Do pastelzinho com caldo de cana à hora da xepa, as feiras livres fazem parte do cotidiano paulista de domingo a domingo.
por
Manuela Dias
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29/11/2025 - 12h

Por décadas, São Paulo acorda cedo ao som de barracas sendo montadas, caminhões descarregando frutas e vendedores afinando o gogó para anunciar promoções. De norte a sul, as feiras livres desenham um dos cenários mais afetivos da vida paulistana. Não é apenas o lugar onde se compra comida fresca: é onde se conversa, se briga pelo preço, se prova um pedacinho de melancia e se encontra o vizinho que você só vê ali, entre uma dúzia de banana e um pé de alface.

Juca Alves, de 40 anos, conta que vende frutas há 28 anos na zona norte de São Paulo e brinca que o relógio dele funciona diferente. “Minha rotina é a mesma todos os dias. Meu dia começa quando a cidade ainda está dormindo. Se eu bobear, o morango acorda antes de mim”.

Nas bancas de comida, o pastel é rei. “Se não tiver barulho de óleo estalando e alguém gritando não tem graça”, afirma dona Sônia, pasteleira há 19 anos junto com o marido e filhos. “Minha família cresceu ao redor de panelas de óleo e montes de pastéis. E eu fico muito realizada com isso.  

Quando o relógio se aproxima do meio dia, começa o momento mais esperado por parte do público: a famosa xepa. É quando o preço cai e a disputa aumenta. Em uma cidade acelerada como São Paulo, a feira livre funciona como uma pausa afetiva, um lembrete de que existe vida fora do concreto. E enquanto houver paulistanos dispostos a acordar cedo por um pastel quentinho e uma conversa boa, as feiras continuarão firmes, coloridas, barulhentas e deliciosamente caóticas.

Os cartazes com preços vão mudando conforme o dia.
Os cartazes com preços vão mudando conforme o dia. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Vermelha, doce e gigante: a melancia é o coração das bancas nas feiras paulistanas.
Vermelha, doce e gigante: a melancia é o coração das bancas nas feiras paulistanas. Foto: Manuela Dias/AGEMT
A dupla que move a feira da Zona Norte de São Paulo.
A dupla que move a feira da Zona Norte de São Paulo. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Entre frutas e verduras um respiro delicado: o corredor das flores.
Entre frutas e verduras um respiro delicado: o corredor das flores. Foto: Manuela Dias/AGEMT

 

Apresentação exclusiva acontece no dia 7 de setembro, no Palco Mundo
por
Jalile Elias
Lais Romagnoli
Marcela Rocha
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26/11/2025 - 12h

Elton John está de volta ao Brasil em uma única apresentação que promete marcar a edição de 2026 do Rock in Rio. O festival confirmou o britânico como atração principal do dia 7 de setembro, abrindo a divulgação do line-up com um dos nomes mais celebrados da música mundial.

A presença de Elton carrega um peso especial. Em 2023, o artista anunciou que deixaria as grandes turnês para ficar mais perto da família. Por isso, sua performance no Rock in Rio será a única na América Latina, transformando o show em um momento raro para os fãs de todo o continente.

Em um vídeo publicado na terça-feira (25) nas redes sociais, Elton John revelou o motivo para ter aceitado o convite de realizar o show em solo brasileiro. “A razão é que eu não vim ao Rio na turnê ‘Farewell Yellow Brick Road’, e eu senti que decepcionei muitos dos meus fãs brasileiros. Então, eu quero compensar isso”, explicou o britânico.

No mesmo dia de festival, outro grande nome da música sobe ao Palco Mundo: Gilberto Gil. Em clima de despedida com a turnê Tempo-Rei, que termina em março de 2026, o encontro dos dois artistas lendários torna a programação do festival ainda mais especial. 

Gilberto Gil se apresentará no Palco Mundo do Rock in Rio 2026 (Foto: Reprodução / Facebook Gilberto Gil)
Gilberto Gil se apresentará no Palco Mundo do Rock in Rio 2026 (Foto: Divulgação)

Além das atrações, o Rock in Rio prepara mudanças importantes na Cidade do Rock. O Palco Mundo, símbolo do festival, será completamente revestido de painéis de LED, somando 2.400 metros quadrados de tecnologia. A ideia é ampliar a imersão visual e criar novas possibilidades para os artistas.

A próxima edição também terá uma homenagem especial à Bossa Nova e um benefício pensado diretamente para o público, em que cada visitante poderá receber até 100% do valor do ingresso de volta em bônus, podendo ser usado em hotéis, gastronomia e experiências turísticas durante a estadia na cidade.

O Rock in Rio 2026 acontece nos dias 4, 5, 6, 7 e 11, 12 e 13 de setembro, no Parque Olímpico, no Rio de Janeiro. A venda geral dos ingressos começa em 9 de dezembro, às 19h, enquanto membros do Rock in Rio Club terão acesso à pré-venda a partir do dia 4, no mesmo horário.

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A socialite continuou tendo sua moral julgada no tribunal, mesmo após ter sido assassinada pelo companheiro
por
Lais Romagnoli
Marcela Rocha
Jalile Elias
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26/11/2025 - 12h
Marjorie Estiano interpreta Ângela Diniz. Foto: Divulgação
Marjorie Estiano interpreta Ângela Diniz em nova série. Foto: Reprodução/Divulgação HBO Max

Figurinha carimbada nas colunas sociais da época, Ângela Diniz virou capa das manchetes policiais após ser morta a tiros pelo então namorado, Doca Street. O feminicídio que marcou o país na década de 1970 ganha agora um novo olhar na série da HBO Ângela Diniz: Assassinada e Condenada.

Na produção, Marjorie Estiano interpreta a protagonista, enquanto Emilio Dantas assume o papel de Doca. O elenco ainda conta com Thelmo Fernandes, Maria Volpe, Renata Gaspar, Yara de Novaes e Tóia Ferraz.

Sob direção de Andrucha Waddington, a série se inspira no podcast A Praia dos Ossos, de Branca Viana. A obra, que leva o nome da praia onde o crime ocorreu, reconstrói não apenas o caso, mas também o apagamento em torno da própria vítima. Depoimentos de amigas de Ângela, silenciadas à época, servem como ponto de partida para revelar quem ela realmente era.

Seja pela beleza ou pela independência, a mineira chamava atenção por onde passava. Já os relatos sobre Doca eram marcados pelo ciúme obsessivo do empresário. O casal passava a véspera da virada de 1977 em Búzios quando, ao tentar pôr fim à relação, Ângela foi assassinada pelo companheiro.

Por dias, o criminoso permaneceu foragido, até que sua primeira aparição foi numa entrevista à televisão; logo depois, ele se entregou à polícia. Foram necessários mais de dois anos desde o assassinato para que Doca se sentasse no banco dos réus, num julgamento que se tornaria símbolo da luta contra a violência de gênero.

Marjorie Estiano interpreta Ângela Diniz, , enquanto Emilio Dantas assume o papel de Doca. Foto: Divulgação
Marjorie Estiano interpreta Ângela Diniz, enquanto Emilio Dantas assume o papel de Doca. Foto: Reprodução/Divulgação HBO Max

As atitudes, roupas e relações de Ângela foram usadas pela defesa como supostas “provocações” que teriam motivado o crime. Foi nesse episódio que Carlos Drummond de Andrade escreveu: “Aquela moça continua sendo assassinada todos os dias e de diferentes maneiras”.

Os advogados do réu recorreram à tese da “legítima defesa da honra” — proibida somente em 2023 pelo STF — numa tentativa de inocentá-lo. O argumento foi aceito pelo júri, e Doca recebeu pena de apenas dois anos de prisão, sentença que gerou revolta e fortaleceu movimentos feministas da época.

Sob forte pressão popular, um segundo julgamento foi realizado. Nele, Doca foi condenado a 15 anos, dos quais cumpriu cerca de três em regime fechado e dois em semiaberto. Em 2020, ele morreu aos 86 anos, em decorrência de um ataque cardíaco.

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Exposição reúne obras que exploram o inconsciente e a natureza como caminhos simbólicos de cura
por
KHADIJAH CALIL
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25/11/2025 - 12h

A Pinacoteca Benedicto Calixto, em Santos, apresenta de 14 de novembro a 14 de dezembro de 2025 a exposição “Bosque Mítico: Katia Canton e a Cura pela Arte”, que reúne um conjunto expressivo de pinturas, desenhos, cerâmicas, tapeçarias e azulejos da artista, sob curadoria de Carlos Zibel e Antonio Carlos Cavalcanti Filho. A Fundação que sedia a mostra está localizada no imóvel conhecido como Casarão Branco do Boqueirão em Santos, um exemplar da época áurea do café no Brasil. 

Ao revisitar o bosque dos contos de fadas como metáfora de transformação interior, Katia Canton revela o processo criativo como gesto de cura, reconstrução e transcendência.
 

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       “Casinha amarela com laranja” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.

 

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                 “Chapeuzinho triste” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.
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                 “O estrangeiro” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.         
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                                                            “Menina e pássaro” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.
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                                                     “Duas casinhas numa ilha” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.
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                                                             “Os sete gatinhos” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.
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                                                                         “Floresta” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.

 

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Festival celebra os três anos de existência com homenagem ao pensamento de Frantz Fanon e a imaginação radical da cultura periférica
por
Marcela Rocha
Jalile Elias
Isabelle Maieru
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25/11/2025 - 12h

Reconhecido como um dos principais espaços da cultura periférica em São Paulo, o Museu das Favelas completa três anos de atividades no mês de novembro. Para comemorar, a instituição elaborou uma programação especial gratuita que combina memória, arte periférica e reflexão crítica.

Segundo o governo do Estado, o Museu das Favelas já recebeu mais de 100 mil visitantes desde sua fundação em 2022. Localizado no Pátio do Colégio, a abertura da agenda de aniversário ocorre nesta terça-feira (25) com a mostra “ImaginaÇÃO Radical: 100 anos de Frantz Fanon”, dedicada ao médico e filósofo político martinicano.

Fachada do Museu das Favelas. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Fachada do Museu das Favelas. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Autor de “Os condenados da terra” e “Pele negra, máscaras brancas”, Fanon contribuiu para a análise dos efeitos psicológicos do colonialismo, considerando algumas abordagens da psiquiatria e psicologia ineficazes para o tratamento de pessoas racializadas. A exposição em sua homenagem ficará em cartaz até 24 de maio de 2026.

Ainda nos dias 25 e 26 deste mês, o festival oferecerá o ciclo “Papo Reto” com debates entre intelectuais francófonos e brasileiros, em parceria com o Instituto Francês e a Festa Literária das Periferias (Flup). A programação continua no dia 27 com a visita "Abrindo Fluxos da Imaginação Radical”. 

Em 28 de novembro, o projeto “Baile tá On!” promove uma conversa com o artista JXNV$. Já no dia 29, será inaugurada a sala expositiva “Esperançar”, que apresenta arte e tecnologia como forma de mapear territórios periféricos.

O encerramento do festival será no dia 30 de novembro com a programação “Favela é Giro”, que ocupa o Largo Pátio do Colégio com DJs e performances culturais.

 

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A transformação social começa com a brincadeira das vogais
por
Barbara Vitória Barbosa Ferreira
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24/06/2022 - 12h

Por Barbara Vitoria Barbosa Ferreira

 

Ferraz de Vasconcelos, São Paulo. 8:00 da manhã. No portão, uma mistura de vozes infantis chamando por “Néia!”, “Marcia!” “Abre aqui!”. Todos pontuais. A Galera entra, cumprimenta Jéssica na cozinha e Márcia no escritório. O bate papo começa “Tudo bem? Como você tá? Faltou semana passada, né?”  e a risada preenche o local. 

Pegam uma porção de cadeiras e sentam-se, uns ao lado dos outros: o sentimento de introdução é a timidez. Néia (como gosta de ser chamada), a professora voluntária, inicia: “Bom, pessoal, hoje vamos falar sobre…” e as ideias surgem, o conhecimento pipoca e a criançada começa o exercício da mente. 

Começando apenas como um projeto no papel, a história inicia-se lá em 23 de setembro de 2000, quando um grupo de educadores sociais idealizaram um programa que tinha, por intuito, tirar das ruas, desta pequena cidade, as crianças e adolescentes que executavam trabalho infantil e eram obrigados a crescerem tão rápido (mesmo sem aumentarem 1cm na altura).

Defender a igualdade e promover ações sociais era o propósito daquela, que poderia ser a válvula de escape de um mundo tão cruel. Na época, 30 crianças atuavam em lugares que não faziam parte da infância: comércio, venda de vale transporte, venda de doces, de temperos, etc.; por isso, aqueles educadores decidiram buscar o espaço para o desenvolvimento da forma correta. A parceria com um outro programa, o Escola da Família, foi a chave para o projeto se consolidar: abriu as portas de seu espaço para ações culturais para as crianças aos fins de semana em uma das principais escolas do centro da cidade.

O projeto começou a ganhar forma: uma ONG educativa, onde o conhecimento, aulas de reforço e atividades originaram o ‘ÓIA EU’, cujo nome brincava com as vogais bem como as crianças deveriam brincar com a vida. 

“ÓIA EU”, o nome que fazia apelo ao projeto que o carregava, ao centro de Apoio Ação e Transformação que protegia e cuidava das crianças. Que pedia, ao ser lido, ÓIA EU, olha pra mim, olha quem eu sou e quem posso ser. O projeto sem fins lucrativos que se desenvolveu e que passou a acontecer não apenas aos finais de semana, mas durante a semana inteira. 

Segundo Célia de Fátima, coordenadora geral do projeto, o programa faz parte de um dos atendimentos da organização do serviços de convivência e fortalecimento de vínculos, uma política pública da assistência social do município de Ferraz de Vasconcelos. 

Com o tempo, a ONG desenvolveu não apenas atividades exclusivas para crianças, mas oficinas que abordavam outras faixas etárias também. Ginástica e alongamento, programa leiturinha, culinária, musicalização, inclusão digital para idosos, horta, dança, cultura, artesanatos e trabalhos manuais. 

Sendo diário hoje, o projeto aborda, além de diversos programas, uma rotina matinal e vespertina. Às 8h00min, o local, bem parecido com uma casa, se abre e acolhe de 15 a 20 crianças, oferece brincadeiras, atividades sazonais e debates, toda temática voltada para educação. No final de uma carga horária de 3 horas, uma pausa para o lanche tão esperado e depois a ida para casa. O horário da tarde se inicia às 13h00min, dando um espaço de tempo entre as crianças da manhã e da tarde. Mesmo esquema: brincadeiras, atividades, debates. Por último, pausa para o lanche e depois só no dia seguinte. Cada criança vai para o projeto no horário contrário ao seu horário escolar, além disso, o programa proporciona aulas de reforço num ambiente diverso, que tem como único requisito abrir as portas para quem quer aprender.

“Eu gosto de vir pra cá, porque eu posso brincar com meus amigos, desenhar e fazer um monte de atividades. É como uma segunda escola pra mim, só que mais legal.”, Isadora, 8 anos. O CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) é quem promove a entrada da criança, adolescente ou idoso no projeto. Ele realiza uma entrevista com a família a ser beneficiada e, depois, uma consulta com especialistas, psicólogos e educadores para analisarem as condições que aquela pessoa se encontra. Encaminhar a criança para a ONG ÓIA EU é responsabilidade do CRAS, priorizando o público preferencial (idosos e crianças com deficiência).

As crianças vulneráveis, sem e com deficiência, recebem uma assistência de renda. Elas têm oportunidade de ter contato com a arte, convivência com o coletivo, com a família e comunidade. Hoje, o projeto atende diretamente 300 crianças e 100 idosos. Já indiretamente, por volta de 1500 famílias na cidade de Ferraz de Vasconcelos.

A prefeitura da cidade financia o projeto com um valor limitado, arcando com as despesas de: orientador, oficineiros, contas, alimentação e aluguel do estabelecimento. Infelizmente, não obteve nenhum reajuste desde 2019 e é óbvio que precisa investir mais na ampliação, pois além de fazer parte da proteção básica da assistência social, é uma ação contínua e, portanto, uma política pública.

As sextas feiras, não há aulas, mas reuniões com a coordenação para organização de relatórios, planejamento da semana seguinte, visitas domiciliares e, principalmente, articulação com a rede.

Atualmente, a ONG possui alguns patrocínios como o da Radial Transportes, Tenda Atacado e Fundação Abrino, todas empresas que buscam os resultados da transformação social. 

Apesar de municipal, o projeto deseja se expandir, colocando sorriso nos rostos de muitos que são esquecidos, mas que, ao encontrarem uma oportunidade, podem agregar (e muito). O ÓIA EU é de todos, principalmente, daqueles que não querem fazer parte das estatísticas de um mundo tão cruel. Para os pequenos é um simples “Abre aqui!”, mas não fazem ideia das portas que estão abrindo para o futuro.

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Um caso de luta e superação de problemas pessoais
por
João Serradas
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22/06/2022 - 12h

Por João Serradas

Mãe, indígena e participante do programa Pindorama,  Monalisa Barros conversou com alunos de Jornalismo da PUC/SP com o objetivo de discutir a importância do projeto Pindorama (criado para oferecer bolsas de estudos para a comunidade indígena).  A criação do Pindorama chegou com o objetivo de proporcionar a jovens indígenas, melhores condições de estudo e consequentemente, um melhor futuro profissional. Monalisa foi uma dessas pessoas que viram o projeto como uma grande oportunidade de vida. Porém o trajeto até ele não foi nada fácil. Ela conta que sua vida sempre foi difícil, fazendo com que ela tivesse sempre de buscar forças para conquistar seus objetivos. Sua jornada com o estudo superior começou quando ela decidiu cursar letras em uma faculdade em Pernambuco, Estado em que cresceu. Porém ela estudou por apenas 2 anos, sendo incapaz de terminar sua graduação devido a problemas técnicos e burocráticos de sua instituição. Deste modo, restaram duas opções a Monalisa, sendo forçada a escolher outra faculdade para continuar seus estudos ou escolher outro curso para seguir.

E foi nesse momento em que ela teve tempo para refletir e pesquisar mais a fundo as possibilidades que estavam abertas a ela. E entre essas oportunidades, Monalisa descobriu o projeto Pindorama, programa que a possibilitaria estudar na maior cidade do país, com bolsa de estudo em uma das melhores Instituições de ensino do Brasil. E foi assim que sua vida acadêmica na PUC-SP iniciou.

Contudo, para que isso se tornasse realidade, Monalisa teve que passar por um teste de conhecimentos para saber se estaria apta para estudar. Felizmente isso não foi problema já que ela conquistou sua vaga com um ótimo desempenho na avaliação, tendo ficado entre os 12 primeiros colocados em uma lista de mais de 50 candidatos. Logo após sua aprovação, Monalisa se mudou para São Paulo em 2016 e sua adaptação não foi nada fácil. Ela relata que sofreu muito para se encaixar na rotina caótica da cidade grande, além de ter sofrido casos de preconceito em seus primeiros meses devido a suas raízes indígenas. Monalisa conta que em ambiente acadêmico, sua relação com os colegas de sala era distante e sentia uma forte exclusão por parte da maioria por acharem que ela não seria capaz de acompanhar os estudos, e que nada poderia acrescentar em relação as dinâmicas de aula, porém os alunos com o tempo se renderam e ficaram mais abertos a sua presença quando enxergaram o potencial que ela apresentava. Alguns estudantes até mesmo começaram a se aproximar de Monalisa por simples interesse, mas com o tempo isso deixou de ser um problema para ela.

Em relação a rotina, ela diz que até hoje que é complicada a vida no condomínio onde vive. Segundo ela, seus vizinhos sempre a olharam com maus olhos, como se não fosse bem-vinda, inferiorizando-a por ser uma indígena. Monalisa relata que foi muito duro os primeiros meses, chegando ao ponto de ela querer desistir em certos momentos, porém ela sabia o que estaria perdendo se deixasse tudo para trás. Além do mais, ela não estaria apenas colocando sua vida em jogo, mas também a do seu filho de dois anos, Noah. Além de ter que lidar com seus problemas e sua nova vida em um lugar desconhecido e sem nenhuma ajuda para lhe amparar, Monalisa ainda tinha a responsabilidade de cuidar e criar de outro ser humano. Ela conta que o nascimento de seu filho não foi planejado, o que fez com que sua vida mudasse por completo, porém ela diz que ele foi uma das melhores coisas que já lhe aconteceram. Noah fez com que Monalisa amadurecesse mais rápido, psicologicamente e emocionalmente, o que lhe ajudou para que se tornasse uma boa mãe e que estivesse preparada para os desafios que a vida lhe traria agora nessa nova fase em São Paulo. Com a vida corrida, trabalho e estudo, ela não tem outros meios a não ser carregar junto a ela o seu filho para onde ela quer que fosse. Apesar de ser cansativo, foi algo que ajudou na relação dos dois, estando dessa forma, mias conectados.

A vida não estava sendo fácil, mas tudo era mais complicado quando ela ainda vivia em Pernambuco. Monalisa nasceu e cresceu com seu povo indígena Pankararu, com quem aprendeu todos os costumes de sua cultura. Apesar de ser muito grata por todos os conhecimentos adquiridos e o amor recebido pela maioria, a cultura indígena imposta pelo seu povo a proibia de fazer muitas coisas. Entre elas estava o casamento. Para o seu povo, o laço matrimonial deve ser seguido de uma forma totalmente retrógada em que a esposa deve ser submissa ao marido, estando ali para obedecer suas ordens e realizar seus desejos. E Monalisa estava casada e já sofrendo as consequências dessa união. Deste modo, ela se viu encurralada e por mais que amasse sua família, ela não poderia continuar a viver naquele local pois sua liberdade estaria em jogo. Uma vida como essa não teria espaço para ela correr atrás de seus objetivos em relação a carreira e estudos. Como dito antes, o casamento para o seu povo era simples, a esposa teria que obedecer e viver para o seu marido. Em visão disso, Monalisa procurou se separar de seu até então esposo, mas ele não aceitava essa decisão, tornando sua vida um verdadeiro inferno.  Ele não deixava ela respirar, ela até mesmo conta que teve diversos momentos em que ele se exaltava e a pegava pelo braço a força quando ela apresentava algum comportamento “inadequado”. Diante disso, ela se viu na obrigação de ter que fugir, e conseguiu, mas foram muitas tentativas até esse ponto. Monalisa relata em que algumas ocasiões ela foi ameaçada de morte por seu ex-marido, tornando seu dia a dia em Pernambuco uma agonia, nunca sabendo se no dia seguinte ela continuaria viva. Felizmente nada de ruim lhe aconteceu e ela conseguiu chegar bem em São Paulo.

Mesmo longe de casa, Monalisa ainda mantém contato com sua família e o restante de seu povo, sempre trocando mensagens e fazendo ligações, além dela também ter o costume de fazer ao menos uma visita por ano a Pernambuco. O que no começo não foi fácil já que seu ex-marido ainda guardava mágoas pelos acontecimentos passados, mas não durou muito e as coisas se acalmaram. Entretanto, suas visitas causaram um certo espanto quando souberam que Monalisa estava novamente comprometida, desta vez, casada e feliz, mas não com um homem como todos esperavam e sim com uma mulher.

O povo Pankararu ficou chocado com a notícia. Para eles, ser casado com alguém do mesmo sexo é algo fora do comum, como se esse tal ato fosse anormal. Mas nada disso abalaria Monalisa. Ela persistiu e explicou seu ponto de vista ao resto de seus entes queridos indígenas dizendo que não há nada de errado nisso e sim algo natural. Com o passar do tempo,  eles passaram a entender melhor sobre o assunto, chegando a pesquisarem sobre. Ficaram tão informados que surgiram movimentos em prol da questão LGBTQIA+. Monalisa até cita um momento emocionante que passou com sua família. Ela diz que seu tio de mais quarenta anos se declarou homossexual e que agora luta pelas mesmas questões que um dia ela teve que lutar. Ela diz que esse tal gesto mexeu muito com ela.

Casos como de Monalisa são exemplos de vida e superação. Mostra o que é preciso para alcançar seus objetivos, nada é fácil e precisamos ultrapassar barreiras se quisermos sair vitoriosos. Este relato em específico retrata como tudo se torna ainda mais desafiador quando você é pertencente a uma classe social “inferior” ou é de uma origem diferente dos demais. Sempre vão existir rótulos e estereótipos, mas cabe a nós termos a coragem de impor nosso modo de pensar através de atitudes e gestos para que assim o mundo mude.

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Artista baiano mostra suas raízes tropicalistas e se reinventa ao lançar uma turnê e um projeto infantil prestes a completar 80 anos.,
por
Luan Leão
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20/05/2022 - 12h

No ano em que completa 80 anos de idade, Caetano Emanuel Vianna Teles Veloso acaba de lançar sua nova turnê, intitulada "Meu Coco", nome do seu disco mais recente lançado em 2021. Natural de Santo Amaro da Purificação, na Bahia, o filho de Dona Canô encanta ao Brasil desde seu surgimento como artista. Escritor, cantor, compositor, intérprete, as muitas versões de Caetano têm em comum a qualidade e o ar inovador de suas ideias. O artista, que está prestes a completar 80 anos de idade, acaba de lançar sua nova turnê de nome homônimo ao seu novo disco "Meu Coco". Misturando grandes sucessos com novas canções, Caetano revela seu jeito odara de ser.

Caetano Veloso em seu novo disco Meu Coco
Foto: Fernando Young / Divulgação

 

Em sua estreia nos palcos, no III Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record, no ano de 1967, Caetano se apresentou com a banda de rock os Beat Boys. A apresentação causou estranheza no público da época, pela introdução da guitarra elétrica. O professor, jornalista e compositor Valdir Mengardo, relembra a resistência cultural da época em relação ao instrumento. "Em 1968, a música popular brasileira tradicional, não queria de jeito nenhum guitarra, e o Caetano Veloso introduz nas suas músicas a guitarra. Dali a dois, três anos, todo mundo tava usando guitarra e o tipo de harmonia que ele usava”.

Para Mengardo, a apresentação de Caetano representou uma revolução no cenário musical da época. "O tipo de letra, ele rompia com aquela lógica linear da letra da canção de protesto, usava um repertório muito grande. Ele revolucionou todo o modo de fazer a música no final da década de 60", diz o jornalista.

O doutor em letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e especialista em estudos da canção, Felipe Pupo, ressalta a singularidade cultural e a conexão com a sociedade presente nas obras de Caetano. “Ele estabelece um diálogo com estes elementos, e consegue, num só tempo, e sem contradições, louvar o que existe de melhor nestas, e criticar todas as possíveis mazelas presente nelas também, num olhar sempre muito atento, crítico e contextualizado. Nada lhe escapa! Haja vista canções como Tropicália, Gente, Cinema Novo”.

Com um apelo político muito patente em suas canções, Caetano foi um dos símbolos da resistência à ditadura militar (1964-1985), e registrou em suas letras não apenas desabafos, mas verdadeiros manifestos. “A importância do Caetano é criar, estimular um senso crítico na população, e que não fosse aquele senso crítico exclusivo daquela linearidade defendida pela esquerda tradicional, criar outros caminhos políticos para se fazer música”, avalia Mengardo.

Inovador e sempre com ares tropicalistas, Caetano traz nas suas músicas reflexões que levam a sociedade a se repensar enquanto comunidade. Em 1968, em uma apresentação conjunta com a banda Os Mutantes no TUCA, teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a banda mal tinha começado a introdução e a plateia já atirava objetos no palco, provocativo, Caetano entrou no palco com uma roupa de plástico brilhante e encenando movimentos que sugeriam os de uma relação sexual. O público em revolta virou-se de costas para o palco, e a resposta da banda foi imediata: sem parar de tocar, ficou de costas para o público. Em meio ao tumulto no teatro, Caetano fez um inflamado discurso criticando a postura dos ouvintes. "É isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?", questionou o artista no começo de seu discurso.

Caetano é vaiado no TUCA
Caetano foi vaiado durante apresentação de "É Proibido Proibir", no TUCA. Foto: Reprodução 

Para Pupo, as letras de Caetano vão além de qualquer partidarismo que possa se tentar colocar, e avançam a questões mais indigestas para a sociedade. “A obra de Caetano Veloso tem uma importância política singular no que diz respeito aos costumes. Caetano Veloso e sua obra estão sempre tratando disso, seja pelo lado positivo (elogiando, conclamando), ou negativo (denunciando, criticando). Haja vista canções como “É Proibido Proibir”, “Podres Poderes”, “Fora da Ordem”, “Americanos”, “Mamãe eu quero ir a Cuba”, “Base de Guantánamo”, diz Pupo.

Durante toda a carreira, Caetano transitou por muitas áreas da música, e até da literatura – tendo em suas músicas influências do modernismo – e ainda o faz, com “vigor e inquietação’, de acordo com Felipe Pupo. “O próprio disco-manifesto Tropicália ou Panis et Circensis se propõe a uma espécie de atualização da Semana de Arte moderna, numa revisão da cultura brasileira. Mas Caetano faz isto durante toda sua carreira, e chega à atualidade com o mesmo vigor e inquietação característicos do Tropicalismo. Em Não vou deixar, por exemplo, podemos notar uma esfera política que subjaz à canção, para além da esfera de um casal, por exemplo. Ele nunca deixa de se posicionar”, afirma o especialista em estudo da canção.

Valdir Mengardo classifica o artista Caetano Veloso como “revolucionário”. “O Caetano foi um revolucionário. Ele é um revolucionário na música brasileira. Caetano é uma das pessoas que ‘tá’ aí brigando”, diz o jornalista ao retomar a participação política de Caetano nos últimos anos.

Pupo salienta o caráter atemporal de toda a obra. “Caetano Veloso certamente sempre suscitará reflexões, independente do tempo, tanto autorreflexões, na esfera humana, metafísica, quanto reflexões em âmbitos coletivos, sociais. Haja vista que suas canções dos anos 60 ainda dizem muito a respeito do Brasil, cinco décadas depois de terem sido lançadas”, diz.

Em janeiro deste ano, Caetano anunciou uma parceria com o universo Mundo Bita, projeto infantil idealizado pelo músico e designer pernambucano Chaps Melo. A animação de Caetano participará do projeto “Rádio Bita”, que recria músicas da MPB em clipes animados. Lila, Don e Tito, personagens do Mundo Bita, aparecem em alguns dos vídeos, como em “Leãozinho”, sucesso de 1977.

Caetano lança parceria com Mundo Bita
Foto: Reprodução / Instagram 

Inovador, atemporal, poeta, pensador, escritor, musicista, político, filho, pai, avô, marido e padrinho, Caetano Veloso chega aos seus 80 anos com o vigor de um eterno tropicalista. Felipe Pupo definiu o baiano como um: “Um artista com A maiúsculo! Alguém que consegue colocar em palavras e sons uma visão muito singular desta realidade em que todos estamos inseridos, e tornar obra de arte tudo que acontece em nosso cotidiano, a partir de um olhar atento, uma visão privilegiada e uma capacidade artística singular”.

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A instituição proporciona melhor qualidade de vida àqueles que possuem mais de 60 anos de idade
por
Bárbara More
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23/06/2022 - 12h

Por Bárbara Cristina More

Para muitos, a vida é simples: nascer, envelhecer, morrer. Envelhecer é a única maneira que se descobriu de viver muito e, para isso, é necessário dar a devida importância aos cuidados físicos e mentais ao longo da vida, pois o envelhecimento do corpo é natural e inevitável, mas o da alma necessita de permissão do dono. Como País subdesenvolvido e emergente, o Brasil enfrenta um processo de envelhecimento. O primeiro teste nacional do Censo Demográfico 2022 indicou que a população brasileira é constituída por 16,7% de idosos - dependendo da região, um em cada quatro habitantes possui acima de 60 anos de idade. Medidas precisam ser tomadas para que essa parcela em crescimento desfrute de uma boa qualidade de vida.

Reformas da Previdência Social não bastam quando o assunto é bem-estar. No ônibus, os assentos disponíveis não são suficientes; nos bancos, as filas ainda os colocam em situação complicada; nas lojas, apenas um caixa preferencial; em casa, muitos passam fome por não terem conseguido o benefício da aposentadoria. Porém, a situação fica ainda pior ao se analisar a questão da saúde mental. Para a sociedade, as pessoas possuem um prazo de validade e não podem sequer aproveitar as alegrias da vida após ultrapassarem a marca de 60 anos de idade. "Se você se aposentou, fique no aposento. Já trabalhou a vida inteira, agora fique em casa." É comum que 'os mais jovens', e principalmente os parentes, soltem palavras como estas como se elas não carregassem um enorme peso. 

Por quê? Por que elas não podem vestir a melhor roupa, passar maquiagem, arrumar o cabelo e sair para dançar? Após uma vida inteira trabalhando, chegou a hora destas pessoas aproveitarem o tempo para curtir atividades de lazer. O corpo pode estar envelhecido, mas ainda vive uma menina dentro de cada uma das idosas. Se a jovem de 20 anos de idade pode, o que as impede de também calçar belos sapatos e arrastar os pés no salão de um baile? O Núcleo de Convivência de Idosos existe para provar que cabelos brancos não é sinônimo de inutilidade, como muitos ainda cometem o pecado de acreditar.

Denunciando ser necessária a implementação de um projeto de envelhecimento saudável, a unidade da Brasilândia é uma luz na vida da terceira idade residente da Zona Norte da capital de São Paulo. Ao longo do dia, o pequeno espaço é rapidamente preenchido por idosos, em sua maioria mulheres, que frequentam a casa voluntariamente, com a liberdade de exercer atividades que lhes agradam. Após terem dedicado uma vida inteira aos cuidados dos filhos e netos, chegou a hora delas cuidarem de si mesmas. Gerente da instituição, Elaine conta que muitas frequentadoras chegam depressivas e usam as atividades diárias como uma forma de terapia e tratamento preventivo de futuros problemas psicológicos.

A unidade está aberta desde 2008, tendo começado com um público pequeno de 30 a 60 idosos. Através da forte divulgação daqueles que frequentam o polo, o trabalho foi aumentando e hoje a casa recebe quase 300 pessoas. De segunda a sexta-feira, o que não faltam são atividades. No local, os idosos matriculados são divididos em grupos para tornar o trabalho da instituição mais eficiente e individualista. Cada um destes grupos participa de oficinas de sua escolha, que incluem artesanato, yoga, capoeira, exercício físico, dança de salão e muito mais. Além da ginástica e jogos, o Núcleo entende ser necessário levar conhecimento de diversas áreas.

O dia da instituição começa às 8h30min, quando as idosas chegam, tomam café da manhã e aguardam pelas primeiras atividades que vão das 9h00min às 11h00min. Em seguida, elas se dirigem às suas casas para almoçar e retornam ao núcleo às 13h30min, pois logo começarão novas oficinas das 14h00min às 16h00min. Além da grade semanal, a unidade oferece passeios de duas modalidades: cultural e de lazer. O primeiro conta com visitas a centros históricos, museus, teatros e locais artísticos; enquanto o segundo foca em programas como banho de piscina, visita à parques e piqueniques o horto florestal. Exceto o aluguel do prédio onde o polo está localizado, todos os gastos necessários para a sua sobrevivência são custeados através de um convênio com a Prefeitura de São Paulo. 

Para completar, uma vez por semana, um voluntário faz um encontro cultural onde fala sobre a atualidades, como a guerra da Ucrânia. O professor de história Francisco se disponibiliza a trazer um contexto histórico, comentar os assuntos e tirar dúvidas das idosas, que muitas vezes não se sentem confortáveis de perguntar em casa ou não recebem a resposta adequada dos filhos. Curiosamente, os papéis de mãe e filho são invertidos na instituição, que realiza uma Reunião de Filhos para estes acompanharem o desenvolvimento das idosas matriculadas.

A grande maioria dos idosos chega de maneira voluntária, porém alguns são encaminhados pelo CRAS (Centro de Referência da Assistência Social), o qual o núcleo presta contas. No ato da matrícula, o primeiro momento é de acolhimento, quando a pessoa interessada senta em uma sala reservada para contar sua história de vida, como conheceu a instituição, compartilhar seus gostos e desgostos e entregar uma relação de documentos. Terminada a parte burocrática, o auxiliar administrativo sai para entrar o trabalho da psicóloga e assistente social, que abordarão a questão emocional, social e financeira. Por fim, a pessoa começa a frequentar e permanece o tempo que o coração decidir, algumas chegam a frequentar a casa até morrer por ser o lugar que gostam de estar. 

Elaine conta que a família é o principal parceiro no trabalho, pois cobram quando a mãe ou o pai não comparecem ao local. Graças às devolutivas do núcleo, eles até chegam a ficar surpresos quando percebem o que os pais são capazes de fazer. Na instituição, os idosos ganham a possibilidade de mostrar em casa que ainda tem uma vida útil. O sorriso, as risadas e o brilho no olhar daqueles que encontram felicidade e paz de espírito na instituição beneficente deveria ser motivo suficiente para que mais unidades sejam criadas em todos os bairros ao redor do Brasil. No entanto, a gerente fica emocionada ao pensar nas histórias de vida de cada uma das mulheres que frequenta o local e revela que muitas enfrentam uma situação de miséria. 

Há casos em que as matriculadas não conseguem se aposentar e, sem renda, sobrevivem de um benefício da prefeitura chamado BPC (Beneficio de Prestação Continuada). No entanto, ele só é disponibilizado para pessoas acima de 65 anos de idade.  A maioria das frequentadoras da instituição viveram sustentando sozinhas uma família inteira e até hoje entregam o pouco que ganham para cobrir os gastos da casa. Existem frequentadoras  que levam o neto que estava sob seu cuidado porque não querem deixar de estar na casa. Com a pandemia, a situação se tornou ainda mais alarmante e a necessidade extrema. Algumas idosas passam fome ou sequer tem acesso a recursos básicos como cobertor e fralda geriátrica, sendo necessárias realizações de campanhas de arrecadação, pois as UBSs locais não são abastecidas. Elaine disparou ser difícil acreditar que a prefeitura se preocupe com a população da terceira idade, quando quem acompanha o dia-a-dia sabe que é mentira e está vendo ela envelhecer de forma precária. No desespero, há quem chegue bem cedo no núcleo apenas para garantir o café da manhã. 

Com o intuito de aliviar as preocupações dos frequentadores e auxiliar em suas necessidades, o núcleo realiza um levantamento daqueles que precisam realizar o recadastramento bienal do NIS (Número de Inscrição Social), que garante benefícios que pode ser automaticamente cortados caso o procedimento não seja efetuado. Em outro âmbito de dificuldades enfrentadas pelos idosos em seu dia-a-dia, o núcleo atua com o PDU ( Plano de Desenvolvimento do Usuário) para atender aos acamados. Atualmente, há 87 indivíduos que se enquadram nesse perfil, os quais não necessariamente estão na cama, mas confinados em casa por algum motivo - sendo a grade maioria relacionado à saúde ou porque estão cuidando de alguém. Maria é casa com o Seu José, mas ele ficou doente e ela precisa deixar de frequentar a instituição para prestar assistência ao marido. Consequentemente, Seu José acabou falecendo e quem ficou acamada é a Dona Maria, porque ela foi cuidadora a vida inteira e não consegue voltar à vida ativa de convivência com o grupo.

O plano conta com duas profissionais, a assistente social e a psicóloga, que visitam semanalmente esses idosos. A visita não tem o objetivo de clinicar, mas informar que a equipe de profissionais está disponível para orientar e auxiliar no que for preciso - como conseguir uma cadeira de rodas, alimentação, beneficio ou marcar consultas médicas.  No entanto, o Núcleo de Convivência de Idosos sozinho não consegue oferecer todos os serviços que a terceira idade precisa, mas realiza um trabalho espetacular de melhora na qualidade de vida. O indivíduo que se matricula com 60 anos de idade, facilmente chegará aos 90 se tiver qualidade de vida.

Na casa, é possível observar idosas com 89 anos de idade dançando fazendo capoeira, assim como pode-se encontrar aquela que chegou com 60 extremamente doente e depressiva, porque não teve ninguém que trabalhasse com ela as questões de um envelhecimento saudável. 

Elaine lamenta o fato de os trabalhos preventivos não começarem mais cedo, antes de o indivíduo adentrar a terceira idade, para que haja uma maior garantia do envelhecimento saudável. O sonho da assistente social é ver mais polos espalhados em diversas regiões e que a população brasileira na totalidade passe a enxergar os idosos com novos olhos, dando a devida importância e investimento a projetos de assistência e reconhecendo que idade não é sinônimo de invalidez. Todos ganharão cabelos brancos um dia e é necessário olhar para o futuro. 

 

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Escritores autônomos aproveitam essa oportunidade para alavancar seu trabalho
por
Clara Maia
Flavia Cury
Larissa Soler
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14/06/2022 - 12h

O evento acontecerá entre os dias 2 a 10 de julho no Expo Center Norte, após última edição acontecer online por conta da pandemia de Covid-19. Além disso contará com diversas atrações, como painéis de autores nacionais e internacionais.

Para Suze Rocha, autora do livro A Menina Sem Rosto, a Bienal do Livro é um momento de valorização da literatura nacional, pois promove um momento de conexão entre amantes da literatura e também dá acesso ao conhecimento e novas obras. “Acredito que a Bienal  será um reencontro cheio de amor”, diz Rocha. 

“Como escritora autônoma, este evento é a atmosfera perfeita para divulgar meu trabalho, atrair leitores curiosos e envolvidos com questões sociais”, relata Rocha. “O autônomo tem que ser muito corajoso e confiante para entrar neste mercado, só o amor pela escrita e leitura que nos transforma em pessoas corajosas.”

Gabriel Davini, escritor da saga A Ruína Dourada, também compartilha do mesmo sentimento. “Os eventos são uma parte chave da vida de qualquer escritor independente”. Confira nossa entrevista com Davini na íntegra:

 

A Ruína Dourada:

Assista ao trailerbook:

 

A Menina Sem Rosto:

O livro "A menina sem rosto" é uma história comovente, baseada em fatos reais, que narra a trajetória de sofrimento de uma garotinha que é vítima de bullying na escola. “É um forte instrumento de combate e conscientização sobre o mal que o bullying faz nas crianças e adolescentes em um ambiente escolar. Escrevi esse livro pensando em todas as vítimas, e desejo que todos (adultos, adolescentes e crianças) tenham acesso e o utilizem como agente transformador”, conta a autora.

Capa de A Menina Sem Rosto
Capa do livro "A Menina Sem Rosto"

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