O rap, gênero musical criado na Jamaica e difundido nas periferias norte-americanas, chegou ao Brasil no século passado e hoje é encontrado em todos centros urbanos. De acordo com o rapper Alexandre Bane, músico e estudante de ciências sociais da PUC-SP, ele cumpre o papel de resgatar a autoestima do povo periférico, um povo que por excelência já é sofrido por si só.
Como o rap fala sobre injustiças sociais, não é loucura remeter a sua ascensão a momento de crises econômicas e sociais, por isso, surgiu no brasil na cidade de São Paulo, em 1986, um ano após o fim da ditadura militar e quando o país sofria com as consequências da péssima gestão dos militares.
Porém, pode se relacionar o surgimento do rap com o final da época de repressão dos militares, pois para o rap ser feito é necessário liberdade para os artistas, principalmente periféricos, que são maioria nesse gênero.
Mesmo chegando na década de 80, foi só em meados dos anos 90 que esse estilo começou a se popularizar, com a popularização do grupo Racionais MC, originário da capital paulista e persistente no cenário até os dias atuais, que abordam temas corriqueiros da cidade, como a violência, o preconceito e as dificuldades do povo periférico.
O grupo também abordava a cultura periférica e sua realidade e momentos históricos que impactaram a vida dos paulistas, como o massacre do Carandiru.
Na década de 80, São Paulo estava abandonada, o crime era cada vez mais frequente e a desigualdade social era gigante, o rap surgiu nesse meio, era imprescindível o surgimento desses assuntos na música deles, era essa a realidade dos músicos.
Com isso, o rap brasileiro se tornou politizado e fala sobre suas dificuldades, fazendo com que em crises sociais e econômicas ele se sobressaia, pois nessa épocas os temas das músicas são mais reais e fácil de se identificar
Mesmo falando de temas importantes, o gênero ainda sofria muito preconceito por ser uma arte vinda da favela, era considerado coisa de bandido e não era visto como arte para a maioria da sociedade.
Essa realidade foi mudando ao longo dos anos 90, foi nessa época que o rap começou a superar barreiras e sair de um ciclo pequeno para começar a ir para a mídia, e tocar em clubes das cidades.
Porém esse movimento não foi visto positivamente pelos rappers, pois os rappers que iam para esses canais tinham uma postura mais polida e menos radical e politizada. "Eu vejo que a gente tem que ir pra mídia sim, entendeu mas com a nossa cara , eu não vou pra mídia pq eu to cantando mais um hino que denigre a imagem de uma mulher, que anda sendo muito banalizado agora. Acho que nossa obrigação como mensageiros é tá em todos os lugares, mas chegar de cabeça erguida”.
No governo Bolsonaro e na pandemia do covid19, o rap também se beneficiou de uma onda de criatividade, dada aos fatos do cotidiano difícil do país, assuntos como o isolamento, as mortes e a crise que aumentou a fome serviram de ferramenta para a criação de músicas.
Vários artistas do gênero vieram a público mostrar a realidade da pandemia de dentro das favelas, um exemplo foi o rapper Emicida que em entrevista ao Domingão do Faustão disse:
“Eu acho que a gente tem uma situação muito emblemática na realidade do Brasil que é: a primeira vítima do coronavírus foi uma empregada doméstica, que pegou coronavírus da sua patroa, aparentemente. Isso é muito simbólico, muito forte. As pessoas pobres se contaminam mais, elas têm menos condições de se cuidar”
Mas não foi só através da música que os rappers ajudaram sua comunidade, artistas mais reconhecidos como Djonga, Emicida e GOG conseguiram juntar aproximadamente um milhão de reais para ajudar as comunidades a enfrentarem o problema.
Ao lembrar do lado profissional da pandemia, o estudante Alexandre declarou: "A pandemia foi aquele tombo do último andar que ninguém imaginava, parou shows, vendas, o mundo. E a arte e a música no brasil já não é valorizada, aí vem uma pandemia e acaba com tudo de uma vez. Eu tive que me virar, a pandemia acabou sendo um aprendizado”
Mesmo com as mudanças desde a década de 80 até os dias atuais, o foco do rap é o mesmo, denunciar injustiças e aclamar por igualdade e respeito.
“Continua o mesmo sofrimento as mesmas mazelas e o rap surgiu nessa caminhada pra ser aquele contraponto de resistência certo, aquele lance que consegue olhar pra um cara totalmente desesperançado e falar acorda vc tem muito o que lutar ainda, acorda vc é descendente de reis e rainhas, vc tem força pra lutar sim. Essa é a função do rap” Finaliza Alexandre.
https://d1fdloi71mui9q.cloudfront.net/vhYUWB23SPiVqkL0PxVC_CONJUNTO%20DE%20PROJETOS-LINKTREE.pdf Créditos:Malu Dini
Operando desde 2008 em São Paulo, o Slam do Corpo se define, em seu documento oficial, como: “ um grupo que pesquisa e produz arte, aberto a surdos e ouvintes que se interessam pela Língua Brasileira de Sinais” (Libras). Sendo o primeiro grupo brasileiro a fazer esse movimento, ele apresenta uma ponte entre a poesia, a palavra falada, os sinais e a performance, a qual valoriza o que o corpo tem a dizer.
As apresentações são abertas para o público e têm 2h30 de duração. Elas iniciam com o “corpo aberto”, momento no qual ocorrem apresentações livres de autoria e tempo de duração; e finalizam com a batalha, a qual possui regras:
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Os poemas devem ter até 3 minutos de duração e ser autoral, não é permitido o uso de figurinos ou objetos de cena;
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O evento é apresentado por uma dupla composta por um surdo e um ouvinte, e conta com dois tradutores intérpretes de Libras;
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Para a dupla vencedora, o prêmio é um conjunto de livros de arte e poesia.
O Slam do Corpo é um espaço de protesto, que a poesia mostra a realidade dos surdos, como revela a apresentação de Catharine Moreira e Amanda de Lima no Programa Manos e Minas na TV Cultura. "Eu sou surda e tenho a minha voz, não preciso falar sua língua pra ter voz.", diz a poesia das artistas, a qual revela como o preconceito com a Língua Brasileira de Sinais causa sofrimento.
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Separar o surdo da Libras é como separar a alma do corpo", diz David Farias, professor de Libras e intérprete. Ele coloca a importância da língua para a cultura surda, e reforça a importância da execução da LEI Nº 10.436, que exige intérpretes em estabelecimentos e instituições.
A inclusão é uma pauta importante no país. No Brasil, segundo o IBGE, cerca de 5% da população é surda. Esse número representa 10 milhões de pessoas, sendo que 2,7 milhões têm perda auditiva profunda.
Dessa parcela popular, como resultado da exclusão desse grupo, 7% têm ensino superior completo, 15% frequentaram a escola até o ensino médio, 46% até o fundamental e 32% não têm um grau de instrução. Esses dados foram apresentados pela pesquisa do Instituto Locomotiva e a Semana da Acessibilidade Surda em 2019.
Farias, como educador nas escolas estaduais e municipais no estado de Alagoas e Sergipe, diz que um dos caminhos para mudar esse quadro na educação “é oferecer acessibilidade e incluir o ensino da Libras do ensino básico até o médio, como tem as disciplinas de espanhol e inglês”.
Além disso, expõe a importância da adaptação das atividades escolares para os surdos. Visto que, há um cenário de vitimização deles por parte dos educadores, que reflete no aprendizado.
Como visto que a acessibilidade é um dos pontos na defasagem educacional, o intérprete disserta sobre a importância do Slam do Corpo, principalmente pela participação das crianças. “Existem crianças surdas que fazem a leitura de poemas e é muito enriquecedor para a Libras. No meu olhar, o Slam do Corpo deveria ter em todos os lugares do Brasil para fortalecer a cultura surda.”
O grupo tem um espaço destinado para as crianças. “O Slam do Corpinho é o primeiro no país que aproxima crianças-poetas surdas e ouvintes, poemas em língua de sinais e em língua portuguesa", apresenta a equipe em seu documento oficial.
Imagem: Vitrine Filmes/Divulgação
Dirigido por Marcela Lordy e roteirizado por Josefina Trotta, o filme narra a história de Lóri (interpretada por Simone Spoladore), professora do ensino fundamental, uma mulher livre, porém, melancólica e solitária. A protagonista carrega a aura introspectiva presente na personalidade de Clarice Lispector e suas obras.
No longa, o espectador é convidado a acompanhar a jornada de Lóri descobrindo a verdadeira liberdade e o amor, tanto o próprio quanto o compartilhado com o outro. No cotidiano, Lóri mostra-se perdida, em puro devaneio e desconexão com a realidade.
Ela, uma mulher furtiva em seus relacionamentos, é confrontada pelo pensamento existencialista ao conhecer Ulisses (interpretado por Javier Drolas). O professor de filosofia e amante contribui para o debate sobre Lóri ser "humana e contraditória". Durante o filme, o desenvolvimento da personagem coloca em perspectiva a descoberta de si, a "dor de existir" e a chegada da intimidade.
Aconteceu no Belas Artes: Uma Aprendizagem
Imagem: Isabel Bartolomeu
Legenda: Estão presentes na foto a diretora Marcela Lordy, a professora e literária Eliane Fittipaldi e a jornalista Paula Jacob.
Na última sexta-feira (23), o filme contou com uma sessão especial, seguida por debate, no Cine Petra Belas Artes. Com uma sala repleta de mulheres, o encontro teve a participação da diretora Marcela Lordy e da professora Eliane Fittipaldi. A mediação foi realizada pela jornalista Paula Jacob.
No debate, as convidadas comentaram as questões acerca do filme. A diretora Marcela Lordy destacou que esse é “um filme para sentir”. Inclusive, esse é o primeiro longa-metragem da diretora, que revelou que as produções do filme iniciaram há cerca de 10 anos, e demonstra a maturidade adquirida tanto por ela quanto pela personagem.
Já Eliane Fittipaldi, crítica literária e tradutora, comentou sobre a “atmosfera clariciana” e a “liberdade desencontrada” presente no longa. Também, contou que ela e Marcela trocaram correspondências na pandemia para falar sobre as experiências do filme, que na época já estava pronto, e aguardava lançamento.
O evento contou com a organização e o apoio da Revista Claudia, Vitrine Filmes, Editora Rocco e da livraria Gato Sem Rabo.
O trailer do filme está disponível no Youtube.
O bairro da Liberdade é comumente associado à comunidade japonesa, considerando a efervescência cultural reforçada pelo comércio local e instituições nipo-brasileiras situadas na região. Desde a chegada dos primeiros imigrantes japoneses ao estado de São Paulo, em 1908, por incentivo do governo em suprir a mão-de-obra da produção cafeeira, o Japão desencadeou no Brasil um novo processo de intercâmbio cultural.
Para além dos imigrantes europeus, melhor recepcionados pelas políticas de imigração na época, os japoneses se instalaram nas fazendas paulistas com o objetivo de encontrarem melhores oportunidades de trabalho, que careciam no Japão recém-aberto ao exterior. Mediante assinatura de tratados e acordos internacionais, em menos de dez anos foram enviados cerca de 10 mil trabalhadores japoneses ao estado de São Paulo.
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O historiador e secretário-geral administrativo da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social (Bunkyo), Eduardo Nakashima, revela que, apesar da ocupação significativa de japoneses no bairro da Liberdade, no começo do século XX, existem questões maiores relativas aos afrodescendentes. “Os primeiros habitantes do bairro da Liberdade eram negros”, conta. “Não era um local que tinha uma função muito digna. Era um bairro onde se executavam criminosos e, em geral, escravos fugidos”.
Eduardo ainda explica que, por consequência desse histórico do período imperial e mediante a ocupação antecessora de demais imigrantes (italianos, judeus, árabes) em outras regiões de São Paulo, o bairro da Liberdade era um lugar vazio e barato que, por ser próximo do Centro, os japoneses passaram a ocupar – principalmente, a Baixada do Glicério. “Por volta de 1930, os japoneses vão ocupar e transformar o local em bairro comercial, que é a imagem que permanece até hoje”, relata. “Oficialmente, o bairro da Liberdade nunca foi japonês. Ele foi considerado bairro oriental, mesmo quando só tinha japonês lá”.
Ele também comenta que, durante a construção do primeiro trecho da linha azul do metrô, do Jabaquara para a Liberdade, as avenidas foram tomadas por trincheiras, que atrapalhavam o comércio e moradores. “Ao mesmo tempo, São Paulo fazia essa ligação Leste-Oeste [Viaduto Leste-Oeste] e rasgou parte da Liberdade, e quando cavaram lá saiu um monte de osso, que são as ossadas dos executados”, relata. “Até hoje, quando vai fazer alguma construção ali, aparece”.
No Brasil há quase 30 anos, o senhor Kawarazaki compartilha sua acomodação com a cultura nipo-brasileira. No começo, os beijos e abraços se diferiram bastante do costume de cumprimentar com reverências, que é mais tradicional no oriente. Mesmo assim, o conforto do seu estilo de vida aqui logo tornou fácil a adaptação. “Eu moro no bairro da Liberdade há mais de 10 anos”, conta. “Aqui tem mais facilidade para tudo, não somente para o lado japonês (comidas etc.) mas também para todas as outras necessidades. Para viver aqui me sinto mais livre do que lá no Japão”.
Engajado na música popular japonesa, Kawarazaki já contribuiu em diversos eventos do nicho como membro das bandas tradicionais e, ainda hoje, prossegue com as atividades semanalmente nos bairros da Saúde e Vila Mariana. “Como sou do Japão, não preciso me esforçar para conservar a minha cultura”.
Kawarazaki ainda relata que, enquanto membro do comitê cultural da Bunkyo, comparecia a reuniões em que ninguém falava japonês, apesar da ênfase de alguns membros em ensinar o idioma. “Acho melhor conduzir a reunião falando japonês”, opina. “Assim eles vão virar exemplos”.
Na mesma linha, Kawarazaki lamenta a pouca incidência de nikkeis que conhecem o idioma, ainda que se identifiquem com a cultura nipônica. Com isso, ele teme que os brasileiros recebam informações erradas ou ultrapassadas ao abordarem essas pessoas menos engajadas culturalmente. “Poucos descendentes buscam informações atualizadas do Japão porque não sabem ler japonês”, defende o músico.
Da mesma forma, uma das maiores impressões sobre a cultura nipo-brasileira aqui em São Paulo é, na verdade, precipitada. Embora a densidade populacional de japoneses na Liberdade não seja tão expressiva hoje quanto era no século passado, existe uma carga cultural que estampa o comércio da região. “As maiores lojas hoje do bairro da Liberdade os donos são chineses, mas o marketing é japonês”, revela Eduardo. “O bairro acabou criando essa identidade, e eu acho que esse é o legado”.
O historiador aponta que a identidade japonesa, apesar de ser mais difundida culturalmente na Liberdade, não se resume ao bairro. Ele menciona que na região da Saúde, hoje, há expressivo índice populacional de nipo-descendentes; além de relembrar a influência no cultivo de pêssegos e morangos em Itaquera, onde passou a infância, cercado de características japonesas. “Da mesma forma que árabes, espanhóis, italianos e portugueses, os japoneses já estão há mais de cem anos aqui no Brasil, então essa identidade de um bairro japonês não existe mais”.
Por outro lado, Eduardo aponta que na Vila Carrão, na Zona Leste, ainda resta um forte núcleo de atividade nipo-brasileira. O distrito concentra nikkeis da província de Okinawa, um arquipélago situado no extremo sul do Japão. É uma cultura comparável à basca, na Espanha, uma vez que detém dialeto próprio e guarda uma herança geopolítica que a difere das demais províncias japonesas. “É curioso que essa identidade okinawana é, proporcionalmente, mais evidente no Brasil do que no Japão”, demarca o historiador.
Há 114 anos, 793 imigrantes japoneses desembarcaram do navio Kasato Maru, dos quais apenas 131 permaneceram nas fazendas contratantes. Hoje, são mais de 2 milhões de japoneses e nipo-descendentes vivendo no Brasil, sendo a maior população nipônica fora do Japão em todo o mundo. “Se você for aos Estados Unidos, à Europa, América Latina, até na Ásia, quando se fala de Oriente, fala-se China”, denota Eduardo. “O Brasil é o único país que, quando se fala de Oriente, o nome que vem primeiro é Japão”.
Ainda assim, a política de imigração decaiu com as eventuais crises econômicas que afetaram a produção cafeeira e, mais tarde, também sofreu os impactos da Segunda Guerra Mundial. A partir das décadas de 1970-1980, houve alterações na legislação que tornaram o processo imigratório mais restritivo, quando comparado ao início do século, mesmo diante do sucesso de projetos governamentais de assentamento no Cerrado, que se expandiu para a Bahia, Pará, Tocantins e no Sul. “Em algum momento, o Brasil considerou que já tinha gente suficiente para tocar esse país”, afirma Eduardo. “Essa coisa de Brasil ‘país de imigrantes’ é coisa de passado”.
Não obstante, o secretário-geral administrativo da Bunkyo demonstra preocupação com as impressões do mundo sobre a China. Tanto nas questões militares quanto econômicas, e também no que tange ao preconceito intensificado pela pandemia do coronavírus, ele alerta sobre os riscos de associação aos países orientais como um todo. “Até hoje, quando as coisas ficam difíceis, o mundo começa a dividir os seres humanos pela cor da pele”, expõe. “Em 2001, chamaram os ataques às Torres Gêmeas de ‘Pearl Harbor do Século XXI’ e igualaram os pilotos terroristas da Al-Qaeda aos kamikazes japoneses”.
A história das obras interativas começa nos últimos anos da década de 1960, quando os primeiros passos em relação a projetar obras de arte que fossem capazes de reagir em tempo real aos movimentos e sentimentos dos espectadores foram dados. As chamadas ‘exposições imersivas’ começam a se desenvolver como uma vertente da arte contemporânea e moderna, a partir da ideia inicial de levar ao público experiências que poderiam ser classificadas como intensas e polissensoriais, utilizando de diversas projeções de vídeos, luzes, cores, sons e até de essências olfativas, no intuito de envolver e incluir qualquer tipo de visitante por completo.
Não é à toa que essas experiências chamam a atenção do público até os dias de hoje, elas acabam ganhando cada vez mais espaço uma vez que atraem importantes investimentos e grandes artistas interessados na intersecção entre a arte, a tecnologia, e talvez o mais temido, entretenimento.
Foi o caso de Van Gogh, Cândido Portinari, Leonardo da Vinci e outros artistas que, embora não estejam mais no mesmo plano que seus admiradores, foram aclamados pela crítica e por milhares de espectadores que passaram em suas salas todos os dias enquanto a imersão durou. Alguns museus, salas e galerias do Brasil receberam nos últimos anos, instalações de grandes nomes que compõem a arte no cenário nacional e no mundo.
A popularização das exposições imersivas acompanha o aumento geral da visitação de diversos públicos aos museus e demais espaços culturais. No momento em que praticamente tudo que é vivenciado é registrado e postado na internet, a experiência na arte, claro, não poderia ficar de fora. Enquanto esses fragmentos de pinturas tomam conta do espaço expositivo, a arte passa a ser vista também como um plano de fundo para os registros nas redes sociais. Seria esse um raso interesse, de fato, pelo mundo das artes? Luciana Nemes, graduada em Educação Artística e pós-graduada em Museologia pela Universidade de São Paulo e ex docente das disciplinas de Concepção; Planejamento de Exposições; e Montagem de Exposição; Sistema de Ações Museológicas no Centro Universitário Belas Artes acredita que todas as linguagens de hoje são interessantes, cabe aos curadores e expositores dialogarem com a melhor forma de representação sem distorcer a história de cada artista. “As exposições imersivas estão caminhando com a evolução da tecnologia, e é mais uma linguagem que as instituições culturais podem se apropriar para diversificar e atingir todo tipo de público [...] no mundo de hoje, a gente tem que usar isso da melhor forma possível. Por outro lado, a relação com o objeto, com a fatura produzida pelo artista é insubstituível. Quando a gente mescla as duas linguagens, pode ser muito interessante ao visitante, poder dar a oportunidade de chegar mais perto.”
Ainda que o número de visitantes e o montante dos lucros possa crescer, é importante questionar se o contato com a arte é enriquecido na mesma proporção pela busca dessas novas experiências. Se direcionarmos a questão para a absorção do conhecimento nas instituições culturais, e perguntarmos de que modo ela é aprofundada, revigorada ou fortalecida pelas imersivas, o que as pessoas têm aprendido verdadeiramente? Em outras palavras: “ as exposições espetaculares e envolventes estão atraindo grandes multidões, mas estão mudando a experiência dos museus? Estão impactando e tocando os espectadores da forma que os artistas que estão sendo homenageados gostariam de transmitir através de suas obras?
Luciana, que já atuou diretamente com o público, e hoje coordena a área de Exposições do Museu de Arte Moderna de São Paulo, ressalta que a experiência é um assunto complexo. “Hoje em dia muito se fala sobre ‘qual experiência que eu quero que o público tenha em relação a uma exposição? Qual o meu objetivo?’ Se a gente pensar que essas exposições proporcionam uma experiência com o corpo, pode ser muito interessante sentir a projeção, uma música, um apelo visual, ou mesmo uma fotografia detalhista. Eu não gosto de limitar essas exposições, pois para um público que não têm a prática e vivência de visitar exposições, isso pode ser muito valioso, pode quebrar o estigma que museu é lugar de coisa velha, ou de um lugar que não é para todos [...] o ideal é pensar em como unir todas as linguagens, e se utilizar desses recursos que hoje estão nas nossas mãos.” Já Cauê Alves, curador da mais nova exposição do Museu de Arte Moderna: “Sob as Cinzas, brasa” e também docente do curso de História da Arte da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo acredita que de fato as experiências imersivas estão tocando e mudando a vivência de seus visitantes. “Os museus estão tendo que se reinventar, não só pelas experiências imersivas, acho que a pandemia acelerou esse processo, teve uma mudança enorme na relação digital. Já existia aquelas experiências em 3D, aquelas amostras que poderiam ser vistas pela internet, mas o museu digital sendo uma realidade, é claro como os acervos têm se preocupado em se mostrar visíveis nas redes sociais, a comunicação dos museus se transforma, ou seja, têm impactado as instituições e a relação que o público cria com as obras [...] é inevitável que os museus incentivem que as pessoas postem, fotografem, divulguem. O que a gente fala do antigo boca a boca, hoje em dia são os posts espontâneos. O caminho é apenas uma transformação do analógico para o digital, e mais a concepção de projetos que já nascem e se desenvolvem em meios digitais, claramente transformando não só os museus, mas a arte de uma forma mais ampla.”
As exposições podem carregar diversas linguagens e interpretações. Podem ser “instagramáveis” e servirem para curtidas na rede social, como também podem ser vazias de conteúdo e nada fotogênicas. Estabelecer e entender, principalmente, que cada era tem a sua linguagem e independente de qual seja, elas conversam entre si, vai muito além da arte. Esse diálogo pode ser a resposta da sociedade que construímos e quais valores foram aprendidos. A arte dialoga com a arte seja ela qual for, e todas as relações e correlações serão possíveis independente da época.