Em 2002, um grupo chamado Comissão do Rosário dos Homens Pretos da Penha resolveu retomar a velha tradição de celebrar Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, celebrando os 200 anos da Igreja Rosário dos Homens Pretos da Penha, uma das únicas obras erguidas por negros que ainda se mantêm em seu local de origem. A importância da Igreja se deve ao fato da junção de duas outras igrejas de São Paulo: o Santuário Eucarístico Nossa Senhora da Penha e a Capela de Nossa Senhora do Rosário e outro fato que evidencia o valor da obra é o fato dela ter sido construída “dando as costas” para o centro da cidade, já que era uma igreja frequentada por escravos. Desde sua reinauguração, uma celebração no primeiro domingo de todos os meses do ano que é a Celebração Inculturada Afro Brasileira é feita com o intuito de resgatar a memória dos antepassados e relembrar a luta deles pela religião de matriz africana em São Paulo. A estrutura chamada de Largo do Rosário fica localizada no bairro da Penha, bairro de grande importância da Zona Leste da cidade e o prédio foi tombado no ano de 1982 depois de ter recebido pequenas reformas, reforçando a importância desse patrimônio para São Paulo.
Em entrevista com Cristiane Gomes, coordenadora do corpo de dança do bloco Ilú Oba de Min, bloco fundado em 1987 e explora ritmos brasileiros e africanos, juntando toda a diversidade cultural desses locais fala um pouco da importância da Igreja: “Ela surgiu como forma de resistir à Igreja Católica, que era predominante na cidade. Todos os escravos e refugiados iam até o local para terem seu momento de conexão com seus ancestrais e festejarem que ainda estavam vivos, mesmo com toda a tentativa de extermínio dos povos por parte do catolicismo. Esse resgate que está sendo feito é de extrema importância para o Brasil por que fortalece ainda mais a nossa luta pelas religiões de matriz africana”.
Falando um pouco a respeito do Projeto Ilú Oba de Min, Cristiane fala da pesquisa feita acerca da música afro-brasileira: “O bloco tem como intuito preservar a identidade negra brasileira na música abrindo espaço com outras áreas do conhecimento através de aulas, debates e exposições e é feito de forma independente, sem nenhuma ajuda de uma grande empresa ou ajuda de governo”.
O Bloco Ilú participa de algumas das festividades da Igreja do Rosário e a última delas aconteceu no mês de setembro, no Festival Musical Agô, exaltando toda a música ancestral, começando pelo circo, passando pelo samba e terminando com a apresentação do bloco.
Foto de Douglas de Campos/Facebook
O tamanho da importância da Igreja Rosário dos Homens Pretos da Penha para as religiões de matriz africana, para os negros e para a cidade de São Paulo deve sempre ser exposta. Sem ela, os escravos não teriam locais para exaltarem sua fé e a luta dos escravos seria ainda mais difícil e o significativo é tamanho devido o fato da Igreja do Rosário ainda ser um dos únicos locais construídos pelos negros que ainda se mantém de pé, como forma de protesto a Igreja Católica e de luta contra o racismo, e nós devemos sempre exaltá-la.
“Tem pessoas que acreditam que a capoeira se resume ao ‘paranauê’ (). Se você vai numa roda de capoeira, vai ver que, hoje em dia, raramente se escuta o paranauê”. É assim que Wagner, o Mestre Sabão de Capoeira, define a falta de conhecimento sobre a capoeira por parte do público geral. Mesmo após séculos e séculos de prática no Brasil, ainda se enfrenta dificuldade em atingir novos praticantes.
Para contar um pouco da história da capoeira e a relevância dela na cultura brasileira, esta reportagem entrevistou Mestre Sabão, psicólogo e mestre do Grupo Praia de Amaralina, e Rafael Blessa, historiador e mestrando em história com a capoeira como objeto de pesquisa.
Não se sabe ao certo a data de surgimento da capoeira, mas, de acordo com Rafael Blessa, isso aconteceu entre os séculos XVII e XVIII. “É uma mescla de práticas, principalmente de influência da diáspora africana, então, são práticas que vão surgir no Brasil, exclusivamente no Brasil, a partir de práticas que já existiam na África”, conta o historiador.
A luta é criada, basicamente, para resistir ao processo de escravização da população preta, que sofria nas mãos dos senhores de engenho. Tudo surge durante um processo de “intercâmbio” que, como conta Rafael, foi bastante violento: “Intercâmbio que, na verdade, é uma palavra muito ‘bonitinha’ para falar sobre o processo de massacre - tanto dos povos nativos, quanto dos povos africanos aqui no Brasil -, mas [a capoeira] surge desse processo de troca de culturas, tanto africanas quanto ameríndias”, diz. “A capoeira é fundamental nesse processo de resistência à escravidão, porque é ela que faz com que os senhores de engenho e os capatazes tenham medo de agredir os escravos - pois eles também dominam uma técnica de luta que é capaz de ir contra o poderio ofensivo, legitimado pelo Estado, com armamentos mais pesados”, explica o professor.
Apesar da resistência por meio da capoeira, o pós-escravidão no Brasil foi marcado pela marginalização da prática. A Lei Áurea foi outorgada em 1888, e, um ano depois, o país se tornou uma República - o racismo, como sabemos, se manteve inabalável. “Os republicanos não queriam nada que fizesse referências aos negros, então o Brasil continuou sendo um país racista - e não queriam permitir nada que tivesse a cultura africana impregnada”, continua o historiador. “Dentre esses fatores, a capoeira vai ser criminalizada no primeiro código penal republicano, Artigo 402, dos vadios e capoeiras. Vai falar que todo mundo que for pego praticando capoeira vai ter pena de detenção de seis meses, e os líderes daquilo que chamavam de bandos, teriam pena em dobro”, conta Rafael.
A capoeira seguiu marginalizada até a virada do século, quando, na década de 1920, começou a ser valorizada como um esporte, uma prática verdadeiramente nacional. O assunto é, inclusive, o projeto de pesquisa de mestrado de Rafael Blessa. “É o meu projeto [...], falar sobre como a capoeira passou a ser esporte e deixou de ser crime. [...] Se torna um símbolo de identidade nacional como um esporte que foi criado justamente aqui, com uma carga histórica grande, de resistir ao processo de escravidão e que consequentemente vai ganhando o mundo, sendo extremamente respeitado, não só pelo seu caráter esportivo, mas pelo seu caráter cultural”, afirma o professor de história, que também é praticante da modalidade. “Hoje a capoeira está presente em mais de 130 países e é respeitadíssima, não só culturalmente, mas até como uma arte marcial, que se iguala com outras artes ao redor do mundo”, conclui.
Como esporte ou como dança, a capoeira se relaciona com a sociedade e com outras áreas da vida. Mestre Sabão diz “não se incomodar” com o tratamento de dança, mas vê predominância de movimentos mais belos em apresentações voltadas ao público “leigo”. Além disso, destaca a relação - indireta, segundo ele - da capoeira com a psicologia, sua área de trabalho: “Eu tenho alunos hoje que dão aula, e vejo uma questão indireta: muitos alunos se interessam por psicologia por causa da capoeira. Já casei alunos que se encontraram na capoeira, e gosto de pensar pelo olhar de ‘família’. Eu acho que a cultura tem essa influência, de ter esse pano de fundo, que é a família. Consigo perceber meus alunos além, por um vínculo de ordem afetiva”.
O professor Rafael Blessa reforça a importância da valorização da capoeira como manifestação de resistência cultural: “Entendo a importância dessa prática, porque acho que ela é uma prática cultural esportiva fundamental que temos, no Brasil, que trabalha massivamente a história da população negra”, afirma o historiador, que completa: ‘A gente consegue através da capoeira contar a história, e a capoeira também é um meio de transformação social e de conscientização da população de massa”.
Para Mestre Sabão, porém, os praticantes da capoeira não têm dado muita atenção à história: “A capoeira é muito carente de intelectuais, de pessoas que pensem sobre a capoeira. Encontrar um material de capoeira que não seja tendencioso é muito raro. Sempre que alguém me pede algo sobre, peço pra procurarem historiadores. Acredito que esse é um dos fatores que fazem com que a capoeira esteja tão distante de fomentos, de editais, de projetos…”, diz.
Apesar da “reclamação”, o mestre acredita que o caminho do fomento da capoeira está dentro da esfera pública: “Políticas públicas, de preferência a investida em vulnerabilidade, em lugares de exclusão social. além disso, acho que deve ter a busca por uma narrativa que seduza pessoas que possam investir em projetos assim”, afirma o psicólogo.
A era 'Midnights' está entre nós. Com uma programação recheada de surpresas, a cantora animou a sexta-feira dos chamados swifties. O novo disco de Taylor Swift possui 13 faixas oficiais e mais 7 bônus, além de um feat especial com Lana Del Rey.
Em seu retorno ao pop, a cantora constrói um álbum visual, conceitual e maduro. Exemplo disso, o clipe da música Anti-Hero, também lançado na sexta, trata sobre inseguranças pessoais e problemas de autossabotagem presentes na vida da cantora. Em um dos trechos do single, ela diz: "It's me, hi, I'm the problem, it's me" (Sou eu, oi, eu sou o problema, sou eu).
O novo disco já está rendendo conquistas para Taylor, que começou com a quebra de recorde no Spotify. 'Midnights' tornou-se o álbum mais transmitido em um único dia na história da plataforma. Nas redes sociais, a cantora fez um tweet sobre a conquista:
Imagem 1/Taylor Swift - Legenda/Tradução: "Como eu tive essa sorte, tendo vocês aqui fazendo algo tão alucinante?! Tipo, o que acabou de acontecer??!?!".
'Midnights' ganha espaço interativo em São Paulo
Anteriormente, em parceria com o Spotify, a cantora já havia promovido uma ação para o lançamento do álbum na estação Sé, localizada no centro de São Paulo.
Desde ontem, sexta-feira, (21), o Shopping Pátio Paulista, localizado no bairro Bela Vista, região central da cidade, conta com um cenário especial e cheio de referências à nova era 'Midnights'. Na sexta, às 20h, os fãs puderam participar de quizzes e concorrerem a brindes numa ação organizada pela Universal Music Brasil.
Imagem 2/Taylor Swift Brasil - Legenda: Fãs visitam espaço interativo do álbum 'Midnights' em São Paulo.
Os fãs lotaram o espaço, que tornou-se pequeno para tanto prestígio. Nas redes sociais, fãs compartilharam suas experiências e relataram uma espera de até duas horas na fila para visitar o cenário. Mas o público que deseja conhecer o local pode se tranquilizar, ainda dá tempo de ir com calma ao espaço interativo, que ficará no shopping até este domingo (23).
Imagem 3/Universal Music Brasil - Informações sobre o espaço interativo de 'Midnights'.
Ouça e assista abaixo o álbum ‘Midnights’ e o Clipe Anti-Hero de Taylor Swift’:
Nesta quinta-feira (29), completam-se 10 anos da morte da ilustre Hebe Camargo. A apresentadora faleceu, aos 83 anos, vítima de uma parada cardíaca. Ela tratava um câncer no peritônio, contra o qual lutou por dois anos.
A artista iniciou sua carreira como cantora, aos 15 anos de idade, na extinta Rádio Tupi de São Paulo.
Seu programa de TV, intitulado como Hebe, foi exibido entre 1966 e 2012. Semanalmente, ela entrevistava personalidades, um bate-papo descontraído, em seu famoso sofá. Os temas eram diversos - inclusive considerados impróprios e polêmicos para a época - como política, relacionamentos amorosos etc.
Foto: Acervo/SBT
Hebe era uma mulher à frente de seu tempo. Por trás dos holofotes, envolveu-se fortemente com a política e as causas sociais. Em 1987, durante o programa Roda Viva, da TV Cultura, a apresentadora apoiou a comunidade LGBTQIA+ em uma época em que, além de ser um tabu, a epidemia da AIDS estava em alta.
Com passagens por diversas emissoras, entre elas Record, TV Tupi, Band, SBT e RedeTV!, respectivamente, Hebe é lembrada como a Rainha da Televisão Brasileira, marcante, presente e respeitada. Ao longo de sua extensa carreira, a apresentadora criou bordões, teve momentos marcantes e distribuiu os famosos "selinhos".
Chamava a todos de "gracinha", famosos como Neymar, Silvio Santos, Susana Vieira, Ana Maria Braga, Adriane Galisteu, entre outros, tiveram o privilégio de receber um beijo da loira. Durante sua trajetória, ela tornou os "selinhos" sua marca registrada.
Se estivesse viva, a apresentadora teria 93 anos. O programa Encontro, da Rede Globo, homenageou a artista levando alguns de seus figurinos marcantes ao palco.
O folclore brasileiro é conhecido por sua riqueza e variedade, com maior destaque às lendas. Um dos personagens mais famosos da cultura brasileira é o Saci-Pererê, uma pequena criatura de uma perna só, que vive na floresta, e é conhecida por suas travessuras. A lenda do Saci teve origem no sul do Brasil e é diretamente influenciada por elementos culturais africanos e indígenas.
Celebrado no dia 22 de agosto, o Dia Nacional do Folclore foi oficializado no Brasil através do decreto nº 56.747, assinado no dia 17 de agosto de 1965. Com o objetivo de garantir a identidade cultural e preservação do patrimônio folclórico brasileiro, sua perpetuação histórica é rica e importante, pois através dele o saber popular e identidade nacional são mantidos.
Rodas de contação de história, festas tradicionais como Festas Juninas e Reisados, brincadeiras como pique-pega ou adedonha/stop, expressam a cultura e promovem esses elos entre os membros da comunidade.
“Em nosso Brasil de dimensão continental, teremos uma infinidade de cenários e enredos constituintes da Cultura Brasileira (Folclore Brasileiro) que não se comunicam entre si, contudo vale ressaltar que não existe hierarquia, nem tipologia de maior valor relacionado aos aspectos culturais de um povo”, contou o antropólogo Diogo Moreno.
O aspecto que destaca o Brasil é a riqueza cultural que influencia outros países, mas também desfruta de culturas de outras regiões. Um dos exemplos são os costumes da população de Foz do Iguaçu, que consomem, principalmente, da culinária e da música do Paraguai e Argentina. “É muito comum que cidades de países diferentes em zonas de fronteira compartilhem tantos aspectos culturais que façam com que um brasileiro que more em um desses lugares possa acabar se identificando mais com seus colegas do país vizinho do que com a identidade “nacional” em pessoas do mesmo país mas de outra região”, explica Lorena Herrero, folclorista há mais de 5 anos.
Divulgação: Leiturinha
Apesar de aspectos de outros países, existe também uma ‘independência cultural’ entre os estados brasileiros. No folclore goiano, uma história, que foi contada no passado pelos pais para assustar as crianças e fazê-las obedecer às suas ordens em casa, é contada até os dias de hoje. “Em nosso país de dimensão continental podemos afirmar que existem diversos “folclores”, ou seja, a forma como se apresenta na região nordeste não necessariamente é a mesma das outras regiões do país”, confirma Diego Moreno.
O conto do Velho do Saco fala de um idoso, de aparência simples, que afasta crianças desobedientes de lares e reuniões de adultos, deixando-lhes misteriosas mensagens de sabedoria. Não curiosamente, a história influenciou a formulação do personagem “Velho do Rio” da novela “Pantanal”, da Rede Globo.
“O relevo de uma região, suas estações, vegetação, fauna… todos interferem nos modos de vida de uma comunidade e nós nos moldamos a partir da nossa relação com esses fatores. Se vivemos em uma vila no interior, por exemplo, é muito comum que os seres míticos e as lendas da região se relacionem com animais, que os perigos se relacionem com a floresta ou com os rios. Já em grandes metrópoles, os ambientes que se relacionam com o medo passam a ser construções abandonadas, e os “monstros” se tornam mais humanos, como fantasmas, o Homem-do-saco ou a Loira do Banheiro”, explica Lorena Herrero.
Outro exemplo de como o folclore é retratado no mundo do entretenimento é a minissérie brasileira “Cidade Invisível”. Na série original da Netflix, pessoas do convívio urbano da sociedade encontram personagens como Boto-cor-de-rosa, Iara, Saci-Pererê, Cuca e Curupira. A série tem um tom de suspense policial, mas não deixa de tirar a visão infantil que costumamos ter do Folclore, já que esses personagens nos são apresentados na infância.
Uma das manifestações artísticas e populares do folclore brasileiro é o Bumba meu boi, que surgiu no século XVIII, na região do Nordeste. A história envolvendo a dança está relacionada à lenda de uma dupla de escravos conhecidos como Pai Francisco e Mãe Catarina. A atração é um símbolo na cultura brasileira, principalmente no Estado do Maranhão, pois está ligada diretamente à identidade de seu povo. Além disso, a dança possui uma variedade de nomes em várias regiões do país, como: boi-bumbá, boi de reis, boi-surubi, boi-calema ou calumba, rancho de boi, boizinho etc.
É muito comum que tenhamos a ideia de que o Folclore se refere à manifestações culturais especificamente rurais e/ou antigas, elementos que não se relacionam com a maioria da população hoje, que é urbana e vive uma “era da tecnologia” e de avanços científicos. Por conta disso, muita gente entende que o Folclore é algo a ser superado, mas a cultura popular se adapta e está presente no contexto urbano e tecnológico de outras maneiras, ou em aspectos da vida que não entram tanto em conflito com a tecnologia ou a “ciência”.
Apesar de todos os cultos ao folclore nacional, as grandes metrópoles não se conectam da mesma maneira que as regiões interioranas e florestais. “Esse é um embate desigual, pois cada vez mais temos um culto ao que é estrangeiro em detrimento da valorização de uma cultura local, para corroborar como nosso pensamento basta lembrar toda veneração e espaço mercadológico dedicado ao “Halloween”, comenta o antropólogo.
A população tem uma relação dual com o folclore, hora menosprezado hora exaltado. Isso acontece pela diferença da “ideia” que temos de Folclore e como ela se diferencia de como vivemos a cultura popular de fato.