Entre guitarras melancólicas e letras confessionais, a artista apresenta seu trabalho mais sofisticado e introspectivo até agora
por
João Luiz Freitas
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12/06/2026 - 12h

Após três anos desde o lançamento de GUTS, Olivia Rodrigo retorna com seu terceiro álbum de estúdio, You Seem Pretty Sad for a Girl So in Love. O projeto marca uma nova fase na carreira da cantora: menos impulsiva, mas não menos intensa. Conhecida por transformar emoções adolescentes em fenômenos pop, Rodrigo agora direciona seu olhar para os dilemas da vida adulta, explorando os contrastes entre amor, insegurança e autossabotagem.

Desde o anúncio do disco, o título já sugeria uma mudança. Diferentemente dos curtos e impactantes “SOUR” e “GUTS”, a nova obra aposta em uma frase longa e contraditória, quase como uma confissão. A escolha resume bem a proposta do álbum: questionar a ideia de que estar apaixonado é sinônimo de felicidade plena. Em vez de celebrar romances perfeitos, Olivia investiga as fissuras emocionais que permanecem mesmo nos momentos aparentemente felizes.

Musicalmente, o trabalho também representa uma evolução. O pop-punk que ajudou a definir a identidade da artista continua presente em alguns momentos, mas divide espaço com influências do new wave, do pós-punk e do pop alternativo dos anos 1980. A produção de Dan Nigro, parceiro de longa data da cantora, aposta em sintetizadores mais evidentes, guitarras menos agressivas e arranjos que priorizam a atmosfera das canções. O resultado é um disco que soa mais sofisticado sem abandonar a espontaneidade que tornou Olivia uma das vozes mais relevantes de sua geração.

Capa oficial do álbum novo da Olivia Rodrigo
Capa oficial do álbum - Foto: Chad Moore

A primeira metade do álbum é dominada pela paixão. Faixas como “drop dead” e “stupid song” capturam o entusiasmo irracional de quem se entrega completamente a alguém, misturando humor autodepreciativo e romantização exagerada. Rodrigo continua demonstrando habilidade para transformar situações específicas em experiências universais, característica que sempre esteve entre seus maiores trunfos como compositora.

No entanto, é quando o relacionamento começa a ruir que o disco encontra seus momentos mais interessantes. Canções como “begged”, “less” e “purple” abandonam o tom sarcástico para dar lugar a uma vulnerabilidade mais crua. Diferentemente das explosões emocionais presentes no primeiro álbum, aqui a dor aparece de forma mais contida, refletindo um amadurecimento artístico e pessoal. Olivia já não parece interessada apenas em apontar culpados, mas também direciona as críticas para si mesma.

Um dos destaques do projeto é “what’s wrong with me”, parceria com Robert Smith. A colaboração funciona como um encontro simbólico entre gerações, aproximando a cantora de algumas de suas grandes referências musicais. A presença do vocalista da banda The Cure reforça a influência do rock alternativo que atravessa o álbum e contribui para ampliar o alcance sonoro da obra.

Apesar da sonoridade mais elaborada, o maior mérito do disco continua sendo a escrita. Rodrigo mantém sua capacidade de transformar inseguranças em narrativas cativantes, equilibrando humor, melancolia e autocrítica. Em um cenário pop frequentemente dominado por fórmulas previsíveis, a cantora demonstra disposição para correr riscos e expandir seus horizontes criativos.

You Seem Pretty Sad for a Girl So in Love talvez não tenha a urgência emocional de SOUR e nem a energia caótica de GUTS, mas compensa com profundidade e maturidade. O álbum mostra uma artista mais segura de sua identidade, capaz de crescer sem abrir mão das características que a transformaram em fenômeno global. No fim, Olivia Rodrigo prova que continua encontrando novas formas de falar sobre sentimentos antigos, mostrando ainda mais sua versatilidade como musicista.

Adaptação da tragédia shakespeariana estreou em fevereiro deste ano
por
Helena Barra
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18/05/2026 - 12h

Após mais de 40 anos fechado, o Cine Copan marcou sua reabertura com o anúncio da peça “Hamlet, sonhos que virão”, uma adaptação contemporânea da clássica tragédia escrita por William Shakespeare no século XVI.

Com direção de Rafael Gomes, a montagem estreou em 19 de fevereiro deste ano, em meio às obras de revitalização do espaço dentro do famoso edifício Copan, projetado por Oscar Niemeyer, no Centro de São Paulo. 

A peça ocupa o canteiro de obras do local, oferecendo uma experiência ‘site specific’ — arte concebida para ter significado através de sua relação íntima com o ambiente — que leva o público para dentro da dramaturgia. 

Espaço dentro do Edifício Copan
Espaço dentro do Edifício Copan segue em reforma/Reprodução: @mavinho_acoroni

Hamlet, interpretado por Gabriel Leone, assume o papel central da trama. A atuação visceral do artista leva o espectador a entrar na mente do emblemático  personagem após uma perda fruto de traição. 

Acompanhado de diversos profissionais experientes, como Samya Pascotto (Ofélia), Susana Ribeiro (Gertrudes), Eucir de Souza (Rei Cláudio), Bruno Lourenço (Laertes) etc, a história vai sendo construída através da narrativa de cada indivíduo pela perspectiva do personagem principal.

Com cenografia de André Corte; iluminação por Wagner Antônio; figurino feito por Alexandre Herchcovitch; visagismo de Pamela Franco e trilha sonora por Barulhista e Antonio Pinto, a produção da peça cria um ambiente de imersão único, que leva do suspense ao estranho, do cômico ao dramático e do romântico à tristeza.

Em cartaz até o dia 14 de junho, o ator e cantor Ícaro Silva segue com o legado de Hamlet nas próximas apresentações. Os ingressos, à partir de R$25, podem ser adquiridos pessoalmente 2h antes da sessão, ou através do site nucinecopan.byinti.com.


 

Sequência resgata personagens icônicos e revisita a moda na era digital
por
Carolina Nader
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08/05/2026 - 12h

O filme O Diabo Veste Prada 2, produzido por David Frankel, estreou dia 30 de abril nos cinemas. 20 anos após o primeiro lançamento, a continuação do clássico retoma o universo da revista de moda “Runway”, agora inserido em um contexto marcado por transformações digitais da indústria e pelo crescimento das redes sociais. Protagonizado por grandes nomes do cinema como Meryl Streep, Anne Hathaway e Emily Blunt, a retomada contou com a distribuição da Disney Pictures, que aposta na força da nostalgia ao mesmo tempo em que dialoga com uma nova geração.

Cartaz de divulgação do filme “O Diabo Veste Prada 2.” Foto: @odiabovesteprada2 / Instagram
Cartaz de divulgação do filme “O Diabo Veste Prada 2.” Foto: @odiabovesteprada2 / Instagram 

Frankel mantém o olhar atento para os bastidores do mundo da moda e do jornalismo, adicionando discussões éticas sobre a profissão. Em meio à pressão por relevância e engajamento, o drama levanta questionamentos sobre o que a indústria editorial escolhe mostrar e o que prefere ocultar. A narrativa explora também o contraste entre tradição e inovação, evidenciando o esforço da “Runway” para se manter ativa sem abandonar os valores que a consolidaram, mesmo diante de um mercado cada vez mais liderado por interesses comerciais. 

Ainda assim, o roteiro preserva o humor ácido característico da franquia, equilibrando essas reflexões com momentos leves que mantêm vivo o charme do universo fashion. 

Miranda Priestly, representada por Meryl Streep, continua sendo a figura misteriosa que marca a memória do público. Sua presença, mais uma vez, cativa a atenção dos fãs, com diálogos irônicos e uma mistura de frieza e elegância. Ao mesmo tempo, sua personagem se vê diante do desafio de recuperar a relevância da revista e preservar suas tradições em um cenário que parece constantemente ameaçá-las. 

Anne Hathaway retorna como Andy Sachs, agora em uma posição mais consolidada profissionalmente, o que cria um contraponto interessante em relação à jovem insegura do primeiro longa. A dinâmica entre as duas personagens ganha novas camadas, marcada menos pela hierarquia direta e mais por conflitos de visão, valores e trajetórias. 

 

Meryl Streep e Anne Hathaway na Coreia do Sul para evento global relacionado ao lançamento do filme. Foto: @tiziano.raw / Instagram
Meryl Streep e Anne Hathaway na Coreia do Sul para evento global relacionado ao lançamento do filme. Foto: @tiziano.raw / Instagram 

A obra também ressalta as relações de lealdade no trabalho, destacando o ambiente competitivo da imprensa. Parcerias, rivalidades e escolhas profissionais se conectam, reforçando a ideia de que o sucesso, nesse meio, raramente é construído de forma isolada ou sem conflitos. 

Visualmente, o longa mantém uma estética glamourosa, com figurinos que continuam desempenhando papel fundamental na construção dos personagens e na ambientação da indústria da moda. Ao mesmo tempo, a montagem incorpora elementos contemporâneos, como telas de celular e fluxos digitais, evidenciando a mudança de época.  

O lançamento dessa continuação foi acompanhado por uma forte estratégia de marketing que ampliou sua presença para além das salas de cinema. Grandes marcas do mercado atual participaram na divulgação, criando produtos temáticos que instantaneamente se tornaram itens de desejo entre os fãs. Canecas, copos, chaveiros, itens de maquiagem e outros objetos colecionáveis reforçam o apelo comercial da produção e mostram como o universo da revista “Runway” ultrapassa a ficção e se insere diretamente na lógica de consumo contemporânea. 

Meryl Streep e Anna Wintour - ex-editora chefe da Vogue e suposta inspiração para a personagem Miranda -  protagonizaram um encontro para um vídeo promocional, que foi produzido pela revista Vogue americana. Esse material fez parte da divulgação da edição de maio da revista e serviu como uma ação de promoção estratégica para a estreia de O Diabo Veste Prada 2.   

A recepção crítica tem sido mista, variando entre o entusiasmo dos fãs e análises mais criteriosas por parte da imprensa especializada. Muitos elogiam o carisma do elenco e a tentativa de atualizar o debate sobre o mundo da moda e do jornalismo, enquanto outros apontam que a narrativa, em certos momentos, depende excessivamente da  nostalgia. Ainda assim, há consenso de que o filme consegue recuperar parte do brilho do original, especialmente nas cenas conduzidas por Meryl Streep. 

O site Rotten Tomatos possui avaliações e comentários sobre obras cinematográficas, feitas por fãs e especialistas. De acordo com a Sara Michelle Fetters, crítica de cinema, “o novo filme é como uma visita agradável com velhos amigos; só não entre nele antecipando nada mais do que isso.” Na plataforma, o longa teve 76% de aprovação dos críticos e 86% do público.

A mudança de tom em relação ao primeiro filme é perceptível. Antes a história focava na iniciação de Andy em um ambiente exigente, agora o conflito gira em torno da permanência e da reinvenção. A trilha sonora acompanha essa transição, mesclando referências modernas com sons do passado, reafirmando o diálogo entre tradição e inovação que atravessa toda a obra. Runway, de Lagy Gaga e Doechii, aparece como destaque no lançamento, enquanto que, no primeiro, Suddenly I See de KT Tunstall é considerada a principal música da obra. Entretanto, ambos apresentam a canção Vogue de Madonna, mesmo que de forma discreta. 

Mais do que revisitar personagens icônicos, O Diabo Veste Prada 2 propõe questionamentos atuais: até que ponto é possível equilibrar ética e mercado? É viável manter tradições em um cenário que exige constante renovação? E, sobretudo, qual é o preço de permanecer no topo? Ao levantar essas questões, o filme se apoia na familiaridade de seu universo para construir uma narrativa que, apesar de imperfeita, encontra espaço para se conectar com o presente. 

Protagonizado pelo sobrinho do cantor, o longa celebra o legado do artista e aposta na nostalgia para conquistar os espectadores
por
Mariana Araujo Correia
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29/04/2026 - 12h

A cinebiografia de Michael Jackson estreou nesta quinta-feira (23). “Michael”, dirigido por Antoine Fuqua e produzido por Graham King (conhecido pela produção de Bohemian Rhapsody), tem duração de pouco mais de duas horas e aborda a trajetória do cantor desde o início do grupo Jackson Five até a apresentação do álbum “Bad”, em 1988. Cercado por expectativas, o longa chega aos cinemas com uma divisão entre crítica e público: enquanto especialistas apontam superficialidade, fãs elogiam a emoção e a fidelidade da produção.

A trama se desenvolve em meio à criatividade do artista, explorando não apenas sua carreira, mas também sua vida pessoal. O filme evidencia os conflitos e a relação difícil com o pai, Joe Jackson, retratado como uma figura rígida e abusiva. Em diversos momentos, ele reforça a frase “ou vocês são vencedores ou perdedores” e faz comentários ofensivos sobre a aparência do filho. Essas cenas ajudam a explicar inseguranças que acompanharam o cantor ao longo da vida.

A produção também destaca a generosidade de Michael e sua dedicação na criação de cada música e clipe, evidenciando o cuidado que tinha antes de qualquer lançamento. O filme reforça a busca incessante pelo perfeccionismo e a excelência que ajudaram a consolidar o título de “Rei do Pop”. A cinebiografia apresenta ainda shows e momentos icônicos, permitindo ao espectador vivenciar a emoção de uma apresentação do artista.

A narrativa também se aprofunda muito na questão de “Neverland”, mostrando sua paixão pela história e o desejo de acolher e ajudar o maior número possível de pessoas. Nesse contexto, o longa também mostra a relação afetuosa com os animais, aos quais ele não chamava de “bichos de estimação”, mas sim de “amigos”.

O filme ainda relembra um marco importante da cultura pop: o momento em que Michael rompeu barreiras raciais na indústria musical ao se tornar o primeiro artista negro a ter um videoclipe completo e em alta rotação exibido na MTV, com “Billie Jean”. 

O filme é protagonizado por Jaafar Jackson, sobrinho do cantor. As expressões, os passos de dança e, principalmente, a voz, muito semelhante à de Michael, são pontos fortes. 

O elenco conta também com Miles Teller, no papel de John Branca; Colman Domingo, como Joe Jackson; e Nia Long interpretando Katherine Jackson. Entre os momentos marcantes, está a cena em que John Branca, a pedido de Michael, demite Joe Jackson por fax. Outro destaque é quando Katherine confronta o marido e afirma que ele não pode mais agredir ninguém, já que Michael é um homem adulto.

O roteiro funciona bem como uma obra nostálgica e emocional, como um tributo ao artista. No entanto, falta profundidade em alguns pontos, algo comum em cinebiografias devido ao tempo limitado. Temas importantes da carreira de Michael não são muito explorados ou sequer aparecem, como o projeto da canção “We Are The World” organizado por Michael Jackson e Lionel Richie.

A fotografia aposta em contrastes marcantes e cores densas, com uma iluminação projetada para recriar a experiência de um show, evitando uma abordagem documental. O filme prefere exaltar a performance do artista em vez de adotar um tom mais neutro.

Os figurinos criados pelo figurinista Marci Rodgers, são um dos pontos altos da produção. A nostalgia visual é bem trabalhada com peças fiéis e marcantes, como as icônicas jaquetas da Victory Tour (1984) e de Thriller.
 

Figurino do Michael na última apresentação da “Victory Tour”. Foto: Reprodução/Instagram/@jaafarjackson
Figurino do Michael na última apresentação da “Victory Tour”. Foto: Reprodução/Instagram/@jaafarjackson 

A trilha sonora é, sem dúvida, um dos principais elementos do filme. Reunindo grandes sucessos de diferentes fases da carreira, utiliza gravações originais, preservando a essência da voz única de Michael Jackson.

A recepção da crítica foi negativa. No site Rotten Tomatoes, o filme conta com cerca de 38% de aprovação. Muitos críticos consideraram a obra clichê e criticaram a ausência das acusações de pedofilia envolvendo o cantor. A decisão de encerrar a narrativa em 1988 foi interpretada por parte dos críticos como uma forma de driblar controvérsias que marcaram a imagem pública de Michael Jackson nos anos seguintes. A produção teria investido US$ 10 milhões em regravações e ajustes para eliminar o terceiro ato inicialmente previsto.

O crítico Nicholas Barber, da BBC, afirmou: “o diálogo funcional tem toda a nuance de uma placa de trânsito”. Em contrapartida, TJ Jackson saiu em defesa do longa dizendo: “ Nunca deem ouvidos aos críticos ‘profissionais’ quando se trata da minha família. Nunca.“

Já o público teve uma reação bastante positiva, com cerca de 96% de aprovação, evidenciando uma forte conexão emocional com a obra. 
 

Audiência tem 96% de aprovação. Foto: Reprodução/Instagram/@michaelmovie
Audiência tem 96% de aprovação. Foto: Reprodução/Instagram/@michaelmovie 

“Michael” (2026) não reinventa a cinebiografia como o cantor reinventou a música, mas ainda assim emociona e carrega significado. O encerramento sugere uma possível continuação para contar os próximos passos de sua vida. O filme é ideal para fãs do artista e para aqueles que desejam conhecer mais sobre sua trajetória. Afinal, Michael Jackson sempre foi digno do título de “Rei do Pop”.
 

 

Segredos sombrios do passado transformam a perspectiva do casamento em um campo minado emocional
por
Marina Garcia
Anna Cândida
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21/04/2026 - 12h

                                                        

 Imagem do pôster do filme The Drama - Foto: @thedrama / Instagram
Imagem do pôster do filme The Drama. Foto: Reprodução/@thedrama 

O filme The Drama, dirigido e roteirizado por Kristoffer Borgli, chegou aos cinemas brasileiros no dia 9 de abril de 2026. A proposta mergulha em dinâmicas emocionais complexas intensificadas pela iminência de um casamento. Distribuído pela Diamond Films e produzido pela A24, o longa despertou interesse por reunir nomes de peso e pela estética característica da produtura, como Zendaya e Robert Pattinson. 

Conhecido por trabalhos como O Homem dos Sonhos, Borgli mantém aqui sua abordagem provocativa e, por vezes, desconfortável, explorando os aspectos do comportamento humano com um olhar irônico e crítico. Em The Drama, essa assinatura se traduz em uma narrativa que oscila entre o íntimo e o estranho, desafiando o espectador a interpretar não apenas os acontecimentos, mas também os silêncios do filme. 

No centro da trama estão os personagens vividos por Zendaya e Robert Pattinson, ambos os atores preocupados em consolidar carreiras marcadas por escolhas autorais. Zendaya, cuja carreira revela versatilidade em produções que vão do pop ao drama contido, apresenta uma atuação repleta de particularidades expressivas e ricas em detalhes. Enquanto Pattinson reforça sua trajetória em filmes independentes, apostando em personagens complexos e emocionalmente instáveis. 

A química entre os protagonistas sustenta grande parte da narrativa. O público é convidado a vivenciar o dilema interior dos personagens por meio de cortes rápidos, cenários imaginados e sons abafados. Ao mesmo tempo, o filme constroi um ritmo narrativo que gera angústia e tensão por meio da falha de comunicação dos personagens. Ainda assim, esse recurso contribui para a construção de uma atmosfera densa, elemento recorrente nas produções da A24 – estúdio que se consolidou por investir em projetos autorais e esteticamente marcantes, como Hereditário e Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo.

Robert Pattinson e Zendaya como protagonistas do filme The Drama - Foto: @thedrama / Instagram
Robert Pattinson e Zendaya como protagonistas do filme The Drama. Foto: Reprodução/@thedrama

A recepção crítica de The Drama tem destacado justamente sua habilidade em desconstruir expectativas narrativas. Muitos espectadores apontam que o filme começa com a aparência de uma comédia romântica, mas gradualmente introduz um desconforto sutil que se intensifica até o desfecho, criando uma experiência marcada pela mistura de diversão, drama e certo caos emocional. Esse movimento também é reforçado pela crítica especializada: no Rotten Tomatoes, diferentes análises descrevem o filme como profundamente desconfortável, capaz de provocar “risos nervosos” e gerar debates após a sessão, evidenciando seu caráter provocativo. 

A mudança de tom ao longo da trama é frequentemente citada como um dos principais acertos da direção de Kristoffer Borgli, especialmente pela forma como a trilha sonora acompanha essa transformação, tornando as cenas progressivamente mais tensas e angustiantes. A crítica também ressalta o envolvimento proporcionado pelos personagens imperfeitos e humanos, além de reforçar o equilíbrio entre o drama e toques de comédia, sustentado pelos protagonistas, que ajudam a dar profundidade aos temas abordados. 

O longa propõe reflexões desconfortáveis como: O quanto você conhece seu parceiro? O que você seria capaz de perdoar? Qual é a pior coisa que você já fez? A fragilidade dos personagens, suas dúvidas e medos, os tornam verossímeis. O filme é atual, sem tornar-se artificial, desde o figurino até a ambientação dos cenários, constrói-se uma atmosfera contemporânea. Elementos do cotidiano, como o Google Docs ou o Spotify não parecem forçados, mas parte de um dilema que poderia acontecer com qualquer um. 


 

Elifas Andreato, entrelaçado à PUC-SP em uma das últimas obras.
por
Maria Eduarda dos Anjos
Ricardo Dias de Oliveira Filho
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29/03/2022 - 12h

Com tristeza icônica, nos desligamos essa semana do ponto colorido de convergência entre várias pessoas, Elifas Andreato. O artista gráfico, presente em mais de 360 capas de discos de artistas nacionais, teve como foco na carreira dar traços à cultura popular brasileira, constituindo a ponte viva entre figuras como Criolo e Chico Buarque. Expressivo, Andreato é peça chave na frente artística de oposição do período militar e modelo na integração da imagem nacional, abraçando com uma corda só a beleza e as mazelas da nação ao lado de contemporâneos como Gilberto Gil e Paulinho da Viola.

Elifas Andreato
Créditos da arte: Elifas Andreato
Reprodução: PUC-SP

Nas primeiras semanas de março, o reencontro do corpo docente e alunos da PUC-SP foi ilustrado pelo caloroso abraço desse velho irmão de luta. O casamento da instituição com o artístico é, primeiramente, de gigante simbolismo da relação política na sociedade civil. A faculdade combateu à base de subversão ideológica os avanços militares, virando símbolo da oposição durante o período. Elifas fez o mesmo à base de canetas, lápis e papel. Assim como a universidade carrega orgulhosa essa herança, sua pós-vida não foge de igual importância.

A arte espalhada pelas vias principais representou o abraço metafórico do campus Monte Alegre, que mesmo privado do toque físico pelas restrições sanitárias, teve sua cultura de troca social revivida pelas vozes nos corredores e olhares deslumbrados com a nova fase da vida que começa à sua frente. As cores vivas e concretas do abraço compartilhado em contraste às paredes cinzas e amareladas dos corredores alude perfeitamente à vida no campus, a base da identidade tradicional da Pontifícia. Assim como no desenho, este é um lugar onde mentes se intercalam e a união se mostra presente à base da cultura brasileira. Assim como os traços da arte, a vida é fluida, feita de contato e palco para encontros, reencontros e, infelizmente, despedidas.

Sua última obra em vida, a cenografia da peça ‘Morte e vida severina’ dirigida pelo irmão Elias Andreato, também habita sob teto puquiano, no TUCA. O entrelaçamento de duas figuras tão emblemáticas na história do Brasil, da cultura e entre si não poderia ter fim mais apropriado e familiar. 
 

Obra de Érico Veríssimo aborda temas atemporais que podem ser relacionados aos dias de hoje
por
Isabela Lago, Ramon de Paschoa e Tabitha Ramalho
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01/06/2021 - 12h
Livro Incidente em Antares, capa roxa
Foto divulgação do livro Incidente em Antares.

 

No episódio de hoje comentamos um pouco sobre o livro “Incidente em Arantes” do escritor Érico Veríssimo. Publicado na década de 1970, durante a ditadura militar, a obra é, ao mesmo tempo, um drama e um romance. Para comemorar os 50 anos do livro, a obra ganhou debate para relembrar sua narrativa repleta de realismo fantástico e críticas contundentes ao autoritarismo e ditadura do contexto histórico, temas que podem ser relacionados com nosso contexto atual.

Disponível no SoundCloud.

Em coletiva, Aroeira comenta a função da charge e o seu impacto visual
por
Carlos Gonçalves
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15/05/2021 - 12h

     Por mais que há a tendência em associar as charges com os traços humorísticos, devemos compreender que a sua função vai além de qualquer piada banal. Temos que observar o peso crítico que nela está envolvido e todo o enredo crítico criado pelo artista. Além do traço, do movimento ou da narrativa, o artista quer mostrar ao leitor que a expressão demonstrada em sua arte serve como ponte para uma reflexão crítica: a função do chargista é plantar o incômodo no leitor, gerar a dúvida, fazendo-o questionar o ambiente em que ele vive. Nada que é colocado em uma charge é irrelevante: o sorriso malicioso do personagem que age na má-fé, o gesto brusco de frustração, a inocência de quem está sendo enganado, são algumas formas que não só servem para mostrar os comportamentos sociais dos brasileiros, como também servem para retratar os nossos pensamentos ou como reagimos em certos momentos. A charge é a sátira ao comportamento social, é questionar as nossas fragilidades e dores; por isso, se ao ler uma charge você sentir vergonha, não se desespere, ela só está cumprindo a sua função de mostrar o quão cruel (ou ignorante) uma sociedade pode ser.

     Renato Aroeira é um dos artistas que se debruçam sobre a arte crítica. Como ferramenta, ele utiliza o traço marcante do nanquim para expor expressões energéticas, somada com a sutileza da aquarela para dar volume e vivacidade a suas artes. Para ele, além da arte em si, o enredo da charge precisa ser bem contextualizado, seguindo uma estrutura. Durante o seu processo de criação, o artista chegou a achar que o humor crítico poderia ser simplificado, porém percebeu que em certos assuntos a simplificação acaba levando a interpretações errôneas, pois pode acabar expressando uma visão sobre algo que não pretendia concluir daquela forma. Então, ele começou a complicar as charges para ser bem compreendido, mesmo que a charge se torne difícil de ser entendida em certos aspectos. Simplificar a charge pode acarretar diversos preconceitos, que acabam trazendo até um sorriso mais fácil, e é por isso que atualmente o chargista toma cuidado com a construção do humor.

 

“O papel da charge é um dos processos para a construção social, serve para informar, impactar. Mas quem transforma o mundo é o coletivo social, apontado para o lado certo, e fazer parte disso de alguma forma é bom demais! É bacana fazer parte dessa confraria, não sou humilde, mas entendo o papel da charge dentro da mídia e os seus limites.

  – Renato Aroeira

 

     O processo de criação artístico de quem trabalha diariamente com o leitor não é algo simples de ser conquistado, requer décadas de aperfeiçoamento. Diferente, por exemplo, dos artistas plásticos, que expressam a sua visão pessoal do mundo e não se preocupam tanto (ou nada) em mostrar de forma categórica o que foi exposto em sua arte, cabendo ao observador buscar as respostas em outros meios para compreendê-la. Já o chargista precisa expor os caminhos do seu pensamento ao leitor, para que ele ache de alguma forma o caminho na própria charge. Entre as dificuldades da profissão, há também a seleção de qual tema abordar; por ser um trabalho constante, o artista tem que estar sempre se atualizando das notícias que mais lhe chamam a atenção e quais servem como inspiração para serem adaptadas em forma de charge. Podendo ser um tema que está em voga ou algo polêmico que ocorreu naquele exato momento. No início da profissão, Aroeira diz que não sabia exatamente o que queria dizer ao público, tendo que buscar inspiração nos jornais, hoje ele já tem uma ideia do que ele quer expressar quando faz a sua arte.

     Mesmo que o papel da charge tenha um limite de influência, Aroeira gosta da função de ser crítico social. Consciente, ele diz que o papel da charge é só um braço entre tantos que há na mídia informativa; cabendo a todos os meios da comunicação unirem-se para criar dispositivos que irão mostrar as inquietações que movem o comportamento social. O grande revés, segundo o artista, é o aumento da perda de função e interesse pelas charges. Para ele, a charge está ficando de lado, não sendo valorizada da forma correta.

 

“Que se divirtam com a charge, mas também olhem para o que estou apontando, para a crítica. Que gostem, que gostem de mim, mas que também entendam que além de fazer rir, ela tem uma trava amarga, ela tem um gosto amargo no geral, pois estou falando de um genocida, de uma estupidez etc. Mas eu não espero que uma charge resolva nenhum problema, que gere uma revolução ou qualquer coisa do tipo. Eu tento desenhar para que as pessoas entendam o que está acontecendo e assim tomem uma decisão melhor, uma eleição bem votada por exemplo. Nosso papel na comunicação é informar da melhor forma possível.”

– Renato Aroeira