trabalho ajudou a restaurar a seu segurança, apesar de acreditar que só poderá confirmar caso seja efetivada. Porém, a experiência de desvalorização aconteceu na empresa júnior no início da faculdade. “Nesse caso em específico, acredito que o que pegou foi que era uma primeira experiência profissional e que eu já estava lidando com o desafio de construir um cargo do zero, mas ao longo da gestão, muitas vezes, eu sentia que minha opinião não era ouvida ou levada a sério por ser mulher, o que também acabava influenciando.” Ao mesmo tempo, Helena enfrentou uma sobrecarga, já que seus colegas tinham em mente que ela poderia lidar com todo trabalho.

O Informe de Percepção de Gênero, feito pelo LinkedIn em 2019, apontou que as mulheres sentem que precisam preencher todos os requisitos para se candidatar a uma vaga. Para os homens, preencher 60% dos requisitos já é suficiente. Jhenyffer Coutinho descobriu esse dado, em 2018, durante um workshop de liderança feminina. Aliando-o ao fato de que aproximadamente 7 milhões de mulheres perderam seus empregos durante a pandemia, ela fundou a “Se Candidate, Mulher!”, empresa de capacitação comportamental que ajuda com segurança e performance no processo seletivo.

“A gente também teve a menor taxa de participação da mulher nos últimos 30 anos. Quando uma empresa tem que priorizar um homem ou uma mulher, entende que a dedicação do homem vai ser maior porque ele não tem outras coisas para tomar conta. Esse dado foi reflexo de tudo que aconteceu desde o início da pandemia globalmente, mas com bastante força no Brasil”, reforça a CEO. Além disso, Jhenyffer evidencia o trabalho que espera a mulher depois do seu expediente, que, segundo a filósofa Silvia Federici, pode ser designado como “trabalho não remunerado”, como cuidado da casa, dos filhos ou do marido, destinados socialmente às mulheres.

Apesar das mulheres demonstrarem força e ambição, ser rotulada com a síndrome da impostora é um fardo para carregar. Essa dinâmica de cobrar da mulher autoconfiança não é significativa se o ambiente de trabalho e a sociedade não possibilitam espaço e segurança para seu desenvolvimento.

 

*Nomes Fictícios

As duas maiores administradoras do ramo, brMalls e Iguatemi, apontaram queda de faturamento no primeiro trimestre
por
Thalisson Luan
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04/07/2021 - 12h
Juntas, Iguatemi e brMalls contam com 19 shoppings no estado de São Paulo (Imagem: divulgação)
Juntas, as administradoras contam com 19 shoppings no estado de São Paulo (Imagem: divulgação)

 

Os shopping centers sofreram grandes impactos em seu faturamento durante a pandemia. Com o fechamento de centros comerciais imposto por alguns estados, o setor encerrou 2020 com queda de 33% na receita,  segundo dados da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce).

Para a Abrasce, a digitalização por meio de marketplace nos shoppings é um caminho a ser seguido. Segundo dados obtidos pela associação, 59% pretendem instalar marketplaces em até dois anos.

"Os shoppings estão evoluindo e as plataformas de marketplace estão mais confortáveis de usar. Imagino que em cinco anos todos os shoppings estarão em ambiente digital", afirmou Glauco Humai, presidente da Abrasce, em coletiva realizada para a divulgação dos números do setor.

A administradora Iguatemi, que faz o gerenciamento de shoppings como JK Iguatemi, Shopping Pátio Higienópolis e Market Place, teve uma queda de 28,4% nas vendas totais no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período do ano anterior. Já o valor arrecadado com aluguéis de lojas diminuiu 4,2%.

O Shopping Pátio Higienópolis, inaugurado em 1999, viu o seu design de interiores ser tomado por tapumes ao longo dos corredores. O estabelecimento tem cerca de 35 mil metros quadrados, contendo aproximadamente 300 lojas espalhadas por seis andares. Segundo funcionários mais antigos ouvidos pela reportagem, o local nunca viu tantas lojas fechando como neste período.

 

Segundo funcionários, o número de lojas fechadas no Higienópolis passa de 30. (Reprodução: Asbraf)
Segundo funcionários, o número de lojas fechadas no Higienópolis passa de 30. (Reprodução: Asbraf)

 

A brMalls, outra administradora de shopping centers, que tem no portfólio o Shopping Villa-Lobos, Mooca Plaza Shopping e Shopping Metrô Santa Cruz, também viu o seu faturamento cair. Conforme o levantamento do primeiro trimestre, as vendas tiveram uma redução de 26,2%, em comparação com o ano anterior. Contudo, a empresa aponta uma retomada gradual olhando o índice de 1% no aumento do aluguel de lojas.

 

Foto: Divulgação.

 

Franquia de loja cresce em meio à pandemia

Indo na contramão da maioria dos lojistas, a franquia de lojas de cultura geek Piticas aumentou o número de estabelecimentos, com uma estratégia de oferecer experiência imersiva aos clientes e apostar na conversa com as administradoras dos shoppings.

Em entrevista à Agemt, Felipe Rossetti, sócio-diretor da Piticas, conta que a franquia está chegando a 500 lojas, sendo 470 só em shoppings, incluindo galerias e shoppings menores. No começo da pandemia a empresa sentiu o impacto das lojas fechando, visto que sua atuação é majoritariamente física. No entanto, como a Piticas tem uma fábrica de vestuário própria, com cerca de 900 funcionários, decidiu lançar mão desses recursos para ajudar hospitais e segurar o impacto.

“Pegamos essa produção e viramos a fábrica inteira para fazer avental hospitalar e máscaras para hospitais, isso ajudou a gente a conseguir manter um pouco do faturamento”, comenta Rossetti.

Felipe Rossetti em loja da marca de vestuário e produtos geek (Imagem: divulgação Piticas)
Felipe Rossetti em loja da marca de vestuário e produtos geek (Imagem: divulgação Piticas)

O empresário conta que o contato com os franqueados foi frequente no ano passado, para entender a necessidade de cada um e ajudar da melhor maneira, tratando cada caso em separado. Uma das iniciativas que ele aponta para manter as lojas foi a parceria com as administradoras dos shoppings, que considera muito boa.

“A gente conseguiu negociações muito boas para esse período, o que ajudou os franqueados a se manterem nos pontos de venda”, afirma Rossetti, dizendo ter contato direto com executivos de administradoras como Multiplan e brMalls.

Para a Piticas não houve grandes fechamentos de pontos, mas sim repasse para outros franqueados interessados. Foram, segundo Rossetti, 30 repasses, que se deram porque alguns donos de franquias não se mostraram alinhados com a política da empresa e as diretrizes de expansão. “O franqueado não quer expandir,  não quer crescer,  fica ali no faturamentozinho dele e não enxerga tudo isso que a gente tá fazendo. Aí para a gente não faz sentido ter esse cara”,  complementa Rossetti.

“Para a gente faz mais sentido pôr um cara com gás, um cara que você vê que é fã da cultura pop ou da marca, o cara que tá ali com tesão todos os dias dentro do quiosque e dentro da loja, porque isso faz uma diferença”, afirma o empresário.

Sobre o futuro, o sócio-diretor da Piticas projeta que as lojas com experiências para o consumidor vão desbancar o varejo tradicional, onde há uma pessoa na porta esperando para atender o cliente, que compra e vai embora imediatamente. “A gente acredita que a experiência, ela primeiro, faz com que o consumidor fique mais próximo da marca. Segundo, os nossos números mostram que, quando tem uma experiência em loja, o tempo de permanência do cliente é maior e os números também mostram que onde tem experiência o tíquete médio também é maior”, diz Rossetti.

No entanto, o empresário ressalta que essas experiências têm que colocar o cliente dentro da temática proposta, pensando alto e usando a criatividade.

“Eu sempre falo com o pessoal: essa experiência tem que ser realmente uma experiência. Você colocar um boneco de papelão 2D, isso não é uma experiência. Uma experiência é você replicar a nave de Star Wars em 3D e colocar lá dentro o cara sentado dentro da nave brincar e fazer barulho e ter a música. Isso é experiência.”

 

Imagem da experiência da nave de Star Wars que chegará na loja do Center Shopping Uberlândia (Imagem: Instagram @ferossetti)
Imagem da experiência da nave de Star Wars que chegará na loja do Center Shopping Uberlândia (Imagem: Instagram @ferossetti)

 

Mais da metade da população não sabe se terá o que comer no dia seguinte; interrupção e corte do auxílio emergencial agravaram situação
por
Beatriz Girão e Laura Ré
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03/07/2021 - 12h
Foto: Giovanna Colossi, especial para a Agemt
Fila para receber as marmitas distribuídas pela Tenda Franciscana, no Centro de São Paulo. Foto: Giovanna Colossi 

 

O Brasil está de volta ao Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU). Mais da metade da brasileira não sabe se terá o que comer no dia seguinte. O país estava fora do levantamento desde 2014, mas, com a pandemia, a deterioração social que já vinha ocorrendo se agravou ainda mais, expondo a ausência de políticas públicas voltadas a combater a pobreza.

De acordo com Fernando Burgos, professor de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e especialista em desigualdade social, a fome no Brasil é uma questão histórica e sempre foi uma realidade. A implementação de políticas públicas como Fome Zero e Bolsa Família contribuiu para a queda dos índices de extrema pobreza e a melhora na qualidade de vida. Contudo, Burgos afirma que a crise econômica do segundo governo Dilma vem sendo agravada desde então. “Com Bolsonaro pré-pandemia em 2019, o Brasil começou a voltar para o Mapa da Fome.” 

O auxílio emergencial foi um dos recursos adotados pela gestão federal para tentar amenizar a crise e instaurar uma proteção social para a população mais pobre do país. De início, o aporte foi de R$ 600, destinado a maiores de 18 anos (exceto mães de famílias monoparentais), trabalhadores sem carteira assinada, autônomos, microempreendedores individuais (MEI) e desempregados. Era necessário também estar dentro do limite de renda por pessoa da família de até R$ 522,50 ou renda familiar de até R$ 3.135,00. Esse modelo inicial ficou em vigência até dezembro de 2020. 

Para Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), o auxílio emergencial foi capaz de recompor as finanças de grande parte daqueles que perderam as fontes de renda. "Com sua grande cobertura e um alto valor do benefício, não seria de se surpreender que o auxílio emergencial tivesse sido um impacto significativo sobre a taxa de pobreza agregada no país”, explica. Duque ressalta que, se a Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), ferramenta do IBGE que acompanha as flutuações da força de trabalho, for observada ao longo de quatro semanas, seria uma possibilidade para ajudar a reduzir a pobreza no país.

De dezembro de 2020 até maio deste ano, a população ficou desamparada, sem auxílio emergencial. A renovação em 2021 foi definida com um valor reduzido para R$ 375,00. Entretanto, Duque afirma que não será o suficiente e que, com a extinção do auxílio emergencial de janeiro a abril deste ano, houve um impacto sobre a massa de rendimentos, pobreza e desigualdade. “A incapacidade do governo de imunização em massa prejudica também a melhora da economia e a volta do mercado de trabalho. Se o auxílio não for aumentado ou permanecer por mais tempo, será necessário, por exemplo, a aprovação de aumento do orçamento do Bolsa Família", avalia. 

Fernando Burgos também adverte sobre as consequências do valor menor para o auxílio e aponta que a tendência até o final deste ano é que muitas famílias entrem em uma situação grave do ponto de vista social. "Quem está sendo contemplado agora, provavelmente, vai ter mais dificuldade. Lembrem-se que R$ 75 é R$ 12 e pouquinho por dia.”, ressalta.

O retorno do Brasil ao Mapa da Fome é uma consequência da pandemia da Covid-19 e da má gestão e distribuição, principalmente da segunda parcela, do auxílio emergencial oferecido pelo governo federal. Com esse cenário, o movimento “Tem Gente Com Fome”, apoiado pela Anistia Internacional e diversas outras ONGs, usa as redes sociais de artistas e recebe o apoio de empresas para clamar por ajuda e arrecadar doações para famílias vulneráveis. O resultado prévio deste trabalho identificou 222.895 famílias a serem auxiliadas e mobilizadas em periferias, favelas, comunidades quilombolas, populações ribeirinhas e palafitas em todo o território nacional.

“Para mim, as empresas doarem, eu acho legal, acho um gesto importante. Todos nós estamos no mesmo barco. Então, foi uma onda de solidariedade bacana por um lado. Por outro lado, tem muita solidariedade condicionada, que vai dar naquilo que eu, elite, entendo que tem que ser dado.”, critica Burgos. O professor aponta as ONGs que precisam receber financiamento como as que serão mais prejudicadas ao longo desta segunda, e em uma eventual terceira, onda da Covid-19, pois “não adianta você dar o saco de feijão, se você não der o gás”. Como diz Burgos, é preciso fornecer condições para uma melhor qualidade de vida como um todo para as famílias vulneráveis.

Imagens: Giovanna Colossi, especial para a Agemt

Introduzida no Brasil na década de 1980, equoterapia é utilizada como complemento de tratamentos físicos e psicológicos
por
Beatriz Pugliese
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30/06/2021 - 12h

A equoterapia foi trazida para o Brasil, no final dos anos 80, pela Ande, Associação Nacional de Equoterapia. Seu objetivo principal é complementar o tratamento dos praticantes, através de exercícios com equinos, estimulando tanto o lado físico quanto psicológico. Hoje, a Ande, cuja sede é em Brasília, atua em todo o território nacional como centro regularizador da equoterapia. Existem centros filiados, que seguem todas as normas decretadas pela entidade, e os centros agregados, que seguem parcialmente as normas. 

Estima-se que existam, hoje, 6,5 milhões de deficientes visuais no Brasil, 2 milhões de casos de autismo, 1,4 milhão de paralisia cerebral e 300 mil de Síndrome de Down. Esses são alguns dos principais praticantes de equoterapia. 

A Equovita é um dos 280 centros filiados da Ande e se situa em Jundiaí, no interior de São Paulo. O centro, que era 100% dedicado à equoterapia, hoje possui uma agenda mais diversificada e equilibrada. O tratamento com equinos representa 45% de seu faturamento, enquanto as aulas de equitação respondem por 55%. Roberto Aprigliano, proprietário e professor da Equovita, conta que ambos os serviços oferecidos tiveram um crescimento acentuado nos últimos anos, principalmente durante a pandemia. 

Roberto explica que a equoterapia vem se tornando mais conhecida entre os brasileiros desde 2018. Em cinco anos, a Equovita dobrou o número de alunos da modalidade, totalizando 63 atualmente. Entretanto, o distanciamento social exigido pelo novo coronavírus também teve grande participação nesse crescimento. “A maior parte das terapias era em sala, o que foi proibido e restrito”, diz Roberto. “A equoterapia entrou como um contrapeso: ar livre, sem aglomeração, equipe protegida.” É importante destacar que a equoterapia é um tratamento complementar, nunca o principal. “O objetivo é a manutenção do que eles já têm. Nós sabíamos que alguns poderiam não ter evolução, mas só de não ter involução já era um ganho.”  

Uma questão muito presente em qualquer serviço com equinos é o custo. Na equoterapia, particularmente, além dos custos do cavalo, como alimento e vacinas, também há o custo dos profissionais. De acordo com as normas da Ande, uma sessão de equoterapia exige o acompanhamento do terapeuta específico (fisioterapeuta, fonoaudióloga, psicóloga etc), um auxiliar e um guia para o cavalo. Para suprir a soma de todos esses gastos, as mensalidades na Equovita são a partir de R$ 495. 

Entretanto, existem formas de contornar essa situação financeira. “O cidadão pode entrar na Justiça”, conta Roberto. O equoterapeuta explica que já atendeu diversos casos em que a verba vem da prefeitura ou dos planos de saúde, após uma decisão judicial.  

Foi exatamente esse desejo de tornar a equoterapia mais acessível que motivou a fisioterapeuta Carla Natucci a criar a ONG Abraahce (Associação Brasileira de Relacionamento Homem, Animal, Meio Ambiente e Centro de Equoterapia).

A Abraahce é uma organização sem fins lucrativos e totalmente focada em equoterapia. “Nosso pensamento nunca foi gerar lucro, mas precisamos sobreviver”, conta Carla. “Tem algumas pessoas que mediante ações liminares acionaram os próprios convênios ou a prefeitura do município, mas são poucos.” 

A fisioterapeuta explica que a ONG possui um programa de bolsas, mas que qualquer pessoa que procure a Abraahce passará por uma entrevista, na qual os valores da terapia podem ser negociados. “Nós temos, hoje, 20% do nosso público com atendimento 100% gratuito. Foi a forma que a gente encontrou de manter o nosso propósito.” Para priorizar o atendimento acessível, a Abraahce criou um projeto de voluntariado, no qual os próprios integrantes da equipe realizam trabalho não remunerado, desde o marketing até o manejo dos cavalos (funções exclusivas para estudantes da área ou pessoas treinadas). 

Assim como a Equovita, a Abraahce também teve um grande aumento na procura por seus serviços. Carla explica que a pandemia trouxe uma nova categoria de clientes para a equoterapia: jovens com ansiedade ou até mesmo depressão. A fisioterapeuta diz que, atualmente, 50% dos praticantes são adolescentes que procuram um tratamento complementar para questões psicológicas e emocionais. Outra parcela significativa dos alunos é composta por crianças diagnosticadas com autismo, representando, aproximadamente, 30% do público da Abraahce. 

Quanto mais reconhecimento a equoterapia recebe, mais acessível ela se torna. Os resultados positivos do contato com equinos têm atraído cada vez mais pessoas, com as mais diversas condições físicas e psíquicas. Para Carla e outros equoterapeutas, o objetivo é nítido: “É para que as pessoas possam ter, realmente, a vida transformada através do cavalo”.

Busca de soluções naturais para auxiliar no combate à ansiedade impulsiona aromaterapia, que já vinha em alta antes da pandemia
por
Soffy Soares
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29/06/2021 - 12h

Foto: Shutterstock

 

Durante a pandemia, diversos brasileiros começaram a  buscar soluções naturais para o controle de ansiedade, estresse e episódios depressivos. Um estudo realizado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) detectou o  aumento de 90% nos casos de depressão e de 50% nas crises de ansiedade ou sintomas de estresse agudo entre março e abril de 2020. Sendo assim, uma das alternativas que mais ganharam destaque foi a aromaterapia, um ramo da fitoterapia que utiliza óleos essenciais extraídos das plantas para auxiliar tratamentos físicos, emocionais e energéticos.

As essências são comercializadas em lojas de produtos naturais ou através de representantes de marcas. E desde 2006, são oferecidas através do Sistema Único de Saúde (SUS), podendo ser encontradas nas unidades básicas de atendimento. Entretanto, a aromaterapia serve apenas como suporte, o tratamento de transtornos da mente deve ser sempre conduzido por profissionais da saúde.

Segundo dados divulgados pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), a produção mundial de óleos essenciais é de aproximadamente 45 mil toneladas, avaliadas em US$ 700 milhões. Estima-se que a produção nacional de óleos essenciais seja equivalente a 13,5% da produção total, posicionando o Brasil como o quarto maior exportador em comparação aos outros países. A consultoria Euromonitor projeta que haverá um crescimento global de quase 12% no uso de óleos essenciais até 2023. Na América Latina, a expectativa de crescimento é de cerca de 10% nos próximos quatro anos.

De acordo com  levantamento disponibilizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o consumidor no país vem aumentando seu interesse no setor a níveis consideráveis, antes mesmo da pandemia. O informe aponta que os óleos essenciais (cítricos, excluindo os de laranja) apresentaram um crescimento de um total de 600.000 em toneladas vendidas, no ano de 2014, para um total de 900.000, também em toneladas, no ano de 2017. A demanda é em grande parte para as áreas de produtos de perfumaria e indústria cosmética, mas também é destinada às indústrias alimentícias e farmacêuticas.

A proprietária da Anber Aromas, Lea Berezutchi, teve a ideia de comercializar óleos essenciais durante a quarentena. “Senti muita falta do cheiro da natureza, da minha conexão com ela, enchi minha casa de plantas, e aí veio a ideia de manipular os aromas." A microempresária conta que as vendas superaram o esperado. Logo no primeiro mês de seu e-commerce, totalizou mais de 30 vendas. “Não conhecia muito sobre o assunto, fui me inteirar de como era feito, quais aromas existiam e depois de dois meses iniciei as vendas’’, completa.

O preço desses óleos encontra-se, hoje, em patamar econômico mundial elevado. Entretanto, a valorização durante a pandemia das chamadas práticas integrativas e complementares (PICS) – tratamentos que utilizam recursos terapêuticos baseados em conhecimentos tradicionais –, vem oferecendo novas oportunidades para produtos naturais crescerem ainda mais no mercado nacional e internacional.

Foto da capa: Shutterstock