Em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, mostra reúne mais de 70 artistas brasileiros e propõe uma jornada crítica sobre o histórico de violências no sertão
por
Helena Aguiar de Campos
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06/05/2026 - 12h

 

A mostra, que ocupa todos os andares do CCBB, articula um diálogo da cultura brasileira, em relação às heranças indígenas e africanas, ao abordar temas como espiritualidade e ancestralidade. As obras revelam a força dessas culturas, trazendo à tona práticas religiosas, conhecimentos agronômicos e costumes cotidianos que atravessam gerações.

 

obra de tinta acrílica sobre manta térmica
Obra: rOna. Foto: Helena Campos/Agemt

 

A exposição contém obras realizadas majoritariamente por artistas das regiões Norte e Nordeste, de comunidades afrodescendentes e indígenas, comissionadas especialmente para a exposição. Já na entrada, o público é impactado com uma instalação triangular que carrega várias telas da artista premiada, Biarritzzz. A obra, pendurada no teto do edifício, representa o instrumento histórico dos trios de forró, exercitando o imaginário sertanejo.

 

Obra triangular pendurada ao teto
Obra: Biarritzzz. Foto: Helena Campos/Agemt

 

O projeto expográfico investiu em cores fortes e fez relação a biodiversidade brasileira para marcar diferentes elementos da região e entregar também, uma experiência sensorial. A primeira cor é verde da vegetação, representando a força da vida que brota mesmo com dificuldade. Depois, as paredes se tornam azuis, assim como o céu, inspiradas pela liberdade e espiritualidade. E enfim, o laranja, vermelho e amarelo, cores que representam o calor, fogo e o sol, como o começo e fim do dia no sertão, simbolizam a luta e esperança.

 

Uma máscara colorida suspensa, elementos sonoros e fundo verde bandeira
Obra: Denilson Baniwa. Foto: Helena Campos/Agemt

 

Homem à frente de fotos de mulher indígena na favela
Obra: Xamânica e Tayná Uràz. Foto: Helena Campos/Agemt

 

Pinturas sobre placa de trânsito
Obras: Amilton. Foto: Helena Campos/Agemt

 

Fotografias de pessoas negras com miniatura de caravela
Obra: Márvila Araújo. Foto: Helena Campos/Agemt

 

“O sertão é um território simbólico no qual diferentes experiências históricas se cruzam e onde a arte pode revelar múltiplas narrativas sobre o país”,

Ariana Nuala, uma das curadoras.

 

Fotografias de pessoas envolvidas por sementes
Obra: Ayrson Heráclito. Foto: Helena Campos/Agemt

 

A exposição está aberta para visitação até o dia 3 de agosto de 2026, das 9h às 20h e a entrada é gratuita.

 

De onde surgiu a ideia

A exposição nasceu das pesquisas de Marina Maciel, criadora e diretora-geral do projeto, desenvolvidas do mestrado ao seu doutorado na Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB). Em 2023, a ideia saiu no papel e ganhou forma com o Coletivo Atlântico, que atua na defesa dos direitos humanos por meio da arte. A primeira edição, Atlântico Vermelho  denunciou dor e massacres causados pela escravização e marcou presença na ONU com obras de mais de 20 artistas afro-brasileiros. Como consequência da visibilidade e importância realizaram, já no próximo ano, o Atlântico Floresta, no Museu de Arte do Rio (MAR), reunindo artistas contemporâneos para abordar a violência contra povos originários.

 

As edições carregam o nome “Atlântico” com uma dimensão filosófica e crítica: se, por um lado, o oceano foi marcado por morte e sofrimento devido à processos coloniais, por outro, a arte decolonial e nacional, ressignifica a história, evidenciando vida e resistência.

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Promotoria deu prazo de 15 dias para que a empresa esclareça seus critérios na cobrança de taxas na venda virtual
por
Rafaella Lalo
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06/05/2026 - 12h

A Ticketmaster Brasil foi notificada pelo Ministério Público de São Paulo e terá 15 dias para esclarecer a cobrança das taxas de 20% sobre os ingressos vendidos no site. O despacho foi assinado pela Promotoria de Justiça de São Paulo na quinta-feira (9) de abril, e questiona a proporcionalidade das taxas de serviço e os custos adicionais cobrados dos consumidores.

A denúncia foi apresentada pelo deputado Guilherme Cortez (PSOL), após recolher várias queixas feitas pelos compradores que adquiriram ingressos para shows como BTS, Harry Styles e Kid Abelha. A venda para o evento de Harry Styles que iniciou em janeiro deste ano já recebia reclamações sobre os custos desproporcionais. Clientes perceberam que os valores mudam de acordo com o preço do ingresso. Por exemplo, entradas de R$700,00 têm taxas de R$140,00, enquanto um ingresso de R$265,00 tem R$53,00 de custo adicional.

Em sua representação, o deputado ressalta também a ilegalidade dessas ações, além da falta de transparência por parte da empresa. 

Print da denúncia feita na rede social X do deputado Guilherme Cortez
Postagem feita nas redes sociais do Deputado Guilherme Cortez. Foto: Reprodução X.com 

De acordo com informações divulgadas sobre o despacho assinado pelo promotor Donisete Tavares de Moraes Oliveira, a Ticketmaster deverá explicar como é feito o cálculo dessas taxas de 20%, já que a cobrança é fixa e aplicada ao valor total da compra independentemente do valor ou tipo da entrada (inteira ou meia).

A Promotoria também aguarda esclarecimentos sobre quais são os custos de infraestrutura e gestão de demanda que justifiquem essa cobrança, qual é o número total de ingressos disponibilizados para venda por cada dia de show e se as taxas são proporcionais ao valor da entrada vendida de forma on-line.

Em setembro de 2025, o Procon pediu explicações para a empresa, após esses custos adicionais serem cobrados nos ingressos do show de The Weeknd. Situação semelhante ao que ocorreu nos shows de BTS e Harry Styles.  

A Ticketmaster Brasil confirmou, em nota encaminhada à imprensa, ter recebido a notificação do MP-SP. Segundo a empresa, a taxa de serviço cobrada nas vendas online está relacionada a custos de infraestrutura, operação do site e medidas antifraude voltadas à segurança do comprador. A plataforma também declarou que essas cobranças são informadas de forma transparente durante o processo e ressaltou que o consumidor tem a opção de comprar ingressos em bilheterias físicas sem os custos adicionais cobrados no site.

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Apresentações aconteceram em São Paulo e no Rio de Janeiro, após quase dois anos da última passagem do artista pelo país
por
João Paulo Di Bella Soma
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05/05/2026 - 12h

The Weeknd voltou ao Brasil nos dias 26, 30 de abril e 01 de maio em São Paulo e Rio de Janeiro, como parte da etapa latino-americana da turnê After Hours Til Dawn. A turnê consolida a era de sua mais recente trilogia musical composta pelos álbuns After Hours, Dawn FM e Hurry Up Tomorrow.

Depois de passar por países como Estados Unidos e México, a turnê passou pelo Estádio Nilton Santos, no Rio de Janeiro, no dia 26 de abril e pelo Morumbis, em São Paulo, nos dias 30 de abril e 1 de maio. A produção impressiona não só pelo tamanho, mas também pelo conceito visual, que mistura elementos futuristas com uma estética sombria e cinematográfica.

Anitta foi a artista escolhida para os shows de abertura da turnê na América Latina e aqueceu o público com uma performance energética e cheia de identidade brasileira. Misturando funk, pop e elementos eletrônicos, a cantora entregou um setlist que transitou entre novidades e velhos sucessos. Ela iniciou com faixas como “Meia Noite”, “Desgraça”, “Mandinga” e “Vai Dar Caô”, e posteriormente levantou a plateia com hits como “Sua Cara”, “Bola Rebola” e “Vai Malandra”.

Durante cerca de 2h30 de show e com um repertório de aproximadamente 40 músicas, The Weeknd conduziu o público por seus 15 anos de carreira. O show é uma experiência imersiva, com iluminação dramática, cenografia elaborada e uma narrativa visual que remete a um filme de terror e suspense. Acompanharam o cantor sua banda e o lendário produtor Mike Dean.

The Weeknd no Estádio MorumBIS
The Weeknd em tour Foto: Reprodução Instagram @theweekndmxc


Apresentando músicas do álbum Hurry Up Tomorrow ao lado de seus maiores sucessos, Abel iniciou o show com “Baptized In Fear”, “Open Hearts” e “Wake Me Up”, criando uma atmosfera intensa logo de início. Em seguida, emendou hits como “After Hours”, “Starboy” e “Heartless”, levando o público ao delírio.

O cantor ainda retornou ao seu novo projeto com “Cry For Me” e “São Paulo”, faixa que ganhou destaque especial por homenagear a cidade. Em um dos momentos mais marcantes da noite, Anitta voltou ao palco para cantar o novo single “Rio”, uma homenagem direta à cidade carioca e que conta com sua participação. A faixa traz influências do Brazilian Phonk e chama a atenção pelo visual de seu futuro clipe, dirigido pelo famoso cineasta japonês Takashi Miike.

Ao longo do show, The Weeknd percorre diferentes fases da sua carreira e revisita trabalhos como Dawn FM, Beauty Behind The Madness, My Dear Melancholy, e House of Balloons. Em versões mais intimistas de “Out of Time” e “I Feel It Coming”, o artista desceu até a grade e interagiu com os fãs. Em um momento espontâneo, cantou com uma fã da primeira fileira, correu pela frente do palco cumprimentando o público e demonstrou gratidão pela recepção calorosa.

Abel encerrou a noite com uma declaração emocionante: “Eu sinto que estou em casa quando estou em São Paulo”. Ele garantiu que volta ao Brasil, mas não deixou pistas de quando. 

Fugindo do formato tradicional e engessado, o show conta com longas passarelas que avançam sobre a pista, aproximando o cantor do público, enquanto a banda permanece conectada no palco principal, sustentada por um telão gigantesco que amplifica a experiência visual.

the weeknd palco
Palco After Hours Til Dawn Foto: TAIT


Além da estrutura, a performance vocal de Abel também se destaca. Com uma voz afinada, ele entrega estabilidade ao vivo mesmo em faixas mais exigentes, combinando técnica, carisma e presença de palco. Sempre em movimento, interagindo e incentivando o público, o artista mantém a energia elevada do início ao fim.

A parte visual do show ganha ainda mais força com o uso criativo da iluminação. Lasers cortam o estádio em diferentes direções, criando cenários dinâmicos, enquanto as pulseiras luminosas distribuídas ao público transformam a plateia em um verdadeiro mar de luzes sincronizadas. No encerramento, fogos de artifício tomaram conta do céu e fecharam o espetáculo de forma memorável ao som de "Moth To A Flame".

A última vinda do artista ao país aconteceu em 7 de setembro de 2024, durante a fase final da turnê que promovia o álbum Hurry Up Tomorrow. Na ocasião, o cantor contou com participações especiais de Anitta e Playboi Carti.

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Jornal norte-americano destaca nomes que moldam a indústria da música dos Estados Unidos e influenciam o cenário global
por
Livia Vilela
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05/05/2026 - 12h

 

O jornal americano The New York Times publicou na última terça-feira (28) uma seleção dos 30 maiores compositores americanos vivos. Sem ordem de ranking, o levantamento se propõe a definir o padrão de compositor da nova geração e quais seriam as suas principais influências, reunindo artistas que seguem moldando a produção musical contemporânea e ampliando seu alcance cultural em escala global.

O projeto faz parte de uma cobertura especial sobre o ofício da composição, com entrevistas em vídeo com nomes como Jay-Z, Taylor Swift e Lucinda Williams, além de artistas e produtores como Nile Rodgers, Mariah Carey e Babyface. A proposta é aproximar o público dos processos criativos por trás de algumas das canções mais conhecidas das últimas décadas, destacando o papel do compositor como eixo central da indústria da música.

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Jay Z em entrevista para o The New York Times 
Foto: Reprodução/ Instagram @nytimes

A seleção foi construída a partir de mais de 700 indicações enviadas por mais de 250 profissionais da música, além da curadoria de críticos do jornal. O processo envolveu semanas de análise e debate sobre critérios como influência, consistência artística, impacto cultural e permanência ao longo do tempo.

O resultado combina compositores consagrados, como Bob Dylan, vencedor do Nobel de Literatura, Carole King e Stevie Wonder, com artistas que redefiniram o pop e o hip-hop nas últimas décadas, como Kendrick Lamar, Taylor Swift e Lana Del Rey. O que foi avaliado em comum entre todos esses artistas foi a capacidade de atravessar gerações e influenciar não apenas o mercado americano, mas a produção musical global.

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Taylor Swift em entrevista para o The New York Times 
Foto: Reprodução/ Instagram @nytimes

A lista também reconhece o peso de compositores que atuam nos bastidores da indústria, responsáveis por sucessos gravados por outros artistas, como Diane Warren, Babyface, The-Dream e a dupla Jimmy Jam & Terry Lewis. A diversidade estética é um dos pontos centrais da seleção. Além de reunir diferentes gerações e estilos, passando pelo folk, country, pop, R&B e hip-hop, a lista também reflete a ampliação do alcance global da música americana. 

Outro aspecto relevante é a inclusão de artistas latinos e bilíngues, como Romeo Santos e Bad Bunny, sinalizando como a ideia de “compositor americano” hoje incorpora trajetórias e influências fora do território dos EUA e da língua inglesa. O recorte reforça como a produção musical atual é globalizada e ultrapassa fronteiras linguísticas e culturais, acompanhando transformações do próprio público e da indústria. 

Lista dos 30 Maiores Compositores Americanos Vivos:
 Babyface
 Bad Bunny 
 Bob Dylan
 Brian & Eddie Holland 
 Bruce Springsteen
 Carole King
 Diane Warren
 Dolly Parton
 Fiona Apple
 Jay-Z
 Jimmy Jam & Terry Lewis 
 Josh Osborne, Brandy Clark & Shane McAnally 
 Kendrick Lamar
 Lana Del Rey
 Lionel Richie
 Lucinda Williams
 Mariah Carey
 Missy Elliott
 Nile Rodgers
 Outkast
 Paul Simon
 Romeo Santos 
 Smokey Robinson
 Stephin Merritt 
 Stevie Wonder
 Taylor Swift
 The-Dream
 Valerie Simpson
 Willie Nelson
 Young Thug

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Gato sem Rabo reabre em grande estilo, com novo café e restaurante, e fortalece o espaço para o público leitor em SP
por
Sofia Morelli
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05/05/2026 - 12h

Em maio de 2025, após uma reforma, Gato sem rabo abre suas portas ao público, com mais conforto para receber os interessados por uma literatura voltada ao mundo e imaginário feminino, em novo endereço no centro de São Paulo. Johanna Stein, fundadora do estabelecimento, idealizou-o conforme notou a falta de um lugar em que obras escritas por mulheres cisgênero, trans e travestis fossem valorizadas e mais acessíveis. Agora composto por um café e bar para leitores e para cidadãos que por ali passam. Durante sua graduação no campo das artes, Johanna tinha um grande interesse no trabalho de autoras mulheres, mas ao longo de suas pesquisas começou a esbarrar repetidamente com a dificuldade de achar textos produzidos por essas artistas em geral, mesmo em uma metrópole tão plural como  São Paulo. Foi dessa frustração que se materializou a livraria, criando um espaço para que essas vozes pudessem fluir.

Cada vez mais, o centro de São Paulo é preenchido por estabelecimentos que exploram partes da cultura subvalorizadas e dispersas. “Existe uma demanda por obras produzidas por grupos historicamente excluídos, que tem aparecido no dia a dia dos lançamentos das editoras”, afirma Ana Paula Pacheco, professora  do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo (USP), além de escritora de ficção e de romance experimental. “Acho que isso virou um nicho de mercado, para o bem e para o mal, acho que tem um desrecalque de vozes anti-escaladas  e desrecalque é muito bom, por outro lado existe uma certa tendência de eliminar a leitura crítica das obras, é importante tratar essas obras como obras para valer que podem passar por um critério estético, crítico de leitura.”, reflete a professora da USP, em questão das popularização que vem ocorrendo dessas obras.

 

Livraria Gato Sem Rabo, no Centro de São Paulo.  Por Sofia Morelli

 

A curadoria da Gato sem rabo se preocupou em montar um acervo com enfoque na produção do sul global, além de clássicos de Virginia Woolf, escritora do ensaio que inspirou o próprio nome da livraria. Nesse ensaio “Um quarto só seu”, de 1928, a narradora observa um animal estranho em um gramado, onde não deveria estar caminhando, uma possível e famosa interpretação é a de estranhamento que as mulheres sofrem ao tentarem ocupar  um lugar no mundo dos intelectuais, ousando a  escrever. 

O mundo evoluiu muito desde então, mas ainda há dificuldades inegáveis para mulheres que desejam ser intelectuais, o que não significa que não há livros que caminham por todos os gêneros literários, poético, fictício, político assim como romance e questões corporais. “Eu sinto sobretudo no meio intelectual, na universidade, na circulação do pensamento, as mulheres são uma espécie de nicho do mercado mesmo. Na universidade eu vejo ainda uma aparência de democratização, nas ações que contém uma violência histórica, às vezes muito sutil, por exemplo no domínio masculino do debate, de bancas de defesa de tese e na maneira infantilização o pensamento das mulheres, às vezes elogiando, mas existe uma certa minoridade que se tenta impor no pensamento delas”, diz Ana Paula.

Essa visibilidade a essas obras significa muito para jovens garotas, com mais possibilidades de experienciar um mundo de vozes mais próximas de seus imaginários impulsiona o surgimento de novas possíveis autoras, ou até mesmo para que o mundo intelectual seja colocado como mais acessível para  todos os grupos e gêneros, e menos unificado para o público masculino. Com clube do livro, rodas de conversas e eventos, a livraria se transpõe como um lugar para que vozes sejam escutadas e que novas vozes floresçam num caminho cada vez menos fechado. 

Em suma, a criação de Johanna se demonstra como um espaço com uma importância física e emocional para a comunidade literária da região, que está sendo cuidado para que siga uma tendência de crescimento.  A ausência vira presença com um acervo com cerca de 650 escritoras, um esforço além da prateleira, que tem compromisso em explorar as visões de mundo na literatura produzida por elas. Livrarias independentes, como essa, fazem parte de uma transformação cultural ativa de extrema importância para o ecossistema literário “O conhecimento de relatos das mulheres, ele forma novas mulheres de outras maneiras, mas também não acho que a gente tenha que ter ilusões quanto a uma aceitação de mulheres no meio intelectual, acho que temos que ocupar espaços, disputar os espaços politicamente, sem esperar aceitação masculina”, de acordo com Ana Paula.

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A banda se despede dos palcos depois de três décadas de carreira com o estádio do Mineirão lotado.
por
Beatriz Brascioli
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03/04/2023 - 12h

   Formada por Samuel Rosa (vocalista), Lelo Zaneti (baixo), Henrique Portugal (teclado) e Haroldo Ferretti (baterista), a banda que misturava pop com rock surgiu como Skank, em 1991. Durante décadas, conquistaram o público, não só brasileiro mas internacional também, com hits como “Jackie Tequila”, "Garota Nacional"e  "Te ver" com a venda de milhares de cópias. O currículo da banda é bem extenso com passagem em diversos festivais, como Rock in Rio; premiações, como Grammy Latino em 2004 e também já foram trilha sonora em várias novelas.    

   Em 2019, a banda anunciou que faria uma turnê de despedida, que seria realizada em 2020, mas devido a pandemia da COVID-19 teve que ser adiada para 2023. A turnê viajou o Brasil inteiro, com todos os ingressos esgotados, foram três datas só em São Paulo. No último show em São Paulo, Samuel Rosa relembrou suas histórias vividas com o grupo na cidade e diz que sente um carinho enorme por ela.

skank foto divulgação
foto: divulgação

   O último show da carreira dos mineiros não poderia ser em outro lugar a não ser no Mineirão lotado. A apresentação teve mais de três horas e contou com a participação especial do cantor Milton Nascimento para a canção “Respostas”. O repertório para a turnê final navegou por todos os sucessos da banda desde o seu início até o último álbum. Entre as performances foram contadas histórias vividas. 

   Ao final do show, nos agradecimentos, os meninos estavam visivelmente muito emocionados. Ao serem perguntados sobre motivo do término da banda, Henrique Portugal diz “É um ciclo que começou e está terminando, nossa vida não é só esse ciclo”  

   No instagram oficial da banda (@skank), finalizaram de forma contundente com mais agradecimentos: “Chegando ao final dessa estrada trilhada por mais de 30 anos. Ontem foi dia de se despedir e relembrar todos esses anos. Que emoção! Muito obrigado por todos os momentos de carinho. Um grande abraço em todos que nos acompanharam ao longo da carreira e em quem marcou presença no Mineirão. Obrigado!”

 

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Festival de cinema mineiro apresentou sua versão paulista durante os dias 23 e 29 de março
por
Bianca Novais
Luana Galeno
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01/04/2023 - 12h

A 26ª Mostra Tiradentes de cinema ocorreu em janeiro deste ano, na cidade mineira que batiza o festival. Em março, uma seleção dos títulos exibidos no evento chega em São Paulo pela 11ª vez. 

Tanto o evento em Tiradentes-MG quanto o em São Paulo-SP são os primeiros presenciais depois da pandemia de Covid-19. Na capital paulista, a Mostra aconteceu entre os dias 23 e 29 de março, no CineSesc. 

Foto: Luana Galeno
Foto: Luana Galeno

A AGEMT esteve presente em todo o evento e conferiu a pré-estreia de diversos filmes e curtas. Durante a abertura foi apresentado o filme "As Linhas da Minha Mão", documentário experimental vencedor da categoria Aurora, na 26a Mostra Tiradentes. A noite contou ainda com um coquetel de boas-vindas no famoso bar do cinema na Rua Augusta e, assim como em todas as exibições, com um bate-papo entre a equipe, a curadoria e a plateia após a exibição. 

A Mostra Tiradentes foi planejada inicialmente para ser um programa de inauguração do Centro Cultural Yves Alves, mas logo na primeira edição passou a ser uma divulgadora do cinema brasileiro por meio da exibição, reflexões sobre as obras e do debate sobre a sétima arte e é essa experiência que encontramos no centro paulistano.

 

Leo Lara/Universo Produção
Foto por: Leo Lara/Universo Produção

Abertura

As considerações iniciais tiveram a participação da Gerente de Ações Culturais do SESC, Rosana Paulo da Cunha, e da Coordenadora da Mostra, Raquel Hallak. Ambas citaram o período difícil que o mercado cultural brasileiro passou durante a pandemia, com ênfase na falta de suporte do poder público, mas sem citar episódios específicos contra a categoria. Um deles foi o veto do ex-presidente Jair Bolsonaro contra a Lei Paulo Gustavo (Projeto de Lei Complementar 73/21 à época, atual LC 195/2022), que previa o repasse de R$ 3,86 bilhões ao Fundo Nacional de Cultura. 

Contudo, a Lei Aldir Blanc (14.017/2020), aprovada no início da pandemia após passar por algumas lombadas impostas pelo Governo Federal da época, foi a maior contribuidora para a produção dos títulos exibidos na Mostra. 

Rosana reafirmou o compromisso do SESC em restaurar as experiências presenciais, além de manter o acesso ao cinema nacional através da plataforma SESC Digital, inaugurada em junho de 2020, no alto da pandemia. "Há muitos filmes, há uma programação diversificada de cinema, pela qual nós conseguimos manter um diálogo permanente durante todo esse período com o público e com, também, todas as áreas do audiovisual." 

A temática desta edição é “Cinema Mutirão", um reflexo da necessidade de esforços coletivos para manutenção de espaços como o CINESESC, que apresenta o cinema de forma acessível para a população. A coletividade ainda se refere à produção de filmes, que necessitam de uma equipe para realização, a democratização destes e ao encontro e conexão única, que só as grandes telas podem proporcionar.

Foto: Leo Lara/Universo Produção
Foto: Leo Lara/Universo Produção 

As Obras 


Durante os sete dias da mostra, foram exibidos audiovisuais brasileiros e contemporâneos com o intuito não apenas de valorizar e promover o cinema nacional, mas também de trazer diálogo sobre o novo, o agora e o futuro. Em um movimento vanguardista de criação de diversidade em todos os âmbitos da produção, somos apresentados a diretores e atores pretos, indígenas e trans. Como exemplo, o curta “Lalabis” de Noá Bonoba, mulher trans, que confronta o binarismo dos corpos em um contexto pós apocalíptico, onde não é definido o gênero da personagem principal.

Foto: Leo Lara/Universo Produção
Foto: Leo Lara/Universo Produção 

As temáticas da contemporaneidade se apresentam por meio da experimentação na linguagem, formato e fotografia. Até quando a ideia é formal, como em “Peixe Abissal”, um retrato da vida do artista Luís Capucho, a execução é realizada de forma inovadora: sem linearidade, a partir da imaginação do próprio Luís, com a fotografia passeando pelo rigor cinematográfico até lentes de distorção. 

Outro tema que a Mostra poderia ter, se não fosse mutirão, é infinitude. Ao ver tantos filmes aclamados com atrizes protagonistas e personagens que, não apenas rompem com a obsessão hollywoodiana por juventude estética, mas também elevam a preciosidade que é viver e permanecer vivendo, independente da idade. 

Foto: Leo Lara/Universo Produção
Foto: Leo Lara/Universo Produção 

Entre os títulos que sustentam esse diálogo está o filme de abertura, As Linhas da Minha Mão, documentário experimental sobre a vida da atriz mineira Viviane de Cassia Ferreira, que celebra as histórias bonitas, divertidas e tristes que ilustram como "a arte é amiga da vida", nas palavras da própria protagonista. Também há Cervejas no Escuro, longa-metragem ambientado em Princesa Isabel - PB, que mostra Edna (Edna Maria) realizando seu sonho de fazer um filme enquanto lida com o luto pelo seu recém-falecido marido. Nossa Mãe Era Atriz, curta vencedor do Júri Popular da 26ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que homenageia a atriz Maria José Novais Oliveira, que iniciou sua carreira aos 65 anos, completa a lista. 

A curadoria assinada pelo jornalista e cineasta Francis Vogner dos Reis conseguiu garantir espaço para obras experimentais, híbridos de documentários e ficção, comédias, dramas, históricos, futuristas apocalípticos e pós-apocalípticos, sexuais e sensuais, que podem parecer estar a quilômetros de distância um do outro, mas que se encontraram para tomar um café no bistrô do CineSesc. E claro, ver um filme depois. 

Foto: Leo Lara/Universo Produção
Foto: Leo Lara/Universo Produção 

Assistir e Discutir 

Todas as sessões exibidas na Mostra tiveram pelo menos 30 minutos de bate-papo com membros da equipe logo após o término do filme. Diretores, roteiristas, produtores, atrizes e atores se puseram a conversar com o público sobre suas obras, enriquecendo a experiência e, assim, relembrando as mentes da pandemia a singularidade de uma sala de cinema. "Vamos fazer desse encontro pelo cinema a possibilidade de revigorar as nossas competências críticas e o nosso olhar diante das inconstâncias da ordem do real", disse Raquel Hallak em seu discurso de abertura. 

Fazer filmes durante o isolamento social foi tema recorrente nos debates pós-sessão. No sábado, a Série 2 da Mostra Foco exibiu filmes que a curadora Tatiana Carvalho Costa valorizou muito pela persistência da produção frente os obstáculos, o que acabou transbordando na tela. "Esses filmes tratam totalmente dos nossos traumas recentes, cada um à sua maneira, com uma vibração de não contornar o problema, a questão, o trauma… Mas de enfrentar com coragem", disse Tatiana. 

Um dos curtas dessa sessão que abordou literalmente a pandemia foi O Último Rock, do diretor capixaba Diego de Jesus, sobre um grupo de amigos negros que se reúnem para uma última "resenha" antes do primeiro lockdown, em março de 2020. Eles tratam de seus dilemas e angústias frente às incertezas da pandemia e suas consequências para o futuro de jovens negros periféricos.

Durante esse momento histórico também foram gravados o documentário O Que Nos Espera, dirigido por Bruno Xavier e Chico Bahia, retratando o Padre Júlio Lancelotti; o longa Solange, de Nathália Tereza e Tomás Osten e o curta Os Animais Mais Fofos e Engraçados do Mundo, de Renato Sircilli. Todos eles relataram o desafio para criação e como eles foram atravessados pelo contexto, o que refletiu em suas obras. 

Foto: Leo Lara/Universo Produção
Fotos: Leo Lara/Universo Produção 

O encerramento

Durante a quarta-feira (29) foram exibidos os favoritos do público da Mostra - votação realizada em sua edição de Minas. Além do curta documentário “Nossa Mãe Era Atriz”, o longa ficcional “A Filha do Palhaço”, produção cearense, também foi premiado. O primeiro retrata a história de Maria José Novais por meio de depoimentos de colegas de profissão e imagens de arquivo. Ele traz a reflexão sobre o início tardio no contexto cinematográfico e a potência do talento mesmo com o desafio da idade. 

Em uma linha semelhante, o desafio do segundo é a conciliação entre a vida artística não convencional e a relação familiar. Renato e Joana são pai e filha sem contato, mas ao passar uma semana juntos encaram o desafio afetivo de se conhecer enquanto o homem atua como Drag Queen nas noites de Fortaleza. 

Reprodução: A filha do palhaço
Reprodução: A filha do palhaço

O fato de duas peças sobre relações parentais terem sido escolhidas pelo júri popular pode nos indicar o anseio do público em viver a sensibilidade no cinema, em querer e gostar de se emocionar diante da tela grande, na privacidade do escuro, mas no conforto de estar acompanhado por desconhecidos passando pela mesma experiência. 
Também aconteceu uma sessão para “Alegorias”, longa ficcional dirigido por Leonel Costa. O filme explora encontros e desencontros sobre o carnaval, ser uma mulher preta e a diferença social brasileira que cada vez mais expõe suas estacas racistas. 

As histórias feitas pelos nossos compatriotas e contemporâneos têm perdido cada vez mais espaço nas grandes redes de cinema, em detrimento dos blockbusters internacionais. Mais que a retomada das atividades presenciais e a exaltação do esforço que foi manter o setor cultural durante a pandemia, a Mostra de Tiradentes SP também nos convida de volta para as produções nacionais.

Foto: Leo Lara/Universo Produção
Foto: Leo Lara/Universo Produção 


 

A AGEMT entrevistou o público do festival para saber como foi a experiência lá dentro
por
Carolina Rouchou
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31/03/2023 - 12h

O Lollapalooza voltou neste final de semana para sua 10a edição no Brasil. O Autódromo de Interlagos hospedou aproximadamente 300 mil pessoas durante os três dias de festival. Essa edição trouxe estreias para o público brasileiro, como Billie Eilish e Lil Nas X, e contou com artistas nacionais como Dubdogz, O Grilo e Os Paralamas do Sucesso. O cardápio artístico seguiu a diversidade dos anos anteriores, apresentando ícones da música eletrônica, do pop e do rock. Como um dos maiores festivais de música no Brasil o Lollapalooza é relevante dentro da cultura brasileira, principalmente para os jovens.

Este ano o festival teve duas atrações principais canceladas: Blink-182 e Drake. Devido a problemas de saúde, a banda americana cancelou seu show no início de março, o que permitiu que aqueles interessados em vê-los se organizassem como preferissem. O executivo Renato Carneiro, 47, conta que adquiriu um ingresso só para ver Blink-182. Quando recebeu a notícia, até tentou vender seu ingresso, mas não encontrou ninguém que estivesse disposto a pagar o preço que ele havia pagado. “Entre perder dinheiro e aproveitar o festival, mesmo sem o Blink, eu preferi dar uma chance pros artistas que eu ainda não conhecia”. 

Renato não gostou do Twenty One Pilots, banda que substituiu Blink-182 no sábado. “Não me surpreendi com nenhuma apresentação, tudo foi muito voltado pro público jovem. Eu entendo o porquê, mas não viria de novo”.

Os fãs de Drake apresentaram outra perspectiva. Com um histórico de descuido com os fãs brasileiros, a estudante de psicologia Camila Merlo, 23, conta: “Eu já imaginava que isso fosse acontecer, eu gosto muito das músicas do Drake, mas não é a primeira vez que ele faz uma coisa dessas. Se alguma coisa realmente tivesse acontecido, talvez minha opinião fosse outra, mas tá na cara que ele só não queria fazer o show, até porque ele saiu da Colômbia e foi direto pra Miami curtir uma balada.” 

O artista, que foi um dos headliners de domingo, foi substituído por Skrillex, um dos maiores nomes do dubstep. “Pra mim, valeu muito mais a pena, apesar de eu ouvir muito mais Drake do que Skrillex, dava pra ver que ele tinha prazer de estar no palco se apresentando pra gente. Foi uma experiência incrível porque pudemos ver o quanto ele valoriza nossa cultura. Tenho certeza que se Drake viesse, ele faria uma apresentação bem meia-boca.” contou a estudante.

Skrillex no palco Budweiser. Imagem: Carolina Rouchou.
Skrillex no palco Budweiser. Imagem: Carolina Rouchou.

Camila não foi a única a apoiar a mudança de última hora. No palco Budweiser, antes, durante e após o show do Skrillex, ouvia-se diversos xingamentos ao Drake como se ele fosse o juiz de uma final de Copa do Mundo entre Brasil e Argentina. 

A plateia vibrou ao som de “Carinhoso”, de Elis Regina, que foi a música escolhida por Skrillex para abrir seu show. O espetáculo também contou com muito funk brasileiro e para a música “Malokera”, Ludmilla subiu ao palco para se apresentar junto ao DJ.

Não é a primeira vez que isso acontece no Lollapalooza. Em 2019, Post Malone trouxe Kevin O Chris para o palco durante seu show, em 2022, a artista galesa Marina (antes conhecida como Marina & the Diamonds) cantou com Pabllo Vittar, que voltou aos palcos este ano com Lil Nas X, no sábado, e com Tove Lo, que também convidou MC Zaac, no domingo.

“Não é a primeira vez que eu vejo artistas internacionais dividindo palco com os nossos [artistas] no Lollapalooza, mas a sensação é sempre incrível. Só de saber que pode ter um gringo ouvindo e curtindo um funk como a gente curte, porque viu o Lolla pela TV, eu já fico animada. Quem sabe o funk não vira o novo K-pop no futuro?”, brincou Chloe Goldstein, 22, estudante de publicidade e propaganda.

Pabblo Vittar e Lil Nas X se apresentam juntos sexta-feira, no palco chevrolet. Fonte: Gshow
Pabblo Vittar e Lil Nas X se apresentam juntos sexta-feira, no palco chevrolet. Fonte: Reprodução/Gshow.

O funk realmente está conquistando espaço no cenário internacional. No sábado, caminhando pelo palco Budweiser, conversamos com Lachlan Inwood, 19, intercambista neo-zelandês - ou “kiwi”, como ele descreveu. Lachlan estava com mais quatro amigos, também intercambistas, voltando do show da Ludmilla. Ele conta que teve o primeiro contato com o funk brasileiro pelo TikTok e que quando descobriu que teria a oportunidade de fazer intercâmbio para o Brasil, não pensou duas vezes. “A Ludmilla foi espetacular! A energia, a batida, o figurino, tudo foi muito impressionante. Mesmo eu não sabendo dançar como os brasileiros, eu não parei em nenhum momento!”

Com quase 30 artistas por dia, o Lollapalooza apresenta personalidades de diferentes portes. As menores são responsáveis por abrir o dia, enquanto as mais famosas, fecham. Luiza Cordeiro, 22, estagiária de mídias, já veio ao festival diversas vezes: “Acho que uma das partes mais interessantes do Lolla, para mim, é o contato com bandas novas. Em 2017, eu cheguei mais cedo e sentei para comer enquanto o Catfish and the Bottleman tocava. Eu conhecia uma música só, mas o show foi tão incrível que eu virei fã! O guitarrista se machucou e não parou de tocar, a mão dele sangrando e ele lá, foi surreal”. 

Renato, o executivo que sofreu com o cancelamento do Blink-182, conseguiu aproveitar um pouco o festival: "Um show que me surpreendeu foi o do Tame Impala, foi uma apresentação digna de gravar na memória. (...) Fiquei até o final”. Depois de responder as perguntas, Renato puxou o telefone e mostrou suas últimas músicas curtidas que provaram que de fato, havia sido conquistado por Tame Impala.

O Lollapalooza é um ator importante para a cultura, graças a ele o Autódromo de Interlagos abandona a velocidade dos carros de corrida para se envolver com o movimento da música. Durante um final de semana, ele se transforma em um espaço de integração para os mais variados tipos de público, oferecendo novos artistas, novas batidas e novas experiências, conquistando mais fãs a cada ano.

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Em sua 10ª edição, festival volta com os mesmos problemas de infraestrutura e exploração de trabalhadores.
por
Carolina Rouchou
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31/03/2023 - 12h

O aumento dos preços

Em sua 10ª edição, o Lollapalooza voltou a São Paulo com ingressos que variaram de 550 reais para um dia e 5.000 para os três dias no LollaLounge (área VIP), o que o concedeu o título de festival de música mais caro do Brasil. 

Quando começou, em 2012, o preço para um dia ficava em torno dos 150 reais e para os três, 500. A mudança de preço se justificou nas edições seguintes pelas grandes mudanças que o festival apresentou: os artistas convidados eram cada vez maiores - sendo necessário mudar o endereço do Jóquei para o Autódromo de Interlagos -, as instalações e ativações de marcas aumentaram em número e tamanho e o festival ganhou em 2018 um terceiro dia. Mas nas edições pós pandemia, o preço dobrou.

O passe de três dias meia-entrada, que nesta edição custou R$ 1.530, era oferecido por R$ 663 em 2019 e o público não pareceu satisfeito com a mudança. Maria Fernanda é fã do festival e conta que já é a quarta vez que vai: “Eu sempre gostei muito do Lolla, mas a cada ano que passa eu tenho menos vontade de vir. Os shows são sempre incríveis, deles eu não posso reclamar, mas é sério que com ingressos a quase 600 reais por dia eles não conseguem nada melhor que um banheiro químico?”. 

Sua revolta quanto a infraestrutura dos banheiros tem embasamento: “Daqui alguns meses vai ter o The Town, vai ser aqui no Autódromo, o ingresso para um dia está em torno dos R$ 350 a meia [entrada]. Eles vão fazer um encanamento só pro festival, para não depender de banheiros químicos. O Lolla fica quase o dobro com as taxas e eles nunca se preocuparam com isso”.

 

Difícil chegar, impossível sair

As objeções foram muitas, mas o que mais incomodou a audiência foi a entrada e saída do evento “A estação de trem fica um pouco longe daqui e essa distância parece dobrar embaixo do sol. Como que depois de dez edições a gente não viu uma iniciativa para melhorar esse caminho?” Relatou Giovanna Napolitano. 

E se a entrada foi turbulenta, a saída foi caótica. Com apenas dois portões e nenhuma sinalização, o final do festival apresentou muitos desafios para o público. “É uma loucura, assim que acabam os últimos shows, você tem duas opções: sentar e esperar a multidão sair ou se render a ela”, contou Luiza Cordeiro. Na sexta-feira, primeiro dia de festival, ela tentou sair pelo portão principal, na Avenida Interlagos, mas enquanto tentava chegar foi pega na confusão da saída do show da Billie Eilish e levada para o portão G. “Saímos pelo outro lado do Autódromo, no meio de uma comunidade. Começamos a caminhada para a saída às 23h e só chegamos lá as 2h”. Luiza explicou que apenas na metade do caminho entendeu que estava indo para o lugar errado, mas já era tarde demais, cercada por centenas de pessoas sua única opção foi seguir o fluxo: “Se eles tivessem colocado uma placa sinalizando que aquela saída levava para o portão G, eu nem teria seguido em frente”. A falta de sinalização também foi sentida no dia seguinte: “Hoje [sábado] eu só consegui encontrar a saída porque no meio da multidão vi uma funcionária do Lolla e pedi ajuda”.

Essa funcionária, que se identificou apenas como Bob, era responsável principalmente pela limpeza do evento, mas também auxiliou na montagem e desmontagem dos palcos e stands do evento. Quando perguntada sobre como é trabalhar no Lollapalooza, ela explicou: “Sábado é o dia mais tranquilo, a gente só tem que pegar o lixo do chão e deixar tudo limpinho, aí podemos ir embora. Eu cheguei aqui às 14h e vou sair perto das duas [da manhã], mas o difícil mesmo vai ser amanhã, que a gente vai ter que desmontar tudo isso, aí fica até terminar”. 

Saída do Lollapalooza pelo portão G. Imagem: Carolina Rouchou
Saída do Lollapalooza pelo portão G. Imagem: Carolina Rouchou

O trabalho no Lollapalooza

A questão do trabalho no Lollapalooza trouxe polêmicas. Dias antes da abertura do evento, cinco trabalhadores foram resgatados de condições de trabalho análogo a escravidão, mas mesmo assim encontramos relatos de exploração e insatisfação. Os nomes dos entrevistados foram alterados para preservar as identidades. Tamires Andrade, funcionária responsável pelas pulseiras que identificam maiores de idade, explicou que não voltaria a trabalhar no evento nas próximas edições: “Eu tive que chegar às oito todos os dias, fiquei embaixo do sol quente o dia inteiro com esse uniforme, morrendo de calor e quando chega a noite a gente morre de frio. Eu não pude parar nenhum segundo pra ver nenhum show. 22h é o horário que eu bato o ponto, mas até tirar o uniforme, devolver o equipamento e chegar na saída já são mais de onze da noite. É muita desorganização e cansaço para tirar só 140 reais por dia”. 

Rosana dos Santos, contratada como vendedora ambulante de produtos Sadia, também não voltaria: “A gente chega e é direcionada para o setor, tem um tempinho para dois lanches e um almoço, só isso”. Quando perguntada sobre as apresentações, ela responde de prontidão: “Se tenho tempo para ver alguma coisa? Imagina, a gente não pode parar”.

Para os funcionários contratados para trabalhar nos stands das marcas, a experiência foi diferente. Com turnos das 14h às 23h, o trio que trabalhou em um ponto de vendas da Budweiser disse que não vê a hora de voltar. “Esse é meu primeiro Lolla, estou amando! Consigo aproveitar o show e acabei conhecendo muita gente legal. Tá tudo muito bem organizado e eu amei o Twenty One Pilots. Quero muito poder voltar aqui ano que vem”, relatou Tiago.

 

As ativações

Além da Budweiser, o evento contou com ativações de outras marcas das mais variadas áreas. O stand da Coca-Cola trouxe o funk brasileiro e uma pista de dança para entreter o público entre os shows, enquanto a Braskem promoveu a reciclagem oferecendo pontos por cada item de plástico descartado corretamente, que poderiam ser trocados por brindes como doces e balas, copos e até mesmo capa de chuva. 

Mesmo com todas essas atividades extras, o evento não conquistou todo mundo, principalmente aqueles que presenciaram as edições anteriores. “Esse ano tá tudo muito caro, eu só vim porque ganhei um ingresso, que inclui só os shows né, comida e bebida é tudo a parte e se é de graça na questão dinheiro, é cara pro meu tempo. As filas de água do Bradesco estão impossíveis e eu prefiro assistir o show da Rosalía inteiro do que perder uma hora no copo customizado da Budweiser”, contou Giovanna Napolitano, que já presenciou quatro edições do Lollapalooza. 

 

 

A experiência VIP

A única pessoa entrevistada que não teve críticas ao evento foi Giovana Telles, que ganhou ingressos para o Lolla Comfort. Sendo essa sua primeira vez, disse que ficou muito impressionada com a infraestrutura dos shows e da área Comfort. “Para mim valeu muito a pena. A gente tem um espaço sensacional e eu pude curtir o show da Billie Eilish muito confortável. Lá dentro do Comfort a gente tem massagem, carregador portátil, água, banheiros melhores e uma vista incrível pro show, tudo incluído no preço do ingresso.”, que custa no mínimo 2.500 reais.

 

A popularização de grandes festivais de música em São Paulo traz um desafio para o Lollapalooza, que conta com uma infraestrutura antiquada, semelhante a de suas últimas edições. Além disso, os preços exorbitantes e a exploração dos trabalhadores abre espaço para que competidores como Primavera Sound, Mita e principalmente The Town, ofereçam alternativas viáveis para os fãs de música. 

Mas há esperança de mudanças. A edição deste ano encerrou a parceria entre o Lollapalooza e a empresa Time for Fun, que realizou oito edições do evento no Brasil. Quem assume o lugar agora é a Live Nation, responsável pelo clássico brasileiro Rock in Rio. A notícia provocou reações diferentes no público, uns comemoram a possibilidade de melhora na infraestrutura enquanto outros temem que o festival vá perder a originalidade dos Line-ups. 

A nova empresa responsável, no entanto, possui um ponto de convergência com a antiga: em 2013 e 2015 foram identificados funcionários em condições análogas à escravidão no Rock in Rio. Apesar de não existirem acusações tão recentes como a do Lollapalooza, nos resta a reflexão: As condições de trabalho no Rock in Rio melhoraram e portanto as do Lollapalooza também irão, ou os organizadores estão cada vez melhores em esconder esses casos, como aconteceu com Tamires?

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Após o cantor canadense Drake cancelar sua presença no Lollapalooza 2023, Skrillex assume o palco principal e entrega hits e convidados.
por
Bianca Novais
Luana Galeno
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29/03/2023 - 12h

No domingo, 26/03, aconteceu o terceiro e último dia do Lollapalooza, em São Paulo. As atrações principais Rosalía, Cigarettes After Sex e Skrillex, substituindo o rapper canadense Drake, encerraram o festival.

Rosalia
Rosalía no palco Chevrolet. Imagem: Reprodução.

A cantante espanhola Rosalía entregou um show com muita dança e design de luzes, mas o ponto alto foi a preocupação com quem assistia pelos telões e de casa. A transmissão fez parte do espetáculo, com captação própria, grande parte da transmissão foi realizada pela produção da cantora, coordenando as câmeras do Multishow (Globosat) com as coreografias. Sem se esquecer do público presente, Rosalía desceu do palco e encontrou uma fã para cantar um trecho de La Noche de Anoche. A fã era Gloria Groove, que surpreendeu Rosalía com o vozeirão afinado.

Apesar de a participação de Gloria Groove ter sido ao acaso, o domingo ficou marcado pelos artistas nacionais que subiram ao palco como convidados. Tove Lo, estrela pop sueca, apresentou com Mc Zaac a música Are U Gonna Tell Her?, composta em conjunto pelos dois. Pabllo Vittar também marcou presença ao lado da cantora com o hit Disco Tits.

Tove Lo e Pabllo Vittar
Tove Lo e Pabllo Vittar. Imagem: Reprodução/Instagram.

Baco Exu do Blues se apresentou no palco Adidas substituindo Willow, uma das cinco artistas que cancelaram suas participações no festival. O rapper bahiano iniciou seu show com uma homenagem a Gal Costa, que faleceu no ano passado. Trouxe a exaltação da cultura afro-brasileira, estilo principal de seus álbuns, com seus sucessos Me Desculpa Jay-Z, Samba in Paris e Te Amo Disgraça. Baco também não perdeu a oportunidade de, junto com a plateia, provocar Drake, que cancelou o show no Lollapalooza com antecedência de algumas horas. Na internet, Baco foi criticado pela simplicidade de sua roupa, mas foi contundente ao rebater com “eu sou bonito, posso ir básico. Tava calor, nunca ia mete uma calça”.

Ainda durante a tarde, Aurora fez uma performance inspiradora e emocionante com suas canções. Mas, seu show repercutiu por outro motivo: seu braterista, Sigmund Vestrheim, fez um gesto de “White Power” no momento de agradecimento no fim da apresentação. A junção entre as pontas do indicador e o polegar com os outros três dedos abertos  (semelhantemente ao OK), mas no caso, os três dedos simbolizaria a letra W e a junção dos dedos com o antebraço seria o P, um símbolo supremacista. A partir disso, os internautas começaram a pesquisar e encontraram imagens com símbolos como a suástica em suas redes sociais. 
Como defesa, Sigmund postou em seu Instagram que o gesto foi realizado na intenção de simbolizar sucesso, que o show teria sido ótimo, já os desenhos ele alega ter sido realizados quando ainda estava na escola, durante a aula de história e não significa nada. Aurora saiu em defesa do membro de sua banda.

Sigmund Vestrheim, baterista de Aurora, após o show no Lollapalooza, à esquerda. Um de seus posts no Instagram com símbolos nazistas. Imagem: Reprodução/Twitter.
Sigmund Vestrheim, baterista de Aurora, após o show no Lollapalooza, à esquerda. Um de seus posts no Instagram com símbolos nazistas. Imagem: Reprodução/Twitter.

Sentimentos controversos foram direcionados também a Drake, com xingamentos antes do show de seu substituto, Skrillex, subir ao palco.

É seguro dizer que Drake não fez falta. O DJ americano expoente do estilo dubstep sustentou o público com um set que começou com música brasileira e contou com suas faixas mais famosas.

Skrillex iniciou sua apresentação com um remix de Carinhoso, de Marisa Monte e Paulinho da Viola, e com isso o público já estava rendido. Mas as odes à cultura brasileira não pararam por aí, tivemos Ludmilla como sua convidada. No palco Budweiser, a cantora carioca entonou Sou Má e Todo Mundo Louco, faixas de seu álbum mais recente VILÃ, e pediu à plateia que ensinasse ao Skrillex "como é que se faz no Brasil".

Mas quem mostrou como se faz foi ele. As clássicas da década de 2010 Scary Monsters and Nice Sprites e Bangarang não faltaram na mesa de mixagem de Skrillex e o DJ deixou o palco através da platéia, ovacionado.

Skrillex no palco Budweiser. Imagem: Reprodução.
Skrillex no palco Budweiser. Imagem: Reprodução.

 

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