Em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, mostra reúne mais de 70 artistas brasileiros e propõe uma jornada crítica sobre o histórico de violências no sertão
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Helena Aguiar de Campos
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06/05/2026 - 12h

 

A mostra, que ocupa todos os andares do CCBB, articula um diálogo da cultura brasileira, em relação às heranças indígenas e africanas, ao abordar temas como espiritualidade e ancestralidade. As obras revelam a força dessas culturas, trazendo à tona práticas religiosas, conhecimentos agronômicos e costumes cotidianos que atravessam gerações.

 

obra de tinta acrílica sobre manta térmica
Obra: rOna. Foto: Helena Campos/Agemt

 

A exposição contém obras realizadas majoritariamente por artistas das regiões Norte e Nordeste, de comunidades afrodescendentes e indígenas, comissionadas especialmente para a exposição. Já na entrada, o público é impactado com uma instalação triangular que carrega várias telas da artista premiada, Biarritzzz. A obra, pendurada no teto do edifício, representa o instrumento histórico dos trios de forró, exercitando o imaginário sertanejo.

 

Obra triangular pendurada ao teto
Obra: Biarritzzz. Foto: Helena Campos/Agemt

 

O projeto expográfico investiu em cores fortes e fez relação a biodiversidade brasileira para marcar diferentes elementos da região e entregar também, uma experiência sensorial. A primeira cor é verde da vegetação, representando a força da vida que brota mesmo com dificuldade. Depois, as paredes se tornam azuis, assim como o céu, inspiradas pela liberdade e espiritualidade. E enfim, o laranja, vermelho e amarelo, cores que representam o calor, fogo e o sol, como o começo e fim do dia no sertão, simbolizam a luta e esperança.

 

Uma máscara colorida suspensa, elementos sonoros e fundo verde bandeira
Obra: Denilson Baniwa. Foto: Helena Campos/Agemt

 

Homem à frente de fotos de mulher indígena na favela
Obra: Xamânica e Tayná Uràz. Foto: Helena Campos/Agemt

 

Pinturas sobre placa de trânsito
Obras: Amilton. Foto: Helena Campos/Agemt

 

Fotografias de pessoas negras com miniatura de caravela
Obra: Márvila Araújo. Foto: Helena Campos/Agemt

 

“O sertão é um território simbólico no qual diferentes experiências históricas se cruzam e onde a arte pode revelar múltiplas narrativas sobre o país”,

Ariana Nuala, uma das curadoras.

 

Fotografias de pessoas envolvidas por sementes
Obra: Ayrson Heráclito. Foto: Helena Campos/Agemt

 

A exposição está aberta para visitação até o dia 3 de agosto de 2026, das 9h às 20h e a entrada é gratuita.

 

De onde surgiu a ideia

A exposição nasceu das pesquisas de Marina Maciel, criadora e diretora-geral do projeto, desenvolvidas do mestrado ao seu doutorado na Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB). Em 2023, a ideia saiu no papel e ganhou forma com o Coletivo Atlântico, que atua na defesa dos direitos humanos por meio da arte. A primeira edição, Atlântico Vermelho  denunciou dor e massacres causados pela escravização e marcou presença na ONU com obras de mais de 20 artistas afro-brasileiros. Como consequência da visibilidade e importância realizaram, já no próximo ano, o Atlântico Floresta, no Museu de Arte do Rio (MAR), reunindo artistas contemporâneos para abordar a violência contra povos originários.

 

As edições carregam o nome “Atlântico” com uma dimensão filosófica e crítica: se, por um lado, o oceano foi marcado por morte e sofrimento devido à processos coloniais, por outro, a arte decolonial e nacional, ressignifica a história, evidenciando vida e resistência.

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Promotoria deu prazo de 15 dias para que a empresa esclareça seus critérios na cobrança de taxas na venda virtual
por
Rafaella Lalo
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06/05/2026 - 12h

A Ticketmaster Brasil foi notificada pelo Ministério Público de São Paulo e terá 15 dias para esclarecer a cobrança das taxas de 20% sobre os ingressos vendidos no site. O despacho foi assinado pela Promotoria de Justiça de São Paulo na quinta-feira (9) de abril, e questiona a proporcionalidade das taxas de serviço e os custos adicionais cobrados dos consumidores.

A denúncia foi apresentada pelo deputado Guilherme Cortez (PSOL), após recolher várias queixas feitas pelos compradores que adquiriram ingressos para shows como BTS, Harry Styles e Kid Abelha. A venda para o evento de Harry Styles que iniciou em janeiro deste ano já recebia reclamações sobre os custos desproporcionais. Clientes perceberam que os valores mudam de acordo com o preço do ingresso. Por exemplo, entradas de R$700,00 têm taxas de R$140,00, enquanto um ingresso de R$265,00 tem R$53,00 de custo adicional.

Em sua representação, o deputado ressalta também a ilegalidade dessas ações, além da falta de transparência por parte da empresa. 

Print da denúncia feita na rede social X do deputado Guilherme Cortez
Postagem feita nas redes sociais do Deputado Guilherme Cortez. Foto: Reprodução X.com 

De acordo com informações divulgadas sobre o despacho assinado pelo promotor Donisete Tavares de Moraes Oliveira, a Ticketmaster deverá explicar como é feito o cálculo dessas taxas de 20%, já que a cobrança é fixa e aplicada ao valor total da compra independentemente do valor ou tipo da entrada (inteira ou meia).

A Promotoria também aguarda esclarecimentos sobre quais são os custos de infraestrutura e gestão de demanda que justifiquem essa cobrança, qual é o número total de ingressos disponibilizados para venda por cada dia de show e se as taxas são proporcionais ao valor da entrada vendida de forma on-line.

Em setembro de 2025, o Procon pediu explicações para a empresa, após esses custos adicionais serem cobrados nos ingressos do show de The Weeknd. Situação semelhante ao que ocorreu nos shows de BTS e Harry Styles.  

A Ticketmaster Brasil confirmou, em nota encaminhada à imprensa, ter recebido a notificação do MP-SP. Segundo a empresa, a taxa de serviço cobrada nas vendas online está relacionada a custos de infraestrutura, operação do site e medidas antifraude voltadas à segurança do comprador. A plataforma também declarou que essas cobranças são informadas de forma transparente durante o processo e ressaltou que o consumidor tem a opção de comprar ingressos em bilheterias físicas sem os custos adicionais cobrados no site.

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Apresentações aconteceram em São Paulo e no Rio de Janeiro, após quase dois anos da última passagem do artista pelo país
por
João Paulo Di Bella Soma
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05/05/2026 - 12h

The Weeknd voltou ao Brasil nos dias 26, 30 de abril e 01 de maio em São Paulo e Rio de Janeiro, como parte da etapa latino-americana da turnê After Hours Til Dawn. A turnê consolida a era de sua mais recente trilogia musical composta pelos álbuns After Hours, Dawn FM e Hurry Up Tomorrow.

Depois de passar por países como Estados Unidos e México, a turnê passou pelo Estádio Nilton Santos, no Rio de Janeiro, no dia 26 de abril e pelo Morumbis, em São Paulo, nos dias 30 de abril e 1 de maio. A produção impressiona não só pelo tamanho, mas também pelo conceito visual, que mistura elementos futuristas com uma estética sombria e cinematográfica.

Anitta foi a artista escolhida para os shows de abertura da turnê na América Latina e aqueceu o público com uma performance energética e cheia de identidade brasileira. Misturando funk, pop e elementos eletrônicos, a cantora entregou um setlist que transitou entre novidades e velhos sucessos. Ela iniciou com faixas como “Meia Noite”, “Desgraça”, “Mandinga” e “Vai Dar Caô”, e posteriormente levantou a plateia com hits como “Sua Cara”, “Bola Rebola” e “Vai Malandra”.

Durante cerca de 2h30 de show e com um repertório de aproximadamente 40 músicas, The Weeknd conduziu o público por seus 15 anos de carreira. O show é uma experiência imersiva, com iluminação dramática, cenografia elaborada e uma narrativa visual que remete a um filme de terror e suspense. Acompanharam o cantor sua banda e o lendário produtor Mike Dean.

The Weeknd no Estádio MorumBIS
The Weeknd em tour Foto: Reprodução Instagram @theweekndmxc


Apresentando músicas do álbum Hurry Up Tomorrow ao lado de seus maiores sucessos, Abel iniciou o show com “Baptized In Fear”, “Open Hearts” e “Wake Me Up”, criando uma atmosfera intensa logo de início. Em seguida, emendou hits como “After Hours”, “Starboy” e “Heartless”, levando o público ao delírio.

O cantor ainda retornou ao seu novo projeto com “Cry For Me” e “São Paulo”, faixa que ganhou destaque especial por homenagear a cidade. Em um dos momentos mais marcantes da noite, Anitta voltou ao palco para cantar o novo single “Rio”, uma homenagem direta à cidade carioca e que conta com sua participação. A faixa traz influências do Brazilian Phonk e chama a atenção pelo visual de seu futuro clipe, dirigido pelo famoso cineasta japonês Takashi Miike.

Ao longo do show, The Weeknd percorre diferentes fases da sua carreira e revisita trabalhos como Dawn FM, Beauty Behind The Madness, My Dear Melancholy, e House of Balloons. Em versões mais intimistas de “Out of Time” e “I Feel It Coming”, o artista desceu até a grade e interagiu com os fãs. Em um momento espontâneo, cantou com uma fã da primeira fileira, correu pela frente do palco cumprimentando o público e demonstrou gratidão pela recepção calorosa.

Abel encerrou a noite com uma declaração emocionante: “Eu sinto que estou em casa quando estou em São Paulo”. Ele garantiu que volta ao Brasil, mas não deixou pistas de quando. 

Fugindo do formato tradicional e engessado, o show conta com longas passarelas que avançam sobre a pista, aproximando o cantor do público, enquanto a banda permanece conectada no palco principal, sustentada por um telão gigantesco que amplifica a experiência visual.

the weeknd palco
Palco After Hours Til Dawn Foto: TAIT


Além da estrutura, a performance vocal de Abel também se destaca. Com uma voz afinada, ele entrega estabilidade ao vivo mesmo em faixas mais exigentes, combinando técnica, carisma e presença de palco. Sempre em movimento, interagindo e incentivando o público, o artista mantém a energia elevada do início ao fim.

A parte visual do show ganha ainda mais força com o uso criativo da iluminação. Lasers cortam o estádio em diferentes direções, criando cenários dinâmicos, enquanto as pulseiras luminosas distribuídas ao público transformam a plateia em um verdadeiro mar de luzes sincronizadas. No encerramento, fogos de artifício tomaram conta do céu e fecharam o espetáculo de forma memorável ao som de "Moth To A Flame".

A última vinda do artista ao país aconteceu em 7 de setembro de 2024, durante a fase final da turnê que promovia o álbum Hurry Up Tomorrow. Na ocasião, o cantor contou com participações especiais de Anitta e Playboi Carti.

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Jornal norte-americano destaca nomes que moldam a indústria da música dos Estados Unidos e influenciam o cenário global
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Livia Vilela
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05/05/2026 - 12h

 

O jornal americano The New York Times publicou na última terça-feira (28) uma seleção dos 30 maiores compositores americanos vivos. Sem ordem de ranking, o levantamento se propõe a definir o padrão de compositor da nova geração e quais seriam as suas principais influências, reunindo artistas que seguem moldando a produção musical contemporânea e ampliando seu alcance cultural em escala global.

O projeto faz parte de uma cobertura especial sobre o ofício da composição, com entrevistas em vídeo com nomes como Jay-Z, Taylor Swift e Lucinda Williams, além de artistas e produtores como Nile Rodgers, Mariah Carey e Babyface. A proposta é aproximar o público dos processos criativos por trás de algumas das canções mais conhecidas das últimas décadas, destacando o papel do compositor como eixo central da indústria da música.

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Jay Z em entrevista para o The New York Times 
Foto: Reprodução/ Instagram @nytimes

A seleção foi construída a partir de mais de 700 indicações enviadas por mais de 250 profissionais da música, além da curadoria de críticos do jornal. O processo envolveu semanas de análise e debate sobre critérios como influência, consistência artística, impacto cultural e permanência ao longo do tempo.

O resultado combina compositores consagrados, como Bob Dylan, vencedor do Nobel de Literatura, Carole King e Stevie Wonder, com artistas que redefiniram o pop e o hip-hop nas últimas décadas, como Kendrick Lamar, Taylor Swift e Lana Del Rey. O que foi avaliado em comum entre todos esses artistas foi a capacidade de atravessar gerações e influenciar não apenas o mercado americano, mas a produção musical global.

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Taylor Swift em entrevista para o The New York Times 
Foto: Reprodução/ Instagram @nytimes

A lista também reconhece o peso de compositores que atuam nos bastidores da indústria, responsáveis por sucessos gravados por outros artistas, como Diane Warren, Babyface, The-Dream e a dupla Jimmy Jam & Terry Lewis. A diversidade estética é um dos pontos centrais da seleção. Além de reunir diferentes gerações e estilos, passando pelo folk, country, pop, R&B e hip-hop, a lista também reflete a ampliação do alcance global da música americana. 

Outro aspecto relevante é a inclusão de artistas latinos e bilíngues, como Romeo Santos e Bad Bunny, sinalizando como a ideia de “compositor americano” hoje incorpora trajetórias e influências fora do território dos EUA e da língua inglesa. O recorte reforça como a produção musical atual é globalizada e ultrapassa fronteiras linguísticas e culturais, acompanhando transformações do próprio público e da indústria. 

Lista dos 30 Maiores Compositores Americanos Vivos:
 Babyface
 Bad Bunny 
 Bob Dylan
 Brian & Eddie Holland 
 Bruce Springsteen
 Carole King
 Diane Warren
 Dolly Parton
 Fiona Apple
 Jay-Z
 Jimmy Jam & Terry Lewis 
 Josh Osborne, Brandy Clark & Shane McAnally 
 Kendrick Lamar
 Lana Del Rey
 Lionel Richie
 Lucinda Williams
 Mariah Carey
 Missy Elliott
 Nile Rodgers
 Outkast
 Paul Simon
 Romeo Santos 
 Smokey Robinson
 Stephin Merritt 
 Stevie Wonder
 Taylor Swift
 The-Dream
 Valerie Simpson
 Willie Nelson
 Young Thug

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Gato sem Rabo reabre em grande estilo, com novo café e restaurante, e fortalece o espaço para o público leitor em SP
por
Sofia Morelli
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05/05/2026 - 12h

Em maio de 2025, após uma reforma, Gato sem rabo abre suas portas ao público, com mais conforto para receber os interessados por uma literatura voltada ao mundo e imaginário feminino, em novo endereço no centro de São Paulo. Johanna Stein, fundadora do estabelecimento, idealizou-o conforme notou a falta de um lugar em que obras escritas por mulheres cisgênero, trans e travestis fossem valorizadas e mais acessíveis. Agora composto por um café e bar para leitores e para cidadãos que por ali passam. Durante sua graduação no campo das artes, Johanna tinha um grande interesse no trabalho de autoras mulheres, mas ao longo de suas pesquisas começou a esbarrar repetidamente com a dificuldade de achar textos produzidos por essas artistas em geral, mesmo em uma metrópole tão plural como  São Paulo. Foi dessa frustração que se materializou a livraria, criando um espaço para que essas vozes pudessem fluir.

Cada vez mais, o centro de São Paulo é preenchido por estabelecimentos que exploram partes da cultura subvalorizadas e dispersas. “Existe uma demanda por obras produzidas por grupos historicamente excluídos, que tem aparecido no dia a dia dos lançamentos das editoras”, afirma Ana Paula Pacheco, professora  do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo (USP), além de escritora de ficção e de romance experimental. “Acho que isso virou um nicho de mercado, para o bem e para o mal, acho que tem um desrecalque de vozes anti-escaladas  e desrecalque é muito bom, por outro lado existe uma certa tendência de eliminar a leitura crítica das obras, é importante tratar essas obras como obras para valer que podem passar por um critério estético, crítico de leitura.”, reflete a professora da USP, em questão das popularização que vem ocorrendo dessas obras.

 

Livraria Gato Sem Rabo, no Centro de São Paulo.  Por Sofia Morelli

 

A curadoria da Gato sem rabo se preocupou em montar um acervo com enfoque na produção do sul global, além de clássicos de Virginia Woolf, escritora do ensaio que inspirou o próprio nome da livraria. Nesse ensaio “Um quarto só seu”, de 1928, a narradora observa um animal estranho em um gramado, onde não deveria estar caminhando, uma possível e famosa interpretação é a de estranhamento que as mulheres sofrem ao tentarem ocupar  um lugar no mundo dos intelectuais, ousando a  escrever. 

O mundo evoluiu muito desde então, mas ainda há dificuldades inegáveis para mulheres que desejam ser intelectuais, o que não significa que não há livros que caminham por todos os gêneros literários, poético, fictício, político assim como romance e questões corporais. “Eu sinto sobretudo no meio intelectual, na universidade, na circulação do pensamento, as mulheres são uma espécie de nicho do mercado mesmo. Na universidade eu vejo ainda uma aparência de democratização, nas ações que contém uma violência histórica, às vezes muito sutil, por exemplo no domínio masculino do debate, de bancas de defesa de tese e na maneira infantilização o pensamento das mulheres, às vezes elogiando, mas existe uma certa minoridade que se tenta impor no pensamento delas”, diz Ana Paula.

Essa visibilidade a essas obras significa muito para jovens garotas, com mais possibilidades de experienciar um mundo de vozes mais próximas de seus imaginários impulsiona o surgimento de novas possíveis autoras, ou até mesmo para que o mundo intelectual seja colocado como mais acessível para  todos os grupos e gêneros, e menos unificado para o público masculino. Com clube do livro, rodas de conversas e eventos, a livraria se transpõe como um lugar para que vozes sejam escutadas e que novas vozes floresçam num caminho cada vez menos fechado. 

Em suma, a criação de Johanna se demonstra como um espaço com uma importância física e emocional para a comunidade literária da região, que está sendo cuidado para que siga uma tendência de crescimento.  A ausência vira presença com um acervo com cerca de 650 escritoras, um esforço além da prateleira, que tem compromisso em explorar as visões de mundo na literatura produzida por elas. Livrarias independentes, como essa, fazem parte de uma transformação cultural ativa de extrema importância para o ecossistema literário “O conhecimento de relatos das mulheres, ele forma novas mulheres de outras maneiras, mas também não acho que a gente tenha que ter ilusões quanto a uma aceitação de mulheres no meio intelectual, acho que temos que ocupar espaços, disputar os espaços politicamente, sem esperar aceitação masculina”, de acordo com Ana Paula.

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Natanael Oliveira
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27/05/2020 - 12h

A pandemia causada pelo coronavírus afeta diversos setores da economia. O isolamento social, adotado pela grande maioria dos países para tentar frear a contaminação e aliviar a ocupação de leitos hospitalares, impacta economicamente redes de comércio e entretenimento, que atraem massas da população, como shoppings e estádios de futebol. Um dos maiores prejudicados é a indústria cinematográfica.

Na última semana de março, pela primeira vez na história do Brasil, as salas de cinema ficaram vazias. No mesmo mês, o mercado cinematográfico perdeu cerca de US$ 5 bilhões. De acordo com analistas, o número pode chegar a US$ 15 bilhões, dependendo de quanto a pandemia irá durar.  Além disso, a crise foi responsável pela demissão de 120 mil funcionários de audiovisual, somente nos Estados Unidos.

Apesar do grande prejuízo financeiro no mercado global da sétima arte, Mafran Dutra, diretor geral de Produção da Record TV, crê que haverá uma certa recuperação após o fim da quarentena. Ele ressalta a necessidade de uma revisão orçamentária no setor.

“Como o esvaziamento das salas de cinema não tem relação com um desinteresse pelo cinema, mas sim pelo impacto da pandemia, tudo indica que, após a retomada da rotina, as salas de cinema retornarão às suas atividades normalmente. Para tanto, os estúdios já revisaram o calendário de lançamentos. É evidente que este desfalque de faturamento vai exigir uma revisão no orçamento das redes de cinema”, diz.

Para o diretor, os estúdios têm experiência em lidar com lançamentos que não geram o retorno financeiro esperado, o que pode facilitar a adoção de medidas para reduzir os prejuízos.

“Os estúdios estão habituados a lidar com prejuízos em alguns dos seus lançamentos. O fator pandemia trouxe este impacto para os projetos que estavam com lançamentos programados para este semestre. Alguns foram adiados e outros tiverem bilheteria comprometida. O procedimento tem sido revisar os planos de produção e datas de novos lançamentos. Quanto aos lançamentos que não foram adiados, o prejuízo com a baixa bilheteria foi inevitável, resta buscar compensação nas receitas de licenciamentos para as demais plataformas e em outros lançamentos”, analisa.

Os grandes beneficiários do esvaziamento dos cinemas imposto pela pandemia estão sendo os serviços de streaming, que tiveram alta de 9% em março. O crescimento levou a Netflix a ultrapassar a Disney em valor de mercado. De acordo com um levantamento feito pela Nielsen, até o fim do ano, o crescimento poderá ser de 60% entre as plataformas.

A estratégia usada pelos grandes estúdios para contornar a situação está sendo fazer os lançamentos via streaming. O primeiro a adotar essa estratégia foi a Universal, que colocou filmes como Hunt e O Homem Invisível à disposição para serem alugados.

Segundo Mafran Dutra, o crescimento no valor de mercado do streaming já era maior antes mesmo da pandemia, e agora está sendo intensificado pelo coronavírus.

“Os procedimentos de confinamento em massa têm impulsionado o consumo de conteúdo audiovisual em todas as plataformas, não somente dos streamings. Ao mesmo tempo que consumidores que já eram assinantes dos serviços de streaming estão consumindo com mais intensidade, novos potenciais consumidores estão sendo impulsionados a experimentar os serviços de streaming, sendo de fato uma grande oportunidade para fidelizar e agregar assinantes. A indústria já vem se ajustando para estes novos tempos, agregando o streaming como mais uma janela para exibição e faturamento das suas produções ou até mesmo como a primeira delas”, analisa.

Ele complementa: “É possível dizer que a longo prazo, o streaming tem potencial de se tornar a dinâmica de distribuição de obras audiovisuais mais acessível ao grande público. Mas a médio prazo, as demais janelas continuarão competitivas. Desde o lançamento do VHS e do videocassete, que se dizia sobre o futuro incerto do cinema, o que não aconteceu”.

No dia 23 de abril, uma quinta-feira, a Ancine (Agência Nacional do Cinema) aprovou o uso do Fundo Setorial do Audiovisual, visando ajudar as salas de cinema prejudicadas pela crise. Segundo o FilmeB, um dos maiores portais especializados em cinema do país, o montante pode chegar até R$ 400 milhões. A medida é a principal esperança de sobrevivência do mercado cinematográfico brasileiro.

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Paula Paolini
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17/05/2020 - 12h

Com o avanço do coronavírus no Brasil, entre os diversos setores afetados, a indústria cultural foi uma das primeiras a sentir o impacto das medidas de isolamento social tomadas para enfrentar a pandemia. Antes mesmo de sua chegada, os problemas já haviam começado. Artistas estrangeiros com viagem marcada para o Brasil tiveram que cancelar sua vinda, devido à propagação da doença em outras partes do mundo.

Grandes shows, como o da cantora americana Billie Eilish e o da banda inglesa McFly, foram adiados ou cancelados. O festival Lollapalooza, que seria realizado em abril, foi transferido para dezembro e ainda está devendo a confirmação dos diversos artistas que viriam nesse começo de ano. Muitos shows nacionais também foram suspensos ou remarcados, como o de Roberto Carlos e o de Black Alien. 

Os eventos em geral, principalmente os musicais, são uma das atividades econômicas mais importantes do Brasil, representando 13% do PIB e movimentando cerca de R$ 936 bilhões na economia. Além disso, geram cerca de 25 milhões de empregos diretos e indiretos, segundo estimativas fornecidas por Pedro Augusto Guimarães, presidente da Apresenta Rio, em entrevista para a Folha de S. Paulo.

O mercado de música ao vivo, de forma geral, acredita que a crise desencadeada pela pandemia de Covid-19 será a pior já enfrentada pelo setor. Mais vulneráveis que os peixes grandes, estão os pequenos produtores, os músicos independentes e todos que trabalham com eles nos eventos e shows.

Algumas alternativas ganharam destaque no meio desse isolamento social, como as lives. Artistas com grande fama fizeram apresentações ao vivo no YouTube ou no Instagram para entreter os fãs nesses dias desanimados. A cantora Ludmilla levou isso além e continuou pagando sua equipe pelos shows que estariam acontecendo se não fosse a pandemia.

Muitos desses shows online se propõem a divulgar instituições de caridade, projetos sociais ou apenas arrecadar recursos para comunidades em situação precária que precisam de ajuda em meio às dificuldades da pandemia, motivando os que assistem às apresentações a fazerem contribuições. Gusttavo Lima conseguiu mais de R$ 500 mil para doação e a dupla Jorge e Mateus, que superou 3 milhões de visualizações em sua live no YouTube, arrecadou mais de 172 toneladas de alimentos e 10 mil frascos de álcool em gel. Já o rapper Djonga aplicou um QR Code na página da live para quem pudesse doar, ultrapassando R$ 80 mil em arrecadação para uma comunidade carente em Belo Horizonte que está sofrendo os efeitos do vírus.         

Em relação aos pequenos músicos, há outras alternativas. Um fundo de ajuda para compositores e artistas atingidos pela crise do novo coronavírus foi lançado pela União Brasileira dos Compositores (UBC) e pelo Spotify. É necessário ser filiado à UBC para ter acesso ao benefício. A entidade tem 30 mil associados, entre autores, intérpretes, músicos, editoras e gravadoras, que recebem direitos autorais. 

A UBC disponibilizará R$ 500 mil, que se somarão a outros R$ 500 mil doados pela plataforma de música streaming. Esse valor de R$ 1 milhão será compartilhado com todos os associados atingidos pela crise do vírus. O Spotify vai acrescentar US$ 1 para cada US$ 1 doado no site do projeto, chamado Spotify Covid-19 Music Relief, até o fundo atingir um valor próximo ou igual a US$ 10 milhões.

Em diferentes estados, sindicatos e associações de músicos, como a Associação de Compositores, Músicos e Produtores de Mato Grosso (ACMP), a companhia de teatro Os Satyros e o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos e Diversões do Estado de São Paulo (Sated SP), também estão fazendo campanhas para ajudar os artistas prejudicados pelas medidas de isolamento social.

Muitos que vivem de shows e produções independentes ainda vão sofrer com esses impactos. Guilherme Bustamante ou GB seu nome artístico –, um estudante de produção musical que já trabalha como produtor independente e participa de um grupo de rap, o DoideraCrew, diz que a falta de shows e batalhas está afetando sua renda e a divulgação de seu trabalho. 

“A abstinência de shows para nós que somos artistas pequenos é uma das piores coisas. É um dos nossos principais meios de divulgação, sempre cantando para novas pessoas que vão conhecendo nosso trabalho e abrindo novas oportunidades de participação em outros eventos”, conta GB.

“A renda dos shows ainda não é suficiente para me manter, porém muitos shows ainda vêm como um bom complemento e ajudam bastante. Agora, sem eles, tudo fica um pouco mais apertado, mas sigo na minha motivação de fazer o que eu amo, muita música”, complementa Guilherme. 

O baterista Paulo Stortini fala sobre o baque que os músicos sentiram com a pandemia. “Muitos shows que estavam agendados há tempos foram totalmente cancelados. Agora, nosso foco é se reinventar, já que todos os artistas estão sem o ganho deles.”

Além de baterista, Stortini diz que tem sorte de trabalhar com outras coisas envolvendo música, como gravação, produção, mixagem e ainda dar aula de bateria. Porém, outras atividades, como transcrições de músicas e produções maiores, em que recebia por ensaio e pelo espetáculo, foram completamente excluídas de sua renda no momento. “Minha impressão é que, quando tudo voltar ao normal, a relação das pessoas com a arte vai ser diferente.”

“Ainda tento fazer algumas gravações online e continuar dando aula, mas o resultado não está sendo bom. Uso as redes sociais para me promover e ver se consigo mais alunos, mas vejo que ninguém está pensando em gastar com aulas de música em tempos tão difíceis. Para ajudar na renda, apelei para os aplicativos de mobilidade urbana, como Uber, Cabify ou 99.”

O baterista conta que alguns alunos que não foram tão afetados pelo coronavírus continuam honrando o pagamento das aulas, mesmo sem tê-las no momento. “Do dia para a noite, minha renda foi praticamente a zero." Agora, Stortini segue rodando com os aplicativos de transporte para sobreviver e tentar olhar toda essa situação com o mínimo de esperança.   

por
Gabriella Lopes e Isabela Câmara
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21/04/2020 - 12h

Depois de muitos pedidos de seus fãs, Jorge e Mateus – uma das maiores duplas sertanejas atuais no país – fizeram um show virtual por quatro horas e meia no YouTube no dia 3 de abril. A live está disponível no canal dos cantores e até o momento que foi escrita esta matéria, tem mais de 38 milhões de visualizações. Segundo o Uol, eles quebraram o recorde mundial de transmissão, conseguindo 3,2 milhões de espectadores ao mesmo tempo. Eles também aproveitaram a visibilidade e arrecadaram “216 toneladas de alimentos que ajudarão inúmeras famílias pelo país”, como declararam no Twitter.

Jorge e Mateus não foram os primeiros a tomarem tal atitude e com certeza não são os últimos. Outros artistas já estavam fazendo shows em diferentes plataformas, como o comediante Whindersson Nunes no dia 1 de abril. O cantor Mumuzinho, a pedido do Fantástico, da Globo, no dia 27 fez um show na varanda de seu apartamento para os outros prédios de seu condomínio na zona oeste do Rio de Janeiro. Além disso, começou um cronograma de shows que estão acontecendo virtualmente e, entre eles, constam apresentações da Marília Mendonça, Péricles, Zé Neto e Cristiano, Wesley Safadão, Bruno e Marrone, Gusttavo Lima e vários outros.

Shows que antes eram muito caros, agora estão sendo oferecidos de graça, devido à quarentena. Como disse Eliane Brum, em seu texto O vírus somos nós (ou uma parte de nós), “as pessoas se aproximaram socialmente com o isolamento social”. Mesmo que o texto de Brum se refira ao meio ambiente, podemos interligá-lo – assim como fez o Papa Francisco durante sua encíclica de Páscoa – com a empatia e o cuidado com o outro como parte de cuidar do mundo – algo que negligenciamos tanto quanto cuidar das mudanças climáticas do nosso planeta. E, nesse caso, falamos sobre os cuidados com a saúde mental.

Nem todos os envolvidos nessa onda de empatia são artistas, empresas também aderiram à ideia. Amazon, Telecine e Lacta são exemplos de corporações que aderiram ao ‘Fique em casa”, cada um à sua maneira. Seja disponibilizando e-books gratuitos, um mês de filmes grátis ou adotando o delivery de ovos de páscoa. Cada um fazendo sua parte nesses últimos dias para manter o público entretido em casa e diminuir a necessidade de mobilidade.

As iniciativas em favor do isolamento social ter surgido efeitos nas pessoas. Em uma entrevista, Isabella Silvestre declara ser cliente assídua da Amazon, e diz estar muito satisfeita.

Jornalista: A quanto tempo possui o Kindle?

Isabella: Tenho o aplicativo desde 2015 e o aparelho há mais ou menos um ano.

J: Qual a sua avaliação sobre a Amazon em geral? Sempre esteve satisfeita com o serviço?

I: É um site ok. Fácil de mexer. Tem uma grande variedade de produtos e um preço ok. A respeito do serviço, nunca tive problemas, em um geral o atendimento ao cliente deles é rápido e bom.

J: O que achou quando a Amazon anunciou o começo dos e-books gratuitos devido à quarentena?

I: Ao entrar na Amazon era comum encontrar alguns e-books gratuitos antes mesmo da pandemia, porém, com o início da quarentena, muitos autores e editoras decidiram disponibilizar e-books gratuitos para o entretenimento durante esse período. A iniciativa é interessante pois é uma forma de entreter o leitor durante um período difícil e que também permitiu muitas pessoas terem acesso a diversos livros de forma gratuita.

J: Quase dois meses depois de realizar esta iniciativa, eles continuam disponibilizando, como uma ação para manter a quarentena mais suportável. Acha que está funcionando?

I: Acredito que ainda funcione, porém não com tanta eficácia como no início. Antes havia toda aquela preocupação e um pouco de desespero e eu acho que o serviço dos autores e das editoras, assim como outros, ajudaram a acalmar as pessoas, dando a elas algo para ocupar a mente e até estimulando as pessoas a ficarem em casa. Vale lembrar que a decisão de disponibilizar livros gratuitos deve partir das editoras e dos autores por meio da plataforma Kindle na crise epidêmica. Resta aos consumidores a imaginação de como utilizar o serviço, como ler ao mesmo tempo que os amigos, socializar vendo as mesmas séries (como a Amazon Prime, Netflix, Telecine Play, GloboPlay que também disponibilizaram um mês gratuito de seus serviços de streaming). 

Até 2020 artistas e instituições privadas e públicas nunca tinham realizado tal feito. O uso em massa dos serviços de vídeo online tem mostrado novos tipos de relações entre consumidor e fornecedor. Por ser algo pioneiro, não é perfeito, mas demonstram que existe a capacidade de democratizar culturas e serviços como nunca vistos antes.

A solidariedade e a união afloraram fortes logo no momento que a separação veio duramente imposta pela covid-19. A tecnologia pode ser uma grande aliada nesses tempos: vídeo chamadas, ligações e mensagens instantâneas têm permitindo o home office e o ensino à distância.

Mas a tecnologia serve apenas como meio para nos manter sãos enquanto estamos isolados. São as ações humanitárias de artistas, empresas e dos próprios cidadãos (que visam ajudar quem precisa nesse momento tão difícil) que servem como fim. E vale lembrar, ainda, que devem partir de nós a iniciativa de manter contato, mesmo à distância, com nossos amigos e familiares. Em outras palavras, a mudança deve partir de nós seres humanos e não da inovação tecnológica.

 

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Artistas e famosos de diversos meios, em especial da música, estão oferecendo seus serviços como forma de entretenimento e chamando a atenção para causas sociais
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Beatriz Aguiar e Sara de Oliveira
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21/04/2020 - 12h

Dados do Mapa Brasileiro da Covid-19 mostram que 50% da população brasileira está confinada em casa. Um balanço da agência France Presse (AFP) do final de março constata que ⅓ da população mundial está de quarentena graças ao Covid-19.  

Isolados, o entretenimento e a fuga ao tédio dessas pessoas muitas vezes se dão pelas redes sociais. Um estudo da consultoria Kantar, com mais de 25 mil pessoas, demonstra um crescimento de participação nas redes sociais Facebook, WhatsApp e Instagram de 40% no período entre 14 e 24 de março. Sendo agora um dos únicos meios de contato social é natural o crescimento da participação e interatividade em tais plataformas. E as celebridades estão fazendo sua parte para conscientizar as pessoas da importância de permanecer em quarentena e combater possíveis danos à saúde mental gerados pela distância social.

A oferta de entretenimento online cresceu. Todos os dias, pelas redes sociais como Facebook, Instagram e Youtube, é possível encontrar alguma live ou vídeo novo. E os conteúdos são diversos. Vão desde lives musicais até oficinas ensinando idiomas e receitas culinárias.

Na quarta-feira, 8 de abril, a cantora Marília Mendonça bateu o recorde de visualizações (3,2 milhões) ao vivo em sua página no Youtube. A sertaneja fez um show de quase quatro horas com seus maiores sucessos, troca de mensagens entre ela e fãs e incentivo a doações para o Mesa Brasil do Sesc e a compra por meio do aplicativo (APP) CompreLocal. O recorde antes era da dupla sertaneja Jorge & Mateus em sua live feita pouco menos de uma semana antes da cantora. Esse formato de show vem se consolidando entre músicos e fãs.  Somente no final de semana de Páscoa foram cerca de 25 shows “improvisados” de todos os gêneros, desde o cantor de ópera Andrea Bocelli aos sertanejos Chitãozinho e Xororó e ao DJ Dennis.

Música não é a única oferta nos tempos de quarentena. Apresentadores conhecidos por seus programas de culinária, como Rita Lobo, estão fazendo lives, diárias ou semanais, ensinando receitas diversas. Debates sobre racismo, feminismo e outros assuntos estão sendo feitos. A filósofa Djamila Ribeiro está nessa onda. Programas de auditório, por exemplo, estão seguindo com seus apresentadores, convidados e telespectadores conectados por seus aparelhos digitais. The Late Late Show com James Corden e The Tonight Show com Jimmy Fallon são alguns deles.

No dia 18 de abril deste ano aconteceu o evento One World: Together At Home criado ONG Global Citizen em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e contou com curadoria de Lady Gaga. O objetivo era de incentivar as pessoas a ficarem em casa durante o período de isolamento social causado pelo Covid-19. “US$ 127,9 milhões arrecadados para o alívio da covid-19. Para todos em todo o mundo: mantenham-se fortes, mantenham-se seguros, em breve estaremos juntos pessoalmente”, afirmou a ONG no Twitter.

A live que foi transmitida em canais do Youtube e redes de TV do mundo inteiro, durou 8 horas e contou com cantores como Alicia Keys, Billie Eilish, Billie Joe Armstrong (Green Day), Celine Dion, Chris Martin (Coldplay), Eddie Vedder (Pearl Jam), Elton John, Jennifer Lopez, Lady Gaga, Lizzo, Paul McCartney, Stevie Wonder, Taylor Swift, entre outros. Além, de depoimentos de médicos, profissionais da área de saúde espalhados pelo mundo que se afastaram de suas famílias para cuidar de outros, houve a exibição de vídeos das soluções criativas e divertidas encontradas em meio ao isolamento, como casamentos feitos à distância e shows realizados na varanda de apartamentos.

Durante a programação, a cantora Beyoncé usou sua influência para falar da população que mais sofre com o vírus nos Estados Unidos: a população negra. A cantora citou um estudo da Texas Medical Center afirmando que 57% das mortes pelo Covid-19 no Texas eram de pessoas negras. Aqui no Brasil não é diferente e organizações têm mostrado grande preocupação com a população mais vulneráveis. Como o caso da CUFA (Central Única das Favelas). A organização fez diversas parcerias como a com os cantores Péricles e Luan Santana, e a supermodel Gisele Bündchen.

Hoje, dia 20, acontece o primeiro dia do “KondZilla Festival Em Casa”, um baile funk em casa. Com shows de Lexa, Dani Russo e MC Dede. Já no segundo dia, 26, os responsáveis por trazer o baile até as casas será MC Kekel, Jottapê, Mila e MC MM. Durante a programação da live acontecerão doações convertidas para a organização CUFA.

A CUFA entende a importância da ajuda nas comunidades e por isso pela primeira vez, em 20 anos de história estão solicitando doações. O vírus não escolhe classe, mas a mais pobre é que a mais sofre. Com falta de políticas públicas não só durante a pandemia e falta de informação, a prioridade agora é “conscientizar os moradores que até aqui não estão levando tão a sério quanto deveriam, seja colaborando na distribuição de alimentos, álcool em gel, cesta básica ou mesmo em processo de elaboração de novas práticas e formação de redes de favelas, para plugar em outras iniciativas”, CUFA em nota no site oficial.

“A situação é muito séria. Muitos moradores de favela ainda não caíram na real e não estão cumprindo a quarentena como deveriam. Estamos colocando toda a nossa força na conscientização deles, para que juntos possamos vencer mais essa luta” disse Claudia Rafael, da CUFA de Paraisópolis (SP) para matéria no site da instituição.

“São aproximadamente 15 milhões de moradores de favela em todo o território nacional. Muitos deles não podem deixar de trabalhar, e ainda transitam pelas ruas se expondo ao risco do contágio. A CUFA vai contribuir de todas as formas possíveis para que o impacto do coronavírus seja mínimo nas favelas brasileiras. Essa é nossa luta, faça parte dela também”, falou Kaline, coordenadora da CUFA Paraíba, 83-88145528 para a matéria oficial da organização.

 

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Beatriz Aguiar e Gabriella Tavares
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25/03/2020 - 12h

Em 2019 Greta Gerwig surpreende mais uma vez lançando “Adoráveis Mulheres”. A adaptação do clássico “Mulherzinhas” recebeu 95% de aprovação dos críticos do Rotten Tomate e 92% do público, sem dúvida, uma honra. O filme começa com Josephine March, Jo, crescida em Nova York, vendendo suas histórias enquanto se sustentava dando aulas na pensão em que vive. Conhecemos seu futuro amor, Friedrich Bhaer. Eles não parecem ter intimidade

Os primeiros dez minutos do filme já são completamente diferentes das adaptações anteriores. A história é a mesma, alguns diálogos são copiados do livro. A construção narrativa, porém, é oposta. Não segue a vida das March linearmente: da infância a vida adulta. Gerwing opta por iniciar o filme e ter como linha temporal principal a vida adulta das irmãs. A infância é mostrada como lembranças, flashbacks. Esse poderia ser um detalhe, apenas uma questão de gosto e abordagem da diretora. Afinal, sendo um livro já tantas vezes adaptado, mudanças entre as obras cinematográficas são bem vindas.

A escolha, no entanto, pode ser entendida como um traço geracional. Não é algo intrínseco a Greta Gerwing, mas ao século XXI ao qual faz parte. É a aceleração do tempo. O sr. Bhaer é jovem, com um belo sotaque francês, elegante e bem arrumado. Diferente do professor Bhaer original: velho, por volta dos 40 anos e pobre. Suas roupas estavam sempre danificadas e com remendos, possuía barba mal feita e cabelos longos e desgrenhados. Além disso, era alemão de sotaque forte. Nesses primeiros minutos de filme, a primeira mudança de Greta: uma Josephine feminista moderna não se casaria com um homem velho e feio.

De Nova York, a história voa a Paris. Para Amy. Realizando seu sonho de aprimorar suas pinturas, vive a vida com a qual só podia sonhar na infância. Circula na alta sociedade com os melhores ornamentos e sedas, participando de bailes e chás. Encontra Laurie, por acaso, nas ruas da Cidade da Luz e o convida para uma festa que vai ocorrer à noite. É o começo da interação de ambos que acarretará em uma paixão. Da parte dele, ao menos.

Mesmo que no filme, Amy tenha amado a vida toda Laurie, para Alcott, o amor não  se mantém tão fácil assim. O depressivo Laurie se torna o fanfarrão da madrugada, trata mal Amy e é o famoso “mulherengo”. Seu romance é tão pouco bem desenvolvido, fazendo parecer que Amy é uma substituta para Jo. Em outras palavras, o mais próximo que ele vai conseguir ficar de uma menina March. Enquanto o romance dos dois floresce como uma flor de bambu na obra clássica, Greta opta pelo verdadeiro romance hollywoodiano – em que tudo que leva a felicidade eterna acontece em três dias. Mostrando-se mais uma adaptação para que fique mais confortável aos padrões do século XXI, a diretora provavelmente reconhecendo que ninguém ficaria sentado várias horas para ver o filme, sacrificou o romance dos protagonistas, em detrimento dessa característica impaciente dessa sociedade.

Outra mudança que aponta modernização de Greta no filme é Tia March. Na produção audiovisual, ela não é rica por casamento, mas por herança. A carrancuda personagem ganha a simpatia do público na pele de Meryl Streep e com a incoerência entre seu discurso conservador a favor do casamento contra sua própria história, de alguém que prosperou solteira. Tia March ganha energia, movimento. É acelerada.

Todas as mudanças de Greta, trazendo 1898 para 2019, não são necessariamente ruins. Mas devem ser consideradas. Um dos pontos mais interessantes de livros de escritoras como Louisa May Alcott e Jane Austen é a narrativa à frente de suas épocas. A Primeira Onda Feminista aconteceu pouco depois das obras dessas autoras, no final do século XIX, porém conseguimos ver traços do movimento em suas obras. São sutis, não quebram o paradigma social vigente, mas são avanços. Para elas, não para nós. Em 2020, já não é tão chocante ver uma mulher perseguir seus sonhos em ter uma carreira ao invés de marido e filhos. Ainda assim, Greta apaga esses desenvolvimentos e coloca as personagens em contextos mais próximos ao nossos do que ao delas.

A aceleração do tempo cortou a dinâmica que existe em assistir e ler conteúdos antigos. Isto é, quando se está lendo “Mulherzinhas”, é natural a reflexão entre as realidades. É importante que passemos pelo processo de perceber o quão absurdo é uma jovem de vinte anos se casar com um homem de quarenta, assim como casar por dinheiro felizmente não é mais o destino para a maioria das garotas (apesar de ainda ser para uma parte considerável). Entretanto, Greta cortou consideravelmente parte desse processo no filme.

Há uma felicidade exacerbada no filme, principalmente nos flashbacks. Mesmos as dores de crescimento das irmãs parecem melhor do que suas realidades. Há sorrisos mesmo dentro de espartilhos opressores. Este saudosismo é uma leitura nossa. Em tempos acelerados, onde 24 horas já não parecem suficientes, o passado é pintado como uma calmaria desejável. 

Outro ponto de divisão é questão de classes. No livro, o pobre e o rico são bem divididos. Quem é rico usa seda e quem é pobre usa “pano”. Os abastados moram em uma mansão e o “resto” em uma cabana. Para as irmãs a pobreza é um fardo quase impossível de aguentar. Meg e Jo trabalhavam desde jovens para ajudar no sustento da casa e nenhuma delas suportavam o que faziam. Mas pouco ficamos sabendo sobre isso no filme sobre isso. A pobreza é relatada de forma leve, sem o peso real que ocupava na vida dos March.

 

O tempo acelerado através dos outros filmes

Podemos perceber o século XXI na obra de Gerwing se compararmos as adaptações mais famosas da obra de Alcott. Há diferenças cruciais entre os filmes que nos fazem perceber as épocas nas quais foram filmadas e seus costumes.

“As Quatro Mulheres”, de 1933, era em preto e branco. O recurso das cores ainda não existia. Fidedigno ao livro, os diálogos pesam na versão com Katherine Hepburn como Jo March. Menos ação, mais fala. Era a primeira década do cinema falado e se aproveitavam deste recurso ao máximo. Portanto, ao contrário do filme de Greta, com diversos cenários tão dignos de atenção quanto os atores e suas falas, os cenários eram mais recatados e os atores eram a peça central (e praticamente única) das cenas. São impensáveis longos diálogos sem nenhuma outra distração em tela para o telespectador atualmente. No cinema, ele dormiria; na TV, trocaria de canal.

A versão de Elizabeth Taylor é uma cópia em cores do filme de Katherine. “Quatro Destinos” (1949) foi filmado em Technicolor, dando ao filme um aspecto mais inocente e sonhador. A história das irmãs March é uma fábula. E como uma, passa lentamente e se detém na beleza e nos pequenos momentos. A única diferença para o filme original é o que, talvez, detenha a atenção por um tempo maior do telespectador do século XXI. Mas não muito. O salto entre a segunda a terceira adaptação é de 55 anos. O cinema e o mundo mudaram nesse meio tempo. A computação pessoal dava seus primeiros passos e a palavra “globalização” já estava na moda. Sendo assim, longos diálogos com fortes atuações ou apostas altas na beleza da imagem não sustentariam um filme.

Seria um fracasso de bilheteria para uma grande produtora hollywoodiana. Uma quantidade maior de cenários e técnicas de enquadramento de cena são empregados. Cada March, inclusive a matriarca, ganha seu momento de tela. Amy, até então mimada e odiada, pode crescer em prol de um desempenho mais dinâmico. Com todas as mudanças para as outras versões, porém, não há como esquecer que a história se passa um século antes.

A visão de Greta, como já dito, anseia por selar a obra de Alcott como um símbolo feminista. É natural para a diretora. Lady Bird (2017), sua primeira obra, guarda semelhanças com Adoráveis Mulheres. É sobre as dores e as marcas do crescimento, especialmente para uma mulher, com a diferença de ser ambientada na Califórnia do começo dos anos 2000. A semelhança não para aí: ambas têm um toque autobiográfico da autora. A primeira história é uma adaptação da adolescência de Gerwing; já a segunda é um de seus livros favoritos. Não há como um diretor não imprimir sua marca em sua obra, ainda mais uma tão pessoal. Mas as marcas de Greta se confundem com as de um tempo sem tempo. Ao querer atualizar “Mulherzinhas” para uma audiência que vive sua primeira onda feminista, perde-se a inspiração pelas irmãs March e se torna um modelo perigoso e ultrapassado.

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