Do pastelzinho com caldo de cana à hora da xepa, as feiras livres fazem parte do cotidiano paulista de domingo a domingo.
por
Manuela Dias
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29/11/2025 - 12h

Por décadas, São Paulo acorda cedo ao som de barracas sendo montadas, caminhões descarregando frutas e vendedores afinando o gogó para anunciar promoções. De norte a sul, as feiras livres desenham um dos cenários mais afetivos da vida paulistana. Não é apenas o lugar onde se compra comida fresca: é onde se conversa, se briga pelo preço, se prova um pedacinho de melancia e se encontra o vizinho que você só vê ali, entre uma dúzia de banana e um pé de alface.

Juca Alves, de 40 anos, conta que vende frutas há 28 anos na zona norte de São Paulo e brinca que o relógio dele funciona diferente. “Minha rotina é a mesma todos os dias. Meu dia começa quando a cidade ainda está dormindo. Se eu bobear, o morango acorda antes de mim”.

Nas bancas de comida, o pastel é rei. “Se não tiver barulho de óleo estalando e alguém gritando não tem graça”, afirma dona Sônia, pasteleira há 19 anos junto com o marido e filhos. “Minha família cresceu ao redor de panelas de óleo e montes de pastéis. E eu fico muito realizada com isso.  

Quando o relógio se aproxima do meio dia, começa o momento mais esperado por parte do público: a famosa xepa. É quando o preço cai e a disputa aumenta. Em uma cidade acelerada como São Paulo, a feira livre funciona como uma pausa afetiva, um lembrete de que existe vida fora do concreto. E enquanto houver paulistanos dispostos a acordar cedo por um pastel quentinho e uma conversa boa, as feiras continuarão firmes, coloridas, barulhentas e deliciosamente caóticas.

Os cartazes com preços vão mudando conforme o dia.
Os cartazes com preços vão mudando conforme o dia. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Vermelha, doce e gigante: a melancia é o coração das bancas nas feiras paulistanas.
Vermelha, doce e gigante: a melancia é o coração das bancas nas feiras paulistanas. Foto: Manuela Dias/AGEMT
A dupla que move a feira da Zona Norte de São Paulo.
A dupla que move a feira da Zona Norte de São Paulo. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Entre frutas e verduras um respiro delicado: o corredor das flores.
Entre frutas e verduras um respiro delicado: o corredor das flores. Foto: Manuela Dias/AGEMT

 

Apresentação exclusiva acontece no dia 7 de setembro, no Palco Mundo
por
Jalile Elias
Lais Romagnoli
Marcela Rocha
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26/11/2025 - 12h

Elton John está de volta ao Brasil em uma única apresentação que promete marcar a edição de 2026 do Rock in Rio. O festival confirmou o britânico como atração principal do dia 7 de setembro, abrindo a divulgação do line-up com um dos nomes mais celebrados da música mundial.

A presença de Elton carrega um peso especial. Em 2023, o artista anunciou que deixaria as grandes turnês para ficar mais perto da família. Por isso, sua performance no Rock in Rio será a única na América Latina, transformando o show em um momento raro para os fãs de todo o continente.

Em um vídeo publicado na terça-feira (25) nas redes sociais, Elton John revelou o motivo para ter aceitado o convite de realizar o show em solo brasileiro. “A razão é que eu não vim ao Rio na turnê ‘Farewell Yellow Brick Road’, e eu senti que decepcionei muitos dos meus fãs brasileiros. Então, eu quero compensar isso”, explicou o britânico.

No mesmo dia de festival, outro grande nome da música sobe ao Palco Mundo: Gilberto Gil. Em clima de despedida com a turnê Tempo-Rei, que termina em março de 2026, o encontro dos dois artistas lendários torna a programação do festival ainda mais especial. 

Gilberto Gil se apresentará no Palco Mundo do Rock in Rio 2026 (Foto: Reprodução / Facebook Gilberto Gil)
Gilberto Gil se apresentará no Palco Mundo do Rock in Rio 2026 (Foto: Divulgação)

Além das atrações, o Rock in Rio prepara mudanças importantes na Cidade do Rock. O Palco Mundo, símbolo do festival, será completamente revestido de painéis de LED, somando 2.400 metros quadrados de tecnologia. A ideia é ampliar a imersão visual e criar novas possibilidades para os artistas.

A próxima edição também terá uma homenagem especial à Bossa Nova e um benefício pensado diretamente para o público, em que cada visitante poderá receber até 100% do valor do ingresso de volta em bônus, podendo ser usado em hotéis, gastronomia e experiências turísticas durante a estadia na cidade.

O Rock in Rio 2026 acontece nos dias 4, 5, 6, 7 e 11, 12 e 13 de setembro, no Parque Olímpico, no Rio de Janeiro. A venda geral dos ingressos começa em 9 de dezembro, às 19h, enquanto membros do Rock in Rio Club terão acesso à pré-venda a partir do dia 4, no mesmo horário.

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A socialite continuou tendo sua moral julgada no tribunal, mesmo após ter sido assassinada pelo companheiro
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Lais Romagnoli
Marcela Rocha
Jalile Elias
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26/11/2025 - 12h
Marjorie Estiano interpreta Ângela Diniz. Foto: Divulgação
Marjorie Estiano interpreta Ângela Diniz em nova série. Foto: Reprodução/Divulgação HBO Max

Figurinha carimbada nas colunas sociais da época, Ângela Diniz virou capa das manchetes policiais após ser morta a tiros pelo então namorado, Doca Street. O feminicídio que marcou o país na década de 1970 ganha agora um novo olhar na série da HBO Ângela Diniz: Assassinada e Condenada.

Na produção, Marjorie Estiano interpreta a protagonista, enquanto Emilio Dantas assume o papel de Doca. O elenco ainda conta com Thelmo Fernandes, Maria Volpe, Renata Gaspar, Yara de Novaes e Tóia Ferraz.

Sob direção de Andrucha Waddington, a série se inspira no podcast A Praia dos Ossos, de Branca Viana. A obra, que leva o nome da praia onde o crime ocorreu, reconstrói não apenas o caso, mas também o apagamento em torno da própria vítima. Depoimentos de amigas de Ângela, silenciadas à época, servem como ponto de partida para revelar quem ela realmente era.

Seja pela beleza ou pela independência, a mineira chamava atenção por onde passava. Já os relatos sobre Doca eram marcados pelo ciúme obsessivo do empresário. O casal passava a véspera da virada de 1977 em Búzios quando, ao tentar pôr fim à relação, Ângela foi assassinada pelo companheiro.

Por dias, o criminoso permaneceu foragido, até que sua primeira aparição foi numa entrevista à televisão; logo depois, ele se entregou à polícia. Foram necessários mais de dois anos desde o assassinato para que Doca se sentasse no banco dos réus, num julgamento que se tornaria símbolo da luta contra a violência de gênero.

Marjorie Estiano interpreta Ângela Diniz, , enquanto Emilio Dantas assume o papel de Doca. Foto: Divulgação
Marjorie Estiano interpreta Ângela Diniz, enquanto Emilio Dantas assume o papel de Doca. Foto: Reprodução/Divulgação HBO Max

As atitudes, roupas e relações de Ângela foram usadas pela defesa como supostas “provocações” que teriam motivado o crime. Foi nesse episódio que Carlos Drummond de Andrade escreveu: “Aquela moça continua sendo assassinada todos os dias e de diferentes maneiras”.

Os advogados do réu recorreram à tese da “legítima defesa da honra” — proibida somente em 2023 pelo STF — numa tentativa de inocentá-lo. O argumento foi aceito pelo júri, e Doca recebeu pena de apenas dois anos de prisão, sentença que gerou revolta e fortaleceu movimentos feministas da época.

Sob forte pressão popular, um segundo julgamento foi realizado. Nele, Doca foi condenado a 15 anos, dos quais cumpriu cerca de três em regime fechado e dois em semiaberto. Em 2020, ele morreu aos 86 anos, em decorrência de um ataque cardíaco.

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Exposição reúne obras que exploram o inconsciente e a natureza como caminhos simbólicos de cura
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KHADIJAH CALIL
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25/11/2025 - 12h

A Pinacoteca Benedicto Calixto, em Santos, apresenta de 14 de novembro a 14 de dezembro de 2025 a exposição “Bosque Mítico: Katia Canton e a Cura pela Arte”, que reúne um conjunto expressivo de pinturas, desenhos, cerâmicas, tapeçarias e azulejos da artista, sob curadoria de Carlos Zibel e Antonio Carlos Cavalcanti Filho. A Fundação que sedia a mostra está localizada no imóvel conhecido como Casarão Branco do Boqueirão em Santos, um exemplar da época áurea do café no Brasil. 

Ao revisitar o bosque dos contos de fadas como metáfora de transformação interior, Katia Canton revela o processo criativo como gesto de cura, reconstrução e transcendência.
 

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       “Casinha amarela com laranja” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.

 

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                 “Chapeuzinho triste” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.
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                 “O estrangeiro” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.         
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                                                            “Menina e pássaro” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.
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                                                     “Duas casinhas numa ilha” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.
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                                                             “Os sete gatinhos” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.
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                                                                         “Floresta” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.

 

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Festival celebra os três anos de existência com homenagem ao pensamento de Frantz Fanon e a imaginação radical da cultura periférica
por
Marcela Rocha
Jalile Elias
Isabelle Maieru
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25/11/2025 - 12h

Reconhecido como um dos principais espaços da cultura periférica em São Paulo, o Museu das Favelas completa três anos de atividades no mês de novembro. Para comemorar, a instituição elaborou uma programação especial gratuita que combina memória, arte periférica e reflexão crítica.

Segundo o governo do Estado, o Museu das Favelas já recebeu mais de 100 mil visitantes desde sua fundação em 2022. Localizado no Pátio do Colégio, a abertura da agenda de aniversário ocorre nesta terça-feira (25) com a mostra “ImaginaÇÃO Radical: 100 anos de Frantz Fanon”, dedicada ao médico e filósofo político martinicano.

Fachada do Museu das Favelas. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Fachada do Museu das Favelas. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Autor de “Os condenados da terra” e “Pele negra, máscaras brancas”, Fanon contribuiu para a análise dos efeitos psicológicos do colonialismo, considerando algumas abordagens da psiquiatria e psicologia ineficazes para o tratamento de pessoas racializadas. A exposição em sua homenagem ficará em cartaz até 24 de maio de 2026.

Ainda nos dias 25 e 26 deste mês, o festival oferecerá o ciclo “Papo Reto” com debates entre intelectuais francófonos e brasileiros, em parceria com o Instituto Francês e a Festa Literária das Periferias (Flup). A programação continua no dia 27 com a visita "Abrindo Fluxos da Imaginação Radical”. 

Em 28 de novembro, o projeto “Baile tá On!” promove uma conversa com o artista JXNV$. Já no dia 29, será inaugurada a sala expositiva “Esperançar”, que apresenta arte e tecnologia como forma de mapear territórios periféricos.

O encerramento do festival será no dia 30 de novembro com a programação “Favela é Giro”, que ocupa o Largo Pátio do Colégio com DJs e performances culturais.

 

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Após dois anos, realizado online por causa da pandemia da Covid-19, o evento voltou a ocorrer presencialmente.
por
Eshlyn Cañete
Jessica Midori
João Pedro Lindolfo
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09/06/2022 - 12h

Localizado em oito regiões diferentes ao redor de São Paulo, o Evento contou com shows de artistas renomados como Luisa Sonza, Pitty e Planet Hemp e se caracterizou um sucesso na crítica do público. A presença maior de artistas da periferia e a descentralização dos shows são os grandes fatores para o sucesso da Virada Cultural, que permitiu acessibilidade a quem possui dificuldade para se locomover em grandes distâncias por São Paulo. No vídeo, iremos mostrar um pouco deste evento cultural que retornou à capital.  

https://www.youtube.com/watch?v=66GyQsGWNZw&ab_channel=EshlynBeatrizCa%C3%B1ete

 

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A exposição é uma homenagem aos 13 anos do livro "A arte de Tim Burton", que fala sobre o universo do artista
por
Ana Beatriz Villela
Kiara Elias
Vitor Simas
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09/06/2022 - 12h

"A beleza sombria dos monstros" é uma homenagem aos 13 anos do livro "A arte de Tim Burton", que fala sobre o universo do artista conhecido por filmes como "Edward mãos de tesoura", "Batman", "A noiva cadáver" e "Alice no país das maravilhas".

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Foto: Bruno Soares/ Divulgação​​​​​​

A exposição, inaugurada na Oca do Parque Ibirapuera, na zona Sul de São Paulo, conta com 14 salas, são mais de 2,6 mil metros quadrados de experiência imersiva com recursos multimídias: ilustrações, luzes, sombras, sons, cores e formas cênicas que dão vida ao universo do Tim Burton.  Está aberta ao público de terça a domingo, das 9h às 21h. Os ingressos custam de R$ 20 a R$ 70 reais e podem ser comprados na bilheteria da própria Oca ou pela internet.

Confira o vídeo reportagem da exposição feita pela AGEMT aqui.

 

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Após sete semanas de depoimentos íntimos, explosivos e reveladores, o júri toma sua decisão a favor de Depp, assista o vídeo e entenda todos os detalhes do caso
por
Arthur Pessoa, Beatriz Vasconcelos, João Victor E. Guimarães, Rafaela Dionello
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09/06/2022 - 12h

No dia 11 de abril deste ano Johnny Depp e Amber Heard deram início a um julgamento que se estendeu por sete semanas. Depp estava processando a atriz por difamação, após ela ter escrito uma matéria, em dezembro de 2018, para o jornal The Washington Post o acusando de agressão doméstica. Amber não mencionou o nome de Depp, mas a defesa do ator afirma que o artigo configurou difamação e foi responsável por prejudicar a carreira dele. 

O julgamento, que parou a internet, finalmente teve um desfecho. Para acompanhar todos os detalhes assista o vídeo. 

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O cinema brasileiro vem sendo boicotado desde a sua invenção, atualmente produtoras independentes lutam para ganhar o merecido espaço no mercado.
por
Maria Clara Alcântara
Maria Eduarda Dos Anjos
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07/06/2022 - 12h

     

O setor da cultura sofreu uma real caça-às-bruxas desde a posse de Jair Bolsonaro na presidência. Bolsas foram cortadas e editais pausados, congelando o cenário cultural brasileiro por 4 anos. Mesmo assim, a efetivação desses fundos continuou fácil para alguns artistas como o “Sertanejogate” deflagrou: artistas como Gusttavo Lima e Luan Santana conseguiam com tranquilidade usar dinheiro público para financiar espetáculos em cidades minúsculas. Todos são, convenientemente, apoiadores do governo. Todos com arrecadação suficiente para não precisarem de ajuda estatal. Ao mesmo tempo, filmes nacionais de temáticas necessárias precisam ser criativos para se manter em exibição.  Medida Provisória, por exemplo, cobrou meia entrada em todas suas exibições nos cinemas Itaú Cultural de São Paulo para se manterem no circuito por maior tempo possível. 

Produtoras nacionais rotineiramente têm de dar cambalhotas para que o ciclo de um filme seja completo, mas não pelas razões que frequentemente estão no subconsciente coletivo. Não é a falta de talento, qualidade ou profissionais que faz a produção nacional ser algo aparentemente escasso, mas sim as complicações com distribuição, financiamento, legislação e formação de público. O sucateamento não está com o desaparecimentos dos filmes ou curtas, mas sim com todas as pontes que fazem conexão com a sociedade.

Elenco e direção do filme Medida Provisória na estreia. Foto:reprodução/ instagram @medidaprovisoriafilme.
 Elenco e direção do filme Medida Provisória na estreia. Foto:reprodução/ instagram @medidaprovisoriafilme.

De acordo com o João Saldenha, da Boulevard filmes, distribuidora e produtora de longas, “O cinema brasileiro passou por um grande tsunami.A gente vê uma instabilidade da Ancine desde 2018, e logo em sequência veio a pandemia, que afetou todos os espaços de produção e distribuição no audiovisual; realizadores, distribuidores, até mesmo órgãos de fomento”.    

    Dados da ANCINE, no ano de 2021 os filmes brasileiros foram responsáveis só por 1,3% de toda a bilheteria nacional. A falta de publicidade e a pequena cota de tela são os principais culpados disso; em média, o gasto mínimo para que uma campanha de marketing vá bem é de 1,5 milhões de reais, quantia inacessível para a maioria das distribuidoras nacionais sem incentivo do governo ou de setores privados.“Há um vácuo de financiamento no setor de distribuição, além de profissionais especializados. Sempre vejo cursos pontuais de roteiro, direção, mas quase nunca há um curso sobre distribuição cinematográfica. Tenho percebido que saber falar de distribuição, com propriedade e firmeza, é algo raro que os profissionais carregam; não sabem os caminhos, os processos.”, explica Saldenha.

 

     Em entrevista concedida à  Agemt, a cineasta e sócia da distribuidora Pena Capital, Rafaella Serret, fala das dificuldades do cinema nacional em se manter nas salas dos principais cinemas:“a gente precisa tomar cuidado, pois constantemente surge um projeto para diminuir a cota de tela para filmes brasileiros em sala de cinema. Acho que até seja o caso de aumentar essa cota, sinto falta de iniciativas que visem essa formação de público para que ele próprio possa se desenvolver nessa questão. Uma cota de tela com mais da metade de filmes nacionais faz o público conhecer melhor o cinema”.

 A conscientização de que esse público só existirá se for incentivado levanta a questão: qual seriam os gostos do brasileiro se tudo estivesse ao alcance?  Os comédia são a maioria entre os grandes sucessos de bilheteria, porém filmes fora desse gênero vem ganhando espaço, como Marighella e o próprio Medida Provisória que conseguiu atrair 200% mais público do que Homem Aranha nos cinemas da prefeitura de São Paulo.Com acesso, como e quanto a identidade brasileira mudaria de si? O estrangeiro ainda seria visto da mesma forma, também?

    O aumento da cota de tela já é realidade em outros países, a Coreia do Sul é um modelo disso.Lá, a cota  para filmes nacionais é por pelo menos 73 dias, “O mercado da Coreia do Sul tem cota de tela para filmes nacionais de mais de 50%. O filme Parasita, por exemplo,em termos de êxito de mercado, o filme foi super comercial, você só consegue chegar nisso se há incentivo para que aquilo seja produzido e seja visto. Uma cota de tela com mais da metade de filmes nacionais faz o público conhecer melhor o cinema, se relacionar mais profundamente”, discorre Raffaella. 

   Fora das salas de cinema, ações de  incentivo ao cinema independente e brasileiros são mais importantes que nunca. A soberania dos streamings funciona como uma faca de dois gumes, nesse caso. Enquanto tornam o acesso mais cômodo aos consumidores e são planejados para que a experiência do usuário seja descomplicada, intuitiva e personalizada, é um monopolizador que soma para a precarização da indústria de dentro para fora. É interessante para a visibilidade do país que a Netflix tenha em seu catálogo produções como Coisa Mais Linda ou 3%, mas a indústria nacional não é realmente contemplada nesses processos visto que essas grandes empresas não diversificam suas parcerias. “Algo que não pode faltar para o futuro é uma regulação de streamings. Há um lobby muito pesado que eles fazem no Senado para que essas medidas passem mais flexíveis ou não passem, mas está mais que na hora de ser discutido. Apesar de termos visto uma grande inserção dos Streamings no mercado brasileiro, para produção de conteúdo nacional, quem são as produtoras que estão com eles? Essa regulamentação é essencial para aumentar o leque de produtoras que trabalham com eles. Também é importante para reverter a tributação dos streamings para o fomento de novas obras. E outro ponto: esses streamings estão presentes e atuantes - mesmo que seja com 10 produtoras ao todo pelo Brasil, que é bem pouco- mas não fornecem dados. Não sabemos quanto aquele conteúdo foi visualizado, quantas vezes, em que região, etc., e nem sabemos dos critérios contratuais. Uma vez que não há regulamentação, não é possível planejar muito”, analisa João.

 

Falta tempo e um novo mandato para que o setor audiovisual consiga caminhar com mais segurança. A geração atual de realizadores começou a carreira com vários percalços, mas equivale suas chances com o impulso de agir, como observa Raffaella,”tenho visto também vários núcleos de cineastas se juntando e criando selos de filmes independentes, produtoras, revistas novas de cinema, principalmente escrita por pessoas jovens. Acho que isso mostra a vontade das pessoas de discutirem cinema, tomarem para si essa discussão, e acho que com esse próximo governo que vier as coisas podem melhorar.”

 

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Série da Netflix desperta interesse e ascende a discussão pela representação em conteúdos.
por
Giulia Aguillera
Ricardo Dias de Oliveira Filho
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07/06/2022 - 12h

A série Heartstopper, lançada no final de abril pela Netflix, chamou a atenção do público - principalmente dos jovens - no último mês. A produção tem como foco o relacionamento de Charlie Spring (Joe Locke) e Nick Nelson (Kit Connor), além de trazer diversas discussões sobre homofobia, autoconhecimento, bullying e representatividade. Fora das telonas, a série também despertou, em especial nas redes sociais, debates sobre a importância da representatividade LGBTQIAP+ não-fetichizada em obras cinematográficas e literárias.

Em entrevista à AGEMT, membros da comunidade LGBTQIAP+ relataram suas experiências com esse tipo de conteúdo. "Eu vejo essa representatividade sem fetichização de extrema importância, pois vamos parar de ser vistos, e de nos vermos, apenas como objeto de prazer, juntamente com a descontração de todo um estereótipo em cima de pessoas LGBTQIAP+ de serem promíscuas, pois essa fetichização sempre coloca nossos corpos em situações extremamente sexuais e muitas vezes em contextos totalmente idiotas, fora que corpos de pessoas trans foram o principal alvo dessa fetichização”, contou Nico Angel Faria. Thomas Costa também afirma que falta representatividade no cinema e, quando existe, vem de forma sexualizada. "Isso faz com que a gente se sinta sujo, inferiorizado, nos faz acreditar que nunca vamos ser amados de verdade porque não somos 'dignos' de merecer. A comunidade já sofre muito nas ruas e dentro da própria casa, não precisamos de mais um preconceito disfarçado de apoio", desabafou ele.

Para esses jovens, Heartstopper representa uma nova esperança de serem vistos e de se identificarem com os famosos personagens do mainstream. Karen Arruda, responsável pela Casa Miga - Acolhimento LGBTQIAP+, comenta que esse tipo de conteúdo ajuda também no autoconhecimento. “Eu acho muito importante esse trabalho, essa série […] porque dificilmente a gente fala do romance. A gente fala só do sexo. E o romance existe, então eu acho interessante falar das duas coisas.”

De acordo com a sinopse oficial da série, a obra adaptada das graphic novels da autora Alice Oseman aborda as temáticas de autoconhecimento, descoberta sexual e identitária e relações amorosas. Os adolescentes Charlie Spring e Nick Nelson descobrem que são mais do que apenas amigos e lidam com as dificuldades amorosas e sociais. O primeiranista Charlie se apaixona pelo Nick, veterano popular pelo rugby, dando origem a sentimentos diversos, desde amor até mesmo insegurança e medo. Em oito capítulos, a série conta com 100% de aprovação da crítica especializada no site Rotten Tomatoes.

Nick Nelson (Kit Connor) e Charlie Spring (Joe Locke) em Heartstopper. Foto: Divulgação/Netflix
Nick Nelson (Kit Connor) e Charlie Spring (Joe Locke) em Heartstopper
(Foto: Divulgação / Netflix)

Beatriz Marina, membro da comunidade, conta a importância dos produtos culturais no processo de identificação. "Acho que a gente só precisa de coisas pra se espelhar, 'né'? Tipo aqueles romances que te fazem suspirar. [...] Sendo lésbica, é muito difícil ver qualquer romance não-fetichizado. Então, ver filmes ou séries que não fetichizam ou sexualizam mulheres lésbicas e tratam o assunto com naturalidade é muito importante para nós, porque muda a concepção das pessoas sobre nós”, explica ela.

Segundo Vinicius Grossos, jornalista e escritor, a fetichização dos personagens é maléfica, pois contribui com a criação de estereótipos. "[...] O problema de consumir esses conteúdos que fetichizam relacionamentos LGBTQIAP+, principalmente quando a gente é muito novo e não temos referência, é que a gente pode acabar criando um ideal de relacionamento que não é alcançável e nem saudável."

Perguntado se algum paciente já chegou à clínica relatando que não se sente tão bem representado pelas obras em geral, Dr. Airton Rocha, psicólogo clínico da Pride Mind, clínica de Saúde Mental e Emocional LGBT+, responde que principalmente os adultos resgatam a própria história por meio dessas representações. "Metaforicamente, imagine uma argila. Talvez o produto cultural venha como uma água que amolece a argila, mas o trabalho que ele vai fazer ali, para dar uma forma para aquilo, não depende tanto assim do estímulo. O estímulo é um início, um pontapé, ele é como uma energia de ativação, mas não sustenta o processo como um todo."

Por outro lado, obras como Heartstopper têm um papel importante para produções culturais , de forma geral. Isso porque abre espaço para mais produções LGBTQIAP+ na indústria e contribui para a diversidade das representações. Karen ainda ressalta que trata-se de uma comunidade plural e, por isso, quanto mais representatividade, melhor. "Nós somos várias coisas: nós temos profissões diferentes, somos pessoas diferentes vindas de contextos diferentes [...] Então, quanto mais dessa diversidade estiver presente nesses conteúdos, melhor é", explica. O escritor Vinicius complementa: "[...] a armadilha da fetichização é colocar todo um grupo de pessoas dentro de uma caixinha para uma grande massa, como se fossemos só isso ou aquilo."

Tornando-se mais que uma série, Heartstopper ganhou espaço e atenção de jovens de dentro e fora da comunidade. Thomas Costa relata a importância do conteúdo para si. "Um exemplo de conteúdo LGBTQIAP+ com representação sem fetichização é a série Heartstopper, que aborda várias sexualidades e identidades de gênero de uma maneira leve e super tocante, que faz a gente se sentir acolhido e perceber que somos muito mais do que imaginamos. É desse tipo de coisa que precisamos, não de um bando de séries e filmes onde o foco é nos transformar em bonecos sexuais."

O cinema e a literatura, assim como qualquer outra manifestação artística, têm o papel não só de representar a realidade, mas também de trazer enfoque para os problemas e pautas presentes na sociedade. Mesmo que fictícias, elas estabelecem diálogos com temas atuais, como violência, política e outros movimentos sociais. Por isso, é comum que séries e outras obras - sejam elas escritas ou audiovisuais - sejam assunto de discussões que permeiam as redes sociais e as rodas de conversa.

Quanto a isso, Dr. Airton relata: "Quanto mais a sociedade, como um todo, vai tendo abertura para ir sendo diluído, conversado e questionado, formas diferentes de ser. Não só formas de praticar sexualidade ou de expressar a identidade de gênero, a gente vai conseguindo ter público, não só dentro da própria comunidade, mas de curiosos, pessoas que simpatizam e buscam compreender melhor. É aí que eu entendo que é quando a gente começa a chegar em representações culturais no estilo de Heartstopper, onde você consegue ampliar a discussão mas por uma conquista antropológica e sociológica de conseguir ser melhor comunicada com a população em geral."

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