Reforma tributária prevê devolução de impostos para famílias cadastradas no CadÚnico
por
João Moura
|
22/05/2026 - 12h

Para os brasileiros com baixa renda, cada compra no mercado carrega um peso invisível: o imposto embutido no preço dos alimentos, do sabão, do gás de cozinha. Um fardo silencioso que consome parte significativa de uma renda já escassa. A reforma tributária trouxe uma proposta para aliviar esse peso. A devolução de impostos prevista no novo sistema reacendeu o debate sobre o papel do cashback tributário no combate à desigualdade social. A ideia é devolver parte dos tributos pagos no consumo para famílias de baixa renda cadastradas no CadÚnico.

A economista Juliana Inhaz,, em entrevista à AGEMT, vê potencial na proposta, sobretudo pela promessa de simplificar o sistema tributário brasileiro e dar mais transparência aos impostos cobrados em produtos e serviços. "A reforma traz um sistema mais simples e mais transparente. As pessoas vão saber o quanto estão pagando de imposto, e isso pode fazer com que elas passem a prestar mais atenção nesse aspecto", afirma.

Hoje, poucos percebem. A falta de clareza sobre a carga tributária faz com que a maior parte dos brasileiros não note o quanto paga de imposto a cada ida ao supermercado. "Talvez a pessoa olhe para um produto simples e perceba que há um valor elevado de imposto embutido ali. Isso pode gerar uma conscientização maior sobre tributação e cidadania fiscal", diz Juliana.

O potencial existe. Mas os limites também. A especialista ressalta que o impacto da medida dependerá diretamente da forma como a política será implementada. "Se o modelo funcionar apenas como uma devolução proporcional ao consumo, famílias de baixa renda tendem a receber muito pouco, porque consomem menos", explica. A saída, segundo ela, está no desenho do sistema. Para que o cashback seja efetivamente redistributivo, parte dos tributos arrecadados de consumidores de maior renda precisaria ser revertida para as famílias mais vulneráveis. "O impacto pode ser favorável se houver redistribuição. Caso contrário, o efeito tende a ser pequeno", afirma.

Há ainda outro obstáculo, menos visível, mas igualmente concreto: o acesso digital. Muitos brasileiros ainda enfrentam dificuldades para navegar em plataformas governamentais e acessar benefícios financeiros. "Muita gente tem dificuldade para acessar sistemas digitais, fazer login e entender os processos necessários para solicitar benefícios como, por exemplo, acesso ao Gov.Br. Isso acaba afastando parte da população", avalia.

E mesmo que o acesso seja garantido, o cashback, sozinho, não resolve o que é estrutural. "O que realmente melhora a vida das famílias é aumento de renda, produtividade, qualificação profissional e crescimento econômico. Sem isso, mesmo com benefícios, o poder de compra continua comprometido", explica Juliana. Ainda assim, ela enxerga no novo modelo uma oportunidade além da devolução financeira: a de engajar o consumidor na fiscalização tributária e ampliar a formalização da economia. "Quando o consumidor entende que pode receber algum retorno, ele tende a exigir mais transparência nas transações. Isso ajuda a reduzir a informalidade e a evasão fiscal", conclui

Parcelados para sobreviver: como o endividamento virou rotina entre as famílias brasileiras
por
Eduarda Amaral
Wildner Félix
|
22/05/2026 - 12h

No Brasil, parcelar deixou de ser uma escolha pontual. Virou rotina. Da compra do mercado ao remédio na farmácia, o crédito ocupa um espaço cada vez maior no orçamento das famílias e transforma a dívida em estratégia de sobrevivência. Atualmente, 80,2% das famílias brasileiras convivem com algum tipo de débito, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), o maior índice registrado desde 2010. O cartão de crédito é a principal modalidade de dívida, seguido pelos carnês de lojas. Confira os principais dados desta reportagem no nosso carrossel do Instagram. 

Grafico sobre as principais modalidades da dívida brasileira
Principais modalidade de dívida - Arte: Eduarda Amaral/Canva

Cerca de 29% das famílias estão inadimplentes, com contas atrasadas há mais de três meses, e 12% afirmam não ter condições de pagar esses débitos. Em um cenário de juros altos, renda baixa e aumento do custo de vida, o crédito deixou de ser acesso ao consumo supérfluo e passou a sustentar despesas básicas. 

A dívida no Brasil não nasce do desejo. Ela nasce da carência. O país terminou 2024 com quase 82 milhões de pessoas que não conseguiram pagar as contas em dia, o maior patamar desde 2012, segundo dados do Banco Central. Desde o encerramento da primeira fase do programa Desenrola, em julho de 2023, foram 9 milhões de novos inadimplentes e para boa parte dessas famílias, o endividamento não foi uma escolha impulsiva, mas um mecanismo de sobrevivência. 

"A dívida das famílias brasileiras tem caráter estrutural, baseada na má distribuição de renda e no monopólio das grandes redes na distribuição de alimentos e itens essenciais", afirma Paulo Romaro, professor de finanças da PUC-SP. "O crédito fácil não é a causa: é a solução disponível para as famílias de baixa renda. Quando os itens de primeira necessidade pesam no orçamento ou quando algum membro perde sua renda, o endividamento via crédito é a saída disponível.”

Essa engrenagem foi investigada de perto pelo geógrafo Kauê Lopes dos Santos, professor da Unicamp, entrevistado no episódio "Parcelados e endividados no Brasil" do podcast Café da Manhã. Em seu livro Parcelado: dinâmicas de consumo na periferia, resultado de 150 entrevistas em bairros como Brasilândia e Jardim Helena em São Paulo, argumenta que o crédito não é apenas um facilitador do consumo. É um modo de gerir a escassez. 

Enquanto o Estado e o mercado falham em oferecer saneamento e transporte de qualidade, as grandes redes de varejo são onipresentes. A compra parcelada se torna o motor de um ciclo que nunca se encerra: a publicidade estimula o desejo, a obsolescência dos produtos reduz seu tempo de vida e a sobreposição de parcelas compromete a renda de forma contínua, mês após mês. 

O geógrafo chama esse fenômeno de endividamento crônico. "Tudo aqui foi comprado parcelado", resumiu Maria do Carmo, uma de suas entrevistadas, que se orgulhava de uma TV de 43 polegadas mesmo vivendo em uma casa com marcas de umidade e rachaduras nas paredes, um retrato fiel da modernização do consumo que coexiste, sem contradição aparente, com a precariedade estrutural.

A ausência de educação financeira agrava o cenário, mas Romaro é preciso ao delimitar seu papel: "A população não consegue avaliar a situação em que vai se meter." Ainda assim, o economista ressalta que ela seria fundamental em um contexto diferente. "Se o indivíduo soubesse avaliar as opções de onde buscar os recursos necessários e mais adequados para a sua situação, seria muito bom", pondera, sobretudo diante de juros estratosféricos, como os do rotativo do cartão de crédito, que podem ultrapassar 400% ao ano.

Somam-se ainda as bets: "os jogos de azar em profusão viciam, causando um problema endêmico de saúde pública", aponta o professor. Os efeitos se espalham pela vida cotidiana. "Como pagar a mensalidade da escola do filho? Como pagar o aluguel em atraso? O impacto na saúde mental e nas relações é natural que aconteça." 

O endividamento no país tem um recorte racial claro. Pessoas pretas e pardas concentram os maiores índices de insegurança alimentar, moradia precária e informalidade. O rendimento médio dos negros é 40% inferior ao dos não negros diferença que persiste em 32% mesmo entre quem tem ensino superior, segundo o DIEESE. Quando a crise chega para essa parcela da população, o cartão de crédito passa a ser a última linha de defesa para colocar comida na mesa.

No entanto, esse recurso voltado para a baixa renda é também o mais caro, transformando o socorro emergencial em armadilha estrutural. Em Parcelado, o autor mostra que a população pobre e negra, antes excluída do consumo, está hoje subordinada ao capital financeiro. Essa inclusão, celebrada como conquista social, revelou seu lado sombrio nas periferias: a dívida chegou antes da infraestrutura e do saneamento, capturando uma demanda reprimida por décadas.

Com milhões de brasileiros negativados, o governo federal tem apostado em programas de renegociação de dívidas para conter a inadimplência e aliviar o orçamento doméstico. Entre as principais iniciativas recentes estão o Desenrola Brasil e a sua nova versão, o Desenrola 2.0, criados para fechar acordos de pagamentos e devolver o poder de compra à população.

Lançado em maio de 2026, o Desenrola 2.0 incentiva brasileiros com renda de até cinco salários mínimos e que possuem dívidas atrasadas entre 90 dias e dois anos. A medida oferece descontos de até 90% do valor total e permite o uso de até 20% do saldo do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para quitar débitos.

No entanto, para ter direito aos benefícios do programa, o participante não pode comprometer sua renda com apostas digitais pelo período de um ano, um alerta ao comportamento recente da população que tem intensificado o cenário de endividamento no país. 

Ainda assim, Kauê Lopes é direto sobre os limites da iniciativa e afirma que essas políticas têm caráter momentâneo e não resolvem a estrutura do endividamento crônico no Brasil. “Você pode até resolver uma circunstância particular num determinado momento, mas a tendência é que isso volte mais para frente”, explica.

O endividamento, portanto, não é um dado neutro: ele tem cor, endereço e nome. E enquanto o debate político se concentra em medidas paliativas, a raiz do problema permanece intacta. Para Romaro, o combate ao endividamento exige mais do que renegociação de dívidas ou educação financeira. Enquanto parte significativa da população permanecer próxima da linha da sobrevivência, o crédito continuará funcionando como extensão da renda. A saída, segundo ele, passa por distribuição de renda, empregos de melhor qualidade e políticas de desenvolvimento econômico.

Alta do petróleo afeta marcas que buscam estratégias para evitar o repasse imediato ao consumidor
por
Laura Petroucic
|
21/05/2026 - 12h

Os conflitos no Oriente Médio vêm provocando impactos em diferentes setores da economia mundial, como combustíveis, alimentos e transporte. Um dos segmentos que muitas vezes fica de fora do debate é a indústria da moda. O aumento no preço do petróleo impacta diretamente toda a cadeia de produção têxtil em um mercado marcado pela inflação e pela dependência de importações. A designer Brenda Saad Santos Guimarães, em entrevista à AGEMT, comenta sobre os esforços de marcas para reduzir os impactos da alta nos custos de produção: “Sempre é possível definir estratégias antes de mudar o valor final, como entender o que pode ter um custo menor, características do produto que podem ser mais simples para que caiba no orçamento, número de peças produzidas, onde serão distribuídas ou até mesmo reduzir a margem de lucro no produto para manter a constância de vendas”, diz Brenda.

Justamente por causa dessas estratégias que, muitas vezes, esse aumento pode passar despercebido pelo consumidor final, ao menos em um primeiro momento. No caso do algodão, os conflitos afetam o combustível utilizado em máquinas agrícolas, o transporte de mercadorias, fertilizantes e até o funcionamento da indústria responsável por transformar a fibra em tecido. Já com as fibras sintéticas, como poliéster, nylon e acrílico, o impacto é ainda mais direto: esses materiais são derivados do petróleo. Segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), há relatos de aumentos de até 40% no poliéster desde o início do conflito. Além de matéria-prima mais cara, o setor também enfrenta dificuldades logísticas. Com o Estreito de Ormuz sendo uma das áreas mais instáveis e afetadas, rotas marítimas foram alteradas por questões de segurança, resultando em custos de frete elevados. Brenda nota que o aumento foi constante nos últimos anos. “Fatores como guerras, eleições ou altas repentinas de demanda por conta de tendências influenciam na porcentagem desse aumento”, explica. Para ela, a oscilação da economia global já faz parte da rotina da moda, principalmente em um mercado dependente de importações.

O impacto é ainda maior para pequenas marcas que não podem se dar ao luxo de cortar lucros para manter vendas. A designer destaca que a cadeia têxtil brasileira perdeu força nacionalmente, abrindo mais espaço para materiais importados, o que dificulta ainda mais produtores independentes. “Por exemplo, pedidos mínimos de certos materiais que às vezes são mais do que uma marca independente pode investir. Os planejamentos das marcas precisam trabalhar com antecedência e criar acordos que garantam precauções para situações como inflação absurda ou uma nova pandemia”, afirma.

Apesar das tentativas, o consumo de roupas tende a cair em períodos de inflação, que não é considerado essencial como alimentação ou transporte. Uma alternativa nestes momentos são as fast fashions de plataformas internacionais, como a SHEIN, chinesa, que são de pior qualidade mas dificultam a competição por preço. 
“É um momento de duas balanças, dois pesos. Tem muita coisa sendo produzida, muita coisa sendo consumida, aumento do preço de venda, instabilidade do preço de produção”, resume Brenda, que acredita que estamos em um momento de grande transformação em vários pilares da moda, e que só serão compreendidos em sua totalidade quando estivermos afastados disso. 
 

Evento cultural atrai visitantes para a cidade do interior mineiro
por
Beatriz Paulino
Camila Bucoff
Giovanna Britto
|
21/05/2026 - 12h

A cidade de Itajubá, no sul de Minas Gerais, realizou nos dias 23, 24 e 25 de abril a "Expo Itajubá", uma tradicional festa de rodeio e shows musicais no Parque de Exposições. O evento anual movimenta a população, com menos de 100 mil habitantes, e atrai visitantes de diferentes lugares. Conhecida por receber grandes nomes da música nacional, principalmente sertanejo, e oferecer estrutura com áreas VIP, pista e camarotes, a expo virou um dos principais eventos da região. Comida, bebida e festas tradicionais também se misturam como parte da experiência.

O envolvimento do Sindicato Rural de Itajubá e a participação de pequenos comerciantes, que oferecem hotéis, restaurantes, transportes e alimentos para o público, revelam uma dinâmica que impulsiona a economia do município e atrai novos olhares para a região. Eventos dessa magnitude tendem a beneficiar diversas cidades, principalmente as pequenas, como é o caso de Itajubá que tem políticas públicas voltadas para a cultura, estruturadas pelo Plano Municipal de Cultura (PMC) e integradas ao Sistema Nacional de Cultura.

A recepção de turistas, a participação da população local e as políticas voltadas para a movimentação cultural servem como base para melhoria do fluxo financeiro durante o evento. O Secretário Municipal de Agronegócio de Itajubá, Edgar Moreira da Silva, em entrevista à AGEMT, explica como isso ocorre. “Os produtores expõem seus bovinos, seus cavalos, que são suas fontes de renda. Ao expor, eles têm uma valorização desses produtos, e isso tudo gera um fortalecimento na economia e também um ânimo para o setor”, diz Silva.

Ele reforça que essa movimentação ocorre em uma série de segmentos, além do econômico. "Também afeta o setor produtivo agropecuário, o setor logístico, os ambulantes, além de toda a equipe de produção e de infraestrutura”. Silva estima que a Expo movimenta cerca de 4 milhões de reais por ano para o município e, apesar de não haver nenhuma pesquisa quantitativa a respeito do aumento no faturamento do comércio durante o período do evento, relatos de comerciantes são animadores quanto ao crescimento de vendas. 

Acontecimentos desse porte também estimulam a geração de empregos temporários e o aumento de fontes de arrecadação como alvarás, notas fiscais e produtos gerais. Os shows, principais atrações, atraem caravanas de vários estados e regiões, comprovando o alcance para além da comunidade local. As festas também envolvem os cidadãos para além do âmbito cultural e de entretenimento, fazendo com que eles vivam na prática o evento. O morador de Itajubá Luiz Augusto Villanacci, que também é fotógrafo da Expo, compartilha o orgulho em participar de um registro tão especial para ele e para o município. "A Expo faz parte da história da cidade, e poder documentar isso com imagens é uma responsabilidade grande. O evento passa, o show acaba, a estrutura é desmontada, mas a fotografia fica. No futuro, essas imagens ajudam a contar como a cidade viveu aquele momento” afirma Villanacci.

Foco em dois copos sendo brindados por mulheres. Os copos possuem logo e estética que remete ao evento de Itajubá.
Comemoração com copo temático da festa. 
Luiz Augusto Villanacci / Acervo Pessoal

Para Villanacci, fotografar a Expo é retratar o município com outro olhar, indo além do show ou do artista para destacar a força do evento, a presença do público e a capacidade da cidade de proporcionar grandes eventos. O jovem compartilhou na prática como isso funciona: “Ontem vi uma foto que fiz do Zezé Di Camargo virar capa de notícia em um portal de sertanejo. Ver uma imagem feita aqui em Itajubá ganhando esse alcance mostra como a fotografia também ajuda a levar o nome da cidade para mais pessoas” anima-se.

Um palco de show, com o cantor Zezé di Camargo e sua banda se apresentando. Efeitos de fogo ficam em evidencia.
Show do Zezé Di Camargo na Expo Itajubá 2026.
Luiz Augusto Villanacci / Acervo Pessoal

 

Com 12 anos de trajetória, o espaço criado pelo artista visual aposta em formação criativa para transformar a produção cultural em modelo econômico viável.
por
Manuela Morandin
Giovana Laurelli
|
21/05/2026 - 12h

Na economia criativa, viver de arte costuma ser visto como exceção. Na Casa Locomotiva, em São Paulo, a proposta é justamente inverter essa lógica e tratar a arte não apenas como expressão, mas como fonte de renda. Fundada pelo artista visual Evandro Malgueiro, conhecido como Gota, a casa nasceu da ideia de reunir artistas em um espaço onde fosse possível produzir, ensinar e criar um ambiente permanente de troca.  Gota afirma que além da atuação artística, ele trabalha com produção cultural e audiovisual, dirigindo videoclipes e realizando produções de fotografia, imagem e vídeo. A Casa Locomotiva, segundo ele, começou como um projeto coletivo, a partir do convite a amigos ilustradores para construir um lugar que fosse, ao mesmo tempo, estúdio, escola e ponto de encontro.  

A casa existe há 12 anos e está em seu segundo endereço. Antes de chegar à Vila Madalena, começou em um sobrado na Lapa. O crescimento, segundo Gota, não veio de um grande investimento inicial, mas de uma construção gradual. “O dinheiro veio vindo junto com a casa”, resume. No início, a lógica era alugar uma pequena casa e começar. Hoje, mais de 30 pessoas vivem da arte a partir do ecossistema criado pela Casa Locomotiva. O espaço opera com diferentes frentes de atuação, cursos regulares, turmas de desenvolvimento artístico, eventos, oficinas e atividades voltadas ao mercado corporativo. A diversificação ajuda a manter o projeto em funcionamento mesmo quando uma área tem menor demanda.  

Do ponto de vista financeiro, o modelo se apoia em uma combinação de receitas recorrentes e atividades pontuais. Em consulta aos canais públicos da própria casa, o curso de teatro popular aparece com mensalidade de 395 reais, em formato presencial, com 3 horas semanais. Já oficinas avulsas divulgadas em redes sociais e plataformas de eventos aparecem com valores como 150 e 200 reais, dependendo da atividade, do número de vagas e da proposta artística. Considerando que a escola reúne cerca de 120 alunos, uma mensalidade próxima ao valor público encontrado para um dos cursos indicaria um faturamento em torno de 47 mil por mês, com pelo menos 20% dos alunos sendo bolsistas. 

Alguns alunos permanecem por anos, porque, segundo Gota, a formação artística não termina em um certificado, sempre há um novo projeto, uma nova linguagem ou uma nova etapa de criação. Na visão econômica, a recorrência é um dos pontos centrais para a sobrevivência de espaços culturais. Gota observa que muitos projetos dependem de editais, governos ou apoios instáveis. Por isso, encontrar uma atividade com entrada previsível de receita é fundamental. No caso da Casa Locomotiva, uma das frentes que cumprem esse papel são as oficinas para o mercado corporativo.  

Essas oficinas recebem grupos de empresas para experiências artísticas direcionadas ao desenvolvimento do pensamento criativo. Para Gota, a técnica pode ser aprendida em muitos lugares, mas a prática artística em grupo tem força para estimular inovação em diferentes profissões. “A arte é onde você treina isso”, afirma. O projeto também visa uma expansão. Uma das ideias é criar as chamadas “estações Locomotiva”, fortalecendo espaços em outras regiões da cidade, com metodologias, professores e apoio a iniciativas já existentes. Gota, que veio da Zona Leste, vê nesse movimento uma forma de enfrentar a dificuldade de fazer o dinheiro circular para além dos bairros tradicionalmente associados ao consumo cultural.  Mais do que uma escola de arte, a Casa Locomotiva funciona como um caso de empreendedorismo cultural. Em vez de tratar a arte como atividade paralela à economia, o espaço mostra que ela pode gerar trabalho, sustentar profissionais e oferecer ferramentas criativas para outras áreas. Assista a reportagem em vídeo. 

Dados da Pnad Contínua, do IBGE, mostram números crescentes de precarização, subocupação e desistência pela procura
por
Anna Baisi e Maria Paula de Sá
|
05/07/2021 - 12h
Taxa de desemprego no Brasil bate recorde no primeiro trimestre. Foto: Dario Oliveira/Estadão Conteúdo/Divulgação
Foto: Dario Oliveira/Estadão Conteúdo/Divulgação

A taxa de desemprego no Brasil, para o 1º trimestre de 2021, de janeiro a março, cresceu para 14,7%, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua divulgados pelo IBGE no dia 27 de maio. Isso significa que 14,8 milhões de brasileiros estão à procura por trabalho no país, e esse é o maior número de toda série histórica desde o início da contagem, em 2012.

No levantamento anterior, referente ao trimestre anterior (outubro a dezembro de 2020), o resultado representa um aumento de 6,3%. Isto é, indica que, neste momento, cerca de 880 mil desocupados passaram a procurar emprego. Em relação ao ano passado, o número aumentou 15,2%, frente ao mesmo trimestre, que fechou com 12,8 milhões de pessoas, significando 1,956 milhão de pessoas a mais procurando trabalho.

Clemente Ganz Lúcio, sociólogo e ex-diretor técnico do Dieese, afirma que a taxa de desemprego já vinha bastante elevada antes da pandemia. Ele aponta também para o aumento dos chamados desalentados, categoria que abrange as pessoas que, embora sem um trabalho, não são computadas como desempregadas, porque não estavam procurando quando foram contatadas pelo IBGE.

No contingente de pessoas desalentadas - grupo de pessoas que não buscam trabalho, mas que gostariam de conseguir uma vaga e estavam disponíveis para trabalhar -, somou 6 milhões neste 1º trimestre de 2021, o maior número desde o início da série histórica da Pnad Contínua, iniciada em 2012, quando os desalentados somavam 1,9 milhão.

Isto significa uma estabilidade em relação ao trimestre de outubro e dezembro de 2020. Em um ano (janeiro a março de 2020), quando a taxa foi estimada em 4,3%, o resultado, por outro lado, foi de elevação.

"O fato da economia não gerar postos de trabalho coloca as pessoas na condição de desistir de procurar, apesar de precisar de um posto de trabalho. Então, o desalento e o desemprego crescem com a pandemia", diz Ganz Lúcio.

O sociólogo acrescenta que, sempre que os desalentados saírem da sua situação e passarem a ter uma postura ativa de procura de emprego, a tendência é que aumente a pressão sobre a taxa de desemprego. 

"Um outro cenário: a taxa de desemprego permanece elevada sem necessariamente crescer, mas também permanece muito elevado o contingente de pessoas desalentadas que não vão procurar emprego, e também que continuaram sem procurar trabalho, o que poderá ter como consequência o aumento da pobreza, da miséria e da fome no país", reflete.

De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a população ocupada (trabalhando) no país chegou a 85,7 milhões no trimestre de janeiro a março de  2021, e, em relação ao mesmo trimestre do ano anterior (janeiro a março de 2020), este indicador apresentou queda, com redução de  6,573 mil pessoas. 

Trabalho informal x trabalho formal

Existem diversas formas de um trabalho ser considerado informal. O que vai determinar isso é a não assinatura na carteira, ou seja, não ter vínculo empregatício e benefícios trabalhistas como férias, licença-maternidade, aposentadoria, seguro- desemprego, entre outros. Porém, vale destacar que quem se dedica ao trabalho informal, pode sofrer certa instabilidade financeira.

Por outro lado, o trabalho considerado formal é aquele que é registrado  dentro da CLT, no qual o funcionário pode contar com proteção e amparo das leis trabalhistas. Neste, há uma maior estabilidade financeira, garantida por um salário pago mensalmente, além de benefícios como auxílio-alimentação e transporte, plano de saúde  etc.

No Brasil, porém, nem sempre há uma escolha em relação ao trabalho informal. Por muitas vezes, os profissionais acabam não tendo alternativa, e, em meio a vagas cada vez mais concorridas e que exigem um alto nível de qualificação, a solução é recorrer à informalidade, não amparada pela CLT.

Uberização do trabalho

Atualmente, o trabalho informal nem sempre é uma opção. O fenômeno de “uberização” das relações de trabalho se dá através de uma exploração de mão de obra por  poucas e grandes empresas de aplicativos e plataformas digitais. Elas têm como principal característica a ausência de vínculos empregatícios com os trabalhadores.

Esses são os chamados trabalhadores por conta própria, e, na categoria, estão 23,8 milhões de brasileiros, apresentando um crescimento de 2,4% na comparação com o trimestre anterior, significando a adição de 565 mil pessoas neste contingente. Em relação ao mesmo período do ano passado, o indicador, neste trimestre, apresentou estabilidade.

Imagem da capa: 

Valdecir Galor/SMCS/Divulgação

Novos arranjos, como PIX, iniciadores de pagamento e Open Banking, prometem competição entre bancos e comodidade para clientes
por
Camila Barros
|
05/07/2021 - 12h
O sistema de transferência via WhatsApp começou a funcionar em maio
O sistema de transferência via WhatsApp começou a funcionar em maio.

O serviço de transferência de dinheiro via WhatsApp começou a funcionar no mês de maio. O WhatsApp Pay, como ficou conhecido, foi liberado pelo Banco Central (BC) em 31 de março, na esteira de aprovações de medidas que diversificam o sistema financeiro no Brasil. Ainda no primeiro semestre de 2021, a autarquia planeja lançar novidades para o PIX e dar início à 2ª fase da implementação do Open Banking.

O WhatsApp Pay se tornou possível com a aprovação, em outubro de 2020, dos iniciadores de pagamento (Pisp). Com esse arranjo, é possível que uma instituição faça o recurso sair da conta do pagador e cair na do recebedor mesmo sem deter acesso direto à conta de nenhum deles.

Em nota, o BC afirmou que “as autorizações concedidas poderão abrir novas perspectivas de redução de custos para os usuários de serviços de pagamentos”.

A instituição vem acelerando suas apostas em novas tecnologias depois dos indicativos positivos de aderência ao PIX: em abril deste ano, foram feitas mais transações com ele do que com TED, DOC, boletos e cheques somados. Em 6 meses de funcionamento, o PIX movimentou R$ 1,1 trilhão, com mais de um bilhão de operações e 75 milhões de brasileiros (45% da população) usando a tecnologia.

 

PIX vs. WhatsApp Pay

Assim como o PIX, o WhatsApp Pay se propõe a trazer mais facilidade e rapidez nas transferências. Segundo Arthur Igreja, especialista em tecnologia, inovação e finanças, existem intersecções grandes entre os dois sistemas.

De acordo com a assessoria do BC, no entanto, os dois serviços não são concorrentes. “O PIX foi instituído para buscar atingir objetivos públicos, como redução de custos para usuários finais, apoiar o processo de inclusão financeira e oferecer para a população um instrumento de pagamento que seja universal em termos de utilização”, afirma a autarquia, “os arranjos de pagamento privados possuem objetivos privados e o Banco Central atua apenas para evitar distorções no mercado e para avaliar a segurança mínima do arranjo”.

Para o futuro, segundo a assessoria do aplicativo de mensagens instantâneas, “o plano é trabalhar com o Banco Central para integrar o PIX aos pagamentos no WhatsApp”. A previsão é que, seguindo o cronograma estabelecido no Open Banking, em agosto de 2021 o PIX passe a aceitar iniciadores de pagamento como participantes.

Aderência

Segundo Arthur Igreja, o maior entrave para a aderência dos usuários às novas ferramentas é a desconfiança em relação a segurança. “Existe ainda muito forte no imaginário das pessoas os problemas de segurança do WhatsApp”, aponta. Além disso, ele relembra que foi necessário algum tempo e muita divulgação para a população digerir e entender como funcionava PIX. Com o WhatsApp Pay, assim como para outros iniciadores de pagamento no mercado, o processo deverá ser o mesmo.

Crise econômica e sanitária fortalece paradigmas sociais que submetem as mulheres à síndrome da impostora
por
Luíza Feniar Migliosi
|
04/07/2021 - 12h
Ilustração: Icons 8 from Ouch!
Ilustração: Icons 8 from Ouch!

A desigualdade de gênero antecede o surgimento da Covid-19, mas a pandemia evidenciou a fragilidade que o mercado de trabalho representa para as mulheres. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgados em abril de 2021, o percentual de mulheres que trabalhavam foi de 45,8% no terceiro trimestre de 2020, aproximando-se do nível mais baixo já registrado desde 1990, que corresponde a 44,2%.

Ao comparar esse trimestre do ano passado com o mesmo período de 2019, que registrava 53,3% na participação, a queda das mulheres no mercado de trabalho foi de 7,5 pontos percentuais. Para os homens, no mesmo período, houve um recuo de 6,1 pontos percentuais – de 71,8% para 65,7%.

A equidade de gênero encontrou uma barreira inconciliável com a pandemia. A segregação ocupacional foi um dos parâmetros mais evidenciados durante esse período. Segundo dados do Ipea, as áreas em que há mais mulheres trabalhando foram as que mais perderam população ocupada. As trabalhadoras femininas estão mais presentes em categorias específicas, como, por exemplo, estética, serviços de limpeza doméstica e empresarial, comércio, turismo e serviços em geral. A divisão na área de atuação reforça os padrões sociais.

A crise sanitária e econômica acentuou as distâncias salariais entre os gêneros. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), realizada pelo IBGE, revelou que, ao ocupar cargos de gerência ou direção, o rendimento médio das mulheres foi de R$ 32,35 por hora em 2020. Para os homens, R$ 45,83. A diferença de R$ 13,48 superou a observada em 2019, que correspondia a R$ 9,21. Os dados também comprovam que os salários inferiores permaneceram para cargos com formação em nível superior, com pagamentos em torno de R$ 5 mil para mulheres e R$ 8 mil para os homens.

Para a psicóloga Fernanda Reis, a sociedade contribui para falta de confiança das mulheres. “Por décadas, as mulheres viveram em rotinas em que se expor de maneira espontânea e assertiva trazia muitos prejuízos, como rótulos de promiscuidade e, até mesmo, punições sociais, por motivos financeiros, de classes entre outros. Além disso, nota-se em maior intensidade a necessidade de agradar e de aceitação”, conclui.

Artigo publicado na Harvard Business Review, que viralizou na internet, escrito por Ruchika Tulshyan, premiada estrategista de inclusão, escritora e contribuinte do New York Times, e Jodi-Ann Burey, escritora e oradora, mostrou que o ambiente de trabalho tem influência direta nas discrepâncias de desempenho e responsabilidades entre os gêneros. Essa falta de autoconfiança pode ser resultado da chamada síndrome da impostora.

Conceito desenvolvido pelas psicólogas Pauline Rose Clance e Suzanne Imes, foi denominado, originalmente, como “imposter phenomenon” (“fenômeno impostor”, em tradução livre), em 1978. A pesquisa concluiu que as mulheres duvidavam de suas habilidades e sentiam-se como fraudes, questionando seu desempenho, conquistas e elogios. “Apesar das notáveis ​​realizações acadêmicas e profissionais, as mulheres que vivenciam o fenômeno impostor persistem em acreditar que realmente não são brilhantes e enganam quem pensa o contrário”, postula o estudo publicado pela Georgia State University.

Para a analista júnior de atendimento ao cliente, Geysa Losovoi, a ansiedade começou com os processos seletivos no final da graduação. Quando conquistou o estágio, foi obrigada a lidar com situações em que as questões de gênero eram predominantes. “Eu atuava na área de manutenção predial de um banco e presenciei diversos eventos que colocavam minha capacidade em prova. Não pelos meus superiores, mas, por vezes, pelos meus pares e pelos operadores.”

Apesar do seu trabalho atual ter um ambiente mais acolhedor e apresentar muitas referências de liderança feminina, Geysa ainda se sente insegura. Durante as conversas com sua chefe, ainda questiona suas atitudes e a possibilidade de ser demitida. “Inclusive, no primeiro dos feedbacks, não consegui conter meu medo e chorei na frente dela”, relata a analista.

A maioria das mulheres experimentam a síndrome da impostora durante grande parte da vida. Na faculdade, seja pela procura do primeiro estágio ou por participar das associações estudantis, o período de início de carreira coloca em xeque a bagagem desenvolvida durante a vida acadêmica. “A sensação de incapacidade, como podemos dizer, ou também senso de desvalia, pode nos impedir e lentificar algumas decisões e mudanças que precisam ser feitas em nossas vidas. Pensamos em um comprometimento maior se há prejuízo em vários eixos da vida da pessoa, como trabalho, família e relacionamentos”, conclui a psicóloga Fernanda Reis.

Lívia* é analista júnior da área comercial e relatou que, durante o final do segundo ano do seu curso, iniciou uma depressão leve e precisou procurar ajuda psicológica, o que a fez perceber que “a faculdade criou questões com a síndrome da impostora, não se achar capaz o bastante para lidar com tudo, se sentir inferior”. A experiência do primeiro estágio também contribuiu para que permanecesse receosa nos trabalhos futuros. “Principalmente, porque meu primeiro estágio foi no banco, um ambiente muito masculino. Sofri por ser mulher e estagiária. Senti que era menor e criei um medo de me desenvolver lá dentro.” 

Todavia, essa não é a única área marcada pela segregação ocupacional. Para Aline*, arquiteta recém-formada, por trabalhar em um campo de criatividade, a comparação acompanha todos os processos. “Acredito que foi quando fui idealizar o primeiro projeto da minha carreira que me deparei com a síndrome de impostora de fato, porque era a primeira vez que eu estava desenhando algo que era fruto da minha própria bagagem”, diz.

Além disso, a arquiteta relata que as redes sociais são fatores de grande impacto para as inseguranças. O Instagram, meio muito utilizado para divulgar projetos, foi a principal ferramenta que a fez questionar sua capacidade, já que a realidade da mídia transmite uma fluidez sem esforços que, segundo Aline, contribui para reforçar a sensação de impostora. “Não se mostra o lado B da coisa, mas, mesmo sabendo disso, é difícil não comparar com a minha realidade. Como meus colegas estão tão bem-sucedidos, tão seguros, e eu estou aqui, mergulhada na ansiedade sem conseguir dar um passo nos meus projetos?”, questiona.

“Uma vez que a síndrome está instaurada, ela irá repercutir em todos os eixos psicológicos, bem como a forma de enfrentamento sobre eles. É por essa razão que é importante o esclarecimento de altas expectativas e formação de uma comunicação e ação assertiva com si mesma e com os outros. Respeitando seus limites e buscando autocuidado”, conclui a psicóloga Fernanda Reis.

Livia acabou saindo do estágio para iniciar um intercâmbio em 2019. Retornou em julho do ano passado e, devido à crise sanitária, não encontrou o emprego que queria. “Acho que, inclusive, a própria pandemia me influenciou a não terminar processos que seriam bons para mim por esgotamento emocional. A pandemia afetou muito as minhas oportunidades e situações a que me submeti”. Ela teve que aceitar um contrato de trabalho por MEI (Microempreendedor Individual), recebendo menos do que no primeiro estágio e trabalhando por mais horas.

Para Helena*, estagiária de comunicação corporativa, o ambiente atual de trabalho ajudou a restaurar a seu segurança, apesar de acreditar que só poderá confirmar caso seja efetivada. Porém, a experiência de desvalorização aconteceu na empresa júnior no início da faculdade. “Nesse caso em específico, acredito que o que pegou foi que era uma primeira experiência profissional e que eu já estava lidando com o desafio de construir um cargo do zero, mas ao longo da gestão, muitas vezes, eu sentia que minha opinião não era ouvida ou levada a sério por ser mulher, o que também acabava influenciando.” Ao mesmo tempo, Helena enfrentou uma sobrecarga, já que seus colegas tinham em mente que ela poderia lidar com todo trabalho.

O Informe de Percepção de Gênero, feito pelo LinkedIn em 2019, apontou que as mulheres sentem que precisam preencher todos os requisitos para se candidatar a uma vaga. Para os homens, preencher 60% dos requisitos já é suficiente. Jhenyffer Coutinho descobriu esse dado, em 2018, durante um workshop de liderança feminina. Aliando-o ao fato de que aproximadamente 7 milhões de mulheres perderam seus empregos durante a pandemia, ela fundou a “Se Candidate, Mulher!”, empresa de capacitação comportamental que ajuda com segurança e performance no processo seletivo.

“A gente também teve a menor taxa de participação da mulher nos últimos 30 anos. Quando uma empresa tem que priorizar um homem ou uma mulher, entende que a dedicação do homem vai ser maior porque ele não tem outras coisas para tomar conta. Esse dado foi reflexo de tudo que aconteceu desde o início da pandemia globalmente, mas com bastante força no Brasil”, reforça a CEO. Além disso, Jhenyffer evidencia o trabalho que espera a mulher depois do seu expediente, que, segundo a filósofa Silvia Federici, pode ser designado como “trabalho não remunerado”, como cuidado da casa, dos filhos ou do marido, destinados socialmente às mulheres.

Apesar das mulheres demonstrarem força e ambição, ser rotulada com a síndrome da impostora é um fardo para carregar. Essa dinâmica de cobrar da mulher autoconfiança não é significativa se o ambiente de trabalho e a sociedade não possibilitam espaço e segurança para seu desenvolvimento.

 

*Nomes Fictícios

As duas maiores administradoras do ramo, brMalls e Iguatemi, apontaram queda de faturamento no primeiro trimestre
por
Thalisson Luan
|
04/07/2021 - 12h
Juntas, Iguatemi e brMalls contam com 19 shoppings no estado de São Paulo (Imagem: divulgação)
Juntas, as administradoras contam com 19 shoppings no estado de São Paulo (Imagem: divulgação)

 

Os shopping centers sofreram grandes impactos em seu faturamento durante a pandemia. Com o fechamento de centros comerciais imposto por alguns estados, o setor encerrou 2020 com queda de 33% na receita,  segundo dados da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce).

Para a Abrasce, a digitalização por meio de marketplace nos shoppings é um caminho a ser seguido. Segundo dados obtidos pela associação, 59% pretendem instalar marketplaces em até dois anos.

"Os shoppings estão evoluindo e as plataformas de marketplace estão mais confortáveis de usar. Imagino que em cinco anos todos os shoppings estarão em ambiente digital", afirmou Glauco Humai, presidente da Abrasce, em coletiva realizada para a divulgação dos números do setor.

A administradora Iguatemi, que faz o gerenciamento de shoppings como JK Iguatemi, Shopping Pátio Higienópolis e Market Place, teve uma queda de 28,4% nas vendas totais no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período do ano anterior. Já o valor arrecadado com aluguéis de lojas diminuiu 4,2%.

O Shopping Pátio Higienópolis, inaugurado em 1999, viu o seu design de interiores ser tomado por tapumes ao longo dos corredores. O estabelecimento tem cerca de 35 mil metros quadrados, contendo aproximadamente 300 lojas espalhadas por seis andares. Segundo funcionários mais antigos ouvidos pela reportagem, o local nunca viu tantas lojas fechando como neste período.

 

Segundo funcionários, o número de lojas fechadas no Higienópolis passa de 30. (Reprodução: Asbraf)
Segundo funcionários, o número de lojas fechadas no Higienópolis passa de 30. (Reprodução: Asbraf)

 

A brMalls, outra administradora de shopping centers, que tem no portfólio o Shopping Villa-Lobos, Mooca Plaza Shopping e Shopping Metrô Santa Cruz, também viu o seu faturamento cair. Conforme o levantamento do primeiro trimestre, as vendas tiveram uma redução de 26,2%, em comparação com o ano anterior. Contudo, a empresa aponta uma retomada gradual olhando o índice de 1% no aumento do aluguel de lojas.

 

Foto: Divulgação.

 

Franquia de loja cresce em meio à pandemia

Indo na contramão da maioria dos lojistas, a franquia de lojas de cultura geek Piticas aumentou o número de estabelecimentos, com uma estratégia de oferecer experiência imersiva aos clientes e apostar na conversa com as administradoras dos shoppings.

Em entrevista à Agemt, Felipe Rossetti, sócio-diretor da Piticas, conta que a franquia está chegando a 500 lojas, sendo 470 só em shoppings, incluindo galerias e shoppings menores. No começo da pandemia a empresa sentiu o impacto das lojas fechando, visto que sua atuação é majoritariamente física. No entanto, como a Piticas tem uma fábrica de vestuário própria, com cerca de 900 funcionários, decidiu lançar mão desses recursos para ajudar hospitais e segurar o impacto.

“Pegamos essa produção e viramos a fábrica inteira para fazer avental hospitalar e máscaras para hospitais, isso ajudou a gente a conseguir manter um pouco do faturamento”, comenta Rossetti.

Felipe Rossetti em loja da marca de vestuário e produtos geek (Imagem: divulgação Piticas)
Felipe Rossetti em loja da marca de vestuário e produtos geek (Imagem: divulgação Piticas)

O empresário conta que o contato com os franqueados foi frequente no ano passado, para entender a necessidade de cada um e ajudar da melhor maneira, tratando cada caso em separado. Uma das iniciativas que ele aponta para manter as lojas foi a parceria com as administradoras dos shoppings, que considera muito boa.

“A gente conseguiu negociações muito boas para esse período, o que ajudou os franqueados a se manterem nos pontos de venda”, afirma Rossetti, dizendo ter contato direto com executivos de administradoras como Multiplan e brMalls.

Para a Piticas não houve grandes fechamentos de pontos, mas sim repasse para outros franqueados interessados. Foram, segundo Rossetti, 30 repasses, que se deram porque alguns donos de franquias não se mostraram alinhados com a política da empresa e as diretrizes de expansão. “O franqueado não quer expandir,  não quer crescer,  fica ali no faturamentozinho dele e não enxerga tudo isso que a gente tá fazendo. Aí para a gente não faz sentido ter esse cara”,  complementa Rossetti.

“Para a gente faz mais sentido pôr um cara com gás, um cara que você vê que é fã da cultura pop ou da marca, o cara que tá ali com tesão todos os dias dentro do quiosque e dentro da loja, porque isso faz uma diferença”, afirma o empresário.

Sobre o futuro, o sócio-diretor da Piticas projeta que as lojas com experiências para o consumidor vão desbancar o varejo tradicional, onde há uma pessoa na porta esperando para atender o cliente, que compra e vai embora imediatamente. “A gente acredita que a experiência, ela primeiro, faz com que o consumidor fique mais próximo da marca. Segundo, os nossos números mostram que, quando tem uma experiência em loja, o tempo de permanência do cliente é maior e os números também mostram que onde tem experiência o tíquete médio também é maior”, diz Rossetti.

No entanto, o empresário ressalta que essas experiências têm que colocar o cliente dentro da temática proposta, pensando alto e usando a criatividade.

“Eu sempre falo com o pessoal: essa experiência tem que ser realmente uma experiência. Você colocar um boneco de papelão 2D, isso não é uma experiência. Uma experiência é você replicar a nave de Star Wars em 3D e colocar lá dentro o cara sentado dentro da nave brincar e fazer barulho e ter a música. Isso é experiência.”

 

Imagem da experiência da nave de Star Wars que chegará na loja do Center Shopping Uberlândia (Imagem: Instagram @ferossetti)
Imagem da experiência da nave de Star Wars que chegará na loja do Center Shopping Uberlândia (Imagem: Instagram @ferossetti)

 

Mais da metade da população não sabe se terá o que comer no dia seguinte; interrupção e corte do auxílio emergencial agravaram situação
por
Beatriz Girão e Laura Ré
|
03/07/2021 - 12h
Foto: Giovanna Colossi, especial para a Agemt
Fila para receber as marmitas distribuídas pela Tenda Franciscana, no Centro de São Paulo. Foto: Giovanna Colossi 

 

O Brasil está de volta ao Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU). Mais da metade da brasileira não sabe se terá o que comer no dia seguinte. O país estava fora do levantamento desde 2014, mas, com a pandemia, a deterioração social que já vinha ocorrendo se agravou ainda mais, expondo a ausência de políticas públicas voltadas a combater a pobreza.

De acordo com Fernando Burgos, professor de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e especialista em desigualdade social, a fome no Brasil é uma questão histórica e sempre foi uma realidade. A implementação de políticas públicas como Fome Zero e Bolsa Família contribuiu para a queda dos índices de extrema pobreza e a melhora na qualidade de vida. Contudo, Burgos afirma que a crise econômica do segundo governo Dilma vem sendo agravada desde então. “Com Bolsonaro pré-pandemia em 2019, o Brasil começou a voltar para o Mapa da Fome.” 

O auxílio emergencial foi um dos recursos adotados pela gestão federal para tentar amenizar a crise e instaurar uma proteção social para a população mais pobre do país. De início, o aporte foi de R$ 600, destinado a maiores de 18 anos (exceto mães de famílias monoparentais), trabalhadores sem carteira assinada, autônomos, microempreendedores individuais (MEI) e desempregados. Era necessário também estar dentro do limite de renda por pessoa da família de até R$ 522,50 ou renda familiar de até R$ 3.135,00. Esse modelo inicial ficou em vigência até dezembro de 2020. 

Para Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), o auxílio emergencial foi capaz de recompor as finanças de grande parte daqueles que perderam as fontes de renda. "Com sua grande cobertura e um alto valor do benefício, não seria de se surpreender que o auxílio emergencial tivesse sido um impacto significativo sobre a taxa de pobreza agregada no país”, explica. Duque ressalta que, se a Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), ferramenta do IBGE que acompanha as flutuações da força de trabalho, for observada ao longo de quatro semanas, seria uma possibilidade para ajudar a reduzir a pobreza no país.

De dezembro de 2020 até maio deste ano, a população ficou desamparada, sem auxílio emergencial. A renovação em 2021 foi definida com um valor reduzido para R$ 375,00. Entretanto, Duque afirma que não será o suficiente e que, com a extinção do auxílio emergencial de janeiro a abril deste ano, houve um impacto sobre a massa de rendimentos, pobreza e desigualdade. “A incapacidade do governo de imunização em massa prejudica também a melhora da economia e a volta do mercado de trabalho. Se o auxílio não for aumentado ou permanecer por mais tempo, será necessário, por exemplo, a aprovação de aumento do orçamento do Bolsa Família", avalia. 

Fernando Burgos também adverte sobre as consequências do valor menor para o auxílio e aponta que a tendência até o final deste ano é que muitas famílias entrem em uma situação grave do ponto de vista social. "Quem está sendo contemplado agora, provavelmente, vai ter mais dificuldade. Lembrem-se que R$ 75 é R$ 12 e pouquinho por dia.”, ressalta.

O retorno do Brasil ao Mapa da Fome é uma consequência da pandemia da Covid-19 e da má gestão e distribuição, principalmente da segunda parcela, do auxílio emergencial oferecido pelo governo federal. Com esse cenário, o movimento “Tem Gente Com Fome”, apoiado pela Anistia Internacional e diversas outras ONGs, usa as redes sociais de artistas e recebe o apoio de empresas para clamar por ajuda e arrecadar doações para famílias vulneráveis. O resultado prévio deste trabalho identificou 222.895 famílias a serem auxiliadas e mobilizadas em periferias, favelas, comunidades quilombolas, populações ribeirinhas e palafitas em todo o território nacional.

“Para mim, as empresas doarem, eu acho legal, acho um gesto importante. Todos nós estamos no mesmo barco. Então, foi uma onda de solidariedade bacana por um lado. Por outro lado, tem muita solidariedade condicionada, que vai dar naquilo que eu, elite, entendo que tem que ser dado.”, critica Burgos. O professor aponta as ONGs que precisam receber financiamento como as que serão mais prejudicadas ao longo desta segunda, e em uma eventual terceira, onda da Covid-19, pois “não adianta você dar o saco de feijão, se você não der o gás”. Como diz Burgos, é preciso fornecer condições para uma melhor qualidade de vida como um todo para as famílias vulneráveis.

Imagens: Giovanna Colossi, especial para a Agemt