Plataforma solicitou licenças para atuar com pagamentos e crédito, integrando consumo e transações
por
Mariane Beraldes
Thainá Brito
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08/05/2026 - 12h

TikTok busca autorização do Banco Central do Brasil (BC) para operar como instituição financeira no país, em um movimento que aproxima o aplicativo do modelo de “super app” e pode transformar a forma como consumidores, especialmente o público juvenil, compram e se relacionam com o dinheiro. A informação foi divulgada pela agência Reuters na última terça-feira de março (31). “Assim como outras plataformas, o TikTok quer deixar de ser só o canal de descoberta, para operar no ambiente completo de conversão, transformando esse consumo quase que guiado por esses estímulos dos próprios algoritmos da plataforma”, afirma Ângelo Vieira Jr., especialista em Digital e Novos Negócios, em entrevista à AGEMT.

Segundo fontes ouvidas pela Reuters, a rede social, controlada pela ByteDance, solicitou duas licenças: a de emissor de moeda eletrônica e a de sociedade de crédito direto. A primeira permitiria oferecer contas de pagamento digital, com serviços como transferências e pagamentos dentro da própria plataforma. Já a segunda abriria caminho para a concessão de crédito com recursos próprios ou para a atuação como intermediadora de empréstimos.

De acordo com a pesquisa TicKids Online Brasil de 2025, cerca de 46% das crianças e adolescentes brasileiros utilizam o aplicativo várias vezes ao dia. Para Ângelo, o novo modelo das plataformas pode transformar a forma como o jovem enxerga o consumo: “existe um risco relevante em relação a isso, principalmente entre os públicos mais jovens, essa diluição das fronteiras entre o próprio entretenimento e o consumo financeiro. A gente tá entrando na era desse embedded finance (finanças integradas), onde a decisão de compra não passa mais por  racionalidade clássica, mas por estímulo do próprio algoritmo, resultado da dopamina”, explica. 

A queda no uso do dinheiro físico tem feito com que a faixa etária infantil e juvenil lide cada vez mais cedo com formas digitais de pagamento, muitas vezes sem entender o valor do dinheiro, o que significa uma transação financeira ou até onde vão os próprios limites de gasto. Esse cenário acende um alerta, principalmente quando esse público chega aos 18 anos. Sem educação financeira, a relação com o consumo e com plataformas digitais pode ficar mais descontrolada. Dados do Relatório de Cidadania Financeira 2025, do Banco Central, mostram que, nos últimos oito anos, o número de jovens com acesso ao crédito dobrou no Brasil. Ao mesmo tempo, a inadimplência entre eles já é maior do que entre adultos e idosos. Em 2024, entre os que possuíam renda de até dois salários mínimos, 17,4% estavam inadimplentes.

No caso do TikTok, a expansão e a facilidade de acesso do público a serviços e ferramentas de compra reposiciona a plataforma, que passa a atuar também como fintech e a concorrer com bancos digitais e aplicativos de marketplace. Para Ângelo, esse movimento traz três desafios principais: a construção de credibilidade, a proteção do consumidor e a percepção de segurança de dados e dos pagamentos. “O aplicativo tem uma vantagem estrutural bem relevante: ele parte da atenção. Os marketplaces tradicionais competem pela demanda, enquanto o TikTok cria essa demanda. Esses players evoluíram do comércio para o conteúdo, essa rede social está fazendo o caminho inverso. E claro, também tem a capacidade de influenciar esses desejos antes da própria intenção de compra desse consumidor existir. Na prática, isso acaba posicionando a plataforma não apenas como um concorrente dos marketplaces tradicionais, mas quase que uma camada acima ", diz Ângelo.

Acompanhe em vídeo esta reportagem. 

 

Conflito encarece petróleo e fertilizantes, e mantém os juros altos, sufocando o orçamento
por
Julia de Sá Ribeiro
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27/04/2026 - 12h

A escalada do conflito no Oriente Médio já não é apenas um problema geopolítico distante: seus efeitos estão chegando com força ao bolso das famílias brasileiras. Como o Brasil importa derivados e depende fortemente do diesel para abastecer sua frota de transporte e o setor agropecuário, o resultado imediato do conflito são combustíveis mais caros. Esse custo extra na bomba é rapidamente repassado para a logística, a indústria e, consequentemente, para os alimentos nas prateleiras dos supermercados. 

Além do petróleo, há a crise agrícola. O Brasil é altamente dependente de fertilizantes importados, e o Irã figura como um fornecedor relevante de ureia e outros insumos. Especialistas já alertam para o risco de desabastecimento e de uma nova alta nos preços caso as infraestruturas iranianas sejam atingidas pelo conflito. Culturas fundamentais como a soja já enfrentam pressão de custos e incertezas para a safra de 2026/27, o que significa custos maiores no campo e, inevitavelmente, alimentos mais caros e inflação mais alta para o consumidor final. Com a inflação mais alta, o poder de compra da população cai, aumentando a necessidade de se recorrer ao crédito. Para tentar conter essa escalada de preços, o Banco Central tende a manter elevada a Selic, que é a taxa básica de juros da economia brasileira. A Selic funciona como referência para todas as outras taxas do país. Na prática, juros altos significam que o crédito, como cartão de crédito, cheque especial, consignado e financiamentos, fica muito mais caro, e a renegociação de dívidas antigas se torna mais difícil. As empresas, por sua vez, continuam repassando esses custos ao consumidor. 

Atualmente, de acordo com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 8 em cada 10 famílias brasileiras estão endividadas, o maior nível registrado em 16 anos. O comprometimento da renda com essas dívidas já alcançou 29,3%, uma máxima histórica segundo dados do Banco Central. A combinação de inflação persistente e salários estagnados cria uma trajetória perigosa: os custos de produção sobem, a inflação acelera e a renda real cai. Para manter o consumo básico, as famílias recorrem ao crédito caro. Economista e professora da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP), Laura Carvalho, em entrevista à AGEMT, explica: "quando a inflação de itens essenciais, como alimentos e energia, sobe acima da média e os salários não acompanham, ocorre uma compressão violenta do orçamento. As famílias não se endividam por luxo, mas para fechar o mês. Esse 'endividamento de sobrevivência' é o mais difícil de combater, pois não depende de educação financeira, mas de recomposição do poder de compra", ressalta Carvalho. 

Laura Carvalho, economista e professora da Universidade de São Paulo (USP) 
Laura Carvalho, economista e professora da Universidade de São Paulo (USP) 

Essa realidade é evidenciada pelo fato de que parte da população passou a usar o cartão de crédito para comprar comida. Para a economista, isso sinaliza um colapso em múltiplas frentes: "usar crédito para alimentação é um sintoma grave. Vejo isso como uma falha combinada: de política econômica, que não conseguiu garantir um ambiente de crescimento com baixa inflação, e de política social, que falhou em proteger os mais vulneráveis de choques de preços externos", diz a economista. 

Diante do cenário, o governo anunciou em 01 de maio o Desenrola 2.0, programa de renegociação de créditos inadimplidos, criado pelo Governo Federal. "Programas de renegociação são fundamentais para limpar o nome do consumidor e permitir que ele volte ao mercado, mas, isolados, eles podem apenas 'enxugar gelo' ", afirma Carvalho. Com a tendência de endividamento elevado projetada para 2026, o Brasil segue vulnerável às oscilações globais. Enquanto o conflito no Oriente Médio mantiver o petróleo pressionado, o desafio interno será transformar medidas de alívio temporário em soluções estruturais que protejam a renda do trabalhador. 

Entenda as motivações da queda e seus impactos no país
por
Isabella Damião
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23/04/2026 - 12h

Na última terça-feira (14), a cotação do dólar alcançou o menor valor desde 2024, abaixo dos R$5,00. A mudança do cenário financeiro no Brasil se deu, sobretudo, como consequência das últimas negociações entre o governo dos Estados Unidos e do Irã, em guerra desde fevereiro de 2026.

O dólar comercial, ou a taxa de câmbio, corresponde ao valor do real em relação ao dólar e reflete, principalmente, a política internacional e a inflação de cada país. Desse modo, a oscilação das tentativas de acordo entre o governo estadunidense e iraniano torna arriscado o cenário americano em diversos setores da economia, principalmente no comércio de petróleo. Os dois países disputam o controle do Estreito de Ormuz, via marítima que entrega 20% do petróleo mundial. 

O enfraquecimento do dólar se deu mundialmente, e outras moedas como o peso chileno e o peso mexicano também se valorizaram nessa relação. “Quando o mercado passa a acreditar que o Federal Reserve [Sistema de Reserva Federal dos Estados Unidos] pode reduzir ou desacelerar o aperto monetário, o dólar tende a perder força frente a outras moedas, especialmente de países emergentes", explica a professora de Economia da PUC-SP, Cristina Helena Pinto de Mello. 

Em relação ao real, a economista pontua que o que o favorece são as altas taxas de juros, que atraem investimento de capital estrangeiro. Além disso, a balança comercial brasileira apresentou, entre janeiro e abril de 2026, um superávit de US$20,92 bilhões, 44,3% a mais do que o valor do mesmo período no ano anterior. Esses fatores contribuem para um fluxo positivo de capital no Brasil e valorizam o real. 

Gráfico - média diária de saldo
Gráfico: Secretária do Comércio Exterior/MDIC

 

Quanto aos efeitos da redução do dólar comercial, Cristina Helena não vê uma mudança a longo prazo na economia brasileira: embora existam boas indicações nesse cenário, como o controle da inflação, a oscilação da taxa de câmbio pode deixar o fluxo de capitais mais suscetível à juros. “O real tem se destacado entre moedas emergentes em alguns momentos recentes, mas isso não é um movimento isolado nem garantido. Isso é conjuntural e pode se inverter”, esclareceu. 

Influenciadora brasileira detalha a criação e o sucesso de seu body splash
por
Fernanda Dias
João Luiz Freitas
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30/03/2026 - 12h

Com 442 mil seguidores no Instagram, a influenciadora digital Lis Bella Andreazzi viu que seu público consumia muitos perfumes e teve a ideia de criar um produto com a sua cara. A parceria com a Ekomist, empresa que faz aromas para grandes marcas, foi o passo seguinte para tirar o plano do papel e lançar o  "Eighteen Seasons". Em entrevista à AGEMT ela detalha a estratégia de seu body splash e explica para o leitor o poder da influência digital sobre o consumo. 

A conversa revelou como criadores de conteúdo movem o mercado e fazem produtos esgotarem em poucas horas. Também contou sobre o processo de criação para garantir que o item faça parte da rotina de quem a segue.  Lis Bella entende o impacto de suas indicações no mundo digital e percebe que seu público confia muito no que ela usa no dia a dia. A influenciadora explica que nem todo produto vende com facilidade e o que importa é o alinhamento com o perfil de quem a acompanha. "Não é todo mundo que vai comprar? É quem se sentir atraído pelo produto, se divulgo maquiagem ou perfume, a chance de venda é maior", ressalta Lis Bella, que acrescenta: "as pessoas veem que ela usa o item de verdade e não apenas para uma propaganda". 

"Você ser uma influenciadora que passa essa confiança para o público, criando uma intimidade por meio de exemplos de sua rotina de cuidados com a pele gera muito engajamento". Segundo a influenciadora essa credibilidade está altamente ligada à escolha de não divulgar golpes ou casas de apostas, pois as marcas buscam influenciadores com boa reputação para parcerias de longo prazo. O nome "Eighteen Seasons" marca uma fase de transição na vida dela, pois o lançamento teve uma ativação estratégica em sua festa de 18 anos.

Além disso, ela chamou alguns de seus seguidores para estarem presentes nesse lançamento, reforçando a ideia de que ela preza pela proximidade ao público. A embalagem tem inspiração em produtos internacionais de sucesso e a marca atrai quem gosta de perfume e quem admira o estilo de Lis Bella.

Lis Bella Andreazzi - mulher segurando seu produto
Lis Bella Andreazzi na divulgação do seu produto "Eighteen Seasons". Fonte: divulgação. 

O mercado vê o surgimento de febres passageiras em alimentos e cosméticos, vários produtos viralizam e esgotam rapidamente. Exemplos recentes incluem o "morango do amor" e o "labubu". Esses itens mostram como um vídeo ou uma tendência pode criar uma demanda imediata e massiva. A velocidade com que esses produtos aparecem e desaparecem do mercado é um desafio para as marcas e um reflexo do consumo impulsionado pelas redes sociais.

A ideia de que um produto pode viralizar hoje e ser esquecido amanhã não é apenas percepção das redes sociais, mas já vem sendo discutida também no campo do marketing. Um estudo recente da Nanyang Business School, em Singapura, define esse cenário como “economia do momento”, em que marcas e consumidores passam a girar em torno de tendências rápidas, com picos de atenção que desaparecem em pouco tempo.

Na prática, o que se observa é um padrão recorrente. Um vídeo viraliza, o produto ganha visibilidade, a procura dispara e, em poucos dias, o interesse começa a cair. O ciclo é curto e, muitas vezes, substituído rapidamente por uma nova tendência. A influenciadora reforça, em entrevista, que a relação de confiança com o público acelera esse processo. Quando a indicação vem de alguém com quem o seguidor já se identifica, a decisão de compra tende a acontecer mais rápido, sem muita comparação ou planejamento. Ao mesmo tempo, o próprio estudo aponta um limite importante: chamar atenção não significa construir uma relação duradoura. Em um ambiente onde tudo é substituído rapidamente, ser visto não garante ser lembrado.

Andreazzi destaca que, nesse contexto, o timing se torna um dos fatores mais importantes. Participar de uma tendência no momento certo pode definir o alcance de um produto. Fora desse período, o interesse tende a cair rapidamente. Por fim, o eixo do comportamento do consumidor busca entender como essas dinâmicas afetam as escolhas. A repetição desse padrão indica um consumo mais impulsivo, influenciado pela urgência e pelo desejo de participar de algo coletivo. No entanto, esse comportamento nem sempre se traduz em fidelidade. A própria lógica da “economia do momento” sugere que o consumidor está sempre em busca do próximo viral. Segundo Andreazzi, a continuidade da relação depende menos do hype e mais da experiência real com o produto após a compra.

 

Bolhas de IAs e tensões geopolíticas afetam o valor final dos produtos eletrônicos
por
João Moura
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27/03/2026 - 12h

O consumidor brasileiro que planeja atualizar seus dispositivos eletrônicos nos próximos meses encontrará um cenário difícil. Segundo projeção da Gartner, empresa de consultoria no mercado de tecnologia, o preço dos computadores deve sofrer um reajuste de 17% em curto prazo. Ainda nessa análise, o mercado de PC’s deve sofrer uma retração de 10,4% em vendas. O aumento do preço é  impulsionado por uma combinação de fatores globais e decisões de política interna. O encarecimento de memórias RAM e unidades de armazenamento SSD, se transformou no principal vilão do orçamento doméstico e empresarial, agravando uma tendência de alta que se acumula desde o final de 2024.

O motivo principal dessa inflação está no crescimento do mercado de inteligência artificial (IA). A infraestrutura necessária para sustentar os modelos de linguagem (LLMs) e processamento de dados exige uma grande quantidade de hardware. Como resultado, as big techs estão direcionando seus investimentos para a construção e manutenção de data centers, consumindo a maior parte da produção mundial de semicondutores.

O apetite das gigantes da tecnologia acaba por "canibalizar" a oferta de produtos para o consumidor comum e pequenos varejistas. Um marco dessa mudança ocorreu em novembro de 2025, quando a Micron, uma das líderes globais do setor, anunciou o fim de sua linha de memórias padrão para consumidores, reajustando todo o seu portfólio para atender exclusivamente às demandas corporativas de alta escala. Para a economista e professora da PUC-SP, Leslie Denise Beloque, o momento exige cautela extra dos investidores e consumidores. “Temos uma imensa bolha no campo das big techs. Quer dizer que a valorização das ações dela na bolsa é extremamente grande, supondo que o desempenho delas na vida real também esteja. Isso fatalmente uma hora estoura, e todo mundo que tinha ação vai ver que isso era irreal, e perde dinheiro”, afirma Leslie.

Data centers dominam o mercado de memória RAM. Foto: wirestock/Freepick
Data centers dominam o mercado de memória RAM. Foto: wirestock/Freepick

Além da pressão de demanda, a oferta global de chips enfrenta problemas logísticos e diplomáticos. A guerra tarifária entre Estados Unidos e China impôs barreiras severas ao fluxo de recursos essenciais para a fabricação de microchips, afetando empresas cruciais como a TSMC e a Nvidia. A escalada de tensões entre os dois países também envolve restrições à exportação de tecnologias sensíveis e sanções comerciais estratégicas, especialmente no setor de semicondutores avançados.

Washington (EUA) tem ampliado o controle sobre o envio de equipamentos de litografia e chips de alto desempenho para empresas chinesas, enquanto Pequim responde com políticas de incentivo à produção doméstica e possíveis limitações na exportação de minerais críticos, como terras raras. Esse embate cria um ambiente de incerteza para toda a cadeia global de suprimentos, elevando custos, atrasando entregas e reduzindo a previsibilidade do mercado. No Brasil, o cenário é agravado pela questão tributária. A resolução Gecex 852, que entrou plenamente em vigor no início de  março de 2026, estabeleceu uma taxação de 12,6% sobre placas de vídeo, memórias RAM e placas-mãe. Embora o governo justifique a medida como uma forma de proteger a indústria nacional, que registrou um aumento de 33% na importação desses itens desde 2022, o impacto imediato é o desestímulo ao consumo.

Mundial sediado na Austrália e Nova Zelândia promete atingir patamares   históricos na modalidade 
por
Júlia Takahashi, Laura Mariano e Luiza Fernandes  
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05/07/2023 - 12h

O futebol feminino está, a passos largos, rompendo com a bolha de quem já assistia à modalidade e chegando a cada vez mais pessoas, se tornando um mercado que se consolida como muito lucrativo, mesmo que ainda seja pouco explorado. O ano de 2023 é extremamente importante nesse caminho. A Copa do Mundo feminina começa no dia 20 de julho e é a maior aposta da Fifa para que aconteça uma consolidação mundial da competição.   

O crescimento do esporte tem acontecido em todo o mundo, principalmente sob a ótica dos patrocínios. Cada vez mais as marcas têm buscado a modalidade, acreditando ser uma boa oportunidade de propaganda e divulgação. Segundo relatório da Fifa, só em 2022, o número de ligas femininas com patrocinadores principais aumentou de 11 para 77%.   

Além do importante aumento nos patrocínios, o interesse também cresceu. O número de competições que garantem receita de transmissão passou de nove para dez. E, nos estádios, o ano de 2022 registrou recordes de público em todo o mundo.   

A história do futebol é baseada em ser uma prática destinada aos homens, nascida na Inglaterra e popularizada rapidamente. Quando chegou ao Brasil, o esporte se concentrou na elite burguesa carioca, sendo um símbolo de estilo de vida. A estética fazia parte do estereótipo masculino da época, enquanto as mulheres não eram bem vistas praticando o esporte.   

Durante o governo do ex-presidente Getúlio Vargas, criou-se o decreto,  artigo 54 da Lei 3199/41, que confirmava essa proibição, pois a prática de desportos [era] incompatível com as condições de sua natureza”.  

O futebol feminino só foi legalizado no Brasil em 1983, quando foi regulamentado por lei. Em menos de dez anos, a FIFA organiza a primeira Copa do Mundo feminina, da qual o país fez parte, tendo a participação da atleta Formiga, a única jogadora que participou de todas as Copas.  

Ao longo dos últimos anos, o futebol feminino tem experimentado um crescimento em termos de reconhecimento e popularização. Em entrevista para a Agemt,a historiadora e pesquisadora Aira Bonfim destaca a importância das discussões de gênero para esse crescimento, “Toda a evolução que a gente tem observado na modalidade do futebol feminino, da construção de um futebol profissional, ela se trata na verdade de uma evolução que diz respeito a toda a sociedade, que envolve movimentos sociais de diferentes lugares e que refletiram diretamente na forma como acontece hoje a modalidade”, argumenta.   

No Brasil, a prática passou a ganhar espaço na grande mídia esportiva e a bater recorde de público em diversos jogos, consequentemente, as premiações e o reconhecimento aumentaram.   

Parte fundamental para a rentabilidade de qualquer esporte no Brasil e no mundo é que haja engajamento por parte de empresas privadas, que decidam patrocinar atletas, times e eventos. A professora de publicidade e propaganda da PUC São Paulo, Andréia Perroni explica por que o patrocínio é benéfico também para as empresas.   

“Para as empresas se diferenciarem no marketing hoje, elas têm adotado causas sociais que são do interesse da sociedade, se torna uma forma de ganhar a simpatia do público. Quando as empresas levantam uma bandeira, elas estão trazendo uma diferenciação, que não vem do produto para o qual ela vende, mas das imagens e dos vínculos que ela faz ao seu público. O patrocínio ao futebol feminino é uma forma de humanizar a empresa.”

Ainda segundo a professora, a Copa do Mundo de 2023 promete ser um evento fundamental para os patrocinadores. “Há todo um contexto favorável para que essa edição da Copa do Mundo traga ainda mais notoriedade e patrocínio ao esporte. Eu diria que as agências de publicidade entendem esse contexto e estão, de forma acertada, recomendando aos seus clientes o futebol feminino, e especialmente a Copa, como uma inserção de marca positiva”, afirma.   

É isso que também deseja a Fifa, que está investindo em uma premiação recorde no evento, R$ 733 milhões para times e jogadoras, transmissão na TV aberta para mais de 150 países, e também no streaming. Além do formato de disputa com 32 seleções. A audiência global é estimada em 2 bilhões de telespectadores, o dobro da edição passada.   

Um dos últimos patrocinadores a integrar a lista foi a marca de vinhos australiana, Jacob's Creek.  Além dela, Jacob 's, a lista de parceiros comerciais da Copa do Mundo conta com outras empresas de escala global. Os três maiores investidores – sem contar com a Fifa – são, Adidas, Coca-Cola e Wanda.   

Em seguida, aparecem Visa e Xero, as duas primeiras marcas que entraram na vertical comercial e específica para o futebol feminino lançada pela Fifa em 2021. A Globant e a Inter Rapidísimo também fazem parte do time de apoiadores do evento. A Visa patrocinará 33 jogadoras de 27 seleções. A relação de atletas foi lançada em março e contou com o nome da atacante brasileira, Debinha.  

A Copa do Mundo feminina já ultrapassou o recorde de público ao atingir a marca de 1.032.884 ingressos vendidos até a manhã do dia 16 de junho e se consolida como o maior evento da história do futebol feminino, demonstrando na prática o enorme potencial financeiro da modalidade.

  

Programa do governo pode trazer outros benefícios, como aumento no número de empregos e diminuição do preço do usado
por |
04/07/2023 - 12h

A redução de impostos sobre veículos populares causou um efeito positivo em grande parte da população. Dentre todas as medidas de cunho social anunciadas pelo governo Lula, sem sombra de dúvida, foi a que mais gerou discussão e comentários. Até porque, se comparado com o aumento do salário-mínimo de apenas R$ 18 e a redução no preço dos combustíveis, cuja variação não depende exclusivamente do governo, ela parece realmente fazer a diferença na vida das pessoas. 

Antes do anúncio, um carro popular custava entre R$ 65 mil e R$ 80 mil, ou seja, entre 49 e 60 salários-mínimos. Poucos brasileiros teriam condições de arcar com isso. Agora, as montadoras já anunciam que o desconto pode chegar a R$ 10 mil e, com a queda nos juros, também prometida pelo governo, o brasileiro, ao que parece, poderá finalmente voltar a ter um carro na garagem. 

O diretor do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles, explica por que o carro é algo tão importante na vida do brasileiro. “Tem uma história, né? Uma história de que o carro, como a casa própria, foi visto como um patrimônio. Então, durante muito tempo, ter o carro era visto não como um status – do ponto de vista, ‘olha eu sou melhor porque tenho carro’... tinha isso também, mas era menos isso e mais aquela situação de ser algo que eu declaro no Imposto de Renda.” 

Renato ainda conta que essa relação patrimonial se desenvolveu para uma relação simbólica-afetiva expressa em atividade prosaicas, como lavar o carro aos domingos de sol ou deixa-lo parado na frente de casa, como uma peça de museu. Porém, todas essas coisas desapareceram após o início dos anos 90, quando os veículos começaram a ficar bem mais caros. 

Os motivos são muitos: altos impostos, como o PIS/COFINS, ICMS, IPI; o Custo Brasil (um conjunto de empecilhos burocráticos, fiscais e econômicos do país); a infraestrutura rodoviária – que só tem qualidade próxima das capitais, mas, é precária no vasto interior do país; o acréscimo de inúmeros requisitos regulatórios, como airbags e freios ABS; a falta de investimento em tecnologia e outros fatores macroeconômicos, tais quais a pandemia, a taxa de juros e a desvalorização do real. 

A soma de tudo fazia com que um carro popular importado dos EUA custando US$ 20 mil passasse a custar U$ 5 mil no Brasil. Somando isso com a desvalorização do real, os preços chegaram a patamares muito elevados impossibilitando as classes C e D de adquirirem veículos automotores. 

O problema é que, de acordo com Renato Meirelles, estas medidas podem não ser suficiente devem favorecer mais a classe média do que o povo. “Se o carro custar R$ 8.000 por mês você parcela em um ano para comprar o seu carro. R$ 8.000 por mês... Sabe quantos brasileiros ganham isso?... Metade dos brasileiros ganham menos do que R$ 2.600 e renda familiar. Metade. Então, a não ser que tenham mudado o conceito do que é ser popular, nós estamos longe de ter um carro popular.” 

Ainda é cedo para dizer se o brasileiro comum terá poder de compra para botar um carro novo na garagem, mas é importante lembrar dos reflexos trazidos por medidas como essa. Com o barateamento do carro zero, é muito provável que os carros usados também fiquem mais acessíveis. “É muito provável que as classes baixas ‘ataquem’ esse mercado”, ele conclui. 

Fora isso, a possibilidade de se construir ou reativar a indústria automotiva no país, outro ponto inserido no pacote, pode aumentar a oportunidade de empregos em montadoras, distribuidoras e outros mercados relacionados ao carro.  

Assim, o brasileiro tem razão em se animar com o barateamento dos veículos e todos os outros benefícios que ele pode trazer. No entanto, é sempre bom esperar a reação do mercado e dos consumidores para saber de fato se o pacote é motivo para comemorar. 

Pequenas empresas reagem e retomam investimentos interrompidos na pandemia
por
Victor Oliveira Trovão
Larissa Isabella
Livia Veiga
Bárbara More
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04/07/2023 - 12h

Mais do que nunca, a área de estética encontra movimentação constante no mundo, em especial no Brasil. O mercado de beleza e cuidados pessoais anualmente movimenta bilhões de reais, configurando o ramo como um dos mais influentes no país. A atividade passa por uma grande transformação ao surgirem diversas pequenas empresas, produtos com novas tecnologias, e, principalmente, profissionais como cabeleireiros, esteticistas, designers de sobrancelhas, micropigmentadoras e outras especialidades.

De acordo com Reginaldo de Andrade, consultor de negócios do Sebrae SP (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), existem muitos fatores por trás disso, dentre eles o autocuidado:
“O brasileiro se preocupa muito com (auto)imagem, por isso se desponta como um dos maiores consumidores de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos do mundo”, explica.

Segundo um levantamento feito pela Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec) junto com o Instituto FSB Pesquisa, em 2021 o Brasil se tornou o terceiro maior consumidor de produtos estéticos, ficando apenas atrás dos Estados Unidos e China. A coordenadora do curso de Estética na Faculdade Anhanguera, Gisele Costa, analisa a força do setor no país: “O brasileiro em sua maioria cultua a beleza, é vaidoso, quer reverter sinais de envelhecimento, ter um corpo dentro de padrões estéticos imposto pela sociedade”.

Esse crescimento foi notório mesmo durante a pandemia da Covid-19, que teve início em 2020. Na época, os profissionais precisaram estagnar seus atendimentos e diminuí-los para se encaixarem nas medidas de saúde. Em outra perspectiva, Reginaldo acredita que o fim da pandemia trouxe mudanças ao setor dado o surgimento de novas técnica, tendências e tecnologias, o que aponta crescimento. 

A pandemia  gerou ondas de desemprego e levou muitas pessoas a buscarem novas fontes de renda. Assim, muitos cidadãos decidiram começar a empreender e abriram seus próprios estabelecimentos. Segundo o relatório da Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2020, realizado pelo Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP), cerca de 50 milhões de brasileiros que não empreendiam antes da Covid-19 tinham planos de abrir um negócio nos próximos três anos.

Logo no primeiro semestre de 2022, quando as medidas de isolamento social foram reduzidas por conta da queda do número de casos, foram abertas mais de duas milhões de empresas no Brasil e uma boa parte do negócio informal decidiu se regularizar, apontam dados da Receita Federal. O Sebrae indica que em 2023 existem cerca de 6,4 milhões de estabelecimentos no Brasil e 99% deles são micro e pequenas empresas (MPE). Alguns microempreendedores ressaltam que a pandemia teve seus pontos positivos e negativos para os negócios.

A esteticista Beatriz Fraider, de 21 anos, conta que apenas conseguiu retomar os atendimentos após o fim do lockdown e precisou tomar o dobro de cuidado com paramentação e higiene ao receber os clientes. Porém, conseguiu ver o seu negócio florescer no período da Covid-19: “A pandemia foi o momento em que nós mais crescemos. Muita gente começou a procurar uma maneira de aumentar a autoestima, então, como havia apenas olhos e sobrancelhas livres das máscaras, começamos a ter bastante procura”.

Em contrapartida, a designer de sobrancelhas Samantha Fidalgo Carvalho, de 34 anos, sofreu um forte impacto financeiro durante os dois anos de pandemia: “Tive que sair do local em que estava meu estúdio, pois não consegui acordo com o proprietário, meus parceiros profissionais não queriam assumir a divisão de contas por não saber quanto tempo teríamos de pandemia. Tive que me desfazer do meu estúdio em dias, colocando minha mobília na garagem de casa, sem local para ir, sem saber como iria procurar uma nova sala, pois não podia sair de casa. Tinha medo da Covid e contas chegando normalmente”.

A profissional conta que precisou abrir uma sala comercial de tamanho bem menor em outro bairro e passou cerca de quatro meses sem trabalhar, vivendo do dinheiro que era mantido em uma reserva. Samantha afirma que nunca se recuperou completamente do prejuízo: “Agora que as empresas já estão voltando com os trabalhos presenciais, os atendimentos começaram a ter mais procura, mas o que mais impacta hoje é a economia. Como os preços de tudo estão muito altos, as clientes não estão dando preferência à estética, pois o meu serviço é um valor relativamente alto, além de ser um supérfluo, não é uma necessidade básica, então pode adiar na lista de prioridade delas”.

Os desafios enfrentados pelos profissionais que trabalham no setor estético são muitos. Além da questão financeira e mercadológica, também há o fator da profissionalização: “O investimento com os estudos é alto, o profissional precisa se manter atualizado num setor que se inova constantemente; a remuneração, como em qualquer profissão, nem sempre é adequada; há muita concorrência e fidelizar clientes cada vez mais exigentes e bem informados sobre esse universo da beleza é um grande desafio”, analisa Gisele Costa. A coordenadora também ressalta que se trata de uma área ampla, que não se limita ao público feminino: “Os estudantes não procuram cursos especificamente como ‘estética feminina’, apesar de serem as mulheres o maior público. Quem está ingressando na área vê uma oportunidade de crescimento profissional e procura dentro da estética um nicho para atuar com que tem maior afinidade. 

Apesar das dificuldades, os esteticistas encontram força para continuar a exercer a profissão no amor que sentem em ver a satisfação dos clientes com o resultado final: “Vi que esse trabalho mudava a vida das mulheres, deixava elas felizes consigo mesmas, tão realizadas, que me fez perceber que, através do meu trabalho, eu poderia levar alegria e realização para alguém”, reflete Samantha.
 

Apesar da impressão de sucesso, modelo adotado em 2022 apresenta graves problemas
por
Lucca Ranzani
Gustavo Zarza
|
04/07/2023 - 12h

A SAF (Sociedade Anônima do Futebol) do Vasco da Gama foi criada em 2022, em parceria com a empresa americana 777 Partners, que investiu R$ 700 milhões para ter 70% de participação societária. A proposta da empresa é aportar mais R$ 120 milhões em setembro e outros R$ 390 milhões até o fim de 2024. O Vasco da Gama SAF prevê sua autossustentabilidade a partir de 2025.

No entanto, mesmo após o aporte milionário da SAF, o clube encontra dificuldades em honrar alguns compromissos e tenta renegociar essas condições. O Vasco priorizou manter o funcionamento do clube, com os salários e as parcelas da dívida em dia, e, para isso, teve que descumprir prazos e renegociar pagamentos.

Os atrasos de pagamentos do Vasco ficaram evidentes com os contratos de dois jogadores, Andrey Santos e Léo Pelé. A dívida com Andrey é referente às comissões dos empresários. O clube tem uma dívida pendente de R$ 12 milhões relativa à venda do jogador ao Chelsea e ainda não pagou duas das três parcelas combinadas com o volante.

Em relação ao jogador Léo Pelé, o Vasco atrasou o pagamento de parte da segunda parcela da compra do zagueiro que pertencia ao São Paulo. O clube também atrasou parcelas em compras de outros atletas, mesmo depois do aporte feito pela 777 Partners na transformação em SAF.

O site oficial do Vasco da Gama disponibiliza informações financeiras, incluindo balancetes e demonstrações contábeis. Em 2022, a SAF publicou um balanço com um déficit de R$ 594 milhões. De agosto a dezembro do último ano, a receita operacional líquida do Vasco SAF foi de R$ 47,4 milhões. A rubrica considera direitos de transmissão, bilheteria, marketing, programa de sócio torcedor e outras fontes de renda. Em 2022, a equipe disputou a Série B do Brasileirão pelo segundo ano consecutivo.

De acordo com o colunista Rodrigo Mattos, do UOL, após a transformação em SAF, o Vasco fechou 2022 com um prejuízo de R$ 88 milhões. O valor tem a ver com as dívidas assumidas pela 777 Partners como parte do acordo de aquisição do futebol do clube. O primeiro balanço da era SAF mostra o tamanho do desafio do fundo norte-americano na reestruturação do futebol cruz-maltino.

Em outro artigo, Rodrigo Mattos menciona que, no meio de 2022, mesmo na Série B, a torcida do Vasco vivia uma onda de otimismo com a criação da SAF e o aporte da 777 Partners. No entanto, os primeiros meses de 2023 mostraram que a realidade é um pouco diferente.

O colunista observou que, em 2023, o Vasco perdeu para o Santos em casa por 1 x 0 e terminou a 6ªrodada em 16º lugar, próximo da zona de rebaixamento. O início do campeonato revelou fragilidades do time vascaíno, algumas já conhecidas no Campeonato Carioca e na eliminação da Copa do Brasil. A torcida perdeu a paciência.

Em março, o portal GE noticiou que o Conselho de Administração da SAF se reuniu para reavaliar as projeções de receitas, que, na opinião de alguns membros, estavam abaixo do esperado. Isso ocorreu porque a arrecadação nos primeiros meses do ano foi baixa, o que dificultou o cumprimento dos prazos.

A eliminação precoce do Vasco na segunda fase da Copa do Brasil, para o ABC, teve um grande impacto no orçamento, já que o clube esperava avançar pelo menos mais duas fases na competição. Além disso, a venda de um jogador gerou uma discussão com parte dos credores do RCE sobre a destinação dessa receita, o que gerou insegurança jurídica e afetou os investidores.

O CEO da SAF, Luiz Mello, afirmou em um evento em Brasília que a situação tem sido difícil devido aos constantes problemas jurídicos. No entanto, o Vasco espera que a situação se normalize no segundo semestre com um novo aporte da 777, de R$ 120 milhões, e com a expectativa de aumento das receitas nos próximos meses.

Analisando o balanço financeiro da SAF do Vasco da Gama, é possível identificar alguns desafios que o clube enfrentará no futuro. A recuperação das receitas é fundamental para equilibrar as finanças, e isso passa por um desempenho esportivo mais consistente, que permita a participação em competições de maior visibilidade e a conquista de títulos.

Segundo técnica do Dieese, a cada R$ 1 de reajuste, há um impacto de mais de R$ 730 milhões no repasse à população
por
Aline Freitas
Luan Leão
Tábata Santos
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03/07/2023 - 12h

No último dia 1º de maio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou, em ato organizado pelas centrais sindicais no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, o aumento do salário mínimo de R$ 1.302 para R$ 1.320. O reajuste de R$ 18  garante um aumento real (descontada a inflação) de 2,8% em 2023. De acordo com o projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), enviado pelo governo ao Congresso, a previsão é de que o salário mínimo seja de R$ 1.389 em 2024.

Além do aumento real no salário mínimo, houve a alteração do valor por hora trabalhada para R$ 6 e o diário para R$ 44. O Imposto de Renda também sofreu mudanças: agora, apenas as pessoas que recebem mais de dois salários mínimos, o equivalente a R$ 2.640, deverão declarar à Receita Federal.

Apesar das medidas anunciadas e das falas do presidente contrapondo o reajuste à falta de aumento  anual durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), entidades políticas, como a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), classificaram o aumento como abaixo do esperado.
 

Em nota, a CUT afirmou: “Os cálculos do Dieese [Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos] mostram que, se o Programa de Valorização do Salário Mínimo não tivesse sido interrompido, hoje o valor deveria ser de R$ 1.382,71. O que significa uma valorização de 6,2%”.

Já a CTB declarou que o anúncio "fere as expectativas do movimento sindical". "Não dá para silenciar diante dos fatos e nós não devemos nos calar. O salário mínimo vigente no Brasil está anos-luz de distância do que deveria ser, com base no cálculo do Dieese (R$ 6.641,58). Temos que considerar o estágio de profunda desigualdade em que estamos, com uma realidade que assusta a milhões de famílias, dada a insegurança alimentar e o flagelo social. É urgente que o governo tome para si essa bandeira fundamental que foi utilizada como moeda forte na campanha", disse o presidente Adilson Araújo.

 

Os R$ 18 na prática

Adriana Marcolino, socióloga e técnica do Dieese, afirmou à Agência Maurício Tragtemberg que, a cada R$ 1 de reajuste, há um impacto de mais de R$ 730 milhões no repasse para a população.

“Considerando que todo esse recurso vá ser utilizado no mercado interno, a cada R$ 1 de reajuste há a possibilidade de gerar cerca de 18.383 mil empregos, o que também adiciona ao PIB (Produto Interno Bruto) um valor de R$ 1,3 bilhão", explica. "Em relação à arrecadação tributária, esse valor significa um incremento de R$ 333 milhões. Já em relação à massa salarial, o aumento é de R$ 476 milhões”, completa a socióloga.

Ainda de acordo com um estudo do Dieese, cerca de 54 milhões de pessoas serão afetadas pelo aumento real, das quais 22,7 milhões   diretamente. Nesse grupo, o departamento considera os empregados do setor público e privado registrados em carteira, servidores públicos, aposentados, pensionistas e beneficiários de programas sociais. Outros 31,3 milhões de brasileiros serão afetados indiretamente. Nesses casos, o estudo considera pessoas que residem em domicílios onde pelo menos uma delas é diretamente beneficiada pelo reajuste. 

Ainda sobre os impactos, Júlio Pires, economista e professor da PUC-SP, afirma que o setor de trabalho informal também é atingido. “Existe uma espécie de efeito sinalização mediante o qual, através do aumento do salário mínimo real, os trabalhadores do setor informal também são beneficiados. Isso porque esse aumento serve como referência para esse setor”, avalia.

 

Histórico

Ao comentar a insatisfação sobre o baixo valor do aumento neste início de governo, o economista relembra o primeiro mandato do presidente Lula. "O primeiro reajuste no governo de 2003 também foi baixo, e, com o avanço da economia, foi aumentando com o tempo", explica Pires.

No primeiro e segundo governo do atual presidente, entre os anos de 2003 e 2010, o salário mínimo passou de R$ 240 para R$ 510, mantendo um histórico de reajuste acima da inflação.

De acordo com dados do Ministério do Trabalho e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foi apenas em 2015, no governo Dilma Rousseff (PT), que o reajuste do salário mínimo ficou abaixo da inflação, com o valor de R$ 788, um aumento de 8,84%, contra  10,67% registrados pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Durante o período de Michel Temer na presidência, entre 2016 e 2019,  o salário subiu de R$ 880 para R$ 998, e mesmo assim não acompanhou a inflação durante o período, que chegou a marcar 9,32% ao final do mandato, a inflação era de 2,76%.

Nos dois primeiros anos do governo Bolsonaro, os dois índices estavam praticamente equiparados, com um leve sobressalto do mínimo, que estava em R$ 1.039 em 2020, ante uma inflação de 4,52%. Em 2021, a inflação atingiu dois dígitos (10,06%) e era quase o dobro do aumento de 5,26%, que elevou o salário para R$ 1.100.

O último aumento real do salário mínimo ocorreu em 2019, o único dos últimos seis anos.

No dia 5 de maio, o presidente Lula enviou ao Congresso Nacional um projeto de lei (PL) que estabelece uma nova política de valorização do salário mínimo. De acordo com o PL, o salário mínimo seria corrigido pela variação do Índice Nacional dos Preços ao Consumidor (INPC) acumulado nos 12 meses encerrados em novembro do ano anterior. O projeto prevê ainda que, caso seja positiva, haja um acréscimo da taxa de crescimento real do PIB.

A expectativa do governo é de que a política beneficie cerca de 40 milhões de pessoas. O impacto fiscal orçamentário esperado para 2024 foi de R$ 18,1 bilhões. Para 2025, a expectativa é de R$ 25,2 bilhões e em 2026, de R$ 39,1 bilhões.