Neste mês de abril, estrearam mostras inéditas na Biblioteca Mário de Andrade, no Centro de São Paulo. A temporada está aberta para visitação até o dia 4 de junho e conta com produções de Marcelo Solá, Francisco de Almeida e José de Quadros. Os artistas têm diferentes trajetórias e tratam de aspectos da arte urbana, cultura do nordeste e história do Brasil, respectivamente.
Em entrevista à AGEMT, Tereza de Arruda, curadora das três exposições independentes, diz que as mostras foram elaboradas especialmente em diálogo com o espaço e o acervo da Biblioteca.
José de Quadros e Marcelo Solá realizaram pesquisa no local, selecionando fotografias, desenhos e narrativas que colaborassem com sua própria linguagem enquanto artistas e com o material guardado pela biblioteca. Já Francisco de Almeida buscou se conectar à arquitetura e condições espaciais do local.
Tereza explica que esse tipo de prática na montagem de exposições é comum no mundo da arte, porém é a primeira vez que ocorre na Mário de Andrade. "Funciona quase como um programa de residência artística na biblioteca". O objetivo é trazer visibilidade ao acervo.
Do Brutalismo à Vertigem no Olhar, de Marcelo Solá
"A Mário de Andrade é como um oásis", diz Tereza. A cena paulistana no entorno do edifício é composta por muitos ruídos, poluição sonora e visual, trânsito, caos urbano. A Biblioteca, no entanto, é revestida de mármore bege, conta com pé direito gigantesco e silêncio.
Na entrada, o visitante encontra a obra de Marcelo Solá, "Do Brutalismo à Vertigem do Olhar", que proporciona uma experiência de transição entre o externo caótico e o interno calmo.
O artista possui uma linguagem "bem expressionista, abstrata, gestual", observa a curadora. Assim, leva a linguagem urbana, dos grafites e pichações em um movimento de "demarcar territórios, conseguir visibilidades em busca de reconhecimento e pertencimento" para dentro da Biblioteca.
A produção foi feita em modelo site-specific (especialmente para o prédio), com base em imagens e fotografias da época de sua construção, extraídas do acervo. O artista selecionou e produziu serigrafias em azul sobre fundo vermelho, gerando profundidade espacial, como analisa Tereza.
A curadora entende que Solá realizou uma proposta complexa, que foi muito bem avaliada pelo público que acompanha seu trabalho. "Estamos tendo uma resposta positiva". O artista também se desprendeu de seu suporte usual, o papel, e conseguiu criar utilizando a parede "em produção efêmera, temporal, como a arte nas ruas".
A curadora ainda ressalta que "a Biblioteca é um ponto de apoio para muitas pessoas em situação de rua, importante que reconheçam parte do universo em que vivem ali".
O Vulcão do Meu Peito Explodiu, de Francisco de Almeida
Diferente de Marcelo, Francisco de Almeida não trabalha diretamente com o acervo da Biblioteca, mas com a arquitetura. Apenas a alguns metros depois dos tons vermelhos e azuis de Solá que é possível avistar um salão redondo, com cúpula alta e janelas enormes de vidro. Através delas, estão belas árvores escuras que contrastam no mármore claro.
É nesse cenário que a exposição de Francisco de Almeida se encontra. Gigantes telas estão penduradas por fios no teto e o "verde funciona como uma espécie de moldura", diz Tereza.
A curadora conta que o lugar onde a exposição de Francisco está "dá um ar de catedral, de contemplação que é merecido, especialmente em processo de reparação histórica". O artista é nordestino, natural do Ceará. Tereza aponta que o centro de São Paulo é destino de muitos migrantes que, infelizmente, tantas vezes acabam à margem da sociedade paulistana e sofrem preconceitos.
A curadora conta que Francisco sofre de uma doença degenerativa, em que perde movimentos e força progressivamente. "Ele criou a técnica da xilografia expandida, para atender as condições que estava, de maneira quase que inacreditável (...) utiliza mesa e se apropria de colheres de pau com haste, apoia no ombro e tira o resto da força que tem para fazer pressão. Muito, muito singular a forma dele de produção, sua magnitude e representatividade".
Tereza diz que a influência da cultura nordestina está em toda parte da obra do artista. "A xilogravura vem de uma tradição de literatura de cordel. Optamos por colocar o trabalho dele em suspenso por isso."
Francisco trabalha temas que vão do trivial ao sagrado, com destaque às figuras femininas em forma de deusas que, para Tereza, se deve às mulheres que sempre lhe dedicaram cuidados, mãe e avó. Tons de dourado são frequentes em virtude do pai, que era ourives, e há resquícios da linguagem das artes manuais populares do nordeste nas suas telas, como a renda e o bordado, praticados pelas mulheres em sua família.
Eu Sou Sua Comida Saltitante, de José de Quadros
O último andar da Biblioteca Mário de Andrade reserva aos visitantes uma experiência multissensorial. Um terraço com vista para a copa das árvores, prédios da década de 20 e arquitetura em art deco, caracterizada pelas formas simétricas e harmônicas, constrói junto ao som dos grupos de samba, que se apresentam no restaurante logo abaixo, um ambiente cultural. À frente, um prédio com a face do escritor Mário de Andrade.
Na sala ao lado, está a exposição de José de Quadros, que traz aspectos da história brasileira. O prédio mencionado faz parte do acervo da Biblioteca e foi lá que o artista levantou as mais de 5 mil fotos de livros e revistas usados para o seu trabalho nesta exposição, diz a curadora.
Sua produção se concentrou nas narrativas de Brasil que datam do século XVI – com registros sobre a população indígena e originária, feita pelo pesquisador Hans Staden e parte do acervo da Biblioteca – até movimentos modernistas na década de 1920.
Elementos religiosos, históricos e culturais são representados entre uma estética que combina desenhos em vermelho, folhas de jornal e outros objetos. É possível interpretar as obras através de pequenos fragmentos e do todo – que compõe o conjunto do olhar histórico representado.
Serviço:
Do Brutalismo Urbano à Vertigem do Olhar, Marcelo Solá;
O Vulcão em Meu Peito Explodiu, Francisco de Almeida;
Eu sou sua comida saltitante, José de Quadros;
De 01/04/2023 até 04/06/2023
Funcionamento:
Terças às Sextas: 9h - 21h
Sábados e Domingos: 9h - 18h
Biblioteca Mário de Andrade
R. da Consolação, 94 - República, São Paulo - SP, 01302-000
Metrô: Estação República (4 minutos à pé)
“Bike, bice, magrela… alguém aí chama a bicicleta de camelo? Renato Russo chamava” pergunta Taciana Ramos, vocalista do grupo Pequeno Cidadão, para uma plateia com muita energia e menos de 1,40m de altura. A introdução para a música ‘Bice bike magrela’ em um show no Sesc Vila Mariana mostra a mistura de idades e assuntos que une a banda, falando sobre todo tipo de coisa para e com as crianças, fazendo da brincadeira coisa séria, em alto e bom tom.
A Pequeno Cidadão explodiu no meio dos baixinhos quando “O Sol e A Lua” e “Pequeno Cidadão” apareceram na trilha sonora da novela Carrossel (SBT), apesar de fazerem música antes disso. Formada em 2010 por Taciana Ramos (Gang 90 & Absurdettes) , Edgard Scandurra (Ira!), Antonio Pinto (trilha sonora de ‘Amy’, ‘Cidade de Deus’) e seus filhos, cantavam juntos a experiência de estar crescendo e entendendo os lugares e pessoas pela primeira vez. Segundo a banda, o som é “música psicodélica para crianças bagunceiras e muito sabidas”. Os adultos trazem a sonoridade do rock que conhecem de carreira, e os baixinhos chegam com as letras. Com a plateia, todos se divertem fazendo música infantil - mas nada infantilizadora - sobre coisas reais da cidade e do cotidiano da perspectiva de quem ainda está descobrindo o mundo.
“Pais, se comportem aí": o show é dos pequenos
Imagem por: Maria Eduarda dos Anjos.
No Teatro Antunes Filho, na Vila Mariana, não se passaram nem 20 minutos até que só os pais estivessem nas cadeiras, e o pé do palco estivesse lotado de quem realmente veio ver a Pequeno Cidadão. Quando Taciana perguntava, eles respondiam, pulavam e gritavam quando sua música preferida entrava, eram como qualquer outra plateia vendo sua banda favorita. “Nossos shows, não sei se tem a ver com o rock, mas é contagiante. Por mais que pedimos que não venham [para frente do palco] , não corram, desde o primeiro, eles se soltam assim”, a vocalista conta.
Fã é fã em qualquer idade, mas unir essa faixa etária a um ambiente de música pede uma preparação especial. Malabarizando - literalmente - entre elementos lúdicos e sonoros, a banda convida o público a entrar na música para além dos ouvidos. O artista corporal Wallace Kyoskys cruza o palco dando piruetas e jogando claves e bolas para cima entre uma música e outra, infláveis sobem e descem e uma bola gigante é jogada à plateia, um jogo entre o lado de lá e o lado de cá do palco. Esse jeito de show-brincadeira apaga a linha que divide público e artista e cria uma experiência colaborativa de todos ali, não importa o que saibam tocar, não importa a idade que tenham.
Responsabilidade de gente grande
Do lúcido ao prático, as letras versam sobre tudo que pode caber no universo infantil: alegrias, bichos, desafios, tristeza, amor, esportes e muito mais. Muitas são composições que Taciana e Edgard criaram em casa para seus filhos, como a repetitiva “mamãe tamo chegando?”, que musicou uma viagem de carro de Taciana com os filhos. “Futezinho na escola” se trata de um dia normal na hora do recreio com os amigos, “Sk8” conta sobre truques no skate e “Tchau chupeta” fala exatamente sobre o que o título sugere. As canções se debruçam sobre o cotidiano da infância como pouquíssimos outros artistas fazem e que, se comparado à produção musical ao público adulto, abrange uma gama muito maior de temas, feito por uma banda só.
O objetivo dessas letras é formar pequenos cidadãos da Terra. Em doses homeopáticas, como quando se descobre o que é desperdício de água na escola e o que acontece com o lixo que produzimos, as crianças começam a entender o que é locomoção urbana e como a cidade molda o espaço que vivem. ‘Bice Bike Magrela’ fala sobre faixas de ciclismo na avenida, ônibus e engarrafamento, o perfeito gancho para fazerem o que as crianças fazem tão bem: perguntar o porquê as coisas são como são e como funcionam, e assim começarem a entender sobre poluição, trânsito e cidadania. Na faixa ‘Pequeno Cidadão’, os direitos e deveres começam em casa com a hora que pode escovar os dentes, jogar videogame, fazer a lição e amarrar o sapato.
Pais & filhos
Imagem por: Maria Eduarda dos Anjos.
Enquanto os menores trazem as experiências, os adultos completam com a melodia, cada lado ensinando e aprendendo como pode. No começo, Scandurra relembra durante entrevista para AGEMT que “pensava em fazer um projeto musical que chamasse nossos filhos para participar porque nós ficávamos muito tempo longe de casa, então era um plano para chamá-los para o nosso universo, não só de show mas também de gravação. Fizemos 3 álbuns com eles em estúdio, entendendo os arranjos, cantando e repetindo”.
Essa aproximação também era vontade dos fãs que conheceram esses músicos com cerca de vinte anos e agora criam pequenos cidadãos. “No começo foram fãs do Ira!, da Gang 90 [bandas que ocuparam maior parte da carreira de Scandurra e Taciana, respectivamente] que queriam mostrar pros filhos o guitarrista que tocava na banda que eles gostaram, mas depois expandiu", ela comenta. E mesmo os pais que só estavam lá com os filhos acabam virando fãs das melodias misturadas com o dia a dia de estar formando um ser humaninho que ganha espaço no mundo.
Enquanto as crianças que primeiro ocuparam os microfones do Pequeno Cidadão já estão com idade para votar, filhos de amigos entram para substituí-los no espetáculo. Carmen Ferreira, Vic Ferreira e Manu Ferreira foram as que assumiram o palco no Sesc Vila Madalena. Elas contam que uma das partes mais legais do show, além dos infláveis e “o homem da caveira” - mesmo artista que fez os malabarismo e piruetas em outra hora - é se apresentar para pessoas que poderiam ser seus colegas de classe. Ver gente da mesma idade cantando e se divertindo debaixo dos holofotes é uma das razões pela desinibição das crianças durante a apresentação e o que faz aquilo tudo tão único.
Cidadão para ouvir, ler e assistir
A Pequeno Cidadão realmente criou um ecossistema em torno da vida infantil, invadindo programas de TV, novelas, livros e até jornal. A canção “O Sol e a Lua” explodiu depois de aparecer em um episódio da novela Carrossel, e outras composições inspiraram livros como ‘Tchau Chupeta’ (Leya) e ‘Sk8 - Manual do pequeno skatista cidadão’ (Companhia das Letrinhas). Fruto de um estalo criativo, Tatiana criou o Jornal Pequeno Cidadão, que teve 17 edições produzidas por ela mesma e com colaboração de amigos que liam e queriam se envolver no projeto. Isso resultou em uma coletânea de curiosidades sobre a natureza, tutorial de acordes para as músicas da banda, letras de composições de outros artistas, receitas da vovó e reflexões sobre o mundo. Em qualquer que seja a mídia, a recepção e envolvimento dos baixinhos de ver e poder produzir algo sobre si é genuína - afinal, não é todo dia que, ao invés de dizer que é hora de ficar sentado e bonzinho, falam que é hora de ‘gritar bem alto e correr bem rápido”.
Nos últimos dois fins de semana, a 22a edição do festival Coachella trouxe cor e música aos desertos da Califórnia. Este ano contou com apresentações de Bad Bunny, BLACKPINK, Rosalía, Frank Ocean e trouxe diversas surpresas como Blink-182 e participações de The Weeknd, Sia, Billie Eilish e Zendaya.
O festival que reúne os amantes de música com as pessoas mais influentes dos Estados Unidos e do mundo não fez diferente neste ano. Em meio a diversos artistas encontrados nas plateias dos shows como Justin Bieber, Kate Hudson e Kendall Jenner (com Bad Bunny), tivemos também o "comeback" do casal que dominou o Billboard Hot 100 por 37 semanas com a música "Señorita", Camila Cabello e Shawn Mendes.
Esta edição não decepcionou no quesito da representatividade. Além de Becky G homenagear Selena - precursora da música latina nos EUA - com um medley de suas canções e a banda indie Boygenius protestar contra a violência armada e leis anti-transgênero que estão se espalhando pelos EUA, o Coachella também contou com dois headliners que fizeram história: Bad Bunny, como o primeiro artista latino a ocupar esse posto, e BLACKPINK, como a primeira banda de K-POP a fazer o mesmo.
Mas, boas notícias não poderiam vir sem polêmicas. Durante a apresentação de Bad Bunny na primeira semana do festival, o telão exibiu um tweet que dizia em espanhol: “Boa noite, Benito poderia fazer ‘As It Was’, mas Harry nunca poderia fazer ‘El Apagon’”. Após uma grande repercussão pelos fãs sobre a considerada indireta ao cantor Harry Styles, a assessoria de Bad Bunny fez uma declaração que não trouxe muita justificativa: "A solicitação do artista durante os visuais da performance de ‘El Apagón’ foi usar apenas a imagem e não o texto do tuíte que nos responsabilizamos e corrigimos para a performance [da próxima] sexta-feira. Esses visuais são uma celebração de Bad Bunny e sua dedicação em fortalecer sua ilha natal, Porto Rico”. O cantor, porém, fez um tuíte com a mesma imagem se desculpando para Harry pelo erro.
Outro imprevisto ocorreu quando Frank Ocean, depois de sugerir que um novo álbum está a caminho na sua apresentação do primeiro dia, teve uma lesão na perna e precisou ser substituído no segundo fim de semana pela banda que era apenas convidada surpresa, Blink-182. Mas quem acabou fechando a noite para preencher o tempo de Frank foi Skrillex que, com um diferente setlist e jogo de "beat drop" contendo músicas como "Love Story" de Taylor Swift e "Call Me Maybe" de Carly Rae Jepsen, fez a plateia ir a loucura e se esquecerem da ausência de Frank.
O DJ, afinal, já está acostumado a lidar com os imprevistos de outros artistas e aproveitar a oportunidade da melhor maneira. No Lollapalooza Brasil deste ano, por exemplo, Skrillex substitiu o artista Drake com sucesso ao apresentar set um com músicas brasileiras e com suas faixas mais famosas. O festival no Brasil contou com vários cancelamentos pouco esclarecidos de artistas que acabaram se apresentando no Coachella, como Blink-182, Dominic Fike e Willow.
O inesperado, porém, não age sempre como inimigo. Participações surpresas fizeram barulho nos dois fins de semana do Coachella. Metro Boomin trouxe Future e The Weekend, que quase se queimou com efeitos pirotécnicos e teve sua mão "Lost in the Fire", após apresentar seis das suas mais populares músicas. Mas quem realmente roubou a cena foi Labrinth, que não se contentou em trazer apenas grandes nomes da música como Sia (com sua dançarina de longa data Maddie Ziegler) e Billie Eilish, mas também trouxe Zendaya - a atriz ganhadora de Emmys - para dar um "Replay" na sua carreira de cantora, fazendo sua primeira performance em 8 anos. A ex-estrela da Disney cantou as músicas temas da sua série "Euphoria": "I'm Tired" e "All of Us".
A cultura japonesa é muito famosa ao redor de todo mundo e está presente no ocidente de diversas maneiras, com os populares restaurantes, as artes marciais e também com outra forte indústria que vem crescendo bastante nos últimos anos, incluindo em nosso país: os animes/mangás.
Os mangás são histórias em quadrinhos japonesas com seu estilo próprio de desenho, e que também têm sua tradicional maneira de ser lida “de trás para frente” (da direita para a esquerda). Já os animes são a versão animada dos mangás, exibida em forma de filme ou seriado.
Capa da revista japonesa Shonen Jump, que contém capítulos de obras famosas, como One Piece, Naruto, Bleach e muitas outras publicações semanais ou mensais.
Os animes se popularizaram de fato no final dos anos 90, início dos anos 2000, com muitas obras sendo transmitidas na TV aberta em canais como a Rede Globo e SBT, com foco no público infantil, sendo exibidas obras famosas e de muito sucesso como Pokemon, Dragon Ball, Cavaleiros do Zodíaco e várias outras. Mas recentemente o crescimento vem aumentando de maneira significativa: a indústria de animação japonesa cresceu mais de 13% entre 2021 e 2022, gerando um lucro de 20,6 bilhões de dólares, cerca de 105,5 bilhões de reais, com o anime One Piece sendo a série de maior audiência do serviço de streaming Netflix, superando produções como Wandinha e Stranger Things. A obra de Eiichiro Oda (autor da série japonesa) também bateu um recorde nos quadrinhos, ultrapassando o famoso Batman, atingindo a marca de 490 milhões de exemplares vendidos e se tornando a segunda série de quadrinhos mais vendida da história, atrás apenas de Superman.
As causas desse crescimento recente são muitas. Para entendê-las, a Agemt entrevistou o criador de conteúdo Narrativando (do canal Narrativando no YouTube), que faz vídeos assiduamente sobre o assunto e acompanha o cenário desde 1999. De acordo com ele, o crescimento se deu por três motivos principais: maturação da mídia, acessibilidade (com a difusão da internet, por exemplo ) e a qualidade visual dos animes. Outro ponto também é o fato que as pessoas que tiveram o primeiro contato com as animações atualmente são adultas, ajudando assim a consumir e repassar a cultura para as próximas gerações com maior facilidade.
Outro fator citado por Narrativando são os streamings: “Os streamings ajudaram sim a popularizar, pois é mais fácil de achar conteúdo ficando consolidado em um só lugar, assim não precisando mais usar sites piratas para baixar, como era na minha época”. Essa afirmação também se comprova com dados, pois em 2022 os serviços de streaming relacionados à indústria de animações japonesas registraram um lucro de um bilhão de dólares, um aumento de 65,9% em relação ao ano de 2020.
Imagem do anime One Piece. Foto: Shueisha / Toei Animation / Divulgação
O criador de conteúdo também diz que a cultura nerd no geral também está em alta, se tornando parte da cultura considerada popular e não mais algo de nicho, citando como exemplo a franquia Marvel nos cinemas, com os super-heróis também deixando de ser algo reservado a uma comunidade. Outro exemplo é o dos videogames, como Counter Strike, que assim como os animes tinha uma certa fama nos anos 2000, mas foi recentemente que chegaram a outro patamar de popularidade.
A tendência é o crescimento continuar, após sucessos de audiência e vendas alcançando diferentes públicos e faixa etárias. Com uma comunidade nas redes sociais ativa e acolhedora, é possível dizer que a indústria dos anime/mangás conquistou de vez seu lugar na cultura brasileira.
Segundo a quinta edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, realizada
pelo Instituto Pró Leitura entre 2019 e 2020, é considerado leitor quem leu pelo
menos um livro nos últimos três meses. Ainda de acordo com a pesquisa, a
porcentagem de leitores no país é maior que a de não leitores e o hábito da
leitura é mais frequente entre estudantes.
A principal motivação para a leitura é o gosto, principalmente entre os
estudantes mais jovens. Enquanto isso, os estudantes do ensino superior são
uma parcela significativa dos que leem livros que adicionem ao seu
aprendizado. Da lista dos livros mais lidos pelos brasileiros, se destacam obras
como Diário de um Banana, Turma da Mônica e Harry Potter, voltadas para o
público infanto-juvenil. A internet tem um papel importante no hábito de leitura
dos brasileiros. Mesmo não sendo a principal atividade realizada digitalmente,
a leitura é significativa nesse meio. No caso dos livros digitais, eles são lidos
principalmente nos celulares, baixados gratuitamente, e mais consumidos por
adolescentes e jovens adultos.
Com a possibilidade de leitura on-line, os influenciadores digitais com foco em
literatura ganharam mais espaço com a expansão de redes como o TikTok, em
especial entre o público jovem. Em entrevista, três criadores de conteúdo
literário compartilharam suas experiências e percepções sobre seu nicho de
atuação.

(Jess Martins/ Foto de arquivo pessoal)
Jéssica Martins (@surtandonasleituras) começou seu perfil no TikTok em
2020. Em geral, suas leituras são de romances eróticos. Ela escolheu essa
temática por ser maioria entre os livros que consome e por passar, segundo
ela, a mensagem: “Você pode ler o que quiser. Jamais deveríamos ser julgadas
por isso”. Jéssica diz que, apesar da aceitação cada vez maior, ainda existe um
tabu em torno da leitura de livros eróticos. “Muitas pessoas ficam chocadas em
como falamos tão abertamente sobre (livros eróticos) ..., mas as redes estão
ajudando a levantar mais esse tema.”
A criadora de conteúdo conclui dizendo estar feliz com o crescimento do nicho
literário nas redes sociais, pois isso significa um aumento na quantidade de
leitores.

(Leo Alves/ Foto do Instagram)
Leo Alves (@theleoalves) começou em 2020 o projeto de produzir vídeos
sobre literatura. Leo gera conteúdo para o TikTok, Instagram e YouTube. Seu
critério para a escolha das leituras é ler o que lhe dá prazer. “O principal na
criação é pegar o que eu gosto e elaborar um vídeo que seja diferente e que
seja possível mesclar com outras mídias como as adaptações de filmes e
séries.”
Segundo Leo, seu público hoje é mais de 50% feminino e jovem, que gostam
de sua opinião sobre os romances que viralizam no booktok, como é chamado
o nicho literário da rede. Ele avalia que as redes como as quais trabalha
influenciaram positivamente na leitura entre jovens, “O Booktok está aí como
prova disso. Muita gente está compartilhando como desenvolveu o hábito de
leitura de 2020 para cá. Sem falar nas listas de mais vendidos, que são livros
muito comentados na plataforma”, comenta.
Leo diz que, inicialmente, teve receio de que o booktok fosse apenas uma
tendência rápida. No entanto, ressalta: “De 2019 para cá deu para perceber
como a internet mudou e as tendências vão surgindo. A moda hoje são os
vídeos curtos e rápidos, mas eu acredito que, quando ela se reinventar, o
cenário dos criadores vai junto”.

(Patrick Torres/ Foto de Arquivo Pessoal)
Patrick Torres (@patzzic) começou no TikTok em 2020 e utilizava a rede para
produzir vídeos para entreter uma amiga. Certa vez, a amiga demorou para ver
o vídeo, que viralizou na rede. Logo ele se consolidou como influenciador
literário. Patrick usa técnicas como contar a história do livro como se fosse a
sua e só depois revelar a verdade e compartilhar curiosidades sobre a vida dos
autores.
Os livros que Patrick mais lê são os clássicos. A tradução que faz da linguagem
rebuscada desses livros para se aproximar dos jovens ajuda a literatura
brasileira a sair do meio acadêmico para adentrar o cotidiano daqueles que
consomem o conteúdo do influenciador.
As redes sociais revolucionaram a forma de divulgar produtos e com os livros
não foi diferente. Atualmente as redes de mais influência são o TikTok e o
Instagram. “Hoje em dia as editoras estão mirando muito em cima do TikTok
para o público jovem e um pouco no Instagram”, diz o diretor comercial e de
marketing da Rocco, Bruno Zolotar.
Conforme Zolotar, a editora Rocco tem aproximadamente 120 influencers nas
redes. Nem todos são do mesmo gênero. Na Rocco eles mandam dois ou três
livros por mês para os influencers publicarem.
Na editora Aleph, por sua vez, a divulgação funciona diferente. Há um
calendário de publicação com pré-venda e lançamentos. “Nossa principal rede
social é o Instagram, mas nós estamos no Twitter, no Telegram e no TikTok”,
afirma Júlia Serrano, analista de marketing da Aleph.
Júlia acredita ser praticamente impossível fazer marketing sem o apoio de
influenciadores, em especial no mercado editorial com indicações de livros. “Se
você acompanha alguém nas redes sociais, conhece o gosto dela. Então,
quando ela indica um livro, você pensa: ‘eu gosto do mesmo livro que ela,
talvez eu goste deste’”.
Ainda que os influencers ganhem pelas suas publicações, há quem faça de
graça, como aconteceu na Rocco. “Tivemos o Felipe Neto falando de graça de
livro nosso, porque livro é uma causa. Elas falam de graça, elas querem
divulgar por causas importantes, incentivar a leitura”, conta Zolotar.