Por Júlia Takahashi
Entre sorrisos e braços ao redor do mundo, a comunidade LGBTQIA + celebra o mês do orgulho em Junho. Em São Paulo, no domingo, dia 19, a 26° parada reuniu mais de 4 milhões de pessoas, segundo as informações publicadas pelo Observatório do Turismo da Prefeitura de São Paulo e da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, levantando suas bandeiras e resistindo ao preconceito. Essa manifestação é carregada de história e resistência às violências que a sociedade faz contra a comunidade, sendo marco inicial a rebelião de Stonewall.
No ano de 1969, alguns estados norte americanos derrubavam a lei que criminaliza relações entre pessoas do mesmo sexo, porém o estado de Nova York era inflexível a essa decisão. Consequentemente, o preconceito contra homossexuais era visto como normal, e foi no dia 28 de junho daquele ano, que a polícia novaiorquina invadiu um dos bares mais badalados em que a população LGBTQIA + se encontrava, o Stonewall Inn, localizado em Greenwich Village, na época era um dos únicos lugares de aceitação livre à comunidade. A justificativa pela invasão era de “violação do estatuto de vestuário”, uma vez que era exigido por lei que as pessoas usassem pelo menos três “roupas apropriadas para o seu sexo”.
Toda essa violência levou a população a olhar o preconceito existente a essa parte da sociedade com outros olhos, centenas de pessoas passaram a protestar contra a perseguição policial aos homossexuais e lutar a favor dos direitos LGBTQIA +. Desta forma, um ano depois, no dia 27 de junho, ocorreu a primeira parada do orgulho gay, chamada de CSD, Christopher Street Day (Dia da Rua Cristopher) em memória a rua que o bar era localizado. No mesmo ano, ocorreu uma parada com os mesmos princípios em Los Angeles e com o tempo as marchas começaram a se propagar por outras cidades dos Estados Unidos e pelo mundo.
No Brasil, em 1997 ocorreram as primeiras paradas do orgulho, uma na paulista e outra em Copacabana, porém três anos depois o evento em São Paulo crescia gradativamente e atraiu muitos participantes ao redor do país. No mesmo ano, foi criada a Associação da Parada do Orgulho GLBT, que hoje recebe o nome de Associação da Parada do Orgulho LGBT, o qual é responsável por administrar o evento. O escritor e militante João Silvério Trevisan, em um artigo publicado na revista Sui Generis, comenta sobre a parada de 1999 no Brasil, destacando o apoio que o evento teve explicitamente de empresas e marcas.
“Numa Cultura onde tudo passa pela estatística, reunir 20 mil pessoas é uma façanha respeitável. E aí está o grande sentido político da parada: a afirmação de que existimos, gostem ou não somos milagres. Vencemos o nosso pior inimigo, a invisibilidade, e afirmamos nossa existência (...) Políticos conservadores, religiosos fundamentalista e homofóbicos em geral, que insultavam gente anônima, agora terão que se defrontar com uma multidão de homossexuais com rosto e identidade”.
Em 2019, o Supremo Tribunal Federal - STF decidiu criminalizar a homofobia e a transfobia, enquadrando-as como crime de racismo no Brasil. A descrição sobre racismo no país deve ser entendida como uma construção histórica, da qual procura justiça devido às situações de desigualdade, dominação política e subjugação social dos grupos mais vulneráveis e que a LGBTfobia se encaixa nessa declaração. Essa decisão é uma reivindicação histórica ao movimento, principalmente durante o governo de Jair Bolsonaro que criticou a ação e, ao longo da sua vida política, inviabilizou e menosprezou a comunidade LGBTQIA +.
A realização da parada e a construção de espaços da comunidade é resistir a esse preconceito histórico e lutar pela própria existência. A advogada, militante lésbica e cofundadora da Rede Feminista de Juristas, Marina Ganzarolli, comenta para o Jornal Nexo que mesmo a parada ser “despolitizada, comercial, turística, gay, masculina, cis e branca”, ela tem sua importância de visibilidade, destacando que são nesses eventos de diversão, que é lembrado a existentência da comunidade LGBTQIA+ e da suas lutas pelos direitos reconhecidos, como de todos na sociedade, “são espaços de ação e organização política”.
Por Aline Almeida de Freitas
A cultura de origem africana tem como uma das suas características principais servir como forma de resistência. As tranças, tão presentes nessa cultura, não são exceção. Na época da escravidão, esses penteados ancestrais serviam para esconder grãos e até mesmo traçar mapas de fuga para os escravizados. No presente, continuam com esse aspecto, como afirma o professor de história contemporânea da PUC-SP, Amailton Azevedo. “As tranças funcionam como forma de resistência atualmente pois estabelecem uma ruptura com os modelos estabelecidos sobre a estética capilar”, explica.
Tal estética provém de uma cultura majoritariamente branca. Em meio às centenas de imposições, as tranças servem de lembrança da origem e de uma quebra na expectativa do cabelo liso, sem volume e sem frizz. Além de reforçar a identidade e a presença da cultura negra. "Elas fizeram parte do meu processo de reconhecimento como mulher negra, me trouxeram aceitação sobre quem sou", afirma Talita Aia, professora de 22 anos, que já usou o cabelo trançado de diversas maneiras ao longo dos anos.
Ainda nessa narrativa, com cada vez mais frequência, mulheres negras têm usado o penteado para auxiliar na transição capilar. Que é o período entre a realização da última química no cabelo, como a progressiva, até o crescimento do cabelo natural. "Muitas meninas chegam para fazer as tranças comigo com a autoestima muito abalada. A transição mexe muito com a imagem delas mesmas. Quando eu termino, é nítida a diferença na expressão", conta Milene Santos, trancista de 39 anos.
Sobre o assunto, Aia comenta, "quando coloquei, me senti muito bem comigo mesma, me senti bonita, me senti potente, me senti eu". Ela relata que não passou pela transição, pois nunca alisou o cabelo. Mas, viu no estilo, uma maneira de aceitar a própria origem. "Sou uma mulher preta de pele clara e demorei para alcançar a aceitação e conseguir me colocar nos espaços dessa forma", diz. "As tranças foram como uma revelação, uma afirmação de quem sou no mundo", complementa.
Para Santos, além de uma questão de rompimento com os padrões estéticos, serve também como uma forma de resistência financeira. "Perdi o emprego na pandemia, e eu sempre soube trançar. Então, juntei o útil ao agradável e agora é assim que pago as minhas contas", explica.
Apesar de não utilizar a habilidade como forma de renda, Aia também tem conhecimento de como fazer os penteados. "Eu aprendi a trançar na infância, brincava de trançar meus próprios cabelos, da minha mãe, de amigas. Não lembro exatamente o momento que aprendi, mas provavelmente aprendi com minha mãe", relata.
Por Aline Almeida de Freitas
Mesmo tendo seu início nos anos 90, é inegável que o Trap vive o seu ápice na atualidade. O estilo musical dominou a cultura moderna e já é presença garantida em festivais e premiações ao redor do mundo. Dentro disso, o nome de Travis Scott não pode passar despercebido já que o artista se consagrou como uma das maiores representações do gênero. Desde o boom de sua carreira em 2018, Scott atraiu uma legião de fãs, como Vinicius Gil, estudante, de 25 anos, que acompanha sua trajetória desde 2019. "Ele batalhou muito para chegar aonde chegou como artista e influenciador”, afirma.
Não é atoa que Gil o classifica como mais que apenas cantor. Com o auxílio das redes sociais, o trapper extrapolou os limites da música e se tornou também uma personalidade a ser copiada, ou, simplesmente, um influenciador. A sua influência é tão grande que até mesmo suas roupas são motivo de inspiração. Contudo, apesar das inúmeras conquistas, a carreira de Scott não é marcada apenas por pontos positivos. As polêmicas também se sobressaem quando seu nome é mencionado.
Em 5 de novembro de 2021, o festival Astroworld, promovido pelo trapper americano Travis Scott, foi cenário de um desastre. Ao menos 10 pessoas morreram pisoteadas e centenas ficaram feridas depois da confusão generalizada que tomou a plateia. O acontecimento gerou grande polêmica quando vídeos do cantor dando continuidade a apresentação enquanto via o tumulto nas arquibancadas circularam na internet. Muitos o acusaram de ser conivente e até mesmo responsável pela tragédia. Para Gil, o cantor deve ser responsabilizado. "Avisaram que as pessoas estavam se machucando e mesmo assim ele continuou o show", diz.
Já para o também admirador do cantor, Gabriel Golveia, de 16 anos, Travis não teve culpa no que aconteceu. ''Ele postou um vídeo se pronunciando depois do show, disse que não sabia de nada e estava devastado. Não foi culpa dele, na minha opinião", conta.
Essa, entretanto, não foi a única controvérsia envolvendo as performances do cantor. Mesmo que Scott nunca tenha presenciado uma tragédia de tamanha dimensão, a incitação da baderna nos seus shows já havia recebido diversas críticas. Inclusive, esse é o tema central do seu documentário na rede de streaming Netflix.
Previamente a esse acontecimento, como mostra o documentário, o astro já havia pedido para seus fãs baterem em um garoto que tentou pegar um de seus tênis enquanto o cantor realizava um flashmob. Scott também foi preso, em Chicago, após incentivar seus fãs a invadirem o festival Lollapalooza. Para Gil, as atitudes do cantor o desmotivam de ir a um show. "Não me sentiria seguro no ambiente, não considerando o jeito que o público se comporta".
Golveia tem uma visão diferente, "Tenho muita vontade de ir, até comprei ingresso para o Lollapalooza Brasil em 2020 porque ele era um dos destaques, mas vendi quando mudaram a lineup", conta. O estudante ainda afirma que a baderna durante as performances do cantor é um atrativo para ele "Deve ser uma experiência única", opina. "Não tenho medo de me machucar, acho que os fãs aprenderam depois do Astroworld". Travis Scott tem muitos fãs adolescentes como Golveia e seu nível de influência causa debates acerca do que esses jovens estão adquirindo dessa admiração.
A psicóloga Bharesca Ayres é coautora do artigo "Ídolos e Apoio Emocional: Reflexões sobre a dinâmica do fã adolescente contemporâneo", que discute pontos acerca do papel de uma celebridade idolatrada na vida de um adolescente. Em entrevista, ela afirma que, em um nível patológico, o adolescente não é capaz de distinguir o artista da obra e acaba se inspirando nos atos dele e complementa, "o adolescente, por estar nessa fase de desenvolver a identidade, tem qualquer interferência externa como possível gatilho de consequências negativas para o produto final que é o que ele vai se tornar". Esse contexto, certamente, se torna aliado das críticas quanto à postura do artista, considerando a faixa etária de seus fãs e o seu histórico de ações.
Por Luiza Ferreira Pires da Costa Fernandes
No dia 11 de março de 2020 a Organização Mundial da Saúde (OMS), declarava que o mundo estava vivendo uma pandemia de Covid-19. A única forma de proteção que havia até aquele momento era o distanciamento social, fazendo com que o mundo todo se isolasse. O setor cultural sentiu essa paralisação de forma intensa, dois anos sem que pudesse haver a realização de shows e eventos, surgiram lives e até mesmo peças de teatro a distância, mas existe uma particularidade dos eventos presenciais, que não pode ser reproduzida. Eventos culturais representam algo muito além do simples entretenimento, são uma forma de conexão do espectador com aquilo que é apresentado, na cidade de São Paulo existe um lugar que entende isso muito bem, a Casa de Portugal de São Paulo. Lá acontecem dezenas de eventos todos os anos e é ali que muitos portugueses se reencontram com as raízes de seu país.
“Muito além de assistir a um show, as pessoas vêm a Casa para se conectarem com a sua história, a comunidade portuguesa é muito presente na cidade e aqui existe um pedaço de Portugal”
Roberto Barreto Mendes é o Secretário Geral da Casa de Portugal de São Paulo a 4 anos e conversou com a reportagem sobre a importância de que os eventos também sejam uma forma de conectar a comunidade luso-brasileira, mostrando para as pessoas a forte relação entre as duas culturas.
A Casa de Portugal tem sua sede no bairro da Liberdade em São Paulo e, ela foi fundada no dia 13 de Julho de 1935 por portugueses e luso-brasileiros de grande destaque daquela época, que se reuniram com essa finalidade no então “Centro do Minho”, uma associação que representava os portugueses desta região.
O local dispõe de um patrimônio que ressalta a tradição e a preservação dos valores históricos, culturais e a presença dos portugueses em São Paulo. Foi criada com a intenção de servir como uma instituição de apoio e assistência à Comunidade Portuguesa daquela época.
Segundo uma pesquisa realizada pelo Sistema Nacional de Cadastro e Registro Estrangeiro (Sincre) e organizada pelo Observatório de Turismo e Eventos de SP (Spturis), a maior comunidade estrangeira vivendo em São Paulo é a portuguesa, com mais de cem mil membros. É justamente para enaltecer a importância que essa população tem na cidade que a Casa de Portugal vem todos os anos promovendo um intercâmbio cultural entre os dois países, através da música. “Apostamos muito na relação entre o Fado e a Música Popular Brasileira (MPB), são os dois ritmos mais tradicionais dos dois países e ambos carregam muita história, ao serem apresentados juntos no mesmo palco, o luso-brasileiro se sente visto, a gente consegue contar, através da arte, um pouco da história daquela pessoa.”
No mês de Abril foi a última apresentação dos dois ritmos lado a lado no palco da Casa, no dia 29 aconteceu a segunda edição do Festival de Fado e MPB, dessa vez com o show “Toquinho e Convidados Cantam Brasil e Portugal”. Toquinho era a estrela da noite e se apresentou ao lado de Marta Pereira da Costa, jovem talento da guitarra portuguesa e considerada a única mulher que toca profissionalmente o instrumento, em nível mundial.

Com um repertório movido pelos grandes sucessos de Toquinho e alguns dos fados mais conhecidos, todo o público se emocionou. “É muito bom poder estar de volta na Casa de Portugal, ainda mais com um show como esse, que faz a gente relembrar músicas brasileiras e portuguesas juntas.”
Ana Amália, 66, é aposentada e frequenta os shows e eventos na Casa de Portugal desde 2016, “Para mim é um lugar muito importante, que representa muito afeto, sempre que posso eu tento estar presente em tudo que acontece por aqui, faz eu me lembrar dos meus pais e de outros laços familiares”.
A importância da Casa de Portugal vai muito além de ser uma casa de shows, é um espaço que reforça identidades e que participa ativamente da valorização da cultura portuguesa, tão fundamental para a construção da cidade. Indo a um show como o festival de fado, é possível identificar todos esses elementos de forma muita clara, existe mesmo ali um pedacinho de Portugal.
Por Larissa Isabella Araújo de Sousa
Itapecerica da Serra, interior de São Paulo, uma paisagem iluminada pelo crepúsculo, à medida em que caía o sol, Bruno Roberto dos Anjos ficava cada vez mais empolgado para contar sobre os cães que a ONG cuida e seus nomes criativos. Na ONG Cão Sem Dono o principal ponto é o bem estar do animal e o incentivo à retomada deles para a sociedade a fim de fazer com que a adoção seja possível. No Brasil há mais de 30 milhões de animais de rua entre cães e gatos segundo dados da OMS (Organização Mundial de Saúde), destes cerca de 170 mil estão sob os cuidados de ONGs que lutam pela causa animal.
Durante a pandemia do coronavírus a situação ficou ainda pior. Além do crescimento da taxa de abandono, os animais começaram a ser deixados em piores condições. Bruno contou que após os 20 anos da organização, os animais começaram a chegar mais machucados, mais magros por estarem passando fome. As ONGs têm uma batalha árdua para conseguir se manter e construir uma boa estrutura para abrigar cada vez mais bichinhos, além disso como não possuem uma entrada fixa de renda elas dependem muito das doações da população. Outra forma de ajudar é apadrinhando um animal, ideal para quem ama os animais, mas não consegue cuidar de um por qualquer motivo.
Em um País em que grande parte da população ainda compra animais, o abandono por qualquer situação fora do controle dos tutores ainda é muito comum. O funcionário da ONG explica que as pessoas têm muito enraizado na mente um cachorro ideal para a adoção, elas chegam com o pensamento voltado em uma fêmea dócil, de pequeno porte e que seja quieto. Irônico como querem adotar um cão para companhia, mas quanto mais humanizado o animal for melhor. A sociedade está muito movida ao bem-estar próprio e ignora que os animais também precisam ser acolhidos, compreendidos e, claro, se necessário, adestrados. No entanto, não deve-se chegar com uma ideia tão fixa de algo vai ser bom apenas para o tutor, dessa forma a probabilidade de devolver o bichinho é grande.
Ao conversar com tutores de animais adotados, o principal incentivo na hora da adoção é sempre a ligação com o cãozinho. Inicialmente a ideia surge por gostarem de bichos desde pequenos e depois de entender que os animais têm sua própria personalidade, as pessoas começam a procurar por organizações seguras que tratam os animais corretamente e então tentam se conectar com um dos bichinhos, para depois adotar.
A venda de animais é ainda uma prática muito comum no Brasil, porém se trata de uma ação ilegal regulamentada na lei de número 11.977 de 25 de agosto de 2005. A ilegalidade acontece porque em grande parte dos casos de criação para o comércio, os animais são explorados e passam por maus tratos em prol de um benefício financeiro a quem os cria. A estrutura das organizações não é só sobre o tamanho e quantos animais conseguem cuidar, é sobre a forma que os tratam.














