Formada por Samuel Rosa (vocalista), Lelo Zaneti (baixo), Henrique Portugal (teclado) e Haroldo Ferretti (baterista), a banda que misturava pop com rock surgiu como Skank, em 1991. Durante décadas, conquistaram o público, não só brasileiro mas internacional também, com hits como “Jackie Tequila”, "Garota Nacional"e "Te ver" com a venda de milhares de cópias. O currículo da banda é bem extenso com passagem em diversos festivais, como Rock in Rio; premiações, como Grammy Latino em 2004 e também já foram trilha sonora em várias novelas.
Em 2019, a banda anunciou que faria uma turnê de despedida, que seria realizada em 2020, mas devido a pandemia da COVID-19 teve que ser adiada para 2023. A turnê viajou o Brasil inteiro, com todos os ingressos esgotados, foram três datas só em São Paulo. No último show em São Paulo, Samuel Rosa relembrou suas histórias vividas com o grupo na cidade e diz que sente um carinho enorme por ela.
O último show da carreira dos mineiros não poderia ser em outro lugar a não ser no Mineirão lotado. A apresentação teve mais de três horas e contou com a participação especial do cantor Milton Nascimento para a canção “Respostas”. O repertório para a turnê final navegou por todos os sucessos da banda desde o seu início até o último álbum. Entre as performances foram contadas histórias vividas.
Ao final do show, nos agradecimentos, os meninos estavam visivelmente muito emocionados. Ao serem perguntados sobre motivo do término da banda, Henrique Portugal diz “É um ciclo que começou e está terminando, nossa vida não é só esse ciclo”
No instagram oficial da banda (@skank), finalizaram de forma contundente com mais agradecimentos: “Chegando ao final dessa estrada trilhada por mais de 30 anos. Ontem foi dia de se despedir e relembrar todos esses anos. Que emoção! Muito obrigado por todos os momentos de carinho. Um grande abraço em todos que nos acompanharam ao longo da carreira e em quem marcou presença no Mineirão. Obrigado!”
A 26ª Mostra Tiradentes de cinema ocorreu em janeiro deste ano, na cidade mineira que batiza o festival. Em março, uma seleção dos títulos exibidos no evento chega em São Paulo pela 11ª vez.
Tanto o evento em Tiradentes-MG quanto o em São Paulo-SP são os primeiros presenciais depois da pandemia de Covid-19. Na capital paulista, a Mostra aconteceu entre os dias 23 e 29 de março, no CineSesc.
A AGEMT esteve presente em todo o evento e conferiu a pré-estreia de diversos filmes e curtas. Durante a abertura foi apresentado o filme "As Linhas da Minha Mão", documentário experimental vencedor da categoria Aurora, na 26a Mostra Tiradentes. A noite contou ainda com um coquetel de boas-vindas no famoso bar do cinema na Rua Augusta e, assim como em todas as exibições, com um bate-papo entre a equipe, a curadoria e a plateia após a exibição.
A Mostra Tiradentes foi planejada inicialmente para ser um programa de inauguração do Centro Cultural Yves Alves, mas logo na primeira edição passou a ser uma divulgadora do cinema brasileiro por meio da exibição, reflexões sobre as obras e do debate sobre a sétima arte e é essa experiência que encontramos no centro paulistano.
Abertura
As considerações iniciais tiveram a participação da Gerente de Ações Culturais do SESC, Rosana Paulo da Cunha, e da Coordenadora da Mostra, Raquel Hallak. Ambas citaram o período difícil que o mercado cultural brasileiro passou durante a pandemia, com ênfase na falta de suporte do poder público, mas sem citar episódios específicos contra a categoria. Um deles foi o veto do ex-presidente Jair Bolsonaro contra a Lei Paulo Gustavo (Projeto de Lei Complementar 73/21 à época, atual LC 195/2022), que previa o repasse de R$ 3,86 bilhões ao Fundo Nacional de Cultura.
Contudo, a Lei Aldir Blanc (14.017/2020), aprovada no início da pandemia após passar por algumas lombadas impostas pelo Governo Federal da época, foi a maior contribuidora para a produção dos títulos exibidos na Mostra.
Rosana reafirmou o compromisso do SESC em restaurar as experiências presenciais, além de manter o acesso ao cinema nacional através da plataforma SESC Digital, inaugurada em junho de 2020, no alto da pandemia. "Há muitos filmes, há uma programação diversificada de cinema, pela qual nós conseguimos manter um diálogo permanente durante todo esse período com o público e com, também, todas as áreas do audiovisual."
A temática desta edição é “Cinema Mutirão", um reflexo da necessidade de esforços coletivos para manutenção de espaços como o CINESESC, que apresenta o cinema de forma acessível para a população. A coletividade ainda se refere à produção de filmes, que necessitam de uma equipe para realização, a democratização destes e ao encontro e conexão única, que só as grandes telas podem proporcionar.
As Obras
Durante os sete dias da mostra, foram exibidos audiovisuais brasileiros e contemporâneos com o intuito não apenas de valorizar e promover o cinema nacional, mas também de trazer diálogo sobre o novo, o agora e o futuro. Em um movimento vanguardista de criação de diversidade em todos os âmbitos da produção, somos apresentados a diretores e atores pretos, indígenas e trans. Como exemplo, o curta “Lalabis” de Noá Bonoba, mulher trans, que confronta o binarismo dos corpos em um contexto pós apocalíptico, onde não é definido o gênero da personagem principal.
As temáticas da contemporaneidade se apresentam por meio da experimentação na linguagem, formato e fotografia. Até quando a ideia é formal, como em “Peixe Abissal”, um retrato da vida do artista Luís Capucho, a execução é realizada de forma inovadora: sem linearidade, a partir da imaginação do próprio Luís, com a fotografia passeando pelo rigor cinematográfico até lentes de distorção.
Outro tema que a Mostra poderia ter, se não fosse mutirão, é infinitude. Ao ver tantos filmes aclamados com atrizes protagonistas e personagens que, não apenas rompem com a obsessão hollywoodiana por juventude estética, mas também elevam a preciosidade que é viver e permanecer vivendo, independente da idade.
Entre os títulos que sustentam esse diálogo está o filme de abertura, As Linhas da Minha Mão, documentário experimental sobre a vida da atriz mineira Viviane de Cassia Ferreira, que celebra as histórias bonitas, divertidas e tristes que ilustram como "a arte é amiga da vida", nas palavras da própria protagonista. Também há Cervejas no Escuro, longa-metragem ambientado em Princesa Isabel - PB, que mostra Edna (Edna Maria) realizando seu sonho de fazer um filme enquanto lida com o luto pelo seu recém-falecido marido. Nossa Mãe Era Atriz, curta vencedor do Júri Popular da 26ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que homenageia a atriz Maria José Novais Oliveira, que iniciou sua carreira aos 65 anos, completa a lista.
A curadoria assinada pelo jornalista e cineasta Francis Vogner dos Reis conseguiu garantir espaço para obras experimentais, híbridos de documentários e ficção, comédias, dramas, históricos, futuristas apocalípticos e pós-apocalípticos, sexuais e sensuais, que podem parecer estar a quilômetros de distância um do outro, mas que se encontraram para tomar um café no bistrô do CineSesc. E claro, ver um filme depois.
Assistir e Discutir
Todas as sessões exibidas na Mostra tiveram pelo menos 30 minutos de bate-papo com membros da equipe logo após o término do filme. Diretores, roteiristas, produtores, atrizes e atores se puseram a conversar com o público sobre suas obras, enriquecendo a experiência e, assim, relembrando as mentes da pandemia a singularidade de uma sala de cinema. "Vamos fazer desse encontro pelo cinema a possibilidade de revigorar as nossas competências críticas e o nosso olhar diante das inconstâncias da ordem do real", disse Raquel Hallak em seu discurso de abertura.
Fazer filmes durante o isolamento social foi tema recorrente nos debates pós-sessão. No sábado, a Série 2 da Mostra Foco exibiu filmes que a curadora Tatiana Carvalho Costa valorizou muito pela persistência da produção frente os obstáculos, o que acabou transbordando na tela. "Esses filmes tratam totalmente dos nossos traumas recentes, cada um à sua maneira, com uma vibração de não contornar o problema, a questão, o trauma… Mas de enfrentar com coragem", disse Tatiana.
Um dos curtas dessa sessão que abordou literalmente a pandemia foi O Último Rock, do diretor capixaba Diego de Jesus, sobre um grupo de amigos negros que se reúnem para uma última "resenha" antes do primeiro lockdown, em março de 2020. Eles tratam de seus dilemas e angústias frente às incertezas da pandemia e suas consequências para o futuro de jovens negros periféricos.
Durante esse momento histórico também foram gravados o documentário O Que Nos Espera, dirigido por Bruno Xavier e Chico Bahia, retratando o Padre Júlio Lancelotti; o longa Solange, de Nathália Tereza e Tomás Osten e o curta Os Animais Mais Fofos e Engraçados do Mundo, de Renato Sircilli. Todos eles relataram o desafio para criação e como eles foram atravessados pelo contexto, o que refletiu em suas obras.
O encerramento
Durante a quarta-feira (29) foram exibidos os favoritos do público da Mostra - votação realizada em sua edição de Minas. Além do curta documentário “Nossa Mãe Era Atriz”, o longa ficcional “A Filha do Palhaço”, produção cearense, também foi premiado. O primeiro retrata a história de Maria José Novais por meio de depoimentos de colegas de profissão e imagens de arquivo. Ele traz a reflexão sobre o início tardio no contexto cinematográfico e a potência do talento mesmo com o desafio da idade.
Em uma linha semelhante, o desafio do segundo é a conciliação entre a vida artística não convencional e a relação familiar. Renato e Joana são pai e filha sem contato, mas ao passar uma semana juntos encaram o desafio afetivo de se conhecer enquanto o homem atua como Drag Queen nas noites de Fortaleza.
O fato de duas peças sobre relações parentais terem sido escolhidas pelo júri popular pode nos indicar o anseio do público em viver a sensibilidade no cinema, em querer e gostar de se emocionar diante da tela grande, na privacidade do escuro, mas no conforto de estar acompanhado por desconhecidos passando pela mesma experiência.
Também aconteceu uma sessão para “Alegorias”, longa ficcional dirigido por Leonel Costa. O filme explora encontros e desencontros sobre o carnaval, ser uma mulher preta e a diferença social brasileira que cada vez mais expõe suas estacas racistas.
As histórias feitas pelos nossos compatriotas e contemporâneos têm perdido cada vez mais espaço nas grandes redes de cinema, em detrimento dos blockbusters internacionais. Mais que a retomada das atividades presenciais e a exaltação do esforço que foi manter o setor cultural durante a pandemia, a Mostra de Tiradentes SP também nos convida de volta para as produções nacionais.
O Lollapalooza voltou neste final de semana para sua 10a edição no Brasil. O Autódromo de Interlagos hospedou aproximadamente 300 mil pessoas durante os três dias de festival. Essa edição trouxe estreias para o público brasileiro, como Billie Eilish e Lil Nas X, e contou com artistas nacionais como Dubdogz, O Grilo e Os Paralamas do Sucesso. O cardápio artístico seguiu a diversidade dos anos anteriores, apresentando ícones da música eletrônica, do pop e do rock. Como um dos maiores festivais de música no Brasil o Lollapalooza é relevante dentro da cultura brasileira, principalmente para os jovens.
Este ano o festival teve duas atrações principais canceladas: Blink-182 e Drake. Devido a problemas de saúde, a banda americana cancelou seu show no início de março, o que permitiu que aqueles interessados em vê-los se organizassem como preferissem. O executivo Renato Carneiro, 47, conta que adquiriu um ingresso só para ver Blink-182. Quando recebeu a notícia, até tentou vender seu ingresso, mas não encontrou ninguém que estivesse disposto a pagar o preço que ele havia pagado. “Entre perder dinheiro e aproveitar o festival, mesmo sem o Blink, eu preferi dar uma chance pros artistas que eu ainda não conhecia”.
Renato não gostou do Twenty One Pilots, banda que substituiu Blink-182 no sábado. “Não me surpreendi com nenhuma apresentação, tudo foi muito voltado pro público jovem. Eu entendo o porquê, mas não viria de novo”.
Os fãs de Drake apresentaram outra perspectiva. Com um histórico de descuido com os fãs brasileiros, a estudante de psicologia Camila Merlo, 23, conta: “Eu já imaginava que isso fosse acontecer, eu gosto muito das músicas do Drake, mas não é a primeira vez que ele faz uma coisa dessas. Se alguma coisa realmente tivesse acontecido, talvez minha opinião fosse outra, mas tá na cara que ele só não queria fazer o show, até porque ele saiu da Colômbia e foi direto pra Miami curtir uma balada.”
O artista, que foi um dos headliners de domingo, foi substituído por Skrillex, um dos maiores nomes do dubstep. “Pra mim, valeu muito mais a pena, apesar de eu ouvir muito mais Drake do que Skrillex, dava pra ver que ele tinha prazer de estar no palco se apresentando pra gente. Foi uma experiência incrível porque pudemos ver o quanto ele valoriza nossa cultura. Tenho certeza que se Drake viesse, ele faria uma apresentação bem meia-boca.” contou a estudante.
Camila não foi a única a apoiar a mudança de última hora. No palco Budweiser, antes, durante e após o show do Skrillex, ouvia-se diversos xingamentos ao Drake como se ele fosse o juiz de uma final de Copa do Mundo entre Brasil e Argentina.
A plateia vibrou ao som de “Carinhoso”, de Elis Regina, que foi a música escolhida por Skrillex para abrir seu show. O espetáculo também contou com muito funk brasileiro e para a música “Malokera”, Ludmilla subiu ao palco para se apresentar junto ao DJ.
Não é a primeira vez que isso acontece no Lollapalooza. Em 2019, Post Malone trouxe Kevin O Chris para o palco durante seu show, em 2022, a artista galesa Marina (antes conhecida como Marina & the Diamonds) cantou com Pabllo Vittar, que voltou aos palcos este ano com Lil Nas X, no sábado, e com Tove Lo, que também convidou MC Zaac, no domingo.
“Não é a primeira vez que eu vejo artistas internacionais dividindo palco com os nossos [artistas] no Lollapalooza, mas a sensação é sempre incrível. Só de saber que pode ter um gringo ouvindo e curtindo um funk como a gente curte, porque viu o Lolla pela TV, eu já fico animada. Quem sabe o funk não vira o novo K-pop no futuro?”, brincou Chloe Goldstein, 22, estudante de publicidade e propaganda.
O funk realmente está conquistando espaço no cenário internacional. No sábado, caminhando pelo palco Budweiser, conversamos com Lachlan Inwood, 19, intercambista neo-zelandês - ou “kiwi”, como ele descreveu. Lachlan estava com mais quatro amigos, também intercambistas, voltando do show da Ludmilla. Ele conta que teve o primeiro contato com o funk brasileiro pelo TikTok e que quando descobriu que teria a oportunidade de fazer intercâmbio para o Brasil, não pensou duas vezes. “A Ludmilla foi espetacular! A energia, a batida, o figurino, tudo foi muito impressionante. Mesmo eu não sabendo dançar como os brasileiros, eu não parei em nenhum momento!”
Com quase 30 artistas por dia, o Lollapalooza apresenta personalidades de diferentes portes. As menores são responsáveis por abrir o dia, enquanto as mais famosas, fecham. Luiza Cordeiro, 22, estagiária de mídias, já veio ao festival diversas vezes: “Acho que uma das partes mais interessantes do Lolla, para mim, é o contato com bandas novas. Em 2017, eu cheguei mais cedo e sentei para comer enquanto o Catfish and the Bottleman tocava. Eu conhecia uma música só, mas o show foi tão incrível que eu virei fã! O guitarrista se machucou e não parou de tocar, a mão dele sangrando e ele lá, foi surreal”.
Renato, o executivo que sofreu com o cancelamento do Blink-182, conseguiu aproveitar um pouco o festival: "Um show que me surpreendeu foi o do Tame Impala, foi uma apresentação digna de gravar na memória. (...) Fiquei até o final”. Depois de responder as perguntas, Renato puxou o telefone e mostrou suas últimas músicas curtidas que provaram que de fato, havia sido conquistado por Tame Impala.
O Lollapalooza é um ator importante para a cultura, graças a ele o Autódromo de Interlagos abandona a velocidade dos carros de corrida para se envolver com o movimento da música. Durante um final de semana, ele se transforma em um espaço de integração para os mais variados tipos de público, oferecendo novos artistas, novas batidas e novas experiências, conquistando mais fãs a cada ano.
O aumento dos preços
Em sua 10ª edição, o Lollapalooza voltou a São Paulo com ingressos que variaram de 550 reais para um dia e 5.000 para os três dias no LollaLounge (área VIP), o que o concedeu o título de festival de música mais caro do Brasil.
Quando começou, em 2012, o preço para um dia ficava em torno dos 150 reais e para os três, 500. A mudança de preço se justificou nas edições seguintes pelas grandes mudanças que o festival apresentou: os artistas convidados eram cada vez maiores - sendo necessário mudar o endereço do Jóquei para o Autódromo de Interlagos -, as instalações e ativações de marcas aumentaram em número e tamanho e o festival ganhou em 2018 um terceiro dia. Mas nas edições pós pandemia, o preço dobrou.
O passe de três dias meia-entrada, que nesta edição custou R$ 1.530, era oferecido por R$ 663 em 2019 e o público não pareceu satisfeito com a mudança. Maria Fernanda é fã do festival e conta que já é a quarta vez que vai: “Eu sempre gostei muito do Lolla, mas a cada ano que passa eu tenho menos vontade de vir. Os shows são sempre incríveis, deles eu não posso reclamar, mas é sério que com ingressos a quase 600 reais por dia eles não conseguem nada melhor que um banheiro químico?”.
Sua revolta quanto a infraestrutura dos banheiros tem embasamento: “Daqui alguns meses vai ter o The Town, vai ser aqui no Autódromo, o ingresso para um dia está em torno dos R$ 350 a meia [entrada]. Eles vão fazer um encanamento só pro festival, para não depender de banheiros químicos. O Lolla fica quase o dobro com as taxas e eles nunca se preocuparam com isso”.
Difícil chegar, impossível sair
As objeções foram muitas, mas o que mais incomodou a audiência foi a entrada e saída do evento “A estação de trem fica um pouco longe daqui e essa distância parece dobrar embaixo do sol. Como que depois de dez edições a gente não viu uma iniciativa para melhorar esse caminho?” Relatou Giovanna Napolitano.
E se a entrada foi turbulenta, a saída foi caótica. Com apenas dois portões e nenhuma sinalização, o final do festival apresentou muitos desafios para o público. “É uma loucura, assim que acabam os últimos shows, você tem duas opções: sentar e esperar a multidão sair ou se render a ela”, contou Luiza Cordeiro. Na sexta-feira, primeiro dia de festival, ela tentou sair pelo portão principal, na Avenida Interlagos, mas enquanto tentava chegar foi pega na confusão da saída do show da Billie Eilish e levada para o portão G. “Saímos pelo outro lado do Autódromo, no meio de uma comunidade. Começamos a caminhada para a saída às 23h e só chegamos lá as 2h”. Luiza explicou que apenas na metade do caminho entendeu que estava indo para o lugar errado, mas já era tarde demais, cercada por centenas de pessoas sua única opção foi seguir o fluxo: “Se eles tivessem colocado uma placa sinalizando que aquela saída levava para o portão G, eu nem teria seguido em frente”. A falta de sinalização também foi sentida no dia seguinte: “Hoje [sábado] eu só consegui encontrar a saída porque no meio da multidão vi uma funcionária do Lolla e pedi ajuda”.
Essa funcionária, que se identificou apenas como Bob, era responsável principalmente pela limpeza do evento, mas também auxiliou na montagem e desmontagem dos palcos e stands do evento. Quando perguntada sobre como é trabalhar no Lollapalooza, ela explicou: “Sábado é o dia mais tranquilo, a gente só tem que pegar o lixo do chão e deixar tudo limpinho, aí podemos ir embora. Eu cheguei aqui às 14h e vou sair perto das duas [da manhã], mas o difícil mesmo vai ser amanhã, que a gente vai ter que desmontar tudo isso, aí fica até terminar”.
O trabalho no Lollapalooza
A questão do trabalho no Lollapalooza trouxe polêmicas. Dias antes da abertura do evento, cinco trabalhadores foram resgatados de condições de trabalho análogo a escravidão, mas mesmo assim encontramos relatos de exploração e insatisfação. Os nomes dos entrevistados foram alterados para preservar as identidades. Tamires Andrade, funcionária responsável pelas pulseiras que identificam maiores de idade, explicou que não voltaria a trabalhar no evento nas próximas edições: “Eu tive que chegar às oito todos os dias, fiquei embaixo do sol quente o dia inteiro com esse uniforme, morrendo de calor e quando chega a noite a gente morre de frio. Eu não pude parar nenhum segundo pra ver nenhum show. 22h é o horário que eu bato o ponto, mas até tirar o uniforme, devolver o equipamento e chegar na saída já são mais de onze da noite. É muita desorganização e cansaço para tirar só 140 reais por dia”.
Rosana dos Santos, contratada como vendedora ambulante de produtos Sadia, também não voltaria: “A gente chega e é direcionada para o setor, tem um tempinho para dois lanches e um almoço, só isso”. Quando perguntada sobre as apresentações, ela responde de prontidão: “Se tenho tempo para ver alguma coisa? Imagina, a gente não pode parar”.
Para os funcionários contratados para trabalhar nos stands das marcas, a experiência foi diferente. Com turnos das 14h às 23h, o trio que trabalhou em um ponto de vendas da Budweiser disse que não vê a hora de voltar. “Esse é meu primeiro Lolla, estou amando! Consigo aproveitar o show e acabei conhecendo muita gente legal. Tá tudo muito bem organizado e eu amei o Twenty One Pilots. Quero muito poder voltar aqui ano que vem”, relatou Tiago.
As ativações
Além da Budweiser, o evento contou com ativações de outras marcas das mais variadas áreas. O stand da Coca-Cola trouxe o funk brasileiro e uma pista de dança para entreter o público entre os shows, enquanto a Braskem promoveu a reciclagem oferecendo pontos por cada item de plástico descartado corretamente, que poderiam ser trocados por brindes como doces e balas, copos e até mesmo capa de chuva.
Mesmo com todas essas atividades extras, o evento não conquistou todo mundo, principalmente aqueles que presenciaram as edições anteriores. “Esse ano tá tudo muito caro, eu só vim porque ganhei um ingresso, que inclui só os shows né, comida e bebida é tudo a parte e se é de graça na questão dinheiro, é cara pro meu tempo. As filas de água do Bradesco estão impossíveis e eu prefiro assistir o show da Rosalía inteiro do que perder uma hora no copo customizado da Budweiser”, contou Giovanna Napolitano, que já presenciou quatro edições do Lollapalooza.
não tinha água pra vender nos ambulantes dentro do lollapalooza, os water stand do Bradesco onde eles davam água de graça era mais de 2h de fila
— who's ste (@sted_z) March 25, 2023
só consegui pegar água na estação da Bradesco pq furei fila kkkkkkk se não, é impossível
— millena 🕰 (@millenaqz) March 24, 2023
A experiência VIP
A única pessoa entrevistada que não teve críticas ao evento foi Giovana Telles, que ganhou ingressos para o Lolla Comfort. Sendo essa sua primeira vez, disse que ficou muito impressionada com a infraestrutura dos shows e da área Comfort. “Para mim valeu muito a pena. A gente tem um espaço sensacional e eu pude curtir o show da Billie Eilish muito confortável. Lá dentro do Comfort a gente tem massagem, carregador portátil, água, banheiros melhores e uma vista incrível pro show, tudo incluído no preço do ingresso.”, que custa no mínimo 2.500 reais.
A popularização de grandes festivais de música em São Paulo traz um desafio para o Lollapalooza, que conta com uma infraestrutura antiquada, semelhante a de suas últimas edições. Além disso, os preços exorbitantes e a exploração dos trabalhadores abre espaço para que competidores como Primavera Sound, Mita e principalmente The Town, ofereçam alternativas viáveis para os fãs de música.
Mas há esperança de mudanças. A edição deste ano encerrou a parceria entre o Lollapalooza e a empresa Time for Fun, que realizou oito edições do evento no Brasil. Quem assume o lugar agora é a Live Nation, responsável pelo clássico brasileiro Rock in Rio. A notícia provocou reações diferentes no público, uns comemoram a possibilidade de melhora na infraestrutura enquanto outros temem que o festival vá perder a originalidade dos Line-ups.
A nova empresa responsável, no entanto, possui um ponto de convergência com a antiga: em 2013 e 2015 foram identificados funcionários em condições análogas à escravidão no Rock in Rio. Apesar de não existirem acusações tão recentes como a do Lollapalooza, nos resta a reflexão: As condições de trabalho no Rock in Rio melhoraram e portanto as do Lollapalooza também irão, ou os organizadores estão cada vez melhores em esconder esses casos, como aconteceu com Tamires?
No domingo, 26/03, aconteceu o terceiro e último dia do Lollapalooza, em São Paulo. As atrações principais Rosalía, Cigarettes After Sex e Skrillex, substituindo o rapper canadense Drake, encerraram o festival.
A cantante espanhola Rosalía entregou um show com muita dança e design de luzes, mas o ponto alto foi a preocupação com quem assistia pelos telões e de casa. A transmissão fez parte do espetáculo, com captação própria, grande parte da transmissão foi realizada pela produção da cantora, coordenando as câmeras do Multishow (Globosat) com as coreografias. Sem se esquecer do público presente, Rosalía desceu do palco e encontrou uma fã para cantar um trecho de La Noche de Anoche. A fã era Gloria Groove, que surpreendeu Rosalía com o vozeirão afinado.
Apesar de a participação de Gloria Groove ter sido ao acaso, o domingo ficou marcado pelos artistas nacionais que subiram ao palco como convidados. Tove Lo, estrela pop sueca, apresentou com Mc Zaac a música Are U Gonna Tell Her?, composta em conjunto pelos dois. Pabllo Vittar também marcou presença ao lado da cantora com o hit Disco Tits.
Baco Exu do Blues se apresentou no palco Adidas substituindo Willow, uma das cinco artistas que cancelaram suas participações no festival. O rapper bahiano iniciou seu show com uma homenagem a Gal Costa, que faleceu no ano passado. Trouxe a exaltação da cultura afro-brasileira, estilo principal de seus álbuns, com seus sucessos Me Desculpa Jay-Z, Samba in Paris e Te Amo Disgraça. Baco também não perdeu a oportunidade de, junto com a plateia, provocar Drake, que cancelou o show no Lollapalooza com antecedência de algumas horas. Na internet, Baco foi criticado pela simplicidade de sua roupa, mas foi contundente ao rebater com “eu sou bonito, posso ir básico. Tava calor, nunca ia mete uma calça”.
Ainda durante a tarde, Aurora fez uma performance inspiradora e emocionante com suas canções. Mas, seu show repercutiu por outro motivo: seu braterista, Sigmund Vestrheim, fez um gesto de “White Power” no momento de agradecimento no fim da apresentação. A junção entre as pontas do indicador e o polegar com os outros três dedos abertos (semelhantemente ao OK), mas no caso, os três dedos simbolizaria a letra W e a junção dos dedos com o antebraço seria o P, um símbolo supremacista. A partir disso, os internautas começaram a pesquisar e encontraram imagens com símbolos como a suástica em suas redes sociais.
Como defesa, Sigmund postou em seu Instagram que o gesto foi realizado na intenção de simbolizar sucesso, que o show teria sido ótimo, já os desenhos ele alega ter sido realizados quando ainda estava na escola, durante a aula de história e não significa nada. Aurora saiu em defesa do membro de sua banda.
Sentimentos controversos foram direcionados também a Drake, com xingamentos antes do show de seu substituto, Skrillex, subir ao palco.
É seguro dizer que Drake não fez falta. O DJ americano expoente do estilo dubstep sustentou o público com um set que começou com música brasileira e contou com suas faixas mais famosas.
Skrillex iniciou sua apresentação com um remix de Carinhoso, de Marisa Monte e Paulinho da Viola, e com isso o público já estava rendido. Mas as odes à cultura brasileira não pararam por aí, tivemos Ludmilla como sua convidada. No palco Budweiser, a cantora carioca entonou Sou Má e Todo Mundo Louco, faixas de seu álbum mais recente VILÃ, e pediu à plateia que ensinasse ao Skrillex "como é que se faz no Brasil".
Mas quem mostrou como se faz foi ele. As clássicas da década de 2010 Scary Monsters and Nice Sprites e Bangarang não faltaram na mesa de mixagem de Skrillex e o DJ deixou o palco através da platéia, ovacionado.