Em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, mostra reúne mais de 70 artistas brasileiros e propõe uma jornada crítica sobre o histórico de violências no sertão
por
Helena Aguiar de Campos
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06/05/2026 - 12h

 

A mostra, que ocupa todos os andares do CCBB, articula um diálogo da cultura brasileira, em relação às heranças indígenas e africanas, ao abordar temas como espiritualidade e ancestralidade. As obras revelam a força dessas culturas, trazendo à tona práticas religiosas, conhecimentos agronômicos e costumes cotidianos que atravessam gerações.

 

obra de tinta acrílica sobre manta térmica
Obra: rOna. Foto: Helena Campos/Agemt

 

A exposição contém obras realizadas majoritariamente por artistas das regiões Norte e Nordeste, de comunidades afrodescendentes e indígenas, comissionadas especialmente para a exposição. Já na entrada, o público é impactado com uma instalação triangular que carrega várias telas da artista premiada, Biarritzzz. A obra, pendurada no teto do edifício, representa o instrumento histórico dos trios de forró, exercitando o imaginário sertanejo.

 

Obra triangular pendurada ao teto
Obra: Biarritzzz. Foto: Helena Campos/Agemt

 

O projeto expográfico investiu em cores fortes e fez relação a biodiversidade brasileira para marcar diferentes elementos da região e entregar também, uma experiência sensorial. A primeira cor é verde da vegetação, representando a força da vida que brota mesmo com dificuldade. Depois, as paredes se tornam azuis, assim como o céu, inspiradas pela liberdade e espiritualidade. E enfim, o laranja, vermelho e amarelo, cores que representam o calor, fogo e o sol, como o começo e fim do dia no sertão, simbolizam a luta e esperança.

 

Uma máscara colorida suspensa, elementos sonoros e fundo verde bandeira
Obra: Denilson Baniwa. Foto: Helena Campos/Agemt

 

Homem à frente de fotos de mulher indígena na favela
Obra: Xamânica e Tayná Uràz. Foto: Helena Campos/Agemt

 

Pinturas sobre placa de trânsito
Obras: Amilton. Foto: Helena Campos/Agemt

 

Fotografias de pessoas negras com miniatura de caravela
Obra: Márvila Araújo. Foto: Helena Campos/Agemt

 

“O sertão é um território simbólico no qual diferentes experiências históricas se cruzam e onde a arte pode revelar múltiplas narrativas sobre o país”,

Ariana Nuala, uma das curadoras.

 

Fotografias de pessoas envolvidas por sementes
Obra: Ayrson Heráclito. Foto: Helena Campos/Agemt

 

A exposição está aberta para visitação até o dia 3 de agosto de 2026, das 9h às 20h e a entrada é gratuita.

 

De onde surgiu a ideia

A exposição nasceu das pesquisas de Marina Maciel, criadora e diretora-geral do projeto, desenvolvidas do mestrado ao seu doutorado na Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB). Em 2023, a ideia saiu no papel e ganhou forma com o Coletivo Atlântico, que atua na defesa dos direitos humanos por meio da arte. A primeira edição, Atlântico Vermelho  denunciou dor e massacres causados pela escravização e marcou presença na ONU com obras de mais de 20 artistas afro-brasileiros. Como consequência da visibilidade e importância realizaram, já no próximo ano, o Atlântico Floresta, no Museu de Arte do Rio (MAR), reunindo artistas contemporâneos para abordar a violência contra povos originários.

 

As edições carregam o nome “Atlântico” com uma dimensão filosófica e crítica: se, por um lado, o oceano foi marcado por morte e sofrimento devido à processos coloniais, por outro, a arte decolonial e nacional, ressignifica a história, evidenciando vida e resistência.

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Promotoria deu prazo de 15 dias para que a empresa esclareça seus critérios na cobrança de taxas na venda virtual
por
Rafaella Lalo
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06/05/2026 - 12h

A Ticketmaster Brasil foi notificada pelo Ministério Público de São Paulo e terá 15 dias para esclarecer a cobrança das taxas de 20% sobre os ingressos vendidos no site. O despacho foi assinado pela Promotoria de Justiça de São Paulo na quinta-feira (9) de abril, e questiona a proporcionalidade das taxas de serviço e os custos adicionais cobrados dos consumidores.

A denúncia foi apresentada pelo deputado Guilherme Cortez (PSOL), após recolher várias queixas feitas pelos compradores que adquiriram ingressos para shows como BTS, Harry Styles e Kid Abelha. A venda para o evento de Harry Styles que iniciou em janeiro deste ano já recebia reclamações sobre os custos desproporcionais. Clientes perceberam que os valores mudam de acordo com o preço do ingresso. Por exemplo, entradas de R$700,00 têm taxas de R$140,00, enquanto um ingresso de R$265,00 tem R$53,00 de custo adicional.

Em sua representação, o deputado ressalta também a ilegalidade dessas ações, além da falta de transparência por parte da empresa. 

Print da denúncia feita na rede social X do deputado Guilherme Cortez
Postagem feita nas redes sociais do Deputado Guilherme Cortez. Foto: Reprodução X.com 

De acordo com informações divulgadas sobre o despacho assinado pelo promotor Donisete Tavares de Moraes Oliveira, a Ticketmaster deverá explicar como é feito o cálculo dessas taxas de 20%, já que a cobrança é fixa e aplicada ao valor total da compra independentemente do valor ou tipo da entrada (inteira ou meia).

A Promotoria também aguarda esclarecimentos sobre quais são os custos de infraestrutura e gestão de demanda que justifiquem essa cobrança, qual é o número total de ingressos disponibilizados para venda por cada dia de show e se as taxas são proporcionais ao valor da entrada vendida de forma on-line.

Em setembro de 2025, o Procon pediu explicações para a empresa, após esses custos adicionais serem cobrados nos ingressos do show de The Weeknd. Situação semelhante ao que ocorreu nos shows de BTS e Harry Styles.  

A Ticketmaster Brasil confirmou, em nota encaminhada à imprensa, ter recebido a notificação do MP-SP. Segundo a empresa, a taxa de serviço cobrada nas vendas online está relacionada a custos de infraestrutura, operação do site e medidas antifraude voltadas à segurança do comprador. A plataforma também declarou que essas cobranças são informadas de forma transparente durante o processo e ressaltou que o consumidor tem a opção de comprar ingressos em bilheterias físicas sem os custos adicionais cobrados no site.

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Apresentações aconteceram em São Paulo e no Rio de Janeiro, após quase dois anos da última passagem do artista pelo país
por
João Paulo Di Bella Soma
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05/05/2026 - 12h

The Weeknd voltou ao Brasil nos dias 26, 30 de abril e 01 de maio em São Paulo e Rio de Janeiro, como parte da etapa latino-americana da turnê After Hours Til Dawn. A turnê consolida a era de sua mais recente trilogia musical composta pelos álbuns After Hours, Dawn FM e Hurry Up Tomorrow.

Depois de passar por países como Estados Unidos e México, a turnê passou pelo Estádio Nilton Santos, no Rio de Janeiro, no dia 26 de abril e pelo Morumbis, em São Paulo, nos dias 30 de abril e 1 de maio. A produção impressiona não só pelo tamanho, mas também pelo conceito visual, que mistura elementos futuristas com uma estética sombria e cinematográfica.

Anitta foi a artista escolhida para os shows de abertura da turnê na América Latina e aqueceu o público com uma performance energética e cheia de identidade brasileira. Misturando funk, pop e elementos eletrônicos, a cantora entregou um setlist que transitou entre novidades e velhos sucessos. Ela iniciou com faixas como “Meia Noite”, “Desgraça”, “Mandinga” e “Vai Dar Caô”, e posteriormente levantou a plateia com hits como “Sua Cara”, “Bola Rebola” e “Vai Malandra”.

Durante cerca de 2h30 de show e com um repertório de aproximadamente 40 músicas, The Weeknd conduziu o público por seus 15 anos de carreira. O show é uma experiência imersiva, com iluminação dramática, cenografia elaborada e uma narrativa visual que remete a um filme de terror e suspense. Acompanharam o cantor sua banda e o lendário produtor Mike Dean.

The Weeknd no Estádio MorumBIS
The Weeknd em tour Foto: Reprodução Instagram @theweekndmxc


Apresentando músicas do álbum Hurry Up Tomorrow ao lado de seus maiores sucessos, Abel iniciou o show com “Baptized In Fear”, “Open Hearts” e “Wake Me Up”, criando uma atmosfera intensa logo de início. Em seguida, emendou hits como “After Hours”, “Starboy” e “Heartless”, levando o público ao delírio.

O cantor ainda retornou ao seu novo projeto com “Cry For Me” e “São Paulo”, faixa que ganhou destaque especial por homenagear a cidade. Em um dos momentos mais marcantes da noite, Anitta voltou ao palco para cantar o novo single “Rio”, uma homenagem direta à cidade carioca e que conta com sua participação. A faixa traz influências do Brazilian Phonk e chama a atenção pelo visual de seu futuro clipe, dirigido pelo famoso cineasta japonês Takashi Miike.

Ao longo do show, The Weeknd percorre diferentes fases da sua carreira e revisita trabalhos como Dawn FM, Beauty Behind The Madness, My Dear Melancholy, e House of Balloons. Em versões mais intimistas de “Out of Time” e “I Feel It Coming”, o artista desceu até a grade e interagiu com os fãs. Em um momento espontâneo, cantou com uma fã da primeira fileira, correu pela frente do palco cumprimentando o público e demonstrou gratidão pela recepção calorosa.

Abel encerrou a noite com uma declaração emocionante: “Eu sinto que estou em casa quando estou em São Paulo”. Ele garantiu que volta ao Brasil, mas não deixou pistas de quando. 

Fugindo do formato tradicional e engessado, o show conta com longas passarelas que avançam sobre a pista, aproximando o cantor do público, enquanto a banda permanece conectada no palco principal, sustentada por um telão gigantesco que amplifica a experiência visual.

the weeknd palco
Palco After Hours Til Dawn Foto: TAIT


Além da estrutura, a performance vocal de Abel também se destaca. Com uma voz afinada, ele entrega estabilidade ao vivo mesmo em faixas mais exigentes, combinando técnica, carisma e presença de palco. Sempre em movimento, interagindo e incentivando o público, o artista mantém a energia elevada do início ao fim.

A parte visual do show ganha ainda mais força com o uso criativo da iluminação. Lasers cortam o estádio em diferentes direções, criando cenários dinâmicos, enquanto as pulseiras luminosas distribuídas ao público transformam a plateia em um verdadeiro mar de luzes sincronizadas. No encerramento, fogos de artifício tomaram conta do céu e fecharam o espetáculo de forma memorável ao som de "Moth To A Flame".

A última vinda do artista ao país aconteceu em 7 de setembro de 2024, durante a fase final da turnê que promovia o álbum Hurry Up Tomorrow. Na ocasião, o cantor contou com participações especiais de Anitta e Playboi Carti.

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Jornal norte-americano destaca nomes que moldam a indústria da música dos Estados Unidos e influenciam o cenário global
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Livia Vilela
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05/05/2026 - 12h

 

O jornal americano The New York Times publicou na última terça-feira (28) uma seleção dos 30 maiores compositores americanos vivos. Sem ordem de ranking, o levantamento se propõe a definir o padrão de compositor da nova geração e quais seriam as suas principais influências, reunindo artistas que seguem moldando a produção musical contemporânea e ampliando seu alcance cultural em escala global.

O projeto faz parte de uma cobertura especial sobre o ofício da composição, com entrevistas em vídeo com nomes como Jay-Z, Taylor Swift e Lucinda Williams, além de artistas e produtores como Nile Rodgers, Mariah Carey e Babyface. A proposta é aproximar o público dos processos criativos por trás de algumas das canções mais conhecidas das últimas décadas, destacando o papel do compositor como eixo central da indústria da música.

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Jay Z em entrevista para o The New York Times 
Foto: Reprodução/ Instagram @nytimes

A seleção foi construída a partir de mais de 700 indicações enviadas por mais de 250 profissionais da música, além da curadoria de críticos do jornal. O processo envolveu semanas de análise e debate sobre critérios como influência, consistência artística, impacto cultural e permanência ao longo do tempo.

O resultado combina compositores consagrados, como Bob Dylan, vencedor do Nobel de Literatura, Carole King e Stevie Wonder, com artistas que redefiniram o pop e o hip-hop nas últimas décadas, como Kendrick Lamar, Taylor Swift e Lana Del Rey. O que foi avaliado em comum entre todos esses artistas foi a capacidade de atravessar gerações e influenciar não apenas o mercado americano, mas a produção musical global.

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Taylor Swift em entrevista para o The New York Times 
Foto: Reprodução/ Instagram @nytimes

A lista também reconhece o peso de compositores que atuam nos bastidores da indústria, responsáveis por sucessos gravados por outros artistas, como Diane Warren, Babyface, The-Dream e a dupla Jimmy Jam & Terry Lewis. A diversidade estética é um dos pontos centrais da seleção. Além de reunir diferentes gerações e estilos, passando pelo folk, country, pop, R&B e hip-hop, a lista também reflete a ampliação do alcance global da música americana. 

Outro aspecto relevante é a inclusão de artistas latinos e bilíngues, como Romeo Santos e Bad Bunny, sinalizando como a ideia de “compositor americano” hoje incorpora trajetórias e influências fora do território dos EUA e da língua inglesa. O recorte reforça como a produção musical atual é globalizada e ultrapassa fronteiras linguísticas e culturais, acompanhando transformações do próprio público e da indústria. 

Lista dos 30 Maiores Compositores Americanos Vivos:
 Babyface
 Bad Bunny 
 Bob Dylan
 Brian & Eddie Holland 
 Bruce Springsteen
 Carole King
 Diane Warren
 Dolly Parton
 Fiona Apple
 Jay-Z
 Jimmy Jam & Terry Lewis 
 Josh Osborne, Brandy Clark & Shane McAnally 
 Kendrick Lamar
 Lana Del Rey
 Lionel Richie
 Lucinda Williams
 Mariah Carey
 Missy Elliott
 Nile Rodgers
 Outkast
 Paul Simon
 Romeo Santos 
 Smokey Robinson
 Stephin Merritt 
 Stevie Wonder
 Taylor Swift
 The-Dream
 Valerie Simpson
 Willie Nelson
 Young Thug

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Gato sem Rabo reabre em grande estilo, com novo café e restaurante, e fortalece o espaço para o público leitor em SP
por
Sofia Morelli
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05/05/2026 - 12h

Em maio de 2025, após uma reforma, Gato sem rabo abre suas portas ao público, com mais conforto para receber os interessados por uma literatura voltada ao mundo e imaginário feminino, em novo endereço no centro de São Paulo. Johanna Stein, fundadora do estabelecimento, idealizou-o conforme notou a falta de um lugar em que obras escritas por mulheres cisgênero, trans e travestis fossem valorizadas e mais acessíveis. Agora composto por um café e bar para leitores e para cidadãos que por ali passam. Durante sua graduação no campo das artes, Johanna tinha um grande interesse no trabalho de autoras mulheres, mas ao longo de suas pesquisas começou a esbarrar repetidamente com a dificuldade de achar textos produzidos por essas artistas em geral, mesmo em uma metrópole tão plural como  São Paulo. Foi dessa frustração que se materializou a livraria, criando um espaço para que essas vozes pudessem fluir.

Cada vez mais, o centro de São Paulo é preenchido por estabelecimentos que exploram partes da cultura subvalorizadas e dispersas. “Existe uma demanda por obras produzidas por grupos historicamente excluídos, que tem aparecido no dia a dia dos lançamentos das editoras”, afirma Ana Paula Pacheco, professora  do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo (USP), além de escritora de ficção e de romance experimental. “Acho que isso virou um nicho de mercado, para o bem e para o mal, acho que tem um desrecalque de vozes anti-escaladas  e desrecalque é muito bom, por outro lado existe uma certa tendência de eliminar a leitura crítica das obras, é importante tratar essas obras como obras para valer que podem passar por um critério estético, crítico de leitura.”, reflete a professora da USP, em questão das popularização que vem ocorrendo dessas obras.

 

Livraria Gato Sem Rabo, no Centro de São Paulo.  Por Sofia Morelli

 

A curadoria da Gato sem rabo se preocupou em montar um acervo com enfoque na produção do sul global, além de clássicos de Virginia Woolf, escritora do ensaio que inspirou o próprio nome da livraria. Nesse ensaio “Um quarto só seu”, de 1928, a narradora observa um animal estranho em um gramado, onde não deveria estar caminhando, uma possível e famosa interpretação é a de estranhamento que as mulheres sofrem ao tentarem ocupar  um lugar no mundo dos intelectuais, ousando a  escrever. 

O mundo evoluiu muito desde então, mas ainda há dificuldades inegáveis para mulheres que desejam ser intelectuais, o que não significa que não há livros que caminham por todos os gêneros literários, poético, fictício, político assim como romance e questões corporais. “Eu sinto sobretudo no meio intelectual, na universidade, na circulação do pensamento, as mulheres são uma espécie de nicho do mercado mesmo. Na universidade eu vejo ainda uma aparência de democratização, nas ações que contém uma violência histórica, às vezes muito sutil, por exemplo no domínio masculino do debate, de bancas de defesa de tese e na maneira infantilização o pensamento das mulheres, às vezes elogiando, mas existe uma certa minoridade que se tenta impor no pensamento delas”, diz Ana Paula.

Essa visibilidade a essas obras significa muito para jovens garotas, com mais possibilidades de experienciar um mundo de vozes mais próximas de seus imaginários impulsiona o surgimento de novas possíveis autoras, ou até mesmo para que o mundo intelectual seja colocado como mais acessível para  todos os grupos e gêneros, e menos unificado para o público masculino. Com clube do livro, rodas de conversas e eventos, a livraria se transpõe como um lugar para que vozes sejam escutadas e que novas vozes floresçam num caminho cada vez menos fechado. 

Em suma, a criação de Johanna se demonstra como um espaço com uma importância física e emocional para a comunidade literária da região, que está sendo cuidado para que siga uma tendência de crescimento.  A ausência vira presença com um acervo com cerca de 650 escritoras, um esforço além da prateleira, que tem compromisso em explorar as visões de mundo na literatura produzida por elas. Livrarias independentes, como essa, fazem parte de uma transformação cultural ativa de extrema importância para o ecossistema literário “O conhecimento de relatos das mulheres, ele forma novas mulheres de outras maneiras, mas também não acho que a gente tenha que ter ilusões quanto a uma aceitação de mulheres no meio intelectual, acho que temos que ocupar espaços, disputar os espaços politicamente, sem esperar aceitação masculina”, de acordo com Ana Paula.

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Racionais MC, Marcelo D2, Planet Hemp, Criolo, Emicida, esses artistas têm algo em comum, eles usam sua arte como forma de denúncia de injustiças sociais
por
Maria Clara Alcântara
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26/09/2022 - 12h

    O rap, gênero musical criado na Jamaica e difundido nas periferias norte-americanas, chegou ao Brasil no século passado e hoje é encontrado em todos centros urbanos. De acordo com o rapper Alexandre Bane, músico e estudante de ciências sociais da PUC-SP, ele cumpre o papel de resgatar a autoestima do povo periférico, um povo que por excelência já é sofrido por si só. 

    Como o rap fala sobre injustiças sociais, não é loucura remeter a sua ascensão a momento de crises econômicas e sociais, por isso, surgiu no brasil na cidade de São Paulo, em 1986, um ano após o fim da ditadura militar e quando o país sofria com as consequências da péssima gestão dos militares. 

   Porém, pode se relacionar o surgimento do rap com o final da época de repressão dos militares, pois para o rap ser feito é necessário liberdade para os artistas, principalmente periféricos, que são maioria nesse gênero. 

  Mesmo chegando na década de 80, foi só em meados dos anos 90 que esse estilo começou a se popularizar, com a popularização do grupo Racionais MC, originário  da capital paulista e persistente no cenário até os dias atuais, que abordam temas corriqueiros da cidade, como a violência, o preconceito e as dificuldades do povo periférico.  

   O grupo também abordava a cultura periférica e sua realidade e momentos históricos que impactaram a vida dos paulistas, como o massacre do Carandiru.  

      Na década de 80, São Paulo estava abandonada, o crime era cada vez mais frequente e a desigualdade social era gigante, o rap surgiu nesse meio, era imprescindível o surgimento desses assuntos na música deles, era essa a realidade dos músicos.  

    Com isso, o rap brasileiro se tornou politizado e fala sobre suas dificuldades, fazendo com que em crises sociais e econômicas ele se sobressaia, pois nessa épocas os temas das músicas são mais reais e fácil de se identificar  

     Mesmo falando de temas importantes, o gênero ainda sofria muito preconceito por ser uma arte vinda da favela, era considerado coisa de bandido e não era visto como arte para a maioria da sociedade. 

 Essa realidade foi mudando ao longo dos anos 90, foi nessa época que o rap começou a superar barreiras e sair de um ciclo pequeno para começar a ir para a mídia, e tocar em clubes das cidades.  

    Porém esse movimento não foi visto positivamente pelos rappers, pois os rappers que iam para esses canais tinham uma postura mais polida e menos radical e politizada. "Eu vejo que a gente tem que ir pra mídia sim, entendeu mas com a nossa cara , eu não vou pra mídia pq eu to cantando mais um hino que denigre a imagem de uma mulher, que anda sendo muito banalizado agora. Acho que nossa obrigação como mensageiros é tá em todos os lugares, mas chegar de cabeça erguida”. 

    No governo Bolsonaro e na pandemia do covid19, o rap também se beneficiou de uma onda de criatividade, dada aos fatos do cotidiano difícil do país, assuntos como o isolamento, as mortes e a crise que aumentou a fome serviram de ferramenta para a criação de músicas. 

Vários artistas do gênero vieram a público mostrar a realidade da pandemia de dentro das favelas, um exemplo foi o rapper Emicida que em entrevista ao Domingão do Faustão disse: 

“Eu acho que a gente tem uma situação muito emblemática na realidade do Brasil que é: a primeira vítima do coronavírus foi uma empregada doméstica, que pegou coronavírus da sua patroa, aparentemente. Isso é muito simbólico, muito forte. As pessoas pobres se contaminam mais, elas têm menos condições de se cuidar” 

Mas não foi só através da música que os rappers ajudaram sua comunidade, artistas mais reconhecidos como  Djonga, Emicida e GOG conseguiram juntar aproximadamente um milhão de reais para ajudar as comunidades a enfrentarem o problema. 

Ao lembrar do lado profissional da pandemia, o estudante Alexandre declarou: "A pandemia foi aquele tombo do último andar que ninguém imaginava, parou shows, vendas, o mundo. E a arte e a música no brasil já não é valorizada, aí vem uma pandemia e acaba com tudo de uma vez. Eu tive que me virar, a pandemia acabou sendo um aprendizado” 

Mesmo com as mudanças desde a década de 80 até os dias atuais, o foco do rap é o mesmo, denunciar injustiças e aclamar por igualdade e respeito. 

 “Continua o mesmo sofrimento as mesmas mazelas e o rap surgiu nessa caminhada pra ser aquele contraponto de resistência certo, aquele lance que consegue olhar pra um cara totalmente desesperançado e falar acorda vc tem muito o que lutar ainda, acorda vc é descendente de reis e rainhas, vc tem força pra lutar sim. Essa é a função do rap” Finaliza Alexandre. 

 

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A inclusão de 10 milhões de brasileiros ocorrem nas batalhas, com mistura da língua brasileira de sinais e portuguesa.
por
Laís Bonfim
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26/09/2022 - 12h

 


                                                                      

                   https://d1fdloi71mui9q.cloudfront.net/vhYUWB23SPiVqkL0PxVC_CONJUNTO%20DE%20PROJETOS-LINKTREE.pdf Créditos:Malu Dini 

Operando desde 2008 em São Paulo, o Slam do Corpo se define, em seu documento oficial, como: “ um grupo que pesquisa e produz arte, aberto a surdos e ouvintes que se interessam pela Língua Brasileira de Sinais” (Libras). Sendo o primeiro grupo brasileiro a fazer esse movimento, ele apresenta uma ponte entre a poesia, a palavra falada, os sinais e a performance, a qual valoriza  o que o corpo tem a dizer. 

 As apresentações são abertas para o público e têm 2h30 de duração. Elas iniciam com o “corpo aberto”, momento no qual ocorrem apresentações livres de autoria e tempo de duração; e finalizam com a batalha, a qual possui regras: 

  • Os poemas devem ter até 3 minutos de duração e ser autoral, não é permitido o uso de figurinos ou objetos de cena; 

  •  O evento é apresentado por uma dupla composta por um surdo e um ouvinte, e conta com dois tradutores intérpretes de Libras;  

  •  Para a dupla vencedora, o prêmio é um conjunto de livros de arte e poesia. 

 O Slam do Corpo é um espaço de protesto, que a poesia mostra a realidade dos surdos, como revela a apresentação de Catharine Moreira e Amanda de Lima no Programa Manos e Minas na TV Cultura. "Eu sou surda e tenho a minha voz, não preciso falar sua língua pra ter voz.", diz a poesia das artistas, a qual revela como o preconceito com a Língua Brasileira de Sinais causa sofrimento.  

 “

Separar o surdo da Libras é como separar a alma do corpo", diz David Farias, professor de Libras e intérprete. Ele coloca a importância da língua para a cultura surda, e reforça a importância da  execução da LEI Nº 10.436, que exige intérpretes em estabelecimentos e instituições. 

A inclusão é uma pauta importante no país. No Brasil, segundo o IBGE, cerca de 5% da população é surda. Esse número representa 10 milhões de pessoas, sendo que 2,7 milhões têm perda auditiva profunda.  

 Dessa parcela popular, como resultado da exclusão desse grupo,  7% têm ensino superior completo, 15% frequentaram a escola até o ensino médio, 46% até o fundamental e 32% não têm um grau de instrução. Esses dados foram apresentados pela pesquisa do Instituto Locomotiva e a Semana da Acessibilidade Surda em 2019. 

 Farias, como educador nas escolas estaduais e municipais no estado de Alagoas e Sergipe, diz que um dos caminhos para mudar esse quadro na educação “é oferecer acessibilidade e incluir o ensino da Libras do ensino básico até o médio, como tem as disciplinas de espanhol e inglês”.  

 Além disso, expõe a importância da adaptação das atividades escolares para os surdos. Visto que, há um cenário de vitimização deles por parte dos educadores, que reflete no aprendizado. 

 Como visto que a acessibilidade é um dos pontos na defasagem educacional, o intérprete disserta sobre a importância do Slam do Corpo, principalmente pela participação das crianças. “Existem crianças surdas que fazem a leitura de poemas e é muito enriquecedor para a Libras. No meu olhar, o Slam do Corpo deveria ter em todos os lugares do Brasil para fortalecer a cultura surda.” 

 O grupo tem um espaço destinado para as crianças. “O Slam do Corpinho é o primeiro no país que aproxima crianças-poetas surdas e ouvintes, poemas em língua de sinais e em língua portuguesa", apresenta a equipe em seu documento oficial.  

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Inspirado na obra de Clarice Lispector, o filme nacional teve sua estréia nos cinemas na última semana
por
Isabel Bartolomeu
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26/09/2022 - 12h

Imagem: Vitrine Filmes/Divulgação

 

Dirigido por Marcela Lordy e roteirizado por Josefina Trotta, o filme narra a história de Lóri (interpretada por Simone Spoladore), professora do ensino fundamental, uma mulher livre, porém, melancólica e solitária. A protagonista carrega a aura introspectiva presente na personalidade de Clarice Lispector e suas obras.

No longa, o espectador é convidado a acompanhar a jornada de Lóri descobrindo a verdadeira liberdade e o amor, tanto o próprio quanto o compartilhado com o outro. No cotidiano, Lóri mostra-se perdida, em puro devaneio e desconexão com a realidade.

Ela, uma mulher furtiva em seus relacionamentos, é confrontada pelo pensamento existencialista ao conhecer Ulisses (interpretado por Javier Drolas). O professor de filosofia e amante contribui para o debate sobre Lóri ser "humana e contraditória". Durante o filme, o desenvolvimento da personagem coloca em perspectiva a descoberta de si, a "dor de existir" e a chegada da intimidade.

 

Aconteceu no Belas Artes: Uma Aprendizagem

 

Imagem: Isabel Bartolomeu

Legenda: Estão presentes na foto a diretora Marcela Lordy, a professora e literária Eliane Fittipaldi e a jornalista Paula Jacob.

 

Na última sexta-feira (23), o filme contou com uma sessão especial, seguida por debate, no Cine Petra Belas Artes. Com uma sala repleta de mulheres, o encontro teve a participação da diretora Marcela Lordy e da professora Eliane Fittipaldi. A mediação foi realizada pela jornalista Paula Jacob.

No debate, as convidadas comentaram as questões acerca do filme. A diretora Marcela Lordy destacou que esse é “um filme para sentir”. Inclusive, esse é o primeiro longa-metragem da diretora, que revelou que as produções do filme iniciaram há cerca de 10 anos, e demonstra a maturidade adquirida tanto por ela quanto pela personagem.

Já Eliane Fittipaldi, crítica literária e tradutora, comentou sobre a “atmosfera clariciana” e a “liberdade desencontrada” presente no longa. Também, contou que ela e Marcela trocaram correspondências na pandemia para falar sobre as experiências do filme, que na época já estava pronto, e aguardava lançamento.

O evento contou com a organização e o apoio da Revista Claudia, Vitrine Filmes, Editora Rocco e da livraria Gato Sem Rabo.

O trailer do filme está disponível no Youtube.

 

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A história do bairro remete à origem escravista durante o período imperial, que reaparece nas obras da região ainda nos dias de hoje, revela o historiador Eduardo Nakashima
por
João Curi
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24/09/2022 - 12h
Fachada da Bunkyo, acompanhada de uma visão horizontal da rua e alguns postes de luz tradicionais do bairro da Liberdade
(Reprodução/Gabriel Inamine/Descubra Nikkei)

O bairro da Liberdade é comumente associado à comunidade japonesa, considerando a efervescência cultural reforçada pelo comércio local e instituições nipo-brasileiras situadas na região. Desde a chegada dos primeiros imigrantes japoneses ao estado de São Paulo, em 1908, por incentivo do governo em suprir a mão-de-obra da produção cafeeira, o Japão desencadeou no Brasil um novo processo de intercâmbio cultural.

            Para além dos imigrantes europeus, melhor recepcionados pelas políticas de imigração na época, os japoneses se instalaram nas fazendas paulistas com o objetivo de encontrarem melhores oportunidades de trabalho, que careciam no Japão recém-aberto ao exterior. Mediante assinatura de tratados e acordos internacionais, em menos de dez anos foram enviados cerca de 10 mil trabalhadores japoneses ao estado de São Paulo.

 

            + Para mais informações, clique aqui para acessar a visita virtual ao Museu da Imigração Japonesa!

 

            O historiador e secretário-geral administrativo da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social (Bunkyo), Eduardo Nakashima, revela que, apesar da ocupação significativa de japoneses no bairro da Liberdade, no começo do século XX, existem questões maiores relativas aos afrodescendentes. “Os primeiros habitantes do bairro da Liberdade eram negros”, conta. “Não era um local que tinha uma função muito digna. Era um bairro onde se executavam criminosos e, em geral, escravos fugidos”.

            Eduardo ainda explica que, por consequência desse histórico do período imperial e mediante a ocupação antecessora de demais imigrantes (italianos, judeus, árabes) em outras regiões de São Paulo, o bairro da Liberdade era um lugar vazio e barato que, por ser próximo do Centro, os japoneses passaram a ocupar – principalmente, a Baixada do Glicério. “Por volta de 1930, os japoneses vão ocupar e transformar o local em bairro comercial, que é a imagem que permanece até hoje”, relata. “Oficialmente, o bairro da Liberdade nunca foi japonês. Ele foi considerado bairro oriental, mesmo quando só tinha japonês lá”.

Ele também comenta que, durante a construção do primeiro trecho da linha azul do metrô, do Jabaquara para a Liberdade, as avenidas foram tomadas por trincheiras, que atrapalhavam o comércio e moradores. “Ao mesmo tempo, São Paulo fazia essa ligação Leste-Oeste [Viaduto Leste-Oeste] e rasgou parte da Liberdade, e quando cavaram lá saiu um monte de osso, que são as ossadas dos executados”, relata. “Até hoje, quando vai fazer alguma construção ali, aparece”.

No Brasil há quase 30 anos, o senhor Kawarazaki compartilha sua acomodação com a cultura nipo-brasileira. No começo, os beijos e abraços se diferiram bastante do costume de cumprimentar com reverências, que é mais tradicional no oriente. Mesmo assim, o conforto do seu estilo de vida aqui logo tornou fácil a adaptação. “Eu moro no bairro da Liberdade há mais de 10 anos”, conta. “Aqui tem mais facilidade para tudo, não somente para o lado japonês (comidas etc.) mas também para todas as outras necessidades. Para viver aqui me sinto mais livre do que lá no Japão”.

Engajado na música popular japonesa, Kawarazaki já contribuiu em diversos eventos do nicho como membro das bandas tradicionais e, ainda hoje, prossegue com as atividades semanalmente nos bairros da Saúde e Vila Mariana. “Como sou do Japão, não preciso me esforçar para conservar a minha cultura”.

Kawarazaki ainda relata que, enquanto membro do comitê cultural da Bunkyo, comparecia a reuniões em que ninguém falava japonês, apesar da ênfase de alguns membros em ensinar o idioma. “Acho melhor conduzir a reunião falando japonês”, opina. “Assim eles vão virar exemplos”.

Na mesma linha, Kawarazaki lamenta a pouca incidência de nikkeis que conhecem o idioma, ainda que se identifiquem com a cultura nipônica. Com isso, ele teme que os brasileiros recebam informações erradas ou ultrapassadas ao abordarem essas pessoas menos engajadas culturalmente. “Poucos descendentes buscam informações atualizadas do Japão porque não sabem ler japonês”, defende o músico.

Da mesma forma, uma das maiores impressões sobre a cultura nipo-brasileira aqui em São Paulo é, na verdade, precipitada. Embora a densidade populacional de japoneses na Liberdade não seja tão expressiva hoje quanto era no século passado, existe uma carga cultural que estampa o comércio da região. “As maiores lojas hoje do bairro da Liberdade os donos são chineses, mas o marketing é japonês”, revela Eduardo. “O bairro acabou criando essa identidade, e eu acho que esse é o legado”.

O historiador aponta que a identidade japonesa, apesar de ser mais difundida culturalmente na Liberdade, não se resume ao bairro. Ele menciona que na região da Saúde, hoje, há expressivo índice populacional de nipo-descendentes; além de relembrar a influência no cultivo de pêssegos e morangos em Itaquera, onde passou a infância, cercado de características japonesas. “Da mesma forma que árabes, espanhóis, italianos e portugueses, os japoneses já estão há mais de cem anos aqui no Brasil, então essa identidade de um bairro japonês não existe mais”.

Por outro lado, Eduardo aponta que na Vila Carrão, na Zona Leste, ainda resta um forte núcleo de atividade nipo-brasileira. O distrito concentra nikkeis da província de Okinawa, um arquipélago situado no extremo sul do Japão. É uma cultura comparável à basca, na Espanha, uma vez que detém dialeto próprio e guarda uma herança geopolítica que a difere das demais províncias japonesas. “É curioso que essa identidade okinawana é, proporcionalmente, mais evidente no Brasil do que no Japão”, demarca o historiador.

Há 114 anos, 793 imigrantes japoneses desembarcaram do navio Kasato Maru, dos quais apenas 131 permaneceram nas fazendas contratantes. Hoje, são mais de 2 milhões de japoneses e nipo-descendentes vivendo no Brasil, sendo a maior população nipônica fora do Japão em todo o mundo. “Se você for aos Estados Unidos, à Europa, América Latina, até na Ásia, quando se fala de Oriente, fala-se China”, denota Eduardo. “O Brasil é o único país que, quando se fala de Oriente, o nome que vem primeiro é Japão”.

Ainda assim, a política de imigração decaiu com as eventuais crises econômicas que afetaram a produção cafeeira e, mais tarde, também sofreu os impactos da Segunda Guerra Mundial. A partir das décadas de 1970-1980, houve alterações na legislação que tornaram o processo imigratório mais restritivo, quando comparado ao início do século, mesmo diante do sucesso de projetos governamentais de assentamento no Cerrado, que se expandiu para a Bahia, Pará, Tocantins e no Sul. “Em algum momento, o Brasil considerou que já tinha gente suficiente para tocar esse país”, afirma Eduardo. “Essa coisa de Brasil ‘país de imigrantes’ é coisa de passado”.

Não obstante, o secretário-geral administrativo da Bunkyo demonstra preocupação com as impressões do mundo sobre a China. Tanto nas questões militares quanto econômicas, e também no que tange ao preconceito intensificado pela pandemia do coronavírus, ele alerta sobre os riscos de associação aos países orientais como um todo. “Até hoje, quando as coisas ficam difíceis, o mundo começa a dividir os seres humanos pela cor da pele”, expõe. “Em 2001, chamaram os ataques às Torres Gêmeas de ‘Pearl Harbor do Século XXI’ e igualaram os pilotos terroristas da Al-Qaeda aos kamikazes japoneses”.

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O uso de novas tecnologias para experiências estéticas cria inúmeras possibilidades de diálogo entre a máquina, o simbólico e o humano.
por
Sophia G. Dolores
|
23/09/2022 - 12h

A história das obras interativas começa nos últimos anos da década de 1960, quando os primeiros passos em relação a projetar obras de arte que fossem capazes de reagir em tempo real aos movimentos e sentimentos dos espectadores foram dados. As chamadas ‘exposições imersivas’ começam a se desenvolver como uma vertente da arte contemporânea e moderna, a partir da ideia inicial de levar ao público experiências que poderiam ser classificadas como intensas e polissensoriais, utilizando de diversas projeções de vídeos, luzes, cores, sons e até de essências olfativas, no intuito de envolver e incluir qualquer tipo de visitante por completo.

Não é à toa que essas experiências chamam a atenção do público até os dias de hoje, elas acabam ganhando cada vez mais espaço uma vez que atraem importantes investimentos e grandes artistas interessados na intersecção entre a arte, a tecnologia, e talvez o mais temido, entretenimento.

Foi o caso de Van Gogh, Cândido Portinari, Leonardo da Vinci e outros artistas que, embora não estejam mais no mesmo plano que seus admiradores, foram aclamados pela crítica e por milhares de espectadores que passaram em suas salas todos os dias enquanto a imersão durou. Alguns museus, salas e galerias do Brasil receberam nos últimos anos, instalações de grandes nomes que compõem a arte no cenário nacional e no mundo.

Portinari para todos, Maio de 2022 - Acervo Pessoal
Portinari para todos, Maio de 2022 - Acervo Pessoal

 

 A popularização das exposições imersivas acompanha o aumento geral da visitação de diversos públicos aos museus e demais espaços culturais. No momento em que praticamente tudo que é vivenciado é registrado e postado na internet, a experiência na arte, claro, não poderia ficar de fora. Enquanto esses fragmentos de pinturas tomam conta do espaço expositivo, a arte passa a ser vista também como um plano de fundo para os registros nas redes sociais. Seria esse um raso interesse, de fato, pelo mundo das artes? Luciana Nemes, graduada em Educação Artística e pós-graduada em Museologia pela Universidade de São Paulo e ex docente das disciplinas de Concepção; Planejamento de Exposições; e Montagem de Exposição; Sistema de Ações Museológicas no Centro Universitário Belas Artes acredita que todas as linguagens de hoje são interessantes, cabe aos curadores e expositores dialogarem com a melhor forma de representação sem distorcer a história de cada artista. “As exposições imersivas estão caminhando com a evolução da tecnologia, e é mais uma linguagem que as instituições culturais podem se apropriar para diversificar e atingir todo tipo de público [...] no mundo de hoje, a gente tem que usar isso da melhor forma possível. Por outro lado, a relação com o objeto, com a fatura produzida pelo artista é insubstituível. Quando a gente mescla as duas linguagens, pode ser muito interessante ao visitante, poder dar a oportunidade de chegar mais perto.”

Ainda que o número de visitantes e o montante dos lucros possa crescer, é importante questionar se o contato com a arte é enriquecido na mesma proporção pela busca dessas novas experiências. Se direcionarmos a questão para a absorção do conhecimento nas instituições culturais, e perguntarmos de que modo ela é aprofundada, revigorada ou fortalecida pelas imersivas, o que as pessoas têm aprendido verdadeiramente? Em outras palavras: “ as exposições espetaculares e envolventes estão atraindo grandes multidões, mas estão mudando a experiência dos museus? Estão impactando e tocando os espectadores da forma que os artistas que estão sendo homenageados gostariam de transmitir através de suas obras? 

Luciana, que já atuou diretamente com o público, e hoje coordena a área de Exposições do Museu de Arte Moderna de São Paulo, ressalta que a experiência é um assunto complexo. “Hoje em dia muito se fala sobre ‘qual experiência que eu quero que o público tenha em relação a uma exposição? Qual o meu objetivo?’ Se a gente pensar que essas exposições proporcionam uma experiência com o corpo, pode ser muito interessante sentir a projeção, uma música, um apelo visual, ou mesmo uma fotografia detalhista. Eu não gosto de limitar essas exposições, pois para um público que não têm a prática e vivência de visitar exposições, isso pode ser muito valioso, pode quebrar o estigma que museu é lugar de coisa velha, ou de um lugar que não é para todos [...] o ideal é pensar em como unir todas as linguagens, e se utilizar desses recursos que hoje estão nas nossas mãos.” Já Cauê Alves, curador da mais nova exposição do Museu de Arte Moderna: “Sob as Cinzas, brasa” e também docente do curso de História da Arte da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo acredita que de fato as experiências imersivas estão tocando e mudando a vivência de seus visitantes. “Os museus estão tendo que se reinventar, não só pelas experiências imersivas, acho que a pandemia acelerou esse processo, teve uma mudança enorme na relação digital. Já existia aquelas experiências em 3D, aquelas amostras que poderiam ser vistas pela internet, mas o museu digital sendo uma realidade, é claro como os acervos têm se preocupado em se mostrar visíveis nas redes sociais, a comunicação dos museus se transforma, ou seja, têm impactado as instituições e a relação que o público cria com as obras [...] é inevitável que os museus incentivem que as pessoas postem, fotografem, divulguem. O que a gente fala do antigo boca a boca, hoje em dia são os posts espontâneos. O caminho é apenas uma transformação do analógico para o digital, e mais a concepção de projetos que já nascem e se desenvolvem em meios digitais, claramente transformando não só os museus, mas a arte de uma forma mais ampla.”

As exposições podem carregar diversas linguagens e interpretações. Podem ser “instagramáveis” e servirem para curtidas na rede social, como também podem ser vazias de conteúdo e nada fotogênicas. Estabelecer e entender, principalmente,  que cada era tem a sua linguagem e independente de qual seja, elas conversam entre si, vai muito além da arte. Esse diálogo pode ser a resposta da sociedade que construímos e quais valores foram aprendidos. A arte dialoga com a arte seja ela qual for, e todas as relações e correlações serão possíveis independente da época.

Portinari para todos, Maio de 2022 - Acervo Pessoal
Portinari para todos, Maio de 2022 - Acervo Pessoal

 

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