Parceria entre bancos permite que brasileiros realizem pagamentos instantâneos por meio de QR Code em estabelecimentos argentinos
por
Jessica Castro
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16/03/2026 - 12h

 

Brasileiros que viajam para a Argentina agora contam com uma nova alternativa de pagamento. A iniciativa do Banco do Brasil em parceria com o Banco Patagonia permite que brasileiros utilizem o Pix para pagar compras em lojas físicas credenciadas no país.

O anúncio foi realizado em 6 de março de 2026 pelo Banco do Brasil e já se encontra em vigor. A medida faz parte de um movimento de instituições financeiras para ampliar o alcance do sistema de pagamentos instantâneos brasileiro em transações internacionais, especialmente entre destinos com grande fluxo de turistas do Brasil.

No mês anterior, o BB já havia lançado uma alternativa que permite aos lojistas brasileiros venderem para clientes argentinos do Patagonia por meio de uma solução financeira parecida com o Pix. A operação envolve uma transação que converte a compra para dólares e debita da conta do usuário na Argentina, enquanto o comerciante do Brasil recebe o valor imediatamente via Pix.

Como funciona o pagamento

A transação ocorre por meio da leitura de um QR Code apresentado pelo comerciante, que pode estar em uma maquininha de pagamento ou em outro dispositivo. Após escanear o código, o cliente utiliza o aplicativo do banco ou instituição financeira de sua preferência para concluir a compra.

Segundo as instituições envolvidas, o serviço pode ser utilizado por brasileiros independentemente de serem correntistas do Banco do Brasil. Além disso, não é necessário realizar cadastro prévio ou habilitação específica para usar o recurso.

Conversão automática e cobrança de IOF

Para viabilizar o pagamento, o Banco do Brasil realiza automaticamente a operação de câmbio para a moeda local. O cliente paga em reais, com débito direto da conta corrente ou da conta poupança vinculada ao aplicativo utilizado.

De acordo com a declaração, o próprio aplicativo realiza uma operação de câmbio para a moeda argentina no momento da transação, podendo, inclusive, verificar o valor total tanto em reais, como em peso e em dólar. 

Por se tratar de uma transação internacional, há incidência do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), conforme a legislação brasileira. No extrato bancário, a operação aparece registrada como um Pix comum, embora inclua a conversão cambial realizada no momento do pagamento.

Expansão para outros países

A iniciativa integra uma estratégia do Banco do Brasil para ampliar o uso do Pix fora do país. A instituição já estuda levar a funcionalidade para outros destinos na América, além de países da Europa e da Ásia.

A expectativa é que a ampliação do sistema facilite as compras de brasileiros no exterior e reduza a necessidade de troca de moeda em viagens internacionais. O Pix, criado pelo Banco Central do Brasil, tornou-se um dos principais meios de pagamento no país desde seu lançamento em 2020, com milhões de transações realizadas diariamente.

Entenda como o mercado transforma a fascinação pela nostalgia em negócio
por
Beatriz Neves Barbosa
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13/03/2026 - 12h

A retromania é a busca por uma identidade na qual pessoas realizam um retorno constante a estéticas, músicas e produtos culturais do passado. Isso acontece através do conforto em um mundo saturado de tecnologia digital. 

A economia da nostalgia

A economia da nostalgia mistura marketing com comportamento cultural. Negócios usufruem das lembranças do passado e passam a criar vínculos emocionais ao transformar o que era antes considerado antigo, em “vintage”. Essas empresas encorajam a compra, trazendo ao consumidor um sentimento de pertencimento e conforto.

O mecanismo psicológico por trás da estratégia transforma o consumo em um refúgio emocional, reduzindo ansiedade e relembrando momentos com atalhos emotivos ao invés de inventar algo do zero e totalmente inovador.

Segundo o publicitário Pedro de Luna, formado na Universidade Federal Fluminense e fundador da empresa Ilustre Comunicação Criativa, que inclui a Ilustre Editora, o uso da nostalgia é uma forma de criar um vínculo emocional com o público, especialmente por meio de memórias afetivas positivas. “Hoje, em tempos digitais, as pessoas estão se voltando a objetos analógicos, buscando uma descompressão e revisitando formatos físicos porque perceberam que isso gerou algum afeto”, afirma De Luna.

Imagem de uma loja de vinil
Foto: Mick Haupt

O fenômeno dos “Kidults”

Os kidults, combinação dos termos em inglês “kid” – criança e “adult” – adulto, são adultos que consomem produtos, jogos, brinquedos etc. que tradicionalmente seriam direcionados a crianças, mas que usufruem desses itens para coleções pessoais ou busca por uma saudade da infância.

As gerações compostas majoritariamente por Millennials, que cresceram nos anos 1980 e 1990, hoje são o público-alvo das empresas. Atualmente, com o maior poder de compra, eles se tornaram alvo de negócios que constroem uma narrativa pronta que explora referências da infância e adolescência. O resultado são produtos que apelam primeiro à emoção e depois à razão.

Um exemplo é a Pop Mart. A empresa de entretenimento sediada em Pequim popularizou brinquedos colecionáveis de diferentes designers em caixas-surpresas e tem como público-alvo adultos entre 18 e 35 anos. Avaliada em cerca de US$ 34 bilhões, a Pop Mart aposta na nostalgia e no fator surpresa para estimular o consumo, pois o comprador só descobre qual personagem recebeu após abrir a caixa. Os produtos misturam design contemporâneo com personagens conhecidos de gerações anteriores, como Mickey Mouse, por exemplo.

Imagem de uma loja da Pop Mart na China com bonecos sendo expostos atrás e uma mulher passando na frente
Clientes compram produtos em uma loja Pop Mart em Londres, Grã-Bretanha, em 21 de maio. FOTO XINHUA/CHINA DAILY

 

Guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã afeta o mercado mundial com destaque para o petróleo
por
Carolina Machado
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12/03/2026 - 12h

Após os ataques israelenses e norte-americanos matarem o líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, no dia 28 de fevereiro de 2026, o Irã reagiu. Não só inúmeras instalações energéticas foram paralisadas no Golfo Pérsico, como também o Estreito de Ormuz foi fechado. O objetivo do país era desestabilizar os Estados Unidos, atacando seus interesses econômicos e reafirmando sua posição na região. Dentre os países afetados pelo Irã, encontram-se Catar e Arábia Saudita. Além de apresentarem bases militares americanas, ambos têm importância no cenário econômico afetado.

O agravamento das tensões no Oriente Médio pode trazer efeitos mistos para o comércio exterior brasileiro - Imagem: Petrobras/Divulgação
O agravamento das tensões no Oriente Médio pode trazer efeitos mistos para o comércio exterior brasileiro - Imagem: Petrobras/Divulgação

O Irã ocupa uma posição geopolítica estratégica. O país controla um corredor crucial para o transporte mundial de petróleo e gás natural, o Estreito de Ormuz. No início de março, ao decretar seu fechamento, o país ameaça interromper um quinto do fluxo global desses combustíveis fósseis e já compromete o equilíbrio econômico ao redor do mundo.

A produção de 20% da oferta global de gás natural liquefeito catariano foi interrompida e a maior refinaria de petróleo saudita foi suspensa, a partir dos ataques iranianos. Junto a outros países do Golfo Pérsico, Catar e Arábia Saudita dependem do Estreito de Ormuz para sustentar sua economia. “Se fecharem o estreito, é um suicídio econômico para eles”, afirmou Marco Rubio, Secretário de Estado dos EUA.

O choque na distribuição de petróleo fez com que o preço disparasse. De acordo com Pedro Paulo Coelho, formado em geografia pela USP (Universidade de São Paulo) e em economia pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica), o aumento se sobressai e pressiona o cotidiano mundial. “O bloqueio do estreito reduz tanto a quantidade, quanto a oferta de petróleo disponível para movimentar a economia e, o resultado, é o encarecimento do preço dos barris”, afirmou.

Em poucos dias de conflito, o produto encareceu mais de 20 dólares por barril e, desde o início do ano, o aumento supera os 30 dólares, afirmam economistas do JPMorgan. Hoje, o aumento ultrapassa os 90 dólares e já pode afetar o Brasil que, apesar de produzir  4 milhões de barris de petróleo por dia, importa 300 mil barris diários desse combustível para a produção de querosene de aviação e insumos petroquímicos, como plástico e asfalto. Além disso, o país importa 20% do diesel consumido internamente. “No Brasil, a questão é mais o transporte. O caminhão, o carro e os meios de locomoção terrestres dependem da gasolina. Seu custo, apesar de estipulado pela Petrobras, acompanha o Preço Internacional do Petróleo, indicador econômico que define o valor do barril em bolsas de commodities internacionais”, acrescenta Pedro Paulo.

Reunião da Petrobras, em que se pautava a guerra no Oriente Médio  - Imagem: Tânia Rêgo/ Agência Brasil
Reunião da Petrobras, em que se pautava a guerra no Oriente Médio  - Imagem: Tânia Rêgo/ Agência Brasil

Em São Paulo, a população sente o aumento de 8,4% do preço de diesel, gasolina e etanol. Ainda que os reajustes acompanhem os preços pagos pelos importadores, a Petrobras não confirmou qualquer reajuste por causa da guerra no Oriente Médio. A presidente da petrolífera, Magda Chambriard, afirmou que se a volatilidade for grande, certamente, ela exigirá respostas mais rápidas. Caso contrário, sendo mais lenta, permite respostas graduais. Mas, não se tem sequer essa premissa.

Em reunião, nesta quinta-feira (12/03), a equipe do governo brasileiro avaliou os impactos e afirmou que trabalhará para garantir que as medidas de controle econômico cheguem às bombas. “Distribuidores têm de se somar ao esforço governamental para manter a economia brasileira funcionando normalmente", disse Fernando Haddad, Ministro da Fazenda.

Escândalo monetário ultrapassa sistema financeiro e movimenta STF e Congresso
por
Iasmim Silva
Martim Tarifa
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04/03/2026 - 12h

O Banco Master foi colocado em liquidação extrajudicial pelo Banco Central do Brasil em novembro de 2025, após meses de acompanhamento da situação financeira da instituição e tentativas frustradas de venda do controle. O banco, de médio porte e com atuação em São Paulo, já vinha sendo monitorado pela autoridade monetária por problemas de liquidez e fragilidades na carteira de crédito.

Antes da decisão, houve o anúncio de uma possível compra pelo Banco de Brasília (BRB), que não foi aprovada. Em seguida, um grupo ligado ao Fictor também tentou assumir a instituição, mas a operação igualmente não avançou. Paralelamente, a Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, passou a investigar suspeitas de criação e venda de carteiras de crédito inexistentes. 

A primeira fase resultou na prisão do controlador Daniel Vorcaro e no afastamento de Paulo Henrique Costa do comando do BRB. Posteriormente, Vorcaro foi solto por decisão judicial e passou a responder às investigações em liberdade.

Nesta quarta-feira (04), Daniel Vorcaro foi preso novamente pela Polícia Federal, em nova fase da Operação Compliance Zero. A medida foi autorizada pelo ministro André Mendonça, atual relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), e faz parte do aprofundamento das investigações sobre possíveis crimes financeiros e tentativa de obstrução das apurações.

Daniel Vorcaro
Dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. Foto: Márcio Gustavo Vasconcelos

O caso ganhou repercussão nacional quando surgiram citações a autoridades com foro privilegiado. As investigações passaram a tramitar no STF, após menções aos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli em reportagens e nos autos. O Banco Central já havia divulgado, ao longo de 2025, relatórios apontando problemas na estrutura financeira do Master.

Modelo de negócios e risco

Em entrevista à AGEMT, o economista Rafael Prado afirmou que o modelo de negócios do banco apresentava sinais claros de desequilíbrio. Segundo ele, o Master adotava uma estratégia agressiva de captação, oferecendo CDBs com rentabilidade entre 120% e 140% do CDI, taxa que serve como referência para investimentos considerados de baixo risco no país.

“Era claro o descasamento entre ativos e passivos do banco”, afirmou Prado. “Quando você oferece 120% ou 140% do CDI, está prometendo uma rentabilidade acima do que é considerado livre de risco. O investidor precisa estar ciente de que existe risco nessa operação, mesmo sendo um papel de renda fixa.”

O economista também destacou que parte relevante dos ativos estava concentrada em precatórios e participações em empresas com dificuldades financeiras, além de operações de baixa liquidez. Essa combinação, segundo ele, contribuiu para o comprometimento do balanço e para a perda de capacidade de honrar compromissos.

A crise trouxe ainda discussões sobre o papel do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que garante até R$ 250 mil por CPF em determinados produtos bancários. Embora o fundo seja considerado sólido, especialistas ressaltam que a garantia não elimina o risco da aplicação e não deve ser usada como principal argumento para decisão de investimento.

Para Prado, a atuação do Banco Central seguiu os instrumentos previstos na legislação, passando por etapas de acompanhamento antes de decretar a liquidação. Ele avalia que o episódio é pontual e não indica, até o momento, risco sistêmico para o sistema financeiro brasileiro.

Implicações no STF e suspeitas de conflito

Após a prisão de Daniel Vorcaro em novembro de 2025, relatório da Operação Compliance Zero apontou possível relação do ministro relator com o caso. Menções diretas ao nome de Dias Toffoli apareceram em conversas no celular do dono do Banco Master.

Toffoli
Ministro Dias Toffoli. Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

A empresa Maridt Participações, da qual o ministro é sócio, tinha relações comerciais com a Reag, gestora de fundos de investimento suspeita de compor uma rede fraudulenta de finanças junto ao Master e que também teve a liquidação decretada pelo Banco Central. Em nota, o gabinete de Toffoli afirmou que, apesar de ser um dos sócios, quem gere a empresa são seus irmãos.

Após reunião realizada no dia 12 de fevereiro, o STF comunicou o afastamento do ministro Dias Toffoli em votação unânime, mas informou que todos os ministros reconhecem a validade das decisões tomadas por ele durante o período de relatoria do caso. Após novo sorteio, o ministro André Mendonça assumiu a condução do processo.

O doutor em Direito e comentarista político Wagner Gundim afirmou à AGEMT que “a presença de Dias Toffoli no caso Master, do ponto de vista institucional, é profundamente problemática”. Segundo ele, independentemente da conduta do magistrado, o STF, como guardião da Constituição, não pode conviver com rumores de parcialidade.

Como relator, Toffoli decretou sigilo durante as investigações após apontar possível envolvimento de um deputado e determinou a centralização do caso no Supremo, medida prevista para situações com autoridades com foro privilegiado.

O ministro Alexandre de Moraes também foi vinculado ao Banco Master após a divulgação de informação sobre um suposto contrato em nome de sua esposa com empresa ligada a Daniel Vorcaro. Segundo a jornalista Malu Gaspar, o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes teria contrato com o Master que poderia atingir R$ 129 milhões em três anos. O documento, contudo, não foi apresentado publicamente, e a fonte não foi revelada.

Repercussões no Congresso

No Congresso, o senador Ciro Nogueira (PP) apresentou proposta que ficou conhecida como “Emenda Master”, prevendo a ampliação da cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão.

Para Wagner Gundim, a iniciativa evidencia o impacto do poder econômico sobre o poder político. Ele avalia que o caso expõe a atuação de um “lobby institucionalizado, não regularizado” nos bastidores da política brasileira.

O escândalo também passou a ser investigado pela CPI do Crime Organizado, que aprovou a quebra do sigilo decretado por Dias Toffoli e a convocação dos irmãos do ministro, sócios da Maridt Participações. A sessão da CPI que aconteceria nesta quarta-feira (04) foi cancelada após a prisão de Vorcaro. 

As decisões, no entanto, foram suspensas por ministros do STF. Gilmar Mendes anulou a quebra de sigilo das investigações, enquanto André Mendonça acatou pedido da defesa dos irmãos de Toffoli para que não fossem obrigados a depor. A eventual ida à CPI ficou, portanto, a cargo deles.

Por seis votos a três, a corte estadunidense limitou o tarifaço de Donald Trump, com impactos para parceiros comerciais e possível benefício ao Brasil nas exportações
por
Beatriz Neves Barbosa
Amanda Lemos
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03/03/2026 - 12h

A Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu, no sábado (21), que o atual presidente Donald Trump violou a lei federal ao impor tarifas a mais de 180 países. A decisão derrubou o tarifaço de Trump, que estava sendo aplicado havia 10 meses.

As tarifas se constituíram como o maior meio para obtenção de investimentos desde abril do ano passado e início do governo Trump, as quais foram utilizadas para acordos comerciais com a China e a União Europeia com intuito de reduzir déficits e proteger as produções nacionais visando o fortalecimento da posição negociadora dos Estados Unidos.

A decisão da corte foi concretizada após a tomada de decisão de que o atual presidente extrapolou os limites legais da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional de 1977, que permite congelar bens estrangeiros e controlar o comércio ao declarar estado de emergência nacional devido a ameaças externas atípicas.

A questão representa uma derrota para a Casa Branca em relação a uma das questões mais importantes da política externa e da economia dos Estados Unidos. Ainda assim, poucas horas após a decisão da Suprema Corte, Donald Trump declarou que tarifas aplicadas a determinados países seriam elevadas a 10%, anteriormente divulgado na sexta-feira (20), tendo como base de medida a Seção da Lei de Comércio americano de 1974, que permite que o presidente imponha taxas de até 15% por 150 dias sobre importações de países exteriores sem a necessidade de aprovação do Congresso.

Trump sentado no tribunal no segundo dia de julgamento — Foto: JUSTIN LANE/Pool via REUTERS
Trump sentado no tribunal no segundo dia de julgamento — Foto: JUSTIN LANE/Pool via REUTERS

O Brasil foi um dos maiores beneficiados com a decisão

Perante a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, a média das tarifas sobre produtos brasileiros caiu para cerca de 12,2%, beneficiando assim muitos setores e gerando um impacto positivo na economia brasileira.

Os principais setores impactados foram o aeronáutico, que estava tributado entre 10% e 25%, o da indústria de transformação (que inclui máquinas, equipamentos, autopeças e bens industriais) que estava tributado entre 15% e 30% e o de agropecuária industrializada, que estava tributado entre 10% e 20%.

Com quase metade das exportações do Brasil, cerca de 46%, sem tarifa adicional, produtos brasileiros voltam à competitividade no cenário econômico global. O “alívio tarifário” possibilita ao Brasil maior espaço no mercado norte-americano, tornando-o mais disputado em relação aos demais concorrentes internacionais.

A decisão influenciou positivamente os mercados brasileiros. O Ibovespa, principal índice da bolsa no Brasil, apresentou valorização como resposta direta às expectativas de melhora nas perspectivas comerciais. Além disso, em 2025, a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos somou cerca de 82,8 bilhões de dólares, com um déficit para o Brasil de 7,5 bilhões de dólares. A proibição e redução das tarifas de Trump pela Suprema Corte podem ajudar a reduzir essa diferença, contribuindo consequentemente para o equilíbrio comercial brasileiro por meio do aumento significativo das exportações.

A Suprema Corte dos Estados Unidos. Na primeira fila, da esq. para dir. Stephen G. Breyer, Clarence Thomas, John G. Roberts (líder); Ruth Bader Ginsburg, and Samuel A. Alito. Atrás, da esq. para dir.: Neil Gorsuch, Sonia Sotomayor, Elena Kagan e Brett Kavanaugh - Foto: Fred Schilling, Collection of the Supreme Court of the United States
A Suprema Corte dos Estados Unidos. Na primeira fila, da esq. para dir. Stephen G. Breyer, Clarence Thomas, John G. Roberts (líder); Ruth Bader Ginsburg, and Samuel A. Alito. Atrás, da esq. para dir.: Neil Gorsuch, Sonia Sotomayor, Elena Kagan e Brett Kavanaugh - Foto: Fred Schilling, Collection of the Supreme Court of the United States

Segundo Cristina Helena Pinto de Mello, professora de Economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), houve tópicos que ficaram por fora da decisão, como, por exemplo, tarifas para práticas desleais e a segurança nacional americana. A professora sustenta que Donald Trump, mesmo com um parlamento majoritariamente republicano, atende a todos os requisitos e que o governo americano possui uma política robusta, afirmando que “ele não consegue promover um desequilíbrio entre o executivo e o judiciário”.

Cristina aponta que os principais setores brasileiros beneficiados com a decisão são os de aço e alumínio. Por fim, a economista acrescentou que as empresas brasileiras ganham créditos por pagar tarifas e ressaltou também que não houve apenas impactos negativos; um impacto positivo, por exemplo, foi o acordo firmado com a União Europeia após 30 anos de negociações.

Pequenas empresas reagem e retomam investimentos interrompidos na pandemia
por
Victor Oliveira Trovão
Larissa Isabella
Livia Veiga
Bárbara More
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04/07/2023 - 12h

Mais do que nunca, a área de estética encontra movimentação constante no mundo, em especial no Brasil. O mercado de beleza e cuidados pessoais anualmente movimenta bilhões de reais, configurando o ramo como um dos mais influentes no país. A atividade passa por uma grande transformação ao surgirem diversas pequenas empresas, produtos com novas tecnologias, e, principalmente, profissionais como cabeleireiros, esteticistas, designers de sobrancelhas, micropigmentadoras e outras especialidades.

De acordo com Reginaldo de Andrade, consultor de negócios do Sebrae SP (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), existem muitos fatores por trás disso, dentre eles o autocuidado:
“O brasileiro se preocupa muito com (auto)imagem, por isso se desponta como um dos maiores consumidores de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos do mundo”, explica.

Segundo um levantamento feito pela Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec) junto com o Instituto FSB Pesquisa, em 2021 o Brasil se tornou o terceiro maior consumidor de produtos estéticos, ficando apenas atrás dos Estados Unidos e China. A coordenadora do curso de Estética na Faculdade Anhanguera, Gisele Costa, analisa a força do setor no país: “O brasileiro em sua maioria cultua a beleza, é vaidoso, quer reverter sinais de envelhecimento, ter um corpo dentro de padrões estéticos imposto pela sociedade”.

Esse crescimento foi notório mesmo durante a pandemia da Covid-19, que teve início em 2020. Na época, os profissionais precisaram estagnar seus atendimentos e diminuí-los para se encaixarem nas medidas de saúde. Em outra perspectiva, Reginaldo acredita que o fim da pandemia trouxe mudanças ao setor dado o surgimento de novas técnica, tendências e tecnologias, o que aponta crescimento. 

A pandemia  gerou ondas de desemprego e levou muitas pessoas a buscarem novas fontes de renda. Assim, muitos cidadãos decidiram começar a empreender e abriram seus próprios estabelecimentos. Segundo o relatório da Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2020, realizado pelo Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP), cerca de 50 milhões de brasileiros que não empreendiam antes da Covid-19 tinham planos de abrir um negócio nos próximos três anos.

Logo no primeiro semestre de 2022, quando as medidas de isolamento social foram reduzidas por conta da queda do número de casos, foram abertas mais de duas milhões de empresas no Brasil e uma boa parte do negócio informal decidiu se regularizar, apontam dados da Receita Federal. O Sebrae indica que em 2023 existem cerca de 6,4 milhões de estabelecimentos no Brasil e 99% deles são micro e pequenas empresas (MPE). Alguns microempreendedores ressaltam que a pandemia teve seus pontos positivos e negativos para os negócios.

A esteticista Beatriz Fraider, de 21 anos, conta que apenas conseguiu retomar os atendimentos após o fim do lockdown e precisou tomar o dobro de cuidado com paramentação e higiene ao receber os clientes. Porém, conseguiu ver o seu negócio florescer no período da Covid-19: “A pandemia foi o momento em que nós mais crescemos. Muita gente começou a procurar uma maneira de aumentar a autoestima, então, como havia apenas olhos e sobrancelhas livres das máscaras, começamos a ter bastante procura”.

Em contrapartida, a designer de sobrancelhas Samantha Fidalgo Carvalho, de 34 anos, sofreu um forte impacto financeiro durante os dois anos de pandemia: “Tive que sair do local em que estava meu estúdio, pois não consegui acordo com o proprietário, meus parceiros profissionais não queriam assumir a divisão de contas por não saber quanto tempo teríamos de pandemia. Tive que me desfazer do meu estúdio em dias, colocando minha mobília na garagem de casa, sem local para ir, sem saber como iria procurar uma nova sala, pois não podia sair de casa. Tinha medo da Covid e contas chegando normalmente”.

A profissional conta que precisou abrir uma sala comercial de tamanho bem menor em outro bairro e passou cerca de quatro meses sem trabalhar, vivendo do dinheiro que era mantido em uma reserva. Samantha afirma que nunca se recuperou completamente do prejuízo: “Agora que as empresas já estão voltando com os trabalhos presenciais, os atendimentos começaram a ter mais procura, mas o que mais impacta hoje é a economia. Como os preços de tudo estão muito altos, as clientes não estão dando preferência à estética, pois o meu serviço é um valor relativamente alto, além de ser um supérfluo, não é uma necessidade básica, então pode adiar na lista de prioridade delas”.

Os desafios enfrentados pelos profissionais que trabalham no setor estético são muitos. Além da questão financeira e mercadológica, também há o fator da profissionalização: “O investimento com os estudos é alto, o profissional precisa se manter atualizado num setor que se inova constantemente; a remuneração, como em qualquer profissão, nem sempre é adequada; há muita concorrência e fidelizar clientes cada vez mais exigentes e bem informados sobre esse universo da beleza é um grande desafio”, analisa Gisele Costa. A coordenadora também ressalta que se trata de uma área ampla, que não se limita ao público feminino: “Os estudantes não procuram cursos especificamente como ‘estética feminina’, apesar de serem as mulheres o maior público. Quem está ingressando na área vê uma oportunidade de crescimento profissional e procura dentro da estética um nicho para atuar com que tem maior afinidade. 

Apesar das dificuldades, os esteticistas encontram força para continuar a exercer a profissão no amor que sentem em ver a satisfação dos clientes com o resultado final: “Vi que esse trabalho mudava a vida das mulheres, deixava elas felizes consigo mesmas, tão realizadas, que me fez perceber que, através do meu trabalho, eu poderia levar alegria e realização para alguém”, reflete Samantha.
 

Apesar da impressão de sucesso, modelo adotado em 2022 apresenta graves problemas
por
Lucca Ranzani
Gustavo Zarza
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04/07/2023 - 12h

A SAF (Sociedade Anônima do Futebol) do Vasco da Gama foi criada em 2022, em parceria com a empresa americana 777 Partners, que investiu R$ 700 milhões para ter 70% de participação societária. A proposta da empresa é aportar mais R$ 120 milhões em setembro e outros R$ 390 milhões até o fim de 2024. O Vasco da Gama SAF prevê sua autossustentabilidade a partir de 2025.

No entanto, mesmo após o aporte milionário da SAF, o clube encontra dificuldades em honrar alguns compromissos e tenta renegociar essas condições. O Vasco priorizou manter o funcionamento do clube, com os salários e as parcelas da dívida em dia, e, para isso, teve que descumprir prazos e renegociar pagamentos.

Os atrasos de pagamentos do Vasco ficaram evidentes com os contratos de dois jogadores, Andrey Santos e Léo Pelé. A dívida com Andrey é referente às comissões dos empresários. O clube tem uma dívida pendente de R$ 12 milhões relativa à venda do jogador ao Chelsea e ainda não pagou duas das três parcelas combinadas com o volante.

Em relação ao jogador Léo Pelé, o Vasco atrasou o pagamento de parte da segunda parcela da compra do zagueiro que pertencia ao São Paulo. O clube também atrasou parcelas em compras de outros atletas, mesmo depois do aporte feito pela 777 Partners na transformação em SAF.

O site oficial do Vasco da Gama disponibiliza informações financeiras, incluindo balancetes e demonstrações contábeis. Em 2022, a SAF publicou um balanço com um déficit de R$ 594 milhões. De agosto a dezembro do último ano, a receita operacional líquida do Vasco SAF foi de R$ 47,4 milhões. A rubrica considera direitos de transmissão, bilheteria, marketing, programa de sócio torcedor e outras fontes de renda. Em 2022, a equipe disputou a Série B do Brasileirão pelo segundo ano consecutivo.

De acordo com o colunista Rodrigo Mattos, do UOL, após a transformação em SAF, o Vasco fechou 2022 com um prejuízo de R$ 88 milhões. O valor tem a ver com as dívidas assumidas pela 777 Partners como parte do acordo de aquisição do futebol do clube. O primeiro balanço da era SAF mostra o tamanho do desafio do fundo norte-americano na reestruturação do futebol cruz-maltino.

Em outro artigo, Rodrigo Mattos menciona que, no meio de 2022, mesmo na Série B, a torcida do Vasco vivia uma onda de otimismo com a criação da SAF e o aporte da 777 Partners. No entanto, os primeiros meses de 2023 mostraram que a realidade é um pouco diferente.

O colunista observou que, em 2023, o Vasco perdeu para o Santos em casa por 1 x 0 e terminou a 6ªrodada em 16º lugar, próximo da zona de rebaixamento. O início do campeonato revelou fragilidades do time vascaíno, algumas já conhecidas no Campeonato Carioca e na eliminação da Copa do Brasil. A torcida perdeu a paciência.

Em março, o portal GE noticiou que o Conselho de Administração da SAF se reuniu para reavaliar as projeções de receitas, que, na opinião de alguns membros, estavam abaixo do esperado. Isso ocorreu porque a arrecadação nos primeiros meses do ano foi baixa, o que dificultou o cumprimento dos prazos.

A eliminação precoce do Vasco na segunda fase da Copa do Brasil, para o ABC, teve um grande impacto no orçamento, já que o clube esperava avançar pelo menos mais duas fases na competição. Além disso, a venda de um jogador gerou uma discussão com parte dos credores do RCE sobre a destinação dessa receita, o que gerou insegurança jurídica e afetou os investidores.

O CEO da SAF, Luiz Mello, afirmou em um evento em Brasília que a situação tem sido difícil devido aos constantes problemas jurídicos. No entanto, o Vasco espera que a situação se normalize no segundo semestre com um novo aporte da 777, de R$ 120 milhões, e com a expectativa de aumento das receitas nos próximos meses.

Analisando o balanço financeiro da SAF do Vasco da Gama, é possível identificar alguns desafios que o clube enfrentará no futuro. A recuperação das receitas é fundamental para equilibrar as finanças, e isso passa por um desempenho esportivo mais consistente, que permita a participação em competições de maior visibilidade e a conquista de títulos.

Segundo técnica do Dieese, a cada R$ 1 de reajuste, há um impacto de mais de R$ 730 milhões no repasse à população
por
Aline Freitas
Luan Leão
Tábata Santos
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03/07/2023 - 12h

No último dia 1º de maio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou, em ato organizado pelas centrais sindicais no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, o aumento do salário mínimo de R$ 1.302 para R$ 1.320. O reajuste de R$ 18  garante um aumento real (descontada a inflação) de 2,8% em 2023. De acordo com o projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), enviado pelo governo ao Congresso, a previsão é de que o salário mínimo seja de R$ 1.389 em 2024.

Além do aumento real no salário mínimo, houve a alteração do valor por hora trabalhada para R$ 6 e o diário para R$ 44. O Imposto de Renda também sofreu mudanças: agora, apenas as pessoas que recebem mais de dois salários mínimos, o equivalente a R$ 2.640, deverão declarar à Receita Federal.

Apesar das medidas anunciadas e das falas do presidente contrapondo o reajuste à falta de aumento  anual durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), entidades políticas, como a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), classificaram o aumento como abaixo do esperado.
 

Em nota, a CUT afirmou: “Os cálculos do Dieese [Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos] mostram que, se o Programa de Valorização do Salário Mínimo não tivesse sido interrompido, hoje o valor deveria ser de R$ 1.382,71. O que significa uma valorização de 6,2%”.

Já a CTB declarou que o anúncio "fere as expectativas do movimento sindical". "Não dá para silenciar diante dos fatos e nós não devemos nos calar. O salário mínimo vigente no Brasil está anos-luz de distância do que deveria ser, com base no cálculo do Dieese (R$ 6.641,58). Temos que considerar o estágio de profunda desigualdade em que estamos, com uma realidade que assusta a milhões de famílias, dada a insegurança alimentar e o flagelo social. É urgente que o governo tome para si essa bandeira fundamental que foi utilizada como moeda forte na campanha", disse o presidente Adilson Araújo.

 

Os R$ 18 na prática

Adriana Marcolino, socióloga e técnica do Dieese, afirmou à Agência Maurício Tragtemberg que, a cada R$ 1 de reajuste, há um impacto de mais de R$ 730 milhões no repasse para a população.

“Considerando que todo esse recurso vá ser utilizado no mercado interno, a cada R$ 1 de reajuste há a possibilidade de gerar cerca de 18.383 mil empregos, o que também adiciona ao PIB (Produto Interno Bruto) um valor de R$ 1,3 bilhão", explica. "Em relação à arrecadação tributária, esse valor significa um incremento de R$ 333 milhões. Já em relação à massa salarial, o aumento é de R$ 476 milhões”, completa a socióloga.

Ainda de acordo com um estudo do Dieese, cerca de 54 milhões de pessoas serão afetadas pelo aumento real, das quais 22,7 milhões   diretamente. Nesse grupo, o departamento considera os empregados do setor público e privado registrados em carteira, servidores públicos, aposentados, pensionistas e beneficiários de programas sociais. Outros 31,3 milhões de brasileiros serão afetados indiretamente. Nesses casos, o estudo considera pessoas que residem em domicílios onde pelo menos uma delas é diretamente beneficiada pelo reajuste. 

Ainda sobre os impactos, Júlio Pires, economista e professor da PUC-SP, afirma que o setor de trabalho informal também é atingido. “Existe uma espécie de efeito sinalização mediante o qual, através do aumento do salário mínimo real, os trabalhadores do setor informal também são beneficiados. Isso porque esse aumento serve como referência para esse setor”, avalia.

 

Histórico

Ao comentar a insatisfação sobre o baixo valor do aumento neste início de governo, o economista relembra o primeiro mandato do presidente Lula. "O primeiro reajuste no governo de 2003 também foi baixo, e, com o avanço da economia, foi aumentando com o tempo", explica Pires.

No primeiro e segundo governo do atual presidente, entre os anos de 2003 e 2010, o salário mínimo passou de R$ 240 para R$ 510, mantendo um histórico de reajuste acima da inflação.

De acordo com dados do Ministério do Trabalho e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foi apenas em 2015, no governo Dilma Rousseff (PT), que o reajuste do salário mínimo ficou abaixo da inflação, com o valor de R$ 788, um aumento de 8,84%, contra  10,67% registrados pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Durante o período de Michel Temer na presidência, entre 2016 e 2019,  o salário subiu de R$ 880 para R$ 998, e mesmo assim não acompanhou a inflação durante o período, que chegou a marcar 9,32% ao final do mandato, a inflação era de 2,76%.

Nos dois primeiros anos do governo Bolsonaro, os dois índices estavam praticamente equiparados, com um leve sobressalto do mínimo, que estava em R$ 1.039 em 2020, ante uma inflação de 4,52%. Em 2021, a inflação atingiu dois dígitos (10,06%) e era quase o dobro do aumento de 5,26%, que elevou o salário para R$ 1.100.

O último aumento real do salário mínimo ocorreu em 2019, o único dos últimos seis anos.

No dia 5 de maio, o presidente Lula enviou ao Congresso Nacional um projeto de lei (PL) que estabelece uma nova política de valorização do salário mínimo. De acordo com o PL, o salário mínimo seria corrigido pela variação do Índice Nacional dos Preços ao Consumidor (INPC) acumulado nos 12 meses encerrados em novembro do ano anterior. O projeto prevê ainda que, caso seja positiva, haja um acréscimo da taxa de crescimento real do PIB.

A expectativa do governo é de que a política beneficie cerca de 40 milhões de pessoas. O impacto fiscal orçamentário esperado para 2024 foi de R$ 18,1 bilhões. Para 2025, a expectativa é de R$ 25,2 bilhões e em 2026, de R$ 39,1 bilhões.

De janeiro a junho, moeda recuou 9,27%; especialistas discutem efeitos na economia brasileira
por
Enrico Souto
|
02/07/2023 - 12h
Fotografia de seis notas de 100 dólares alinhadas.
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

O dólar tem registrado repetidas quedas em seu valor. Desde o início do governo Lula, em janeiro, até o fim de junho, a moeda norte-americana caiu 9,27%, terminando o primeiro semestre em R$ 4,7889.

A queda do dólar no primeiro semestre contraria a tendência dos quatro últimos anos, quando a moeda norte-americana saltou de R$ 3,87, no início do governo Bolsonaro, para R$ 5,28, no fim de 2022, um avanço de 36,4%. Nesse mesmo período, a inflação oficial, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), alcançou 26,93%, a maior variação desde o primeiro mandato de Dilma Rousseff (2011-2014)

Contudo, a conjuntura brasileira entrou em metamorfose, o que também alterou as perspectivas econômicas do país. André Luis Campedelli, doutor e especialista em macroeconomia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), afere como Bolsonaro  adotava uma política internacional isolacionista, que priorizava países que seguissem sua mesma agenda ideológica e rompia com uma tradição de décadas de diplomacia do Brasil – o que também afetava o investimento externo no real. Um indício disso se apresenta em um levantamento encomendado pelo Correio Braziliense, que aponta que, em cinco meses de mandato, Lula se reuniu com o dobro de chefes de estado que Bolsonaro no mesmo período.

“Uma maior segurança em relação à estabilidade política nacional também faz com que a entrada de capital seja maior para o Brasil”, afirma Campedelli. O economista ainda menciona a alta do Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo, como um indício da desvalorização do dólar. O índice registrou um avanço de 7,61% de janeiro a junho, o melhor desempenho para um primeiro semestre desde 2019.

Estados Unidos e a economia externa

Segundo Campedelli, a instabilidade da economia internacional, causada sobretudo pela Guerra da Ucrânia, faz com que o mercado procure por novas fontes de investimento. O economista afirma que a Rússia era considerada um importante porto seguro de capital especulativo e, apesar de ter sido uma decisão repudiada pelo presidente Lula, a manutenção da taxa básica de juros, a taxa Selic, a valores elevados faz do Brasil uma nova alternativa para este tipo de aplicação. “A combinação de problemas em outros países com um cenário brasileiro favorável fez com que o atual governo expandisse as políticas de exportação, o que impulsiona nossa moeda”, aponta.

O dólar também é fortemente influenciado pelas movimentações da economia estadunidense. No dia 14 de junho, o Federal Reserve (Fed), banco central norte-americano, anunciou que manteria a atual taxa de juros do país, entre 5% e 5,25%. A decisão foi tomada após dez aumentos seguidos, que ocorreram desde março de 2022.

Segundo Claudemir Galvani, mestre e professor de economia política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a estabilização dos juros estadunidenses têm efeitos positivos para o Brasil: “Os Estados Unidos passam por um período de alta inflação e desemprego”. O especialista ainda comenta como, agora que a taxa de juros do país se firmou, com intuito de controlar os gastos públicos, os recursos que seriam aplicados lá, por ser considerado um mercado mais seguro, começam a ser direcionados a países de terceiro mundo, como Brasil, México e Chile, com taxas mais elevadas.

O futuro da moeda

Mas, afinal de contas, a baixa no valor do dólar é um efeito circunstancial ou uma tendência para os próximos anos? Para Campedelli, ainda que possam existir incertezas, a taxa de câmbio deve continuar caindo. “Como os Estados Unidos manterão uma política de não aumentar seus juros por um tempo, ao mesmo tempo que a taxa Selic no Brasil deve ser mantida ao menos até a próxima reunião do Banco Central, continuaremos observando uma queda vertiginosa no dólar para os próximos meses.”

O impacto mais perceptível dessa movimentação será na inflação, que já tem observado quedas. O IPCA de maio ficou em 0,23% – menor que o de abril deste ano e o de maio de 2022 (0,61% e 0,47%, respectivamente). “Como a inflação do Brasil é baseada em custos, e vários de nossos insumos são importados, o dólar caro contribuía muito para as altas desse índice. Agora que temos visto uma decaída, o preço de outros produtos, como combustíveis, também deve diminuir”, avalia Campedelli.

Porém, para Galvani, ainda não é suficiente. Para ele, o real poderá ser considerado uma moeda valorizada assim que alcançar valores entre R$ 4,40 e R$ 4,50: “É importante que tenhamos uma moeda forte, pois isso significa que ela acumula maior valor para o exterior, dando ao Brasil e ao brasileiro um maior poder de compra. Entretanto, é necessário que haja um equilíbrio, pois, quanto menor o valor de uma moeda em relação ao dólar, mais prejudicadas são as exportações, visto que outros países lucrarão menos com a compra de seus produtos”.

Já Campedelli concorda com o perigo, mas acredita que essa não deva ser uma preocupação a curto prazo. “Nossa taxa de câmbio estava extremamente elevada, muito acima do que podemos observar historicamente com o real. Mesmo que tenhamos nosso mercado perdendo certa competitividade, acredito que o custo da produção nacional irá compensar essas circunstâncias. Não adianta fomentar a competição se você não tem o valor necessário para produzir no país”, finaliza.

Especialistas alertam para possíveis impactos nas vendas externas caso doença se espalhe
por
Thomaz Cintra
João Serradas
Otávio Preto
|
30/06/2023 - 12h

Na segunda-feira (12/6), o Ministério da Agricultura e Pecuária confirmou mais um caso de gripe aviária com alta patogenicidade (H5N1), desta vez no estado do Rio de Janeiro. Ao todo, até aquele momento, foram diagnosticadas 31 aves com a doença, além de outras 11 que estavam em observação.  

Cada novo diagnóstico de H5N1 acende mais ainda a luz vermelha no mercado avícola, já que a doença é famosa por se propagar com facilidade dentre as aves, com alto índice de mortalidade.  

O ministério responsável pela área declarou emergência zoossanitária em todo o território nacional. De acordo com o comunicado, a medida tem como objetivo evitar que a doença chegue à produção de aves de subsistência e comercial, além de preservar a fauna e a saúde humana.  

Além de declarar estado de alerta, o ministério publicou no Diário Oficial da União a Medida Provisória (MP) 1.177, que disponibilizou crédito de R$ 200 milhões para o enfrentamento da Influenza Aviária de Alta Patogenicidade (IAAP). 

“Com o estado de emergência zoossanitária em vigor no país e a confirmação de casos de Influenza Aviária em aves silvestres em quatro estados, as ações de controle e contenção da doença serão intensificadas. Assim, o crédito extraordinário será aplicado no Sistema Unificado de Atenção à Sanidade Agropecuária (Suasa). A MP é assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pela ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet”, disse o ministério, em nota. 

Esse setor em específico da economia, movimentou mais de R$ 215 milhões em 2022, e exportou aproximadamente 4.800 milhões de toneladas de aves para diversos países, segundo dados divulgados pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABBA). 

Em 2023, até abril, já foram exportadas 435 mil toneladas de frango.  

Vale ressaltar que o Brasil é maior exportador de frangos do mundo;  

Confira a tabela abaixo (mil ton):

tabela gripe aviária

 

Professor de economia da Anhembi Morumbi e da FMU, Marcos Henrique do Espírito Santo, explicou que a gripe aviária está muito concentrada em animais silvestres, mas é justamente por conta do alto índice da doença que o país está em fase emergencial. Segundo ele, caso muitas aves de abate passem a ser contaminadas, o Brasil teria um problema internacional, pois muitos países importadores criariam uma barreira sanitária, suspendendo as importações de aves brasileiras. 

Para contornar esse grande obstáculo que o país enfrentaria, seria necessário investir em um amplo processo de vacinação para os animais, porém, ainda sem a possibilidade de exportar aos países que teriam fechado suas portas ao Brasil. E tudo isso, como o próprio professor diz, “geraria um pandemônio no setor”. Mas este cenário ainda está distante, muito por conta do sistema de vigilância sanitária. 

No meio de maio, quando foram confirmados os primeiros casos de gripe aviária em território nacional, os principais frigoríficos listados no Ibovespa despencaram: Marfrig (MRFG3) desabou 10,07% nos últimos 12 meses; JBS (JBSS3), dona da Seara e Friboi, chegou a cair 5,78%; Minerva Foods (BEEF3) -5,89%; BRF, dona da Sadia e Perdigão, chegou a afundar 9,17%. 

De acordo com Guto Gioielli, especialista em commodities, a gripe aviária só afetará significativamente o mercado de proteínas do Brasil, caso contamine de forma expressiva os principais produtos relacionados à exportação, como galinhas poedeiras, frangos, perus, e, de modo geral, aves que são criadas em confinamento para industrialização. Ele comenta que, ainda no mês de junho, não houve nenhum problema em termos de produção que possa afetar esse negócio, apesar do estado de alerta. Marcos também observa que o Brasil não é visto pelo resto do mundo como um país que detém a H5N1, por conta de a doença estar em sua fase inicial em solo brasileiro, por isso, ainda é possível que as empresas nacionais, produzam, abatam e exportem as aves. 

Guto ainda diz que, se, em algum momento, tivermos um crescimento grande nos casos da doença, terão de ser suspensas as exportações de produtos avícolas, e, consequentemente, as aves terão de ser abatidas. E não somente isso: depois que as aves, já mortas, forem retiradas, os aviários terão de ficar vazios por ao menos 60 dias para que o local seja desinfetado, gerando um prejuízo ainda maior para os avicultores, que, além de perderem seus produtos, irão perder também muito tempo até poderem começar a criação das aves novamente. 

Se o Brasil realmente atingir um ponto crítico em relação à doença, os consumidores também terão muitos problemas, pois, além de não poder mais consumir frango, por exemplo, terão que ir atrás de outra fonte de proteína, como os ovos. E, quando as pessoas começarem a comprar ovos em massa, os preços do produto aumentarão.  

Diante da preocupação crescente em relação à gripe aviária e seu potencial de se tornar uma nova pandemia, o Instituto Butantan iniciou o desenvolvimento de uma vacina contra a doença. O primeiro lote já está pronto para os testes pré-clínicos, que serão realizados em laboratório. No entanto, é importante destacar que o processo de desenvolvimento de uma vacina é demorado e passa por diversas etapas, incluindo os testes clínicos em humanos, que demandam autorização da Anvisa. 

 A influenza aviária é altamente contagiosa e, embora a transmissão para humanos seja atualmente limitada, o aumento de casos tem deixado as autoridades sanitárias em alerta. A doença pode ser grave e tem alta taxa de mortalidade. Portanto, o desenvolvimento de uma vacina eficaz é essencial para prevenir a propagação da gripe aviária e proteger a saúde pública. É fundamental que as autoridades e instituições de pesquisa continuem dedicando esforços para o avanço do desenvolvimento da vacina e o aprimoramento das estratégias de prevenção e controle da doença.