A luta pela sobrevivência tem mais de 500 anos, e ainda não acabou. Os povos indígenas brasileiros lidam com a iminência do fim desde que estrangeiros tomaram a sua terra. O tempo passou, e a luta continua; a demarcação de terras, junto das políticas de assistência, é a única forma de garantir segurança e liberdade a esses povos. “Aos 11 anos li uma carta na frente do deputado como meu avô sobre a necessidade de demarcar nossas terras, eu tinha 11 anos, hoje eu tenho 21 e nada foi feito.”, revelou Ane/Waiã Pataxó, estudante de fisioterapia da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e membro da aldeia Tibá no sul da Bahia, do povo Pataxó, que desde a geração de seus bisavós, anualmente viajam para Brasília para reivindicar e lutar pelo acesso à saúde e educação na sua comunidade. Hoje, os povos indígenas são vítimas do abandono do Estado, cujo projeto multissecular é invadir as suas terras e dizimar sua população. “Infelizmente nossa demarcação não foi feita ainda. Não temos certeza se ficaremos ali. Nós vivemos com medo de chegar alguém e destruir seu lar e ter que deixar tudo aquilo que você construiu plantou.”, afirma Ane/Waiã.
Em 2018 elegemos um presidente que desconsiderava a demarcação de terras indígenas e a assistência a essas populações já em sua campanha eleitoral. O cenário não poderia ser pior, o governo desmontou as políticas indígenas e ambientais, atendendo os interesses da bancada ruralista, e as invasões violentas vem crescendo na mesma proporção do desmatamento no Brasil. “Defender e proteger o meio ambiente não é uma opção política, é um compromisso obrigatório de quem quer que seja que ocupe o cargo na qual a função é cumprir o que está na constituição.”, aponta Tiago Zapater, professor de direito ambiental da PUC-SP. A promessa de demarcação das terras indígenas existe desde a redemocratização, é uma premissa que protege as populações indígenas e o meio-ambiente, o que resume uma dívida histórica irreparável e a qualidade de vida brasileira como um todo; o que se desfez completamente no governo Bolsonaro, que como prometido em campanha, barrou completamente os processos de demarcação de terras. “Se não fosse a luta indigena o percentual de desmatamento no brasil estaria bem mais alto do que está hoje, porque nossa luta é sobre a preservação da natureza, precisamos dela. O governo não percebe isso, só pensa em dinheiro.”, colocou Ane/Waiã em entrevista.
É inegável que as questões ambientais no Brasil estão completamente atravessadas pelo racismo estrutural, e a pandemia do vírus da covid-19 é uma questão ambiental. “O conceito de meio-ambiente ou de direito ao meio ambiente, como está na constituição, está diretamente ligado à qualidade de vida.”, explica Zapater. Os povos indígenas são constantemente vulnerabilizados pelo poder público, o que foi acentuado durante a pandemia. “Uma das barreiras que enfrentamos é a tentativa do governo de privatizar o SUS, pois dependemos muito dele e isso irá afetar muito o acesso à saúde", confessa a estudante de fisioterapia. Até agora 1.070 mortes foram contabilizadas, mas dada a negligência do Estado e a consequente subnotificação de casos, esse número é muito maior.
Além de negligente, o governo teve participação ativa na disseminação do vírus para as comunidades. A contaminação se deu emblematicamente; profissionais da saúde levaram o vírus para as aldeias durante os atendimentos, as invasões de grileiros e garimpeiros aumentou consideravelmente e há ainda aqueles que se contaminaram ao ir até as cidades buscar o auxílio emergencial. As manobras de sabotagem do governo incluem ainda o intermédio da FUNAI, que suspendeu as ações assistenciais aos indígenas em março de 2020.
A pandemia e o agravamento dela é resultante da interferência irresponsável do homem na natureza, que junto das deficiências na saúde pública, compactuam com a dizimação da população e configuram o mapa de injustiças ambientais no Brasil. O racismo ambiental, que se trata justamente dessa intersecção entre raça e ambiente, faz parte da cultura eugenista que permite a perpetuação da vulnerabilização e violação dos direitos de determinadas populações. "O racismo ambiental tem a ver com o lugar onde você vive, mas também com o lugar onde você não vive. Depois da nova resolução da FUNAI, quando foi desmantelado o processo de autodeclaração, só é indígena quem cumpre certos requisitos”, afirma o Professor Tiago Zapater em entrevista.
A degradação do meio ambiente não violenta apenas o espaço, mas nesse caso, as vidas indígenas, e assim o impacto transpassa para a própria existência, inviabilizando sua cultura e crenças. “A tutela dos povos indígenas é a preservação da memória cultural e da identidade brasileiras.”, ressalta o professor.
A luta indigena é a luta pela vida; “se acaba a natureza também acaba a humanidade.”, afirma Ane. Em meio a pandemia do novo coronavírus os índices de violência só crescem, nenhum processo de demarcação de terras está encaminhado e a assistência às populações indígenas é ínfima. A ineficiência das políticas públicas, casada com o racismo estrutural, perpetua um sistema multissecular de autodestruição. “Peço a Tupã nosso pai criador que nos proteja perante todas as invasões e que um dia nosso povo possa viver em paz.”, declara Ane/Wainã Pataxó.
Em 1918, o Brasil enfrentava a Gripe Espanhola, que tem aspectos semelhantes à Pandemia da COVID-19 que assola o mundo desde 2020.
Apesar das semelhanças, as duas pandemias diferem no tempo de duração no país. Enquanto, atualmente, o estado de calamidade se estende por mais de um ano, no passado, a situação no Brasil durou apenas três meses. Isso, porém, não significa que a Gripe Espanhola não foi letal. “Foram três meses em que 20% da população de São Paulo adoeceu, e 1% da população faleceu”, afirma o historiador e educador formado pela USP, Rodrigo Galvão, autor de “O Serviço Sanitário no Estado de São Paulo e a Pandemia da Influenza” .
O influenzavirus (H1N1), causador da Pandemia de 1918, acentuou a desnutrição, que somada à alta taxa de infecção, falta de higiene e às instalações médicas superlotadas, acarretou em um grande número de mortos. Uma análise moderna também afirmou que o grupo mais afetado era o de pessoas entre 20 e 40 anos. Isso porque o vírus desencadeia a produção em grande quantidade de citocina, que destrói o sistema imunológico mais resistente dos jovens e adultos. Existe também a teoria de que, anteriormente à doença de 1918, em 1830, havia uma variante da gripe muito parecida com a Gripe Espanhola. Portanto, os mais velhos possuíam anticorpos capazes de combater a Gripe com mais eficiência.
Essa análise concorda com o argumento do médico infectologista Éder Fernandes, do Instituto Emílio Ribas, acerca da letalidade do coronavírus. “Por que ele é tão letal, e tem essa característica endêmica? Porque ele é novo. Sempre que aparece um vírus novo, o organismo de nenhuma pessoa foi apresentado a esse vírus. E o que acontece, é que todo mundo que for exposto vai pegar. Assim, dissemina e todo mundo fica doente quase que ao mesmo tempo”, afirma.
A COVID-19 ataca o sistema imunológico do infectado. Suas principais vítimas são idosos acima de 60 anos, pessoas com imunossupressão, doenças cardíacas, pulmonares, entre outras. O vírus dá entrada ao corpo humano de forma direta- contato entre pessoas- ou de forma indireta- contato com superfície contaminada. As duas doenças são transmitidas pelo contato de gotículas de salivas, tosse ou espirro de uma pessoa infectada com o organismo de uma pessoa saudável.
Outro fator diferencial entre as pandemias é a velocidade de propagação dos vírus, isso acontece por conta dos avanços tecnológicos, que diminuíram distâncias. Os meios de transporte mais velozes na atualidade, resultaram na dominação simultânea dos continentes pelo coronavírus.
Mesmo sendo parecidas em questões de transmissibilidade, em 1918, a abordagem médica foi um pouco diferente, pelo conceito de hospital não ser próximo do que conhecemos hoje. Segundo Galvão, “A própria concepção de hospital era um pouco diferente. Na época, não existia assistência médica individual, quando a pessoa ficava doente, às vezes, ela era obrigada a se internar no hospital que também não tinha lugar para todo mundo”. A cidade não tinha estrutura médica para comportar esse número de infectados, por essa razão, segundo o historiador, houve a predominância de hospitais de campanha.
Segundo Galvão: “Os estados tinham muita autonomia. Nenhuma constituição brasileira foi tão federativa quanto a primeira constituição republicana de 1891”. Apesar de configurações políticas diferentes, no que diz respeito às ações governamentais em resposta à calamidade sanitária, notam-se algumas semelhanças. Na época, medidas de isolamento também foram adotadas, como o fechamento de locais que provocavam aglomeração a exemplo de: cinemas, teatros, museus, e cancelamento de eventos religiosos. As escolas foram fechadas, de acordo com um decreto do presidente interino da época, Delfim Moreira, os alunos seriam aprovados automaticamente.
Assim como hoje, a desinformação teve um papel na realidade pandêmica do século passado. “Na pandemia de 1918, não havia exatamente fake news, mas havia, por exemplo, muita desinformação. Quando se anunciava que a gripe tinha chegado ao Brasil, as pessoas faziam piada sobre isso. Diziam que a gripe teria sido trazida por um submarino alemão, num contexto da Primeira Guerra Mundial. Tinha até charge disso”, conta Galvão. Vale ressaltar que aquilo conhecido como “Fake News” nos dias de hoje não possuía o mesmo papel no surto da Gripe Espanhola. Era sim negacionismo, mas não utilizado como uma ferramenta para suprir narrativas políticas.
A princípio, jornais e revistas do país ironizavam a doença, o fato só passou a ser tratado com seriedade após militares brasileiros serem contaminados em uma missão, ao aportar em Dakar, no Senegal, em setembro de 1918. A doença chegou oficialmente no mesmo mês, através do navio Demerara. Segundo Rodrigo Galvão, o governo mantinha atualizações diárias sobre a situação sanitária: “Todos os dias o estado mandava comunicados para a imprensa sobre o andamento da pandemia. Quais eram as medidas que estavam sendo tomadas, quais eram as orientações que estavam sendo feitas. Isso era também enviado para os municípios do interior”. O que é similar às cotidianas coletivas de imprensa atuais. Apesar das ações do governo, a Pandemia não foi levada a sério por parte dos órgãos jornalísticos. Em artigo da revista “A Careta”, as ações do governo foram encaradas como “uma série de medidas coercitivas, preparando todas as armas da tirania científica contra as liberdades dos povos civis”, um discurso conhecido também durante a pandemia da COVID-19.
Embora a Gripe Espanhola no Brasil tenha durado apenas três meses, foi tempo suficiente para prejudicar a economia e gerar grande quantidade de mortos, exigindo dos estados a construção de caixões de forma massiva e a ampliação dos cemitérios, como ocorre de forma similar atualmente.
A Gripe Espanhola infectou ricos e pobres. Contudo, na época, os donos de terras se isolavam em suas fazendas longe dos centros urbanos, enquanto os operários eram forçados a trabalhar para que não passassem fome. Hoje em dia, essa é a realidade de empregados domésticos e comerciantes.
Outro fator que diferencia as classes sociais, tanto no século passado como agora, é a qualidade do serviço de saúde. Naquela época, as Santas Casas de Misericórdia tentavam exercer o papel dos hospitais públicos hoje em dia. Como a demanda era grande e a doença matava com certa rapidez, o número de mortos nas classes mais baixas aumentou drasticamente. Por essa razão, na época circulava a inverdade de que os médicos da Santa Casa davam aos pacientes um chá, que ficou conhecido como “chá da meia noite”, para matá-los e, assim, abrir mais vagas de leitos.

Carro alegórico faz referência ao suposto "chá da Meia-Noite"
Em 2021, mesmo com a existência do SUS, a qualidade dos hospitais continua insuficiente, como afirma Galvão: “Uma coisa é você pegar COVID tendo acesso ao hospital Albert Einstein, outra coisa é você pegar covid numa região completamente precária sem atendimento e serviços básicos de saúde e infraestrutura. Nesse aspecto, as doenças no geral costumam penalizar mais a população mais carente”.
Ainda nesse quesito, é importante ressaltar que a situação do hospital não afeta somente os pacientes, mas também os profissionais que ali trabalham. “Eu ainda tenho a sorte de trabalhar em um local com uma boa estrutura, mas vários colegas estão em hospitais superlotados e com falta de medicamentos. Enfim, uma doença grave. Tem muitos hospitais que faltam recursos humanos capacitados para atender esse tipo de complexidade. Está todo mundo estafado, cansado”, diz o infectologista Éder Fernandes.
Durante os 3 meses no Brasil, a Gripe Espanhola causou cerca de 30 mil mortes. Isso equivale a 0,1% da população de 30 milhões de brasileiros da época. Entre eles, nomes como o ex-presidente Rodrigues Alves e o poeta Olavo Bilac. Enquanto o Coronavírus matou aproximadamente 450 mil dos mais de 214 milhões de habitantes.

Na aula de Oficina do Texto Jornalístico, 12, mediada pelo professor Aldo Quiroga, foi realizada uma entrevista com a apresentadora e repórter da Band News FM, Gabriela Mayer. Ela é formada em jornalismo pela Cásper Líbero e, atualmente, apresenta Alta Frequência, na Band, além do podcast Elas com Elas. Na aula, foi conversado sobre suas coberturas mais importantes, os comentários que ela recebe vindos de sua exposição, e muito mais.
E, ainda, fora da Band News, Mayer fundou a rádio Guarda-Chuva, sendo uma rede apenas de podcasts jornalísticos, e a primeira do Brasil. Dentro da Guarda-Chuva existe o Põe na Estante, um podcast de literatura da própria apresentadora. Ele é um clube do livro no formato de podcast com troca de ideias e impressões de convidados sobre o livro do momento.
Gabriela Mayer conta que os dois podcasts são produzidos inteiramente de forma independente, ou seja, tudo é realizado por ela, desde a produção, roteirização, até a postagem. A jornalista diz que há um financiamento coletivo, onde os ouvintes contribuem com valores mensais, e que isso a ajuda na melhoria das produções. Por exemplo, ela paga o “mixador” e o artista plástico que desenha as capas.

Disponível em @gabrielacmayer
Falando sobre literatura, ela conta: “Sou uma leitora voraz, gosto muito dos livros, acredito muito na literatura e acho que ela tem um potencial transformador muito grande”. Sobre o jornalismo e no que diz respeito a motivação, Mayer diz que precisava escolher uma carreira para o vestibular, sem a certeza do que queria – estava entre direito e jornalismo. Mas, no fim, ela continuou na área jornalística por ver o motivo em cada uma das histórias, “Também vejo potencial no jornalismo, ainda que seja um pouco idealista” completando que é um importante pilar na democracia, na construção da crítica e para a capacidade de alteridade.
Logo depois, sobre o trabalho na prática, Gabriela Mayer conta o episódio de Brumadinho, onde ela realizou a cobertura mais importante de sua vida. Mayer ainda acompanha os acontecimentos da tragédia, mesmo não fazendo publicações, pois foi muito marcante não só pelo acontecimento, mas por tudo que a jornalista reflete sobre si mesma e sobre as melhorias futuras que aconteceram na sua vida profissional.
Assim, ela conta: “Eu estive lá quando a barragem se rompeu, fiquei quase dez dias e voltei seis meses depois para produzir essa série de reportagens, que foi finalista do (prêmio) Herzog.” Mayer completa que se envolveu emocionalmente e que, com isso, houve um desafio extra, dizendo, ainda, que não concorda quando falam sobre o jornalista ser frio e distante, “É inevitável que você tenha emoção envolvida porque você ‘tá’ falando de uma tragédia, de um crime que deixou 270 pessoas mortas”.
A apresentadora revela que não é tranquilo assistir tudo aquilo, estar no silêncio da morte, ver os corpos sendo retirados da lama, sentir o cheiro de decomposição e presenciar a miséria em que as pessoas se encontram após a tragédia, “Foi uma cobertura muito difícil de fazer, mas eu considero muito importante não só pelo teor das histórias, mas considero pessoalmente importante pra minha trajetória como jornalista”.
Mudando o assunto, Gabriela Mayer conta da sua transição para o rádio, pois sempre trabalhou na televisão. Mayer conta que trabalhar com rádio é apaixonante, mas que sente muita falta das imagens, “A construção da história com imagens sempre fez muito sentido pra mim”. Entretanto, ela diz que vê muitas possibilidades no rádio, como, por exemplo, quando algo acontece é possível colocar uma pessoa no telefone, rapidamente, para falar sobre o ocorrido.
Além disso, a apresentadora explica que encontrou dificuldades na adaptação por serem linguagens muito diferentes. Ela fala que a descrição é algo importante, então, precisou passar a descrever muito mais do que antes, já que com imagens não era necessário. Sobre a apresentação, ela conta que não é tão roteirizada, então a improvisação precisa estar ali. E, por fim, Mayer fala sobre a mesa do âncora: “A mesa é enlouquecedora. Você tá falando, pensando no que vai falar, operando a mesa, e aí alguém entra avisando que o fulano de tal caiu na ligação então não é pra chamar mais.”
Indo para uma temática delicada, Gabriela Mayer fala sobre como lida com a exposição e todos os comentários que existem com ela. “Eu lido mal. Eu me lembro de uma vez, na TV Cultura, que um telespectador escreveu para reclamar que eu não deveria apresentar um jornal e muito menos ficar em pé porque meu corpo não era adequado pra ser apresentadora de TV. Eu fiquei arrasada”.
Ela ainda revela que é muito suscetível aos comentários, e que muda muito o conteúdo para os homens. Normalmente, as mensagens negativas da rádio são direcionadas para a apresentadora especificamente por ela ser mulher, como “vaca”, segundo exemplo da jornalista. Mayer também diz que quando são reclamações sobre o conteúdo, ela responde diretamente pelo aplicativo WhatsApp – canal aberto com o público – e que vê a falta de diálogo e como isso dificulta a disseminação das notícias reais, já que as pessoas usam trechos de programas que espalham notícias falsas para rebater aquilo que foi noticiado com veracidade, “Parece que a notícia e o post do Facebook têm o mesmo peso”.
Ainda sobre exposição, Gabriela Mayer fala que lida mal com o assédio que sofre também, “Também lido mal, porque eu respondo muito às pessoas e às vezes eu demoro muito pra perceber quando uma linha tá se cruzando ali, e as vezes vira uma perseguição”. Ela conta que acha legal que a achem bonita, mas que não gosta quando associam isso ao que ela é e que por esse motivo, apenas, ela chegou aonde está, “Tô ali por outros motivos, sabe?”
Com a pandemia, a depressão encontrou combustível para se alastrar na sociedade. Um estudo publicado na revista científica americana Jama (Journal of the American Medical Associatio), aponta que a doença cresceu três vezes na pandemia e é o principal fator de risco para o suicídio, ato que é a segunda causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos.
Percebe-se que muitos jovens têm dificuldade de falar sobre saúde mental com seus familiares. Mas não podemos colocar na conta da pandemia de Covid-19 mais de 350 milhões de pessoas no mundo que foram atingidas pela depressão mesmo antes da quarentena. No entanto, a família precisa se apoiar para, juntos, enfrentarem essa doença resistente. Depressão não é tristeza, nem frescura. Para falar a verdade, cuidar da depressão não é fácil. Um em cada três pacientes não melhora mesmo após inúmeras tentativas de tratamento.
No psiquismo humano, existem diversos mecanismos de defesa. "Em casos como depressão e problemáticas que envolvem a saúde mental dentro do âmbito familiar, os parentes acabam reagindo com negação ao problema. Tal comportamento interfere no sistema e no convívio familiar, diz a psicopedagoga e psicóloga Elizabetty Monteiro
Para a estudante Maria Luiza Costa (18), que sofre desde antes da pandemia com transtornos psicológicos, foi muito difícil ter a aceitação da família, mesmo com pessoas próximas diagnosticadas com o problema. “Minha mãe e minha avó já tiveram depressão, mas quando fui diagnosticada, elas minimizaram a situação. Aquela teoria de ‘você é jovem, você só estuda, você tem tudo’. [...] mas era como se eu sentisse um vazio sem fim”.

Elizabetty Monteiro ressalta ainda que outro fator muito recorrente entre as famílias, é que além dos parentes negarem, eles relacionam a doença à fé, “A religião sempre foi um impedimento na ciência. As famílias que possuem fanatismo religioso, acabam se agarrando em sua fé e atrapalhando o tratamento. Ciência com fé não se mistura pois a ciência tem o papel de diagnosticar e a fé de acolher”, diz.
Na história da humanidade, a saúde mental sempre foi uma questão em segundo plano, pois determinadas características eram consideradas como possessão, de uma forma mística, sempre envolvendo medo e mistério. Nos dias de hoje, esse preconceito diminuiu decorrente da evolução da neurociência. Mas ainda continua enraizado em nossa sociedade.
Elizabetty também explica que a pandemia mexeu com questões históricas do homem, o que acabou gerando angústia e depressão à população. “O homem é um ser que necessita se situar no mundo, ter rotina e liberdade. A pandemia abalou essas questões, pois baniu a necessidade de sonhar e de estar sob controle da própria vida. Dessa forma, o homem foi castrado e acabou impotente”, analisa.

De acordo com pesquisa encomendada pelo Fórum Econômico Mundial, do Instituto Ipsos (Índice Primário de Sentimento do Consumidor), 53% dos brasileiros declararam que sua saúde mental piorou durante a pandemia. Uma média maior do que dos outros 30 países que participaram da pesquisa.
Para Maria Luiza a situação foi diferente, ela afirma que durante este período focou em fazer o tratamento com psicólogo e psiquiatra, o que a ajudou. Contudo, sua medicação aumentou: “[...] o que eu não estourei no início, está acontecendo agora. Mas acho que segurei bem a onda, no sentido de: prestar atenção no meu corpo, na minha saúde mental”
Mas essa não está sendo a realidade de todos os brasileiros, como ela relata em seu próprio seio familiar, “por serem pessoas mais antigas, acham que isso é tabu, que isso pode ser frescura. nela". A pesquisa da Ipsos consultou 21 mil pessoas, e em média, 45% da população dos países envolvidos esperam voltar à normalidade ainda este ano, já 41% acredita que levará mais tempo. Maria Luiza acredita que em um mundo pós pandemia a saúde mental será outra, “ Todo mundo vai sair com sequelas da pandemia, perdas. É muito difícil você ligar a televisão e ver mortes e mais mortes”
Rosimeire Peres, assistente social, já chegou a acompanhar mil famílias do território do Itaim Paulista de extrema vulnerabilidade social, quando trabalhou no SASF (Serviço de Assistência Social à Família). Ela explica que dentro do ambiente familiar às vezes os pais não conseguem ter esse entendimento da necessidade dos filhos, seja em relação ao atendimento psicológico ou educacional, e diz que isso se acentua em famílias fragilizadas socialmente.
Uma pesquisa feita pela revista médica Inglesa The Lancet aponta que brasileiros em situação de pobreza e com baixa escolaridade são mais suscetíveis a doenças como depressão. Rosimeire acompanhou essa realidade no local em que trabalhava, e ainda acrescenta que mesmo os membros saudáveis do seio familiar do enfermo podem influenciar no quadro clínico: “Quando a gente fala em famílias em situação de vulnerabilidade social, é bem complicado, a gente percebe que dentro desse núcleo familiar, a mãe ou o pai, muitas vezes eles não têm um discernimento sobre essas questões[...]”, diz Peres.

Esse desequilíbrio que leva à doenças psiquiátricas também causa outros tipos de dificuldades nos lares e podem agravar a patologia. Rosimeire acrescenta que a falta de reconhecimento pela família implica em desentendimentos sobre o que há com a criança ou o adolescente, levando os pais a pensarem que os filhos são preguiçosos ou “danados”, que por sua vez, pode levar à agressão corretiva: “A violência permeia vários aspectos. Começa com os xingamentos, às vezes os pais não tem paciência, xinga a criança, depois do xingamento começa um puxão de orelha, um beliscão, um tapinha na cabeça[...] Muitas vezes eles não percebem, né, acham que é uma correção”.
“Era um momento tão ruim que, para mim, a única saída era a morte, o suicídio”, confessa Samara Sosthenes, atual covereadora do mandato coletivo “Quilombo Periférico”, ao relembrar de sua vida há dois anos atrás. A sua vontade de permanecer viva só retornou quando ela viu Robeyoncé Lima, co-deputada estadual de Pernambuco e Erica Malunguinho, deputada estadual de São Paulo, serem eleitas como mulheres trans, em seus respectivos cargos, e viu o potencial de mudança que as minorias na política possuem. “Hoje, eu estou tendo a oportunidade de legislar com essas pessoas e eu penso que não posso morrer porque é a minha vez de fazer essa diferença. Enxergar mulheres como eu se elegendo e atuando daquele jeito salvou a minha vida”, diz.
Em 2015, Samara Sosthenes foi morar, por necessidade financeira, em uma ocupação do MTST, no extremo sul da capital paulista. Dentro desse contexto, ela começou a conviver com diferentes histórias e a entender a questão da luta por moradia no país. Quando iniciou seus estudos na Uneafro Brasil, da qual hoje é coordenadora de um núcleo da Luz, ela também teve contato com os problemas da educação brasileira atual. “Todo meu aprendizado político foi fruto do meu contato com os movimentos sociais, sejam eles por moradia, por educação ou pelos direitos das mulheres. Tudo o que eu sei é por conta deles.”
Assim como Samara, Dafne Sena, covereadora da “Bancada Feminista” pelo PSOL, aliou-se à política na cidade de São Paulo, mas com foco na causa ambiental. "Eu me organizei, me filiei ao partido quando mudei para São Paulo, há uns seis ou sete anos. Sempre estive organizada nos movimentos ambientais e em várias outras iniciativas aqui na cidade, como pela igualdade de gênero".
Mesmo antes de participar assiduamente dos movimentos sociais, a covereadora já discutia política em casa, com sua mãe e seus avós. Além disso, Dafne é adepta ao veganismo: “já fazem uns bons anos que sou vegana, sempre estive junto aos ativistas, nesse movimento que aqui no Brasil a gente chama de 'veganismo popular', uma proposta ligada à agroecologia e reforma agrária, contrapondo a vertente liberal, que se alia ao próprio mercado e ao agronegócio."

A política ainda é demasiadamente masculina, o que traz a tona, a cada dia, a dificuldade de ser mulher dentro da câmara: "estar nesses espaços, no Brasil de sempre — mas principalmente no de hoje em dia — é um enfrentamento constante". Permanecer nesses ambientes é fortalecer a resistência e ultrapassar obstáculos diários, "se ficarmos presos em estereótipos nunca vamos entender de fato a luta que é necessária, pois, no momento em que estamos, a ideia de 'passar a boiada' significa a destruição absoluta das nossas condições de vida."
Sobre esses estereótipos, Dafne revelou ser muito difícil tentar alcançar as expectativas colocadas em uma mulher eleita. Geralmente, elas rondam em torno da própria falta de representatividade, já que, como não há muitos integrantes de minorias dentro da política, é sobre os poucos existentes que recai a responsabilidade de expor essas demandas. “A cada pauta adicionada na nossa luta, também acrescentamos mais elementos do que as pessoas esperam que a gente seja e que nunca vamos conseguir atender”.
Além disso, também existem os ideais criados pelos adversários políticos e as dificuldades que são enfrentadas para garantir que determinadas ações sejam realizadas. “É um movimento de muita auto reflexão, às vezes, mas principalmente um movimento de tentar permanecer nesses espaços apesar de todas as contradições e todos os elementos que são colocados como obstáculos”.

Da mesma maneira que Dafne enfrenta dificuldade por ser mulher dentro da política, Samara também sofreu não apenas por ser uma mulher negra, mas também por ser trans. Na madrugada do dia 31 de janeiro, a covereadora afirmou que um vizinho ouviu barulhos de disparos na frente de sua casa, uma situação parecida com o que ocorreu com as vereadoras Erika Hilton e Carolina Iara”, ambas mulheres trans. A Polícia Civil teria concluído que não houve atentado nem no caso de Iara, nem de Sosthenes e, durante o andamento das investigações, ambas tiveram que andar acompanhadas de seguranças particulares.
Samara ainda reiterou que, desde a morte de Marielle Franco, os ataques a todo tipo de minorias na política têm aumentado intensamente e que, provavelmente, são causados por conta do crescimento da representatividade dentro da política e são mais direcionados a lideranças femininas, pretas e periféricas. “Nossos corpos na política são novidade e eles sabem o efeito que causamos: a política está mudando, mas isso também causa uma reação do outro lado; o lado branco, sexista, cisgênero, acompanhado por bancadas do boi, da bala e da Bíblia. Então esses ataques vêm por conta do medo, porque a única maneira que eles sabem responder é com a violência.”
Apesar de todas as dificuldades enfrentadas, principalmente no contexto pandêmico, Dafne afirma continuar na luta, se apegando à imagens de um futuro melhor. “É exaustivo sim, cansa. Tem épocas de profunda desesperança, mas eu entendo isso como uma tarefa histórica. Sinto que perdemos a solidariedade intergeracional, o entendimento de que as mudanças que queremos ver no mundo não necessariamente vão acontecer enquanto eu estou nele, mas acontecerão enquanto outras mulheres estiverem, aquelas que virão depois de mim”, revela.
Esse pensamento de fazer um trabalho que vai além de si é o que manteve Samara viva há dois anos e ainda é o que a sustenta nessa luta. “Acredito muito no poder da representatividade, porque do mesmo jeito que me espelhei em diversas mulheres como eu, muitas pessoas vêm me dizer que sou uma inspiração. Eu me sinto muito lisonjeada, mas também muito pressionada, porque a gente pensa “quem sou eu para servir de inspiração?”, mas só o fato de estarmos vivos, resistindo e lutando já é motivo de inspiração suficiente.” afirma esperançosa, Samara Sosthenes.