Jornalista compartilhou sua trajetória e respondeu perguntas de alunos de Jornalismo da PUC-SP
por
Thaís de Matos
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23/04/2026 - 12h

“Desde cedo, eu entendi que eu tinha uma função de fazer a ponte entre as pessoas que precisavam ser ouvidas e as elites”. Mais de uma vez, o papel de “fazer a ponte” foi frisado como um motor para Juliana Rosa, jornalista de economia há mais de 25 anos. Ela é comentarista da área na Band TV, Bandnews TV e rádios Bandnews e Bandeirantes desde 2021. 

Na labuta, Rosa recebe autoridades, economistas e empresários, com o intuito de compartilhar conhecimento de forma simples, a fim de contribuir para um debate qualificado no país. Antes do Grupo Bandeirantes de Comunicação, a jornalista atuou 20 anos como analista de economia na GloboNews. Ela começou a carreira em 1997 em uma rádio popular do Rio de Janeiro, a Rádio Tupi, indiretamente por influência do pai. Tanto ele quanto a mãe são pernambucanos, que vieram para o sudeste a fim de melhorar as condições de vida. 

“Eu via meu pai, que trabalhou em uma rádio até o final da vida. Eu cresci vendo meu pai, ia trabalhar com ele, às vezes porque minha mãe ainda não tinha chegado [do trabalho]. E uma coisa que eu continuei fazendo, que ele fazia, era todo dia parar na porta da rádio e ouvir as pessoas que estavam ali”, relembra Rosa. Ainda dando continuidade à história, Juliana diz que ouvir essas pessoa foi o que a fez escolher o Jornalismo.

juliana rosa e pollyana ferrari
Juliana Rosa ao lado da professora Pollyana Ferrari / Foto: Thaís de Matos

“As pessoas ficam até hoje em portas de rádios populares porque são invisíveis na sociedade. E você parar ali é uma questão de obrigação jornalística, porque são aquelas pessoas que vão te dizer por que você é jornalista. Elas vão falar que não têm remédio, lixo, saneamento básico, que não comem direito, têm trabalho… Então, certamente isso me moldou completamente. A gente fica achando que a economia está muito longe, mas por que tais pessoas não têm condições de melhorar de vida? Quais são as pautas econômicas que a gente precisa discutir para que essa realidade mude?”, reforça Rosa.

A partir desse questionamento, ano passado ela lançou o livro “De galinha a gavião: como impulsionar o voo da economia brasileira", que tem como objetivo traduzir o "economês" para quem não é especialista, mas quer entender os mecanismos que travam o crescimento do Brasil. Para escrever o livro, Juliana conversou com alguns dos maiores nomes de cada área. “Foi a partir desse incômodo interior que eu tive a minha vida inteira que eu tive a coragem de escrever esse livro como jornalista. Não sou economista, mas quis ouvir os grandes especialistas para dizer que do jeito que está, não dá para ficar”. O título da publicação faz uma analogia entre o “voo” da galinha e a economia brasileira: ambos crescem, mas logo caem – não se sustentam. 

Ainda nessa linha, Juliana critica os jargões do “economês” que tanto são reproduzidos, mas não são devidamente explicados. “O ‘economês’ tem uma função, que é perpetuar as desigualdades, continuar falando para quem já é iniciado. Então, em toda a minha vida, a questão de traduzir a linguagem sempre foi a marca da minha profissão. É um esforço de compreensão, se as pessoas não entendem como você está falando, a gente está falhando”. Mesmo atuando há tanto tempo na editoria econômica, a jornalista diz que até hoje é interrompida ou ignorada por entrevistados homens. Para ela, o preparo é importante para se fazer ser mais ouvida. “A gente tem uma desvantagem, porque a visão machista ainda é muito grande. Isso tem melhorado devagarinho, mas acho que a gente tem que se impor pela nossa competência e se dar o respeito. É duro, cansa, nosso esforço [de mulheres] normalmente é maior, mas não tem outro caminho”, desabafa.  

Tática de retaliação iraniana restringe o fluxo de petróleo apenas a "nações amigas", eleva o barril do Brent a US$104 e acende alerta sobre nova onda de inflação mundial
por
Juliana Bertini de Paula
Maria Eduarda Cepeda
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27/03/2026 - 12h
Desde o último dia 2 de março, o Estreito de Ormuz passou a operar sob fortes restrições impostas pelo Irã a embarcações consideradas “hostis”, impactando diretamente navios ligados aos Estados Unidos, Israel e países europeus. A passagem, que conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico, não está totalmente fechada, mas funciona de forma seletiva, com autorização caso a caso sob controle da Guarda Revolucionária iraniana (IRGC), o que reduziu drasticamente o fluxo marítimo na principal rota energética do mundo.

A atual crise geopolítica se intensificou após os bombardeios conduzidos por Estados Unidos e Israel contra alvos iranianos no dia 28 de fevereiro, ofensiva que resultou na morte do líder supremo Ali Khamenei. A confirmação oficial do óbito ocorreu no mesmo dia pela mídia estatal, desencadeando uma escalada militar que culminou na eleição do linha-dura Mojtaba Khamenei, filho de Ali, como novo líder supremo em 8 de março. Como resposta aos ataques, Teerã passou a restringir o tráfego no estreito e a realizar ataques pontuais a embarcações comerciais, ampliando o risco na área.

O impacto da crise atinge diretamente uma das principais artérias da economia global: cerca de 20% do petróleo mundial e uma parcela significativa do gás natural liquefeito (GNL) passam pelo estreito. Com a queda de 95% no fluxo de navios de carga registrada nas últimas semanas, os mercados de energia enfrentam forte volatilidade. O barril do petróleo tipo Brent ultrapassou a marca dos US$ 100 em diferentes momentos ao longo do mês. Para tentar conter a crise de desabastecimento, a Agência Internacional de Energia (AIE) já liberou 400 milhões de barris de suas reservas emergenciais e estuda uma nova intervenção.

Para a economista Luciana Massaguer, formada pela PUC-Campinas, os efeitos já são concretos e devem se intensificar. “O choque de inflação já é uma realidade. Não é mais uma expectativa e é irreversível, não só por causa do petróleo, mas também por causa da energia, que está mais cara na Europa e na Ásia”, afirma. Segundo ela, a resposta das autoridades monetárias tende a ser limitada: “A resposta dos bancos centrais, como Fed, BCE e Banco Central do Brasil, é complexa, pois aumentar os juros para combater a inflação pode acelerar a recessão, enquanto cortá-los pode inflar ainda mais os preços.”

A transformação da região em uma zona de alto risco militar também elevou os custos do transporte marítimo internacional. Seguradoras passaram a restringir cobertura para embarcações na área, enquanto companhias de navegação evitam a rota — o custo para transportar um barril de petróleo chegou a duplicar desde o início do conflito. Embora não haja uma paralisação total incontestável, o estrangulamento do tráfego já representa um gargalo histórico para o comércio internacional.

Os efeitos começam a se expandir para além do setor energético. O encarecimento do transporte e a instabilidade na região impactam o fluxo de insumos agrícolas, incluindo fertilizantes, em um momento sensível para o calendário de plantio em diversas partes do mundo. “O impacto chega antecipado porque o mercado antecipa tudo. Os fretes encarecem os preços na base e a falta de seguro na navegação naquela região está gerando escassez”, explica Massaguer. Ela destaca ainda que o maior risco está na cadeia alimentar global: “O que pode afetar mais é a segurança alimentar e a oferta de fertilizantes que precisam passar por lá.”

Apesar disso, a economista avalia que os impactos no Brasil tendem a ser mais moderados no curto prazo. “Aqui no Brasil não acho que teremos problemas de segurança alimentar no curto prazo porque temos estoque, mas voltamos para o problema da inflação”, afirma.

No campo diplomático e militar, o cenário sofreu uma reviravolta na terça-feira (31). O governo dos Estados Unidos, sob a presidência de Donald Trump, passou a avaliar a possibilidade de encerrar a guerra contra o Irã mesmo que o Estreito de Ormuz permaneça fechado. O Pentágono avalia que uma operação militar direta para reabrir a rota marítima prolongaria o conflito, optando agora por uma estratégia focada em enfraquecer a Marinha iraniana e pressionar aliados. Paralelamente, os esforços para formar uma coalizão internacional de proteção marítima continuam enfrentando adesão limitada.

Para economias altamente dependentes da importação de energia, as alternativas logísticas seguem restritas. Oleodutos na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos operam próximos da capacidade máxima, mas conseguem desviar apenas parte do volume que normalmente atravessa o estreito. Esse limite evidencia a dependência estrutural global de uma rota estratégica que segue operando sob forte instabilidade e com perspectivas incertas de reabertura total.

Na avaliação de Massaguer, o tempo será um fator determinante para a gravidade da crise. “A economia mundial aguenta essa ‘asfixia’ por um curto período, de um a três meses, sobrevivendo com estoques e rotas alternativas. A partir do quarto mês, o esgotamento dos estoques e o custo proibitivo da energia tornam uma recessão profunda quase inevitável”, conclui.

Aplicativos começam a mudar a relação dos fiéis brasileiros, gerando impacto nas cerimônias
por
Sofia Morelli
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24/03/2026 - 12h

A religiosidade está passando por um processo de digitalização, alterando práticas religiosas tradicionais e o alcance das instituições. Com a reconfiguração da crença no mundo contemporâneo, surgem preocupações sobre o que pode estar sendo perdido durante o processo. A facilidade de acesso e de ampliação é um atrativo, que para muitos fiéis pode instigar a devoção a sua devida fé, mas historicamente a religião privilegiava o esforço na devoção, o que mudou com as transmissões de missas, cultos e o impulso da comunicação digital, tornando-se uma fé mais individualizada. 

Localizada no bairro Itaim Bibi, em São Paulo, a igreja Metodista do Itaim Bibi (IMIB) recorre à transmissões online como forma de atrair mais fiéis e trazer inovação por meio de "apps da fé". “As transmissões acabam trazendo benefícios para a igreja, porque alcança mais jovens e hoje em dia e está difícil atraí-los. A gente só tem dois jovens que frequentam", diz a pastora Meire. Ela assumiu o cargo em fevereiro de 2026 e já implementou um programa de transmissão dos cultos, que são divulgadas, por enquanto, em um grupo de WhatsApp. Com 47 milhões de fiéis protestantes no Brasil, segundo pesquisa IBGE (2022), a fé atravessou séculos com uma estabilidade admirável, sofrendo apenas algumas mudanças do tempo. Os meios de comunicação digital não chegaram para desestabilizar, mas como um processo natural da contemporaneidade. Por exemplo, o compartilhamento do evangelho e a inserção da igreja no ambiente digital atravessa novas fronteiras, podendo se aproximar de adeptos a fé que não costumam seguir a doutrina tradicional. 

Em 2021, a Igreja Adventista no Brasil começou a explorar esses novos formatos digitais com recrutamentos de desenvolvedores, apostando que esse novo mundo seria benéfico para a ampliação da doutrina. Carlos Magalhães, diretor de marketing digital da instituição Adventista, em uma entrevista para o Instituto Humanitas Unisinos, diz: " Eu só uso aplicativos, lá tem tudo. Vejo o horário do pôr do sol e leio um texto para fazer a meditação. É bom para quando estou em viagem e não levei a Bíblia, por exemplo. Assim posso receber o sábado com oração", diz.

 “No final quem acaba acessando, nos aplicativos que algumas igreja já usam ou no nosso grupo mesmo, são só pessoas que já fazem parte da comunidade e querem sentir as palavras de Deus, mesmo à distância”, conta pastora Meire, mas a cautela deve estar sempre presente. O intuito deve ser a ampliação ao invés da substituição da profundidade espiritual por uma mentalidade imediatista. Essência e adaptação podem andar lado a lado com equilíbrio, com a exploração das tecnologias e o mantimento dos valores, sem acompanhar as exigências do nosso presente.

Missa de Domingo (22) na Igreja Metodista do Itaim Bibi.

 


 

Uma análise sobre a passagem do físico e teórico alemão pelo Brasil e o apagamento das mulheres na ciência
por
Natália Matvyenko Maciel Almeida
Joana Grigório
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16/11/2025 - 12h

Em 1925, Albert Einstein desembarcou na américa do sul, na cidade do Rio de Janeiro, para uma sequência de palestras e nesse vídeo exploramos uma parte dos relatos escritos em seu diário e a falta de registros de pessoas racializadas e também de mulheres nas conferências.

Referências utilizadas para esse vídeo: 

1. Tolmasquim, Alfredo Tiomno. Einstein, o Viajante da Relatividade na América do Sul (2003)
Este livro oferece um olhar detalhado sobre a visita de Albert Einstein à América do Sul, incluindo sua passagem pelo Brasil. O autor explora a recepção do cientista e seu impacto no cenário científico da época.

2. Haag, Carlos. "Tropical Relativity" (2004)
Artigo publicado na revista Pesquisa FAPESP, que aborda os diários de viagem de Einstein na América do Sul, com destaque para suas observações sobre o Brasil e suas interações com a ciência local.

3. Moreira, Ildeu de Castro. Entrevista: Visita de Einstein ao Rio de Janeiro promoveu valorização da ciência pura (2025)
Entrevista com Ildeu de Castro Moreira, que discute o impacto da visita de Einstein ao Rio de Janeiro, enfatizando a valorização da ciência fundamental e os desdobramentos para a pesquisa no Brasil.

4. Fundação Oswaldo Cruz. Museu tem atrações em homenagem aos 100 anos da visita de Einstein (2025)
A Fundação Oswaldo Cruz celebra o centenário da visita de Einstein ao Brasil com exposições e atividades que relembram a importância histórica dessa passagem do cientista.

5. Observatório Nacional. 100 Anos de Einstein no Brasil (2025)
O Observatório Nacional comemora o centenário da visita de Einstein ao Brasil com uma série de palestras e reflexões sobre o impacto de sua passagem no campo científico brasileiro.

6. Rosenkranz, Ze'ev (org.). The Travel Diaries of Albert Einstein (2018)
Esta coletânea organiza os diários de viagem de Einstein, incluindo suas observações sobre diferentes regiões do mundo, com destaque para seus comentários sobre a América do Sul, e apresenta uma análise crítica sobre seus pontos de vista racializados.

7. Artigos de divulgação histórica sobre os diários de Einstein e racismo
Diversas publicações, como matérias da History.com e do The Guardian, discutem as anotações de Einstein sobre suas viagens à Ásia e outros lugares, destacando seus comentários sobre raça e cultura.

Nota de Checagem de Fatos
As informações sobre a visita de Einstein ao Brasil e seu impacto no país, incluindo o papel de Carlos Chagas e a análise dos diários de viagem, foram baseadas em fontes como Fiocruz, Observatório Nacional, e pesquisas de Ildeu de Castro Moreira. As reflexões sobre os comentários racializados de Einstein seguem a análise crítica adotada por estudiosos como Tolmasquim, Haag e Rosenkranz.

Releitura transmídia da estadia do físico no Rio de Janeiro em 1925
por |
03/11/2025 - 12h

Em maio de 1925, Albert Einstein visitou o Rio de Janeiro por uma semana hospedando-se no Hotel Glória, quarto 400. Apesar da recepção calorosa como celebridade, sua passagem foi um desastre cômico. A comitiva que o cercava não tinha um único físico ou matemático - apenas médicos, advogados, políticos e militares da elite social brasileira. No Clube de Engenharia, falou para uma plateia lotada que não entendia alemão nem suas ideias, em uma sala barulhenta e sem acústica. Na Academia de Ciências, teve que ouvir três discursos vazios em francês mal falado, incluindo um sobre "a influência da Relatividade na Biologia". O ápice foi quando o jurista Pontes de Miranda tentou desafiá-lo em alemão com considerações sobre metafísica e direito. Einstein levou de presente um papagaio que repetia "Data venia, Herr Einstein", lembrando-o sempre, com humor, da "ciência" dos doutores brasileiros.

“Einstein: visualize o impossível” é um projeto dos estudantes do quarto semestre de jornalismo da PUC-SP, da disciplina de jornalismo transmídia. O projeto aborda, de diferentes maneiras, uma releitura da icônica visita do físico ao Brasil em 1925. Todos os relatos estão em um site especial. Além de produções visuais e sonoras, o especial propõe uma narrativa em quadrinhos que conecta ciência, história e imaginação, tendo como cenário o Observatório Nacional (espaço que recebeu Albert Einstein). 

A produção contou com a colaboração de Bruno Matos, vice-diretor da Escola Estadual Professor Walter Ribas de Andrade. Já o vídeo “Os impactos de Albert Einstein na educação brasileira explicado por doguinhos” apresenta as contribuições das teorias do cientista para a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) a partir da entrevista com o professor de física Dediel Oliveira.  

Em “Diário do Einstein”, o leitor encontra coletânea de depoimentos em formato de diário sobre a passagem de Albert Einstein pelo Rio de Janeiro no ano de 1925, comentando ao longo de cada dia, pontos turísticos e palestras presenciadas por ele. No podcast "A carta que revolucionou a corrida armamentista", discute carta assinada pelo físico Albert Einstein em agosto de 1939, que alertava o presidente dos EUA, Franklin D.Roosevelt, sobre o potencial da Alemanha nazista em desenvolver uma bomba atômica.

O vídeo vertical “Einstein no Brasil” narra o encontro do físico com Carlos Chagas, marcando um momento científico crucial. A produção destaca a troca intelectual entre os dois grandes nomes da época. Por fim, é possível compreender uma sutil crítica sobre a omissão de um encontro com cientistas mulheres consagradas, como Bertha Lutz. Em “Einstein: uma análise de sua trajetória política”, as cartas de Einstein e seus discursos que expressavam preocupação com a violência e os conflitos no Oriente Médio são revisitadas. Nas declarações, o físico defende uma convivência justa entre judeus e árabes, e o projeto analisa como suas palavras ecoam no contexto atual da guerra entre Israel e Palestina, mostrando que o tempo passa, mas as perguntas sobre humanidade e coexistência continuam urgentes. 

Finalmente, o livro "Os Sonhos de Einstein", de Alan Lightman, pela Cia das Letras, apresenta uma série de sonhos imaginários que o jovem Albert Einstein teria tido enquanto desenvolvia a Teoria da Relatividade, em 1905. Em cada um deles, o tempo funciona de um jeito diferente, às vezes para, volta ou corre mais rápido e essas variações servem para refletir sobre a vida, as lembranças e as escolhas humanas. "Neste mundo, a textura do tempo parece ser pegajosa. Porções de cidades aderem a algum momento na história e não se soltam. Do mesmo modo, algumas pessoas ficam presas em algum ponto de suas vidas e não se libertam".
 

As covereadoras Dafne Sena e Samara Sosthenes relatam as dificuldades em serem mulheres que representam pautas minoritárias na Câmara Municipal de São Paulo
por
Evelyn Fagundes, Gabriela Costa e Malu Marinho
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08/05/2021 - 12h
A covereadora Samara posa para foto
Samara Sosthenes, covereadora pelo PSOL em São Paulo. — Foto: Divulgação

“Era um momento tão ruim que, para mim, a única saída era a morte, o suicídio”, confessa Samara Sosthenes, atual covereadora do mandato coletivo “Quilombo Periférico”, ao relembrar de sua vida há dois anos atrás. A sua vontade de permanecer viva só retornou quando ela viu Robeyoncé Lima, co-deputada estadual de Pernambuco e Erica Malunguinho, deputada estadual de São Paulo, serem eleitas como mulheres trans, em seus respectivos cargos, e viu o potencial de mudança que as minorias na política possuem. “Hoje, eu estou tendo a oportunidade de legislar com essas pessoas e eu penso que não posso morrer porque é a minha vez de fazer essa diferença. Enxergar mulheres como eu se elegendo e atuando daquele jeito salvou a minha vida”, diz.

Em 2015, Samara Sosthenes foi morar, por necessidade financeira, em uma ocupação do MTST, no extremo sul da capital paulista. Dentro desse contexto, ela começou a conviver com diferentes histórias e a entender a questão da luta por moradia no país. Quando iniciou seus estudos na Uneafro Brasil, da qual hoje é coordenadora de um núcleo da Luz, ela também teve contato com os problemas da educação brasileira atual. “Todo meu aprendizado político foi fruto do meu contato com os movimentos sociais, sejam eles por moradia, por educação ou pelos direitos das mulheres. Tudo o que eu sei é por conta deles.”

Assim como Samara, Dafne Sena, covereadora da “Bancada Feminista” pelo PSOL, aliou-se à política na cidade de São Paulo, mas com foco na causa ambiental. "Eu me organizei, me filiei ao partido quando mudei para São Paulo, há uns seis ou sete anos. Sempre estive organizada nos movimentos ambientais e em várias outras iniciativas aqui na cidade, como pela igualdade de gênero".

Mesmo antes de participar assiduamente dos movimentos sociais, a covereadora já discutia política em casa, com sua mãe e seus avós. Além disso, Dafne é adepta ao veganismo:  “já fazem uns bons anos que sou vegana, sempre estive junto aos ativistas, nesse movimento que aqui no Brasil a gente chama de 'veganismo popular', uma proposta ligada à agroecologia e reforma agrária, contrapondo a vertente liberal, que se alia ao próprio mercado e ao agronegócio."

covereadora Dafne sena
Dafne Sena,  parlamentar pela Bancada Feminista do PSOL em São Paulo. - Foto: Reprodução.

A política ainda é demasiadamente masculina, o que traz a tona, a cada dia, a dificuldade de ser mulher dentro da câmara: "estar nesses espaços, no Brasil de sempre — mas principalmente no de hoje em dia — é um enfrentamento constante". Permanecer nesses ambientes é fortalecer a resistência e ultrapassar obstáculos diários, "se ficarmos presos em estereótipos nunca vamos entender de fato a luta que é necessária, pois, no momento em que estamos, a ideia de 'passar a boiada' significa a destruição absoluta das nossas condições de vida."

Sobre esses estereótipos, Dafne revelou ser muito difícil tentar alcançar as expectativas colocadas em uma mulher eleita. Geralmente, elas rondam em torno da própria falta de representatividade, já que, como não há muitos integrantes de minorias dentro da política, é sobre os poucos existentes que recai a responsabilidade de expor essas demandas. “A cada pauta adicionada na nossa luta, também acrescentamos mais elementos do que as pessoas esperam que a gente seja e que nunca vamos conseguir atender”.

Além disso, também existem os ideais criados pelos adversários políticos e as dificuldades que são enfrentadas para garantir que determinadas ações sejam realizadas. “É um movimento de muita auto reflexão, às vezes, mas principalmente um movimento de tentar permanecer nesses espaços apesar de todas as contradições e todos os elementos que são colocados como obstáculos”.

Dafne Sena, ao centro da foto, em ato de solidariedade pelo caso da modelo Mari Ferrer. - Foto: Reprodução
Dafne Sena, ao centro da foto, em ato de solidariedade pelo caso da modelo Mari Ferrer. - Foto: Reprodução 

Da mesma maneira que Dafne enfrenta dificuldade por ser mulher dentro da política, Samara também sofreu não apenas por ser uma mulher negra, mas também por ser trans. Na madrugada do dia 31 de janeiro, a covereadora afirmou que um vizinho ouviu barulhos de disparos na frente de sua casa, uma situação parecida com o que ocorreu com as vereadoras Erika Hilton e Carolina Iara”, ambas mulheres trans. A Polícia Civil teria concluído que não houve atentado nem no caso de Iara, nem de Sosthenes e, durante o andamento das investigações, ambas tiveram que andar acompanhadas de seguranças particulares. 

Samara ainda reiterou que, desde a morte de Marielle Franco, os ataques a todo tipo de minorias na política têm aumentado intensamente e que, provavelmente, são causados por conta do crescimento da representatividade dentro da política e são mais direcionados a lideranças femininas, pretas e periféricas. “Nossos corpos na política são novidade e eles sabem o efeito que causamos: a política está mudando, mas isso também causa uma reação do outro lado; o lado branco, sexista, cisgênero, acompanhado por bancadas do boi, da bala e da Bíblia. Então esses ataques vêm por conta do medo, porque a única maneira que eles sabem responder é com a violência.” 

Apesar de todas as dificuldades enfrentadas, principalmente no contexto pandêmico, Dafne afirma continuar na luta, se apegando à imagens de um futuro melhor. “É exaustivo sim, cansa. Tem épocas de profunda desesperança, mas eu entendo isso como uma tarefa histórica. Sinto que perdemos a solidariedade intergeracional, o entendimento de que as mudanças que queremos ver no mundo não necessariamente vão acontecer enquanto eu estou nele, mas acontecerão enquanto outras mulheres estiverem, aquelas que virão depois de mim”, revela.

Esse pensamento de fazer um trabalho que vai além de si é o que manteve Samara viva há dois anos e ainda é o que a sustenta nessa luta. “Acredito muito no poder da representatividade, porque do mesmo jeito que me espelhei em diversas mulheres como eu, muitas pessoas vêm me dizer que sou uma inspiração. Eu me sinto muito lisonjeada, mas também muito pressionada, porque a gente pensa “quem sou eu para servir de inspiração?”, mas só o fato de estarmos vivos, resistindo e lutando já é motivo de inspiração suficiente.” afirma esperançosa, Samara Sosthenes.

 

Depois de 3 décadas, a tendência volta aos guarda-roupas
por
Giulia Palumbo, Maria Luiza de Oliveira e Rafaela Correa
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22/04/2021 - 12h

 

É difícil definir a moda dos anos 90. A década foi definitivamente marcante, tanto para os millenials que estavam em ascensão, quanto para a Geração Z, que estava começando a aparecer. 

Um choque de tendências estava por vir, ao mesmo tempo em que itens tão discretos e minimalistas da Calvin Klein quanto marcantes ainda fazem parte dos nossos guarda-roupas: vestidos tipo slip, botas Doc Martens, gargantilhas e tops, por exemplo.

Enquanto a década de 80 é lembrada pelas calças coloridas, jaquetas bufantes ou de couro, os cabelos armados  e uma obsessão por roupas de grife, como se pode perceber no filme “Top Gun" – muito marcante na época, o início dos anos 90 foi decididamente de baixa inovação, por assim dizer.

Para o stylist Francisco Costa, a moda dos anos 90 era usada como uniforme do Trap e do  Hip-Hop, naquela época estilo adquirido inicialmente pelos afros, “a moda dos anos 90 originou-se de pessoas negras, como Michael Jordan que hoje é um dos maiores astro pop do mundo. Não é atoa que uma das peças que mais marca a volta da moda anos 90 no mundo, é o tênis Nike Jordan .”. O stylist ainda ressalta o tempo em que a moda serviu como forma protesto aqui no Brasil, com a ex-banda de rap, os Racionais MC 'S. O grupo representava a população periférica que lutava pelos seus direitos. Desta forma, a roupa dos rappers virou uniforme de combate à desigualdade.

Já proprietária da loja Mysa, Bruna Perez, que tem como objetivo resgatar a moda dos anos 90 e 2000, e aumentar a autoestima de suas consumidoras, afirma que de lá pra cá a moda mudou e traz consigo algumas alterações nos trajes, “ A calça de cintura alta é uma das principais marcas dos anos 90, mas tem muita gente que não gosta. Se você não se sente bem com alguma dessas peças, a produção de moda brasileira hoje, te apresenta outras opções. Independente da moda, você tem que usar o que te representa e o que te faz se sentir bem consigo mesma.”.

Foto bruna Perez
Bruna Perez, dona da loja Mysa

Nos dias de hoje está sendo comum a volta do que estava em alta em décadas passadas, mas com uma readaptação de acordo com o momento: CDs e DVDs agora em serviços de streamings, programas antes somente para rádio que se revolucionou com o podcast, e o mesmo aconteceu com a moda.  O estilo de roupas da série “Friends” (1994) ou do filme “As Patricinhas de Beverly Hills” (1995) estão nos guarda-roupas dessa geração, mas com variações e releituras para a sociedade contemporânea, “ Partindo do princípio que ‘nada a gente cria, tudo se copia’, tudo é uma releitura de tudo sempre. Ou seja, uma readaptação da antiga” - ressalta a banda Blanc Sec. 

Dessa forma,  é possível ver este retorno por meio de filmes, séries e novelas atuais, como exemplifica a banda com a série "Stranger Things” (2016), que tem uma estética dos anos 90 mas com as câmeras e o olhar atual, intervindo nas formas dos fãs se vestirem. E com um mundo cada vez mais conectado por meio das redes sociais e o surgimento de blogueiras, que  influenciam seus seguidores, sendo de uma maneira positiva ou não,  a como agir e até mesmo se vestir. “Muitas meninas me chamam e dizem que encontraram seu lifestyle depois que conheceram a mim e a minha loja”, ressalta Bruna. 

MODA E AUTO CONHECIMENTO

A moda vai muito além de vestir uma roupa, mas sim, uma forma de se expressar e de se comunicar com o mundo, como já abordado neste texto, “a gente tem que se sentir livre para se expressar através das roupas, sem as amarras da sociedade. (...) Crie o seu momento, por meio da sua tendência e da sua expressão”, aponta a banda Blanc Sec. 

"Meu vô gostava de vestir moletom, que tinha a ver com a personalidade e com a expressão dele” - explica Cauê Gantus (17), integrante da banda Blanc Sec. Entender a moda para compreender a personalidade de alguém está diretamente conectado, e o audiovisual utiliza desse mecanismo para escrever um personagem e uma narrativa, um exemplo é a série “O Gambito da Rainha” (2020), que se passa na década de 60 e que possui um figurino baseado de acordo com o auto conhecimento de Beth, personagem principal, ao decorrer da série e do momento que ela estava vivendo. 

Ou seja, o comportamento de alguém influencia suas escolhas de roupa e na imagem que será passada para a sociedade. Para Bruna Perez, o surgimento da sua loja ocorreu quando ela se auto conheceu e compreendeu o seu estilo, querendo passá-lo para outras pessoas. 

Banda
Banda Blanc Sec em um ensaio fotográfico 

Em meio a pandemia, ao home office e ao ensino à distância, a moda está se transformando, “as pessoas estão criando suas próprias tendências, se conhecendo (...) criou-se uma nova percepção do que eu posso vestir, posso colocar um terno com uma calça de pijama por baixo, uma nova ‘não-tendência’” - ressalta a banda Blanc Sec. 

 

 

 

 

Líderes do movimento refletem sobre os eventos passados e suas implicações para o futuro, reforçando a importância da reforma agrária
por
Hadass Leventhal e Victoria Nogueira
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17/04/2021 - 12h

 

 

25 anos atrás, ao final do dia 17 de abril de 1996 no sul do Pará, 21 trabalhadores rurais foram mortos pela polícia em um conflito armado. A tragédia ficou conhecida como o massacre de Eldorado dos Carajás. Hoje, com a conjuntura política do governo Bolsonaro, observa-se que as questões do campo ainda estão longe de serem resolvidas.

 

Antes do massacre

No ano anterior à chacina, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) organizou milhares de famílias em um acampamento à beira da estrada para protestar pela expropriação da Fazenda Macaxeira, propriedade que consideravam improdutiva. Em resposta às reivindicações, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) inspecionou a área, mas concluiu que o sítio era produtivo. Na época, o MST informou que essa decisão foi tomada por conta de um suborno ao superintendente do Instituto no Pará.  

Em março de 1996, as 3.500 famílias acampadas nas estradas retomaram as negociações com o Incra ao ocuparem as terras da fazenda. Ao mesmo tempo, também se reuniram com políticos paraenses, advogando pela mesma causa. O Instituto de Terras do Pará (ITERPA) passou a mediar o acordo entre os camponeses e o Incra, estabelecendo que enviaria 12 toneladas de alimentos e 70 caixas de remédios ao grupo. 

Porém, os trabalhadores rurais não receberam o que lhes havia sido prometido. Assim, no mês seguinte, parte das famílias acampadas decidiu fazer uma marcha até Belém em protesto pela efetivação das medidas acordadas e a disponibilização da Fazenda Macaxeira.

Em 16 de abril do mesmo ano, os militantes bloquearam uma estrada próxima ao município de Eldorado dos Carajás, demandando por suprimentos básicos e meios de transporte para continuar sua caminhada. O grupo negociou, desta vez, com o comandante da Companhia Independente de Policiamento do Meio Ambiente (CIPOMA), que lhes garantiu a chegada de alimentos e ônibus. 

Na manhã do dia seguinte, o grupo foi informado de que o acordo havia sido anulado. Deste modo, os fazendeiros continuaram a bloquear a estrada; agora, na altura da curva S, em Eldorado dos Carajás. Algumas horas depois, estavam cercados por policiais dos municípios de Parauapebas e Marabá. Não se sabe de fato quem iniciou o ataque. Entretanto, não há dúvidas de que o dia terminou com 19 camponeses mortos e 56 feridos. No total, 21 trabalhadores faleceram. 

 

Depois do massacre

No laudo de Badan Palhares, médico legista que analisou o caso, consta que sete vítimas haviam sido lesionadas por golpes de foice, e, em seguida, executadas a tiros. Depois do confronto, o coronel Mário Pantoja, comandante da ação, reconheceu que os guardas haviam exagerado em sua abordagem violenta. 

Hoje, Francisco Moura, membro da direção nacional do MST, indigna-se com a reação jurídica aos acontecimentos. “Não temos nada o que comemorar”, diz ele. “25 anos do massacre de Eldorado dos Carajás. 25 anos de impunidade nesse país”. 

Dos 155 policiais envolvidos no conflito, somente dois foram condenados. Os comandantes Mário Pantoja e José Maria Oliveira, como réus primários, responderam ao processo em liberdade. Ambos foram condenados e presos em 2004, mas, menos de um ano depois, foram soltos por conta de um habeas corpus do Supremo Tribunal Federal (STF) que os permitiu recorrer de suas sentenças em liberdade. 

 Depois que as sentenças transitaram em julgado, o Tribunal de Justiça do Estado do Pará determinou a prisão de Oliveira. Pantoja se entregou espontaneamente, e 16 anos depois, em abril de 2012, os dois foram presos novamente. Quatro anos depois, o coronel Pantoja passou a cumprir prisão domiciliar por motivos de saúde. Ao final de 2020, morreu contaminado pela COVID-19. Já Oliveira segue em prisão domiciliar desde 2018. 

Para nós que participamos do massacre, fica a dor dos camponeses, a dor das famílias, a dor do MST de não ter um julgamento justo”, relata Moura. Além da isenção dos envolvidos, o líder do MST critica a falta de compromisso do governo com o amparo das vítimas restantes. “Podemos dizer que o estado do Pará é negligente sobre essa questão do massacre”. Somente alguns sobreviventes da chacina foram indenizados. “Outros vivem com muita dificuldade no campo porque o massacre tirou a maioria deles do trabalho rural”, revela.

 

Dia Internacional da Luta Camponesa

Apesar do luto, o líder do MST reconhece algumas conquistas decorrentes do conflito. João Paulo Rodrigues, um dos coordenadores nacionais da organização, relembra quenós tivemos um período que poderia ter sido feita a reforma agrária no Brasil, que foi no governo Jango. No golpe. Depois disso, a reforma agrária ficou paralisada por praticamente 50 anos”. Somente algumas décadas depois, com os massacres de Corumbiara e Eldorado dos Carajás, houve “o primeiro grande momento de popularização do tema questão agrária”. A despeito das perdas, o militante comemora a conquista do Dia Internacional da Luta Camponesa. “No Brasil, é um dia decretado pelo congresso nacional”. O “dia de luta pela reforma agrária”, como coloca Rodrigues, é reconhecido por organizações de mais de 80 países pelo mundo, segundo o coordenador.

 

Hoje em dia

Os líderes do MST se mantêm atentos aos projetos políticos atuais, pois consideram que o massacre dos Carajás é emblemático da vida do trabalhador rural brasileiro.  “Estamos voltando a 1850”, alerta Rodrigues. Chegamos 25 anos depois ainda com uma quantidade imensa de famílias sem terra e acampadas. São quase 200 mil famílias que vivem nas condições mais adversas na beira-estrada”. 

Moura descreve que “nós do MST temos lutado diuturnamente para não acontecer mais massacres que nem o dos Carajás, o de Corumbiara, e todos os outros silenciosamente que estão acontecendo aqui na região amazônica”. O ativista adverte sobre as mortes que ocorrem “na calada da noite”.

“Tem muita morte silenciosa de indígenas, camponeses e quilombolas aqui na nossa região que a gente não sabe e não tem resultado final”, denuncia.

A violência contra militantes pela reforma agrária se encontra fortalecida por falas violentas ditas pelo presidente Jair Bolsonaro. Por exemplo, antes de ser eleito, no dia 13 de julho de 2018, em visita à cidade de Eldorado dos Carajás, o político exclamou que “quem tinha que estar preso é a liderança do MST, que provocaram esse episódio, esses canalhas, esses vagabundos, e não o coronel da polícia militar que estava cumprindo o seu papel. Deixo claro, os policiais reagiram para não morrer trucidados com armas brancas desses bandidos do MST. Quase 3 anos depois, as medidas tomadas durante sua administração demonstram que sua interpretação continua intacta.

 

A reforma agrária no governo de Jair Bolsonaro

A reforma agrária permanece um empecilho no governo de Jair Bolsonaro. Contrário à reforma, o presidente nunca escondeu o seu posicionamento em prol dos grandes latifundiários. Inclusive foi eleito com apoio satisfatório por parte da bancada ruralista que enxerga, na figura de Bolsonaro, uma oportunidade de expandir o agronegócio nas regiões norte e centro-oeste do país.         

Em todos os países desenvolvidos foi feito algum programa de reforma agrária. Pelo capitalismo para desenvolver o interior do país, a produção de matéria prima, indústria, gerar renda e ocupação de território, ou pelas experiências revolucionárias socialistas, como foi a mexicana, cubana, chinesa. No Brasil, você tem o processo inverso. É um dos países com maior concentração de terra”, afirma Rodrigues.

A luta pela reforma agrária contrasta com os altos níveis de desmatamento na Amazônia. No mesmo ano de 2020, de acordo com dados divulgados pelo MAAP (Projeto de Monitoramento da Amazônia Andina), a floresta teve perda de 2,3 milhões de hectares, sendo 65% deles no Brasil, o terceiro pior registro nos últimos 20 anos. As áreas devastadas estariam diretamente ligadas à expansão da pecuária extensiva na região. 

"Quem preserva a Amazônia são as comunidades indígenas, ativistas, e a pequena agricultura. Enquanto tivermos o Ricardo Salles à frente do Ministério do Meio Ambiente, e o Bolsonaro, a Amazônia será terra arrasada porque eles não têm compromisso com a preservação ambiental, com os extrativistas e com as comunidades que vivem lá”, ressalta o dirigente nacional do MST. 

A degradação da floresta atrelada à expansão do agronegócio, bem como a recusa do poder Executivo em consolidar um projeto de reforma agrária, são fatores que acirram os conflitos no campo e culminam em massacres, a exemplo do visto em Eldorado dos Carajás. Para Rodrigues, a reforma agrária pode ser feita, simplesmente, com a caneta do Governo Federal. Ela apenas precisa precisa do orçamento aprovado pelo Congresso. Então, hoje, o problema de não ter uma reforma no Brasil é a forma de concepção de mundo deste governo genocida chamado Bolsonaro. É ele que não quer, destaca.

Jair Bolsonaro, antes de assumir a presidência,  já colecionava ataques aos movimentos que lutam pela reforma agrária. O mais recente foi no dia 15 de abril deste ano quando, por meio de suas redes sociais, publicou um vídeo em que acusava o MST de estar agindo violentamente contra assentados no sul da Bahia. Em resposta, o movimento afirmou que não tem envolvimento com o caso, e que espera que as investigações encontrem os responsáveis. 

 

As homenagens às vítimas do massacre de Eldorado dos Carajás

Todos os anos são prestadas homenagens às vidas perdidas no massacre de Eldorado dos Carajás. Desde 2020, no entanto, elas têm sido diferentes em razão da COVID-19. “Por conta da pandemia, temos focado nas ações de solidariedade. Todos os estados estão com ações planejadas, especialmente de doação de alimentos. Também vamos fazer, em muitos lugares, paralisações com faixas, cartazes, algumas chamas que mantêm viva a memória de Eldorado dos Carajás ”, destaca Marina dos Santos, integrante do setor de frente de massas do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra.

Hoje, o local que foi cenário do massacre é considerado sagrado pelo MST. O espaço abriga o Monumento das Castanheiras Queimadas, reduto formado por árvores mortas que representam as vítimas do conflito. Além disso, a fazenda Macaxeira, que era posse de um dos mandantes do crime, foi desapropriada e atualmente integra o assentamento 17 de abril, data que marca o conflito e é comemorado o Dia Mundial da Luta pela Terra. Segundo Marina dos Santos, integrante do setor de frente de massas do MST, “Abril, desde o massacre do Eldorado dos Carajás, é o mês com letra maiúscula. Porque ele é um mês de luto, em memória aos mártires do massacre de Eldorado dos Carajás, mas ele é, também, um mês de lutas. De lutas onde a gente dialoga com a sociedade as bandeiras de reforma agrária, popular, as bandeiras da produção, as bandeiras de uma sociedade mais justa e igualitária”.

 

 

 

O Brasil completou um ano de ensino remoto. Para profissionais da área, o combate da covid-19 está sendo ineficiente e não permite a volta das aulas presenciais
por
Fernando Figaro, Giulia Palumbo e Rafaela Correa
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15/04/2021 - 12h

 

Um ano de ensino remoto no Brasil. Foi no mês de março de 2020 que as escolas públicas e particulares de São Paulo fecharam as portas pela primeira vez em anos. Isso se dá em virtude de conter o avanço do vírus. A medida afetou mais de 5 milhões de crianças e adolescentes, segundo o Ministério da Educação. São Paulo foi o primeiro Estado brasileiro a fechar as instituições de ensino e naquele momento pouco se sabia sobre a Covid-19. 

Passado um ano, no que  é considerado o pior colapso hospitalar e sanitário da história, 18 estados brasileiros ainda se veem obrigados a manter o ensino em forma remota. 95% das nações conseguiram retomar o sistema híbrido, contudo,o Brasil não tem nenhum tipo de protocolo para a volta às aulas 100%. A empresa de Fonoaudiologia SIKAF indica que o apoio interdisciplinar nesse momento é imprescindível e a volta às aulas presenciais mesmo que com carga horária reduzida é algo que ajudaria nesse colapso da educação,“ O desenvolvimento foi totalmente  prejudicado, e permanece com muitos déficits. Os anos de 2020 e 2021 comprometem o desenvolvimento escolar e social das crianças. As consequências já estão surgindo e alguns aprendizados não serão recuperados” explicam Katia Tzirnazoglou e Simone Maria, sócias-proprietárias da SIKAF.

A psicopedagoga Quézia Bombonatto reafirma que a falta de interação entre crianças e adolescentes no período escolar pode causar danos cognitivos profundos nos jovens, “mesmo com ações de ensino remoto bem estruturadas, a suspensão temporária das aulas presenciais deverá criar lacunas significativas no aprendizado e consequentemente no desenvolvimento cognitivo dos estudantes”. 

De acordo com a profissional, o isolamento não favorece as nossas formas de vivências e de aprendizagens, uma vez que não passam só pelos aspectos cognitivos, mas pelas necessidades afetivo-emocionais encontradas na sala de aula. Portanto, o isolamento representou uma situação de privação, provocando danos significativos tanto para o desenvolvimento cognitivo quanto psíquico. 

No entanto, Quézia explica que ainda é cedo afirmar que são  danos permanentes, uma vez que as escolas estão buscando formas alternativas para suprir as lacunas no ensino geradas pelo isolamento. Porém, evidências mostram que o impacto é muito maior para aqueles indivíduos que se encontram em situação de vulnerabilidade. Que muitas vezes precisam dividir o cômodo com outras pessoas, não têm internet de qualidade capaz de suportar a transmissão da aula, moram em regiões violentas, e outros motivos, que só dificultam ainda mais o aprendizado e a absorção do conteúdo transmitido em aula.

Quando questionada sobre a volta às aulas, ou ensino híbrido, ressaltou, “tem que se considerar que o retorno às aulas presenciais, ao mesmo tempo que se faz necessário e é desejável, também gera certo grau de insegurança e medo. Para tanto, é importante contar com o preparo psicológico dos vários grupos envolvidos com a escolarização. Isto poderá ser realizado criando-se espaços para trocas, conversas sobre como foram as experiências impostas no período de isolamento, como uso de redes, de mídias diversas, as novas propostas de aprendizagens, as facilidades ou dificuldades que perceberam, os ganhos ou perdas que avaliam que tiveram.”

Em relação às propostas do Ministério da Educação, a psicopedagoga diz ter acompanhado alguns entendimentos feitos entre estados e municípios, por intermediação do Conselho de Secretários Estaduais de Educação e da União Nacional de Dirigentes Municipais de Educação. Foram propostas que visam o desenvolvimento de soluções frente às demandas das escolas e em busca de adequações para o enfrentamento da crise em virtude das perdas decorrentes do fechamento das escolas levando em conta as situações econômico-sociais-culturais diversas por conta da extensão do nosso país, e as desigualdades que se tornaram mais evidentes ainda nesse contexto. 

Sabe-se também, que a dificuldade do ensino remoto atinge professores na mesma medida. Não só os alunos perdem o interesse e sentem dificuldades, como o próprio docente  também se vê em uma situação difícil. É o que Katiane Verazani, bacharel e licenciatura em história, com mestrado em história econômica pela FFLCH-USP, conta. “Na tela só há letras, e a sensação de que falamos para o vazio, ou para ninguém, pois muitas vezes não respondem as perguntas, há um silêncio mortal. Inúmeras vezes tive a certeza de estar sozinha, os alunos apenas faziam login e deixavam suas letras lá, mas não estavam, e numa sala de aula não é possível fazer isso, pois, por mais que os pensamentos não possam ser controlados, eu posso trazê-los de volta de alguma forma, mudando a dinâmica num piscar de olhos.”

Ouve-se com frequência que o ambiente doméstico gera distrações e inconveniências para os alunos, que muitas vezes escolhem não ligar as câmeras, mas Katiane aponta que o mesmo ocorre com professores, “Estar em frente a uma tela, expondo minha casa, minha família, meu universo privado... A invasão de privacidade é o que mais me incomoda e é algo que não se fala e não se pensa a respeito da vida do professor.”  O mesmo vale para o aproveitamento das aulas, enquanto alunos não conseguem absorver o conteúdo ou sentem dificuldades, ela ainda diz que também não sente o rendimento das aulas, estando inserida em um sistema híbrido na escola privada onde trabalha.

A preocupação dos docentes e alunos com o sistema híbrido e remoto, segundo Katiane, está sendo pensada pela equipe das escolas e professores, mas em relação ao posicionamento do Ministério da Educação, não houve medida alguma que tenha alcançado a instituição que ela trabalha “Não mudou em nada minha realidade. Todas as mudanças foram resultados das ações da gestão escolar e dos professores, que agiram bravamente para se adaptar o mais rápido possível à nova realidade.”

por
Henrique Sales Barros
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08/04/2021 - 12h

Por Henrique Sales Barros

 

Certo dia, no início de março de 2021, a estudante de medicina Ana Júlia Araújo, de 20 anos, relata ter ido, acompanhada de uma professora, até o setor de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Hospital Geral de Carapicuíba, na Grande São Paulo, onde estagiava desde o começo de fevereiro.

Na ala, a jovem estudante avistou um paciente que não parecia ter muito além de seus 20 anos. O enfermo estava isolado em uma sala, que possuía diversas orientações na porta alertando sobre os cuidados ao se entrar no ambiente, como uso obrigatório de face shield, roupa de proteção etc.

— “Professora, o que aquele paciente tem?” — perguntou Ana Júlia.

Inclinando o rosto aos poucos, como quem quisesse evitar responder à pergunta, a professora suspirou e, por fim, deu retorno ao questionamento:

— “Olha… Aquele paciente ali é um ‘covidaço’.”
— “Mas qual é a história dele?”
— “Ele tem 23 anos.”
— “Mas como está o quadro dele?”
— “Não passa de hoje” — respondeu a professora, em tom de lamentação.

Aquele foi o último dia de Ana Júlia em Carapicuíba antes da suspensão dos estágios devido ao aumento no número de novas internações por covid-19 na unidade, e a estudante não teve mais notícias do jovem com “covidaço”. Era o reflexo do estouro da segunda onda da pandemia no hospital.

Iago Valoti, 24, estudante do quarto ano da graduação de medicina da PUC-SP, em Sorocaba, no interior de São Paulo, iniciou o primeiro semestre de internato no Hospital Santa Lucinda, ligado à universidade, também no início de março, aprendendo a realizar cirurgias em pacientes — mas algumas operações começaram a ser postergadas.

Materiais necessários para cirurgias, como kits de medicamentos sedativos, começaram a faltar nas mesas de cirurgias. O motivo: o número de pacientes com covid-19 com necessidade de intubação e ventilação mecânica cresceu exponencialmente, e a prioridade passou a ser atendê-los.

“A gente acaba vendo algumas cirurgias, mas algumas um pouquinho mais complexas, que teria que dar uma anestesia geral em algum paciente, a gente não está podendo realizar”, diz.

Em 2020, o pico da média móvel de novas internações de pacientes com suspeita ou confirmados com covid-19 no Departamento Regional de Saúde de Sorocaba, segundo dados do governo de SP, foi de 66 novos internados, registrado em 20 de julho. Em 2021, até agora, o pico chegou a 140, em 25 de março — 112% maior que o do ano passado.

As cirurgias que começaram a ser canceladas foram as consideradas eletivas, sem caráter de emergência. Ao fazer atendimentos pré-operatórios e agendar os procedimentos com os pacientes, o estudante passou a ser orientado a alertá-los de que nada garantia que as operações seriam realizadas nas datas previstas.

“A gente tenta deixar da maneira mais clara de que ele (paciente) precisa de cirurgia, mas que não é de urgência, então é difícil essa comunicação. A gente entende como aluno, entende que a atenção tem que ser voltada para a pandemia, mas às vezes o paciente pode acabar não entendendo isso”, relata.

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Suspensões

Valoti não teve o internato no Hospital Santa Lucinda suspenso, o que o estudante avalia como positivo. Quando estiver formado, afinal, o futuro médico não poderá parar os trabalhos caso ocorra uma pandemia como a do novo coronavírus, de fácil transmissão e perigosamente mortal — muito pelo contrário.

A posição que a PUC-SP teve com a segunda onda da pandemia em 2021 foi o oposto da que a universidade tomou em março de 2020, quando optou por suspender não só as atividades presenciais e os estágios ambulatoriais como também os internatos. "A faculdade tentou proteger os alunos, parando tudo no ano passado”, avalia Valoti.

Ainda sim, o estudante passou a temer dois cenários de incerteza devido ao estouro da segunda onda da pandemia em Sorocaba: os internatos voltarem a ser cancelados ou, se continuassem mantidos, os internos passassem a atender pacientes com covid-19, prática que vem sendo evitada de forma generalizada pelas faculdades e hospitais.

Já Ana Júlia, que estuda no Centro Universitário São Camilo, em São Paulo, passou a ter atividades práticas em um centro de simulação no bairro da Pompeia, na zona oeste de São Paulo, no lugar do estágio. Por ser um ambiente controlado, ao invés de pacientes de carne e osso, a estudante passou a lidar com bonecos anatômicos.

“Eu vou para o centro de simulação e vou conversar com boneco, fazer exame físico em um boneco, vou avaliar tudo que tenho que avaliar em um boneco. É essa ‘prática’ que eu estou tendo, bem entre aspas, porque não substitui o paciente de maneira nenhuma”, ressalta.

As atividades em laboratórios e em centros de simulação são as únicas atividades presenciais que Ana Júlia vem tendo. As idas a estes lugares, por questão de segurança, não são feitas com a sala toda e nem sempre: ocorrem em grupos menores, de forma semanal ou em períodos de intervalo que podem variar de duas a três semanas.

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Formação e aprendizado

Com dificuldades para se familiarizar com as aulas virtuais, Valoti avalia que 2020, em termos de aprendizado, foi um ano ruim. “Acabo me distraindo muito fácil. Foi um ano que não consegui aproveitar muito”, diz. Ainda sim, o estudante da PUC-SP enxerga que qualquer prejuízo de conteúdo que vem tendo pode ser recuperado no futuro.

“É o que os professores falam: a gente (estudantes) faz a nossa faculdade”, diz. “Nós vamos acabar tendo o conteúdo, isso eles (professores) não vão deixar passar, mas, às vezes, será de uma forma diferente: algo talvez mais reduzido, e aí nós vamos ter que buscar mais [conteúdo] por conta própria do que o professor ficar passando ali”, afirma.

Já Ana Júlia, por estar no início da graduação, pensa que ainda possui muito tempo pela frente para recuperar qualquer conteúdo perdido. Ainda há quatro anos de faculdade pela frente, afinal. "Eu vou ter tempo de aprender”, diz.

“Nós temos professores muito bons, conseguimos se adaptar muito bem ao modo EaD (Ensino à Distância), e a parte prática, que a gente teoricamente perdeu, nós não perdemos porque nós ainda temos quatro anos de curso. Acredito que nós não vamos ficar assim por muito tempo”, diz.

“Ou pelo menos não por quatro anos — pelo amor de Deus!”