Jornalista compartilhou sua trajetória e respondeu perguntas de alunos de Jornalismo da PUC-SP
por
Thaís de Matos
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23/04/2026 - 12h

“Desde cedo, eu entendi que eu tinha uma função de fazer a ponte entre as pessoas que precisavam ser ouvidas e as elites”. Mais de uma vez, o papel de “fazer a ponte” foi frisado como um motor para Juliana Rosa, jornalista de economia há mais de 25 anos. Ela é comentarista da área na Band TV, Bandnews TV e rádios Bandnews e Bandeirantes desde 2021. 

Na labuta, Rosa recebe autoridades, economistas e empresários, com o intuito de compartilhar conhecimento de forma simples, a fim de contribuir para um debate qualificado no país. Antes do Grupo Bandeirantes de Comunicação, a jornalista atuou 20 anos como analista de economia na GloboNews. Ela começou a carreira em 1997 em uma rádio popular do Rio de Janeiro, a Rádio Tupi, indiretamente por influência do pai. Tanto ele quanto a mãe são pernambucanos, que vieram para o sudeste a fim de melhorar as condições de vida. 

“Eu via meu pai, que trabalhou em uma rádio até o final da vida. Eu cresci vendo meu pai, ia trabalhar com ele, às vezes porque minha mãe ainda não tinha chegado [do trabalho]. E uma coisa que eu continuei fazendo, que ele fazia, era todo dia parar na porta da rádio e ouvir as pessoas que estavam ali”, relembra Rosa. Ainda dando continuidade à história, Juliana diz que ouvir essas pessoa foi o que a fez escolher o Jornalismo.

juliana rosa e pollyana ferrari
Juliana Rosa ao lado da professora Pollyana Ferrari / Foto: Thaís de Matos

“As pessoas ficam até hoje em portas de rádios populares porque são invisíveis na sociedade. E você parar ali é uma questão de obrigação jornalística, porque são aquelas pessoas que vão te dizer por que você é jornalista. Elas vão falar que não têm remédio, lixo, saneamento básico, que não comem direito, têm trabalho… Então, certamente isso me moldou completamente. A gente fica achando que a economia está muito longe, mas por que tais pessoas não têm condições de melhorar de vida? Quais são as pautas econômicas que a gente precisa discutir para que essa realidade mude?”, reforça Rosa.

A partir desse questionamento, ano passado ela lançou o livro “De galinha a gavião: como impulsionar o voo da economia brasileira", que tem como objetivo traduzir o "economês" para quem não é especialista, mas quer entender os mecanismos que travam o crescimento do Brasil. Para escrever o livro, Juliana conversou com alguns dos maiores nomes de cada área. “Foi a partir desse incômodo interior que eu tive a minha vida inteira que eu tive a coragem de escrever esse livro como jornalista. Não sou economista, mas quis ouvir os grandes especialistas para dizer que do jeito que está, não dá para ficar”. O título da publicação faz uma analogia entre o “voo” da galinha e a economia brasileira: ambos crescem, mas logo caem – não se sustentam. 

Ainda nessa linha, Juliana critica os jargões do “economês” que tanto são reproduzidos, mas não são devidamente explicados. “O ‘economês’ tem uma função, que é perpetuar as desigualdades, continuar falando para quem já é iniciado. Então, em toda a minha vida, a questão de traduzir a linguagem sempre foi a marca da minha profissão. É um esforço de compreensão, se as pessoas não entendem como você está falando, a gente está falhando”. Mesmo atuando há tanto tempo na editoria econômica, a jornalista diz que até hoje é interrompida ou ignorada por entrevistados homens. Para ela, o preparo é importante para se fazer ser mais ouvida. “A gente tem uma desvantagem, porque a visão machista ainda é muito grande. Isso tem melhorado devagarinho, mas acho que a gente tem que se impor pela nossa competência e se dar o respeito. É duro, cansa, nosso esforço [de mulheres] normalmente é maior, mas não tem outro caminho”, desabafa.  

Tática de retaliação iraniana restringe o fluxo de petróleo apenas a "nações amigas", eleva o barril do Brent a US$104 e acende alerta sobre nova onda de inflação mundial
por
Juliana Bertini de Paula
Maria Eduarda Cepeda
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27/03/2026 - 12h
Desde o último dia 2 de março, o Estreito de Ormuz passou a operar sob fortes restrições impostas pelo Irã a embarcações consideradas “hostis”, impactando diretamente navios ligados aos Estados Unidos, Israel e países europeus. A passagem, que conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico, não está totalmente fechada, mas funciona de forma seletiva, com autorização caso a caso sob controle da Guarda Revolucionária iraniana (IRGC), o que reduziu drasticamente o fluxo marítimo na principal rota energética do mundo.

A atual crise geopolítica se intensificou após os bombardeios conduzidos por Estados Unidos e Israel contra alvos iranianos no dia 28 de fevereiro, ofensiva que resultou na morte do líder supremo Ali Khamenei. A confirmação oficial do óbito ocorreu no mesmo dia pela mídia estatal, desencadeando uma escalada militar que culminou na eleição do linha-dura Mojtaba Khamenei, filho de Ali, como novo líder supremo em 8 de março. Como resposta aos ataques, Teerã passou a restringir o tráfego no estreito e a realizar ataques pontuais a embarcações comerciais, ampliando o risco na área.

O impacto da crise atinge diretamente uma das principais artérias da economia global: cerca de 20% do petróleo mundial e uma parcela significativa do gás natural liquefeito (GNL) passam pelo estreito. Com a queda de 95% no fluxo de navios de carga registrada nas últimas semanas, os mercados de energia enfrentam forte volatilidade. O barril do petróleo tipo Brent ultrapassou a marca dos US$ 100 em diferentes momentos ao longo do mês. Para tentar conter a crise de desabastecimento, a Agência Internacional de Energia (AIE) já liberou 400 milhões de barris de suas reservas emergenciais e estuda uma nova intervenção.

Para a economista Luciana Massaguer, formada pela PUC-Campinas, os efeitos já são concretos e devem se intensificar. “O choque de inflação já é uma realidade. Não é mais uma expectativa e é irreversível, não só por causa do petróleo, mas também por causa da energia, que está mais cara na Europa e na Ásia”, afirma. Segundo ela, a resposta das autoridades monetárias tende a ser limitada: “A resposta dos bancos centrais, como Fed, BCE e Banco Central do Brasil, é complexa, pois aumentar os juros para combater a inflação pode acelerar a recessão, enquanto cortá-los pode inflar ainda mais os preços.”

A transformação da região em uma zona de alto risco militar também elevou os custos do transporte marítimo internacional. Seguradoras passaram a restringir cobertura para embarcações na área, enquanto companhias de navegação evitam a rota — o custo para transportar um barril de petróleo chegou a duplicar desde o início do conflito. Embora não haja uma paralisação total incontestável, o estrangulamento do tráfego já representa um gargalo histórico para o comércio internacional.

Os efeitos começam a se expandir para além do setor energético. O encarecimento do transporte e a instabilidade na região impactam o fluxo de insumos agrícolas, incluindo fertilizantes, em um momento sensível para o calendário de plantio em diversas partes do mundo. “O impacto chega antecipado porque o mercado antecipa tudo. Os fretes encarecem os preços na base e a falta de seguro na navegação naquela região está gerando escassez”, explica Massaguer. Ela destaca ainda que o maior risco está na cadeia alimentar global: “O que pode afetar mais é a segurança alimentar e a oferta de fertilizantes que precisam passar por lá.”

Apesar disso, a economista avalia que os impactos no Brasil tendem a ser mais moderados no curto prazo. “Aqui no Brasil não acho que teremos problemas de segurança alimentar no curto prazo porque temos estoque, mas voltamos para o problema da inflação”, afirma.

No campo diplomático e militar, o cenário sofreu uma reviravolta na terça-feira (31). O governo dos Estados Unidos, sob a presidência de Donald Trump, passou a avaliar a possibilidade de encerrar a guerra contra o Irã mesmo que o Estreito de Ormuz permaneça fechado. O Pentágono avalia que uma operação militar direta para reabrir a rota marítima prolongaria o conflito, optando agora por uma estratégia focada em enfraquecer a Marinha iraniana e pressionar aliados. Paralelamente, os esforços para formar uma coalizão internacional de proteção marítima continuam enfrentando adesão limitada.

Para economias altamente dependentes da importação de energia, as alternativas logísticas seguem restritas. Oleodutos na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos operam próximos da capacidade máxima, mas conseguem desviar apenas parte do volume que normalmente atravessa o estreito. Esse limite evidencia a dependência estrutural global de uma rota estratégica que segue operando sob forte instabilidade e com perspectivas incertas de reabertura total.

Na avaliação de Massaguer, o tempo será um fator determinante para a gravidade da crise. “A economia mundial aguenta essa ‘asfixia’ por um curto período, de um a três meses, sobrevivendo com estoques e rotas alternativas. A partir do quarto mês, o esgotamento dos estoques e o custo proibitivo da energia tornam uma recessão profunda quase inevitável”, conclui.

Aplicativos começam a mudar a relação dos fiéis brasileiros, gerando impacto nas cerimônias
por
Sofia Morelli
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24/03/2026 - 12h

A religiosidade está passando por um processo de digitalização, alterando práticas religiosas tradicionais e o alcance das instituições. Com a reconfiguração da crença no mundo contemporâneo, surgem preocupações sobre o que pode estar sendo perdido durante o processo. A facilidade de acesso e de ampliação é um atrativo, que para muitos fiéis pode instigar a devoção a sua devida fé, mas historicamente a religião privilegiava o esforço na devoção, o que mudou com as transmissões de missas, cultos e o impulso da comunicação digital, tornando-se uma fé mais individualizada. 

Localizada no bairro Itaim Bibi, em São Paulo, a igreja Metodista do Itaim Bibi (IMIB) recorre à transmissões online como forma de atrair mais fiéis e trazer inovação por meio de "apps da fé". “As transmissões acabam trazendo benefícios para a igreja, porque alcança mais jovens e hoje em dia e está difícil atraí-los. A gente só tem dois jovens que frequentam", diz a pastora Meire. Ela assumiu o cargo em fevereiro de 2026 e já implementou um programa de transmissão dos cultos, que são divulgadas, por enquanto, em um grupo de WhatsApp. Com 47 milhões de fiéis protestantes no Brasil, segundo pesquisa IBGE (2022), a fé atravessou séculos com uma estabilidade admirável, sofrendo apenas algumas mudanças do tempo. Os meios de comunicação digital não chegaram para desestabilizar, mas como um processo natural da contemporaneidade. Por exemplo, o compartilhamento do evangelho e a inserção da igreja no ambiente digital atravessa novas fronteiras, podendo se aproximar de adeptos a fé que não costumam seguir a doutrina tradicional. 

Em 2021, a Igreja Adventista no Brasil começou a explorar esses novos formatos digitais com recrutamentos de desenvolvedores, apostando que esse novo mundo seria benéfico para a ampliação da doutrina. Carlos Magalhães, diretor de marketing digital da instituição Adventista, em uma entrevista para o Instituto Humanitas Unisinos, diz: " Eu só uso aplicativos, lá tem tudo. Vejo o horário do pôr do sol e leio um texto para fazer a meditação. É bom para quando estou em viagem e não levei a Bíblia, por exemplo. Assim posso receber o sábado com oração", diz.

 “No final quem acaba acessando, nos aplicativos que algumas igreja já usam ou no nosso grupo mesmo, são só pessoas que já fazem parte da comunidade e querem sentir as palavras de Deus, mesmo à distância”, conta pastora Meire, mas a cautela deve estar sempre presente. O intuito deve ser a ampliação ao invés da substituição da profundidade espiritual por uma mentalidade imediatista. Essência e adaptação podem andar lado a lado com equilíbrio, com a exploração das tecnologias e o mantimento dos valores, sem acompanhar as exigências do nosso presente.

Missa de Domingo (22) na Igreja Metodista do Itaim Bibi.

 


 

Uma análise sobre a passagem do físico e teórico alemão pelo Brasil e o apagamento das mulheres na ciência
por
Natália Matvyenko Maciel Almeida
Joana Grigório
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16/11/2025 - 12h

Em 1925, Albert Einstein desembarcou na américa do sul, na cidade do Rio de Janeiro, para uma sequência de palestras e nesse vídeo exploramos uma parte dos relatos escritos em seu diário e a falta de registros de pessoas racializadas e também de mulheres nas conferências.

Referências utilizadas para esse vídeo: 

1. Tolmasquim, Alfredo Tiomno. Einstein, o Viajante da Relatividade na América do Sul (2003)
Este livro oferece um olhar detalhado sobre a visita de Albert Einstein à América do Sul, incluindo sua passagem pelo Brasil. O autor explora a recepção do cientista e seu impacto no cenário científico da época.

2. Haag, Carlos. "Tropical Relativity" (2004)
Artigo publicado na revista Pesquisa FAPESP, que aborda os diários de viagem de Einstein na América do Sul, com destaque para suas observações sobre o Brasil e suas interações com a ciência local.

3. Moreira, Ildeu de Castro. Entrevista: Visita de Einstein ao Rio de Janeiro promoveu valorização da ciência pura (2025)
Entrevista com Ildeu de Castro Moreira, que discute o impacto da visita de Einstein ao Rio de Janeiro, enfatizando a valorização da ciência fundamental e os desdobramentos para a pesquisa no Brasil.

4. Fundação Oswaldo Cruz. Museu tem atrações em homenagem aos 100 anos da visita de Einstein (2025)
A Fundação Oswaldo Cruz celebra o centenário da visita de Einstein ao Brasil com exposições e atividades que relembram a importância histórica dessa passagem do cientista.

5. Observatório Nacional. 100 Anos de Einstein no Brasil (2025)
O Observatório Nacional comemora o centenário da visita de Einstein ao Brasil com uma série de palestras e reflexões sobre o impacto de sua passagem no campo científico brasileiro.

6. Rosenkranz, Ze'ev (org.). The Travel Diaries of Albert Einstein (2018)
Esta coletânea organiza os diários de viagem de Einstein, incluindo suas observações sobre diferentes regiões do mundo, com destaque para seus comentários sobre a América do Sul, e apresenta uma análise crítica sobre seus pontos de vista racializados.

7. Artigos de divulgação histórica sobre os diários de Einstein e racismo
Diversas publicações, como matérias da History.com e do The Guardian, discutem as anotações de Einstein sobre suas viagens à Ásia e outros lugares, destacando seus comentários sobre raça e cultura.

Nota de Checagem de Fatos
As informações sobre a visita de Einstein ao Brasil e seu impacto no país, incluindo o papel de Carlos Chagas e a análise dos diários de viagem, foram baseadas em fontes como Fiocruz, Observatório Nacional, e pesquisas de Ildeu de Castro Moreira. As reflexões sobre os comentários racializados de Einstein seguem a análise crítica adotada por estudiosos como Tolmasquim, Haag e Rosenkranz.

Releitura transmídia da estadia do físico no Rio de Janeiro em 1925
por |
03/11/2025 - 12h

Em maio de 1925, Albert Einstein visitou o Rio de Janeiro por uma semana hospedando-se no Hotel Glória, quarto 400. Apesar da recepção calorosa como celebridade, sua passagem foi um desastre cômico. A comitiva que o cercava não tinha um único físico ou matemático - apenas médicos, advogados, políticos e militares da elite social brasileira. No Clube de Engenharia, falou para uma plateia lotada que não entendia alemão nem suas ideias, em uma sala barulhenta e sem acústica. Na Academia de Ciências, teve que ouvir três discursos vazios em francês mal falado, incluindo um sobre "a influência da Relatividade na Biologia". O ápice foi quando o jurista Pontes de Miranda tentou desafiá-lo em alemão com considerações sobre metafísica e direito. Einstein levou de presente um papagaio que repetia "Data venia, Herr Einstein", lembrando-o sempre, com humor, da "ciência" dos doutores brasileiros.

“Einstein: visualize o impossível” é um projeto dos estudantes do quarto semestre de jornalismo da PUC-SP, da disciplina de jornalismo transmídia. O projeto aborda, de diferentes maneiras, uma releitura da icônica visita do físico ao Brasil em 1925. Todos os relatos estão em um site especial. Além de produções visuais e sonoras, o especial propõe uma narrativa em quadrinhos que conecta ciência, história e imaginação, tendo como cenário o Observatório Nacional (espaço que recebeu Albert Einstein). 

A produção contou com a colaboração de Bruno Matos, vice-diretor da Escola Estadual Professor Walter Ribas de Andrade. Já o vídeo “Os impactos de Albert Einstein na educação brasileira explicado por doguinhos” apresenta as contribuições das teorias do cientista para a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) a partir da entrevista com o professor de física Dediel Oliveira.  

Em “Diário do Einstein”, o leitor encontra coletânea de depoimentos em formato de diário sobre a passagem de Albert Einstein pelo Rio de Janeiro no ano de 1925, comentando ao longo de cada dia, pontos turísticos e palestras presenciadas por ele. No podcast "A carta que revolucionou a corrida armamentista", discute carta assinada pelo físico Albert Einstein em agosto de 1939, que alertava o presidente dos EUA, Franklin D.Roosevelt, sobre o potencial da Alemanha nazista em desenvolver uma bomba atômica.

O vídeo vertical “Einstein no Brasil” narra o encontro do físico com Carlos Chagas, marcando um momento científico crucial. A produção destaca a troca intelectual entre os dois grandes nomes da época. Por fim, é possível compreender uma sutil crítica sobre a omissão de um encontro com cientistas mulheres consagradas, como Bertha Lutz. Em “Einstein: uma análise de sua trajetória política”, as cartas de Einstein e seus discursos que expressavam preocupação com a violência e os conflitos no Oriente Médio são revisitadas. Nas declarações, o físico defende uma convivência justa entre judeus e árabes, e o projeto analisa como suas palavras ecoam no contexto atual da guerra entre Israel e Palestina, mostrando que o tempo passa, mas as perguntas sobre humanidade e coexistência continuam urgentes. 

Finalmente, o livro "Os Sonhos de Einstein", de Alan Lightman, pela Cia das Letras, apresenta uma série de sonhos imaginários que o jovem Albert Einstein teria tido enquanto desenvolvia a Teoria da Relatividade, em 1905. Em cada um deles, o tempo funciona de um jeito diferente, às vezes para, volta ou corre mais rápido e essas variações servem para refletir sobre a vida, as lembranças e as escolhas humanas. "Neste mundo, a textura do tempo parece ser pegajosa. Porções de cidades aderem a algum momento na história e não se soltam. Do mesmo modo, algumas pessoas ficam presas em algum ponto de suas vidas e não se libertam".
 

Com escolas fechadas em meio à crise sanitária, abuso contra crianças e adolescentes cresce, mas subnotificação de denúncias esconde o problema
por
Carolina Raciunas e Cecília Mayrink O'Kuinghttons
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14/06/2021 - 12h

         Durante o isolamento social em decorrência da pandemia da Covid-19 no país, o canal de denúncias de violação aos direitos humanos já recebeu, até maio de 2021, 25,7 mil denúncias de violência física e 25,6 mil de violência psicológica. Crianças e adolescentes correspondem a 59,6% do total de ocorrências. 

Em março de 2020 escolas de todo o país fecharam as portas para colaborar com medidas preventivas e de contenção da disseminação do vírus. Até hoje, 14 estados e o Distrito Federal continuam com instituições de ensino público sem aula presencial, diminuindo o contato de crianças e adolescentes com pessoas de fora do círculo familiar.

De acordo com o Departamento de Polícia Judiciária da Macro Região (Demacro), houve queda de 70% no número de ocorrência de abuso sexual e violência a jovens no estado de São Paulo em abril de 2020, quando em comparação com o mesmo mês de 2019. Isso indica subnotificação, já que não há evidência de fatores favoráveis à diminuição da violência, a qual vinha crescendo nos anos anteriores.

 Segundo um estudo realizado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), o Instituto Sou da Paz e o Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), o fechamento das escolas foi vetor da diminuição de denúncias, já que professores frequentemente conseguiam identificar a vítima, além de tomar providências. “A escola tem grande importância na fiscalização. Os professores vêem se tem marcas de agressão no corpo na criança. Ali surge a maioria das denúncias ao conselho tutelar”, explicou a advogada coordenadora do Núcleo de Práticas Jurídicas da Fundação Santo André, Juliana Pereira. 

O relatório afirma também que 84% dos casos ocorrem dentro da residência do jovem, e 75% das denúncias de violência são de estupro. 

Para a advogada, o aumento da gravidade da violência se relaciona ao isolamento social durante a pandemia: “Os casos estão sendo registrados quando a violência já atingiu um nível muito grave. Aumentou o número dos que chegam ao hospital no estado em que a criança está quase morta e vai para a UTI. Então houve sim um agravamento, porque a vítima está sem a sua rede de proteção enquanto está só dentro de casa”.

Outro crime comum contra crianças e adolescentes é a alienação parental, sendo esta a manipulação psicológica de um dos responsáveis pela criança, contra o outro genitor, a fim de desqualificar o exercício da paternidade ou maternidade. Ela é comum entre ex-casais com um mau relacionamento e pode ter se acentuado em meio à pandemia, já que houve aumento de 15% nos divórcios no segundo semestre de 2020, de acordo com o levantamento do Colégio Notarial do Brasil - Conselho Federal. O valor destaca-se quando em comparação com a média de variação anual de 2%. 

Segundo Pereira, o risco de contaminação pela Covid-19 limitou pais divorciados de visitarem seus filhos, o que pode contribuir para a intensificação da alienação: “Por conta do isolamento social, se o pai ou a mãe mora com outras pessoas, a criança ou o adolescente não poderia sair da casa de quem tem sua guarda unilateral para visitar o outro, o que pode piorar a manipulação sobre a vítima”. 

Foto: Criança de costas com a mão para trás (Imagem: Assessoria/Divulgação G1

A respeito das políticas públicas já implementadas para o combate à violência infantil, em 2014 foi sancionada a Lei Menino Bernardo. Ela proíbe o uso de castigos físicos como forma de educação e surgiu após o caso do homicídio à criança, no Rio Grande do Sul, chegar ao conhecimento público.

 O caso de Henry Borel, menino de 4 anos morto em março de 2021, deu maior visibilidade à gravidade da violência contra crianças no Brasil. No Rio de Janeiro, o governador Cláudio Castro sancionou a lei que leva o nome da vítima. A sanção tem como objetivo priorizar a investigação de crimes no universo infantojuvenil no estado.

O mestrando em políticas públicas e assistência social, Pedro Nakasone, explicou que o destaque que o caso ganhou é essencial, mas que sua repercussão especial, quando em comparação com outros casos, reflete problemas sociais quanto ao olhar para as vítimas: “Quando a violência é contra determinados públicos, a sociedade não faz um alarde. Quando são crianças brancas e de perfil socioeconômico mais favorável, a nossa sociedade faz um estardalhaço. O caso do Henry é um desses. A violência não é só familiar, é também do Estado e da sociedade, da forma como ela se posiciona sobre diferentes públicos”.

Francisca Pini, uma das coordenadoras do Grupo de Estudo, Pesquisa e Extensão sobre Crianças, Adolescentes e Famílias, salienta ainda que as políticas públicas brasileiras são válidas e cobrem a demanda que chega através de denúncias. No entanto, muitos casos não chegam até as autoridades: “Se o Brasil inteiro resolvesse denunciar hoje as violências, não teríamos serviços o bastante para atender às vítimas. A rede de proteção da assistência social é insuficiente”. 

Um dos principais meios de registrar ocorrência é através do “Disque 100”, canal de denúncias de violações dos direitos de crianças, adolescentes, mulheres,  idosos, pessoas deficientes e em situação de vulnerabilidade social.

 O departamento pode atuar diretamente na resolução da violência ou articular planos com outros órgãos públicos, dependendo da análise do caso reportado. No último ano, o serviço de denúncias teve 95.247 registros, 8.447 a mais que em 2019. Já até maio de 2021, foram registrados aproximadamente 35 mil casos de violação dos direitos de crianças e adolescentes. 

De acordo com um levantamento realizado pelo Programa de Atenção à Criança e ao Adolescente Vítima de Violência, da Fundação para a Infância e Adolescência/RJ, a maioria das vítimas é menina, correspondendo a 62% dos casos. Já a faixa etária mais afetada é a de 0 a 6 anos, o que representa 58% dos casos.

Quando em relação aos abusos sexuais, a porcentagem de meninas chega a 85%, segundo o Atlas da Violência de 2018. 

A doutora em psicologia social e professora da PUC-SP, Beatriz Bambrilla, explica que o elevado percentual de meninas como vítimas da violência está relacionado à forma como a sociedade brasileira se estruturou: “A ideia de falar da cultura da violência é sobre a denúncia do sexismo e do machismo como estruturantes do patriarcado e das formas de dominação. Isso afeta também crianças e adolescentes nesse lugar da produção da relação desigual". 

Bambrilla ainda completa que não é frequente que as vítimas identifiquem que estão sofrendo violência, por estarem inseridas em uma realidade na qual isso é normalizado. “As crianças já sofrem muitas formas de opressão cotidianamente pelo abuso de poder dos adultos. Assim, elas vão aprendendo que as relações são violentas e fica difícil de diferenciar”. 

Segundo o Ministério da Saúde, foi registrado que a residência das próprias vítimas se tornou o espaço mais usual para a prática do crime, e o pai ou o padrasto, o agressor mais comum. Além disso, de acordo com a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, o suspeito é do sexo masculino em 87% dos registros.

O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos elaborou um Plano de Contingência para Crianças e Adolescentes em julho de 2020, liberando uma verba de R$125 bilhões de reais direcionada a essas políticas.

 Entre metas planejadas já concluídas estão: esclarecer 5570 gestores municipais acerca do trabalho feito pelos Conselhos Tutelares durante a pandemia; equipar 49 Conselhos Tutelares dos Estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco e Paraná; repassar recursos financeiros para a proteção social dos municípios, a fim de fortalecer o serviço de amparo a mais de 30 mil crianças e adolescentes em unidade de acolhimento. 

Em meio à violência social contra crianças e adolescentes, organizações sociais demonstram-se indispensáveis. A Companhia “A Rã que Ri” é responsável pela ação “Palhaços Sem Juízo”, caracterizada pela interação de atores com crianças em fóruns criminais, visando aumentar sua rede de apoio, fazendo a vítima se sentir segura para depor e colaborar com a investigação do caso.

Foto: Criança andando no corredor do fórum criminal enquanto voluntária vestida de palhaço a observa(Imagem: Palhaços Sem Juízo)

A fundadora da ação, Soraya Saide, contou que o depoimento da vítima é essencial e precisa ser levado em consideração de maneira responsável durante o processo de investigação criminal: "A palavra da criança tem valor. Ela conta em um processo".

Saide afirma ainda que as ações presenciais foram suspensas por conta da pandemia, e que a Companhia passou a produzir conteúdos virtuais para serem veiculados pelas redes. “Criamos lives para falar do tema com pessoas inseridas no meio da defesa de crianças. Recentemente lançamos o podcast 'O Corredor da Rua 7', em que entrevistamos os trabalhadores da rua 7 e, agora, psicólogos e assistentes sociais".

O objetivo principal é conscientizar a população sobre o problema da violência contra crianças e adolescentes, além de chamar a atenção dos jovens que sofrem abuso, demonstrando como identificar os casos e a importância de recorrer a um adulto para pedir ajuda.

 A fundadora lembrou também que o grupo produziu nove vídeos de alerta à população. Oito deles com depoimentos de crianças e um didático sobre o que a vítima deve fazer em caso de abuso. 

Para Saide, ações governamentais de prevenção e informação aos jovens deveriam ser implementadas para que haja diminuição da violência no país: “A educação sexual é uma política pública que tinha que acontecer. Assim, a gente combate o patriarcado e o machismo estrutural, porque você dá a opção da pessoa crescer com informação e cidadania”.

Além do número para contato direto com o Disque 100, é possível registrar a ocorrência através do site http://www.disque100.gov.br/ ou por meio de mensagem ao email http://www.humanizaredes.gov.br/ouvidoria-online/

Para fazer denúncias à Polícia Militar disque 190. Existem também aplicativos como o “Proteja Brasil” (cujas queixas são encaminhadas para a mesma ouvidoria do Disque 100) e o “Direitos Humanos Brasil”, que permite fazer denúncias através de vídeo chamada ou chat com especialistas.

 É possível recorrer a ONGs que se dedicam a combater esse tipo de crime, como a ChildFund Brasil e a Childhood Brasil através dos respectivos sites online: https://www.childfundbrasil.org.br/ e https://www.childhood.org.br/

Para conhecer mais sobre os Palhaços Sem Juízo, assista ao vídeo https://www.youtube.com/watch?v=M_FmbIp-tA4 ou acesse https://companhiaarari.com.br/palhacos-sem-juizo/ 

Como as políticas públicas perpetuam a invisibilização e o descaso violento dos povos indígenas
por
Rebeca Anzelotti e Victor Trovão
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02/06/2021 - 12h

A luta pela sobrevivência tem mais de 500 anos, e ainda não acabou. Os povos indígenas brasileiros lidam com a iminência do fim desde que estrangeiros tomaram a sua terra. O tempo passou, e a luta continua; a demarcação de terras, junto das políticas de assistência, é a única forma de garantir segurança e liberdade a esses povos. “Aos 11 anos li uma carta na frente do deputado como meu avô sobre a necessidade de demarcar nossas terras, eu tinha 11 anos, hoje eu tenho 21 e nada foi feito.”, revelou Ane/Waiã Pataxó, estudante de fisioterapia da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e membro da aldeia Tibá no sul da Bahia, do povo Pataxó, que desde a geração de seus bisavós, anualmente viajam para Brasília para reivindicar e lutar pelo acesso à saúde e educação na sua comunidade. Hoje, os povos indígenas são vítimas do abandono do Estado, cujo projeto multissecular é invadir as suas terras e dizimar sua população. “Infelizmente nossa demarcação não foi feita ainda. Não temos certeza se ficaremos ali. Nós vivemos com medo de chegar alguém e destruir seu lar e ter que deixar tudo aquilo que você construiu plantou.”, afirma Ane/Waiã.

Em 2018 elegemos um presidente que desconsiderava a demarcação de terras indígenas e a assistência a essas populações já em sua campanha eleitoral. O cenário não poderia ser pior, o governo desmontou as políticas indígenas e ambientais, atendendo os interesses da bancada ruralista, e as invasões violentas vem crescendo na mesma proporção do desmatamento no Brasil. “Defender e proteger o meio ambiente não é uma opção política,  é um compromisso obrigatório de quem quer que seja que ocupe o cargo na qual a função é cumprir o que está na constituição.”, aponta Tiago Zapater, professor de direito ambiental da PUC-SP.  A promessa de demarcação das terras indígenas existe desde a redemocratização, é uma premissa que protege as populações indígenas e o meio-ambiente, o que resume uma dívida histórica irreparável e a qualidade de vida brasileira como um todo; o que se desfez completamente no governo Bolsonaro, que como prometido em campanha, barrou completamente os processos de demarcação de terras. “Se não fosse a luta indigena o percentual de desmatamento no brasil estaria bem mais alto do que está hoje, porque nossa luta é sobre a preservação da natureza, precisamos dela. O governo não percebe isso, só pensa em dinheiro.”, colocou Ane/Waiã em entrevista.

É inegável que as questões ambientais no Brasil estão completamente atravessadas pelo racismo estrutural, e a pandemia do vírus da covid-19 é uma questão ambiental. “O conceito de meio-ambiente ou de direito ao meio ambiente, como está na constituição, está diretamente ligado à qualidade de vida.”, explica Zapater. Os povos indígenas são constantemente vulnerabilizados pelo poder público, o que foi acentuado durante a pandemia. “Uma das barreiras que enfrentamos  é a tentativa do governo de privatizar o SUS, pois dependemos muito dele e isso irá afetar muito o acesso à saúde", confessa a estudante de fisioterapia. Até agora 1.070 mortes foram contabilizadas, mas dada a negligência do Estado e a consequente subnotificação de casos, esse número é muito maior.

Além de negligente, o governo teve participação ativa na disseminação do vírus para as comunidades. A contaminação se deu emblematicamente; profissionais da saúde levaram o vírus para as aldeias durante os atendimentos, as invasões de grileiros e garimpeiros aumentou consideravelmente e há ainda aqueles que se contaminaram ao ir até as cidades buscar o auxílio emergencial. As manobras de sabotagem do governo incluem ainda o intermédio da FUNAI, que suspendeu as ações assistenciais aos indígenas em março de 2020.

A pandemia e o agravamento dela é resultante da interferência irresponsável do homem na natureza, que junto das deficiências na saúde pública, compactuam com a dizimação da população e configuram o mapa de injustiças ambientais no Brasil. O racismo ambiental, que se trata justamente dessa intersecção entre raça e ambiente, faz parte da cultura eugenista que permite a perpetuação da vulnerabilização e violação dos direitos de determinadas populações. "O racismo ambiental tem a ver com o lugar onde você vive, mas também com o lugar onde você não vive. Depois da nova resolução da FUNAI, quando foi desmantelado o processo de autodeclaração, só é indígena quem cumpre certos requisitos”, afirma o Professor Tiago Zapater em entrevista.

A degradação do meio ambiente não violenta apenas o espaço, mas nesse caso, as vidas indígenas, e assim o impacto transpassa para a própria existência, inviabilizando sua cultura e crenças. “A tutela dos povos indígenas é a preservação da memória cultural e da identidade brasileiras.”, ressalta o professor.

A luta indigena é a luta pela vida; “se acaba a natureza também acaba a humanidade.”, afirma Ane. Em meio a pandemia do novo coronavírus os índices de violência só crescem, nenhum processo de demarcação de terras está encaminhado e a assistência às populações indígenas é ínfima. A ineficiência das políticas públicas, casada com o racismo estrutural, perpetua um sistema multissecular de autodestruição. “Peço a Tupã nosso pai criador que nos proteja perante todas as invasões e que um dia nosso povo possa viver em paz.”, declara Ane/Wainã Pataxó.

A fala do Deputado Federal Solon de Lucena, em 1918, descreve uma realidade muito parecida com a de hoje. Na época a pandemia da Gripe Espanhola deixou ao menos 30.000 mortos no país.
por
Aline Freitas, Diogo Moreno Pereira, Luan Leão, Matheus Monteiro
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25/05/2021 - 12h

 

Em 1918, o Brasil enfrentava a Gripe Espanhola, que tem aspectos semelhantes à Pandemia da COVID-19 que assola o mundo desde 2020. 

Apesar das semelhanças, as duas pandemias diferem no tempo de duração no país. Enquanto, atualmente, o estado de calamidade se estende por mais de um ano, no passado, a situação no Brasil durou apenas três meses. Isso, porém, não significa que a Gripe Espanhola não foi letal. “Foram três meses em que 20% da população de São Paulo adoeceu, e 1% da população faleceu”, afirma o historiador e educador formado pela USP, Rodrigo Galvão, autor de “O Serviço Sanitário no Estado de São Paulo e a Pandemia da Influenza” .

O influenzavirus (H1N1),  causador da Pandemia de 1918, acentuou a desnutrição, que somada à alta taxa de infecção, falta de higiene e às instalações médicas superlotadas, acarretou em um grande número de mortos. Uma análise moderna também afirmou que o grupo mais afetado era o de pessoas entre 20 e 40 anos. Isso porque o vírus desencadeia a produção em grande quantidade de citocina, que destrói o sistema imunológico mais resistente dos jovens e adultos. Existe também a teoria de que, anteriormente à doença de 1918, em 1830, havia uma variante da gripe muito parecida com a Gripe Espanhola. Portanto, os mais velhos possuíam anticorpos capazes de combater a Gripe com mais eficiência. 

Essa análise concorda com o argumento do médico infectologista Éder Fernandes, do Instituto Emílio Ribas, acerca da letalidade do coronavírus. “Por que ele é tão letal, e tem essa característica endêmica? Porque ele é novo. Sempre que aparece um vírus novo, o organismo de nenhuma pessoa foi apresentado a esse vírus. E o que acontece, é que todo mundo que for exposto vai pegar. Assim, dissemina e todo mundo fica doente quase que ao mesmo tempo”, afirma. 

A COVID-19 ataca o sistema imunológico do infectado. Suas principais vítimas são idosos acima de 60 anos, pessoas com imunossupressão, doenças cardíacas, pulmonares, entre outras. O vírus dá entrada ao corpo humano de forma direta- contato entre pessoas- ou de forma indireta- contato com superfície contaminada. As duas doenças são transmitidas pelo contato de gotículas de salivas, tosse ou espirro de uma pessoa infectada com o organismo de uma pessoa saudável.

Outro fator diferencial entre as pandemias é a velocidade de propagação dos vírus, isso acontece por conta dos avanços tecnológicos, que diminuíram distâncias. Os meios de transporte mais velozes na atualidade, resultaram na dominação simultânea dos continentes pelo coronavírus. 

Mesmo sendo parecidas em questões de transmissibilidade, em 1918, a abordagem médica foi um pouco diferente, pelo conceito de hospital não ser próximo do que conhecemos hoje. Segundo Galvão, “A própria concepção de hospital era um pouco diferente. Na época, não existia assistência médica individual, quando a pessoa ficava doente, às vezes, ela era obrigada a se internar no hospital que também não tinha lugar para todo mundo”. A cidade não tinha estrutura médica para comportar esse número de infectados, por essa razão, segundo o historiador, houve a predominância de hospitais de campanha. 

Segundo Galvão: “Os estados tinham muita autonomia. Nenhuma constituição brasileira foi tão federativa quanto a primeira constituição republicana de 1891”. Apesar de configurações políticas diferentes, no que diz respeito às ações governamentais em resposta à calamidade sanitária, notam-se algumas semelhanças. Na época, medidas de isolamento também foram adotadas, como o fechamento de locais que provocavam aglomeração a exemplo de: cinemas, teatros, museus, e cancelamento de eventos religiosos. As escolas foram fechadas, de acordo com um decreto do presidente interino da época, Delfim Moreira, os alunos seriam aprovados automaticamente. 

Assim como hoje, a desinformação teve um papel na realidade pandêmica do século passado. “Na pandemia de 1918, não havia exatamente fake news, mas havia, por exemplo, muita desinformação. Quando se anunciava que a gripe tinha chegado ao Brasil, as pessoas faziam piada sobre isso. Diziam que a gripe teria sido trazida por um submarino alemão, num contexto da Primeira Guerra Mundial. Tinha até charge disso”, conta Galvão. Vale ressaltar que aquilo conhecido como “Fake News” nos dias de hoje não possuía o mesmo papel no surto da Gripe Espanhola. Era sim negacionismo, mas não utilizado como uma ferramenta para suprir narrativas políticas. 

A princípio, jornais e revistas do país ironizavam a doença,  o fato só passou a ser tratado com seriedade após militares brasileiros serem contaminados em uma missão, ao aportar em Dakar, no Senegal, em setembro de 1918. A doença chegou oficialmente no mesmo mês, através do navio Demerara. Segundo Rodrigo Galvão, o governo mantinha atualizações diárias sobre a situação sanitária: “Todos os dias o estado mandava comunicados para a imprensa sobre o andamento da pandemia. Quais eram as medidas que estavam sendo tomadas, quais eram as orientações que estavam sendo feitas. Isso era também enviado para os municípios do interior”. O que é similar  às  cotidianas coletivas de imprensa atuais. Apesar das ações do governo, a Pandemia não foi levada a sério por parte dos órgãos jornalísticos. Em artigo da revista “A Careta”, as ações do governo foram encaradas como “uma série de medidas coercitivas, preparando todas as armas da tirania científica contra as liberdades dos povos civis”, um discurso conhecido também durante a pandemia da COVID-19.

Embora a Gripe Espanhola no Brasil tenha durado apenas três meses, foi tempo suficiente para prejudicar a economia e gerar grande quantidade de mortos, exigindo dos estados a construção de caixões de forma massiva e a ampliação dos cemitérios, como ocorre de forma similar atualmente.

 A Gripe Espanhola infectou ricos e pobres. Contudo, na época, os donos de terras se isolavam em suas fazendas longe dos centros urbanos, enquanto os operários eram forçados a trabalhar para que não passassem fome. Hoje em dia, essa é a realidade de empregados domésticos e comerciantes.

Outro fator que diferencia as classes sociais, tanto no século passado como agora, é a qualidade do serviço de saúde. Naquela época, as Santas Casas de Misericórdia tentavam exercer o papel dos hospitais públicos hoje em dia. Como a demanda era grande e a doença matava com certa rapidez, o número de mortos nas classes mais baixas aumentou drasticamente. Por essa razão, na época circulava a inverdade de que os médicos da Santa Casa davam aos pacientes um chá, que ficou conhecido como “chá da meia noite”, para matá-los e, assim, abrir mais vagas de leitos. 

Carro alegórico faz referência ao suposto "chá da Meia-Noite"
Foto: Biblioteca Nacional
Carro alegórico faz referência ao suposto "chá da Meia-Noite" 

Em 2021, mesmo com a existência do SUS, a qualidade dos hospitais continua insuficiente, como afirma Galvão: “Uma coisa é você pegar COVID tendo acesso ao hospital Albert Einstein, outra coisa é você pegar covid numa região completamente precária sem atendimento e serviços básicos de saúde e infraestrutura. Nesse aspecto, as doenças no geral costumam penalizar mais a população mais carente”.

Ainda nesse quesito, é importante ressaltar que a situação do hospital não afeta somente os pacientes, mas também os profissionais que ali trabalham. “Eu ainda tenho a sorte de trabalhar em um local com uma boa estrutura, mas vários colegas estão em hospitais superlotados e com falta de medicamentos. Enfim, uma doença grave. Tem muitos hospitais que faltam recursos humanos capacitados para atender esse tipo de complexidade. Está todo mundo estafado, cansado”, diz o infectologista Éder Fernandes.

Durante os 3 meses no Brasil, a Gripe Espanhola causou cerca de 30 mil mortes. Isso equivale a 0,1% da população de 30 milhões de brasileiros da época. Entre eles, nomes como o ex-presidente Rodrigues Alves e o poeta Olavo Bilac. Enquanto o Coronavírus matou aproximadamente 450 mil dos mais de 214 milhões de habitantes.  

Em um cemitério, coveiros com equipamentos de proteção enterram um corpo
Foto: Pascal Guyot
 

 

Em entrevista coletiva, Gabriela Mayer fala sobre a cobertura de Brumadinho, literatura e as consequências da exposição de apresentadores
por
Maria Clara Lacerda
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24/05/2021 - 12h

Na aula de Oficina do Texto Jornalístico, 12, mediada pelo professor Aldo Quiroga, foi realizada uma entrevista com a apresentadora e repórter da Band News FM, Gabriela Mayer. Ela é formada em jornalismo pela Cásper Líbero e, atualmente, apresenta Alta Frequência, na Band, além do podcast Elas com Elas. Na aula, foi conversado sobre suas coberturas mais importantes, os comentários que ela recebe vindos de sua exposição, e muito mais.  

E, ainda, fora da Band News, Mayer fundou a rádio Guarda-Chuva, sendo uma rede apenas de podcasts jornalísticos, e a primeira do Brasil. Dentro da Guarda-Chuva existe o Põe na Estante, um podcast de literatura da própria apresentadora. Ele é um clube do livro no formato de podcast com troca de ideias e impressões de convidados sobre o livro do momento.

Gabriela Mayer conta que os dois podcasts são produzidos inteiramente de forma independente, ou seja, tudo é realizado por ela, desde a produção, roteirização, até a postagem. A jornalista diz que há um financiamento coletivo, onde os ouvintes contribuem com valores mensais, e que isso a ajuda na melhoria das produções. Por exemplo, ela paga o “mixador” e o artista plástico que desenha as capas. 

Reprodução de Instagram @gabrielacmayer
Foto reprodução instagram
Disponível em @gabrielacmayer

Falando sobre literatura, ela conta: “Sou uma leitora voraz, gosto muito dos livros, acredito muito na literatura e acho que ela tem um potencial transformador muito grande”. Sobre o jornalismo e no que diz respeito a motivação, Mayer diz que precisava escolher uma carreira para o vestibular, sem a certeza do que queria – estava entre direito e jornalismo. Mas, no fim, ela continuou na área jornalística por ver o motivo em cada uma das histórias, “Também vejo potencial no jornalismo, ainda que seja um pouco idealista” completando que é um importante pilar na democracia, na construção da crítica e para a capacidade de alteridade. 

Logo depois, sobre o trabalho na prática, Gabriela Mayer conta o episódio de Brumadinho, onde ela realizou a cobertura mais importante de sua vida. Mayer ainda acompanha os acontecimentos da tragédia, mesmo não fazendo publicações, pois foi muito marcante não só pelo acontecimento, mas por tudo que a jornalista reflete sobre si mesma e sobre as melhorias futuras que aconteceram na sua vida profissional.

 Assim, ela conta: “Eu estive lá quando a barragem se rompeu, fiquei quase dez dias e voltei seis meses depois para produzir essa série de reportagens, que foi finalista do (prêmio) Herzog.” Mayer completa que se envolveu emocionalmente e que, com isso, houve um desafio extra, dizendo, ainda, que não concorda quando falam sobre o jornalista ser frio e distante, “É inevitável que você tenha emoção envolvida porque você ‘tá’ falando de uma tragédia, de um crime que deixou 270 pessoas mortas”.

A apresentadora revela que não é tranquilo assistir tudo aquilo, estar no silêncio da morte, ver os corpos sendo retirados da lama, sentir o cheiro de decomposição e presenciar a miséria em que as pessoas se encontram após a tragédia, “Foi uma cobertura muito difícil de fazer, mas eu considero muito importante não só pelo teor das histórias, mas considero pessoalmente importante pra minha trajetória como jornalista”.

Mudando o assunto, Gabriela Mayer conta da sua transição para o rádio, pois sempre trabalhou na televisão. Mayer conta que trabalhar com rádio é apaixonante, mas que sente muita falta das imagens, “A construção da história com imagens sempre fez muito sentido pra mim”. Entretanto, ela diz que vê muitas possibilidades no rádio, como, por exemplo, quando algo acontece é possível colocar uma pessoa no telefone, rapidamente, para falar sobre o ocorrido.

Além disso, a apresentadora explica que encontrou dificuldades na adaptação por serem linguagens muito diferentes. Ela fala que a descrição é algo importante, então, precisou passar a descrever muito mais do que antes, já que com imagens não era necessário. Sobre a apresentação, ela conta que não é tão roteirizada, então a improvisação precisa estar ali. E, por fim, Mayer fala sobre a mesa do âncora: “A mesa é enlouquecedora. Você tá falando, pensando no que vai falar, operando a mesa, e aí alguém entra avisando que o fulano de tal caiu na ligação então não é pra chamar mais.”

Indo para uma temática delicada, Gabriela Mayer fala sobre como lida com a exposição e todos os comentários que existem com ela. “Eu lido mal. Eu me lembro de uma vez, na TV Cultura, que um telespectador escreveu para reclamar que eu não deveria apresentar um jornal e muito menos ficar em pé porque meu corpo não era adequado pra ser apresentadora de TV. Eu fiquei arrasada”.

Ela ainda revela que é muito suscetível aos comentários, e que muda muito o conteúdo para os homens. Normalmente, as mensagens negativas da rádio são direcionadas para a apresentadora especificamente por ela ser mulher, como “vaca”, segundo exemplo da jornalista. Mayer também diz que quando são reclamações sobre o conteúdo, ela responde diretamente pelo aplicativo WhatsApp – canal aberto com o público – e que vê a falta de diálogo e como isso dificulta a disseminação das notícias reais, já que as pessoas usam trechos de programas que espalham notícias falsas para rebater aquilo que foi noticiado com veracidade, “Parece que a notícia e o post do Facebook têm o mesmo peso”.

Ainda sobre exposição, Gabriela Mayer fala que lida mal com o assédio que sofre também, “Também lido mal, porque eu respondo muito às pessoas e às vezes eu demoro muito pra perceber quando uma linha tá se cruzando ali, e as vezes vira uma perseguição”. Ela conta que acha legal que a achem bonita, mas que não gosta quando associam isso ao que ela é e que por esse motivo, apenas, ela chegou aonde está, “Tô ali por outros motivos, sabe?”

Com a pandemia, 53% dos brasileiros dizem ter sua saúde mental afetada
por
Giulia Palumbo, Maria Luiza Oliveira e Rafaela Correa
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20/05/2021 - 12h

Com a pandemia, a depressão encontrou combustível para se alastrar na sociedade. Um estudo publicado na revista científica americana Jama (Journal of the American Medical Associatio), aponta que a doença cresceu três vezes na pandemia e é o principal fator de risco para o suicídio, ato que é a segunda causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos. 

Percebe-se que muitos jovens têm dificuldade de falar sobre saúde mental com seus familiares. Mas não podemos colocar na conta da pandemia de Covid-19 mais de 350 milhões de pessoas no mundo que foram atingidas pela depressão mesmo antes da quarentena. No entanto, a família precisa se apoiar para, juntos, enfrentarem essa doença resistente. Depressão não é tristeza, nem frescura. Para falar a verdade, cuidar da depressão não é fácil. Um em cada três pacientes não melhora mesmo após inúmeras tentativas de tratamento. 

No psiquismo humano, existem diversos mecanismos de defesa. "Em casos como depressão e problemáticas que envolvem a saúde mental dentro do âmbito familiar, os parentes acabam reagindo com negação ao problema. Tal comportamento interfere no sistema e no convívio familiar, diz a psicopedagoga e psicóloga Elizabetty Monteiro

Para a estudante Maria Luiza Costa (18), que sofre desde antes da pandemia com transtornos psicológicos, foi muito difícil ter a aceitação da família, mesmo com pessoas próximas diagnosticadas com o problema. “Minha mãe e minha avó já tiveram depressão, mas quando fui diagnosticada, elas minimizaram a situação. Aquela teoria de ‘você é jovem, você só estuda, você tem tudo’. [...] mas era como se eu sentisse um vazio sem fim”. 

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Da direita para a esquerda: vovó Maria Jerônimo da Costa, 72; e mamãe Maria Aparecida Jerônimo da Costa, 46. Familia da maria Luiza.

Elizabetty Monteiro ressalta ainda que outro fator muito recorrente entre as famílias, é  que além dos parentes negarem, eles relacionam a doença à fé, “A religião sempre foi um impedimento na ciência.  As famílias que possuem fanatismo religioso, acabam se agarrando em sua fé e atrapalhando o tratamento. Ciência com fé não se mistura pois a ciência tem o papel de diagnosticar e a fé de acolher”, diz.  

Na história da humanidade, a saúde mental sempre foi uma questão em segundo plano, pois determinadas características eram consideradas como possessão,  de uma forma mística, sempre envolvendo medo e mistério. Nos dias de hoje, esse preconceito diminuiu decorrente da evolução da neurociência. Mas ainda continua enraizado em nossa sociedade.

Elizabetty também explica que a pandemia mexeu com questões históricas do homem, o que acabou gerando angústia e depressão à população. “O homem é um ser que necessita se situar no mundo, ter rotina e liberdade. A pandemia abalou essas questões, pois baniu a necessidade de sonhar e de estar sob controle da própria vida. Dessa forma, o homem foi castrado e acabou impotente”, analisa.

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Escritora, pedagoga, psicóloga e psicopedagoga Elizabeth Monteiro

De acordo com pesquisa encomendada pelo Fórum Econômico Mundial, do Instituto Ipsos (Índice Primário de Sentimento do Consumidor), 53% dos brasileiros declararam que sua saúde mental piorou durante a pandemia. Uma média maior do que dos outros 30 países que participaram da pesquisa.  

Para Maria Luiza a situação foi diferente, ela afirma que durante este período focou em fazer o tratamento com psicólogo e psiquiatra, o que a ajudou. Contudo, sua medicação aumentou: “[...] o que eu não estourei no início, está acontecendo agora. Mas acho que segurei bem a onda, no sentido de: prestar atenção no meu corpo, na minha saúde mental” 

Mas essa não está sendo a realidade de todos os brasileiros, como ela relata em seu próprio seio familiar, “por serem pessoas mais antigas, acham que isso é tabu, que isso pode ser frescura. nela". A pesquisa da Ipsos consultou 21 mil pessoas, e em média, 45% da população dos países envolvidos esperam voltar à normalidade ainda este ano, já 41% acredita que levará mais tempo. Maria Luiza acredita que em um mundo pós pandemia a saúde mental será outra, “ Todo mundo vai sair com sequelas da pandemia, perdas. É muito difícil você ligar a televisão e ver mortes e mais mortes”

Rosimeire Peres, assistente social, já chegou a acompanhar mil famílias do território do Itaim Paulista de extrema vulnerabilidade social, quando trabalhou no SASF (Serviço de Assistência Social à Família). Ela explica que dentro do ambiente familiar às vezes os pais não conseguem ter esse entendimento da necessidade dos filhos, seja em relação ao atendimento psicológico ou educacional, e diz que isso se acentua em famílias fragilizadas socialmente.

Uma pesquisa feita pela revista médica Inglesa The Lancet aponta que brasileiros em situação de pobreza e com baixa escolaridade são mais suscetíveis a doenças como depressão. Rosimeire acompanhou essa realidade no local em que trabalhava, e ainda acrescenta que mesmo os membros saudáveis do seio familiar do enfermo podem influenciar no quadro clínico: “Quando a gente fala em famílias em situação de vulnerabilidade social, é bem complicado, a gente percebe que dentro desse núcleo familiar, a mãe ou o pai, muitas vezes eles não têm um discernimento sobre essas questões[...]”, diz Peres.

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Na foto nossa assistente social entrevistada, Rosimeire Peres.
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Esse desequilíbrio que leva à doenças psiquiátricas também causa outros tipos de dificuldades nos lares e  podem agravar a patologia. Rosimeire acrescenta que a falta de reconhecimento pela família implica em desentendimentos sobre o que há com a criança ou o adolescente, levando os pais a pensarem que os filhos são preguiçosos ou “danados”, que por sua vez, pode levar à agressão corretiva: “A violência permeia vários aspectos. Começa com os xingamentos, às vezes os pais não tem paciência, xinga a criança, depois do xingamento começa um puxão de orelha, um beliscão, um tapinha na cabeça[...] Muitas vezes eles não percebem, né, acham que é uma correção”.