Atualmente, na programação de novelas da Globo, duas se destacam: ‘’Vai na Fé’’, no horário das sete da noite, e ‘’Travessia’’, que ocupa o horário nobre da emissora. As novelas vêm chamando atenção nas redes e mídias sociais, uma vez que ‘’Vai na Fé’’ vem alcançando uma maior visibilidade e repercussão positiva com o público. Com duas tramas muito diferentes e atingindo públicos diversos, a novela das sete conquista o gosto dos telespectadores e alcançando alta audiência, enquanto a do horário nobre é alvo de críticas.
‘’Vai na Fé’’, escrita por Rosane Svartman, conta a história de Sol, protagonizada por Sheron Menezzes, uma evangélica que foi dançarina e luta para manter sua família em meio a dificuldades, mas sempre com muita esperança. A novela aborda dois núcleos que se conectam, a família e amigos de Sol, que vêm da favela e de uma vida humilde, como sua filha Jenifer, uma estudante universitária bolsista que se insere em uma realidade diferente, com digitais influencers, empresários, cantores e advogados de sucesso. ‘’Acho que é porque é uma novela com cara de novela, ao mesmo tempo que tem um texto muito bem-feito e personagens interessantes. Acredito que ganhe também na questão da diversidade. A protagonista também é um ponto alto. Acho que as questões que ela enfrenta, inclusive as ligadas à religião, são muito reais. É fácil do público se identificar. É uma novela competente ", analisa Larissa Martins, redatora do canal e site Coisas de TV.
Novela escrita por Glória Perez, estrelada por Jade Picon, Chay Suede, Lucy Alves e Rômulo Estrela, ‘’Travessia’’ sofre com polêmicas antes mesmo de seu lançamento. A escalação da ex-BBB e influencer Jade gerou uma onda de julgamentos por parte do público, por se tratar de uma atriz inexperiente de 21 anos em um papel de protagonismo, enquanto Lucy Alves, cantora e atriz profissional, só conseguiu um papel de destaque aos 37 anos, após diversos trabalhos na TV Globo. A trama explora o universo da inteligência artificial, a ganância dos personagens, assexualidade, o mundo digital e seus perigos, se passando em um ambiente elitizado.
‘’Acho que 'Vai na Fé' fala muito com o público. 'Travessia' parece desconectada do real", comenta Martins.
Historicamente, o público brasileiro se identifica mais com novelas que se aproximam de sua realidade, principalmente da população de mais baixa renda, como em ‘’Salve Jorge’’, ‘’A Força do Querer’’, ‘’Pantanal’’ e ‘’Bom Sucesso’’, está escrita pela mesma autora de ‘’Vai na Fé’. Assim, a novela das sete caiu no gosto popular e está sendo aclamada pela crítica e pelo público. Um exemplo foi durante o Carnaval deste ano, em que o ator José Loreto gravou uma cena em cima do trio elétrico de Ivete Sangalo caracterizado como seu personagem, o cantor Lui Lorenzo, e levou a pipoca à loucura cantando seu hit ‘’Pool Party’’.
Por outro lado, a novela das nove se distancia do público quando a maioria dos seus personagens vive uma realidade diferente da do brasileiro médio, com casas luxuosas, roupas de grife e um lifestyle invejado. A falta de profundidade e discursos sociais na trama abaixou os pontos de audiência em relação à sua antecessora ‘’Pantanal’’, sucesso grandioso da Globo, que manteve uma média de 30 pontos, enquanto ‘’Travessia’’ se estabilizou em 26. Sendo alvo de chacota e rejeição, a novela não se garante como um sucesso e pode cair em esquecimento após seu final.
O canal de streaming Globoplay é uma ferramenta de alavancamento da audiência e contribuiu para manter o sucesso de novela de Rosane Svartman. ‘’No canal recebemos muitos comentários de pessoas que dizem que não podem ver no horário em que as novelas vão ao ar, mas que assistem ou maratonam no streaming. Acho que influencia muito na repercussão’’, exemplifica Martins. Dessa forma, a viralização de ‘’Vai na Fé’’ nas redes sociais faz com que as pessoas que não conseguem assistir em seu horário de reprodução procurem a plataforma para acompanhar a novela sem perder nenhum capítulo.
Adaptada do livro best-seller de Taylor Jenkins Reid, Daisy Jones & The Six chegou à Amazon Prime Video no início de março deste ano e conta a história de uma banda fictícia que fez sucesso na década de 1970. Em uma série de dez episódios, produzida pela Hello Sunshine (produtora da ilustre atriz de Legalmente Loira, Reese Witherspoon), os fãs conseguiram ouvir as canções originais da banda, disponibilizadas em diversas plataformas de áudio e em versões físicas, no álbum denominado "Aurora".
Witherspoon teve participação direta no sucesso da obra, já que ele entrou para a lista dos mais vendidos do New York Times após a atriz escolhê-lo para o seu clube do livro. Em entrevista ao The Hollywood Reporter, ela disse que se sentiu como uma “tia orgulhosa”, após o lançamento da série. Publicado em 2019, o livro tem formato de entrevista e está ambientado décadas depois do sucesso e da misteriosa ruptura da banda. Também são usados cartas, e-mails e letras de músicas dos personagens, para compor o enredo.
A história começa no estado da Filadélfia, com os irmãos Dunne (Billy e Graham). Eles formam uma banda, que algum tempo depois se muda para Los Angeles, na Califórnia, em busca de ascensão na cidade do rock ‘n’ roll. Lá se juntam com Daisy Jones, uma garota envolvida em muitos conflitos, por insistência do empresário Teddy Price, para o lançamento de uma música. A parceria faz mais sucesso que o esperado, e rende um álbum e uma turnê repleta de shows esgotados.
Na série, o elenco conta com Riley Keough - neta de Elvis Presley - dando vida a Daisy Jones e o experiente Sam Clafflin como Billy Dunne, os vocalistas da banda. Suki Waterhouse (Karen), Will Harrison (Graham), Sebastian Chacon (Warren) e Josh Whitehouse (Eddie), completam os “The Six”, e Camila Morrone interpreta Camila, esposa de Billy na trama.
A adaptação transita entre os trechos das entrevistas e relatos dos personagens, como no livro, mas também mostra os flashbacks do que aconteceu nos anos em que a banda ainda existia. Porém, o roteiro sofreu alterações em relação à referência escrita. A principal delas é o corte de um dos integrantes da banda. No livro, o sexto membro é Pete Loving – irmão de Eddie, que na série leva o sobrenome Roundtree –, substituindo um antigo guitarrista, que morreu na Guerra do Vietnã; mas Pete não chega a ser mencionado na produção. Na série, o nome The Six se mantém, e para justificá-lo, os produtores afirmam que Camila é a integrante honorária da banda, uma vez que está junto desde a formação, e acompanhou o marido desde os primeiros ensaios e shows.
Algumas outras mudanças ocorreram, mas não foi necessário realizar outras grandes alterações no roteiro. Neste caso, também houve a suavização na forma em que as drogas foram introduzidas na série, que tem classificação indicativa para maiores de 16 anos. O livro, em contrapartida, expõe explicitamente o uso de diversas substâncias ilícitas pelos personagens, reforçando a ideia de “sexo, drogas e rock and roll” da época. Isso permite uma nova audiência, um público mais jovem entra em cena para acompanhar a série. Will Graham, que dirigiu um dos episódios, também se opôs à ideia de a série buscar apenas o público feminino: “Esta é uma história sobre pessoas que vivem com paixão”, disse em entrevista à Forbes. “Sou não binário e acho que parte do que me atraiu no livro e no que Taylor fala é que Daisy e Billy realmente contrariam todas as nossas contrariam todas as nossas expectativas do que homens e mulheres pareciam naquela época.”, complementou.
A produção visual permite a adição de elementos à obra que retratam a identidade visual dos anos 70. Os figurinos dos personagens, a fotografia e a trilha sonora permitem que o público seja transportado à badalada Los Angeles de décadas anteriores, sem tirar os olhos da tela. As músicas inéditas, e tão aguardadas pelos fãs, são baseadas nas letras escritas pela autora do livro, que estão no final da obra original e foram produzidas exclusivamente para a série. Compostas por Blake Mills, alguns artistas famosos colaboraram na produção do álbum “Aurora” que fez grande sucesso no Spotify, com pouco mais de 3 milhões de ouvintes mensais.
De acordo com a própria autora, todo o processo de compra dos direitos de adaptação aconteceu muito rápido em relação a outros projetos. Mas nem todos os livros são traduzidos para a linguagem cinematográfica. Para Brad Mendelsohn, produtor-executivo da série, o que o trabalho de Reid tem de diferente, é que ela cria personagens incríveis e os coloca em situações que todos nós já vivemos ou gostaríamos de viver, independente do período na história. “No fim das contas, ela tem uma visão da condição humana que considero extremamente atraente”, continuou, em entrevista concedida ao site Collider.
A expectativa ao redor de adaptações é muito alta por parte dos fãs. Por esse motivo, a autora reforça a importância de se manter fiel ao material de referência, e entender como fazer a adaptação do roteiro, além de adicionar elementos e expandir a história, que está sendo contada pela segunda vez ao público.
Autora de romances conhecidos por fazerem sucesso nas redes sociais, Taylor Jenkins Reid terá pelo menos outros dois trabalhos saindo do papel. Até o momento, além de Daisy Jones & The Six, Os sete maridos de Evelyn Hugo (2017) e Amore(s) Verdadeiro(s) (2016) também tiveram seus direitos de adaptação comprados, já estão em produção e devem estrear na TV e no cinema nos próximos anos.
O cinema sempre foi diverso e repleto de criaturas fantásticas, míticas e curiosas, a maioria criada para despertar medo e pavor em quem assiste. Guillermo Del Toro é especialista em fazer isso: fortes emoções não faltam a quem assiste seus filmes, e seu último não fez por menos. A sua recriação de Pinóquio foi o ganhador do Oscar de 2023 de Melhor Animação e é totalmente distinto do desenho que Walt Disney popularizou.
O longa conta a história clássica, mas seus detalhes são diferentes. Ambientado no contexto da Primeira Guerra Mundial, o filme mostra uma visão sobre o fascismo que talvez nenhum outro filme infantil seria capaz de expressar. Seus personagens são criados a partir da tecnologia de stop motion, e junto às características sombrias que o diretor os deu, se tornou uma animação mais real do ponto de vista social. Com relâmpagos e sombras, ele transforma o desenho infantil em um desenho de horror sobre a realidade, a guerra e as estruturas sociais vigentes, e é essa mudança que os monstros foram encarregados de representar no cinema.
Guillermo Del Toro é muito conhecido por suas representações monstruosas e diferentes das convencionais. Diretor de filmes como O Labirinto do Fauno e A Forma da Água, ele busca representar o monstro, feio, estranho, diferente, como um estimulante do medo e ao mesmo tempo criar uma complexidade emocional nos personagens monstruosos.
Apesar do diretor mexicano ser um dos mais famosos criadores de universos míticos, antes dele, muitos outros filmes e livros já mostravam o monstro como o produtor do medo nas pessoas. Talvez uma das inspirações para a produção tenha sido Frankenstein, uma criação de Mary Shelley no início do século 19 e um dos primeiros escritos sobre o amor em uma criatura sem sentimentos. O monstro feito a partir de partes de corpos de pessoas mortas, feio, que causava horror em quem o via, conhece o sentimento do amor e sai à procura de uma mulher para amar, mas ninguém suporta sua imagem horrorosa.
Tido como um dos pioneiros dos monstros na literatura, ele inspirou a representação do relacionamento do feio com o sentimental, do caráter com a beleza exterior. Tim Burton e Steven Spielberg também foram exploradores, mesmo que mais modernos, dessa característica. Edward Mãos de Tesoura, A Noiva Cadáver, E.T. e muitos outros, são filmes dos diretores que se apoiam nessa temática de horror e sentimentalismo. A questão neles é o apelo ao medo que as pessoas têm do desconhecido e como isso se transforma durante o conhecimento do humano e do monstro simultaneamente.
Imagem: [Divulgação]
Apesar de muito comum hoje, poucos filmes que abordam o horror são vistos em grandes premiações. Pouco se fala sobre essa representação do desconhecido se tornando grandes blockbusters do cinema. O doutor em Cinema, Arte e Cultura Contemporânea pela UERJ e autor do livro: “O Monstro no Cinema”, Alex Barbosa, ao blog do site DarkSide, fala sobre dar voz ao horror nas abordagens sobre monstros. “O cinema de horror é marginal por ser muito potente e incomodar as estruturas mais conservadoras. É essencial dar voz e espaço ao horror.”, disse Alex.
Para ele, são realizações repletas de conteúdo do ponto de vista mais imediato, físico e objetivo do lugar do corpo nesse cinema de horror. “Passam pelos processos de compreensão mais filosóficos e de abordagem psicológica. São obras ricas para a pesquisa estética, da violência, do comportamento humano, da psique, dos processos de transmutação”, concluiu.
Quando Frankenstein foi escrito, Mary Shelley já pensava nessa transformação da relação do humano com a criatura diferente, do medo ao encantamento, e por uma separação de séculos, Pinóquio, que também traz essa reflexão, mostra que não há uma evolução na maneira como os monstros eram e são representados, sempre foram vistos como criaturas malignas e acabam se encontrando na história como seres puros e bondosos, apesar das aparências.
Barbosa confirma que essa transformação da representação do monstro no cinema nunca existiu, ou seja, tudo depende do momento em que aquela criatura quer ser representada. “Não há uma espécie de “evolução” da monstruosidade, seja no cinema ou na literatura. Existem elipses, referências, retomadas, retornos. O cinema (incluindo o de horror) realiza inúmeras releituras e retoma temas”, argumentou o autor.
Muitas das histórias que colocam o monstro como protagonista buscam mostrar que o verdadeiro monstro das histórias são os homens. O medo do desconhecido faz com que as criaturas sejam tidas como malvadas, assassinas e até excluídas de sociedades por suas características. Em Pinóquio ou Frankenstein, essa questão é clara, quando, mesmo que os dois sejam desconhecidos, estranhos e com uma aparência diferente dos demais, são criaturas merecedoras do amor e da compaixão do público.
Dessa forma, o cinema do horror e da monstruosidade questiona os ideais de perfeição, consciência e comportamento social, e assim cria o exercício de dissociar a feiura da maldade. Isso permite ao telespectador entrar em outra dimensão e refletir a partir do cinema de horror e da monstruosidade sobre a multiplicidade das questões humanas, a dicotomia entre “bem e mal” e “o bonito e o feio”, além de discutir a empatia e o que é realmente monstruoso na sociedade.
A música eletrônica vem conquistando grande repercussão nacional ao expandir seu público. Entretanto, a presença física não espelha os ouvintes gerais, já que, além das barreiras sociais, a elitização dos eventos impossibilita a democratização musical.
Nos últimos anos, principalmente com a volta dos eventos após a pandemia de Covid-19, a música eletrônica começou a conquistar mais ainda o espaço nacional e abriu diversas portas para DJs e produtores iniciantes que hoje em dia são renomados no mundo inteiro. Além disso, com a tecnologia cada vez mais avançada e o fácil acesso à internet, há oportunidade para muitos explorarem e conhecerem cada vez mais esse estilo musical.
“Com a informação na palma das mãos, muitas pessoas que nunca escutaram música eletrônica tiveram acesso a esse meio pela internet, então sem dúvidas isso ajudou a expandir mais ainda uma cena que antes era mais exclusiva aos amantes e frequentadores de festas”, afirma a DJ paulista Fernanda Pistelli, de 29 anos, anunciada como uma das atrações para a próxima edição da Tomorrowland Brasil, que será realizada em outubro, em São Paulo.
Com o avanço da tecnologia e o fácil acesso à música devido à internet, a música eletrônica tem despertado mais interesse no público, resultando em uma nova fase. Ao afirmar que o estilo tem sido redescoberto atualmente, Pistelli diz que “muitas mentes criativas se despertam e assim novas ideias ou estilos surgem a todo instante”. Além disso, com muitos artistas ganhando espaço no Brasil e no mundo, a relevância se torna ainda maior.
“Cada vez mais nossa geração vem ganhando notoriedade e espaço aqui e lá fora, muitos com vocais em português ou com grooves originais e acho que isso pode estar resultando na forma como muitas pessoas veem a eletrônica no cenário atual. É uma nova fase e sinto que os artistas estão se sentindo mais livres para criar. Acredito que o público também tem curtido acompanhar as evoluções”, afirma o DJ Duarte, do Rio de Janeiro.
Antes da expansão do gênero, as raves, surgidas em 1988 como um contraponto ao pessimismo dark dos anos 80, foram um importante instrumento para o desenvolvimento da música eletrônica. As casas noturnas europeias, influenciadas pelo sucesso dos eventos, passaram a tocar o gênero frequentemente, e festivais foram criados ao redor do mundo, fazendo sucesso e arrastando uma multidão de ouvintes até os dias de hoje.
Em meio a uma extensa variedade de festas e festivais eletrônicos e um grande público no país, o preço dos ingressos desses eventos acaba sendo um impasse na democratização do acesso, gerando um nicho padronizado de frequentadores. Ao ser questionada sobre a elitização dos eventos eletrônicos e altos valores de ingressos, Pistelli avalia que existe uma exclusão social e complicações para encontrar um equilíbrio sustentável, onde a conta feche e todos os trabalhadores sejam remunerados. “Vejo muitos festivais abrirem oportunidades para voluntários ajudarem no evento em troca do ingresso e eu acho isso o máximo”, conta a DJ e produtora.
Assim como Fernanda Pistelli, a DJ Carola representará a participação feminina, que ainda é muito pequena, nos palcos eletrônicos da Tomorrowland Brasil. Como uma mulher periférica, ela compõe a minoria nesse cenário - que é composto majoritariamente por homens -, visto que o percentual de mulheres na música eletrônica é inferior a 22%, segundo a revista Forbes.
Mesmo com as ramificações e os mixers plurais que alguns DJs ousam em fazer, não há tal pluralidade nos shows e festivais. Isso não é explicado por uma questão única de gosto, mas sim porque, além da questão econômica, há pouca representatividade, fazendo com que a presença do público variado seja somente ouvinte, não física. "Quanto mais houver artistas que retratam a sua realidade e vivência e se expressam intensamente, acredito que a tendência é juntar mais a galera e sair mais dessa bolha, com resultados expressivos e com um alcance maior com o tempo", afirma o DJ Duarte, expondo a importância da integração de todos os tipos de pessoas, tanto como na plateia, quanto nos palcos.
Atualmente, a inteligência artificial (IA) é um dos temas mais relevantes e mais comentados no mundo. O tom alarmante dos debates alimenta cada vez mais o medo das pessoas em relação aos impactos que a IA causará. No mundo artístico, as dúvidas sobre o tema também atingiram artistas e apreciadores de arte, assombrados com as transformações que a inteligência artificial provoca.
Em entrevista, Marcus Bastos, professor livre-docente da PUC-SP e coordenador do curso de Comunicação e Arte do Corpo, explicou o seu ponto de vista sobre arte e IA. Segundo ele, a inteligência artificial está transformando uma série de processos na sociedade contemporânea, inclusive a arte. “A IA já tem uma longa história e passou por diferentes fases de que as históricas partidas de xadrez entre homens e computadores são exemplos a serem destacados”, comentou, acrescentando que a inteligência artificial atingiu um novo grau de complexidade, fenômenos como o ChatGPT, no qual a IA cria textos ou imagens a partir de conversas ou instruções.
Segundo Bastos, é necessário exaltar a profundidade das obras feitas por artistas humanos para que possa tranquilizar a ideia de desvalorização de seus trabalhos devido à utilização da IA. "A inteligência artificial não vai desvalorizar a arte, pois o tipo de imagem que ela produz, apesar de visualmente elaborado, não atinge a complexidade conceitual das obras de arte. Uma obra de arte é um gesto de desconstrução crítica do sensível que pressupõe uma consciência crítica em ação”, disse o professor.
No entanto, mesmo que a falta de consciência impeça a IA de substituir alguns trabalhos humanos, o empresário Alexandre Messina, fundador da ferramenta de inteligência artificial ZapGPT, integrada ao aplicativo WhatsApp, acredita que a competição com as máquinas representa um desafio para os seres humanos. "Minha visão é que as produções humanas vão ser menos valorizadas porque vai ter mais concorrência”. Segundo ele, na lei de oferta e procura por obras artísticas, a IA oferecerá mais opções do que as produções humanas.
Além de a arte ser um campo para expressar sentimentos, também é um recurso crítico ao mundo a partir da visão do artista. Ao pensar se a IA tornará a arte acrítica, Bastos disse: “Há muitas experiências com o uso da inteligência artificial na arte, o problema é quando as pessoas criam a expectativa de que ela é capaz de substituir o artista. Esta é uma visão empobrecedora, pois os dispositivos de IA não são complexos o suficiente para fazer a pesquisa crítica com linguagem que o artista faz”.
Para superar a visão competitiva contra a inteligência artificial e eliminar o medo de que a sociedade perda sua força produtiva, Messina defende a cooperação entre homens e tecnologia. “A IA vai substituir muita gente, por outro lado, vai dar mais poder às pessoas”, diz o empresário, citando o acesso ilimitado à informação que permitirá que qualquer pessoa produza conteúdo de qualidade. “Acho que é muito mais como os humanos trabalham com a IA do que algo que vai só tirar as pessoas”, acrescenta.
"É possível pensar em algumas coisas, como por exemplo a existência de visitas de museus guiadas por agentes inteligentes, a curadoria feita em colaboração com dispositivos de IA e as obras de arte feitas em colaboração com dispositivos de inteligência artificial”, cita, por sua vez, Marcus Bastos. “Me parece que é mais produtivo pensar na IA como um recurso que permite tornar mais complexas as atividades artísticas do que algo que vai substituir o papel dos homens neste processo”, avalia.
Segundo ele, um ponto negativo é o fato de a IA ser uma ferramenta poderosa para promover informações falsas devido ao seu alto potencial de manipulação de imagens. Bastos pontua os dilemas que cercam o mal uso da inteligência artificial: “É uma ferramenta perigosa quando usada no contexto das fake news, o processo bastante problemático das ‘deep fake’ em que algoritmos de inteligência artificial são usados para sincronizar um áudio fictício a um vídeo verdadeiro criando falsificações extremamente enganadoras. Além disso, a capacidade especial de criar imagens falsas que sejam retoricamente convincentes é realmente grande”.
Em relação às ‘deep fake’, o CEO da Zap GPT ressalta a possibilidade de hackers acessarem informações sensíveis de indivíduos através da produção de avatares com a capacidade de copiar e reproduzir suas vozes e rostos para realizar uma chamada com gerentes de bancos e solicitarem dinheiro. Mas, Messina também ressalta que essa vulnerabilidade abrirá espaço para a cibersegurança por meio das buscas de novos métodos de autenticidade e proteção de dados.
O potencial que a inteligência artificial oferece se mostra maior do que a capacidade humana de compreender e lidar com essa ferramenta. Não à toa especialistas em tecnologia propuseram uma suspensão nas pesquisas e desenvolvimento de sistemas de IA mais poderosos que o GPT-4, último modelo de inteligência artificial lançado pela OpenAI. “Este é um dos problemas éticos que precisa ser discutido entre criadores de inteligência artificial, e um dos motivos pelos quais, ultimamente, tem se falado em paralisar por seis meses as pesquisas em inteligência artificial para permitir que a sociedade construa mecanismos regulatório satisfatórios como acontece com todas as técnicas e como acontece com todas as tecnologias. Os homens parecem sempre pensar como a inteligência artificial", finaliza o professor Marcus Bastos.