Do pastelzinho com caldo de cana à hora da xepa, as feiras livres fazem parte do cotidiano paulista de domingo a domingo.
por
Manuela Dias
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29/11/2025 - 12h

Por décadas, São Paulo acorda cedo ao som de barracas sendo montadas, caminhões descarregando frutas e vendedores afinando o gogó para anunciar promoções. De norte a sul, as feiras livres desenham um dos cenários mais afetivos da vida paulistana. Não é apenas o lugar onde se compra comida fresca: é onde se conversa, se briga pelo preço, se prova um pedacinho de melancia e se encontra o vizinho que você só vê ali, entre uma dúzia de banana e um pé de alface.

Juca Alves, de 40 anos, conta que vende frutas há 28 anos na zona norte de São Paulo e brinca que o relógio dele funciona diferente. “Minha rotina é a mesma todos os dias. Meu dia começa quando a cidade ainda está dormindo. Se eu bobear, o morango acorda antes de mim”.

Nas bancas de comida, o pastel é rei. “Se não tiver barulho de óleo estalando e alguém gritando não tem graça”, afirma dona Sônia, pasteleira há 19 anos junto com o marido e filhos. “Minha família cresceu ao redor de panelas de óleo e montes de pastéis. E eu fico muito realizada com isso.  

Quando o relógio se aproxima do meio dia, começa o momento mais esperado por parte do público: a famosa xepa. É quando o preço cai e a disputa aumenta. Em uma cidade acelerada como São Paulo, a feira livre funciona como uma pausa afetiva, um lembrete de que existe vida fora do concreto. E enquanto houver paulistanos dispostos a acordar cedo por um pastel quentinho e uma conversa boa, as feiras continuarão firmes, coloridas, barulhentas e deliciosamente caóticas.

Os cartazes com preços vão mudando conforme o dia.
Os cartazes com preços vão mudando conforme o dia. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Vermelha, doce e gigante: a melancia é o coração das bancas nas feiras paulistanas.
Vermelha, doce e gigante: a melancia é o coração das bancas nas feiras paulistanas. Foto: Manuela Dias/AGEMT
A dupla que move a feira da Zona Norte de São Paulo.
A dupla que move a feira da Zona Norte de São Paulo. Foto: Manuela Dias/AGEMT
Entre frutas e verduras um respiro delicado: o corredor das flores.
Entre frutas e verduras um respiro delicado: o corredor das flores. Foto: Manuela Dias/AGEMT

 

Apresentação exclusiva acontece no dia 7 de setembro, no Palco Mundo
por
Jalile Elias
Lais Romagnoli
Marcela Rocha
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26/11/2025 - 12h

Elton John está de volta ao Brasil em uma única apresentação que promete marcar a edição de 2026 do Rock in Rio. O festival confirmou o britânico como atração principal do dia 7 de setembro, abrindo a divulgação do line-up com um dos nomes mais celebrados da música mundial.

A presença de Elton carrega um peso especial. Em 2023, o artista anunciou que deixaria as grandes turnês para ficar mais perto da família. Por isso, sua performance no Rock in Rio será a única na América Latina, transformando o show em um momento raro para os fãs de todo o continente.

Em um vídeo publicado na terça-feira (25) nas redes sociais, Elton John revelou o motivo para ter aceitado o convite de realizar o show em solo brasileiro. “A razão é que eu não vim ao Rio na turnê ‘Farewell Yellow Brick Road’, e eu senti que decepcionei muitos dos meus fãs brasileiros. Então, eu quero compensar isso”, explicou o britânico.

No mesmo dia de festival, outro grande nome da música sobe ao Palco Mundo: Gilberto Gil. Em clima de despedida com a turnê Tempo-Rei, que termina em março de 2026, o encontro dos dois artistas lendários torna a programação do festival ainda mais especial. 

Gilberto Gil se apresentará no Palco Mundo do Rock in Rio 2026 (Foto: Reprodução / Facebook Gilberto Gil)
Gilberto Gil se apresentará no Palco Mundo do Rock in Rio 2026 (Foto: Divulgação)

Além das atrações, o Rock in Rio prepara mudanças importantes na Cidade do Rock. O Palco Mundo, símbolo do festival, será completamente revestido de painéis de LED, somando 2.400 metros quadrados de tecnologia. A ideia é ampliar a imersão visual e criar novas possibilidades para os artistas.

A próxima edição também terá uma homenagem especial à Bossa Nova e um benefício pensado diretamente para o público, em que cada visitante poderá receber até 100% do valor do ingresso de volta em bônus, podendo ser usado em hotéis, gastronomia e experiências turísticas durante a estadia na cidade.

O Rock in Rio 2026 acontece nos dias 4, 5, 6, 7 e 11, 12 e 13 de setembro, no Parque Olímpico, no Rio de Janeiro. A venda geral dos ingressos começa em 9 de dezembro, às 19h, enquanto membros do Rock in Rio Club terão acesso à pré-venda a partir do dia 4, no mesmo horário.

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A socialite continuou tendo sua moral julgada no tribunal, mesmo após ter sido assassinada pelo companheiro
por
Lais Romagnoli
Marcela Rocha
Jalile Elias
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26/11/2025 - 12h
Marjorie Estiano interpreta Ângela Diniz. Foto: Divulgação
Marjorie Estiano interpreta Ângela Diniz em nova série. Foto: Reprodução/Divulgação HBO Max

Figurinha carimbada nas colunas sociais da época, Ângela Diniz virou capa das manchetes policiais após ser morta a tiros pelo então namorado, Doca Street. O feminicídio que marcou o país na década de 1970 ganha agora um novo olhar na série da HBO Ângela Diniz: Assassinada e Condenada.

Na produção, Marjorie Estiano interpreta a protagonista, enquanto Emilio Dantas assume o papel de Doca. O elenco ainda conta com Thelmo Fernandes, Maria Volpe, Renata Gaspar, Yara de Novaes e Tóia Ferraz.

Sob direção de Andrucha Waddington, a série se inspira no podcast A Praia dos Ossos, de Branca Viana. A obra, que leva o nome da praia onde o crime ocorreu, reconstrói não apenas o caso, mas também o apagamento em torno da própria vítima. Depoimentos de amigas de Ângela, silenciadas à época, servem como ponto de partida para revelar quem ela realmente era.

Seja pela beleza ou pela independência, a mineira chamava atenção por onde passava. Já os relatos sobre Doca eram marcados pelo ciúme obsessivo do empresário. O casal passava a véspera da virada de 1977 em Búzios quando, ao tentar pôr fim à relação, Ângela foi assassinada pelo companheiro.

Por dias, o criminoso permaneceu foragido, até que sua primeira aparição foi numa entrevista à televisão; logo depois, ele se entregou à polícia. Foram necessários mais de dois anos desde o assassinato para que Doca se sentasse no banco dos réus, num julgamento que se tornaria símbolo da luta contra a violência de gênero.

Marjorie Estiano interpreta Ângela Diniz, , enquanto Emilio Dantas assume o papel de Doca. Foto: Divulgação
Marjorie Estiano interpreta Ângela Diniz, enquanto Emilio Dantas assume o papel de Doca. Foto: Reprodução/Divulgação HBO Max

As atitudes, roupas e relações de Ângela foram usadas pela defesa como supostas “provocações” que teriam motivado o crime. Foi nesse episódio que Carlos Drummond de Andrade escreveu: “Aquela moça continua sendo assassinada todos os dias e de diferentes maneiras”.

Os advogados do réu recorreram à tese da “legítima defesa da honra” — proibida somente em 2023 pelo STF — numa tentativa de inocentá-lo. O argumento foi aceito pelo júri, e Doca recebeu pena de apenas dois anos de prisão, sentença que gerou revolta e fortaleceu movimentos feministas da época.

Sob forte pressão popular, um segundo julgamento foi realizado. Nele, Doca foi condenado a 15 anos, dos quais cumpriu cerca de três em regime fechado e dois em semiaberto. Em 2020, ele morreu aos 86 anos, em decorrência de um ataque cardíaco.

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Exposição reúne obras que exploram o inconsciente e a natureza como caminhos simbólicos de cura
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KHADIJAH CALIL
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25/11/2025 - 12h

A Pinacoteca Benedicto Calixto, em Santos, apresenta de 14 de novembro a 14 de dezembro de 2025 a exposição “Bosque Mítico: Katia Canton e a Cura pela Arte”, que reúne um conjunto expressivo de pinturas, desenhos, cerâmicas, tapeçarias e azulejos da artista, sob curadoria de Carlos Zibel e Antonio Carlos Cavalcanti Filho. A Fundação que sedia a mostra está localizada no imóvel conhecido como Casarão Branco do Boqueirão em Santos, um exemplar da época áurea do café no Brasil. 

Ao revisitar o bosque dos contos de fadas como metáfora de transformação interior, Katia Canton revela o processo criativo como gesto de cura, reconstrução e transcendência.
 

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       “Casinha amarela com laranja” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.

 

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                 “Chapeuzinho triste” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.
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                 “O estrangeiro” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.         
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                                                            “Menina e pássaro” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.
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                                                     “Duas casinhas numa ilha” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.
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                                                             “Os sete gatinhos” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.
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                                                                         “Floresta” de Katia Canton. Foto: Khadijah Calil.

 

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Festival celebra os três anos de existência com homenagem ao pensamento de Frantz Fanon e a imaginação radical da cultura periférica
por
Marcela Rocha
Jalile Elias
Isabelle Maieru
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25/11/2025 - 12h

Reconhecido como um dos principais espaços da cultura periférica em São Paulo, o Museu das Favelas completa três anos de atividades no mês de novembro. Para comemorar, a instituição elaborou uma programação especial gratuita que combina memória, arte periférica e reflexão crítica.

Segundo o governo do Estado, o Museu das Favelas já recebeu mais de 100 mil visitantes desde sua fundação em 2022. Localizado no Pátio do Colégio, a abertura da agenda de aniversário ocorre nesta terça-feira (25) com a mostra “ImaginaÇÃO Radical: 100 anos de Frantz Fanon”, dedicada ao médico e filósofo político martinicano.

Fachada do Museu das Favelas. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Fachada do Museu das Favelas. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Autor de “Os condenados da terra” e “Pele negra, máscaras brancas”, Fanon contribuiu para a análise dos efeitos psicológicos do colonialismo, considerando algumas abordagens da psiquiatria e psicologia ineficazes para o tratamento de pessoas racializadas. A exposição em sua homenagem ficará em cartaz até 24 de maio de 2026.

Ainda nos dias 25 e 26 deste mês, o festival oferecerá o ciclo “Papo Reto” com debates entre intelectuais francófonos e brasileiros, em parceria com o Instituto Francês e a Festa Literária das Periferias (Flup). A programação continua no dia 27 com a visita "Abrindo Fluxos da Imaginação Radical”. 

Em 28 de novembro, o projeto “Baile tá On!” promove uma conversa com o artista JXNV$. Já no dia 29, será inaugurada a sala expositiva “Esperançar”, que apresenta arte e tecnologia como forma de mapear territórios periféricos.

O encerramento do festival será no dia 30 de novembro com a programação “Favela é Giro”, que ocupa o Largo Pátio do Colégio com DJs e performances culturais.

 

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O encontro ocorreu com a escritora Pétala Souza na Arena Cultural da Bienal em São Paulo no dia 04 de julho
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09/07/2022 - 12h

No último dia (04/07) de Bienal do Livro em São Paulo, a escritora Pétala Souza entrevistou o artista Lázaro Ramos. O tema abordado no bate-papo foi a importância da literatura infantil, O ator iniciou o encontro contando como foi escrever livros infantis sobre seus filhos. 

O autor explicou o processo de escrita do  livro “Caderno sem rimas da Maria”, composto de palavras inventadas para descrever brincadeiras ou ações que as crianças fazem e não tem nome, foi um processo de afeto e carinho, descoberto a partir da vivência e de uma descrição da poeta e escritora Luciene Nascimento “se eu permitir que você toque no meu cabelo crespo e sua mão travar, isso não é um embaraço, é um convite para fazer um carinho por mais tempo”. O embaraço é nomeado de “denguindacho”.

Acerca da aproximação entre a criança e a literatura, Lázaro diz que o primeiro passo para aproximar os pequenos é ser o exemplo, para que quando adulto o leitor torne o livro um objeto natural na vida deles.

Além disso, a identificação com personagens e assuntos que os interessem são fatores que mudam a experiência da leitura, o autor explica que um dos dilemas na sua infância e juventude eram a falta de personagens negros, ou quando tinham, eram coadjuvantes. 

Por isso, nos livros que escreve, Lázaro destaca a  importância de falar sobre questões raciais e colocar personagens negros como protagonistas, e ressalta que procura falar sobre diferentes temas como valores, autoestima e outros que transmitam afetividade e informação para quem ler. Orienta também que todos devem ler escritores pretos, não só pelos livros serem uma ação social, mas por serem de qualidade. 

Quanto a distribuição e acesso aos livros feitos por escritores negros, o autor afirma que ainda há dificuldades, os livros são preteridos ou tem distribuições modestas, mas ao mesmo tempo, na atualidade, estes estão ocupando lugares como a Bienal. Ainda aponta para as vendas e produções alternativas que são uma forma de aumentar o acesso e distribuição. 

O estudo denominado Literatura Brasileira Contemporânea - Um Território Contestado (Editora Horizonte/UERJ) analisou 258 romances publicados por três grandes editoras entre 1990 e 2004 e constatou que 93,9% dos autores eram brancos, 68% residiam em São Paulo ou Rio de Janeiro e 72% eram do sexo masculino.

O autor explica, quanto à recepção dos seus livros, que a organização de caravanas por escolas públicas e particulares para conversar com os leitores traz riqueza e aprendizagem para produzi-los a partir da resposta do público, mas ainda valoriza os comentários por redes sociais e diz se sentir abraçado pelos seus leitores. 

Em relação a reconstrução do país por meio da literatura, o Lázaro deixa claro que é necessário que a educação junto a literatura e cultura voltem a ser valorizados pela política brasileira e critica o atual período político apontando a celebração a ignorância, desvalorização da educação e figura dos(as) professores(as),  do poder e da importância dos livros, além da tentativa de taxação destes, pelo ex-ministro da Economia Paulo Guedes em 2021, e liberação de armas no lugar da influência a leitura. 

Quanto à abordagem de assuntos políticos em livros infantis, o ator diz que é importante pesquisar e adaptar a linguagem e que é possível trazer o debate para os pequenos. Conta o exemplo de uma criança que avaliou seu livro antes de ser publicado, em que, no livro, foi representado um dia chuvoso como triste e para ela era feliz pois faltava água onde morava, evidenciando o potencial das crianças de enxergarem os problemas. Afirma que mesmo que não existam respostas fáceis para problemas complexos, o silenciamento não é o caminho.

Em relação a literatura como ferramenta de manutenção da infância e desenvolvimento do ser, Lázaro conta que foi a uma escola em Salvador-BA em que o nível de leitura era muito baixo e as crianças não sabiam que poderiam sonhar, e a partir de um projeto de literatura, as perspectivas de mundo e sonhos se ampliaram. 

O autor salientou acerca de livros que tratam de assuntos relacionados a desenvolvimento como capacidades socioemocionais e o quão importantes são para as crianças aprenderem a nomear o que sentem. 

Com empolgação, encerrou-se o bate-papo e  Pétala finalizou com o questionamento para Lázaro, sobre qual livro ele gostaria de ter lido na infância, este relatou que desejaria ter lido Kiusam e Nei Lopes e que ainda lê e gosta de livros infantis, inclusive quando lê histórias de ninar, termina o livro para si mesmo depois que os filhos dormem.

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O legado do maior marco cultural do século XX
por
Julia Lourenço
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29/06/2022 - 12h

Por Julia Lourenço Rocha

A Semana de Arte Moderna de 1922 foi um marco cultural que completou 100 anos em fevereiro deste ano, realizado com o intuito de festejar os 100 anos da Independência do Brasil, o evento ocorreu no Theatro Municipal de São Paulo e apesar de não ser o primeiro evento modernista, deu força ao movimento no país. O evento juntou diversos artistas da música, literatura e pintura que tinham o intuito de romper com as influências europeias para começar a produzir uma arte autoral brasileira. 

Apesar de escandalizar o público da época, estabeleceu as bases para a consolidação do Modernismo no país. Para o professor e doutor em Comunicação e Semiótica do Departamento de Artes da PUC-SP, Marcus Bastos, o evento foi extremamente positivo “a arte no final do século XIX era muito formalista, por exemplo, na poesia o parnasianismo era super metrificado, o modernismo veio oxigenar isso e trouxe uma série de novas ideias, muito ligadas também ao fato de que a vida estava se tornando cada vez mais urbana naquela época, então trouxe uma atualização de pensamento, buscando produzir coisas que tinham mais a ver com a vida urbana.” 

Marcus ainda afirma que o maior legado foi justamente a capacidade de fazer uma renovação da arte no Brasil, para ele foi um grande marco na cultura brasileira do século XX, onde é possível analisar a produção artística antes e depois da Semana de Arte Moderna.  

Mesmo com o intuito de instaurar uma identidade nacional artística, é possível observarmos que o evento não foi completamente bem-sucedido, já que em um país com uma pluralidade cultural tão vasta como o Brasil, seria necessário que todas as vertentes tivessem oportunidades iguais de visibilidade, o que 100 anos após o evento ainda não é uma realidade. O fato de ter sido realizado majoritariamente por uma elite paulista branca e estudada levanta debates até hoje sobre o legado elitista e excludente que o evento teve. 

Quando perguntado sobre a possibilidade de haver outro evento tão impactante como foi a Semana de Arte Moderna de 22, Marcus declara: “Eu acho difícil que haja outro evento como este porque uma coisa que acontece neste período contemporâneo é que não temos mais movimentos tão unificados, há uma diversidade muito grande, algo muito mais heterogêneo, o que é excelente na verdade, mas dificulta ter esse tipo de confluência maior.” 

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A busca pela praticidade e pela agilidade não gera apenas a perda de momentos da vida, está prejudicando, também, a alimentação das pessoas
por
Victória Toral de Oliveira
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29/06/2022 - 12h

 

Imagem: Freepik

Por Victoria Toral

Quando uma pessoa é questionada referente a como anda a vida, a grande maioria relata que está cada vez mais sem tempo. A perda das horas no dia a dia está se tornando algo muito comum entre seres humanos. Vivemos em uma correria insana, que nem tempo para respirar fundo estamos tendo.  Trabalho, faculdade, pós-graduação, filhos, amigos, inglês, espanhol e um tempinho para o lazer, que para tentarmos dar conta de tudo deslizamos em outras funções, como no caso da alimentação. Estamos todos os dias correndo de um lado para o outro, falando que sempre não temos tempo para fazer uma comida. Que com isso, e a modernidade nos dias atuais, preparar sua própria refeição virou coisa do passado. 

Em um só clique as pessoas conseguem, por meio de um aplicativo, pedir uma comida, sem precisar ter “gasto” tempo com esse tipo de coisa que a vida exige. Mas, o que não estão percebendo é que essa nova mania cultural não é prejudicial apenas no quesito alimentar. Fazer pedidos de comida por delivery a maior parte da semana afeta também a rotina da pessoa. Não se alimentar de forma saudável gera no indivíduo uma baixa disposição de energia, e provoca impactos nas outras ações do seu cotidiano.

Mas o que seria de nós sem um aplicativo para escolher uma comida, a cada dia, com variedade de cozinha e com a praticidade de chegar em sua casa, sem você precisar sair do sofá? Como iríamos nos alimentar sem a função delivery em nosso cotidiano? Você já parou para pensar que quando isso não existia as pessoas, que tinham as mesmas atividades que você e que também tinham uma vida acelerada, com trabalhos, filhos, estudos e momentos para o lazer, precisavam separar um tempo para preparar suas próprias comidas?

Com esse modo de vida, as pessoas estão, nos tempos atuais, apenas adiando a satisfação a longo prazo, para poderem saciar o momentâneo. E com isso, desenvolvendo novos vícios culturais, como relatado pela Biomédica, Renata Sartori, que contou que, no passado, tinha o costume de sempre pedir delivery, seja no almoço, ou na janta, por conta de sua rotina agitada, impactada pela grande quantidade de viagens, que realizava para a empresa, em que trabalhava. Renata falou, ainda, que percebeu esse vício na sua rotina, quando essa ação, de entrar no aplicativo e pedir a comida, deixou de ser feita apenas nos momentos em que estava trabalhando, “ Mesmo quando estava em São Paulo, em casa, era muito prático, nos momentos em que estava cansada, ou quando não queria cozinhar, ou, ainda, quando não tinha algo em casa, era mais fácil pedir, eu pedia no almoço, na janta, durante a semana e no final de semana.”. 

Essa realidade não é algo incomum na vida dos jovens de hoje, para darem conta de todas as funções, eles vêem cada vez mais abrindo mão da boa qualidade de vida e desenvolvendo assim problemas que impactam de forma negativa seu cotidiano. 

Renata contou, também, que com esse hábito começou a perceber mudanças tanto em seu corpo, como em sua disposição na hora de fazer as coisas, “Porque além de eu pedir delivery, eu pedia muita massa, fritura, hambúrguer, comidas pesadas. Com isso comecei a engordar, não pela quantidade que comia, mas pela falta de qualidade e com muita frequência. E, também, a atividade física que parei, por conta da pandemia, mais o trabalho excessivo. Então, comecei a ficar muito cansada, dormia mal, comecei a ter dor de estômago, azia, e o emocional sendo prejudicado ainda."

E por mais que essa mudança de estilo de vida possa parecer inatingível, a Renata, que hoje em dia, vem buscando alcançar uma melhora na forma que se alimenta, ressalta que muita das vezes, acabamos tendo esse tipo de ação, não por conta da falta de tempo, mas porque não sabemos administrar ele. Ela, ainda, dá um conselho para outros jovens viciados em aplicativos de delivery: "Hoje, eu percebo que a minha desorganização gera a minha falta de tempo, eu sei que é difícil a rotina que temos, mas dá para se organizar e fazer. Há comidas práticas que podem ser feitas, momentos para tirar e fazer suas comidas. Pense mais em si mesmo, a gente pode achar que isso é prático, mas no futuro não será.”

A praticidade, por mais que possa parecer algo bom no momento, analisando o futuro, pode ser um fator negativo, para a evolução e crescimento desses jovens viciados em delivery, no quesito de ter uma vida mais saudável na velhice. A Renata, por exemplo, com a busca em adaptar a sua rotina a ter momentos para cozinhar, além de ter relembrado do gosto e prazer que tem de cortar, descascar, temperar e fazer sua própria comida, também já vê nessa ação uma forma de descansar dos problemas que precisa resolver no dia a dia. E você? Vai permanecer clicando na escolha da comida da vez, ou vai buscar adaptar sua rotina e ajustar seu tempo para ter mais prazer na hora da alimentação? O que era escolher, qualidade ou praticidade? 

 

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Em um mundo dominado por telas há quem ainda prefira sentir as páginas de um livro.
por
Julia Lourenço
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29/06/2022 - 12h

Por Julia Lourenço Rocha

A era digital trouxe uma revolução no consumo de entretenimento, nunca antes na história houve tantas opções para consumo imediato como hoje. Filmes, músicas, livros, tudo a um clique de distância. Entretanto esse consumo instantâneo de conteúdo faz com que a sociedade se torne cada vez mais impaciente, diversas plataformas digitais proporcionam para seus usuários ferramentas para acelerar vídeos e áudios. No mundo digital, tempo é dinheiro. 

O prazer de folhear um livro, sentar e desfrutar de uma leitura parece bem distante desta realidade, tanto que muitos apostaram ser o fim dos livros físicos, mas este tem se mostrado resistentes ao tempo. Para o Professor Doutor em Ciências da Comunicação, Norval Baitello Junior, as novas formas de mídia vão se acrescentando as antigas e isso faz com que elas jamais deixem de existir, ainda que reservadas a espaços alternativos. 

As altas taxas de publicação no Brasil, somadas a baixa demanda, tornam o preço final dos livros ainda mais elevados para o consumidor final, e em busca de melhores preços ou de exemplares raros, os sebos ganharam espaço entre o publico leitor. Anthony trabalha a 15 anos no Book Box, sebo que herdou do pai no Mercadão de São Miguel Paulista, com mais de 40 anos de existência e muito conhecida na região, há quem passe e pergunte pelo “magrão” como era chamado o pai de Anthony, muitos saem com lagrimas nos olhos ao saber de seu falecimento. 

O maior desafio veio durante a Pandemia, sem poder trabalhar no Mercadão, a solução foi migrar para a internet, mas Anthony conta que se adaptar ao mundo digital não tem sido uma tarefa fácil, já que ele mesmo afirma que a troca de experiências durante a venda é sua maior prioridade. Já para Acácio, a internet mais ajudou que atrapalhou, o gerente da Sebolândia do Alto da Lapa conta que a exposição nas redes trouxe mais visibilidade a seu negócio e ajudou a alcançar novos clientes. Além dos livros, discos e CDs antigos são bastante procurados, já que itens de colecionador são facilmente encontrados nestes espaços, proporcionando uma rica mistura geracional entre o publico consumidor. 

Em relação ao futuro, Acácio se mostra bastante otimista, “da mesma forma que os discos foram substituídos pelos CDs, e estes pelos mp3, mas agora voltaram a apresentar alta procura, assim também acontecerá com os livros, eu creio que o mercado de livros nunca vai minguar, de uma forma geral”.  

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“Como museu público, a Pinacoteca tem o dever de estar em contato com a realidade do país e de apresentar da maneira mais democrática e plural possível”
por
Victória Toral de Oliveira
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29/06/2022 - 12h

Por Victoria Toral

 

  Foto: Victória Toral 

 

Olhar para fora de nossas bolhas faz com que consigamos enxergar além daquilo que nos rodeia. Provoca, de início, um estranhamento para nossa visão. Mas com o passar do tempo gera a expansão de nossos conhecimentos e assim, permite desenvolver um indivíduo com menos preconceitos. Compreender a presença das diferentes culturas existentes e ir atrás das que proporcionaram base para a formação da sociedade te leva a enxergar de maneira mais ampla a história do mundo. Mas com o modo de vida que temos nos dias de hoje, com a liquidez das relações e da busca pelo conhecimento, o número de pessoas consumidoras de conteúdos culturais, como maneira para buscar conhecimento não é algo grande. 

Exposições em museus são ótimas maneiras de proporcionar interações entre o homem e as múltiplas culturas. Poder apreciar o sentimento, o protesto e a história que o artista buscou apresentar em um material, como em pinturas, fotos, estátuas e outros projetos é uma das formas mais profundas de consumir diferentes mundos em um só local. Artistas, com estilos, visões e o pensar diferentes, abriram as portas para o raciocinar fora de nossas bolhas. 

Em São Paulo, com inúmeros museus presentes na cidade, a busca por entretenimentos culturais torna a lista de opções diversificadas. Museu como o Masp, na Paulista, o museu da Imagem e do Som, no Jardim Europa, o do Futebol, no Pacaembu, e a Pinacoteca, são bons exemplos para pessoas que buscam caminhos para expansão cultural. 

A Pinacoteca, por exemplo, fundada em 1905, e pertencente a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, é um dos mais importantes museus do país. Localizada no Centro de São Paulo, o museu contou, em primeiro momento, com 26 pinturas, todas vindas do Museu Paulista da USP. E hoje em dia, apresenta um acervo com mais de 10 mil obras de arte. 

Composta por diversas exposições dentro de seu edifício, o museu proporciona a seus visitantes múltiplos modos de visão do mundo em apenas uma única visita. Thierry Freitas, Curador da Pinacoteca, conta, durante uma entrevista, que isso se dá por causa da diversidade e da pluralidade em seu acervo, que busca novas linguagens e novas perspectivas críticas sobre a sociedade brasileira e sobre o sistema de arte.  Com projetos ligados à arte visual, o museu traz ênfase em obras brasileiras, do século XIX até a contemporaneidade. Thierry fala, ainda, que isso se dá por conta do foco estar no Brasil, “ A Pinacoteca coleciona apenas artistas brasileiros ou artistas estrangeiros que produziram no Brasil, ou produções que versam sobre o Brasil… Em 2019, a gente comprou via programa de patronos, que é o nosso dispositivo Institucional para adquirir obras e continuar formando a nossa coleção, compramos as primeiras duas obras de artistas indígenas contemporâneos, do Denilson Baniwa e do Jaider Esbell.”

Mas a relação desse edifício com a sociedade não é focada apenas em abrir espaço para a visualização de obras magníficas. A Pinacoteca, além de proporcionar aos seus visitantes a relação do ser com as obras, permite que eles criem ali uma relação consigo mesmo e uma conexão com outros frequentadores. Por meio da transmissão de sentimentos, essa estrutura provoca uma nova e intensa socialização, que só é criada quando se está presencialmente no museu, um sentimento que não há adjetivação suficiente e, acredito que nem exista, para descrever. Uma sensação única a cada frequentador e consumidor das obras que ali estão presentes. 

O edifício é um ótimo ponto para se visitar, mas engana-se quem acredita que em apenas um dia é possível conhecer todas as exposições ali presente. Cada sala do museu é formada por grandes quantidades de trabalhos e em cada canto da Pinacoteca há informações para ser digerida. 

 

Foto: Victória Toral 

Os visitantes, sendo eles pais com seus filhos, namorados, amigos, ou até mesmo sozinho, buscam o museu como uma das maneiras para se entreter e ao mesmo tempo aprender. Mas, também, há aqueles que vão para conseguirem ótimas fotos. Com uma arquitetura de tirar o chapéu, a composição das obras com a estrutura do prédio dá àqueles que buscam o clique perfeito ótimos cenários para suas fotos. 

Mas, a verdade é que o museu carrega uma grande importância para a sociedade brasileira. E manter essa estrutura presente em nossa cultura permitirá continuarmos contando nossas histórias. “Como museu público, a Pinacoteca tem a função de divulgar nossa arte, mas também de formar público, tanto oferecendo dias gratuitos para a entrada, como cursos com vagas gratuitas para professores da rede pública ou visitas educativas focadas em determinados grupos, muitos deles em situação de vulnerabilidade social, que entram no museu pela primeira vez. Acho que, como museu público, tem o dever de estar em contato com a realidade do país e de apresentar da maneira mais democrática e plural possível.” ressalta Thierry. 

A cultura não pode e não deve ser esquecida, ela é a base para a formação do indivíduo, como explica Milene Chiovatto, coordenadora do Núcleo de Ação Educativa da Pinacoteca de São Paulo, em sua análise “A cultura é um direito. Ela aparece, ao lado de alimentação e saúde, por exemplo, na declaração dos direitos humanos, de 1948. E assim é, pois a formação cultural é parte constituinte da identidade de cada um. Não é possível separar o indivíduo de sua cultura. Nessa perspectiva, a arte é um dos aspectos culturais que participam daquilo que cada um de nós é.” 

E, bloquear a presença de certas classes para o consumo artístico provoca em toda a sociedade um atraso não apenas cultural, mas educacional. Como enfatizado por Milene, “A frequência cultural é, assim, um dos meios para fortalecer e repensar as identidades.”. Excluir qualquer que seja o indivíduo de vivenciar e compreender as diferentes bolhas existentes, através das artes visuais é colocar em xeque o crescimento social, pois, principalmente no cenário atual em que estamos, onde a estrutura das redes sociais, a volatilidade, o visual e a baixa presença de narrações ou expressões escritas estão em alta, a exposição é a forma mais provável de prender a atenção dos indivíduos, como explica Milene: “Numa sociedade midiática e imagética como a que estamos inseridos, as artes, principalmente as visuais, alcançam um outro patamar de importância, já que por meio da reflexão crítica sobre elas, podemos desenvolver um necessário discernimento sobre as imagens produzidas e difundidas no mundo, não nos deixando enganar , por exemplo por falsas informações (fake news); entendendo as imagens do mundo como uma construção intencional cujos bastidores apresentam sentidos muitas vezes diversos do que a imagem final aparenta difundir.” 

 

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