Lançada em 2021, a primeira temporada de Cidade Invisível tem como abertura a história do detetive ambiental Eric (Marco Pigossi), que perdeu a esposa em um incêndio enigmático. Em busca de respostas para a catástrofe, logo no início de sua investigação, sofre uma reviravolta ao encontrar um boto-cor-de-rosa morto em uma praia no Rio de Janeiro e, ao levá-lo para casa, percebe que o cadáver do animal havia se transformado em um homem.
Com este acontecimento anormal, o detetive entra em contato com um mundo paralelo de entidades míticas da cultura brasileira, que vivem marginalizadas e passam despercebidas pela população. Juntos, Eric e os protagonistas das lendas, precisam descobrir o que vem causando tanta dor e sofrimento para essas personalidades tão importantes para a cultura e o meio ambiente nacional.
Sucesso mundial da Netflix, participando do top 10 de mais de 40 países, a série surpreendeu os produtores com tamanha visibilidade, estourando a bolha nacional e alcançando um parâmetro mundial. A mesma atraiu um enorme público, tratando da riquíssima cultura do folclore brasileiro, que até então tinha pouquíssimo destaque e abrangência no mundo do audiovisual.
No entanto, a produção sofreu críticas em relação à representatividade e ao modo que as lendas foram retratadas em sua primeira temporada. Ativistas e internautas criticaram nas redes sociais, por exemplo, a ausência do protagonismo indígena na trama, que apesar de retratado por meio das lendas, personagens de maior destaque como Cuca, Iara e Saci; foram todas vividas por atores brancos e negros. Outro aspecto também criticado pelo público foi o cenário da série, situada no Rio de Janeiro, que gerou polêmica, pois a maioria dessas lendas têm como local sagrado a floresta Amazônica.
Criada por Carlos Saldanha, a segunda temporada de Cidade Invisível estreou no último dia 22, dois anos após o lançamento da primeira etapa. Com mudanças de cenário, novos personagens e mais destaque à herança indígena, o retorno da série traz consigo o peso das expectativas do público no andamento da trama, com maior destaque para os povos originários.
Antes mesmo do lançamento da nova temporada, era possível notar aparentes mudanças no modo em que o seriado iria abordar as espiritualidades indígenas e a representatividade. A produção conta com mudanças no elenco e bastidores, como a colaboração de Graciela Guarani, ativista guarani-kaiowá e cineasta que participou da direção de alguns dos novos episódios. Também com a atuação da indígena multiartista Zahy Guajajara, que protagonizou o enredo dos novos episódios. Além disso, a forte campanha nas redes sociais da Netflix, com vídeos e posts com a hashtag #HistóriasVisíveis, colocou em foco diversos povos indígenas, suas culturas e línguas.
A continuação da série gira ao redor da busca de Luna (Manu Dieguez), acompanhada por Inês, a Cuca (Alessandra Negrini) e por seu pai Eric, que teve um final incerto na primeira temporada. Após dois anos desaparecido, Inês e Luna partem para Belém, seguindo um sonho da menina, que indicava o paradeiro do pai.
Paralelamente à procura por Eric, surge na trama a problematização do garimpo ilegal na Amazônia, e conhecemos novas personalidades do folclore, como a Mula sem Cabeça, Lobisomem, Matinta Pereira e a Cobra Honorato - todos dedicados à proteção da mata. Eventualmente, as histórias se entrelaçam e Luna se encontra dividida entre o desejo de salvação de seu pai e a necessidade de proteção de um santuário amazônico contra a exploração. Mas, acima de tudo, está nas mãos de Luna a proteção das entidades da mata.
Em entrevista exclusiva para a AGEMT, Mirna Nogueira, roteirista-chefe da série, conta um pouco sobre a criação da segunda temporada. Para ela, as críticas recebidas foram absolutamente pertinentes e importantes, e a pressão ajudou muito a mudar a forma de abordar as lendas e como entendê-las.
“Não é que a primeira temporada não teve consultoria, ou que só deixou-se passar batido. Especialistas em cultura indígena acharam ok. Só quando vieram lideranças indígenas questionar alguns momentos da temporada é que os próprios consultores admitiram o erro. Para a 2 temporada, conversou-se com muita liderança indígena, o que atrasou o processo de escrita”.
Mirna conta que a grande dificuldade é não existir um lugar para “tirar a prova” das lendas, ou que diga exatamente como ela é contada, já que cada cultura conta e interpreta esses mitos de um jeito específico. E explica que, para os povos originários, as lendas vão além de só um folclore, para eles: “as lendas simplesmente são”. Ou seja, do ponto de vista dos povos nativos, as histórias têm início e fim nelas mesmas, existem sem questionamento ou necessidade de provação.
Ao ser perguntada sobre o processo de casting, a roteirista disse que, apesar de não ter acompanhado tão de perto, sabia que foi buscado no país inteiro atores e atrizes indígenas para os papéis dos novos personagens.
Já sobre as críticas feitas ao lugar da gravação, a roteirista diz que não viu tanta relevância: “Eu não vejo tanto a coisa do lugar e da cidade, porque acho que é um conceito da série, ‘Cidades Invisíveis’. E o folclore em si, ele é nacional, isso poderia acontecer em qualquer lugar, tanto que a série mudou de cidade. A proposta é que cada temporada seja em uma cidade diferente.”
Mirna fala um pouco também sobre a abordagem ambiental. “Quando a gente começou, o garimpo não era tema central. A gente passou por desmatamento, passamos pelas águas e tudo mais, mas o que aconteceu foi que, enquanto a gente tava fazendo, os ataques aos Yanomamis não paravam de crescer. E aí, o dia que a gente realmente falou ‘chega’ e trouxemos a temática para dentro, foi quando duas crianças foram sugadas por um equipamento de garimpo.” Foi então que a roteirista percebeu o tamanho do impacto que o garimpo ilegal tinha na vida dos povos originários.
Ao resolverem abordar esse tema, as conversas com os consultores, de maioria lideranças indígenas, trouxeram experiências traumatizantes com garimpeiros em suas terras, sem cerimônia, como se fosse algo rotineiro e completamente comum. Muitas dessas contribuíram não só como inspiração para a narrativa da nova temporada, mas também com a denúncia que a série propõe. Assim, trazendo a valorização do aspecto social e a conscientização popular sobre as invasões garimpeiras.
Por fim, sobre os motivos para assistir a série, Mirna responde de maneira precisa: “Para valorizar o que é nosso, né? Só porque é brasileiro, de cara, assiste". A roteirista argumenta que a população brasileira muitas vezes tem síndrome de “vira-lata”, isso é, o hábito de enaltecer apenas o estrangeiro, desvalorizando produções nacionais, e que deve-se combater a monopolização do audiovisual: “Com a série, nas redes sociais vi muita gente falando ‘pô, que orgulho de ser brasileiro’ e isso é muito importante pra gente, o brasileiro paga muito pau pros gringos e se esquece da riqueza que temos aqui.”
Pinturas coloridas, ricas em detalhes, formas e pontilhados. Retratos de figuras animalescas, espíritos das lendas, rituais amazônicos e indígenas peruanos. Assim são os quadros do Ateliê do Pirambu, de Francisco Domingos da Silva, mais conhecido como Chico da Silva. Consagrou-se, ao longo dos anos, como um dos maiores artistas no cenário da arte NAIF, estilo que valoriza a espontaneidade, a autenticidade e a criatividade, sobretudo em produções livres, sem orientação ou metodologia específica de algum movimento artístico.
A exposição
O acervo para visitação na Pinacoteca conta com 124 quadros produzidos entre 1943 e 1984. Estão dispostos em quatro salas que, além das obras, apresentam fotos do artista pintando, ainda, nos muros e paredes das ruas da periferia de Fortaleza. Neste período, ele contava com a ajuda de crianças e jovens locais para a feitura de sua arte.
Dentre as obras expostas, é possível conhecer uma das mais famosas e importantes produções do Ateliê, “Homens Trabalhando", de 1977. Trata-se de uma pintura construída coletivamente, que pode ser assistida através de gravações em vídeo, também disponíveis na exposição da Pinacoteca de São Paulo.
Os alunos da Escola do Pirambu pintaram a obra enquanto vestiam camisetas com seus nomes, uma forma de deixar evidente quem eram os membros do ateliê e quem falsificava as pinturas, algo que ao longo da história se tornava cada vez mais recorrente, principalmente devido ao sucesso e fácil acesso da população com as produções do Ateliê, possibilitando que muitas pessoas imitassem seus desenhos sem de fato serem alunos da Escola do Pirambu. Com isso, Chico da Silva se viu em certo momento, quase que obrigado a pintar em telas e patentear suas obras, já que as imitações estavam causando-lhe também prejuízo financeiro.
A exposição também apresenta obras de Babá (Sebastião Lima da Silva), Chica da Silva (sua filha), Claudionor (José Claudio Nogueira), Garcia (José dos Santos Gomes) e Ivan José de Assis, todos artistas da Escola do Pirambu.
História
Anos depois de iniciar as pinturas em muros, passa a produzir dentro do conceito do Ateliê do Pirambu, onde criava com a colaboração da população local. A comunidade seguia suas técnicas e estilo, por isso, o espaço criativo foi nomeado como Escola do Pirambu.
Francisco da Silva gostava de passar o seu tempo livre na Praia Formosa, onde encontrava muitos dos materiais que utilizava. Quando ainda vivo, em entrevista a Allan Fisher no ano de 1972, o artista canhoto contou como foi descoberto no mundo da arte, trazendo o porquê de nem sempre suas obras terem sido tão vivas e coloridas:
“Comecei a pintar a carvão e giz, rabiscando os muros das casinhas dos pescadores da Praia Formosa, junto do passeio público, e em 43 fui descoberto por Jean Pierre Chabloz, um francês consertador de piano, que vivia em Fortaleza... Ele gostou dos meus navios fantasmas, dos meus peixes, das minhas aves, que fazia com giz, carvão e barro queimado, dando cor com frutos e folhas... Ele me deu material e fiz uns desenhos a guache e depois mais 17 trabalhos, que foram expostos nos “Diários Associados”.
Em entrevista à AGEMT, o curador da exposição na Pinacoteca, Thierry Freitas, destaca a importância do trabalho artístico e também social realizado por Chico da Silva. “A produção dele foi um importante motor criativo do bairro do Pirambu, na periferia de Fortaleza. Na escola/ateliê, diversas crianças/jovens e adultos pintaram com ele e a partir do seu universo criativo. De certa maneira, essa produção ressignificou a imagem do bairro e o projetou para fora do Ceará. Sua maior contribuição, para mim, foi ter inventado um bestiário (conceito usado como referência a coleção de ilustrações ou textos de animais, fantásticos ou reais) capaz de abarcar e somar a criatividade e os sonhos de outras pessoas”, garante o curador.
Do Acre para Fortaleza
Filho de pai indígena peruano e mãe cearense, Francisco nasceu no Acre, em 1910. Era analfabeto, o que para Thierry Freitas justifica muito de seus quadros não possuírem título. “Note que algumas das obras com título são as que Chico realiza no contexto de seu cargo no MAUC (Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará). É provável que algum interlocutor do artista no museu tenha tomado nota do nome das obras no momento de sua execução, registrando-as para a posteridade”, esclareceu.
Apesar da riqueza cultural e da bagagem de brasilidade que suas obras carregam, Chico afirma, ainda em entrevista, que os animais e figuras retratados por ele não são lembranças de infância tampouco obrigatoriamente animais típicos de sua terra natal: “Esses mundos que pinto não são recordações de quando eu era menino, não, isso se chama imaginação, ciências ocultas, astronomia...”, explicou à Allan Fisher.
Anos mais tarde, passou a expor seu trabalho na zona urbana de Fortaleza, participando de salões de pintura e exposições coletivas. Depois, alcançou outros lugares do mundo, como o Rio de Janeiro, a França, a Suíça, a Itália e outras nações pela Europa. A amizade com o francês Chabloz, nesse sentido, pode ter sido um grande facilitador para sua repercussão internacional, para além de seu imenso talento e habilidade artística.
Foi durante a década de 1960 que o artista, pai de 12 filhos, vivenciou o auge de suas produções. Uma década depois, no entanto, passou por um período de internações e tratamentos contra o alcoolismo, retomando seus trabalhos em 1977.
Representatividade
Hoje, o acreano é reconhecido em todo o país e no exterior, sendo um dos primeiros artistas de origem indígena a se destacar dessa forma. Chico ainda participou das Bienais de São Paulo e Veneza, com menção honrosa nos anos de 1967 e 1966, respectivamente.
Além disso, possui uma sala permanente de exposição de quadros na Universidade Federal do Ceará, que tem passado por discussões polêmicas. Recentemente, alguns artistas têm mobilizado a internet pela recuperação de um de seus mais importantes feitos, a obra “Homens Trabalhando”, exposta na Universidade. Segundo eles, a UFC ainda não devolveu a obra a seus autores tampouco os ressarciu.
“Chico é uma referência artística importantíssima em Fortaleza. Uma identidade local. Há, inclusive, uma estação de metrô com o nome dele. Sua obra está presente em inúmeras coleções particulares do Ceará”, afirma Thierry Freitas.
Para ver de perto as obras do Ateliê do Pirambu, a Pinacoteca está localizada no bairro do Bom Retiro e funciona de quarta a segunda, a partir das 10h com permanência até as 18h. O ingresso custa R$ 20,00 a inteira e R$ 10,00 a meia entrada. Aos sábados, a entrada é gratuita para todos, às quintas a Pina funciona com horário estendido e gratuito das 18h às 19h, com permanência até 20h. Jornalista, policiais, turistas e pessoas em vulnerabilidade social têm direito à entrada gratuita em qualquer dia da semana.
Começa hoje, 13, o Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, em sua 28.a edição. Filmes nacionais e internacionais estarão disponíveis gratuitamente em seis salas de cinema em São Paulo, SP e em duas no Rio de Janeiro, RJ.
De 13 a 23 de abril, serão exibidos 72 títulos de 34 países, com estreia de setes cineastas brasileiros na competição de longas e médias-metragens nacionais.
Subject, de Jennifer Teixeira e Camilla Hall, longa-metragem estadunidense, foi o documentário de abertura em São Paulo, apresentado em pré-estreia nacional no dia 12, na Cinemateca Brasileira. Já no Rio, a abertura ocorre dia 13 com a estreia mundial da produção brasileira 1968 — Um Ano na Vida, de Eduardo Escorel.
O evento conta também com homenagens aos cineastas Humberto Mauro (1897 – 1983), um dos pioneiros do cinema no Brasil, e Jean-Luc Godard (1930 – 2022), expoente do movimento cinematográfico francês nouvelle vague. Serão exibidas doze obras de Humberto Mauro, sendo dois documentários, e oito episódios da série Histórias do Cinema (1987 – 1998), dirigida por Godard.
Após três anos em versão on-line ou híbrida, o festival retorna ao modo plenamente presencial, na forte onda de retomada das atividades culturais no Brasil pós-covid. Além das sessões de cinema, o evento conta também com conferências, debates, mostras não competitivas e exibições em streaming.
Confira as salas:
São Paulo, SP
Cine Marquise: Av. Paulista, 2073
Cinemateca Brasileira: Largo Sen. Raul Cardoso, 207
IMS Paulista: Avenida Paulista, 2.424
Sesc 24 de Maio: Rua 24 de Maio, 109
SPCine - Centro Cultural São Paulo: Rua Vergueiro, 1.000
Rio de Janeiro, RJ
Estação NET Botafogo: R. Voluntários da Pátria, 88
Estação NET Rio: R. Voluntários da Pátria, 35
Acompanhe alguns títulos on-line:
17 a 23 de abril: Sesc Digital – sesc.digital/home
24 a 30 de abril: Itaú Cultural Play – itauculturalplay.com.br
A banda britânica Coldplay, conhecida por sucessos como Paradise e Viva La Vida, se apresentou nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba entre os dias 10 e 28 de março pela turnê "Music of the Spheres". Além das diversas ações que marcaram a temporada, um convite inédito entra para a história da bateria universitária do curso de direito da USP, sediado no tradicional Largo de São Francisco. No dia 18 de março, os jovens da B.A.I.S.F entram no palco ao lado de um dos maiores grupos da atualidade.
Em entrevista à AGEMT, Kauê Limeira de Paula (22), estudante e líder do grupo, conta sobre a experiência. Confira a seguir:
[AGEMT]: Como foi o encontro entre a Bateria e o Coldplay?
[Kauê]: Então, essa foi a grande loucura (risos). A gente ensaia de final de semana, ali perto do Parque Ibirapuera, em um local que chamamos de "Campo do 11". Estávamos finalizando o ensaio quando um cara de 1,90m de altura – e eu até me assustei, pensei que ele fosse reclamar – chegou perto de mim e falou "olha, eu tô com o vocalista do Coldplay aqui, ele queria escutar vocês um pouco, ele pode?".
Eu, que já tinha me assustado, fiquei mais ainda quando ele falou isso! Daí eu falei sim, ele virou as costas e eu disse para a bateria "eu acho que o Coldplay tá aqui", mas eu nem conseguia entender as palavras que saíam da minha boca (...). Nesse momento todo mundo ficou confuso, porque eu não consegui passar a informação direito. Depois de alguns segundos, o Chris Martin [vocalista do Coldplay] saiu de uma van e todo mundo surtou (...). O pessoal gritou e começou a fazer vídeos. Este foi o primeiro encontro. Ele [Chris] falou que estava no Ibirapuera, ouviu a gente tocar, gostou e estava procurando o som.
[AGEMT]: Que demais!
[Kauê]: Ele chegou até a gente, perguntou se poderia ouvir um pouquinho e depois veio o convite: "Vocês se interessariam em tocar com a gente sexta-feira?". E topamos! "Vamos sim!". Ele trocou um pouco de ideia com o pessoal e tal... Ninguém conseguia acreditar.
[AGEMT]: Como foi se apresentar para um público tão grande quanto o do Morumbi?
[Kauê]: A gente não estava acostumado a fazer apresentações tão grandes, acho que a maior que fazemos é, todo ano, na formatura de cada turma (...). Mas no dia em si, acho que a maioria [dos integrantes da bateria] estava tranquila. Até por conta da segurança que a produção e o Coldplay passaram pra gente, foram super simpáticos, amáveis, dando todo apoio e tratando a gente super bem. Tínhamos tudo que era necessário para tocarmos bem. (...) Estávamos felizes e tranquilos, confiantes, pois ensaiamos quatro dias seguidos.
[AGEMT]: Como foi o planejamento com a equipe para a apresentação?
[Kauê]: Conversamos diretamente pelo e-mail da produção do Coldplay, em inglês.
[AGEMT]: Vocês levaram os próprios instrumentos?
[Kauê]: Sim. No e-mail, eles até chegaram a perguntar quais instrumentos a gente tinha, e foi difícil explicar os nomes dos nossos instrumentos em inglês – surdo, agogô, caixa (risos).
[AGEMT]: Vimos que vocês fizeram uma bandeira e colocaram no mascote. Como elaboraram?
[Kauê]: Sim! Pegamos a arte do tour [turnê Sound of the Spheres] e colocamos no Chiquinho [o mascote] na bata da turnê. No lugar dos planetas [referentes à proposta visual do Coldplay para a turnê], temos nossos instrumentos.
[AGEMT]: A preparação de vocês envolveu também um figurino novo?
[Kauê]: A gente tentou fazer uma camiseta, mas não conseguimos a tempo [havia apenas 4 dias]. Mas a preparação envolveu todas as frentes da bateria. Enquanto alguns pensavam no arranjo [musical], outros pensavam em como que a gente iria fazer a logística, a arte – e aí veio a ideia da bandeira também.
[AGEMT]: Como foi estar no backstage do Coldplay?
[Kauê]: Ficamos espantados com quanta gente trabalha lá [no backstage do show]. A gente chegou lá [no Estádio Morumbi] e eles trataram a gente como artistas. Tinha camarim, comida. Chegamos super cedo, a gente ia passar o som às 14h, sendo que o show só iniciaria por volta das 20h (...). Quando começou realmente, deram alguns assentos pra gente em um camarote. Foi ótimo. Meia hora antes da gente entrar, voltamos ao backstage.
[AGEMT]: Como foram decididas as músicas que apresentariam?
[Kauê]: Tivemos que montar [o arranjo musical] todo do zero. Íamos tocar, primeiramente, na sexta-feira, a música Hymn for the Weekend, a pedido da banda. E aí, no meio da semana eles mudaram para sábado e pediram para tocarmos Fix You e Biutyful. Não tínhamos planejado muita coisa, mas ainda assim tivemos que repensar o que fazer, pois são mais lentas. A gente toca samba e não estamos acostumados a tocar músicas mais lentas. Foi um desafio tirar a ideia do papel. A bateria tem um pessoal craque nisso, pensaram por um dia inteiro, conseguimos treinar e reproduzir no show.
[AGEMT]: Essa é uma experiência que vai ficar para a história da bateria?
[Kauê]: Total, até da faculdade [Direito] e de outras baterias.
[AGEMT]: Vocês gostariam de ter mais oportunidades de tocar em grandes shows?
[Kauê]: Se houver algum convite, a gente não vai recusar de forma nenhuma! (risos). Mas não é o que vamos atrás (...). Há alguns anos não participamos mais de torneios, apenas dos jogos universitários e formaturas.
[AGEMT]: Qual é a história da bateria de vocês?
[Kauê]: Ela tem 24 anos de história, com início real em 1999. Nos anos 1990, houve uma tentativa, mas era um pessoal muito fechado, que se formou e levou os instrumentos – e meio que acabou a bateria. E aí ela foi refundada em 1999 pela Vanessa Grande, nossa mãe, e é a Bateria de Agravo de Instrumento da São Francisco (BAISF).
[AGEMT]: Vocês acreditam que a participação no show pode aumentar o interesse dos estudantes pela bateria?
[Kauê]: Estamos esperando que aumente o número de pessoas interessadas, já nos procuraram para isso, inclusive. Todo mundo vem falar.
[AGEMT]: Kauê, agradecemos muito pela sua contribuição. Parabéns tanto pelo reconhecimento do Coldplay e pela participação no show. Vida longa para a BAISF!
[Kauê]: Eu que agradeço! Se eu puder fazer uma menção de agradecimento, deixo ao Maurício Vilcher – diretor da bateria – que iria participar hoje mas teve um contratempo.
De acordo com nota emitida pela BAISF nas redes sociais, acredita-se que a participação da bateria no show de uma banda conhecida mundialmente é um marco de valorização a todas baterias universitárias, que com frequência são encaradas pela comunidade como "jovens que fazem barulho" ou "atrapalham".
O reconhecimento dado pelo Coldplay demonstra a "beleza da prática musical e cultural". Internautas apoiam e reforçam a importância das baterias universitárias, ressaltando a necessidade de maior valorização e apoio.
Por Pedro Lima Gebrath e Pedro Paes Barreto
Há exatamente uma década, mais precisamente no dia 6 de março, nos
despedimos de um dos maiores nomes da música e do rock brasileiro,
Alexandre Magno Abrão, o Chorão, vocalista e fundador da banda Charlie
Brown Jr e ícone da “geração MTV” que teve sua vida tirada após sofrer uma
overdose de cocaína em seu apartamento no bairro de Pinheiros, São Paulo.
Chorão era conhecido como alguém desbocado, barulhento, talentoso e
impulsivo, era o líder da banda Charlie Brown Jr, que alcançou sucesso
nacional na década de 90. Em 20 anos à frente do grupo, Chorão mudou a
formação diversas vezes, convidando e expulsando quem quis, cantando no
Brasil para milhares de pessoas e somando mais de cinco milhões de discos
vendidos. A banda se apresentou no circuito alternativo de shows em São Paulo e em Santos, durante cinco anos, até serem descobertos pela produtora Virgin no Brasil, que tinha sido responsável pelo disco dos Mamonas Assassinas, um sucesso em 1995. Com a estreia de Charlie Brown e o sucesso das músicas, a banda alcançou cerca de 500 mil cópias
vendidas, o que fez o grupo estourar de vez durante os anos 90 até os anos
2000.
Mesmo após dez anos de sua morte, o legado de Chorão segue vivo mais do que nunca, afinal, Chorão não deixou um legado apenas na música, suas
melodias na maioria das vezes unificavam a poesia, o Rock e o Skate. Chorão teve forte influência na Baixada Santista, local onde era presença garantida e costumava andar de skate quase sempre. No último dia 6 de março de 2023, inúmeros skatistas que se inspiram em Chorão até hoje, prestaram suas homenagens no local, a praça está localizada no bairro de Macuco e recebe diversos amantes do esporte, tema de inúmeras músicas do artista. No futebol, o Santos, time de coração do cantor e compositor, lançou uma camisa homenageando os 30 anos da banda no ano de 2022. Percebe-se que Chorão vai muito além da música e do rock, é lembrado e exaltado até hoje, mesmo em outros gêneros musicais, artistas como Matuê e Xamã prestaram suas homenagens no Rock in Rio do ano passado, mesmo pertencendo a outro gênero musical. O artista representa muita coisa tanto dentro quanto fora dos palcos, ele foi um cantor que marcou época, pelo seu talento e carisma, e mesmo depois de sua morte continua impactando a vida de diversas pessoas. AGEMT entrevistou Pedro
Vergueiro Frota e Leonardo Vergueiro Frota, dois grandes fãs da banda CBJr. Pedro é o irmão mais velho, tendo 24 anos de idade e ele conheceu a banda logo quando criança, assistindo um clipe da música “proibida pra mim” no programa de clipes da MTV. Mas ele começou a acompanhar de fato o trabalho do cantor durante a pandemia, em julho de 2021, muito tempo depois da morte do Chorão. Pedro teve a influencia direta de seus amigos para se tornar fã da banda, pois eles sempre colocavam músicas do grupo durante seus encontros. "De certa forma a música sempre esteve ali presente nele, ele só precisava tomar a seguinte decisão: “vou ouvir pra ver se é bom mesmo”, diz Pedro, que depois de ouvir, ele percebeu que se identificava absurdamente com as letras.
Assim, ele se tornou muito fã da banda e não deixa de ouvir um dia sequer uma música do conjunto. O irmão mais velho ainda fala: “O Chorão deixa um legado no rock, no rap, no skate, no surf, na favela, no amor, na humildade. Um leque de coisas que faz Charlie Brown tão especial pra diferentes tipos de pessoas”.
Pedro influenciou diretamente o irmão mais novo, Leonardo Frota de 20 anos, para começar a escutar as músicas do Charlie Brown Jr e saber mais da vida do grande artista que foi o Chorão. Inicialmente ele começou a gostar por causa do rock em si, porém mais para frente ele conheceu mais afundo a
representatividade dele fora dos palcos. Para o Leonardo, "o Chorão foi uma
pessoa muito controversa, mas ele tem a consciência de que foi um dos maiores artistas que esse pais já produziu e ele ainda fala: “O legado que
o Chorão deixa, na minha opinião, é que devemos ser quem quisermos, não o que a sociedade nos impõe, e esse legado não foi apenas para o rock, mas
para o rap e hip hop também”, acrescenta Leonardo.
Os anos passarão e o artista e sua banda vão continuar crescendo porque o legado dele será para a eternidade. De geração para geração as suas músicas, seu estilo e seus ideais permaneceram porque os gênios nunca morrem, eles permanecem vivos por todo o sempre, nas lembranças e saudades dos seus fãs. São essas pessoas que jamais deixarão sua herança ser esquecida, muito pelo contrário, elas vão passar a sua arte para aqueles que não o conhece, por conta disso que o Alexandre Magno Abrão, o Chorão ficará marcado na memória.