Foto: Rogério Pallatta/SBT.
Nascido no ano de 1982, em Divinópolis-MG, Rômulo Mendonça cultivou, desde cedo, seu amor pelo esporte. A história do narrador com o basquete começa em 1991. Quando o basquete feminino brasileiro conquistou os jogos Pan Americanos de Havana. Um marco para o jornalista. Desde então, Rômulo só intensificou seu carinho pelo esporte. “Me lembro d’eu criança, nas finais de 1991, entre Bulls e Lakers, que não me interessava pelo que estava acontecendo ali. Ironicamente, no ano seguinte, na final entre Chicago e Portland, eu já estava viciado em basquete”.
O narrador, que trabalhou na Rede Transamérica de Belo Horizonte, fez parte do time da ESPN por 12 anos e é recém contratado para o time esportivo do Amazon Prime Video, é sempre lembrado pelos bordões e narrações cômicas. No programa “The Noite” não foi diferente. Logo no começo, Danilo Gentili, apresentador do Talk Show, mostrou um compilado de narrações do jornalista e assim conquistou todos da plateia que ainda não o conheciam. “É o mensageiro do caaaoss!”; “Splashh!” “Aqui não, queridinha!”; “Tocaço do porteiraço do ENEM!”; “Com fúriaaa!”; “Brinquedinho assassino!" e “Boom, boom, boom Shakalaka!" são um pequeno conjunto do seu vasto arsenal de bordões apresentados por Danilo.
Rômulo, explica como ele inventa os apelidos dos jogadores e o porque chama o jogador Stephen Curry, de Jararaca: “Levo em conta a característica física, a habilidade e a personalidade. O Curry, por exemplo, é um grande arremessador. Ele é venenoso! Você pode achar que ele está quieto, de repente, ele vem e muda o jogo!”
O locutor esportivo é perguntado a respeito do ritmo de narração de uma partida de basquete, já que muitos estão acostumados com a de futebol. “O basquete tem muita estatística, é uma dinâmica que faz com que, ao longo do jogo, informações do contexto, da liga e do jogador sejam propagadas. É um esporte americano, então tem muito a questão dos números. Já no futebol, o relato realmente é mais seco em boa parte da transmissão, diferente do basquete, que é ataque e defesa o tempo todo.” Mas reforça que um narrador de futebol não é inferior a um de basquete. “São esforços diferentes.”
Foto: Instagram/Rômulo Mendonça
Danilo Gentili recorda os momentos marcantes do narrador no “All Star Game 2023", no qual pediu para alguns jogadores reproduzirem os apelidos que Rômulo criou para eles. “Jaylen Brown, o homem mau", “Eu sou Donovan Mitchell, a aranha brutal” e “Sou Luka Doncic, o tesouro” foram as falas que os próprios jogadores reproduziram a pedido de Rômulo.
O apresentador do programa relembra quando o bordão "Lebron!" Ladrão! Roubou meu coração!” viralizou. A proporção foi tão grande, que o vídeo foi reproduzido nas emissoras americanas e até mesmo vista pelo próprio Lebron James, que elogiou Rômulo. O narrador destaca: “Os americanos não estão acostumados com narrações assim, cheias de criatividade, gritos, bordões e até canções. Lá, as narrações ,geralmente, são mais tranquilas e eles sempre ficam surpresos quando veem narrações latinas.”
Por falar em Lebron James, o narrador falou a respeito de quando narrou o astro de 38 anos quebrar o recorde e se tornar o maior “cestinha” da história da NBA. “Um recorde intocado por décadas, se rende ao Papai.” Rômulo enfatiza a grandiosidade desse recorde, reforçando que ele foi mantido por quase 40 anos, pelo lendário Kareem Abdul-Jabbar, até ser quebrado, em 2023, pelo ala do Lakers.
Danilo, espertamente, aproveitou o gancho para fazer uma pergunta polêmica: “Quem é melhor: Michael Jordan ou Lebron James?” E Rômulo responde sem hesitar: “Como jogador, é o Michael Jordan. Como carreira, é o Lebron James. É impressionante! Lebron entrou na NBA em 2003 e, até hoje, joga em alto nível. Ou seja, são 20 anos sempre no auge.” Ainda assim, Rômulo deixa claro que são jogadores com estilo de jogo diferente.
Foto: Charles Krupa/ Bleacher Report
Muitos não sabem, mas Rômulo narrou o time masculino e feminino de vôlei nas Olimpíadas Rio 2016. Na ocasião, o vôlei masculino levou a medalha de ouro para casa. Esse momento foi tão marcante na carreira do narrador que, ao ser questionado se preferia narrar as finais da NBA “in loco” - no qual já narrou 3 vezes - ou as Olimpíadas disse: “Difícil escolher. São os meus favoritos. Mas gostaria de narrar as Olimpíadas. Olimpíadas é espetacular! É extraordinário! É um evento impressionante! Tive sorte, afinal cobrir uma Olimpíada no próprio país é algo que não veremos de novo. Foi único!”
Rômulo Mendonça é uma das pessoas mais importantes para a propagação do basquete no Brasil. Rômulo, a mais de uma década, é um dos principais narradores da NBA no país. Como consequência, carrega o troféu por criar fãs de basquete por seu trabalho como narrador.
Imagem: Divulgação/Grupo Disney
"Virginia" é uma peça teatral escrita e interpretada pela atriz carioca Cláudia Abreu. O drama conduz o espectador ao universo de Virginia Woolf, ilustrando as dificuldades enfrentadas por uma mulher daquela época. A obra destaca o peso da angústia e a busca constante de Woolf, como mulher, pela independência emocional e intelectual.
Ao longo do espetáculo, o público acompanha a jornada da escritora em momentos de dor e sofrimento, como resultado das forças externas que constantemente a desafiavam. A peça está em cartaz até o dia 30 de abril no Teatro TUCA, sexta às 21h, sábado às 20h, domingo às 17h. Os ingressos estão à venda na bilheteria do teatro e no app/site Sympla.
Em 2022, Cláudia publicou seu primeiro livro intitulado "Virginia: Um Inventário Íntimo". A obra traz consigo a íntegra do roteiro e pode ser adquirido no teatro e em livrarias.
No texto, são explorados diversos temas que culminam em um só: a opressão sofrida pela autora, e como consequência disso, os inúmeros conflitos internos que acarretaram na forma como ela tirou a própria vida.
No decorrer do espetáculo, nota-se que Cláudia e Virginia se fundem em um só corpo - potente. A atriz engrandece o palco com a sua presença, ocupa cada centímetro da cena e expressa, com maestria, a razão pela qual a história de Virgínia Woolf merece ser contada dessa forma - expondo suas fragilidades intrínsecas.
"Virginia" é um retrato íntimo da vida de uma mulher notável que enfrentou empecilhos constantes para encontrar sua voz e expressar-se livremente no mundo. Infelizmente, ela não estava viva quando descobriram a tamanha genialidade que seu trabalho representa.
No final do espetáculo, a atriz acaba sendo ovacionada e aplaudida de pé durante alguns minutos. É impressionante como Cláudia cativa a plateia e consegue traduzir de forma excepcional a psiquê da escritora.
Com direção de Amir Haddad, que já a havia dirigido em “Noites de Rei” (1997) e codireção de Malu Valle.
Virginia, sob a ótica de Cláudia Abreu, transpõe em palavras, gestos e olhares o quão nocivo pode ser conviver com alguns transtornos psíquicos e não saber ao certo como manejá-los.
Virginia Woolf, que nos dias de hoje, é considerada uma das autoras mais lidas e aclamadas, não se enxergava como tal. Vivia constantemente assombrada pelas vozes do seu passado, tinha devaneios corriqueiros que lhe tiravam a sanidade, não compreendia as situações machistas que passava e se questionava com frequência, mas de uma coisa ela sabia - que era possível encontrar beleza em meio ao caos de sua existência.
Por Guilherme Carvalho
No dia 27 de fevereiro, a Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo (LigaSP), entidade encarregada de administrar as principais divisões dos desfiles na cidade, anunciou um processo de revisão dos critérios de julgamento, e sugestões de mudanças no regulamento das competições. As propostas serão votadas em plenária soberana da liga e, em caso de aprovação, já serão implementadas para o Carnaval de 2024.
Em entrevista para AGEMT, Judson Sales, diretor da Escola de Samba da Tom Maior afirmou estar bastante otimista quanto a essas possíveis alterações. Apesar de ressaltar sobre ser comum em outros anos essas situações na associação, o diretor pontua inovação ao incluírem especialistas de cada quesito de carnaval para trabalharem nas proposições. "Quase todo ano tem algum tipo de mudança, mas essas mudanças costumam ser restritas aos presidentes que debatem o assunto". E acrescenta, "a Liga esse ano teve a virtude de convocar para o debate pessoas que fazem parte dos respectivos quesitos, então foi dado a oportunidade para cada Escola nomear um responsável por quesito".
Em sua opinião, Judson acredita num sistema de julgamento um pouco mais subjetivo como um dos principais pontos de transformação, porém, de uma forma mais controlada, como é no Rio de Janeiro, em que alega a existência de críticas muito pesadas sobre o excesso desse aspecto. "São propostas que vão ser encaminhadas aos presidentes (das escolas) que são soberanos na decisão final sobre a mudança ou não. Elas estão abrindo um pouco mais de margem para essa subjetividade", afirma.
Perguntado sobre as reclamações em relação ao exagero de notas 10 nas apurações, declara ser em parte, uma decorrência da total objetividade nos critérios atuais, no qual diz ser prejudicial quando se trata sobre arte. Para o Eduardo Fontes, Representante da Agremiação Gaviões da Fiel na LigaSP, também expressa insatisfação com o ocorrido acima, mas cita que uma possível abertura para um julgamento individual não seria efetivo para todos os quesitos. Prega um estudo amplo para ser elaborado outras medidas positivas para o cerne da questão. Assim como o entrevistado anterior elogia o Presidente da Liga – Sidnei Carriuolo, referido pelo protagonismo na iniciativa e condução desse trabalho. Até a publicação dessa matéria, não foi estabelecer contato com o Coletivo.
Entenda mais sobre o caso dos critérios de julgamento
A cada edição fica mais notável a enorme quantidade de notas máximas nas apurações do Samba paulistano. Em foco na principal divisão vemos neste ano, por exemplo, 3 entre 9 quesitos de carnaval repletos de notas 10 às 14 agremiações, pelos 4 jurados de cada categoria. 4 diferenças de 9.9 dentre 168 iguais garantindo a soma de 30 pontos para todos. Vale lembrar o descarte da avaliação mais baixa. Situações parecidas são encontradas em outros tópicos das avaliações.
No Rio de Janeiro há apenas uma divisão com um cenário próximo desse: A Bateria. Teve 8 notas 9.9 sendo mais de uma vez para algumas concorrentes, não sendo garantido a pontuação final mais alta. O Jornalista Anderson Baltar, mestrando na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), autor de cursos sobre os desfiles de carnaval e colaborador por anos ao UOL sobre o assunto com foque carioca, explicou em termos didáticos sobre as diferenças de julgamentos entre as duas cidades mais famosas nesse meio.
Segundo o jornalista, o modelo técnico(São Paulo) visa a efetividade, o cumprimento fiel ao que foi proposto, a organização. Enquanto o modelo comparativo(Rio de Janeiro) premia a ousadia, o esforço e a criatividade. Supõe na segunda forma de avaliação um bolo normal de fubá e um grande de casamento “(O bolo de casamento) Vai tirar 10 e o de fubá 9,9 ou 9,8, porque existe um critério comparativo. O de casamento deu muito mais trabalho, gastou mais dinheiro, mais cuidado”. Já no primeiro o modo “se os dois estiverem certinhos vai ser 10 para os 2". E finaliza, "Pior, se o glacê (do bolo de casamento) derreter é 9,9, e o de fubá é 10".
Acompanhando o samba desde 2006, quando tinha 8 anos, Leonardo Dahi é fissurado pelo tema. Jornalista formado pela Cásper Líbero, já cobriu o Carnaval da cidade paulistana pela Rádio CBN. Segundo Leonardo, antes dessa última década, a folia na Cidade da Garoa já passou por episódios ruins de apurações com
seleção de jurados e regras confusas adotadas nesses períodos. Avalia que, uma nova geração de presidentes das Escolas trouxe uma grande organização, além do fortalecimento de suas estruturas ao longo do tempo, buscando nas regras tabelamentos diretos, para evitar arbitrariedades dos julgadores.
Dessa forma, o radialista afirma sobre o resultado em SP estar diretamente vinculado às pastas - papeis enviadas por cada Escola estabelecendo como pretende ser cada detalhe na passarela - para serem “fiscalizadas” pelos jurados durante os dois dias de competição. “Evoluiu para um ponto que não é que a escola está perdendo o Carnaval porque ela deixou de fazer 50 fantasias, do jeito que estava na pasta, está perdendo o Carnaval porque a pena na pasta está virada para a direita e na pista ela passa virada para a esquerda”.
Nos bastidores...
Neste ano, alguns acontecimentos parecem agitar ainda mais o futuro do Carnaval de São Paulo. Um deles foi um comentário do Boninho, diretor de Gênero de Variedades na emissora carioca Rede Globo, detentora dos meios de transmissão dos desfiles em questão. Em postagem de Paulo Serdan, presidente da Mancha Verde, em tom de reclamação sobre as justificativas de alguns jurados em duas notas à Escola, Boninho comentou:
“Precisamos rever os julgadores. Estão ultrapassados, as escolas estão inovando e eles presos ao antigo. Sem inovação o show não sobrevive. Portanto precisamos de novos olhares para avaliar o lindo trabalho de vocês”.
A mesma emissora, segundo a coluna de Guilherme Ravache na UOL, saiu no prejuízo em termos gerais por ter vendido apenas uma das cinco cotas publicitárias disponíveis para patrocínios. Na coluna de Sandro Nascimento, da mesma mídia digital, ouviu do mercado publicitário o desejo de inovação do carnaval e o seu conceito como espetáculo para atingir outras camadas dos telespectadores.
Por Lorrane de Santana Cruz
A realidade de muitos artistas de teatro no Brasil não apresenta boas perspectivas. Na graduação, a situação não foge disso, muitos cursos estão cada vez mais desvalorizados e Artes Cênicas é um deles. "Pra mim, o curso de artes cênicas no brasil é extremamente desvalorizado, ainda mais com o governo que a gente tinha até o ano passado, que sempre desdenhou da arte. E eu espero que esse ano a arte volte a ser reconhecida, assim como o teatro e a cultura", diz Olívia Cattani, que cursa o Célia Helena Centro de Artes e Educação. "Eu escolhi porque sempre foi o que eu imaginei e quis, e por mais que eu tentasse sair desse caminho, fugir disso por sempre ouvir que eu iria morrer de fome. Eu tentava negar, mas me identifico e não consigo me ver estudando outra coisa", acrescenta a atriz amadora.
"O que eu mais me identifico com o meu curso é poder representar, estar no palco, poder ser vista. Eu gosto da ideia de estudar um personagem, a história desse personagem, tudo por trás dele. Tem gente que pensa que você vai mudar, virar uma nova pessoa, mas não é isso! É entrar em contato, eu acho isso incrível", conta Olívia, que enxerga como maior desafio do curso o próprio mercado de trabalho que na maioria das vezes é escasso.
"Porque você pode fazer uma peça, gastar meses se preparando, ensaiando, entre outras coisas para no final a remuneração ser muito baixa. O maior desafio é não ter certeza, não que em outros cursos você tenha, mas é muito incerto". De acordo com o Portal da Transparência, os gastos do governo com a cultura caíram entre 2018 e 2022. Com o governo Bolsonaro, os gastos foram de 89,5 milhões, enquanto que no governo Temer os gastos foram de 245,5 milhões.
A Lei Rouanet de 1991 foi criada para incentivar a cultura. E no governo de Jair Bolsonaro, poucos projetos foram aprovados. Segundo o Sistema de Acessos às Leis de Incentivo à Cultura, a estimativa de queda foi de um terço, de 2019 a 2022, o governo aprovou 12,8 mil projetos de cultura. Perguntada se lida com muitas piadas ou deboche com a escolha do que cursar, Olívia diz que "no começo quando eu escolhi o que eu queria fazer, quando eu optei por artes cênicas eu tinha vergonha de contar para as pessoas. Eu achava que as pessoas iriam me taxar como prepotente, que eu me achava. Até hoje eu falo em forma de piada".
Por Isadora Taveira e Laura Melo
Considerada por muitos a rainha do rock brasileiro, Rita Lee recentemente compartilhou com o Brasil sua batalha contra o Jair, tumor decorrente de seu câncer no pulmão. A mulher que mais vendeu discos no Brasil, mais de 55 milhões de cópias, além de mais de 22 prêmios, incluindo um Grammy Latino, que celebra artistas que fizeram contribuições significativas à indústria fonográfica, sempre se mostrou à frente do seu tempo e exemplo de inovação, resistência e revolução.
A mina de Sampa
Nascida na Vila Madalena em 1947, em São Paulo, Rita Lee Jones dedicou sua vida e sua paixão à música, revolucionando os paradigmas da época e criando seu espaço em um ambiente extremamente masculino. Sua performance na arte foi inspiração para reflexões como feminismo, política e contemporaneidade, além de permanecer sendo motivação para diversos compositores da atualidade.
A artista é a mais jovem das duas irmãs, Virginia Lee e Mary Lee, e desde muito nova se interessava por instrumentos musicais, apesar de não entendê-los apenas como hobbie. Atriz, veterinária e até mesmo dentista - seguindo os passos de seu pai - as diversas hipóteses de Lee inundavam sua mente, mas ela mal imaginava que havia nascido para se tornar uma estrela.
Durante a adolescência os rumos de sua trajetória passaram a se voltar para a arte, e nessa época formou a sua primeira banda, “Teenage Singers". Dividindo o sonho com duas amigas da escola, elas participavam de concertos e festivais pequenos no colégio, e logo depois passou a fazer parte do grupo “Six Sided Rockers”, que contava com Arnaldo Baptista e seu irmão, Sérgio Dias.
De “O conjunto de O’seis” até “Os bruxos”, o grupo iniciou sua trajetória incerta, em meio a discos que não fizeram sucesso comercial e muito menos chamaram a atenção do público. Até chegar em “Os Mutantes” e conquistar o espaço de grande renome na música popular brasileira, o conjunto enfrentou desafios e tempos de dúvidas. Em meio aos ventos do tropicalismo que sopravam nos anos de 1967 e 1968, a banda valorizava a cultura do país e foi pioneira no hibridismo cultural, além de marcar diversos momentos do audiovisual brasileiro ao lado de grandes artistas.
Sozinha de vez
Rita inicia a carreira solo com Build Up (1970), após desentendimentos com seus parceiros e a necessidade de brilhar sozinha. “Segundo relato da própria Rita, ela foi expulsa da banda. De acordo com a biografia sobre os Mutantes, escrita por Carlos Calado, ela foi comunicada que estava fora da banda por Arnaldo Baptista, os outros Mutantes ainda tentaram apoiar Rita, mas ela teria ficado muito magoada e preferiu seguir em frente, fora da banda.” - afirmou Mayrton Bahia, produtor musical em entrevista para o site Aventuras na história.
Esse momento foi crucial para sua carreira, quando recomeçou em grande estilo ao som de “Fruto Proibido”, seu quarto álbum de estúdio à frente da banda Tutti-Frutti. Rita alavancou como um dos maiores sucessos do MPB e figura pop brasileira, concretizando a sua arte através do disco Rita Lee, em 1980, que trouxe seus hits de maior sucesso e vendeu mais de 130 mil cópias no país.
Um amor sólido em meio à tempos líquidos
Um amor unido à música. Rita Lee e Roberto de Carvalho, juntos, criaram faixas icônicas cheias de poesia e sentimento. Em sua autobiografia, a artista conta que o grande cupido de seu relacionamento foi Ney Matogrosso, em que Roberto fazia parte de sua banda. Se conheceram no ano de 1976 e desde então não se separaram; foram dez álbuns gravados em conjunto e a oficialização do casamento vinte anos depois.
Em declaração recente, Roberto de Carvalho afirmou que “Foi um verdadeiro tsunami, as músicas estavam em toda parte, as pessoas cantavam, as rádios tocavam sem parar, o disco vendia a rodo e, o mais importante: tocou profundamente os corações de tantas pessoas numa época tão difícil de repressão ostensiva, de pouca liberdade.” Os hits como "Lança Perfume", "Desculpe o Auê" e "Banho de Espuma" foram só o começo, depois vieram os verdadeiros filhos e frutos desse amor: Beto, João e Antônio Lee.
Feminista ou fashionista
Apesar de não se considerar um ícone feminista, ou até uma feminista, é inegável a influência de Rita no cenário feminino. Durante a entrevista, a ovelha negra, ressalta: “Nunca carreguei bandeira de feminismo. Eu era a única menina roqueira no meio de um clube só de bolinhas, cujo mantra era: para fazer rock tem que ter culhão. Eu fui lá com meu útero e meus ovários – e me senti uma igual, gostassem eles ou não”.
Como reforça Daniel Fernandes, administrador do fã clube Baú Rita Lee, as canções dela tiveram um papel extremamente importante para a pauta feminista, ela foi uma das primeiras pessoas a falar sobre o prazer feminino e sobre sexo, assuntos que eram considerados tabu na época. E além disso, ela estava em um terreno sagrado dos homens, que era o rock e se tornou uma grande figura do gênero.
Além de encorajar mulheres, Rita também servia como influência fashion para muitas outras. Do cabelo vermelho às fantasias nos palcos, a rainha do rock sempre se mostrou à frente do seu tempo. De muitos figurinos icônicos, alguns como o vestido de noiva usado no Festival Internacional da Canção, a bota prateada roubada de uma loja em Londres e a roupa de presidiária que ironizava sua prisão em 1976 marcaram a carreira da cantora e passaram a fazer parte do acervo de uma exposição em sua homenagem realizada pelo MIS, Museu de imagem e som, em 2021.
Do lança perfume à erva venenosa
Se tinha algo que ninguém do rock nos anos 1970 passava imune era da experiência com as drogas e com a roqueira não foi nem um pouco diferente. Em seu primeiro livro, Rita Lee: uma autobiografia, e durante entrevista com Pedro Bial, Rita conta sobre sua trajetória nas drogas e sobre seu tão falado colar feito com centenas de miçangas recheadas de LSD, trazido de Nova Iorque para financiar seu recomeço na carreira musical após sua saída de Mutantes.
Ao ser questionada sobre as drogas e a maternidade durante entrevista para o GNT, a artista diz que não concorda com a proibição, mas que sempre deixou explícito sobre os riscos e consequências do uso de entorpecentes. Segundo ela seus filhos já viram suas viagens de LSD, o que serviu como exemplo e fim da curiosidade, os fazendo seguir pela caretice. Rita, que não é Madalena arrependida como ela mesma fala, afirma não concordar mais com o uso de drogas hoje em dia, “Sei que hoje os LSDs são pura anfetamina e nem sequer dão a ilusão da paz e do amor dos 1960. É com certeza uma droga careta, porque não se encaixa nos tempos de hoje, aliás, nenhuma droga nunca se encaixou em nenhum tempo. Ao contrário, você só perde tempo”.
Durante a ditadura, em 1976, grávida de três meses de seu primeiro filho, foi presa por porte de 300 gramas de maconha, que ela afirma ter sido implantadas na sua casa para incriminá-la. O que não seria difícil, visto que a roqueira foi uma das artistas mais censuradas durante o regime militar. Como ressalta o fã Daniel Fernandes, foi um período difícil, principalmente levando em conta a gravidez e a barbaridade policial da época. Um período sombrio, com um quase aborto espontâneo, que rendeu o começo de uma grande uma aliança feminina no rock com Elis Regina, outro grande nome brasileiro, que salvou a ovelha negra das grades.
Construção de uma carreira atemporal
Hoje em dia, aos 75 anos, Rita encerrou sua carreira nos palcos e nos álbuns e têm se dedicado em gravar sua história em suas autobiografias, a primeira contando com detalhes sua vida musical e a segunda, que será lançada em maio, contando sobre sua luta contra o câncer de pulmão, diagnosticado em 2021, e seu tumor, apelidado de Jair.
A artista é inspiração e referência para inúmeros compositores e cantores da geração atual, o que marca e comprova sua história e sua construção como um símbolo para a memória brasileira. Nos palcos, homenageando a rainha do rock, a cantora Manu Gavassi apresenta o acústico de Fruto Proibido e dá sequência a herança cultural que Rita trouxe para o país, revolucionando o rock e a maneira de produzir música.
Ao longo de sua carreira, a artista vem deixando um legado memorável e uma legião de fãs e admiradores. “O legado de uma menina que continua presente na mulher, que não se intimidou com todos os desafios, barreiras, prazeres e armadilhas do glamour e do sucesso da vida artística", finaliza Mayrton Bahia.