O Museu dos Aflitos tem como principal objetivo manter viva as raízes vindas de África no bairro da Liberdade, o qual atualmente é representado por decorações e comércios asiáticos. “O povo tem direito a ancestralidade”, reforça Cleide Aparecida Vitorino, mulher negra de 59 anos que estava acompanhando a visitação.
Os guias, Luisão Cruz e Geovanna Perez descrevem o trabalho realizado como educação patrimonial. As caminhadas guiadas pelas ruas do centro da cidade vão além de lazer e turismo, buscam fatos históricos. As ruas por onde andamos hoje, já abrigaram pontos para linchamento de pessoas negras. O museu não tem um espaço físico como os tradicionais, seu acervo são as ruas, monumentos e histórias do centro de São Paulo.
O escritor José Abílio Ferreira, mestre em Humanidades, Direitos e outras Legitimidades pela USP, reforça: "É importante, fundamental, essencial e indispensável nos reconhecermos em um espaço. Quando a história de São Paulo, no caso específico do bairro da Liberdade, é redescoberta estamos recuperando nossa humanidade".
Os educadores, além de lidarem com os desafios da missão educativa da visitação, enfrentam a dificuldade de locomoção em grupo na feira da Praça da Liberdade, mantendo sempre atenção para que nenhum visitante acabe se perdendo do grupo.
O encontro com os participantes acontece na Igreja de São Gonçalo, que antigamente era o morro da forca. O passeio começa com uma conversa descontraída durante a primeira parte do trajeto: Luisão fala sobre a boa relação do projeto com o padre da igreja, relembrando que antigamente era necessário se ajoelhar no milho nas missas, mas que hoje os tempos são outros e conta como trata a relação com seu filho na atualidade e os desafios da paternidade.
"A história negra e indígena do bairro da Liberdade é a história de uma periferia que já existia em relação ao triângulo histórico [tem como vértices os três conventos em torno ao Colégio dos Jesuítas, o Mosteiro de São Bento, o atual Poupa tempo da Sé e a Faculdade de Direito no Largo São Francisco]", complementa José Abílio.
Ao chegar no largo Sete de Setembro, os educadores iniciam de fato as atividades pedindo a participação dos visitantes. São entregues cartas com números para cada um, que são lidas em ordem posteriormente. Ainda ali no largo, a carta de número 1 e 2 são lidas para contar a história dos escravizados que caminhavam da praça até a antiga prisão, onde hoje existe um prédio residencial.
Um pouco mais a frente, passamos por um pelourinho que hoje funciona como sistema de ventilação do metrô e conta com uma discreta placa azul que marca sua história. Seguimos na Avenida da Liberdade até chegar à famosa Praça da Liberdade, onde a competição com outros grupos de passeio e a própria feira da praça fez a guia Geovanna, procurar um lugar mais calmo para nos sentarmos e onde pudéssemos ouvi-la.

A educadora então distribui imagens, ilustrações e documentos referentes a Francisco José das Chagas, pois ali ela conta toda a história de como ele se tornou o santo popular da capela dos aflitos, o Chaguinhas.
Durante a visita, Cleide Aparecida Vitorino, chamou a atenção com seu largo sorriso e sempre muito atenta aos detalhes. Ela conta, em entrevista à AGEMT, que essa visita é sobre sua própria história. Professora e doutora em Direito voltado para os recortes étnicos raciais, ela elogia: “Dos grupos que já participei para visitação, achei esse mais consciente, você vê que foi investigada e bem construída”.
A Praça da Liberdade, onde hoje se concentra grande parte da feira asiática, era onde aconteciam os enforcamentos. Naquele lugar, tentaram enforcar Chaguinhas três vezes, mas em todas a corda arrebentou. Geovanna então nos conta que o bairro acabou recebendo mais tarde o nome de Liberdade porque a população gritava “liberdade, liberdade, liberdade de Chaguinhas” e ainda complementa que vendo a força que ele vinha tomando, as autoridades resolvem matá-lo. Mas Chaguinhas já havia conquistado a população com sua história e o povo preto de São Paulo nunca deixou que se esquecessem de quem ele era e o que ele sofreu.
Com isso, a Capela dos Aflitos se tornou um ponto de homenagem a Chaguinhas. Antes da capela ser fechada para restauração, em maio deste ano, Cleide conta que era comum entrarem na capela, bater 3 vezes na porta, fazer os pedidos e promessas, faziam uma reverência mesmo sendo de outras religiões.
Cleide ainda conta que as reivindicações para a restauração da Capela dos Aflitos vêm desde o governo de Mario Covas, apesar do governador ter apoiado a importância da memória dessa ancestralidade, ele nunca olhou para essa questão de cuidar de um monumento que é importante para história negra.

A visitação continua no sentido da Rua dos Aflitos, onde fica localizada a Capela dos Aflitos. O caminho até lá é conturbado, pois enquanto o grupo tenta se manter unido para chegar à rua certa, a multidão da feira dificulta. A rua da capela, tomada por uma feira de produtos naturais, mal tem espaço para o grupo se juntar em frente ao patrimônio e ouvir os educadores.
Enquanto Geovanna grita para que todos consigam ouvir sua explicação, um DJ ao fundo mantém um rock no último volume. Luisão então toma a frente e com uma voz mais alta complementa a explicação de que ali, onde existe a feira, é um lugar sagrado porque debaixo do asfalto existe o cemitério dos Aflitos e acredita-se que Chaguinhas tenha sido sepultado ali. “Você tem a capela ali, deveria ter esse cuidado com o som da feira”, comenta Cleide.
Em uma conversa mais intimista ao fim da visita à Capela, Geovanna conta que estão tentando tornar a rua inteira um patrimônio tombado para que não haja mais toda aquela movimentação e barulho em um ambiente espiritual.
"O bairro da Liberdade, a estação de metrô e a praça, não são Japão-Liberdade, formam apenas um território Liberdade, que abriga e acolhe as diversas etnias e nacionalidades que construíram essa região", finaliza Abílio Ferreira.
No último sábado de setembro (27), aconteceu no Pátio Estação São Bento, o encontro do Hip-Hop. Este evento acontece todo último sábado do mês e tem como objetivo manter vivo o legado e a essência do hip hop nacional. Considerado o berço do hip-hop brasileiro, o pátio da São Bento é palco de encontros desde meados da década de 80.
Na época, os encontros ocorriam todo sábado e serviam como um palco para troca de experiências, vivências e aprendizados. “Eu sou de São Mateus…então assim, nóis treinava lá, e aqui era o lugar [São Bento] onde a gente tirava a prova. Então aqui vinham várias gangues, várias turmas de vários lugares, e aí começava o racha. Aqui não tinha hora...e assim ia” conta o B-Boy–como são chamados os dançarinos de break– Kapote. Ainda em entrevista com AGEMT, ele lembra que, antigamente a vida era mais leve, “na cabeça era só dançar, dançar, dançar…era o que nóis tinha…não tinha mais nada, a não ser o barro, candomblé ou a igreja” e completou, com os olhos cheios de água, “se não fosse o break, eu não estaria aqui hoje. Não estaria mesmo”.

Rooneyoyo O Guardião, um dos responsáveis pela execução da exposição Hip-Hop 80’SP– São Paulo na Onda do Break, no Sesc 24 de maio, reforça que falar da São Bento é também falar de sentimento afetivo e de legado. “O Hip-Hop pra mim é vida. Vida positiva, vida que você pode compartilhar coisas boas e aprender muita coisa interessante com os seus amigos, com seus parceiros. As pessoas que estão em volta de você são sua proteção, seu laço…é importante isso, é bem legal!”, declara.
Durante um período, as atividades no Pátio foram encerradas, e só voltaram depois da produção coletiva de um abaixo assinado. Atualmente, o espaço é liberado uma vez por mês, e, apesar dessa mudança, o que realmente falta é um apoio, tanto financeiro quanto estrutural, que perdure. “A gente faz isso há 40 anos, então toda ajuda ou colaboração artística é sempre bem-vinda em questões financeiras, né…porque isso faz parte de um trabalho, que precisa ser remunerado por alguma parte. Muitas vezes ela é corporativa e muitas vezes pode ser também governamental pra poder fazer com que o trabalho se expanda e chegue a mais pessoas”, afirma O Guardião.
O Hip-Hop têm o poder de unir e de aproximar pessoas com gostos, experiências pessoais e interesses em comum. Para Rooneyoyo, o mais especial sobre o movimento é o que ele proporciona na vida de cada um. Desde menino inserido no meio, ele garante que o sentimento ainda é o mesmo. “Eu saio de casa com a mesma intensidade, mesma vontade, é…eu faço isso há tanto tempo, que eu me sinto sempre igual: bem” e conclui, “é um lugar que tenho muitos amigos, fiz muitos amigos, e muitas vezes eu não sei nem o nome, nem o endereço, mas a gente empresta disco, empresta fita, empresta câmera, empresta as coisas e no outro mês ta aqui…é uma família”.

Carlos Heduardo, B-Boy de 9 anos e membro da Federação de Breaking do Mato Grosso do Sul, a FBMS, em entrevista à AGEMT, relata que o break (um dos pilares do movimento do hip-hop) é uma paixão herdada do pai, também Carlos Heduardo. Além de sentir-se orgulhoso por construir esse legado, o genitor afirma que é gratificante ver o filho seguir seus passos: “é um sonho passando de geração em geração”.
Somado a carreira de B-Boy, Heduardo é educador e acredita que a história do pátio deveria ser pautada em escolas e em pesquisas, a fim de promover um ensino amplo e que alavanque a cultura. “Por mais que [o hip-hop] já tenha avançado bastante, ainda precisamos de incentivo. Isso aqui é um patrimônio cultural. Todos os cantos do mundo, do Brasil, as pessoas falam de São Bento…É manter firme, fazer a São Bento continuar”, disse.
A nossa conversa aconteceu no mesmo dia que marcou a primeira visita de seu filho à São Bento. Era nítido no olhar e no jeito de falar do menino, o quão confortável ele estava. Era transparente que ele, mesmo com tão pouca idade, já se sentia pertencente àquele local. Essa é a mágica do hip-hop. Ele te acolhe quando ninguém mais te acolhe. Ele te valoriza, quando ninguém mais te valoriza. Ele é único e eterno.
E quando questionado sobre o que quer ser quando crescer, Carlos Heduardo respondeu: “eu? eu já estou sendo o que queria–sou B-Boy”.
Além do break, rap e grafite, os patins também fazem parte do grande conglomerado Hip-Hop. Juliana Jeronimo, patinadora e frequentadora da São Bento há 3 anos, compartilha que os patins foram os responsáveis por fazer com que ela conhecesse o movimento hip-hop e o próprio pátio. “Aqui foi um lugar onde eu consegui ser acolhida pra vir dançar as músicas da cultura do hip-hop e do patins”. Para ela, essas atividades a ajudam a se expressar e ser o que quiser fora do sistema.
Ainda que tenha se sentido acolhida quase que de imediato, Juliana comenta que o pessoal mais jovem tende a ser mais receptivo, enquanto os mais velhos ainda sofrem com os choques geracionais. “Tem alguns pontos ainda a melhorar, mas a galera nova vem chegando e vem trazendo essa informação e essa quebra de preconceitos.”
Luiz Carlos “Paciência”, participante do movimento há mais de 30 anos, destaca que reunir o pessoal das “antiga” e os mais novos é a chave para manter o movimento vivo. O hip-hop vai além das gerações, ele atravessa o tempo, sobrevive e resiste durante anos. Seja pela audácia de quem lutou por isso ou pelo respeito de quem chega para somar.
No meio do maquinário das fábricas, o punk do ABC Paulista nasceu gritando contra o preconceito, o autoritarismo e o conformismo social. No fim dos anos 1970, quando a ditadura ainda apertava o cerco e a classe trabalhadora tomava as ruas em luta por direitos, jovens de jaqueta de couro, tênis gastos e ideais inflamados transformaram o ruído elétrico de guitarras em discurso político. No cenário atual, essa revolta visceral dos punks ainda se faz presente, mas com uma roupagem mais inflamada.
No começo do mês de agosto deste ano, um trio de jovens punks tomou como avalanche a mídia brasileira e fez a sociedade relembrar da forte presença histórica do movimento nesta região da Grande São Paulo. Um estudante de 19 anos foi internado em estado grave na UTI após ser espancado no dia 05/08 por integrantes do movimento punk. A agressão ocorreu em uma praça em frente ao Teatro Santos Dumont, em São Caetano do Sul.
A agressora, de 19 anos, relatou aos policiais que a discussão começou após supostas ofensas racistas feitas a ela pela vítima do espancamento, segundo o g1. Ferido, o jovem conseguiu fugir dos agressores e buscou ajuda em uma loja, que chamou as autoridades. O caso foi registrado na Delegacia de São Caetano do Sul como tentativa de homicídio. O Tribunal de Justiça afirmou que o caso está em sigilo.

A história provocou debates online: até que ponto é legítimo aceitar o comportamento de revolta agressivo conhecido do movimento apenas pela sua bagagem histórica?
Na década de 1970, ABC era o coração metálico do país. Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul formavam o triângulo do aço, o epicentro das fábricas automobilísticas que moviam a economia brasileira. Nesse contexto industrial, a insatisfação tomou forma. As greves lideradas pelos metalúrgicos, com figuras como Luiz Inácio Lula da Silva, simbolizavam o início do fim da ditadura militar, ao mesmo tempo que revelavam um país dividido, exausto e desigual. A juventude que crescia nesse ambiente via o mesmo Estado que prendia sindicalistas reprimir qualquer forma de expressão livre. O silêncio imposto pelo medo começou a rachar, e por essas frestas entrou o punk.
Grupos como Restos de Nada, Cólera, Inocentes e Olho Seco começaram a transformar as angústias suburbanas em hinos de resistência. Os shows eram improvisados em salões comunitários, garagens ou praças. Era o som da juventude operária tentando ser ouvida. A precariedade virou estética e política. Sem espaço na grande mídia e sem dinheiro para instrumentos decentes, o movimento se inventou por conta própria.
Mas ser punk naquela época era também ser alvo. As autoridades tratavam o punk como sinônimo de delinquência, ignorando que por trás do som distorcido havia uma juventude tentando discutir desigualdade, repressão e direitos. Enquanto os pais enfrentavam a repressão nas greves, os filhos enfrentavam o mesmo aparato policial por ousarem existir de forma dissonante.
Ivan Shupikov, fotógrafo e videomaker musical, entrevistado para a produção dessa reportagem, durante um show de punk no final de setembro deste ano em Santo André, defendeu o caráter contestatório do movimento: “A música sempre teve força para levar mensagens a lugares onde palavras isoladas não chegam. Muitos jovens não se interessam por política ou questões sociais, vivem sua rotina sem questionar. O punk, porém, penetra até os mais alienados, usando melodias marcantes para semear dúvidas sobre injustiças e desigualdades. Quando um jovem se identifica com o punk, ele passa a enxergar o mundo de outra maneira, sentindo-se parte de uma rede que desafia o status quo.”
Com o tempo, a cena punk se dividiu. Parte se inclinou para o anarquismo e o ativismo social, criando pontes com coletivos de esquerda e movimentos autônomos; outra parte mergulhou no niilismo, rejeitando qualquer forma de organização, inclusive política. Mesmo assim, o punk do ABC manteve a chama crítica acesa.
O caso de agressão em São Caetano do Sul reacende um debate que acompanha o punk desde o seu surgimento: até que ponto a revolta, que foi combustível para um movimento de contestação social e política, pode ser confundida com violência gratuita? Embora o episódio tenha ganhado grande repercussão, ele não representa a totalidade de um movimento que, historicamente, encontrou no inconformismo uma forma de denúncia.
Ao longo das décadas, essa estética de choque e confronto perdeu parte de seu alcance coletivo, mas não sua relevância simbólica. O punk sobreviveu às transformações do tempo, adaptando-se a novos contextos e plataformas, ainda que mais fragmentado e menos mobilizador do que nas origens. Hoje, enfrenta outros tipos de silenciamento: o esvaziamento político, a mercantilização da rebeldia e o distanciamento entre as novas gerações e as pautas sociais que antes sustentavam sua base.
Nesse cenário, o caso recente funciona como um espelho distorcido. Ele expõe como a imagem do punk segue cercada de estigmas que o associam à violência, enquanto seu caráter cultural e histórico permanece pouco reconhecido. Ao mesmo tempo, levanta questões sobre os limites entre a liberdade de expressão e a responsabilidade individual, dilema que não é exclusivo do movimento, mas da sociedade que o observa.
Na terça-feira (7) foi inaugurado no Brasil o projeto musical “Tiny Desk Concert”, com a participação do músico João Gomes. O vídeo de lançamento tem 20 minutos e oito músicas do artista, entre elas hits famosos como “Dengo” e “Meu pedaço de pecado”.
Criado em 2008 por Bob Boilen e Stephen Thompson, da rádio NPR, o Tiny Desk surgiu com uma proposta inovadora no meio da era de grandes performances, barulhos e estruturas: aproximar o artista convidado do público, com um tom descontraído, intimista e, às vezes, com melodias inovadoras.
As apresentações acústicas da NPR logo conquistaram o coração das pessoas. O projeto que se iniciou com uma postagem em um blog e com a participação da cantora folk Laura Gibson chamou a atenção, mais tarde, de nomes como Adele, Justin Timberlake, BTS e Taylor Swift.
Não demorou para que o sucesso chegasse ao Brasil, com seu estilo musical inovador. O Tiny Desk norte-americano atingiu o auge das pesquisas do Google entre os brasileiros em 2024, mas a música brasileira já tinha ganhado espaço antes. Cantores como Liniker, Rodrigo Amarante, Luciana Souza e Seu Jorge foram convidados a participar de episódios na NPR.

A popularidade deu resultado e abriu as portas para a nova fase do Tiny Desk no Brasil. A estreia de João Gomes repercutiu e foi bem recebida entre o público. O cantor, que assumiu estar envergonhado no vídeo, ficou arrepiado durante as apresentações e concluiu, em entrevista com Sarah Oliveira, que “é nesse formato que a gente vai ter a oportunidade de apresentar tanta gente daora”.
Uma das questões levantadas entre os ouvintes do programa é a presença não só de nomes grandes, como João, mas também de médios e pequenos artistas. A apresentação de nomes que vão além do mainstreaming é uma das vertentes do projeto. Dar visibilidade para cantores de estilos como folk, blues e até de outras nacionalidades é constante, mesmo que em menor quantidade.
Os episódios do Tiny Desk serão lançados toda terça-feira às 11h (horário de Brasília) e às quintas, os artistas convidados também serão entrevistados por Sarah, tudo no canal do youtube do programa.

O movimento “Stop Killing Game” criado por Ross Scott, do canal Accursed Farms, apresentou em 2025 mais de 1 milhão de assinaturas à União Europeia para exigir medidas que impeçam a remoção e desligamento de jogos digitais. A preservação é definida como um conjunto de ações voltado a manter a integridade de bens, documentos ou pessoas, tendo museus e centros históricos como instituições dedicadas a essa tarefa.
No campo do entretenimento, os videogames se destacam como a indústria que mais cresce desde a década de 1950. Apesar do seu impacto econômico e cultural, eles recebem atenção limitada em políticas e práticas de preservação, diferente de outras formas de arte, como cinema, televisão e literatura.
Devido a inacessibilidade de jogos comprados por consumidores, a proposta do movimento é simples, mas poderosa: proteger os consumidores e preservar os videogames, trazendo as práticas recorrentes de empresas que fecham os servidores ou retiram os jogos do mercado digital, apagando não apenas produtos, mas também capítulos de história cultural dos videogames.

A iniciativa se transformou em “Stop Destroying Videogames”, utilizando a Iniciativa de Cidadania Europeia, uma ferramenta disponível para cidadãos da União Europeia para levarem questões diretamente ao parlamento europeu. A petição foi registrada em junho do ano passado e começou a coletar assinaturas no dia 31 de julho de 2024. No mesmo dia, Scott, soltou um vídeo com o título "Europeans can save gaming!", que compartilha sobre como o movimento pode levar a criação de lei com um número alto de assinaturas e apoiadores.
Ele destaca que a criação da lei não era uma certeza, entretanto, apontava que existem fatores, como: o alinhamento com outras políticas para consumidores e indefinições jurídicas nas práticas no meio dos games. Esses pontos reforçam que o sucesso está no futuro do movimento. Depois de alcançar 1 milhão de assinantes e realizar uma vistoria - para desconsiderar menores de idade, duplicidades e pessoas fora da UE - a petição apresentou 97% de validação das assinaturas.
A preocupação é quando um jogo é removido das lojas digitais ou tem os serviços online desligados, pois deixa de ser acessível para futuras gerações de gamers. Um dos casos mais conhecidos foi do “Project CARS 3”, lançado em 2020. O produto foi retirado de circulação para venda e fecharam os servidores, tornando-se praticamente inacessível.
O mesmo ocorre com títulos de grandes estúdios como Ubisoft e EA, sendo uma tendência que preocupa colecionadores, consumidores e fãs. Diferente de filmes, livros e músicas, que possuem mais facilidade para sua preservação, os games dependem de vários fatores: chaves digitais, servidores e licenciamento contínuo para existir. Para isso, a preservação não exige somente de vontade cultural, mas também mudanças legais e regulatórias.
No Brasil, esse debate começou a ganhar relevância em 2024, com a aprovação do Marco Legal da Indústria de Jogos Eletrônicos (Lei nº 14.852/2024). Embora a lei tenha o intuito de incentivar o crescimento do setor no país e atrair investidores, ela também abre espaço para a reflexão sobre o ciclo de vida dos jogos e sua preservação como patrimônio cultural. A luta pela proteção e cuidados dos videogames não é apenas dos jogadores nostálgicos, mas também uma questão cultural e de direito de acesso.
O “Stop Killing Games” mostra que, diante da lógica do mercado, há fãs dispostos a lutar para que os jogos não desapareçam.Se no passado os museus se dedicaram a guardar fósseis, manuscritos e obras de arte, o futuro terá que olhar também para os consoles, cartuchos e CDs. Porque, como lembra o movimento, “ao desligar um jogo, não se mata apenas um software, se apaga uma parte da história”.











