Com o dólar em alta e edições cada vez mais sofisticadas, o mercado de HQs tenta sobreviver entre colecionadores fiéis, sebos e drives compartilhados na internet
por
Emily de Matos
Luis Henrique Oliveira
Wildner Felix Cerqueira
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02/04/2026 - 12h

Quem passa em frente a uma banca de jornal e olha para as HQs disponíveis logo percebe: o preço mudou. Edições simples viraram raridade e, no lugar delas, capas duras e omnibus (no contexto editorial, refere-se a um volume que reúne várias obras) dividem o espaço nas prateleiras. Com o dólar em alta, principalmente depois da guerra no Oriente Médio e o custo do papel acompanhando a disparada da moeda americana, os quadrinhos chegaram a 2026 com valores que assusta boa parte dos leitores brasileiros.

Para quem trabalha no setor há décadas, porém, a novidade é relativa. "O quadrinho nunca foi barato no Brasil. Sempre teve um preço alto", afirma Fernando Pedroso Vaz, jornaleiro veterano de Itapevi, na Zona Oeste de São Paulo, que atua há 30 anos no ramo. Na sua visão, o produto evoluiu junto com o valor cobrado, saiu do básico e se transformou em peça de colecionador, com edições especiais e volumes únicos que reúnem histórias inteiras em um só livro.

Fernando Pedroso Vaz, jornaleiro de Itapevi, ao lado de quadrinhos diversos
Fernando Pedroso é jornaleiro à 30 anos em Itapevi. Foto: Luis Henrique Oliveira

O problema, ele admite, é outro: "O salário do brasileiro não subiu o equivalente". É nessa tensão entre um produto que se reinventou como objeto de arte e um poder de compra que patina que o mercado de quadrinhos tenta encontrar seu equilíbrio no Brasil. O mercado de quadrinhos passa por um momento de expansão paradoxal: ao mesmo tempo em que conquista novos públicos, enfrenta desafios estruturais que ameaçam os canais tradicionais de venda. Para Maria Gabrielle Fontinele, leitora desde os 13 anos, o preço elevado não a afastou, mas ela percebe seu efeito nos leitores mais novos. "Tem afastado, principalmente em relação aos da Marvel", afirma. Na sua leitura, o boom dos filmes criou um atalho: o público se interessa pela história, mas migra para a tela e esquece a publicação impressa. A adaptação cinematográfica, que poderia funcionar como porta de entrada para os quadrinhos, acaba competindo com eles, explica Fontinele. "O pessoal começa pela marca da HQ, mas no final acaba totalmente diferente", ela observa, apontando uma contradição que frustra tanto leitores antigos quanto potenciais novos consumidores.

Quem permanece fiel ao formato impresso carrega algo que vai além do hábito. Maria descreve uma dimensão afetiva que sustenta o mercado mesmo diante das adversidades: "você criou um apego emocional por aquilo." A coleção vira memória, identidade, algo transmitido entre gerações. É esse público cativo, fiel desde o início, que mantém bancas como a de Itapevi de pé, mesmo com a concorrência brutal da internet. O vendedor não tem ilusões sobre o futuro das bancas: "o futuro das bancas é deixar de existir". Mas reconhece, com certa ironia, que a internet, ao mesmo tempo que lhe tirou clientes, fortaleceu o colecionismo. Ficou mais fácil encontrar edições antigas, completar séries, acessar títulos importados.

A entrada da banca de Fernando, cheia de revistas e quadrinhos
A banca de Fernando Pedroso é a única que ainda resiste na cidade de Itapevi. Foto: Luis Henrique Oliveira

Para driblar a disparidade entre o número das vendas, grandes editoras vêm adotando medidas alternativas. A Panini, por exemplo, apostou na volta de quadrinhos com a lombada canoa como forma de baratear a produção e tornar o custo mais acessível para os consumidores. Esse formato tem como característica as páginas grampeadas, diferentes da encadernação com as folhas coladas que tinham adotado nos últimos anos.

Também trouxeram para o Brasil em 2025 os “DC de Bolso”, relançamento de arcos essenciais dentro do universo DC Comics compactados em publicações menos luxuosas que as versões anteriores. Gibis como Reino do Amanhã e Superman: Entre a Foice e o Martelo custam entre R$23,34 a R$49,50, enquanto suas impressões em capa dura chegam a R$450. Embora a intenção seja atrair novos leitores, os índices não mentem: segundo pesquisas feitas pela Nielsen BookScan, houve uma queda de 14% nas vendas de quadrinhos em 2023, último ano do estudo.

Paulo Henrique Passos, estudante de antropologia na Universidade de Brasília (UnB), é um leitor assíduo de revistinhas desde os 11 anos de idade. A paixão pelo meio é tanta que, durante a pandemia da Covid-19, ele criou uma iniciativa para facilitar o acesso a materiais do Batman, sejam eles filmes, desenhos animados e, claro, histórias em quadrinhos. "Eu percebi que como o novo filme [do Batman] estava a caminho, eu poderia não só facilitar as pessoas a conhecerem mais o personagem, mas também fazer elas entenderem porque ele é tão amado e atemporal", explica o estudante.

Apelidado de “Bat-drive”, o projeto traz um acervo impressionante com todas as aventuras que o homem-morcego já protagonizou dentre seus 87 anos de criação – algumas fora de circulação nas bancas e livrarias, disponíveis de forma gratuita para qualquer um interessado em ler. Entretanto, a dedicação não impediu que Passos se decepcionasse com o mercado. Ele admite que diminuiu o fluxo de compra hoje em dia e que o preço não foi o único fator para a decisão.

“A qualidade oferecida pela maior editora do Brasil em histórias de quadrinhos, que é a Panini, também me fez perder muito interesse em continuar acompanhando as comics porque, enquanto o preço é muito alto, a qualidade não é equiparável ao valor que você está pagando”, explica.

Quadrinhos de diversas editoras e heróis espalhados no chão
Editoras vem tentando arranjar alternativas para não pesar tanto no bolso do leitor. Foto: Luis Henrique Oliveira

Tanto Fontinele quanto Passos relatam que começaram a comprar as HQs em sebos, optando por edições antigas de seus heróis favoritos a um menor preço. Feiras de livros e editoras independentes nacionais também entram nas opções na hora de comprar suas revistinhas e aumentar suas coleções. Essa escolha revela a contradição que as editoras brasileiras encontram no mercado hoje em dia; Se elas ainda buscam uma fórmula certa para equilibrar qualidade e acessibilidade, os fãs já encontraram as suas: entre sebos empoeirados, feiras de rua e drives compartilhados na internet.

Redes sociais e algoritmos remodelam funcionamento social da religião
por
Larissa Viana
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30/03/2026 - 12h

O exercício da fé se torna cada vez mais presente nas redes sociais e telas dos celulares, bem como na vida contemporânea acelerada. A prática religiosa não depende mais somente de espaços físicos e organizações formais de espiritualidade, como igrejas e templos. Fiéis têm possibilidades de construir trajetórias próprias que combinam crenças, aplicações e referências diversas. Alguns exemplos de ambientes digitais de religião incluem aplicativos, sites, comunidades e transmissões em redes sociais.

Nos apps e sites os usuários têm acesso desde textos informativos até celebrações e rituais. A cena é cada vez mais comum: alguém assiste a um culto ao vivo pelo celular, compartilha uma mensagem espiritual nas redes sociais e, minutos depois, consome conteúdos de outra tradição religiosa até em jogos. Recentemente, o fenômeno de missas na plataforma de jogos Roblox ganhou destaque por atrair o público jovem às celebrações da fé cristã. Os jogadores podem se inserir nas cerimônias, acompanhar por meio de transmissões públicas em aplicativos e fazer parte de chats de conversa online.

Apesar de seguir com sua tradicionalidade, a Igreja Católica se adapta às novas formas de evangelização e garante um maior alcance em espaços descontraídos. Em entrevista à AGEMT, o arcebispo da Arquidiocese de Aparecida no Roblox, Giovanni Burke, afirma que “embora tenha uma grande diversidade na comunidade católica do Roblox, todos professamos a mesma fé, e essa diversidade fortalece a nossa vida religiosa e coletiva, já que cada um pode praticar aquele carisma que mais se identifica”, explica Burke. 

Mesmo assim, aspectos estruturais da Igreja não são ignorados. Ainda existem no meio da plataforma cargos e hierarquias, embora não sejam oficializados. De acordo com Burke, “em nossa comunidade o papel dos nossos líderes como bispos e o papa é mais administrativo, em respeito e obediência ao magistério da Igreja real que detém a verdadeira autoridade para ensinar e governar”, ressalta.

Celebração de Domingo de Ramos no Roblox. Foto: Reprodução/Instagram/@arquiaparecidarb
Celebração de Domingo de Ramos no Roblox. Foto: Reprodução/Instagram/@arquiaparecidarb

Também existem outros tipos de coletivos digitais que celebram outras fés. “Como nossa comunidade é católica romana, tudo que fazemos está em conformidade com a Igreja. Mas também para quem pensa diferente há outras comunidades dentro do ambiente virtual da plataforma Roblox, como comunidades evangélicas”, diz Burke. Dessa forma, a Igreja e outras entidades passam por um processo de democratização da religião característico do tempo atual, já que o acesso se diversificou. A sinodalidade (do grego synodos (caminhar juntos), por exemplo, é a forma de ser da Igreja, não apenas um evento; valorizando a voz de todos, especialmente através de consultas em nível paroquial, diocesano e universal. "Mas, ainda sim submetidos a hierarquia da igreja, que não permite desvios na sã doutrina, mesmo que tenha de ser aplicada apenas aqueles que atentem a tradição e hierarquia da igreja”,  diz Burke.

Outro aspecto relevante no cenário contemporâneo é o papel dos algoritmos, que sugerem conteúdos com base no comportamento do usuário. Esse mecanismo tende a reforçar determinadas crenças e criar bolhas espirituais, nas quais o indivíduo é constantemente exposto a perspectivas semelhantes às suas. Com isso, cria-se o risco de isolamento ideológico que ocasiona uma visão de mundo limitada. Além de manter a concentração do usuário no ambiente virtual, que prejudica a vivência religiosa autêntica, também existe o perigo de disseminação de desinformação ou conteúdos negativos. Mas também oferecem a possibilidade de aprender e transitar entre diferentes perspectivas religiosas. Se por um lado, a era digital fragmenta, por outro ela também conecta. E é nesse equilíbrio instável que a religião segue se reinventando como uma construção humana em movimento permanente.

Associação Fernanda Bianchini transforma a cultura em ferramenta de inclusão
por
Gianna Flores
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30/03/2026 - 12h

O som das palmas marca o ritmo. Não é música ainda. É direção. É orientação. Em uma sala de ensaio na zona sul de São Paulo, braços se elevam, pés deslizam e corpos ocupam o espaço com precisão. À primeira vista, é uma aula de dança como tantas outras. Mas, ali o movimento não depende do olhar. A Associação Fernanda Bianchini Cia Ballet de Cegos construiu, ao longo de décadas, um trabalho que ultrapassa a ideia tradicional de ensino artístico. Fundada nos anos 1990, a instituição se tornou referência ao desenvolver um método próprio de ensino de dança para pessoas com deficiência visual, sem, no entanto, se limitar a isso. Hoje, o espaço acolhe alunos com diferentes tipos de deficiência e oferece atividades que vão do balé clássico ao pilates. Para a psicóloga Marina Queiroz de Andrade, especialista em inclusão social, esse tipo de iniciativa tem um impacto que vai além do aprendizado técnico. “A arte, especialmente a dança, reorganiza a forma como a pessoa se percebe no mundo. Quando o corpo encontra possibilidades de expressão, ele deixa de ser visto apenas pelas suas limitações e passa a ser reconhecido pela sua potência”, afirma.

Mais do que formar bailarinos, a dança, ali, não se resume à estética do movimento. Ela funciona como um meio de reorganizar relações, com o próprio corpo, com o outro e com o espaço, já que a dinâmica da aula revela outras formas de perceber o corpo e o espaço. As palmas e as orientações verbais funcionam como guia. O toque também se torna linguagem, mãos que conduzem, ajustam e indicam caminhos. Cria-se uma relação de troca que ultrapassa a técnica e se aproxima de uma construção coletiva do movimento. Trata-se de um processo que não ocorre de maneira imediata. Para doar e participar, clique e conheça o projeto

dançando
Durante o ano, a CIA realiza apresentações tanto internas e quanto abertas para o público geral. Foto: Gianna Flores

Há pausas, tentativas e repetições. Entre um exercício e outro, há risos, conversas, pequenos comentários que quebram a formalidade da aula e revelam o espaço como um ambiente de convivência. Na associação, a dança não é vista apenas como execução, mas também como relação. A presença de professores e bailarinos com deficiência visual reforça essa lógica. O conhecimento não vem de fora, mas é construído dentro da própria experiência. Ensinar, nesse contexto, também é partilhar vivências.

A associação funciona por meio de doações e a proposta não é apenas ensinar dança, mas criar um ambiente em que o corpo possa ser experimentado sem as limitações frequentemente impostas fora dali. A psicóloga destaca também a importância das aulas serem gratuitas. A inclusão nesse caso não acontece só na proposta, mas na possibilidade de real acesso”, conta Andrade. Em um cenário em que o acesso à cultura ainda é desigual, iniciativas como essa apontam para outras possibilidades de inclusão.

 

 

Com inflação acumulada, taxas variáveis e aumento dos gastos, trabalhadores questionam a divisão de lucro nas plataformas digitais
por
Laura Petroucic
Liz Ortiz Fratucci
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26/03/2026 - 12h

Os aplicativos de transporte como a Uber e a 99 surgiram no Brasil no início da década passada, com a promessa de oferecer uma alternativa de renda flexível, acessível e, em muitos casos, mais vantajosa do que os empregos tradicionais. Para milhares de motoristas, essa proposta ainda se mantém, porém, com o tempo, passou a incluir novos desafios, como o aumento dos custos operacionais e as taxas variáveis cobradas pelas plataformas. Motorista desde 2022, Gabriel Ribeiro conta que decidiu entrar nos aplicativos em busca de um trabalho menos desgastante fisicamente e com maior autonomia de horários. Antes disso, ele trabalhava em um açougue, e descreve a rotina como extremamente pesada. “Era um trabalho muito braçal, cansativo. Eu precisava de algo mais leve e que me permitisse estudar”, afirma.

Na época, ele fazia um curso técnico e precisava de flexibilidade, algo que não encontrava no emprego formal. “Eu não queria depender de patrão para pedir folga ou ajustar horário”, completa. Essa busca por “ser seu próprio chefe” tem sido algo muito comum e um dos principais atrativos dos aplicativos. O início foi impulsionado após um acidente com seu carro. Gabriel passou a usar um veículo alugado que era aceito nas plataformas, e a partir daí, decidiu testar o trabalho como motorista e acabou permanecendo. Segundo ele, naquele momento, os incentivos e bônus oferecidos também tornavam a entrada mais sedutora, funcionando como um estímulo econômico para novos trabalhadores ingressarem no setor.

Com o tempo, no entanto, a percepção sobre os ganhos mudou. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística indicam que o Brasil registrou inflação de 5,79% em 2022, 4,62% em 2023 e 4,83% em 2024, índices que impactam diretamente trabalhadores sem reajustes automáticos, como é o caso dos motoristas de aplicativo.

Outro ponto central da discussão está na divisão do valor das corridas. De acordo com Gabriel, a taxa retida pelas plataformas varia entre 10% e 40%, com média de cerca de 20%. Em alguns casos, essa diferença se torna evidente. “Teve corrida que o passageiro pagou quase R$ 70 e eu recebi pouco mais de R$ 40”, relata. Em trajetos mais longos, o impacto é ainda mais expressivo. “Já fiz corrida para o aeroporto em que o passageiro pagou cerca de R$ 400 e eu recebi por volta de R$ 250. A plataforma ficou com mais de R$ 100”, afirma.

Na visão econômica, esse modelo levanta questionamentos sobre a distribuição de renda dentro das plataformas digitais. Para o motorista, a dinâmica pode prejudicar tanto quem dirige quanto para quem utiliza o serviço. “Às vezes a plataforma prejudica o motorista, às vezes o usuário, e às vezes os dois”, resume. Ele relembra uma situação em que um passageiro, após fazer um freelance, gastou quase todo o valor ganho no dia de trabalho apenas para retornar para casa. “Quem saiu perdendo foi o usuário”, diz.

Apesar das críticas, a flexibilidade continua sendo um dos principais atrativos. “Se eu quiser trabalhar seis horas, eu trabalho. Se quiser trabalhar 12, também posso”, afirma. No entanto, essa autonomia está diretamente ligada à necessidade de adaptação às condições do mercado. Para manter uma renda mais alta, é preciso trabalhar em horários estratégicos, aproveitar picos de demanda e, muitas vezes, estender a jornada. “Se o dia está bom, eu estico. Se não está, às vezes nem compensa sair”, explica.

Ainda assim, Gabriel destaca que o trabalho por aplicativo pode representar uma oportunidade relevante, especialmente para pessoas com baixa qualificação no mercado de trabalho. “Para quem não tem faculdade ou curso técnico, só a habilitação, dá pra ganhar mais do que em muitos empregos CLT”, afirma. Segundo ele, ao comparar a carga horária total incluindo deslocamento, é possível obter rendimentos até superiores aos de trabalhos formais de menor remuneração, mesmo sem benefícios como férias remuneradas ou 13º salário.

Essa característica reforça o papel dos aplicativos como porta de entrada no mercado de trabalho, sobretudo em um cenário de desemprego ou informalidade. Por outro lado, também evidencia a ausência de proteção social típica das relações formais, transferindo ao trabalhador a responsabilidade por custos, riscos e planejamento financeiro. Gabriel cita o caso de um colega que enfrentou prejuízos significativos. “Eu conheço gente que quebrou com a Uber. O cara bateu o carro duas, três vezes no mês, e aí não tem o que fazer, o custo é todo dele”, relata.

Os custos operacionais também pesam nessa equação. Combustível, manutenção, seguro e até o aluguel do veículo impactam diretamente o lucro. No caso dele, o uso de um carro elétrico reduz parte desses gastos, mas exige um investimento maior. Para outros motoristas, a conta pode ser ainda mais apertada, dependendo do tipo de veículo e da categoria em que atuam.

Diante desse cenário, Gabriel acredita que mudanças poderiam tornar o modelo mais equilibrado. Entre as sugestões, ele defende a redução das taxas cobradas pelas plataformas e maior transparência na divisão dos valores das corridas. “A educação tem que ser dos dois lados”, afirma, ao também mencionar a necessidade de melhorar a relação entre usuários e motoristas.

Mesmo com os desafios, ele não classifica o trabalho de forma totalmente negativa. “A Uber não é nem o anjinho, nem o capetinha. É um pouco dos dois”, resume. Entre autonomia e instabilidade, o trabalho por aplicativos segue como uma alternativa relevante dentro da economia contemporânea, mas cada vez mais marcada por tensões sobre renda, custos e distribuição de ganhos.

Transformando a vida de milhões de pessoas todo ano, merece mais reconhecimento e recursos para manter o Brasil vivo
por
Vítor Nhoatto
|
28/11/2025 - 12h

Por Vítor Nhoatto

 

Uma das poucas certezas de todo ser humano, tal qual a morte, é a doença. Sabe aquele resfriado que vem junto ao seco do frio, uma ferida que infecciona depois de cair de bicicleta, até aquelas mais sérias que podem aparecer. Fato é que sem saúde não se vive, sendo um direito constitucional não por acaso. Sendo assim, é preciso que o acesso a essa necessidade tão básica quanto respirar e se alimentar seja universal, e não um bem a se comprar apenas por aqueles que podem.

Para isso então que existe o Sistema Único de Saúde (SUS), tão falado e muito mais presente na vida do que alguns podem sequer imaginar, ou querer. Para se ter uma ideia, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), órgão regulador dos medicamentos disponíveis no país, de controle alimentar e hídrico, faz parte do SUS. Regulamentado em 1990, é responsável pelas vacinas e desenvolvimento científico ainda, e sabe os planos de saúde, a Agência Nacional de Saúde (ANS), que os regula, também é integrante do sistema.

Para falar dessa diferença real na vida, antes é preciso até olhar nos papéis para lembrar já a quanto tempo ele é médico, enfermeiro, farmácia. De cabelos curtos hoje, depois de uma repaginada no visual devido ao câncer de pulmão que teve justamente na pandemia de COVID-19, Léia Marisa celebra que há dois anos consegue receber na AME Maria Zélia o micofenolato de Mofetila. Pois é, muitas vezes quando o nome é chique o preço é alto, uns R$500 por caixa, mil reais por mês gastos antes da papelada ficar pronta e ser aceita em 30 de novembro de 2023, já que a doença não espera os trâmites e filas.

A ex-professora, atual dona de casa e empresária a distância do seu restaurante, conta como o período de descoberta e tratamento do câncer, que levou até questões reumatológicas, e ajudou a descobrir uma artrite reumatoide, foi muito difícil. Entre dezenas de idas ao hospital de 2020 até 2023 até chegar ao diagnóstico, foram dias desgastantes, assustadores, e toda ajuda foi essencial, principalmente com os custos de sobreviver à doença. No caso dela, o tratamento do tumor foi feito em rede privada graças ao seu plano de saúde empresarial, que custa salgados R$5 mil reais ao mês. Só aqui são quase quatro salários mínimos, um privilégio muito grande, como ela destaca, olhando para um país em que apenas 7,60% da população ganha entre 5 e 10 salários como o Censo de 2022 do Instituto brasileiro de Geografia e Estatística revela. 

Se aprofundando mais ainda nos fatos, de acordo com o estudo “Quanto custa o câncer” de 2023 do Observatório de Oncologia, do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE) e do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer, os custos de tratamento da doença quadruplicaram nos últimos três anos. Uma sessão de radioterapia ou quimioterapia custava quase R$800 em 2022, e dezenas são necessárias na maioria das vezes. Acrescentando nessa conta, consultas, tomografias e biópsias, mil reais ali e cinco acolá, o custo chega facilmente ultrapassa dezenas de milhares de reais. Isso é ainda mais preocupante tendo em conta a incidência do câncer na população, que segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA) entre 2023 e 2025, 704 mil pessoas terão a doença como Marisa. 

E com isso que o SUS se mostra como algo tão relevante, oferecendo tratamento integral e gratuito contra todos os tipos de cânceres. Claro que muitos problemas existem, como destaca Marisa ao lembrar que quando estava no meio do tratamento enfrentou problemas com o plano de saúde, mas que só o medo de depender da demora do SUS caso fosse preciso, a preocupava muito. A saúde é o bem mais precioso para, o que para todos provavelmente deva ser, e por isso justamente que em 2012 a lei 12.732/12 obriga que o tratamento contra o câncer tem que ser iniciado em até 60 dias após o diagnóstico. 

Mas além disso, com os olhos marejados depois de navegar novamente no mar agitado que foi a jornada até a vida que tem hoje, curada e com o diagnóstico da sua doença crônica, ela volta e lembra que a diferença que não ter que pagar pelo Micofenolato que a mantém respirando faz.  Quando tinha que arcar com as despesas era como um fardo a mais imposto a ela, que considera a saúde hoje como o bem mais valioso. As idas mensais  ao posto são um alívio hoje para ela, destacando que o seu medicamento nunca faltou até então, mas que já presenciou pessoas na situação contrária e que não tinham como arcar pessoalmente com os gastos. Essa é uma realidade infelizmente, segundo fiscalização de 2023 da secretaria de contas do Estado de São Paulo, em quase metade dos postos visitados faltavam algum medicamento.

papéis
A cada seis meses Marisa tem que renovar a receita e toda a papelada para solicitação do seu medicamento junto a AME - Foto: Vítor Nhoatto

Milhões de uns

Mesmo que falte muito, afinal, só 4,16% do orçamento federal foi destinado à saúde em 2024 segundo o Painel do Orçamento Federal, a porcentagem vem aumentando desde 2022, e milhões de brasileiros são atendidos todos os dias. O Brasil é o único país do mundo com mais de 100 milhões de habitantes com um sistema universal de saúde, e 213 milhões dependem diretamente do SUS, segundo o Ministério da Saúde, que contabiliza em média 2,8 bilhões de atendimentos por ano, empregando 3,5 milhões de profissionais.

E mais um desses uns é Valdir Sousa, que do alto de seus 63 anos de idade é um típico caso brasieleiro. Com diabetes do tipo II há 20 anos e hipertenso, conta que se não fosse o acesso ao sistema gratuito, sua vida seria muito diferente, obviamente pelo lado financeiro, e muito também pelo bem-estar. O mineiro nascido em São João do Paraíso e que vive em São Paulo há décadas já viu tanto na vida, e com o passar do tempo o que todos querem e merecem é justamente qualidade de vida. Essa no caso, em grande parte possível graças a insulina que busca no posto na Freguesia do Ó e os comprimidos que cuidam do seu coração acelerado.

Justamente essa hipertensão que é a doença mais presente nos peitos animados dos brasileiros, e 52% da população é diagnosticada com alguma DCNTs, como revela a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019. Além disso, segundo dados de 2020 da Organização Mundial da Saúde (OMS), as doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) como as de Valdir são tecnicamente chamadas, são as mais comuns no mundo e no Brasil, com o diabetes inclusive tendo aumentado 70% entre 2000 e 2019. 

Para contextualização, nos Estados Unidos existe há alguns anos o movimento nas redes sociais insulin4all, criado pela organização sem fins lucrativos T1 International, que denuncia os altos custos da insulina no país, onde um frasco de 10ml gira em torno de U$330. Tal situação vem levando inclusive pessoas a racionarem o medicamento, o que pode levar a complicações e até a morte em casos mais graves. Já no Brasil, o mesmo remédio é disponibilizado pelo SUS, e o preço máximo permitido por lei é de R$125,30. 

Diante desses dados e o envelhecimento da população fica claro como a saúde vai ser cada vez mais necessária, tal qual destaca o jovem de espírito Valdir, que já foi pedreiro e auxiliar de manutenção geral em uma lanchonete, justamente no Hospital das Clínicas. As histórias que já viu na maior referência de saúde pública brasileira enchem a sua mente, e as palavras saem inquietas sobre as melhorias que o SUS precisa e as pessoas merecem. Ele conta em meio a suspiros que quando precisa de exames mais urgentes, ou consultas em meio a crises, tem que recorrer ao plano de saúde da sua esposa, do qual é dependente, já que as unidades de saúde estão sempre cheias e a fila de espera passa de meses algumas vezes. 

Foi nessas passagens obrigadas pela rede privada que ele inclusive descobriu mais um integrante do seu pacote, a doença renal crônica há um ano. Porém, é no SUS que o acompanhamento com nutricionista, nefrologista e endocrinologista foi possível, uma rotina de cuidados essenciais para uma boa qualidade de vida para quem tem a condição. É graças a essa rede de profissionais e a farmácia popular que Valdir vai aproveitando com os dois filhos e a mulher os seus dias, frisando com a voz até meia trêmula, que sem isso não poderia se ter o seu direito de viver com saúde exercido plenamente.

medicamentos
São graças a compostos como esses que tanto Marisa ou Valdir, e os mais de 100 milhões de brasileiros com doenças crônicas podem viver bem tal qual a constituição garante - Foto: Vítor Nhoatto

 

por
Victória da Silva
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06/06/2024 - 12h

 

Depois de tantas noites calorosas no mês de maio, o presente momento surpreendentemente registrava 17°C e obrigava as pessoas a tirarem seus casacos dos guarda-roupas. “A gente cuida mais dos outros do que da gente” frase dita por Larissa Helly Pinto Ramalho, que se declara manicure, pedicure, designer de unhas e que naquela noite fria atendia mais uma cliente. A fala emitida ecoou, esbravejou e virou escrita.

Nesses momentos, muitos se preocupam com a composição de looks e a paleta de cores que irão utilizar nessa nova temperatura em São Paulo. A vaidade é acompanhada da inquietação de se sentir bem e bonito, além da extrema valorização atribuída à própria aparência. 

Fator não muito importante para a mulher de 36 anos, que recebendo suas clientes na garagem da casa - naquele espaço construía uma esmalteria - não conseguiu tempo para compor o que iria vestir. Estava com um casaco colorido, chinelos, cabelos em um rabo de cavalo e sorria sem parar. O sorriso nesse momento era o acessório que disfarçava o cansaço do dia corrido.

Barulho de motos na rua, conversas sobre a vida e reclamações do tempo que mudou repentinamente ressoavam no espaço ainda em processo de montagem. A simplicidade e autenticidade da manicure se destaca ao ser apreciada minuciosamente. O seu perfil do Instagram havia sido hackeado alguns dias antes e a história é contada de maneira hilária, já que conseguiu retomar com a ajuda de uma vizinha.

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Foto: Victória da Silva

Presente na rotina de tantos paulistas e paulistanos em seus cortes de cabelo, diferentes maquiagens, cores de roupas e estilos variados, a estética e a beleza são áreas que recebem zelo constante, principalmente das mulheres que correspondem a 65% do número de consumidores desse mercado, de acordo com a revista Exame.

Para isso, existem os salões de beleza como o de Larissa que se tivesse as mesmas oportunidades também cuidaria de si. Nesse ponto, o cuidado consigo é privilégio. Faz somente as unhas de outros, às vezes sobra tempo para “passar um brilhinho” nas dela também, mas não vale a pena, o esmalte sai junto do que é tirado das mãos das clientes.

Tantas mulheres gostariam de um momento de cuidado consigo mesmas, mas não detém desse prazer. Contudo, o contraponto feito nesse cenário é justamente o desequilíbrio da pessoa que sempre embeleza não conseguir se embelezar. A injustiça de fazer tanto pelos outros e não olhar para quem está mais perto, ela mesma. A insatisfação de não ter os recursos e oportunidades que outras mulheres têm.

Apesar desse sentimento, Larissa Helly encontrou na profissão a realização da sua independência. A moça casou-se duas vezes. Na primeira dependia de seu marido para todos os gastos e compras, e não possuía uma renda própria, já na segunda (o atual casamento) decidiu nunca mais precisar do dinheiro do companheiro e esforçou-se em construir sua autonomia.

Sua trajetória foi muito mais dolorida do que os ‘bifes’ que, por vezes, arranca. Os primeiros serviços começaram com faxinas em casas de família, depois em empresas e por último em um hospital, no qual só conseguiu trabalhar durante duas semanas, pois sofre de bronquite asmática.

Almejando em seu coração a vontade de embelezar outras pessoas, Larissa decidiu se dedicar a alguns cursos de manicure e se especializar nessa área. Com dois certificados, trabalhou em shoppings já exercendo o sonhado ofício. Passando alguns anos decidiu empreender e criar o seu próprio estúdio.

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Uma pesquisa do SEBRAE-SP (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) comunica que o mercado de beleza tem sido um dos mais lucrativos e atrativos para as empreendedoras. “Tô indo aos poucos, né? Porque muita coisa precisa de dinheiro… pra ter um ambiente melhor, por exemplo, mas eu ‘tô’ conseguindo”, afirma Larissa, pretendendo decorar o salão com o seu jeitinho.

Suas afilhadas foram suas cobaias no começo da carreira. Quando a designer de unhas se depara com elas, brinca: “agora eu tô ‘craque’ no alongamento em… vem fazer vocês aí”. Interrompida por sua vizinha, aquela que ajudou a recuperar seu perfil no Instagram, Larissa ensina a como efetuar a montagem da unha. Talvez com ajuda, ela tenha a chance de desenvolver um autocuidado.

Larissa empenha-se na função para sustentar sua casa e ajudar nas economias. Trabalha para possibilitar uma vida melhor para sua filha Ana Clara de nove anos e seu filho Rafael de dezenove. Possibilidades. Não gosta de sua aparência. Sente vergonha de tirar fotos. Ainda assim, Larissa tem ou precisa ter o direito de se sentir bem consigo. Sonha como qualquer outra.

Seu desejo é cursar podologia, se graduar nesse curso e cuidar cada vez mais dos pés. Seus pés podem andar por lugares mais altos, podem correr velozmente, mas a vida é dura e incapacita diversas vezes. A desigualdade desgasta. Encravada na alma, somente um milagre pode mudar a realidade. 

“Minha ex-chefe ‘tá’ em Nova York, tenho vontade de conhecer lá” informa Larissa sem muita confiança, mas com a aspiração de realizar esse feito. São muitas as possibilidades e a força de vontade é grande. Em um mundo onde não enxergamos as pessoas, só o serviço delas e atribuímos valores utilitários aos indivíduos, a possibilidade de prosseguir com os sonhos segue nesse vão triste e vazio. 

Se fosse possível nomear um esmalte já não seria “Algodão Doce” , “Renda” ou muito menos “Rubi". Seria chamado “Possibilidades”. A manicure segue pintando as unhas, tirando as cutículas, lixando os pés e a possibilidade de mudança é manchada de uma desigualdade que nem a acetona é capaz de limpar.

por
Nathalia de Moura
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06/06/2024 - 12h

Estamos preparados para perder alguém próximo? Como pensar na vida sem aquela pessoa importante? O choque, a negação, a angústia, a saudade, a tristeza, o sofrimento… Tantos sentimentos pairam sobre o ser humano e muitos não sabem lidar com a falta de alguém que era muito importante. A dor, que nem sempre é só emocional, mas também física, assola pessoas de diversas idades. E isso também não importa, a faixa etária, o parentesco com a pessoa ou o último contato com ela. Todos têm sua fase do luto e cada um reage de uma forma.  

A pessoa enlutada pode ter cinco estágios durante esse processo: a negação, a raiva, a barganha, a depressão e a aceitação. Não necessariamente nessa ordem, cada indivíduo se vê nesse mar de sentimentos e alguns não sabem qual é o protagonista do momento. Mas eles sempre aparecem.  

Assim aconteceu com Diogo Amaral, de 20 anos, ao perder sua tia Natalia Nogueira Gusmão, há oito anos, para uma das doenças mais cruéis que existem: o câncer. Ele sabia que o estado dela era grave, mas sempre acreditou que ela ia se recuperar. “Minha ficha demorou pra cair. Quando recebi a notícia do meu pai, até falei ‘Para de brincar, pai’.” Ele não sabia, mas já estava no estágio da negação.  

Quando toca no assunto, Diogo fica mais reflexivo. Olhando para um ponto fixo, ele relembra os momentos em que eles passavam juntos, de como ela o apoiava na carreira futebolística e do quanto seria importante para ele que ela visse suas conquistas. “Era uma pessoa que me ajudava demais. Me ajudava para que eu desse passos maiores na minha vida. Era uma pessoa que eu queria muito que tivesse próxima para ver que eu joguei duas Copinhas [Copa São Paulo de Futebol] e participar desses momentos.”, afirma.  

Seus olhos brilham contando como sua família é unida e ao relembrar dos momentos alegres com sua tia, das conversas entre eles, ao dizer que ela foi a pessoa que o ensinou a mostrar o dedo do meio pela primeira vez e ao falar das brincadeiras entre os dois, ele sorriu, inclusive com os olhos. Mesmo sendo um assunto que ele pouco fala, pois entende que foi sua maior perda, ele está mais conformado hoje em dia. Após um suspiro fundo, ele relata que o período mais difícil desse processo foi a aceitação. Cair a ficha de que alguém que ele amava não estaria mais no seu dia a dia dando carinho, não participaria mais da sua vida e que ainda tinha muito para viver e se foi muito cedo, o machucou por muito tempo. “Foi um choque de realidade. Pra mim foi complicado lidar com esse momento, porque é um momento muito dolorido, de muita dor, tanto na saúde mental quanto na física”, completa Diogo.  

Assim como ele não estava preparado para perder sua tia, mesmo sabendo que o caso dela era delicado, cerca de 48,6% dos brasileiros não estão prontos para lidar com a morte de outra pessoa, segundo pesquisa realizada pelo Studio Ideias e encomendada pelo Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil (Sincep), em 2018. Os dados mostram também que 30,4% não sabem como ou com quem falar sobre morte. E isso mostra como o tema é um tabu em nossa sociedade. Apenas 21% dos jovens discutem o tema e o assunto não fica muito mais recorrente ao longo da vida. Dos brasileiros com mais de 55 anos, apenas 32,5% conversam sobre a morte. Entre as mulheres, o tema é ligeiramente mais recorrente: 29,3%.  

Já que as mulheres falam um pouco mais que os homens sobre o tema, Orciça Gomes Barbalho e Bruna Oliveira - mãe e filha - relataram seu período de luto e como foi o processo ao perderem, em 2019, Argemiro Dias de Oliveira, seu esposo e seu pai, que faleceu de infarto.  

Foi um período muito difícil para toda a família. Bruna sempre foi muito próxima de seus irmãos por parte de mãe, da sua mãe e principalmente do seu pai. Ela se alegrava muito e seus olhos brilhavam ao lembrar da época em que eles se falavam todos os dias e mesmo ela já sendo adulta, seu Argemiro fazia questão de saber se ela tinha almoçado no trabalho, se ela estava bem, se tinha chegado bem em casa etc. Ela conta que foi um choque enorme e que o sentimento de perda de um ente querido é inexplicável, mas confessa que não demorou tanto para que a ficha caísse. O estágio da aceitação não demorou a chegar. “Mesmo sendo algo muito difícil, já estava de alguma forma me preparando por conta da idade do meu pai e a ordem natural das coisas”.   

Para ela, os primeiros três meses foram mais difíceis, pois sentia falta, lembrava dele a todo momento e até sua rotina mudou. Mas consegue analisar e perceber que seu psicológico se tornou mais estruturado com toda a situação, pois esteve tratando de todas as questões burocráticas do pós e isso a deixou mais firme emocionalmente do que abalada pelo processo. Ela fala com entusiasmo sobre sua família e completa: “passei a ter uma visão de aproveitar o máximo dos momentos com as pessoas, de cuidar, de não me deixar abalar pelas coisas da vida e dar prioridade para a família”. 

Na pesquisa do Sincep, 17% dos entrevistados declararam não gostar de deixar transparecer seus sentimentos. Bruna conta, de certa forma aliviada, que não se enquadra nesse número, pois não tem problemas em falar sobre, mas sempre se mantinha forte por sua mãe e se permitia chorar nos momentos mais reservados para que não abalasse mais dona Orciça.  

Hoje, com 36 anos, ela conta entusiasmada que o espiritismo a ajudou a entender e acolher o próximo após essa perda. “Acredito que estamos nessa vida só de passagem e que um dia iremos encontrar nossos entes queridos em outro plano. Por conta da religião, sinto que sou mentorada e guiada pelo espírito do meu pai e sempre que preciso, ou recebo uma mensagem de acalento ou tenho sonhos onde vejo que ele está muito feliz e sereno e isso acalma o meu coração!”, ela afirma. Bruna reconhece que o processo foi bem mais difícil para sua mãe, que ainda tem “sequelas” da perda de seu marido.  

Dona Orciça é mãe de quatro filhos: um homem e duas mulheres do seu primeiro casamento e Bruna do seu segundo matrimônio, com Argemiro. Sempre batalhou por eles e corria atrás de suas coisas. Foi um baque muito forte perder aquele que compartilhava a vida com ela por cerca de 40 anos. Ela relata, com a voz embargada, que foi em seus braços que seu marido deu seu último suspiro. Ela ficou desesperada, pediu ajuda dos vizinhos, que prontamente chamaram os bombeiros, mas nada mais poderia ser feito. No velório e no enterro, ela fala que estava extremamente triste, mas não demonstrava isso. Dias depois, ela chorava muito, pois o sentimento de saudade da sua companhia diária apareceu. Seus sentimentos já estavam aflorados e os estágios do luto estavam se manifestando. O sentimento de solidão estava presente, mesmo que seus filhos, netos e amigos prestassem apoio a ela. “Eu sentia muita falta dele, pois era quem eu convivia todos os dias”.  

Dona Orciça começou a apresentar ansiedade, que piorou quando seu irmão faleceu um mês depois de seu marido. Tudo isso auxiliou para que o luto não cessasse e sim tivesse mais um motivo para se mostrar presente. “Senti muito quando meu irmão faleceu. Ele estava debilitado, mas não estamos prontos para perder alguém”, ela afirma.  

Após esse acontecimento, um efeito dominó surgiu na vida dela. A ansiedade afetava o refluxo, que causava acidez no estômago, não permitindo ela de ter boas noites de sono, vários episódios de insônia, dores pelo corpo e as preocupações diárias. Idas aos médicos são constantes, pois com a idade, ela precisa ter esse acompanhamento. Mas ela fala com bom humor: “tenho vontade de parar de ir ao médico, porque parece que sempre tem algo diferente e não resolve”, diz ela rindo. Prestes a completar 77 anos, ela transparece estar um pouco mais conformada com a perda, mas também reconhece que isso afetou seu psicológico e consequentemente, seu físico. Se lamenta por “dar trabalho” aos filhos e netos que a acompanham nas consultas, mas agradece por isso. Em maio de 2024, teve outro baque: mais um irmão veio a falecer. Dessa vez, ela parecia estar aceitando mais a perda se compararmos com as anteriores. Mas dias depois, seu corpo deu sinais de que havia mexido com ela. Tontura, mal-estar, enjoo, um compilado de sintomas que podem sim estar atrelados com o ocorrido. “Acho que com a perda do meu outro irmão e eu ter comido algo que não fez bem, ajudou a causar esse mal-estar”.  

Dona Orciça sempre foi uma mulher de fé. Assiste às missas, vai à igreja e também acompanha sua filha Bruna em centros de Umbanda, reconhecendo que isso a faz bem também e a ajudou em alguns momentos. “Gosto de tomar um passe e conversar com os guias, sinto que preciso”, ela afirma. 

É possível ver que o luto se manifesta nas pessoas e cada uma lida com ele de uma forma. Cada indivíduo tem seu tempo e sua forma de passar pelo processo. Tudo depende da situação. Segundo a pesquisa de 2018, cerca de 82,4% dos brasileiros acham que não tem nada mais sofrido que a dor da perda de alguém. Isso nos faz refletir a frase que muitos falam na hora de prestar condolências ao outro: “não consigo imaginar a dor que você está sentindo”. E a realidade é essa, não sabemos o quão dolorido está sendo para aquela pessoa, pois cada um tem sua experiência. Além disso, fazer com que o assunto seja mais frequente em nossa sociedade pode ajudar para que mais pessoas estejam preparadas para esse momento que é certo em nossas vidas ou até saber como agir nessa ocasião, já que 73% dos brasileiros acham tabu falar sobre a morte. Tornando esse tipo de conversa mais comum, as pessoas irão ver que está tudo bem não estar bem, está tudo bem ter saudade, chorar, pois não é fácil esquecer alguém que marcou nossa trajetória.  

 

Esta matéria foi produzida como parte integrante das Atividades Extensionistas do curso de Jornalismo da PUC-SP. 

Por que vemos nas redes socias que a geração atual anda tentando recriar a estética presente no início de 2010 no Tumblr?
por
Liz Ortiz Fratucci
|
04/06/2024 - 12h

 

lr, plataforma de blogging que permite aos usuários publicarem textos, imagens, vídeo, links, citações, e áudio, alcança sua maior popularidade. Lá era o lugar onde adolescentes que se sentiam diferentes dos demais, costumavam ir para se conectar com outros jovens passando por problemas parecidos. , links, citações, e áudio, alcança sua maior popularidade. Lá era o lugar onde adolescentes que se sentiam diferentes dos demais, costumavam ir para se conectar com outros jovens passando por problemas parecidos.  

 Jaquetas jeans, calças pretas “skinny” rasgadas e camisetas de bandas, eram o uniforme dos jovens presentes no Tumblr. O modelo e influenciador digital, Lucas Pegoraro, também conhecido pelo seu nome de usuário nas redes @sugarrluck, revela que o Tumblr aflorou sua criatividade na hora de se vestir e impactou demais sua relação com a moda. As meninas, também usavam coroas de flores, minissaias xadrez e podiam ser encontradas em suas mãos letras de músicas tristes de artistas influentes na rede, como: Artic Monkeys, Lana Del Rey, Marina and the Diamonds, The XX, Lorde, The 1975 e Sky Ferreira. O gênero musical indie pop, teve grande influência no estilo dos adolescentes presentes no Tumblr e na estética soft grunge – mais do que uma estética visual e sonora – influenciava jovens a falarem abertamente de maneira melancólica sobre sua depressão e seus pensamentos suicidas. 

 Os usuários costumavam a publicar letras de músicas, imagens e até relatos sobre suas vidas que faziam uma certa romantização do transtorno depressivo. O Tumblr era obcecado pela estética da “garota triste”, consiste em jovens mulheres deprimidas ou à beira da loucura, que possuem comportamentos autodestrutivos – faziam uso de drogas, álcool e cigarros. Ela também está presente no mundo musical. Em 2014, a cantora Lana Del Rey, lançou seu terceiro álbum de estúdio chamado “Ultraviolence”, presente nesse álbum estava a canção “Sad Girl”, que como a cantora colocou em entrevista para a Genius “a faixa é sobre ainda ser uma garota triste, que há coisas que estão fora de seu controle e também é sobre ela fazer coisas que quer, ao invés do que deveria fazer”. Lana, que ganhou popularidade graças ao Tumblr em 2012, é uma artista que transforma suas tristezas em músicas, que acabam ressoando com muitas pessoas, especialmente com essas jovens. Ela canta como se a depressão fosse algo que ela aproveitasse de alguma forma. O que influencia meninas, para o bem ou mal, a reformular como elas veem a depressão, vendo como algo que não é debilitante e sim algo artístico ou necessário.  

 Até hoje, podemos ver essa estética presente no estilo e comportamento de jovens mulheres e recém adultas. Em 2023, usuários da rede social TikTok, criaram o termo “bed rotting”, algo que muitos costumavam chamar de procrastinação, foi batizada pela geração Z como “apodrecimento na cama”, que consiste em ficar horas após acordar, deitado na cama mexendo no celular, ouvindo música, vendo filmes ou até lendo. Esse comportamento pode piorar sintomas de ansiedade e depressão e a “garota triste” - ainda presente nos dias atuais- tem também esse tempo para ficar deitada na cama não fazendo nada de produtivo. O conceito da “garota triste”, não é novo. Ao longo da história e da literatura, já foi muito explorado por autores como Shakespeare, Sylvia Plath e Virginia Wolf.Del_rey_popular                                                           Lana Del Rey posa em frente a bandeira dos Estados Unidos (Foto: Getty Images) 

 A escritora Pip Finkemeyer, escreveu um artigo para a Harper´s Baazar, com o título que faz analogia a música “Sad Girl” da Lana Del Rey, “Garotas tristes, garotas loucas, garotas más: A evolução da tropa literária”, no qual ela discorre sobre o ganho de popularidade de livros com protagonistas femininas depressivas e problemáticas. Ela diz que essa personagem é geralmente branca, privilegiada – para que ela tenha tempo de “apodrecer na cama” - e pertence a geração millenium – que foi a geração mais presente durante o pico do Tumblr. Nesse artigo, ela diz a frase “A internet está cheia de pessoas expressando ou performando uma tristeza, não literal, mas sim uma estética dela, para ser trocada por simpatia e identificação”. No Tumblr, foi popularizado por essas comunidades, o compartilhamento de sintomas psicológicos, diagnósticos e a exposição de familiares e amigos que queriam ajudar essas pessoas a melhorar mentalmente, eles que ninguém mais os entendia, então, muitas pessoas que não possuem depressão mas são extremamente impressionáveis, ao serem expostas a esse tipo postagens de pessoas romantizando transtornos mentais, elas podem sentir que para ser interessantes elas precisam ter algum tipo de transtorno mental, já que todos estavam se conectando pelos seus problemas. Além de pessoas que sofriam de problemas psicológicos, poderiam sentir que a depressão era o que tornava elas interessantes.  

 O influencer Lucas Pegoraro, diz que já caiu em perfis de jovens meninas que praticavam automutilação e compartilhando mensagens negativas. “Era uma coisa muito glamourizada, uma coisa maluca!” diz. Ele sentia que pela quantidade que ele consumia daquelas postagens, aquilo começaram a afetá-lo. “Ser triste era um glamour”. Hoje, Lucas nos diz que olha para isso e vê a problemática. 

 

 

A volta do Tumblr 

 Hoje, uma das redes sociais mais usadas pelos jovens é o TikTok, onde são compartilhados vídeos curtos. O aplicativo tem tanta influência na geração atual, que chega a popularizam as tendências de moda e comportamento. Nessa rede, a hashtag “2014 Tumblr”, tem mais de 126 milhões de visualizações, provando que a fascinação por essa era está crescendo novamente, mas por quê?  

 A nostalgia é um sentimento melancólico que aparece quando relembramos experiencias passadas que nos são significativas. Quando passamos por grandes mudanças na vida, sentimentos de tristeza tendem a ser gerados ao lembrar-se de quando tudo era mais simples e com menos desafios. Então, esse sentimento de nostalgia se apresenta quando queremos de volta o período das nossas vidas em que tínhamos menos preocupações, suporte emocional e que a diversão ainda era inocente. Existe um fenômeno psicológico chamado de viés de efeito de desvanecimento, em inglês chamado de “Fading Affect Bias” (FAB), que consiste em nosso cérebro enxergar as memórias adquiridas ao longo da nossa trajetória com um filtro e escolhermos o que guardar de determinadas experiências, isso acontece por conta do fardo de termos de carregar nosso passado conosco, mesmo ele possuindo eventos tristes e doloridos, e isso seria insuportável se essas memórias doessem tanto quanto a experiência em si.  

Existia uma teoria de que tendências de moda costumam voltar após de 10 anos de seu pico, o que costumava acontecer a cada 20 anos e de acordo com a WGSN, autoridade em previsões de tendências, de que devido ao consumo da sociedade andar tão acelerado, isso está inclinado a diminuir cada vez mais. Essa teoria é comprovada ao abrir o Instagram e se deparar com uma postagem da cantora e uma das maiores influenciadoras do TikTok, Addison Rae, segurando um IPhone 5 – celular de desejo no início da década passada -  em frente ao espelho e aplicado um efeito muito popular durante os primeiros anos da criação da rede.Imagem                                                       Influenciadora Addison Rae em frente ao espelho com seu novo Iphone 5 (Foto: Addison Rae/Instagram) 

  “Eu super estou voltando a consumir esse conteúdo, inclusive até entro no Tumblr para pegar umas referências, também para fugir um pouco dessa bolha da internet que está tudo a mesma e nada muda” diz o influenciador Lucas Pegoraro a respeito da reascensão da estética presente na rede social. 

 Toda essa comoção da Geração Z mais velha e dos Millenials mais novos, se torna uma espécie de paradoxo curioso: apesar da volta da estética associada ao Tumblr, a rede em si não teve o crescimento correspondente, talvez por conta da sua interface não ser tão dinâmica e sua funcionalidade não ter avançado ao longo dos anos. A plataforma teve uma decaída significativa de usuários em 2018, 84 milhões de usuários foram perdidos após a implementação de uma política rigorosa de conteúdo adulto, fazendo com que esses que estavam lá por conta do conteúdo livre e variado, migrassem para novas redes. 

 De qualquer forma, as tendências dissipadas no TikTok duram pouco e aparecem novas delas todos os dias. Então, tudo leva a acreditar que essa é só mais uma, passageira como as outras. 

 

Coletivo Da Ponte Pra Cá e centros acadêmicos divulgam repúdio a mensagens de ódio disseminadas no perfil "Spotted PUC-SP", no Instagram
por
João Curi
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11/04/2024 - 12h

Quem paga a conta? Essa parece ser a pergunta-chave que abriu portas demais no principal campus da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em Perdizes. Desde as reivindicações por direitos a uma refeição gratuita no refeitório até o desconforto de apresentar, periodicamente, um grande volume de documentação para comprovar a baixa renda, estudantes bolsistas são alvo de posicionamentos agressivos de alguns estudantes.


Nos últimos anos, centros acadêmicos têm se preocupado mais com a condição social de estudantes contemplados por bolsas, sejam de natureza filantrópica (fomentada pela FUNDASP) ou por programas governamentais. Isso se dá pelo aumento de denúncias e reclamações desse mesmo público quanto ao tratamento recebido por outros estudantes (qualificados como “pagantes”), tanto presencialmente quanto online.


Segundo relatos, houve episódios de discriminação socioeconômica, conhecida como aporofobia, que tem confrontado a permanência de estudantes bolsistas na universidade. Embora não exista um coletivo com esta finalidade, nos últimos anos, o perfil de Instagram “Spotted PUC-SP” (@spottedpucsp) veiculou publicações que trouxeram à tona uma série de movimentos considerados elitistas, como a contestação do direito ao posicionamento de estudantes "não-pagantes" sobre decisões estruturais do campus.


A página, inclusive, já foi investigada, em setembro do ano passado, pelo jornal laboratorial da PUC-SP, o Contraponto, que trouxe à tona os ideais políticos do perfil desde seu surgimento até as recentes manifestações em favor de campanhas eleitorais de centros acadêmicos. Este ano, porém, a principal campanha defendida pela conta originalmente dedicada à paquera é a implementação de catracas no campus Perdizes.


Ainda que a discussão tenha se aquecido nas redes sociais, a pauta foi reclamada para debate entre as entidades competentes à decisão: a mantenedora FUNDASP, a Reitoria, coletivos estudantis e centros acadêmicos da PUC-SP. Mesmo assim, os esforços da página em reacender essa suposta reivindicação deram abertura, na verdade, a uma enxurrada de comentários ofensivos e caluniosos direcionados aos estudantes bolsistas.


Em consequência, entidades acadêmicas, lideradas pelo coletivo Da Ponte Pra Cá - Frente Organizada de Bolsistas, organizaram-se para apresentar materiais de denúncia e repúdio aos atos discriminatórios observados dentro e fora do campus. Na última terça-feira (9), 28 entidades acadêmicas e administrativas ligadas à universidade assinaram uma publicação conjunta de um vídeo-denúncia, acompanhado de um documento completo reunindo imagens comprobatórias e exigências à mantenedora, FUNDASP, por medidas efetivas em prol dos bolsistas.


Diante disso, o Centro Acadêmico Benevides Paixão, o Benê, trouxe a pauta à tona como uma de suas prioridades de gestão. "A situação é grave e requer cuidado e vigilância. Estamos em constante contato com o nosso corpo docente, coordenação e direção para tomarmos todas as ações possíveis", declara a entidade acadêmica, em nota exclusiva à AGEMT.


O dossiê acusa, principalmente, o Spotted PUC-SP por disseminar casos de roubo e demais ocorrências ligadas à criminalidade de forma irresponsável e suposta motivação política por detrás. De acordo com o texto, “o que fica sempre evidenciado é que aqueles que são relatados como suspeitos dessas atividades são sempre pessoas negras, reforçando novamente o estereótipo racista que permeia nossa sociedade, que associa criminalidade e violência a uma raça/cor”, aponta o documento.


Não obstante, a garantia do sigilo também deu vazão a um fluxo de informações desprovidas de checagem dos fatos ou comprovação da verdade em torno dos casos relatados, “muitas vezes de caráter aporofóbico e racista, causando, sem fundamento, um pânico generalizado na comunidade estudantil”, descreve o texto. Nessa direção, a página se tornou um dos principais hospedeiros de manifestações consideradas elitistas, segundo as denúncias coletadas.

 
Quando o alarme soa, dada a notoriedade de algumas discussões acaloradas pela dualidade de posicionamentos nos comentários, é comum que as publicações sejam removidas do perfil. Ainda assim, de acordo com os apontamentos da denúncia endossada pelo coletivo Da Ponte Pra Cá nas redes sociais, o movimento de cunho discriminatório se fez presente também em outros meios, como em grupos do aplicativo de mensagens Whatsapp.

 

''Não podemos ignorar a realidade de negligência e discriminação das demandas e das necessidades das pessoas pobres em uma universidade elitizada", declara o coletivo Da Ponte Pra Cá, em nota exclusiva à AGEMT. "A denúncia produzida e a mobilização dos estudantes bolsistas torna-se urgente e extremamente necessária diante de um cenário de descaso, como o da PUC-SP".

 

Afinal, quem paga a conta? Desde a segunda-feira, 15, até o momento de publicação desta reportagem, o perfil do Spotted PUC-SP está desativado. A AGEMT tentou contato com o administrador da conta, mas não teve retorno.

 

Nota da PUC-SP

A PUC-SP, na sua prática cotidiana, não compactua com discriminação de qualquer tipo. Essa questão figura no Estatuto e no Código de Ética da Universidade, que toda comunidade deve seguir.

A Instituição entende que qualquer pessoa que for testemunha ou alvo de um ato de discriminação deve procurar as autoridades competentes.

Afirmamos que a PUC-SP não tem nenhuma responsabilidade sobre o perfil privado e anônimo do Instagram @spottedpucsp.     

Assessoria de Comunicação Institucional (ACI)

Os frequentadores tem compromisso com o evento todas as semanas, onde paqueram e dançam
por
Bianca Athaide
Helena Cardoso
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21/11/2023 - 12h

Nos últimos cinco meses, a rotina de Tomaz Nobre às terças, quintas e sábados é a mesma: organizar e supervisionar o Baile da Terceira Idade, no Parque da Água Branca, localizado no bairro da Barra Funda, em São Paulo. Como coordenador do Instituto da Melhor Idade, – entidade que organiza os bailes semanalmente, mas também desenvolve outras atividades e cursos com os idosos – ele é o principal responsável por estruturar práticas que visam o bem-estar e procuram melhorar a qualidade de vida de pessoas acima dos 50 anos.

Os bailes da melhor idade no parque são bem conhecidos pela população, que sabe que o evento acontece de forma regrada à 20 anos. Cerca de 400 a 500 pessoas frequentam durante a semana, e mais de 800 nos finais de semana — que tem música ao vivo. Os homens, só podem entrar de calça social. As mulheres, estão bem arrumadas, com um vestido ou saia.

 

 

Os dois salões do galpão ficam lotados de casais dançando, alguns já formados antes e outros que se conheceram lá, além dos dançarinos solitários. Ao redor da pista, vários idosos ficam sentados. Talvez tímidos demais ou aguardando o convite de alguém. Do lado de fora cria-se uma atmosfera que chama a atenção dos que passam: pessoas abarrotadas observam o movimento lá de dentro com os rostos grudados nas grades das janelas. A banda toca um pouco de tudo: sertanejo, forró, samba, valsa e bolero são os ritmos favoritos do público animado, com dança da bandeirinha e um trenzinho das mulheres solteiras.

Atarefado, o coordenador anda de um lado para o outro durante todo o baile, com a missão de no final da tarde, ter entregado um bom resultado, com o desejo de manter o elevado patamar que o evento pede, visando o maior aproveitamento dos idosos: "A gente tem um público bem amplo para agradar. E exigente viu?" Tomaz brinca. 

O som dos alto falantes além de ecoar por grande parte das extremidades do parque, sendo possível ouvir de longe, evidencia que animação e vontade de viver não é algo característico apenas dos jovens.  Maria Ivone, de 65 anos, fica surpresa ao olhar pelo lado de fora: "É cheio! Eu não gosto de entrar não. Fico aqui do lado de fora balançando. Mas acho tão legal! Senhorinhas bem de mais idade, dançando! Bem melhor do que ficar numa cama de hospital, não é? Eu acho.", ela valoriza a organização do evento. 

baile ag branca
Idosos se divertem e tem mais qualidade de vida quando vão aos bailes - Foto: UOL [Creative Commons]

O baile também é o responsável pela formação de alguns casais. Um deles, Borges e Ana Mary, estão juntos há um ano e seis meses, graças ao evento semanal. "De uma forma descabida né? Porque a gente nunca espera, quando entra no ambiente, você não está esperando nada. De repente você senta no local e a pessoa dançando fica de olho em você. E assim estamos juntos até hoje, dançando.", conta o aposentado de 77 anos, embaixo da sombra das árvores que recobrem todo o parque e trazem um sentimento bucólico de cidade do interior para o meio da Avenida Matarazzo. 

O local de realização dos bailes são os antigos casarões de paredes amarelas e grandes portas de madeira característicos da São Paulo dos anos 1930. Hoje em dia, balançam com toda animação e juventude de uma geração que reinventa o conceito sobre novas chances de amar na terceira idade: "Aconteceu na minha idade, agora, aconteceu que a gente se conheceu e estamos nos amando muito.", exalta Ana Mary, no auge dos seus 85 anos esboçando um olhar com brilho jovial e carismático por trás de seus óculos de grau de lentes amareladas.