Plataforma solicitou licenças para atuar com pagamentos e crédito, integrando consumo e transações
por
Mariane Beraldes
Thainá Brito
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08/05/2026 - 12h

TikTok busca autorização do Banco Central do Brasil (BC) para operar como instituição financeira no país, em um movimento que aproxima o aplicativo do modelo de “super app” e pode transformar a forma como consumidores, especialmente o público juvenil, compram e se relacionam com o dinheiro. A informação foi divulgada pela agência Reuters na última terça-feira de março (31). “Assim como outras plataformas, o TikTok quer deixar de ser só o canal de descoberta, para operar no ambiente completo de conversão, transformando esse consumo quase que guiado por esses estímulos dos próprios algoritmos da plataforma”, afirma Ângelo Vieira Jr., especialista em Digital e Novos Negócios, em entrevista à AGEMT.

Segundo fontes ouvidas pela Reuters, a rede social, controlada pela ByteDance, solicitou duas licenças: a de emissor de moeda eletrônica e a de sociedade de crédito direto. A primeira permitiria oferecer contas de pagamento digital, com serviços como transferências e pagamentos dentro da própria plataforma. Já a segunda abriria caminho para a concessão de crédito com recursos próprios ou para a atuação como intermediadora de empréstimos.

De acordo com a pesquisa TicKids Online Brasil de 2025, cerca de 46% das crianças e adolescentes brasileiros utilizam o aplicativo várias vezes ao dia. Para Ângelo, o novo modelo das plataformas pode transformar a forma como o jovem enxerga o consumo: “existe um risco relevante em relação a isso, principalmente entre os públicos mais jovens, essa diluição das fronteiras entre o próprio entretenimento e o consumo financeiro. A gente tá entrando na era desse embedded finance (finanças integradas), onde a decisão de compra não passa mais por  racionalidade clássica, mas por estímulo do próprio algoritmo, resultado da dopamina”, explica. 

A queda no uso do dinheiro físico tem feito com que a faixa etária infantil e juvenil lide cada vez mais cedo com formas digitais de pagamento, muitas vezes sem entender o valor do dinheiro, o que significa uma transação financeira ou até onde vão os próprios limites de gasto. Esse cenário acende um alerta, principalmente quando esse público chega aos 18 anos. Sem educação financeira, a relação com o consumo e com plataformas digitais pode ficar mais descontrolada. Dados do Relatório de Cidadania Financeira 2025, do Banco Central, mostram que, nos últimos oito anos, o número de jovens com acesso ao crédito dobrou no Brasil. Ao mesmo tempo, a inadimplência entre eles já é maior do que entre adultos e idosos. Em 2024, entre os que possuíam renda de até dois salários mínimos, 17,4% estavam inadimplentes.

No caso do TikTok, a expansão e a facilidade de acesso do público a serviços e ferramentas de compra reposiciona a plataforma, que passa a atuar também como fintech e a concorrer com bancos digitais e aplicativos de marketplace. Para Ângelo, esse movimento traz três desafios principais: a construção de credibilidade, a proteção do consumidor e a percepção de segurança de dados e dos pagamentos. “O aplicativo tem uma vantagem estrutural bem relevante: ele parte da atenção. Os marketplaces tradicionais competem pela demanda, enquanto o TikTok cria essa demanda. Esses players evoluíram do comércio para o conteúdo, essa rede social está fazendo o caminho inverso. E claro, também tem a capacidade de influenciar esses desejos antes da própria intenção de compra desse consumidor existir. Na prática, isso acaba posicionando a plataforma não apenas como um concorrente dos marketplaces tradicionais, mas quase que uma camada acima ", diz Ângelo.

Acompanhe em vídeo esta reportagem. 

 

Conflito encarece petróleo e fertilizantes, e mantém os juros altos, sufocando o orçamento
por
Julia de Sá Ribeiro
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27/04/2026 - 12h

A escalada do conflito no Oriente Médio já não é apenas um problema geopolítico distante: seus efeitos estão chegando com força ao bolso das famílias brasileiras. Como o Brasil importa derivados e depende fortemente do diesel para abastecer sua frota de transporte e o setor agropecuário, o resultado imediato do conflito são combustíveis mais caros. Esse custo extra na bomba é rapidamente repassado para a logística, a indústria e, consequentemente, para os alimentos nas prateleiras dos supermercados. 

Além do petróleo, há a crise agrícola. O Brasil é altamente dependente de fertilizantes importados, e o Irã figura como um fornecedor relevante de ureia e outros insumos. Especialistas já alertam para o risco de desabastecimento e de uma nova alta nos preços caso as infraestruturas iranianas sejam atingidas pelo conflito. Culturas fundamentais como a soja já enfrentam pressão de custos e incertezas para a safra de 2026/27, o que significa custos maiores no campo e, inevitavelmente, alimentos mais caros e inflação mais alta para o consumidor final. Com a inflação mais alta, o poder de compra da população cai, aumentando a necessidade de se recorrer ao crédito. Para tentar conter essa escalada de preços, o Banco Central tende a manter elevada a Selic, que é a taxa básica de juros da economia brasileira. A Selic funciona como referência para todas as outras taxas do país. Na prática, juros altos significam que o crédito, como cartão de crédito, cheque especial, consignado e financiamentos, fica muito mais caro, e a renegociação de dívidas antigas se torna mais difícil. As empresas, por sua vez, continuam repassando esses custos ao consumidor. 

Atualmente, de acordo com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 8 em cada 10 famílias brasileiras estão endividadas, o maior nível registrado em 16 anos. O comprometimento da renda com essas dívidas já alcançou 29,3%, uma máxima histórica segundo dados do Banco Central. A combinação de inflação persistente e salários estagnados cria uma trajetória perigosa: os custos de produção sobem, a inflação acelera e a renda real cai. Para manter o consumo básico, as famílias recorrem ao crédito caro. Economista e professora da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP), Laura Carvalho, em entrevista à AGEMT, explica: "quando a inflação de itens essenciais, como alimentos e energia, sobe acima da média e os salários não acompanham, ocorre uma compressão violenta do orçamento. As famílias não se endividam por luxo, mas para fechar o mês. Esse 'endividamento de sobrevivência' é o mais difícil de combater, pois não depende de educação financeira, mas de recomposição do poder de compra", ressalta Carvalho. 

Laura Carvalho, economista e professora da Universidade de São Paulo (USP) 
Laura Carvalho, economista e professora da Universidade de São Paulo (USP) 

Essa realidade é evidenciada pelo fato de que parte da população passou a usar o cartão de crédito para comprar comida. Para a economista, isso sinaliza um colapso em múltiplas frentes: "usar crédito para alimentação é um sintoma grave. Vejo isso como uma falha combinada: de política econômica, que não conseguiu garantir um ambiente de crescimento com baixa inflação, e de política social, que falhou em proteger os mais vulneráveis de choques de preços externos", diz a economista. 

Diante do cenário, o governo anunciou em 01 de maio o Desenrola 2.0, programa de renegociação de créditos inadimplidos, criado pelo Governo Federal. "Programas de renegociação são fundamentais para limpar o nome do consumidor e permitir que ele volte ao mercado, mas, isolados, eles podem apenas 'enxugar gelo' ", afirma Carvalho. Com a tendência de endividamento elevado projetada para 2026, o Brasil segue vulnerável às oscilações globais. Enquanto o conflito no Oriente Médio mantiver o petróleo pressionado, o desafio interno será transformar medidas de alívio temporário em soluções estruturais que protejam a renda do trabalhador. 

Entenda as motivações da queda e seus impactos no país
por
Isabella Damião
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23/04/2026 - 12h

Na última terça-feira (14), a cotação do dólar alcançou o menor valor desde 2024, abaixo dos R$5,00. A mudança do cenário financeiro no Brasil se deu, sobretudo, como consequência das últimas negociações entre o governo dos Estados Unidos e do Irã, em guerra desde fevereiro de 2026.

O dólar comercial, ou a taxa de câmbio, corresponde ao valor do real em relação ao dólar e reflete, principalmente, a política internacional e a inflação de cada país. Desse modo, a oscilação das tentativas de acordo entre o governo estadunidense e iraniano torna arriscado o cenário americano em diversos setores da economia, principalmente no comércio de petróleo. Os dois países disputam o controle do Estreito de Ormuz, via marítima que entrega 20% do petróleo mundial. 

O enfraquecimento do dólar se deu mundialmente, e outras moedas como o peso chileno e o peso mexicano também se valorizaram nessa relação. “Quando o mercado passa a acreditar que o Federal Reserve [Sistema de Reserva Federal dos Estados Unidos] pode reduzir ou desacelerar o aperto monetário, o dólar tende a perder força frente a outras moedas, especialmente de países emergentes", explica a professora de Economia da PUC-SP, Cristina Helena Pinto de Mello. 

Em relação ao real, a economista pontua que o que o favorece são as altas taxas de juros, que atraem investimento de capital estrangeiro. Além disso, a balança comercial brasileira apresentou, entre janeiro e abril de 2026, um superávit de US$20,92 bilhões, 44,3% a mais do que o valor do mesmo período no ano anterior. Esses fatores contribuem para um fluxo positivo de capital no Brasil e valorizam o real. 

Gráfico - média diária de saldo
Gráfico: Secretária do Comércio Exterior/MDIC

 

Quanto aos efeitos da redução do dólar comercial, Cristina Helena não vê uma mudança a longo prazo na economia brasileira: embora existam boas indicações nesse cenário, como o controle da inflação, a oscilação da taxa de câmbio pode deixar o fluxo de capitais mais suscetível à juros. “O real tem se destacado entre moedas emergentes em alguns momentos recentes, mas isso não é um movimento isolado nem garantido. Isso é conjuntural e pode se inverter”, esclareceu. 

Influenciadora brasileira detalha a criação e o sucesso de seu body splash
por
Fernanda Dias
João Luiz Freitas
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30/03/2026 - 12h

Com 442 mil seguidores no Instagram, a influenciadora digital Lis Bella Andreazzi viu que seu público consumia muitos perfumes e teve a ideia de criar um produto com a sua cara. A parceria com a Ekomist, empresa que faz aromas para grandes marcas, foi o passo seguinte para tirar o plano do papel e lançar o  "Eighteen Seasons". Em entrevista à AGEMT ela detalha a estratégia de seu body splash e explica para o leitor o poder da influência digital sobre o consumo. 

A conversa revelou como criadores de conteúdo movem o mercado e fazem produtos esgotarem em poucas horas. Também contou sobre o processo de criação para garantir que o item faça parte da rotina de quem a segue.  Lis Bella entende o impacto de suas indicações no mundo digital e percebe que seu público confia muito no que ela usa no dia a dia. A influenciadora explica que nem todo produto vende com facilidade e o que importa é o alinhamento com o perfil de quem a acompanha. "Não é todo mundo que vai comprar? É quem se sentir atraído pelo produto, se divulgo maquiagem ou perfume, a chance de venda é maior", ressalta Lis Bella, que acrescenta: "as pessoas veem que ela usa o item de verdade e não apenas para uma propaganda". 

"Você ser uma influenciadora que passa essa confiança para o público, criando uma intimidade por meio de exemplos de sua rotina de cuidados com a pele gera muito engajamento". Segundo a influenciadora essa credibilidade está altamente ligada à escolha de não divulgar golpes ou casas de apostas, pois as marcas buscam influenciadores com boa reputação para parcerias de longo prazo. O nome "Eighteen Seasons" marca uma fase de transição na vida dela, pois o lançamento teve uma ativação estratégica em sua festa de 18 anos.

Além disso, ela chamou alguns de seus seguidores para estarem presentes nesse lançamento, reforçando a ideia de que ela preza pela proximidade ao público. A embalagem tem inspiração em produtos internacionais de sucesso e a marca atrai quem gosta de perfume e quem admira o estilo de Lis Bella.

Lis Bella Andreazzi - mulher segurando seu produto
Lis Bella Andreazzi na divulgação do seu produto "Eighteen Seasons". Fonte: divulgação. 

O mercado vê o surgimento de febres passageiras em alimentos e cosméticos, vários produtos viralizam e esgotam rapidamente. Exemplos recentes incluem o "morango do amor" e o "labubu". Esses itens mostram como um vídeo ou uma tendência pode criar uma demanda imediata e massiva. A velocidade com que esses produtos aparecem e desaparecem do mercado é um desafio para as marcas e um reflexo do consumo impulsionado pelas redes sociais.

A ideia de que um produto pode viralizar hoje e ser esquecido amanhã não é apenas percepção das redes sociais, mas já vem sendo discutida também no campo do marketing. Um estudo recente da Nanyang Business School, em Singapura, define esse cenário como “economia do momento”, em que marcas e consumidores passam a girar em torno de tendências rápidas, com picos de atenção que desaparecem em pouco tempo.

Na prática, o que se observa é um padrão recorrente. Um vídeo viraliza, o produto ganha visibilidade, a procura dispara e, em poucos dias, o interesse começa a cair. O ciclo é curto e, muitas vezes, substituído rapidamente por uma nova tendência. A influenciadora reforça, em entrevista, que a relação de confiança com o público acelera esse processo. Quando a indicação vem de alguém com quem o seguidor já se identifica, a decisão de compra tende a acontecer mais rápido, sem muita comparação ou planejamento. Ao mesmo tempo, o próprio estudo aponta um limite importante: chamar atenção não significa construir uma relação duradoura. Em um ambiente onde tudo é substituído rapidamente, ser visto não garante ser lembrado.

Andreazzi destaca que, nesse contexto, o timing se torna um dos fatores mais importantes. Participar de uma tendência no momento certo pode definir o alcance de um produto. Fora desse período, o interesse tende a cair rapidamente. Por fim, o eixo do comportamento do consumidor busca entender como essas dinâmicas afetam as escolhas. A repetição desse padrão indica um consumo mais impulsivo, influenciado pela urgência e pelo desejo de participar de algo coletivo. No entanto, esse comportamento nem sempre se traduz em fidelidade. A própria lógica da “economia do momento” sugere que o consumidor está sempre em busca do próximo viral. Segundo Andreazzi, a continuidade da relação depende menos do hype e mais da experiência real com o produto após a compra.

 

Bolhas de IAs e tensões geopolíticas afetam o valor final dos produtos eletrônicos
por
João Moura
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27/03/2026 - 12h

O consumidor brasileiro que planeja atualizar seus dispositivos eletrônicos nos próximos meses encontrará um cenário difícil. Segundo projeção da Gartner, empresa de consultoria no mercado de tecnologia, o preço dos computadores deve sofrer um reajuste de 17% em curto prazo. Ainda nessa análise, o mercado de PC’s deve sofrer uma retração de 10,4% em vendas. O aumento do preço é  impulsionado por uma combinação de fatores globais e decisões de política interna. O encarecimento de memórias RAM e unidades de armazenamento SSD, se transformou no principal vilão do orçamento doméstico e empresarial, agravando uma tendência de alta que se acumula desde o final de 2024.

O motivo principal dessa inflação está no crescimento do mercado de inteligência artificial (IA). A infraestrutura necessária para sustentar os modelos de linguagem (LLMs) e processamento de dados exige uma grande quantidade de hardware. Como resultado, as big techs estão direcionando seus investimentos para a construção e manutenção de data centers, consumindo a maior parte da produção mundial de semicondutores.

O apetite das gigantes da tecnologia acaba por "canibalizar" a oferta de produtos para o consumidor comum e pequenos varejistas. Um marco dessa mudança ocorreu em novembro de 2025, quando a Micron, uma das líderes globais do setor, anunciou o fim de sua linha de memórias padrão para consumidores, reajustando todo o seu portfólio para atender exclusivamente às demandas corporativas de alta escala. Para a economista e professora da PUC-SP, Leslie Denise Beloque, o momento exige cautela extra dos investidores e consumidores. “Temos uma imensa bolha no campo das big techs. Quer dizer que a valorização das ações dela na bolsa é extremamente grande, supondo que o desempenho delas na vida real também esteja. Isso fatalmente uma hora estoura, e todo mundo que tinha ação vai ver que isso era irreal, e perde dinheiro”, afirma Leslie.

Data centers dominam o mercado de memória RAM. Foto: wirestock/Freepick
Data centers dominam o mercado de memória RAM. Foto: wirestock/Freepick

Além da pressão de demanda, a oferta global de chips enfrenta problemas logísticos e diplomáticos. A guerra tarifária entre Estados Unidos e China impôs barreiras severas ao fluxo de recursos essenciais para a fabricação de microchips, afetando empresas cruciais como a TSMC e a Nvidia. A escalada de tensões entre os dois países também envolve restrições à exportação de tecnologias sensíveis e sanções comerciais estratégicas, especialmente no setor de semicondutores avançados.

Washington (EUA) tem ampliado o controle sobre o envio de equipamentos de litografia e chips de alto desempenho para empresas chinesas, enquanto Pequim responde com políticas de incentivo à produção doméstica e possíveis limitações na exportação de minerais críticos, como terras raras. Esse embate cria um ambiente de incerteza para toda a cadeia global de suprimentos, elevando custos, atrasando entregas e reduzindo a previsibilidade do mercado. No Brasil, o cenário é agravado pela questão tributária. A resolução Gecex 852, que entrou plenamente em vigor no início de  março de 2026, estabeleceu uma taxação de 12,6% sobre placas de vídeo, memórias RAM e placas-mãe. Embora o governo justifique a medida como uma forma de proteger a indústria nacional, que registrou um aumento de 33% na importação desses itens desde 2022, o impacto imediato é o desestímulo ao consumo.

De janeiro a junho, moeda recuou 9,27%; especialistas discutem efeitos na economia brasileira
por
Enrico Souto
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02/07/2023 - 12h
Fotografia de seis notas de 100 dólares alinhadas.
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

O dólar tem registrado repetidas quedas em seu valor. Desde o início do governo Lula, em janeiro, até o fim de junho, a moeda norte-americana caiu 9,27%, terminando o primeiro semestre em R$ 4,7889.

A queda do dólar no primeiro semestre contraria a tendência dos quatro últimos anos, quando a moeda norte-americana saltou de R$ 3,87, no início do governo Bolsonaro, para R$ 5,28, no fim de 2022, um avanço de 36,4%. Nesse mesmo período, a inflação oficial, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), alcançou 26,93%, a maior variação desde o primeiro mandato de Dilma Rousseff (2011-2014)

Contudo, a conjuntura brasileira entrou em metamorfose, o que também alterou as perspectivas econômicas do país. André Luis Campedelli, doutor e especialista em macroeconomia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), afere como Bolsonaro  adotava uma política internacional isolacionista, que priorizava países que seguissem sua mesma agenda ideológica e rompia com uma tradição de décadas de diplomacia do Brasil – o que também afetava o investimento externo no real. Um indício disso se apresenta em um levantamento encomendado pelo Correio Braziliense, que aponta que, em cinco meses de mandato, Lula se reuniu com o dobro de chefes de estado que Bolsonaro no mesmo período.

“Uma maior segurança em relação à estabilidade política nacional também faz com que a entrada de capital seja maior para o Brasil”, afirma Campedelli. O economista ainda menciona a alta do Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo, como um indício da desvalorização do dólar. O índice registrou um avanço de 7,61% de janeiro a junho, o melhor desempenho para um primeiro semestre desde 2019.

Estados Unidos e a economia externa

Segundo Campedelli, a instabilidade da economia internacional, causada sobretudo pela Guerra da Ucrânia, faz com que o mercado procure por novas fontes de investimento. O economista afirma que a Rússia era considerada um importante porto seguro de capital especulativo e, apesar de ter sido uma decisão repudiada pelo presidente Lula, a manutenção da taxa básica de juros, a taxa Selic, a valores elevados faz do Brasil uma nova alternativa para este tipo de aplicação. “A combinação de problemas em outros países com um cenário brasileiro favorável fez com que o atual governo expandisse as políticas de exportação, o que impulsiona nossa moeda”, aponta.

O dólar também é fortemente influenciado pelas movimentações da economia estadunidense. No dia 14 de junho, o Federal Reserve (Fed), banco central norte-americano, anunciou que manteria a atual taxa de juros do país, entre 5% e 5,25%. A decisão foi tomada após dez aumentos seguidos, que ocorreram desde março de 2022.

Segundo Claudemir Galvani, mestre e professor de economia política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a estabilização dos juros estadunidenses têm efeitos positivos para o Brasil: “Os Estados Unidos passam por um período de alta inflação e desemprego”. O especialista ainda comenta como, agora que a taxa de juros do país se firmou, com intuito de controlar os gastos públicos, os recursos que seriam aplicados lá, por ser considerado um mercado mais seguro, começam a ser direcionados a países de terceiro mundo, como Brasil, México e Chile, com taxas mais elevadas.

O futuro da moeda

Mas, afinal de contas, a baixa no valor do dólar é um efeito circunstancial ou uma tendência para os próximos anos? Para Campedelli, ainda que possam existir incertezas, a taxa de câmbio deve continuar caindo. “Como os Estados Unidos manterão uma política de não aumentar seus juros por um tempo, ao mesmo tempo que a taxa Selic no Brasil deve ser mantida ao menos até a próxima reunião do Banco Central, continuaremos observando uma queda vertiginosa no dólar para os próximos meses.”

O impacto mais perceptível dessa movimentação será na inflação, que já tem observado quedas. O IPCA de maio ficou em 0,23% – menor que o de abril deste ano e o de maio de 2022 (0,61% e 0,47%, respectivamente). “Como a inflação do Brasil é baseada em custos, e vários de nossos insumos são importados, o dólar caro contribuía muito para as altas desse índice. Agora que temos visto uma decaída, o preço de outros produtos, como combustíveis, também deve diminuir”, avalia Campedelli.

Porém, para Galvani, ainda não é suficiente. Para ele, o real poderá ser considerado uma moeda valorizada assim que alcançar valores entre R$ 4,40 e R$ 4,50: “É importante que tenhamos uma moeda forte, pois isso significa que ela acumula maior valor para o exterior, dando ao Brasil e ao brasileiro um maior poder de compra. Entretanto, é necessário que haja um equilíbrio, pois, quanto menor o valor de uma moeda em relação ao dólar, mais prejudicadas são as exportações, visto que outros países lucrarão menos com a compra de seus produtos”.

Já Campedelli concorda com o perigo, mas acredita que essa não deva ser uma preocupação a curto prazo. “Nossa taxa de câmbio estava extremamente elevada, muito acima do que podemos observar historicamente com o real. Mesmo que tenhamos nosso mercado perdendo certa competitividade, acredito que o custo da produção nacional irá compensar essas circunstâncias. Não adianta fomentar a competição se você não tem o valor necessário para produzir no país”, finaliza.

Especialistas alertam para possíveis impactos nas vendas externas caso doença se espalhe
por
Thomaz Cintra
João Serradas
Otávio Preto
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30/06/2023 - 12h

Na segunda-feira (12/6), o Ministério da Agricultura e Pecuária confirmou mais um caso de gripe aviária com alta patogenicidade (H5N1), desta vez no estado do Rio de Janeiro. Ao todo, até aquele momento, foram diagnosticadas 31 aves com a doença, além de outras 11 que estavam em observação.  

Cada novo diagnóstico de H5N1 acende mais ainda a luz vermelha no mercado avícola, já que a doença é famosa por se propagar com facilidade dentre as aves, com alto índice de mortalidade.  

O ministério responsável pela área declarou emergência zoossanitária em todo o território nacional. De acordo com o comunicado, a medida tem como objetivo evitar que a doença chegue à produção de aves de subsistência e comercial, além de preservar a fauna e a saúde humana.  

Além de declarar estado de alerta, o ministério publicou no Diário Oficial da União a Medida Provisória (MP) 1.177, que disponibilizou crédito de R$ 200 milhões para o enfrentamento da Influenza Aviária de Alta Patogenicidade (IAAP). 

“Com o estado de emergência zoossanitária em vigor no país e a confirmação de casos de Influenza Aviária em aves silvestres em quatro estados, as ações de controle e contenção da doença serão intensificadas. Assim, o crédito extraordinário será aplicado no Sistema Unificado de Atenção à Sanidade Agropecuária (Suasa). A MP é assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pela ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet”, disse o ministério, em nota. 

Esse setor em específico da economia, movimentou mais de R$ 215 milhões em 2022, e exportou aproximadamente 4.800 milhões de toneladas de aves para diversos países, segundo dados divulgados pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABBA). 

Em 2023, até abril, já foram exportadas 435 mil toneladas de frango.  

Vale ressaltar que o Brasil é maior exportador de frangos do mundo;  

Confira a tabela abaixo (mil ton):

tabela gripe aviária

 

Professor de economia da Anhembi Morumbi e da FMU, Marcos Henrique do Espírito Santo, explicou que a gripe aviária está muito concentrada em animais silvestres, mas é justamente por conta do alto índice da doença que o país está em fase emergencial. Segundo ele, caso muitas aves de abate passem a ser contaminadas, o Brasil teria um problema internacional, pois muitos países importadores criariam uma barreira sanitária, suspendendo as importações de aves brasileiras. 

Para contornar esse grande obstáculo que o país enfrentaria, seria necessário investir em um amplo processo de vacinação para os animais, porém, ainda sem a possibilidade de exportar aos países que teriam fechado suas portas ao Brasil. E tudo isso, como o próprio professor diz, “geraria um pandemônio no setor”. Mas este cenário ainda está distante, muito por conta do sistema de vigilância sanitária. 

No meio de maio, quando foram confirmados os primeiros casos de gripe aviária em território nacional, os principais frigoríficos listados no Ibovespa despencaram: Marfrig (MRFG3) desabou 10,07% nos últimos 12 meses; JBS (JBSS3), dona da Seara e Friboi, chegou a cair 5,78%; Minerva Foods (BEEF3) -5,89%; BRF, dona da Sadia e Perdigão, chegou a afundar 9,17%. 

De acordo com Guto Gioielli, especialista em commodities, a gripe aviária só afetará significativamente o mercado de proteínas do Brasil, caso contamine de forma expressiva os principais produtos relacionados à exportação, como galinhas poedeiras, frangos, perus, e, de modo geral, aves que são criadas em confinamento para industrialização. Ele comenta que, ainda no mês de junho, não houve nenhum problema em termos de produção que possa afetar esse negócio, apesar do estado de alerta. Marcos também observa que o Brasil não é visto pelo resto do mundo como um país que detém a H5N1, por conta de a doença estar em sua fase inicial em solo brasileiro, por isso, ainda é possível que as empresas nacionais, produzam, abatam e exportem as aves. 

Guto ainda diz que, se, em algum momento, tivermos um crescimento grande nos casos da doença, terão de ser suspensas as exportações de produtos avícolas, e, consequentemente, as aves terão de ser abatidas. E não somente isso: depois que as aves, já mortas, forem retiradas, os aviários terão de ficar vazios por ao menos 60 dias para que o local seja desinfetado, gerando um prejuízo ainda maior para os avicultores, que, além de perderem seus produtos, irão perder também muito tempo até poderem começar a criação das aves novamente. 

Se o Brasil realmente atingir um ponto crítico em relação à doença, os consumidores também terão muitos problemas, pois, além de não poder mais consumir frango, por exemplo, terão que ir atrás de outra fonte de proteína, como os ovos. E, quando as pessoas começarem a comprar ovos em massa, os preços do produto aumentarão.  

Diante da preocupação crescente em relação à gripe aviária e seu potencial de se tornar uma nova pandemia, o Instituto Butantan iniciou o desenvolvimento de uma vacina contra a doença. O primeiro lote já está pronto para os testes pré-clínicos, que serão realizados em laboratório. No entanto, é importante destacar que o processo de desenvolvimento de uma vacina é demorado e passa por diversas etapas, incluindo os testes clínicos em humanos, que demandam autorização da Anvisa. 

 A influenza aviária é altamente contagiosa e, embora a transmissão para humanos seja atualmente limitada, o aumento de casos tem deixado as autoridades sanitárias em alerta. A doença pode ser grave e tem alta taxa de mortalidade. Portanto, o desenvolvimento de uma vacina eficaz é essencial para prevenir a propagação da gripe aviária e proteger a saúde pública. É fundamental que as autoridades e instituições de pesquisa continuem dedicando esforços para o avanço do desenvolvimento da vacina e o aprimoramento das estratégias de prevenção e controle da doença. 

Se taxa de juros não cair, mais lojas podem ser afetadas, afirma economista, que aponta conexão entre crises no varejo brasileiro
por
Barbara Ferreira
Marina Laurentino
Michelle Gonçalves
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30/06/2023 - 12h

Fundada por Bernardo Goldfarb e sendo hoje uma das maiores redes de moda feminina e lingerie do Brasil, a Marisa anunciou no mês de maio o fechamento de 91 lojas em todo o Brasil até o final de junho de 2023. A varejista afirma que a decisão faz parte de um programa de eficiência operacional que tem como objetivo a regularização de sua situação financeira.

Em 2022, a empresa registrou prejuízo líquido de R$ 391 milhões, que atribuiu, entre outros fatores, aos efeitos da recessão de 2015 e 2016 e da pandemia da Covid-19. Em 2020 e 2021, o prejuízo acumulado havia superado R$ 500 milhões. Desde janeiro deste ano, a franquia lidou com a renúncia de cinco executivos que ocupavam os maiores cargos da empresa, entre eles o diretor-presidente, Adalberto Pereira Santos, e o conselheiro, Marcelo Adriano Casarin.

Há 75 anos no mercado, a Lojas Marisa designou, recentemente, João Pinheiro Nogueira Batista para assumir o comando. Além disso, manteve a renegociação de prazos e dívidas com fornecedores, credores e proprietários de imóveis, estimulou a redução de investimentos em estoques de seus produtos e providenciou corte em suas despesas operacionais.

A companhia contratou assessores externos, emitiu debêntures e renegociou dívidas com 90% de seus fornecedores e 65% de proprietários de imóveis. No primeiro trimestre deste ano, a Marisa registrou prejuízo líquido de R$ 148,9 milhões e, de acordo com informações do Estadão/Broadcast, possui dívidas de R$ 600 milhões. Os credores incluem Bradesco, Safra, Itaú, Caixa, entre.

A Marisa é uma das maiores redes de varejo de moda no Brasil, com uma história rica e um legado que remonta a mais de 70 anos. A empresa foi fundada em 1948, na cidade de São Paulo, com a proposta de atender às necessidades do público feminino oferecendo roupas de qualidade a preços acessíveis.

Nos primeiros anos, era uma loja especializada em moda íntima feminina, mas rapidamente expandiu seu catálogo para incluir uma variedade maior de produtos, como roupas, calçados e acessórios. Com um crescimento constante, a empresa abriu novas filiais e se estabeleceu como uma marca reconhecida e confiável.

Durante as décadas seguintes, a Marisa consolidou sua presença no mercado brasileiro, com a abertura de unidades em diferentes cidades e a implementação de estratégias inovadoras de varejo. Destacou-se por sua política de preços competitivos e pela oferta de produtos para todas as faixas etárias e tamanhos, tornando-se uma referência para mulheres de diferentes estilos e perfis.

Nos anos 2000, a Marisa passou por um processo de modernização e expansão ainda maior. A empresa adotou uma abordagem multicanal, integrando suas lojas físicas com uma forte presença online, criando uma plataforma de e-commerce e fortalecendo sua estratégia de marketing digital. Essa transformação digital permitiu à empresa atingir um público ainda mais amplo e diversificado, tornando-se uma das marcas de moda mais influentes e relevantes do Brasil.

Além disso, a Marisa também se envolveu em diversas iniciativas sociais e projetos de responsabilidade corporativa, lançando campanhas voltadas para o empoderamento feminino, apoiando causas sociais e ambientais e promovendo a inclusão e diversidade em suas campanhas publicitárias. Essas ações reforçaram o vínculo entre a Marisa e seu público, demonstrando um compromisso com valores que vão além do aspecto comercial.

Segundo o economista Marcos Henrique do Espírito Santo, o principal causador da crise, não só da Marisa, mas de outras lojas do varejo como a Americanas –, é a taxa de juros elevada. “Se a gente voltar para 2020, por exemplo, com uma taxa Selic de 2% ao ano, o consumidor tinha condições, mesmo na pandemia, de fazer as compras dele. Uma taxa de juros de 2% para financiar seu consumo é uma coisa. Agora, dois anos e meio depois, uma taxa de 13,75%, como a que a gente está vivendo, é outra coisa completamente diferente.”

A alta na taxa de juros afeta o mercado varejista não apenas de forma direta como, também, de forma indireta, quando esse aumento é um causador de endividamento e inadimplência dos consumidores, o que reduz o seu poder de compra.

Além disso, segundo o economista, outra questão-chave é a mudança tributária. “O diferencial de alíquota interestadual do ICMS, chamada Difal, ampliou a cobrança de tributos sobre bens comercializados por meio da internet. Isso vem sendo repassado aos poucos para os consumidores, o que vai fazendo com que a margem de lucro tenda a cair no médio-longo prazo.”

Com a atual postura do Banco Central frente a esses problemas, o endividamento, a inadimplência e o poder de compra reduzido, a previsão é de que novas crises apareçam dentro do setor varejista brasileiro. “Não descarto, no médio-longo prazo, mais crises de lojas do mesmo setor, e isso está muito relacionado ao papel do Estado neste cenário. A gente tem claramente um Banco Central que está agindo a reboque dos interesses da sociedade brasileira”, diz Espírito Santo. E completa: “Do ponto de vista da questão do crédito, do consumo, da capacidade de aumento da demanda agregada, isso, necessariamente, passa por uma redução da taxa de juros, que hoje é uma questão meramente política; não há mais um critério técnico que defenda essa taxa de juros no atual patamar”.

Mesmo com sua grande importância para a economia brasileira, o agronegócio pode ser prejudicial ao meio ambiente
por
Carolina Raciunas
Vitória Nunes
|
22/06/2023 - 12h

Por Vitória Nunes (texto) e Carolina Raciunas (audiovisual)
Foto de capa: Clarice Lissovsk

 

 

O agronegócio ganhou destaque pela sua elevada contribuição para o desenvolvimento econômico no País. Porém, este impulsionador da economia pode, muitas vezes, não ser sustentável." O setor é bastante importante para a economia no sentido de que, na produção de bens e serviços, o agro faz parte do setor primário. Nos últimos anos, tivemos uma queda nos demais setores, como indústria e serviços, o que acaba fazendo com que o PIB seja puxado principalmente pelo agro”, aponta a economista Renata Moura Sena.

O ciclo do agronegócio é formado pelos insumos, a produção, a distribuição e o consumo. E os produtos gerados são basicamente alimentos, biocombustíveis, têxteis e madeiras. Atualmente, a cadeia produtiva é responsável por mais da metade das exportações e por cerca de 26% do produto interno bruto brasileiro, mesmo considerando a crise instalada com a pandemia da COVID-19.

A atividade agrícola para exportação tem sido um importante propulsor para o crescimento do produto interno brasileiro. O agronegócio é responsável por 52,2% dos exportados no Brasil, e este resultado está ligado à alta produtividade motivada por incrementos tecnológicos usados no campo.

O setor é um dos mais dinâmicos do Brasil. A partir dele são criadas discussões sobre como sua expansão pode oferecer oportunidades para o desenvolvimento local. Equipamentos desenvolvidos com novas tecnologias facilitam a execução de tarefas.

Porém, não é apenas o agronegócio que movimenta a economia. A vendedora do Armazém do Campo, Rosangela Rodrigues, explica como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) contribui para a economia. “O MST é o maior produtor de arroz orgânicos do Brasil.  Hoje o MST conta com 160 cooperativas, 120 agroindústrias e 1900 associações em todo o Brasil, que atuam no fortalecimento da solidariedade Sem Terra e potencializam as melhorias na produção dos assentamentos, constroem relações de trabalho mais igualitárias e melhoram a renda das famílias assentadas.”

No entanto, o agronegócio também está diretamente relacionado ao elevado desmatamento e outros impactos ambientais que têm se mostrado, segundo pesquisadores, irreversíveis. Este é um dos principais argumentos usados por quem participa de lutas a favor do meio ambiente. Em abril, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) realizou diversas invasões de terra em nome do movimento "Abril Vermelho". O mês marca iniciativas pela redistribuição de terras e, segundo representantes, invade apenas territórios improdutivos.

Rosangela Rodrigues explica a importância do trabalho do MST para a loja. “Somos fruto do MST. O espaço Armazém do Campo SP surgiu para expor e comercializar os produtos da reforma agrária, frutos de muita luta dos assentados e suas respectivas cooperativas, produtos vindos de todos os estados do Brasil.”

Enquanto o movimento busca mudar as estruturas do sistema produtivo agrícola brasileiro, diminuindo os impactos sociais e ambientais ruins, o agronegócio ganha destaque pela sua elevada contribuição para o desenvolvimento econômico no País.

Renata Moura esclareceu o paralelo entre a importância do agronegócio para a economia e a necessidade de um papel mais sustentável. "O agronegócio é bastante importante para a economia no sentido de que, na produção de bens e serviços, o agro faz parte do setor primário. Nos últimos anos, tivemos uma queda nos demais setores, de indústria e serviços, o que acaba fazendo com que o PIB seja puxado principalmente pelo agro."

Além disso, ela aponta para a relevância de práticas do agronegócio que promovam, além de benefícios econômicos, a sustentabilidade. “É importante ressaltar que, no agronegócio, há aqueles que são totalmente insustentáveis, que invadem áreas que não deveriam, que fazem processos poluentes e que se utilizam de trabalho análogo à escravidão. Porém, isso não é o todo. Existe uma parcela do agronegócio que é séria e visa sustentabilidade.”

A intensa exploração do ambiente pelo agronegócio causa vários impactos ambientais, que devem ser contidos por meio de um desenvolvimento sustentável da economia. Para tornar este setor mais favorável ao meio ambiente, algumas atitudes simples podem ser praticadas por produtores rurais, por exemplo: recuperar áreas degradadas, descartar embalagens corretamente, investir em tecnologias sustentáveis, utilizar água de reuso, reduzir a emissão de gases do efeito estufa, entre outros.

 

Em 2020 o País registrou a marca de 9 milhões de desempregados
por
João Victor Tiusso
Lucas Rossi
|
22/06/2023 - 12h

Por João Victor Tiusso (texto) e Lucas Rossi (audiovisual)

 

O aumento expressivo do desemprego causado pela pandemia de Covid-19 provocou um grande aumento no número de trabalhadores autônomos no Brasil. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), realizada pelo IBGE, o Brasil tinha 25,7 milhões de profissionais independentes. Isso representa um crescimento de 4,7% em relação ao ano anterior. Em 2020 o Brasil chegou a marca de 9 milhões de desempregados, fazendo com que mais de 3 milhões de autônomos surgissem. Contudo, a renda desses profissionais caiu em 24%.

Vitor Modesto, chefe de cozinha, foi obrigado a voltar do seu intercâmbio na França no início da pandemia e optou por trabalhar de forma independente na sua própria casa ao invés de entrar em um restaurante. Ele conta que começou a vender pães caseiros em seu condomínio. Contudo, a dependência da clientela e a falta de estrutura atrapalha o crescimento do negócio e do lucro. Vitor ainda pontua que existem poucos pontos negativos em trabalhar de casa, porém para ter uma renda substancial é necessário abrir um novo estabelecimento com uma infraestrutura melhor.

 

Foto: Lucas Rossi

 

Desafios

Não há como negar que o trabalho autônomo concede uma liberdade muito maior para o profissional do que qualquer outra modalidade empregatícia. Contudo, também há desvantagens a serem vivenciadas no cotidiano dos trabalhadores.

Em caso de dúvida ou necessidade de auxílio ao longo da jornada de trabalho, os autônomos raramente têm a quem recorrer. Para Fábio Gomes, “vendedor ambulante”, o fato de não haver um supervisor, orientador, colegas de trabalho ou chefe de equipe faz com que a pessoa dependa unicamente das suas capacidades e conhecimento para resolver tarefas. Mas isso nem sempre é o suficiente, o que faz com que muitos autônomos acabem desistindo da empreitada em pouco tempo.

Na visão do vendedor, a solidão é outro desafio. A falta de contato com outras pessoas no ambiente de trabalho limita as interações sociais e troca de experiência no dia a dia. Esse fator pode ser mais sentido em gerações mais velhas que passaram a vida inteira trabalhando presencialmente com outras pessoas.

Muitos trabalhadores também relatam muita pressão, que pode contribuir para ansiedade e outros transtornos emocionais. Isso ocorre, pois os bons resultados são alcançados individualmente pelos autônomos, então se uma meta não é cumprida, os lucros estão baixos ou o tempo para trabalhar é escasso, a pessoa tende a se sentir frustrada e pressionada consigo mesma.

Vitor Modesto em um dia de trabalho. Foto: Lucas Rossi