Reforma tributária prevê devolução de impostos para famílias cadastradas no CadÚnico
por
João Moura
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22/05/2026 - 12h

Para os brasileiros com baixa renda, cada compra no mercado carrega um peso invisível: o imposto embutido no preço dos alimentos, do sabão, do gás de cozinha. Um fardo silencioso que consome parte significativa de uma renda já escassa. A reforma tributária trouxe uma proposta para aliviar esse peso. A devolução de impostos prevista no novo sistema reacendeu o debate sobre o papel do cashback tributário no combate à desigualdade social. A ideia é devolver parte dos tributos pagos no consumo para famílias de baixa renda cadastradas no CadÚnico.

A economista Juliana Inhaz,, em entrevista à AGEMT, vê potencial na proposta, sobretudo pela promessa de simplificar o sistema tributário brasileiro e dar mais transparência aos impostos cobrados em produtos e serviços. "A reforma traz um sistema mais simples e mais transparente. As pessoas vão saber o quanto estão pagando de imposto, e isso pode fazer com que elas passem a prestar mais atenção nesse aspecto", afirma.

Hoje, poucos percebem. A falta de clareza sobre a carga tributária faz com que a maior parte dos brasileiros não note o quanto paga de imposto a cada ida ao supermercado. "Talvez a pessoa olhe para um produto simples e perceba que há um valor elevado de imposto embutido ali. Isso pode gerar uma conscientização maior sobre tributação e cidadania fiscal", diz Juliana.

O potencial existe. Mas os limites também. A especialista ressalta que o impacto da medida dependerá diretamente da forma como a política será implementada. "Se o modelo funcionar apenas como uma devolução proporcional ao consumo, famílias de baixa renda tendem a receber muito pouco, porque consomem menos", explica. A saída, segundo ela, está no desenho do sistema. Para que o cashback seja efetivamente redistributivo, parte dos tributos arrecadados de consumidores de maior renda precisaria ser revertida para as famílias mais vulneráveis. "O impacto pode ser favorável se houver redistribuição. Caso contrário, o efeito tende a ser pequeno", afirma.

Há ainda outro obstáculo, menos visível, mas igualmente concreto: o acesso digital. Muitos brasileiros ainda enfrentam dificuldades para navegar em plataformas governamentais e acessar benefícios financeiros. "Muita gente tem dificuldade para acessar sistemas digitais, fazer login e entender os processos necessários para solicitar benefícios como, por exemplo, acesso ao Gov.Br. Isso acaba afastando parte da população", avalia.

E mesmo que o acesso seja garantido, o cashback, sozinho, não resolve o que é estrutural. "O que realmente melhora a vida das famílias é aumento de renda, produtividade, qualificação profissional e crescimento econômico. Sem isso, mesmo com benefícios, o poder de compra continua comprometido", explica Juliana. Ainda assim, ela enxerga no novo modelo uma oportunidade além da devolução financeira: a de engajar o consumidor na fiscalização tributária e ampliar a formalização da economia. "Quando o consumidor entende que pode receber algum retorno, ele tende a exigir mais transparência nas transações. Isso ajuda a reduzir a informalidade e a evasão fiscal", conclui

Parcelados para sobreviver: como o endividamento virou rotina entre as famílias brasileiras
por
Eduarda Amaral
Wildner Félix
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22/05/2026 - 12h

No Brasil, parcelar deixou de ser uma escolha pontual. Virou rotina. Da compra do mercado ao remédio na farmácia, o crédito ocupa um espaço cada vez maior no orçamento das famílias e transforma a dívida em estratégia de sobrevivência. Atualmente, 80,2% das famílias brasileiras convivem com algum tipo de débito, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), o maior índice registrado desde 2010. O cartão de crédito é a principal modalidade de dívida, seguido pelos carnês de lojas. Confira os principais dados desta reportagem no nosso carrossel do Instagram. 

Grafico sobre as principais modalidades da dívida brasileira
Principais modalidade de dívida - Arte: Eduarda Amaral/Canva

Cerca de 29% das famílias estão inadimplentes, com contas atrasadas há mais de três meses, e 12% afirmam não ter condições de pagar esses débitos. Em um cenário de juros altos, renda baixa e aumento do custo de vida, o crédito deixou de ser acesso ao consumo supérfluo e passou a sustentar despesas básicas. 

A dívida no Brasil não nasce do desejo. Ela nasce da carência. O país terminou 2024 com quase 82 milhões de pessoas que não conseguiram pagar as contas em dia, o maior patamar desde 2012, segundo dados do Banco Central. Desde o encerramento da primeira fase do programa Desenrola, em julho de 2023, foram 9 milhões de novos inadimplentes e para boa parte dessas famílias, o endividamento não foi uma escolha impulsiva, mas um mecanismo de sobrevivência. 

"A dívida das famílias brasileiras tem caráter estrutural, baseada na má distribuição de renda e no monopólio das grandes redes na distribuição de alimentos e itens essenciais", afirma Paulo Romaro, professor de finanças da PUC-SP. "O crédito fácil não é a causa: é a solução disponível para as famílias de baixa renda. Quando os itens de primeira necessidade pesam no orçamento ou quando algum membro perde sua renda, o endividamento via crédito é a saída disponível.”

Essa engrenagem foi investigada de perto pelo geógrafo Kauê Lopes dos Santos, professor da Unicamp, entrevistado no episódio "Parcelados e endividados no Brasil" do podcast Café da Manhã. Em seu livro Parcelado: dinâmicas de consumo na periferia, resultado de 150 entrevistas em bairros como Brasilândia e Jardim Helena em São Paulo, argumenta que o crédito não é apenas um facilitador do consumo. É um modo de gerir a escassez. 

Enquanto o Estado e o mercado falham em oferecer saneamento e transporte de qualidade, as grandes redes de varejo são onipresentes. A compra parcelada se torna o motor de um ciclo que nunca se encerra: a publicidade estimula o desejo, a obsolescência dos produtos reduz seu tempo de vida e a sobreposição de parcelas compromete a renda de forma contínua, mês após mês. 

O geógrafo chama esse fenômeno de endividamento crônico. "Tudo aqui foi comprado parcelado", resumiu Maria do Carmo, uma de suas entrevistadas, que se orgulhava de uma TV de 43 polegadas mesmo vivendo em uma casa com marcas de umidade e rachaduras nas paredes, um retrato fiel da modernização do consumo que coexiste, sem contradição aparente, com a precariedade estrutural.

A ausência de educação financeira agrava o cenário, mas Romaro é preciso ao delimitar seu papel: "A população não consegue avaliar a situação em que vai se meter." Ainda assim, o economista ressalta que ela seria fundamental em um contexto diferente. "Se o indivíduo soubesse avaliar as opções de onde buscar os recursos necessários e mais adequados para a sua situação, seria muito bom", pondera, sobretudo diante de juros estratosféricos, como os do rotativo do cartão de crédito, que podem ultrapassar 400% ao ano.

Somam-se ainda as bets: "os jogos de azar em profusão viciam, causando um problema endêmico de saúde pública", aponta o professor. Os efeitos se espalham pela vida cotidiana. "Como pagar a mensalidade da escola do filho? Como pagar o aluguel em atraso? O impacto na saúde mental e nas relações é natural que aconteça." 

O endividamento no país tem um recorte racial claro. Pessoas pretas e pardas concentram os maiores índices de insegurança alimentar, moradia precária e informalidade. O rendimento médio dos negros é 40% inferior ao dos não negros diferença que persiste em 32% mesmo entre quem tem ensino superior, segundo o DIEESE. Quando a crise chega para essa parcela da população, o cartão de crédito passa a ser a última linha de defesa para colocar comida na mesa.

No entanto, esse recurso voltado para a baixa renda é também o mais caro, transformando o socorro emergencial em armadilha estrutural. Em Parcelado, o autor mostra que a população pobre e negra, antes excluída do consumo, está hoje subordinada ao capital financeiro. Essa inclusão, celebrada como conquista social, revelou seu lado sombrio nas periferias: a dívida chegou antes da infraestrutura e do saneamento, capturando uma demanda reprimida por décadas.

Com milhões de brasileiros negativados, o governo federal tem apostado em programas de renegociação de dívidas para conter a inadimplência e aliviar o orçamento doméstico. Entre as principais iniciativas recentes estão o Desenrola Brasil e a sua nova versão, o Desenrola 2.0, criados para fechar acordos de pagamentos e devolver o poder de compra à população.

Lançado em maio de 2026, o Desenrola 2.0 incentiva brasileiros com renda de até cinco salários mínimos e que possuem dívidas atrasadas entre 90 dias e dois anos. A medida oferece descontos de até 90% do valor total e permite o uso de até 20% do saldo do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para quitar débitos.

No entanto, para ter direito aos benefícios do programa, o participante não pode comprometer sua renda com apostas digitais pelo período de um ano, um alerta ao comportamento recente da população que tem intensificado o cenário de endividamento no país. 

Ainda assim, Kauê Lopes é direto sobre os limites da iniciativa e afirma que essas políticas têm caráter momentâneo e não resolvem a estrutura do endividamento crônico no Brasil. “Você pode até resolver uma circunstância particular num determinado momento, mas a tendência é que isso volte mais para frente”, explica.

O endividamento, portanto, não é um dado neutro: ele tem cor, endereço e nome. E enquanto o debate político se concentra em medidas paliativas, a raiz do problema permanece intacta. Para Romaro, o combate ao endividamento exige mais do que renegociação de dívidas ou educação financeira. Enquanto parte significativa da população permanecer próxima da linha da sobrevivência, o crédito continuará funcionando como extensão da renda. A saída, segundo ele, passa por distribuição de renda, empregos de melhor qualidade e políticas de desenvolvimento econômico.

Alta do petróleo afeta marcas que buscam estratégias para evitar o repasse imediato ao consumidor
por
Laura Petroucic
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21/05/2026 - 12h

Os conflitos no Oriente Médio vêm provocando impactos em diferentes setores da economia mundial, como combustíveis, alimentos e transporte. Um dos segmentos que muitas vezes fica de fora do debate é a indústria da moda. O aumento no preço do petróleo impacta diretamente toda a cadeia de produção têxtil em um mercado marcado pela inflação e pela dependência de importações. A designer Brenda Saad Santos Guimarães, em entrevista à AGEMT, comenta sobre os esforços de marcas para reduzir os impactos da alta nos custos de produção: “Sempre é possível definir estratégias antes de mudar o valor final, como entender o que pode ter um custo menor, características do produto que podem ser mais simples para que caiba no orçamento, número de peças produzidas, onde serão distribuídas ou até mesmo reduzir a margem de lucro no produto para manter a constância de vendas”, diz Brenda.

Justamente por causa dessas estratégias que, muitas vezes, esse aumento pode passar despercebido pelo consumidor final, ao menos em um primeiro momento. No caso do algodão, os conflitos afetam o combustível utilizado em máquinas agrícolas, o transporte de mercadorias, fertilizantes e até o funcionamento da indústria responsável por transformar a fibra em tecido. Já com as fibras sintéticas, como poliéster, nylon e acrílico, o impacto é ainda mais direto: esses materiais são derivados do petróleo. Segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), há relatos de aumentos de até 40% no poliéster desde o início do conflito. Além de matéria-prima mais cara, o setor também enfrenta dificuldades logísticas. Com o Estreito de Ormuz sendo uma das áreas mais instáveis e afetadas, rotas marítimas foram alteradas por questões de segurança, resultando em custos de frete elevados. Brenda nota que o aumento foi constante nos últimos anos. “Fatores como guerras, eleições ou altas repentinas de demanda por conta de tendências influenciam na porcentagem desse aumento”, explica. Para ela, a oscilação da economia global já faz parte da rotina da moda, principalmente em um mercado dependente de importações.

O impacto é ainda maior para pequenas marcas que não podem se dar ao luxo de cortar lucros para manter vendas. A designer destaca que a cadeia têxtil brasileira perdeu força nacionalmente, abrindo mais espaço para materiais importados, o que dificulta ainda mais produtores independentes. “Por exemplo, pedidos mínimos de certos materiais que às vezes são mais do que uma marca independente pode investir. Os planejamentos das marcas precisam trabalhar com antecedência e criar acordos que garantam precauções para situações como inflação absurda ou uma nova pandemia”, afirma.

Apesar das tentativas, o consumo de roupas tende a cair em períodos de inflação, que não é considerado essencial como alimentação ou transporte. Uma alternativa nestes momentos são as fast fashions de plataformas internacionais, como a SHEIN, chinesa, que são de pior qualidade mas dificultam a competição por preço. 
“É um momento de duas balanças, dois pesos. Tem muita coisa sendo produzida, muita coisa sendo consumida, aumento do preço de venda, instabilidade do preço de produção”, resume Brenda, que acredita que estamos em um momento de grande transformação em vários pilares da moda, e que só serão compreendidos em sua totalidade quando estivermos afastados disso. 
 

Evento cultural atrai visitantes para a cidade do interior mineiro
por
Beatriz Paulino
Camila Bucoff
Giovanna Britto
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21/05/2026 - 12h

A cidade de Itajubá, no sul de Minas Gerais, realizou nos dias 23, 24 e 25 de abril a "Expo Itajubá", uma tradicional festa de rodeio e shows musicais no Parque de Exposições. O evento anual movimenta a população, com menos de 100 mil habitantes, e atrai visitantes de diferentes lugares. Conhecida por receber grandes nomes da música nacional, principalmente sertanejo, e oferecer estrutura com áreas VIP, pista e camarotes, a expo virou um dos principais eventos da região. Comida, bebida e festas tradicionais também se misturam como parte da experiência.

O envolvimento do Sindicato Rural de Itajubá e a participação de pequenos comerciantes, que oferecem hotéis, restaurantes, transportes e alimentos para o público, revelam uma dinâmica que impulsiona a economia do município e atrai novos olhares para a região. Eventos dessa magnitude tendem a beneficiar diversas cidades, principalmente as pequenas, como é o caso de Itajubá que tem políticas públicas voltadas para a cultura, estruturadas pelo Plano Municipal de Cultura (PMC) e integradas ao Sistema Nacional de Cultura.

A recepção de turistas, a participação da população local e as políticas voltadas para a movimentação cultural servem como base para melhoria do fluxo financeiro durante o evento. O Secretário Municipal de Agronegócio de Itajubá, Edgar Moreira da Silva, em entrevista à AGEMT, explica como isso ocorre. “Os produtores expõem seus bovinos, seus cavalos, que são suas fontes de renda. Ao expor, eles têm uma valorização desses produtos, e isso tudo gera um fortalecimento na economia e também um ânimo para o setor”, diz Silva.

Ele reforça que essa movimentação ocorre em uma série de segmentos, além do econômico. "Também afeta o setor produtivo agropecuário, o setor logístico, os ambulantes, além de toda a equipe de produção e de infraestrutura”. Silva estima que a Expo movimenta cerca de 4 milhões de reais por ano para o município e, apesar de não haver nenhuma pesquisa quantitativa a respeito do aumento no faturamento do comércio durante o período do evento, relatos de comerciantes são animadores quanto ao crescimento de vendas. 

Acontecimentos desse porte também estimulam a geração de empregos temporários e o aumento de fontes de arrecadação como alvarás, notas fiscais e produtos gerais. Os shows, principais atrações, atraem caravanas de vários estados e regiões, comprovando o alcance para além da comunidade local. As festas também envolvem os cidadãos para além do âmbito cultural e de entretenimento, fazendo com que eles vivam na prática o evento. O morador de Itajubá Luiz Augusto Villanacci, que também é fotógrafo da Expo, compartilha o orgulho em participar de um registro tão especial para ele e para o município. "A Expo faz parte da história da cidade, e poder documentar isso com imagens é uma responsabilidade grande. O evento passa, o show acaba, a estrutura é desmontada, mas a fotografia fica. No futuro, essas imagens ajudam a contar como a cidade viveu aquele momento” afirma Villanacci.

Foco em dois copos sendo brindados por mulheres. Os copos possuem logo e estética que remete ao evento de Itajubá.
Comemoração com copo temático da festa. 
Luiz Augusto Villanacci / Acervo Pessoal

Para Villanacci, fotografar a Expo é retratar o município com outro olhar, indo além do show ou do artista para destacar a força do evento, a presença do público e a capacidade da cidade de proporcionar grandes eventos. O jovem compartilhou na prática como isso funciona: “Ontem vi uma foto que fiz do Zezé Di Camargo virar capa de notícia em um portal de sertanejo. Ver uma imagem feita aqui em Itajubá ganhando esse alcance mostra como a fotografia também ajuda a levar o nome da cidade para mais pessoas” anima-se.

Um palco de show, com o cantor Zezé di Camargo e sua banda se apresentando. Efeitos de fogo ficam em evidencia.
Show do Zezé Di Camargo na Expo Itajubá 2026.
Luiz Augusto Villanacci / Acervo Pessoal

 

Com 12 anos de trajetória, o espaço criado pelo artista visual aposta em formação criativa para transformar a produção cultural em modelo econômico viável.
por
Manuela Morandin
Giovana Laurelli
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21/05/2026 - 12h

Na economia criativa, viver de arte costuma ser visto como exceção. Na Casa Locomotiva, em São Paulo, a proposta é justamente inverter essa lógica e tratar a arte não apenas como expressão, mas como fonte de renda. Fundada pelo artista visual Evandro Malgueiro, conhecido como Gota, a casa nasceu da ideia de reunir artistas em um espaço onde fosse possível produzir, ensinar e criar um ambiente permanente de troca.  Gota afirma que além da atuação artística, ele trabalha com produção cultural e audiovisual, dirigindo videoclipes e realizando produções de fotografia, imagem e vídeo. A Casa Locomotiva, segundo ele, começou como um projeto coletivo, a partir do convite a amigos ilustradores para construir um lugar que fosse, ao mesmo tempo, estúdio, escola e ponto de encontro.  

A casa existe há 12 anos e está em seu segundo endereço. Antes de chegar à Vila Madalena, começou em um sobrado na Lapa. O crescimento, segundo Gota, não veio de um grande investimento inicial, mas de uma construção gradual. “O dinheiro veio vindo junto com a casa”, resume. No início, a lógica era alugar uma pequena casa e começar. Hoje, mais de 30 pessoas vivem da arte a partir do ecossistema criado pela Casa Locomotiva. O espaço opera com diferentes frentes de atuação, cursos regulares, turmas de desenvolvimento artístico, eventos, oficinas e atividades voltadas ao mercado corporativo. A diversificação ajuda a manter o projeto em funcionamento mesmo quando uma área tem menor demanda.  

Do ponto de vista financeiro, o modelo se apoia em uma combinação de receitas recorrentes e atividades pontuais. Em consulta aos canais públicos da própria casa, o curso de teatro popular aparece com mensalidade de 395 reais, em formato presencial, com 3 horas semanais. Já oficinas avulsas divulgadas em redes sociais e plataformas de eventos aparecem com valores como 150 e 200 reais, dependendo da atividade, do número de vagas e da proposta artística. Considerando que a escola reúne cerca de 120 alunos, uma mensalidade próxima ao valor público encontrado para um dos cursos indicaria um faturamento em torno de 47 mil por mês, com pelo menos 20% dos alunos sendo bolsistas. 

Alguns alunos permanecem por anos, porque, segundo Gota, a formação artística não termina em um certificado, sempre há um novo projeto, uma nova linguagem ou uma nova etapa de criação. Na visão econômica, a recorrência é um dos pontos centrais para a sobrevivência de espaços culturais. Gota observa que muitos projetos dependem de editais, governos ou apoios instáveis. Por isso, encontrar uma atividade com entrada previsível de receita é fundamental. No caso da Casa Locomotiva, uma das frentes que cumprem esse papel são as oficinas para o mercado corporativo.  

Essas oficinas recebem grupos de empresas para experiências artísticas direcionadas ao desenvolvimento do pensamento criativo. Para Gota, a técnica pode ser aprendida em muitos lugares, mas a prática artística em grupo tem força para estimular inovação em diferentes profissões. “A arte é onde você treina isso”, afirma. O projeto também visa uma expansão. Uma das ideias é criar as chamadas “estações Locomotiva”, fortalecendo espaços em outras regiões da cidade, com metodologias, professores e apoio a iniciativas já existentes. Gota, que veio da Zona Leste, vê nesse movimento uma forma de enfrentar a dificuldade de fazer o dinheiro circular para além dos bairros tradicionalmente associados ao consumo cultural.  Mais do que uma escola de arte, a Casa Locomotiva funciona como um caso de empreendedorismo cultural. Em vez de tratar a arte como atividade paralela à economia, o espaço mostra que ela pode gerar trabalho, sustentar profissionais e oferecer ferramentas criativas para outras áreas. Assista a reportagem em vídeo. 

Introduzida no Brasil na década de 1980, equoterapia é utilizada como complemento de tratamentos físicos e psicológicos
por
Beatriz Pugliese
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30/06/2021 - 12h

A equoterapia foi trazida para o Brasil, no final dos anos 80, pela Ande, Associação Nacional de Equoterapia. Seu objetivo principal é complementar o tratamento dos praticantes, através de exercícios com equinos, estimulando tanto o lado físico quanto psicológico. Hoje, a Ande, cuja sede é em Brasília, atua em todo o território nacional como centro regularizador da equoterapia. Existem centros filiados, que seguem todas as normas decretadas pela entidade, e os centros agregados, que seguem parcialmente as normas. 

Estima-se que existam, hoje, 6,5 milhões de deficientes visuais no Brasil, 2 milhões de casos de autismo, 1,4 milhão de paralisia cerebral e 300 mil de Síndrome de Down. Esses são alguns dos principais praticantes de equoterapia. 

A Equovita é um dos 280 centros filiados da Ande e se situa em Jundiaí, no interior de São Paulo. O centro, que era 100% dedicado à equoterapia, hoje possui uma agenda mais diversificada e equilibrada. O tratamento com equinos representa 45% de seu faturamento, enquanto as aulas de equitação respondem por 55%. Roberto Aprigliano, proprietário e professor da Equovita, conta que ambos os serviços oferecidos tiveram um crescimento acentuado nos últimos anos, principalmente durante a pandemia. 

Roberto explica que a equoterapia vem se tornando mais conhecida entre os brasileiros desde 2018. Em cinco anos, a Equovita dobrou o número de alunos da modalidade, totalizando 63 atualmente. Entretanto, o distanciamento social exigido pelo novo coronavírus também teve grande participação nesse crescimento. “A maior parte das terapias era em sala, o que foi proibido e restrito”, diz Roberto. “A equoterapia entrou como um contrapeso: ar livre, sem aglomeração, equipe protegida.” É importante destacar que a equoterapia é um tratamento complementar, nunca o principal. “O objetivo é a manutenção do que eles já têm. Nós sabíamos que alguns poderiam não ter evolução, mas só de não ter involução já era um ganho.”  

Uma questão muito presente em qualquer serviço com equinos é o custo. Na equoterapia, particularmente, além dos custos do cavalo, como alimento e vacinas, também há o custo dos profissionais. De acordo com as normas da Ande, uma sessão de equoterapia exige o acompanhamento do terapeuta específico (fisioterapeuta, fonoaudióloga, psicóloga etc), um auxiliar e um guia para o cavalo. Para suprir a soma de todos esses gastos, as mensalidades na Equovita são a partir de R$ 495. 

Entretanto, existem formas de contornar essa situação financeira. “O cidadão pode entrar na Justiça”, conta Roberto. O equoterapeuta explica que já atendeu diversos casos em que a verba vem da prefeitura ou dos planos de saúde, após uma decisão judicial.  

Foi exatamente esse desejo de tornar a equoterapia mais acessível que motivou a fisioterapeuta Carla Natucci a criar a ONG Abraahce (Associação Brasileira de Relacionamento Homem, Animal, Meio Ambiente e Centro de Equoterapia).

A Abraahce é uma organização sem fins lucrativos e totalmente focada em equoterapia. “Nosso pensamento nunca foi gerar lucro, mas precisamos sobreviver”, conta Carla. “Tem algumas pessoas que mediante ações liminares acionaram os próprios convênios ou a prefeitura do município, mas são poucos.” 

A fisioterapeuta explica que a ONG possui um programa de bolsas, mas que qualquer pessoa que procure a Abraahce passará por uma entrevista, na qual os valores da terapia podem ser negociados. “Nós temos, hoje, 20% do nosso público com atendimento 100% gratuito. Foi a forma que a gente encontrou de manter o nosso propósito.” Para priorizar o atendimento acessível, a Abraahce criou um projeto de voluntariado, no qual os próprios integrantes da equipe realizam trabalho não remunerado, desde o marketing até o manejo dos cavalos (funções exclusivas para estudantes da área ou pessoas treinadas). 

Assim como a Equovita, a Abraahce também teve um grande aumento na procura por seus serviços. Carla explica que a pandemia trouxe uma nova categoria de clientes para a equoterapia: jovens com ansiedade ou até mesmo depressão. A fisioterapeuta diz que, atualmente, 50% dos praticantes são adolescentes que procuram um tratamento complementar para questões psicológicas e emocionais. Outra parcela significativa dos alunos é composta por crianças diagnosticadas com autismo, representando, aproximadamente, 30% do público da Abraahce. 

Quanto mais reconhecimento a equoterapia recebe, mais acessível ela se torna. Os resultados positivos do contato com equinos têm atraído cada vez mais pessoas, com as mais diversas condições físicas e psíquicas. Para Carla e outros equoterapeutas, o objetivo é nítido: “É para que as pessoas possam ter, realmente, a vida transformada através do cavalo”.

Busca de soluções naturais para auxiliar no combate à ansiedade impulsiona aromaterapia, que já vinha em alta antes da pandemia
por
Soffy Soares
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29/06/2021 - 12h

Foto: Shutterstock

 

Durante a pandemia, diversos brasileiros começaram a  buscar soluções naturais para o controle de ansiedade, estresse e episódios depressivos. Um estudo realizado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) detectou o  aumento de 90% nos casos de depressão e de 50% nas crises de ansiedade ou sintomas de estresse agudo entre março e abril de 2020. Sendo assim, uma das alternativas que mais ganharam destaque foi a aromaterapia, um ramo da fitoterapia que utiliza óleos essenciais extraídos das plantas para auxiliar tratamentos físicos, emocionais e energéticos.

As essências são comercializadas em lojas de produtos naturais ou através de representantes de marcas. E desde 2006, são oferecidas através do Sistema Único de Saúde (SUS), podendo ser encontradas nas unidades básicas de atendimento. Entretanto, a aromaterapia serve apenas como suporte, o tratamento de transtornos da mente deve ser sempre conduzido por profissionais da saúde.

Segundo dados divulgados pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), a produção mundial de óleos essenciais é de aproximadamente 45 mil toneladas, avaliadas em US$ 700 milhões. Estima-se que a produção nacional de óleos essenciais seja equivalente a 13,5% da produção total, posicionando o Brasil como o quarto maior exportador em comparação aos outros países. A consultoria Euromonitor projeta que haverá um crescimento global de quase 12% no uso de óleos essenciais até 2023. Na América Latina, a expectativa de crescimento é de cerca de 10% nos próximos quatro anos.

De acordo com  levantamento disponibilizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o consumidor no país vem aumentando seu interesse no setor a níveis consideráveis, antes mesmo da pandemia. O informe aponta que os óleos essenciais (cítricos, excluindo os de laranja) apresentaram um crescimento de um total de 600.000 em toneladas vendidas, no ano de 2014, para um total de 900.000, também em toneladas, no ano de 2017. A demanda é em grande parte para as áreas de produtos de perfumaria e indústria cosmética, mas também é destinada às indústrias alimentícias e farmacêuticas.

A proprietária da Anber Aromas, Lea Berezutchi, teve a ideia de comercializar óleos essenciais durante a quarentena. “Senti muita falta do cheiro da natureza, da minha conexão com ela, enchi minha casa de plantas, e aí veio a ideia de manipular os aromas." A microempresária conta que as vendas superaram o esperado. Logo no primeiro mês de seu e-commerce, totalizou mais de 30 vendas. “Não conhecia muito sobre o assunto, fui me inteirar de como era feito, quais aromas existiam e depois de dois meses iniciei as vendas’’, completa.

O preço desses óleos encontra-se, hoje, em patamar econômico mundial elevado. Entretanto, a valorização durante a pandemia das chamadas práticas integrativas e complementares (PICS) – tratamentos que utilizam recursos terapêuticos baseados em conhecimentos tradicionais –, vem oferecendo novas oportunidades para produtos naturais crescerem ainda mais no mercado nacional e internacional.

Foto da capa: Shutterstock

Segundo levantamento da empresa Statista, serviços de entrega devem movimentar US$ 6,3 trilhões no mundo até dezembro
por
Giovanna Montagner
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29/06/2021 - 12h

Foto: Marcello Casal Jr | Agência Brasil

 

Com o avanço da pandemia da Covid-19, as compras online aumentaram. O mercado de delivery se tornou uma necessidade com a chegada da pandemia em 2020, estimulando o consumo e influenciando hábitos da população. Segundo o levantamento feito pela Statista – empresa especializada em dados de mercado e consumidores –,  estima-se um movimento de US$ 6,3 trilhões no delivery em todo mundo até dezembro.

Dados do setor mostram um salto de 155%, entre março e abril do ano passado,  em relação aos usuários de plataformas como Rappi, iFood e Uber Eats, quando o estimado para o período era de 30%. O crescimento de pedidos também acompanhou o crescimento de usuários, atingindo expressivos 975% de aumento.

O levantamento mostra o Brasil como destaque no segmento de delivery na América Latina em 2020. O País foi responsável por quase metade dos números do delivery, com 48,77%, seguido por México e Argentina, com 27,07% e 11,85%.

Reconstrução do Food Service e a mudança no consumo

Com os novos canais de vendas, o conceito de Food Service foi reconstruído e modernizado. A transformação no modo de comprar veio ao encontro com a profissionalização do marketing digital na gastronomia, vista principalmente na construção de plataformas e estratégias de vendas no delivery.

Comecei a trabalhar com delivery já na pandemia. E praticamente todos os clientes mandaram entregar ao invés de retirar na loja”, diz a empresária Natalia Kobbach, dona da Nati Gentil Brigadeiros – café especializado em bolos e brigadeiros, localizado na cidade de Mirandópolis.

A transformação digital também acelerou tendências criadas entre 2018 e 2019, como take away, quando você retira na loja, e o grab and go, no qual o consumidor vai ao restaurante, escolhe uma refeição que já está pronta, compra e vai embora.

Muitos profissionais tiveram de se reinventar e transformar o isolamento social em oportunidade para seus negócios. Foi assim que a confeiteira Patrícia Rezende,  que trabalha com delivery na região da Saúde e do Grande ABC/SP,  viu na pandemia uma oportunidade.

“As festas que estavam marcadas foram canceladas e eu comecei a oferecer bolos caseiros, voltei ao meu ponto inicial. Reduzi as grandes festas por pequenos kits. No meio de tanta turbulência, minha cartela de clientes aumentou.”

A aposta por bolos simples, pequenos e mais baratos, assim como doces caseiros e kits especiais, é uma das mudanças adotadas por confeiteiros para manterem seus negócios.

Por outro lado, Kobbach explica que, com o passar do tempo, as pessoas ficaram cada vez mais cansadas de não poder comemorar e começaram a procurar bolos de aniversário, sempre no menor tamanho, para pouquíssimas pessoas.

Ela enfatiza que não desistir do negócio é fundamental, apesar das dificuldades. Não é só saber fazer e nem vender o seu produto, é administrar as contas, o estoque, os funcionários, seu tempo, sua vida pessoal e proporcionar os melhores momentos para o cliente.

Imagem da capa: Marcello Casal Jr/ Agência Brasil

Diferentes estratégias de vendas adotadas pelos produtores, como delivery e e-commerce, e a adoção do cultivo de plantas como hobby pelos brasileiros, ajudaram alta no setor
por
Ana Vitória Marcelino Borges
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28/06/2021 - 12h

A jardinagem está se tornando um dos mais novos e promissores setores da agricultura brasileira na pandemia. Plantas e flores estão se tornando cada vez mais um objeto de conforto para as pessoas que se veem presas dentro de casa nesta pandemia. Este novo hobby proporciona uma sensação de conforto e paz para os consumidores, além de deixar suas casas mais bonitas e aconchegantes. Mesmo com a expectativa de baixa no mercado no começo de 2020, o ano ainda fechou com registro de alta para o setor, o que marca um grande interesse do consumidor, e uma boa previsão para os anos seguintes.

Lojistas e produtores vêm surgindo com novas estratégias de venda e distribuição, o que tem sido fundamental para a ascensão desse mercado. Uma das razões para os bons números esperados neste ano. Segundo o Instituto Brasileiro da Floricultura (Ibraflor), essa mudança no perfil do consumidor, agora voltado para a decoração de suas casas, e os novos formatos adotados pelos vendedores, como o delivery e o e-commerce, devem proporcionar um crescimento de 5% no mercado em 2021.

Ainda segundo o Ibraflor, houve um aumento registrado por alguns produtores de até 20% nos negócios. O que acontece é que um crescimento de 5% ainda é pouco considerando os anos anteriores à pandemia. A decaída no setor de festas e eventos fez com que as vendas de flores de corte caíssem consideravelmente, o que deixa os 8.200 produtores da área dependentes majoritariamente da venda de plantas.

Mesmo assim, esse novo interesse pelo plantio e por plantas em geral vem assumindo um papel muito importante na vida do consumidor brasileiro. É o que diz Aline Jorge, dona da loja online Botanismo, criada em 2020, “Nasci na pandemia, mas percebo sim o aumento da procura das pessoas por produtos que possam inspirar mais suas vidas e trazer mais inspiração para o cotidiano, que é um dos objetivos do Botanismo”.

Ela acrescenta que a marca vem crescendo desde o seu nascimento, em setembro de 2020, e que a cada mês a margem de lucro tem aumentado. A loja Botanismo é um e-commerce de objetos inspirados e com temas de plantas e flores, o que explica essa nova atenção do consumidor pelo assunto. Outro meio digital que explora esse interesse são podcasts e blogs botânicos. A PlantaconsCiência, por exemplo, é um blog criado por alunas da Escola Superior de Agricultura Luis de Queiroz (Esalq), que tem como proposta “divulgar ciência para aqueles que não têm acesso direto à academia e também para os próprios cientistas”, segundo matéria no site da Esalq. A própria instituição divulga esse projeto pelo podcast Estação Esalq, que também trata do assunto.

Em entrevista publicada no Jornal da USP, a psicóloga Leila Tardivo explica que “um ambiente agradável é capaz de melhorar o astral” e que “estar num lugar onde se sente bem é superimportante”.

Ao adotar esse hobby, o consumidor brasileiro ajuda no crescimento do setor no Brasil, fazendo com que lojas de plantas tenham uma oportunidade de ficar no mercado durante a pandemia.  O que não significa que tais lojas não tiveram que fazer mudanças para se adequar ao ambiente pandêmico.

”Como no começo da pandemia passamos por algumas dificuldades, fechamos a loja física e começamos a fazer o atendimento por Whatsapp, com a entrega dos produtos feita por delivery” conta Caroline Carvalho, responsável pela comunicação e marketing da loja Selvvva. “No começo da pandemia, foi necessário reduzirmos a equipe e a oferta de produtos e plantas. Posteriormente, alinhamos mês a mês conforme as demandas, e fizemos algumas novas contratações. Com relação aos produtos e plantas, em alguns momentos foi necessário diminuir a quantidade, em outros, fomos surpreendidos pela necessidade de aumento”, acrescenta Caroline.

Ainda assim, esse interesse pelo assunto se manteve alto nas pesquisas durante 2020, de acordo com o Google Trends. Apesar da informação acessível, as dúvidas são muitas entre os leigos. O que faz com que as lojas de plantas e artigos botânicos criem ou adicionem em suas contas no Instagram dicas e artigos de como cuidar, cultivar e plantar cada tipo de planta. Exemplos de contas no Instagram que foram criadas somente para estes propósitos são @plants.be e @prof.cactus.e.suculentas, que ajudam o consumidor a entender o mundo do plantio e, em alguns casos, vendem folhetos e artigos informacionais, sendo assim uma fonte de renda para o dono da conta.

 

Mesmo na pandemia, moeda local em Fortaleza estimula a economia e o crescimento de pequenos negócios
por
Sarah Catherine Seles
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27/06/2021 - 12h

A construção do Banco Palmas em 1998, o primeiro banco comunitário do Brasil, surgiu a partir da necessidade dos moradores do Conjunto Palmeiras, localizado na periferia de Fortaleza. Joaquim Melo, fundador do banco, conta que a urbanização do bairro fez com que o custo de vida aumentasse. “Em meados dos anos 90, quando o bairro foi urbanizado, começaram a chegar conta de água, luz, telefone, IPTU, essas taxas todas, e as famílias mais pobres começaram a vender os barracos e ir morar em outras favelas.”

A pergunta “por que nós somos pobres?” foi o fio condutor para compreender o estilo de vida das pessoas. A maioria das respostas foi: pela falta de dinheiro. Por isso, Melo e alguns companheiros do bairro decidiram realizar uma pesquisa sobre o hábito de consumo das famílias. O Mapa da Produção e do Consumo Local apontou que as compras mensais das famílias somavam R$ 1,2 milhão, com cerca de 25 mil moradores na época. “E se viu que a maioria das pessoas ali, por mais pobres economicamente que fossem, já tinha algum dinheiro circulando, o grande problema é que tudo vinha de fora do bairro”, conta Melo. 

Após analisarem a situação, surgiu a ideia de criar um banco comunitário para que o capital girasse entre os negócios locais. “Começou como um projeto de desenvolvimento local, mas a ideia sempre foi criar um circuito econômico local onde as pessoas pudessem consumir e produzir aqui mesmo”, explica o fundador. 

Um empréstimo inicial de R$ 2 mil da ONG Ceará Periferia deu início ao banco. “E o que a gente tinha era muito simples: um cartão de crédito de papelão que era feito no mimeógrafo. A gente organizou a carteira de crédito e nem tinha computador na época, nem tinha internet, a gente tinha um caderninho para fazer a contabilidade”, lembra. Os empréstimos eram feitos para os moradores, com intuito de incentivar os pequenos negócios do bairro. 

Além disso, a criação da moeda “palmas” foi essencial para que a circulação de dinheiro dentro da comunidade fosse efetiva, sistema que perdura até hoje. “A essência do banco comunitário, a sua natureza e seu maior serviço, é fazer esse dinheiro circular localmente. Quando o dinheiro circula localmente gera trabalho, gera renda. Então a moeda social é o coração da atividade do banco”, explica o empreendedor. 

A iniciativa se popularizou ao longo dos anos e se estruturou como Instituto Banco Palmas, que também oferece cursos profissionalizantes, oficinas e projetos para a comunidade. O banco passou a apoiar a criação de iniciativas similares em outros municípios do Brasil, formando a Rede Brasileira de Bancos Comunitários. “Cada município com seu próprio banco, mas todos foram criados e acompanhados inicialmente pelo Banco Palmas”, conta Melo. Hoje o banco funciona em todo país por meio da plataforma digital E-dinheiro. 

As ações impulsionaram a vida de diversos moradores, reunindo diversas trajetórias de vida junto ao banco. Uma pesquisa da Universidade Federal do Ceará mediu o impacto da iniciativa para os moradores e 90% apontaram melhora na qualidade de vida. “Não é só emprestar o dinheiro, é ajudar as pessoas a se mobilizarem, a se organizarem, a participar da comunidade e criar essa conexão com o bairro, com a vida e com a economia”, diz Melo. 

Katiana Oliveira, 38, moradora do Conjunto Palmeiras desde 1989, é um dos exemplos citados pelo fundador. Ela conheceu o Banco Palmas em 2013, quando precisou de um empréstimo para uso pessoal. Nas idas ao banco para pagar as parcelas, ela soube dos cursos oferecidos e se inscreveu para gastronomia e corte e costura. 

Após as especializações, Katiana participou da Oficina de Educação Financeira, que a ajudou a conquistar sua independência financeira e emocional. “Eu me apaixonei [pela educação financeira] porque comecei a aprender a administrar o dinheiro”, conta. Hoje, além de ser presidente do Centro de Nutrição e coordenadora do Prato Colorido (que oferece os cursos), ela também é assistente social do Banco Palmas. 

"Também participei de uma roda de conversa sobre empoderamento feminino e descobri que sofria violência psicológica e comecei a trabalhar nisso no grupo, me fortalecendo com as minhas colegas”, lembra Katiana. Ela descreve mudanças em todas as áreas de sua vida, tanto em seu ambiente familiar, quanto profissional. 

Então, a empreendedora enxergou potencial dentro da comunidade e desenvolveu projetos, oficinas, cursos e rodas de conversa. Como a Cozinha Delas, criada para auxiliar mulheres que passaram pelas mesmas situações que Katiana. O principal intuito é arrecadar dinheiro para as mulheres da comunidade com a venda dos pratos que aprenderam a fazer nas especializações. Eu não queria sofrer mais nenhum tipo de violência e eu queria que outras mulheres tivessem a oportunidade de superar e criar suas iniciativas e suas ações para sair dessa situação”, conta. 

Durante a pandemia, a desigualdade social foi escancarada e acentuou a fome no país. Por isso, Katiana utilizou seus projetos para lançar a campanha “Bucho Cheinho”.  Ela explica: “A ideia é que ninguém fique com bucho vazio nessa pandemia. Então a gente lançou essa campanha de arrecadação de alimentos, de doação de dinheiro e cesta básica, [sempre] acompanhando as famílias, fazendo monitoramentos, fazendo visitas”. 

Além da alimentação dos brasileiros, o período pandêmico acentuou a crise econômica que o Brasil já enfrentava. A Pesquisa Pulso Empresa, realizada pelo IBGE, mapeia o impacto da Covid-19 nas empresas, realizada em julho de 2020, os negócios representaram mais da metade dos estabelecimentos fechados apenas no primeiro semestre do ano e mais de 716 mil fecharam desde o início da pandemia. 

Os bancos comunitários, no entanto, foram em outra direção. Apesar do impacto sobre os pequenos negócios, houve um aumento nas empresas registradas na plataforma E-Dinheiro. “Por outro lado, os bancos comunitários cresceram na pandemia, pelo fato de serem digitais e estarem presentes na periferia. Nós recebemos muitas doações, tanto do poder público, da prefeitura, como do empresariado”, comenta Joaquim Melo. 

A Rede Brasileira de Bancos Comunitários, em conjunto com os líderes locais, criou contas digitais para os moradores. Com doações de R$ 100 a R$ 200, eles puderam comprar do comércio do próprio bairro, “salvando a vida das pessoas porque tinham o que comer e salvando também as economias locais”, conclui Melo.