Jornalista compartilhou sua trajetória e respondeu perguntas de alunos de Jornalismo da PUC-SP
por
Thaís de Matos
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23/04/2026 - 12h

“Desde cedo, eu entendi que eu tinha uma função de fazer a ponte entre as pessoas que precisavam ser ouvidas e as elites”. Mais de uma vez, o papel de “fazer a ponte” foi frisado como um motor para Juliana Rosa, jornalista de economia há mais de 25 anos. Ela é comentarista da área na Band TV, Bandnews TV e rádios Bandnews e Bandeirantes desde 2021. 

Na labuta, Rosa recebe autoridades, economistas e empresários, com o intuito de compartilhar conhecimento de forma simples, a fim de contribuir para um debate qualificado no país. Antes do Grupo Bandeirantes de Comunicação, a jornalista atuou 20 anos como analista de economia na GloboNews. Ela começou a carreira em 1997 em uma rádio popular do Rio de Janeiro, a Rádio Tupi, indiretamente por influência do pai. Tanto ele quanto a mãe são pernambucanos, que vieram para o sudeste a fim de melhorar as condições de vida. 

“Eu via meu pai, que trabalhou em uma rádio até o final da vida. Eu cresci vendo meu pai, ia trabalhar com ele, às vezes porque minha mãe ainda não tinha chegado [do trabalho]. E uma coisa que eu continuei fazendo, que ele fazia, era todo dia parar na porta da rádio e ouvir as pessoas que estavam ali”, relembra Rosa. Ainda dando continuidade à história, Juliana diz que ouvir essas pessoa foi o que a fez escolher o Jornalismo.

juliana rosa e pollyana ferrari
Juliana Rosa ao lado da professora Pollyana Ferrari / Foto: Thaís de Matos

“As pessoas ficam até hoje em portas de rádios populares porque são invisíveis na sociedade. E você parar ali é uma questão de obrigação jornalística, porque são aquelas pessoas que vão te dizer por que você é jornalista. Elas vão falar que não têm remédio, lixo, saneamento básico, que não comem direito, têm trabalho… Então, certamente isso me moldou completamente. A gente fica achando que a economia está muito longe, mas por que tais pessoas não têm condições de melhorar de vida? Quais são as pautas econômicas que a gente precisa discutir para que essa realidade mude?”, reforça Rosa.

A partir desse questionamento, ano passado ela lançou o livro “De galinha a gavião: como impulsionar o voo da economia brasileira", que tem como objetivo traduzir o "economês" para quem não é especialista, mas quer entender os mecanismos que travam o crescimento do Brasil. Para escrever o livro, Juliana conversou com alguns dos maiores nomes de cada área. “Foi a partir desse incômodo interior que eu tive a minha vida inteira que eu tive a coragem de escrever esse livro como jornalista. Não sou economista, mas quis ouvir os grandes especialistas para dizer que do jeito que está, não dá para ficar”. O título da publicação faz uma analogia entre o “voo” da galinha e a economia brasileira: ambos crescem, mas logo caem – não se sustentam. 

Ainda nessa linha, Juliana critica os jargões do “economês” que tanto são reproduzidos, mas não são devidamente explicados. “O ‘economês’ tem uma função, que é perpetuar as desigualdades, continuar falando para quem já é iniciado. Então, em toda a minha vida, a questão de traduzir a linguagem sempre foi a marca da minha profissão. É um esforço de compreensão, se as pessoas não entendem como você está falando, a gente está falhando”. Mesmo atuando há tanto tempo na editoria econômica, a jornalista diz que até hoje é interrompida ou ignorada por entrevistados homens. Para ela, o preparo é importante para se fazer ser mais ouvida. “A gente tem uma desvantagem, porque a visão machista ainda é muito grande. Isso tem melhorado devagarinho, mas acho que a gente tem que se impor pela nossa competência e se dar o respeito. É duro, cansa, nosso esforço [de mulheres] normalmente é maior, mas não tem outro caminho”, desabafa.  

Tática de retaliação iraniana restringe o fluxo de petróleo apenas a "nações amigas", eleva o barril do Brent a US$104 e acende alerta sobre nova onda de inflação mundial
por
Juliana Bertini de Paula
Maria Eduarda Cepeda
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27/03/2026 - 12h
Desde o último dia 2 de março, o Estreito de Ormuz passou a operar sob fortes restrições impostas pelo Irã a embarcações consideradas “hostis”, impactando diretamente navios ligados aos Estados Unidos, Israel e países europeus. A passagem, que conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico, não está totalmente fechada, mas funciona de forma seletiva, com autorização caso a caso sob controle da Guarda Revolucionária iraniana (IRGC), o que reduziu drasticamente o fluxo marítimo na principal rota energética do mundo.

A atual crise geopolítica se intensificou após os bombardeios conduzidos por Estados Unidos e Israel contra alvos iranianos no dia 28 de fevereiro, ofensiva que resultou na morte do líder supremo Ali Khamenei. A confirmação oficial do óbito ocorreu no mesmo dia pela mídia estatal, desencadeando uma escalada militar que culminou na eleição do linha-dura Mojtaba Khamenei, filho de Ali, como novo líder supremo em 8 de março. Como resposta aos ataques, Teerã passou a restringir o tráfego no estreito e a realizar ataques pontuais a embarcações comerciais, ampliando o risco na área.

O impacto da crise atinge diretamente uma das principais artérias da economia global: cerca de 20% do petróleo mundial e uma parcela significativa do gás natural liquefeito (GNL) passam pelo estreito. Com a queda de 95% no fluxo de navios de carga registrada nas últimas semanas, os mercados de energia enfrentam forte volatilidade. O barril do petróleo tipo Brent ultrapassou a marca dos US$ 100 em diferentes momentos ao longo do mês. Para tentar conter a crise de desabastecimento, a Agência Internacional de Energia (AIE) já liberou 400 milhões de barris de suas reservas emergenciais e estuda uma nova intervenção.

Para a economista Luciana Massaguer, formada pela PUC-Campinas, os efeitos já são concretos e devem se intensificar. “O choque de inflação já é uma realidade. Não é mais uma expectativa e é irreversível, não só por causa do petróleo, mas também por causa da energia, que está mais cara na Europa e na Ásia”, afirma. Segundo ela, a resposta das autoridades monetárias tende a ser limitada: “A resposta dos bancos centrais, como Fed, BCE e Banco Central do Brasil, é complexa, pois aumentar os juros para combater a inflação pode acelerar a recessão, enquanto cortá-los pode inflar ainda mais os preços.”

A transformação da região em uma zona de alto risco militar também elevou os custos do transporte marítimo internacional. Seguradoras passaram a restringir cobertura para embarcações na área, enquanto companhias de navegação evitam a rota — o custo para transportar um barril de petróleo chegou a duplicar desde o início do conflito. Embora não haja uma paralisação total incontestável, o estrangulamento do tráfego já representa um gargalo histórico para o comércio internacional.

Os efeitos começam a se expandir para além do setor energético. O encarecimento do transporte e a instabilidade na região impactam o fluxo de insumos agrícolas, incluindo fertilizantes, em um momento sensível para o calendário de plantio em diversas partes do mundo. “O impacto chega antecipado porque o mercado antecipa tudo. Os fretes encarecem os preços na base e a falta de seguro na navegação naquela região está gerando escassez”, explica Massaguer. Ela destaca ainda que o maior risco está na cadeia alimentar global: “O que pode afetar mais é a segurança alimentar e a oferta de fertilizantes que precisam passar por lá.”

Apesar disso, a economista avalia que os impactos no Brasil tendem a ser mais moderados no curto prazo. “Aqui no Brasil não acho que teremos problemas de segurança alimentar no curto prazo porque temos estoque, mas voltamos para o problema da inflação”, afirma.

No campo diplomático e militar, o cenário sofreu uma reviravolta na terça-feira (31). O governo dos Estados Unidos, sob a presidência de Donald Trump, passou a avaliar a possibilidade de encerrar a guerra contra o Irã mesmo que o Estreito de Ormuz permaneça fechado. O Pentágono avalia que uma operação militar direta para reabrir a rota marítima prolongaria o conflito, optando agora por uma estratégia focada em enfraquecer a Marinha iraniana e pressionar aliados. Paralelamente, os esforços para formar uma coalizão internacional de proteção marítima continuam enfrentando adesão limitada.

Para economias altamente dependentes da importação de energia, as alternativas logísticas seguem restritas. Oleodutos na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos operam próximos da capacidade máxima, mas conseguem desviar apenas parte do volume que normalmente atravessa o estreito. Esse limite evidencia a dependência estrutural global de uma rota estratégica que segue operando sob forte instabilidade e com perspectivas incertas de reabertura total.

Na avaliação de Massaguer, o tempo será um fator determinante para a gravidade da crise. “A economia mundial aguenta essa ‘asfixia’ por um curto período, de um a três meses, sobrevivendo com estoques e rotas alternativas. A partir do quarto mês, o esgotamento dos estoques e o custo proibitivo da energia tornam uma recessão profunda quase inevitável”, conclui.

Aplicativos começam a mudar a relação dos fiéis brasileiros, gerando impacto nas cerimônias
por
Sofia Morelli
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24/03/2026 - 12h

A religiosidade está passando por um processo de digitalização, alterando práticas religiosas tradicionais e o alcance das instituições. Com a reconfiguração da crença no mundo contemporâneo, surgem preocupações sobre o que pode estar sendo perdido durante o processo. A facilidade de acesso e de ampliação é um atrativo, que para muitos fiéis pode instigar a devoção a sua devida fé, mas historicamente a religião privilegiava o esforço na devoção, o que mudou com as transmissões de missas, cultos e o impulso da comunicação digital, tornando-se uma fé mais individualizada. 

Localizada no bairro Itaim Bibi, em São Paulo, a igreja Metodista do Itaim Bibi (IMIB) recorre à transmissões online como forma de atrair mais fiéis e trazer inovação por meio de "apps da fé". “As transmissões acabam trazendo benefícios para a igreja, porque alcança mais jovens e hoje em dia e está difícil atraí-los. A gente só tem dois jovens que frequentam", diz a pastora Meire. Ela assumiu o cargo em fevereiro de 2026 e já implementou um programa de transmissão dos cultos, que são divulgadas, por enquanto, em um grupo de WhatsApp. Com 47 milhões de fiéis protestantes no Brasil, segundo pesquisa IBGE (2022), a fé atravessou séculos com uma estabilidade admirável, sofrendo apenas algumas mudanças do tempo. Os meios de comunicação digital não chegaram para desestabilizar, mas como um processo natural da contemporaneidade. Por exemplo, o compartilhamento do evangelho e a inserção da igreja no ambiente digital atravessa novas fronteiras, podendo se aproximar de adeptos a fé que não costumam seguir a doutrina tradicional. 

Em 2021, a Igreja Adventista no Brasil começou a explorar esses novos formatos digitais com recrutamentos de desenvolvedores, apostando que esse novo mundo seria benéfico para a ampliação da doutrina. Carlos Magalhães, diretor de marketing digital da instituição Adventista, em uma entrevista para o Instituto Humanitas Unisinos, diz: " Eu só uso aplicativos, lá tem tudo. Vejo o horário do pôr do sol e leio um texto para fazer a meditação. É bom para quando estou em viagem e não levei a Bíblia, por exemplo. Assim posso receber o sábado com oração", diz.

 “No final quem acaba acessando, nos aplicativos que algumas igreja já usam ou no nosso grupo mesmo, são só pessoas que já fazem parte da comunidade e querem sentir as palavras de Deus, mesmo à distância”, conta pastora Meire, mas a cautela deve estar sempre presente. O intuito deve ser a ampliação ao invés da substituição da profundidade espiritual por uma mentalidade imediatista. Essência e adaptação podem andar lado a lado com equilíbrio, com a exploração das tecnologias e o mantimento dos valores, sem acompanhar as exigências do nosso presente.

Missa de Domingo (22) na Igreja Metodista do Itaim Bibi.

 


 

Uma análise sobre a passagem do físico e teórico alemão pelo Brasil e o apagamento das mulheres na ciência
por
Natália Matvyenko Maciel Almeida
Joana Grigório
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16/11/2025 - 12h

Em 1925, Albert Einstein desembarcou na américa do sul, na cidade do Rio de Janeiro, para uma sequência de palestras e nesse vídeo exploramos uma parte dos relatos escritos em seu diário e a falta de registros de pessoas racializadas e também de mulheres nas conferências.

Referências utilizadas para esse vídeo: 

1. Tolmasquim, Alfredo Tiomno. Einstein, o Viajante da Relatividade na América do Sul (2003)
Este livro oferece um olhar detalhado sobre a visita de Albert Einstein à América do Sul, incluindo sua passagem pelo Brasil. O autor explora a recepção do cientista e seu impacto no cenário científico da época.

2. Haag, Carlos. "Tropical Relativity" (2004)
Artigo publicado na revista Pesquisa FAPESP, que aborda os diários de viagem de Einstein na América do Sul, com destaque para suas observações sobre o Brasil e suas interações com a ciência local.

3. Moreira, Ildeu de Castro. Entrevista: Visita de Einstein ao Rio de Janeiro promoveu valorização da ciência pura (2025)
Entrevista com Ildeu de Castro Moreira, que discute o impacto da visita de Einstein ao Rio de Janeiro, enfatizando a valorização da ciência fundamental e os desdobramentos para a pesquisa no Brasil.

4. Fundação Oswaldo Cruz. Museu tem atrações em homenagem aos 100 anos da visita de Einstein (2025)
A Fundação Oswaldo Cruz celebra o centenário da visita de Einstein ao Brasil com exposições e atividades que relembram a importância histórica dessa passagem do cientista.

5. Observatório Nacional. 100 Anos de Einstein no Brasil (2025)
O Observatório Nacional comemora o centenário da visita de Einstein ao Brasil com uma série de palestras e reflexões sobre o impacto de sua passagem no campo científico brasileiro.

6. Rosenkranz, Ze'ev (org.). The Travel Diaries of Albert Einstein (2018)
Esta coletânea organiza os diários de viagem de Einstein, incluindo suas observações sobre diferentes regiões do mundo, com destaque para seus comentários sobre a América do Sul, e apresenta uma análise crítica sobre seus pontos de vista racializados.

7. Artigos de divulgação histórica sobre os diários de Einstein e racismo
Diversas publicações, como matérias da History.com e do The Guardian, discutem as anotações de Einstein sobre suas viagens à Ásia e outros lugares, destacando seus comentários sobre raça e cultura.

Nota de Checagem de Fatos
As informações sobre a visita de Einstein ao Brasil e seu impacto no país, incluindo o papel de Carlos Chagas e a análise dos diários de viagem, foram baseadas em fontes como Fiocruz, Observatório Nacional, e pesquisas de Ildeu de Castro Moreira. As reflexões sobre os comentários racializados de Einstein seguem a análise crítica adotada por estudiosos como Tolmasquim, Haag e Rosenkranz.

Releitura transmídia da estadia do físico no Rio de Janeiro em 1925
por |
03/11/2025 - 12h

Em maio de 1925, Albert Einstein visitou o Rio de Janeiro por uma semana hospedando-se no Hotel Glória, quarto 400. Apesar da recepção calorosa como celebridade, sua passagem foi um desastre cômico. A comitiva que o cercava não tinha um único físico ou matemático - apenas médicos, advogados, políticos e militares da elite social brasileira. No Clube de Engenharia, falou para uma plateia lotada que não entendia alemão nem suas ideias, em uma sala barulhenta e sem acústica. Na Academia de Ciências, teve que ouvir três discursos vazios em francês mal falado, incluindo um sobre "a influência da Relatividade na Biologia". O ápice foi quando o jurista Pontes de Miranda tentou desafiá-lo em alemão com considerações sobre metafísica e direito. Einstein levou de presente um papagaio que repetia "Data venia, Herr Einstein", lembrando-o sempre, com humor, da "ciência" dos doutores brasileiros.

“Einstein: visualize o impossível” é um projeto dos estudantes do quarto semestre de jornalismo da PUC-SP, da disciplina de jornalismo transmídia. O projeto aborda, de diferentes maneiras, uma releitura da icônica visita do físico ao Brasil em 1925. Todos os relatos estão em um site especial. Além de produções visuais e sonoras, o especial propõe uma narrativa em quadrinhos que conecta ciência, história e imaginação, tendo como cenário o Observatório Nacional (espaço que recebeu Albert Einstein). 

A produção contou com a colaboração de Bruno Matos, vice-diretor da Escola Estadual Professor Walter Ribas de Andrade. Já o vídeo “Os impactos de Albert Einstein na educação brasileira explicado por doguinhos” apresenta as contribuições das teorias do cientista para a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) a partir da entrevista com o professor de física Dediel Oliveira.  

Em “Diário do Einstein”, o leitor encontra coletânea de depoimentos em formato de diário sobre a passagem de Albert Einstein pelo Rio de Janeiro no ano de 1925, comentando ao longo de cada dia, pontos turísticos e palestras presenciadas por ele. No podcast "A carta que revolucionou a corrida armamentista", discute carta assinada pelo físico Albert Einstein em agosto de 1939, que alertava o presidente dos EUA, Franklin D.Roosevelt, sobre o potencial da Alemanha nazista em desenvolver uma bomba atômica.

O vídeo vertical “Einstein no Brasil” narra o encontro do físico com Carlos Chagas, marcando um momento científico crucial. A produção destaca a troca intelectual entre os dois grandes nomes da época. Por fim, é possível compreender uma sutil crítica sobre a omissão de um encontro com cientistas mulheres consagradas, como Bertha Lutz. Em “Einstein: uma análise de sua trajetória política”, as cartas de Einstein e seus discursos que expressavam preocupação com a violência e os conflitos no Oriente Médio são revisitadas. Nas declarações, o físico defende uma convivência justa entre judeus e árabes, e o projeto analisa como suas palavras ecoam no contexto atual da guerra entre Israel e Palestina, mostrando que o tempo passa, mas as perguntas sobre humanidade e coexistência continuam urgentes. 

Finalmente, o livro "Os Sonhos de Einstein", de Alan Lightman, pela Cia das Letras, apresenta uma série de sonhos imaginários que o jovem Albert Einstein teria tido enquanto desenvolvia a Teoria da Relatividade, em 1905. Em cada um deles, o tempo funciona de um jeito diferente, às vezes para, volta ou corre mais rápido e essas variações servem para refletir sobre a vida, as lembranças e as escolhas humanas. "Neste mundo, a textura do tempo parece ser pegajosa. Porções de cidades aderem a algum momento na história e não se soltam. Do mesmo modo, algumas pessoas ficam presas em algum ponto de suas vidas e não se libertam".
 

Entre crises e avanços, o semanário representou o partido durante os anos de abertura política.
por
Matheus Almeida
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23/09/2024 - 12h

“Voz da Unidade surge para ser expressão e veículo de uma corrente de pensamento, cuja linha de ação está orientada para ajudar a classe operária e todas as forças democráticas do país a conseguirem que a solução dos problemas políticos, econômicos e sociais que afligem a nação se dê em benefício das grandes massas do nosso povo, rompendo com os privilégios dos monopólios, banqueiros e latifundiários. E buscará contribuir para que esta classe operária, e com ela a maioria do povo brasileiro, amadureça para a compreensão de que o socialismo é capaz de oferecer soluções definitivas para seus problemas fundamentais.” 

Foi assim que o jornal Voz da Unidade descreveu seu objetivo em sua primeira edição, publicada em 30 de março de 1980. Ao custo de 20 cruzeiros, o periódico chega às bancas de São Paulo publicado pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), no contexto da abertura democrática e fim da censura aos meios de comunicação, o jornal pôde ser publicado legalmente, porém a própria existência do partido que o fazia ainda era proibida. 

Depois de sobreviver aos anos de repressão no âmbito clandestino, o PCB buscava voltar à tona, participando do debate referente a abertura política do Brasil e tentando atrair novos filiados e seguidores. O nome foi escolhido pelos diretores do partido para representar algo que foi oprimido por muito tempo na história do país, e só naquele momento podia voltar ao debate público: a voz dos comunistas. Não só a deles como também dos socialistas e marxistas em geral, o que gerou a parte da unidade. 

A história do Voz se confunde com a do PCB enquanto sua organização e produção. No começo, com a volta dos exilados políticos, houve um embate de ideias entre os chamados Eurocomunistas e o Centro Pragmático. O Eurocomunismo era uma corrente que propunha a superação do leninismo e o avanço do socialismo por vias democráticas, sem uma quebra total com o capitalismo. Já o centro do partido era composto por marxista-leninistas mais tradicionais. 

Em entrevista, a bibliotecária e Mestre em Memória Social, Andréa Côrtes Torres afirma que era um período de mudança e discussão dentro do PCB: 

“Com a volta ao Brasil dos exilados políticos, houve as primeiras emoções de otimismo, inclusive dirigentes do PCB que também retornaram ao país. Entretanto, veio à tona publicamente as diferenças e embates entre os integrantes do Comitê Central. A questão era quanto aos novos passos políticos que o Partido deveria dar no processo em curso, ou seja, na saída dos militares do governo. Giocondo Dias defendeu a unidade de todas as forças de oposição na conquista da democracia, iniciando a campanha pela legalização do Partido. Discordando de Prestes, Armênio Guedes não acreditava que a passagem ao regime socialista no Brasil se faria por luta armada, pois isto, na opinião dele, resultaria num socialismo de tipo autoritário e não democrático.” 

Capa do Voz de 1980

Durante seus primeiros anos de publicação, o Voz da Unidade era redigido pela ala considerada renovadora do partido. Assim, a ideia era ser amplo e mais democrático, já que o PCB era historicamente visto na opinião pública como totalitário. 

“Esse jeito novo de caminhar era considerado, pela ala renovadora do Partido composta pelos eurocomunistas, como um movimento de restauração e de renovação para a construção não só de um partido de massas, democrático e nacional, plenamente autônomo, mas igualmente de um partido laico, ou seja, independente da influência do modelo soviético e de fundamentos filosóficos e obrigatórios, adequando os princípios marxistas às condições do mundo atual entre as nações, que se constituíam em diálogo e negociação.”  Diz Andéa.

O jornal contava com diferentes editorias, buscando trazer o posicionamento do partido em diversos âmbitos da sociedade. Não só, porém, apresentando seus ideais como unicamente verdadeiros, mas também buscava dialogar com outras áreas da sociedade, que não aqueles já adeptos ao partido. 

“Com a abertura política, o Partido, por meio do Voz da Unidade, desejava ingressar com tudo na vida política do país, trazendo em suas colunas questões nacionais, internacionais, políticas e sociais. Suas seções eram distribuídas em: cartas, política, sindicalismo, economia, educação, internacional, cultura, questões da mulher cidadã e esportes. Gildo Marçal Brandão, primeiro editor-chefe do jornal, enfatizou que o PCB, após anos sem ‘voz’, deveria reconquistar a sua legalidade, com influência real e decisiva na totalidade da vida política brasileira, abarcando tanto os do campo quanto os da metrópole.”  Afirma a bibliotecária.

O jornal aprofundava-se principalmente em assuntos relacionados ao comunismo na prática. Por exemplo, na seção de educação a luta pelo ensino básico e superior gratuito de qualidade, além de noticiar eventos de movimentos estudantis. No caderno internacional falava-se do socialismo e comunismo em outros países como Cuba e, já em declínio, União Soviética. No âmbito da cultura, discutiam livros, peças e filmes que traziam reflexão sobre a realidade no capitalismo. Por último, no esporte, não se falava apenas do futebol objetivamente, mas buscava refletir em como as questões políticas recaiam também dentro de campo. 

Um pouco mais tarde, já em 1981, houve uma mudança no Conselho Editorial do Voz. Escolheu-se que os eurocomunistas não podiam representar o partido, visto que eles eram minoria e até considerados pelos mais tradicionais como uma ala que desestabilizava a imagem da legenda. 

O periódico continuou assim até o fim da sua existência em 1991. Sendo também afetados pelo cenário político internacional da queda do Muro de Berlim, o desmanche da União Soviética, as guerras nos Bálcãs e o fim da Guerra Fria, o PCB decidiu que precisava seguir novos rumos. Novamente em crise, o partido convocou nesse mesmo ano, o seu IX Congresso, nele se discutiu que estavam pouco inseridos nas lutas sindicais, sendo superados pelo jovem Partido dos Trabalhadores (PT), que surgiu com o sindicato dos metalúrgicos. Também o desempenho ruim nas eleições e foi constatado uma ineficiência do Voz da Unidade como instrumento partidário, esse que já não era mais legitimado pela militância. 

Apesar de existir durante um momento de muita turbulência no PCB, o Voz foi seu veículo de comunicação principal dentro de uma época de muito movimento político no Brasil, entre a abertura da ditadura militar para a democracia, as diretas já, e finalmente a legalidade que o partido tanto buscou durante quase 50 anos de luta. 

Esta análise busca explorar os fatores psicológicos e sociais que impulsionam a decisão de buscar e valorizar bolsas de marca luxuosas, examinando o custo emocional, financeiro e cultural associado a essa escolha
por
Giovanna Montanhan
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17/09/2024 - 12h

Ao entrar em uma pequena loja escondida em uma das muitas galerias do bairro da Liberdade, numa tentativa de escapar do calor escaldante que dominava a cidade de São Paulo e procurar mulheres para entrevistar, fui imediatamente tomada por um cheiro quase sufocante de mofo misturado a um aromatizador de ambientes. Pilhas de bolsas se acumulavam em prateleiras apertadas, criando uma atmosfera opressiva. A vendedora, Márcia, com o rosto perfeitamente maquiado, oferecia sorrisos milimetricamente calculados, afirmando com confiança que todas as peças eram verdadeiras.

Márcia vestia uma camiseta de gola V com o logo da Gucci estampado, daquelas que você reconhece à primeira vista e já sabe que não é original. Combinava a camiseta com uma calça jeans sem marca aparente e um batom vermelho forte, que estava meio borrado para além do contorno labial. Ela me garantiu que a Louis Vuitton que eu examinava era autêntica. “Essa aqui acabou de chegar. Dá pra ver pela costura, e é exatamente como a original", disse ela, apontando para as alças de couro da bolsa, que aparentava estar desgastada, com manchas de dedos bem visíveis.

A loja era apertada, e segundo a vendedora, não ficava vazia por muito tempo. Durante o período em que estive ali, algumas curiosas entraram e passaram alguns minutos manipulando as bolsas. Foi nesse cenário que Vera, uma mulher de 52 anos, examinava cuidadosamente uma bolsa Chanel em meio à desordem. Seus cabelos loiros estavam impecavelmente pintados e penteados, ela vestia um kaftan longo em tons de azul, formando uma espiral que lembrava a estampa característica do designer italiano Emilio Pucci, embora claramente não fosse. Afinal, quem tem condições de comprar uma bolsa autêntica provavelmente poderia adquirir roupas de grife, e não frequentaria lugares como aquela galeria.

Apesar da precisão na imitação da bolsa que estava analisando, Vera parecia indiferente. Para ela, o que realmente importava era a imagem que a peça transmitia. Sem hesitar, enquanto acariciava os detalhes dourados, ela me confidenciou que seu sonho sempre foi possuir uma Chanel, e que o simples fato de ter um exemplar – mesmo que falso – a fazia sentir-se elegante e poderosa. Embora soubesse que a bolsa não era original, o prazer de tê-la em mãos parecia compensar a falta de autenticidade. O preço da original, disse, era exorbitante, e ela não via necessidade de gastar tanto para obter "o mesmo efeito".

Naquela tarde, algumas horas depois, Lúcia, de 42 anos, vestia uma blusa preta larga, calça pantalona da mesma tonalidade e sandálias anabela baixas em tom creme. Ela teclava no celular enquanto observava as prateleiras abarrotadas de bolsas Louis Vuitton, Chanel, Prada, Miu Miu e Hermès. Percebi que ela parecia um pouco receosa de se abrir com uma total desconhecida, então resolvi fingir que também estava interessada em comprar uma bolsa.

Lúcia contou que frequenta aquele lugar há bastante tempo e, para ela, o valor das imitações compensa muito, já que o preço das originais beira o absurdo. Ela ressaltou que as peças nas prateleiras possuem uma aparência tão similar às originais que ninguém percebe a diferença, a menos que a pessoa tenha muito conhecimento ou se aproxime demais. Para Lúcia, as imitações ofereciam uma maneira acessível de expressar seu estilo sem carregar o peso financeiro das grifes. Apesar de não ter uma marca favorita, gostava da sensação de caminhar pelas ruas com uma bolsa que, aos olhos dos outros, era vista como um símbolo de status social.

Naquele espaço abafado, entre as bolsas amontoadas, o burburinho das vozes de outros consumidores ecoava pelas lojas vizinhas que dividiam o mesmo espaço. O que se destacava não era apenas o comércio em si, mas o valor simbólico que aquelas peças carregavam para as mulheres que frequentavam o local com regularidade. Para elas, as bolsas iam muito além de simples acessórios; eram símbolos de status, de pertencimento a um mundo de luxo e exclusividade, mesmo que apenas pela aparência.

A busca por um produto de luxo, ainda que ilusório, era quase tangível. A cada gesto, a cada conversa, ficava claro que as consumidoras estavam menos preocupadas com a autenticidade do item e mais focadas no que ele poderia lhes proporcionar: uma sensação de pertencimento, poder e sucesso. Não se tratava apenas de possuir uma bolsa, mas de construir uma imagem de sofisticação e status. Vera deixou isso claro ao afirmar que ninguém iria parar na rua para questionar se o produto era original ou não. Carregá-lo já era o suficiente para atrair olhares diferentes, conferindo-lhe a distinção que tanto buscava.

Essa busca por símbolos de status se torna ainda mais complexa quando analisada à luz das explicações da psiquiatra Mariana Pampanelli. Para ela, esses itens de luxo – mesmo que falsificados – cumprem diversas funções psicológicas, dependendo do contexto. O anseio por prestígio social, seja para se sobressair aos demais ou para fortalecer a própria autoestima, figura entre os principais impulsionadores. E esse valor, que ela enfatizou, é determinado pelo ambiente cultural em que o indivíduo está inserido. Em alguns círculos, possuir uma bolsa de grife é apenas um reflexo natural da riqueza. Em outros, representa uma tentativa de ascensão, de se destacar do meio social em que vivem.

As redes sociais, claro, ampliam ainda mais essa dinâmica. Mariana afirmou que a comparação constante com os outros, impulsionada pelas redes sociais, intensifica o desejo por determinados itens. Ela acrescentou dizendo que as pessoas buscam estar à altura das imagens que veem na tela, e os itens de luxo são uma forma de alcançar isso. No entanto, ela também alertou para o perigo dessas compras impulsivas, pois quando o desejo por status ultrapassa o planejamento financeiro, o resultado geralmente é o arrependimento, acompanhado de uma sensação de perda de controle sobre a própria vida.

Essa constante exposição à desigualdade social intensifica o desejo de pertencer a uma classe social privilegiada. Para muitas pessoas, adquirir uma falsificação é a única forma de sentir que estão participando dessa narrativa de luxo e exclusividade, ainda que de maneira temporária. A psiquiatra explica que o item falsificado oferece uma ilusão de pertencimento, e mesmo sabendo que não é real, a pessoa se sente parte daquele mundo, ainda que por um momento. Esse sentimento é amplificado pela percepção de injustiça social, levando muitos a crer que, se não podem adquirir o item original, ao menos podem simular essa posse.

O que essas mulheres buscavam nas bolsas falsificadas não era o objeto em si, mas tudo o que ele representava. A sensação de carregar um item de luxo, mesmo que não fosse real, dava a elas a sensação de poder e pertencimento. E, nesse mundo de aparências, isso era o suficiente. A autenticidade do produto tornava-se secundária diante da necessidade de se sentir parte de algo maior, de projetar uma imagem que, na prática, não condizia com suas realidades.

 

O ‘’Grande Irmão’’ do Luxo: Vigilância na Era das Falsificações

No vórtice das redes sociais,  onde cada curtida se transforma em moeda e cada seguidor em um troféu, um perfil no Instagram emergiu como uma caçadora implacável. "The Fake Birkin Slayer" (@thefakebirkinslayer) tornou-se um oráculo em um mundo onde a busca pelo luxo não é apenas desejo, mas flerta com a obsessão. Sua missão principal é desmascarar as falsificações que se infiltram nos feeds dos usuários da rede, compartilhando nos stories o emoji que representa um par de olhos atentos. Não é apenas uma página de denúncias, mas um espelho implacável da ambição humana de conquistar o que está para além do alcance.

No epicentro desse turbilhão de desejos está a Birkin, a intocável criação da grife francesa Hermès. Muito além de ser uma simples bolsa, ela personifica um símbolo de status e poder, desejada tanto por fashionistas quanto por aqueles que almejam ingressar em um mundo que não os acolhe naturalmente, com a mesma intensidade de quem busca água em um deserto árido. Poucos têm o privilégio de atravessar as portas da exclusividade, e menos ainda conseguem segurar uma Birkin autêntica em suas mãos. Ela é a promessa de pertencimento a um círculo fechado, onde o luxo não é apenas um adorno, mas a própria identidade.

Mas como todo objeto de desejo, a Birkin tem seu lado sombrio. Na penumbra das transações secretas e nas esquinas mais discretas da internet, as imitações florescem como ervas daninhas. E "The Fake Birkin Slayer" está presente, assumindo o papel de uma justiceira digital, desmascarando com precisão quase cirúrgica os defeitos nas réplicas exibidas por aqueles que ousam postá-las. Cada nova publicação é uma sentença para quem ousou tentar enganar o olhar observador, uma exposição pública da farsa do luxo.

A Hermès, com sua produção controlada, faz de cada Birkin uma raridade. Não basta ter uma conta bancária cheia. É preciso ter acesso, influência e, sobretudo, paciência. A escassez faz o coração desejar mais, e essa falta é cuidadosamente mantida. A bolsa, que nunca está à espera nas prateleiras das boutiques, carrega consigo o peso de uma conquista — ou, para muitos, de uma frustração constante.

E é nesse limiar entre o desejo e a frustração que a falsificação encontra o terreno fértil. Para alguns, segurar uma imitação é o mais próximo que chegarão de sentir o toque do inalcançável. O brilho falso de uma Birkin não é apenas uma mentira para os outros, mas também uma ilusão auto infligida, uma tentativa desesperada de pertencer a um mundo de aparências que, no fundo, todos sabem ser efêmero. O conforto de segurar uma réplica, mesmo que por breves momentos, oferece um respiro na longa corrida pelo prestígio.

A caçada de "The Fake Birkin Slayer" revela algo maior do que apenas o desejo por autenticidade: escancara a era em que vivemos, onde o valor de um objeto não reside mais no que ele é, mas na história que ele conta. E, no palco das redes sociais, onde cada foto é uma performance encenada e cada postagem um ato de exibição, a autenticidade é a última fronteira. Quem possui o real, exerce o poder, mas, para muitos, sobra apenas a sombra do que poderia ter sido.

A Ética do Consumo e o Futuro do Luxo

Nos bastidores reluzentes do mercado de luxo, onde o brilho das vitrines oculta um submundo nebuloso, as falsificações surgem como sombras inquietantes, desafiando não apenas as marcas, mas também a moralidade de quem as consome. De um lado, há quem veja na compra de uma imitação a chance de tocar, ainda que de forma enganosa, o poder e a exclusividade que as grifes prometem. De outro, há uma realidade mais sombria: o impacto desse comércio clandestino na economia global e a exploração humana que muitas vezes alimenta esse ciclo.

Essas falsificações, frequentemente produzidas em fábricas clandestinas na China, onde a mão de obra escrava opera longe dos holofotes, trazem à tona uma questão ética ainda mais profunda. Ao comprar um produto falsificado, não se adquire apenas uma réplica de luxo; compactua-se, ainda que indiretamente, com a exploração de trabalhadores submetidos a condições desumanas, mal remunerados e forçados a produzir incessantemente para alimentar um mercado que prospera sobre suas costas. Nesse cenário, o glamour associado ao objeto de desejo torna-se, de certa forma, cúmplice de uma cadeia de injustiças.

Nesse contexto, o futuro do luxo parece caminhar sobre um terreno não muito fértil. As grandes etiquetas enfrentam não apenas o desafio de manter sua exclusividade, mas também a ameaça crescente das falsificações, que não só diluem sua imagem, mas também perpetuam a exploração da mão de obra barata. A questão agora não é mais apenas sobre como manter o controle sobre o mercado de luxo, mas sobre o que esse mercado significa num mundo onde o valor de um produto vai além de seu preço — está vinculado à ética de como é feito e por quem.

Enquanto isso, as consumidoras continuam a navegar entre o desejo de possuir o impossível e o dilema moral que surge ao considerar o verdadeiro preço de suas escolhas. A cada compra, consciente ou não, elas caminham por um território onde luxo e exploração se entrelaçam, onde o brilho de uma bolsa Hermès, Chanel ou Louis Vuitton pode estar manchado pelo suor de trabalhadores esquecidos, relegados ao anonimato. E assim, enquanto o mercado de falsificações prospera, o preço a ser pago — tanto financeiramente quanto eticamente — se torna mais difícil de ignorar.

O debate sobre as falsificações não é apenas sobre as réplicas em si, mas sobre o que estamos dispostos a sacrificar em nome do luxo. Não se trata apenas de quem pode ou não comprar o autêntico, mas de quem somos como consumidores, e de como nossas escolhas ressoam em uma cadeia global de produção onde o verdadeiro custo do desejo muitas vezes permanece invisível.

As bolsas de luxo, com todo o seu brilho e exclusividade, são muito mais do que simples acessórios. Elas carregam o peso simbólico de um mundo que valoriza a imagem sobre a substância, o ter sobre o ser. Cada peça é uma promessa de que se pode adentrar em um círculo restrito, onde o prestígio e o poder parecem estar ao alcance de quem as porta. Porém, seja autêntica ou falsificada, a verdade que essas bolsas revelam é a mesma: elas são objetos que tentam preencher um vazio que vai muito além do material.

Para alguns, possuir uma dessas bolsas é uma forma de validar sua personalidade em um mundo onde o sucesso é medido pelo que se exibe. Para outros, a imitação é a única maneira de participar dessa narrativa, ainda que apenas temporariamente. No entanto, seja no couro genuíno ou na réplica meticulosamente elaborada, a busca pelo pertencimento raramente encontra sua satisfação. A bolsa, por mais rara ou desejada que seja, não tem o poder de transformar quem a carrega. O luxo que ela promete é falacioso, efêmero, e deixa para trás apenas o eco de um desejo que nunca se apaga.

E assim, o ciclo continua. O fascínio pelo luxo persiste, alimentado pela fantasia de que, ao segurá-la, se pode finalmente tocar o inatingível. Mas, no fundo, o que as bolsas de luxo realmente oferecem é a mesma ilusão que o próprio mercado capitalista vende: uma busca interminável por algo que nenhum artefato, por mais exclusivo que seja, será capaz de entregar. Afinal, o verdadeiro valor nunca esteve no objeto, mas no fetiche que a mercadoria representa.

 

Evento destacou a revolução tecnológica nas empresas e a inclusão de adolescentes no mundo da tecnologia
por
João Pedro Lopes
|
03/06/2024 - 12h

Aconteceu em São Paulo em abril uma das maiores convenções de tecnologia, inovação e comércio digital da América Latina, VTEX DAY. O evento reúne líderes empresariais, especialistas em tecnologia, empreendedores e entusiastas para discutir tendências emergentes, compartilhar conhecimento e explorar soluções inovadoras que estão moldando o futuro do e-commerce e da digitalização empresarial. Com uma programação rica em palestras, workshops e exposições, o congresso oferece uma plataforma única para networking, aprendizado e inspiração, destacando-se como um ponto de encontro essencial para aqueles que buscam estar na vanguarda da transformação digital.

Entre os dias 11 e 12 de abril no São Paulo Expo, com um público diversificado e engajado, as palestras contaram com a participação de renomadas mulheres, como Laysa Peixoto, astronauta brasileira da NASA e Malala Yousafzai, ativista paquistanesa, que compartilharam suas experiências e visões sobre o futuro da tecnologia.

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Laysa Peixoto, uma jovem brasileira reconhecida por seu trabalho em inteligência artificial e robótica, compartilhou sua trajetória e projetos inovadores que estão ajudando a transformar o cenário tecnológico no Brasil. Sua história de superação e sucesso inspirou muitos jovens presentes no evento, mostrando que é possível alcançar grandes feitos com dedicação e paixão pela tecnologia.
Foto: João Lopes.

 

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Malala Yousafzai, ativista paquistanesa e ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, trouxe uma mensagem poderosa sobre a importância da educação e da inclusão tecnológica para todas as crianças e adolescentes, especialmente meninas. Em sua palestra, Malala destacou como a tecnologia pode ser uma ferramenta poderosa para a transformação social e para a promoção da igualdade de gênero.
Foto: João Lopes.

Um dos principais tópicos discutidos foi o impacto da inteligência artificial (IA) nas operações empresariais. A IA está revolucionando a maneira como as empresas operam, oferecendo soluções inovadoras para otimização de processos, personalização de experiências do cliente e tomada de decisões baseadas em dados. Empresas de diversos setores estão adotando tecnologias de IA para se manterem competitivas em um mercado cada vez mais dinâmico.

Durante o evento, especialistas apresentaram casos de sucesso e discutiram as melhores práticas para a implementação de IA. Empresas como Magazine Luiza, Natura e Banco do Brasil destacaram como estão utilizando inteligência artificial para melhorar a eficiência operacional, prever demandas e oferecer um atendimento mais personalizado aos clientes. A tecnologia está permitindo uma transformação digital que antes parecia impossível, tornando-se uma ferramenta essencial para o crescimento e inovação nos negócios.

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O VTEX DAY 2024 reforçou a importância de preparar as empresas para a transformação digital e de garantir que as novas gerações tenham acesso às ferramentas tecnológicas necessárias para prosperar em um mundo em constante evolução.
Foto: João Lopes.

 

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O congresso atraiu grande público em São Paulo. Palestras inspiradoras e workshops dinâmicos marcaram o encontro, destacando a importância da inteligência artificial e da inclusão tecnológica para jovens e empresas.
Foto: João Lopes.

Outro tema de grande relevância foi a inclusão de crianças e adolescentes no mundo da tecnologia. Programas de educação tecnológica voltados para jovens estão ganhando cada vez mais importância, preparando as novas gerações para um futuro onde a tecnologia estará presente em todas as esferas da vida. Iniciativas como, por exemplo, cursos de programação, oficinas de robótica e clubes de ciência foram destaque no evento. Essas atividades não só desenvolvem habilidades técnicas, mas também estimulam o pensamento crítico, a criatividade e a resolução de problemas. Empresas e organizações educacionais apresentaram projetos que buscam democratizar o acesso à tecnologia, especialmente para jovens de comunidades carentes. "A tecnologia, quando utilizada de maneira consciente e educativa, pode ser uma ferramenta poderosa para estimular o aprendizado, a criatividade e o pensamento crítico. É essencial que integremos essas ferramentas no cotidiano dos jovens de forma equilibrada. Aqui destacamos como a educação tecnológica pode preparar nossos jovens para os desafios do futuro, oferecendo-lhes oportunidades iguais e incentivando a inovação desde cedo", diz Ilda Aparecida, psicóloga convidada pelo evento.

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Corredores lotados durante todo o dia. Foto: João Lopes. 

 

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Grafite da Malala feito no evento minutos antes de sua palestra começar. Foto: João Lopes.  

 

A Capela dos Aflitos é um símbolo de resistência ao apagamento histórico do bairro
por
Ana Julia Bertolaccini
Maria Elisa Tauil
Raissa Santos Cerqueira
|
03/06/2024 - 12h

O bairro da Liberdade, localizado no centro da cidade de São Paulo, é conhecido pela população paulistana por sua história diretamente ligada a imigração japonesa ocorrida principalmente entre os anos de 1917 e 1940. A Liberdade hoje é tomada pela cultura oriental, desde sua arquitetura com diversas referências às construções japonesas como as luminárias presentes na Praça da Liberdade que se estendem pela a Rua Galvão Bueno, o comércio local voltado principalmente para produtos de origem asiática e os festivais realizados no bairro que celebram a cultura dos imigrantes que ocupam o lugar. Mas as ruas hoje repletas de referências a população nipônica ocupante do bairro ocultam uma história que não possui nenhuma relação com a população amarela. 

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Luminaria japonesa e detalhes da Capela dos Aflitos. Foto: Maria Elisa Tauil/AGEMT 

Muito antes da ocupação japonesa, o bairro da Liberdade foi palco de muitas das atrocidades cometidas durante o período escravocrata. A praça da Liberdade situada no centro do bairro está onde um dia foi a forca na qual os negros escravizados eram mortos por seus senhores durante o período. Há 350 metros da praça da Liberdade, na praça Dr. João Mendes, já no bairro da Sé, é onde estava situado o pelourinho da cidade, lugar utilizado para aplicar castigos físicos aos escravos. A Igreja da Santa Cruz, ou Igreja das Almas que está também no ponto central do bairro recebe seu nome em homenagem aos homens que foram mortos onde hoje ela se situa e tem por nome inteiro: Igreja Santa Cruz das Almas dos Enforcados. Mais à frente, seguindo pela Rua dos Estudantes, a direita, na Rua dos Aflitos - popularmente conhecida pelos frequentadores do bairro como Rua do Mijo - está localizada a Capela dos Aflitos. 

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Capela dos Aflitos. Foto: Raisa Santos Cerqueira/AGEMT

Construída em 1779, em cima do Cemitério dos Aflitos, que ali funcionou de 1775 a 1858, ela é um ponto de devoção e adoração ao santo popular Francisco José das Chagas, Chaguinhas, que foi morto no ano de 1821 em uma execução pública feita na Praça da Liberdade. “Tentaram enforcar ele três vezes e três vezes a corda arrebentou” conta Sandra, que trabalha como monitora na Capela: “Esse martírio durou o dia todinho, e só no final do dia ele foi morto a pauladas. Durante as tentativas de enforcamento, havia um coro de pessoas gritando “liberdade, liberdade" e a partir daí surgiu o nome do bairro” explicou ela. 

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Sandra, monitora da Capela. Foto: Ana Julia Bertolaccini/AGEMT

Apesar da denominação de capela e possuir uma arquitetura que muito se assemelha às construções católicas, a Capela dos Aflitos não é um território dedicado ao catolicismo. O espaço possui diversos simbolismos que são ligados às religiões de matriz africana, Haroldo de Xangô, como gosta de ser chamado, é um dos responsáveis pela administração do  lugar. Conta que apesar das ligações com a igreja católica o território da capela ainda pertence aos negros e indígenas e acrescenta que “A cruz vazada é a cruz utilizada dentro dos cemitérios pagãos, aqueles que não acreditavam em Cristo, ou que acreditavam em outras divindades e não em uma só e a cruz pagã está centralizada bem no meio da porta, ou seja esse território é pagão.”

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Detalhes da Capela dos Aflitos. Foto: Maria Elisa Tauil/AGEMT

Mesmo com sua grande importância histórica a Capela dos Aflitos foi negligenciada pelo poder público durante anos e embora seu prédio seja tombado como patrimônio histórico de São Paulo sua estrutura ficou sem manutenção por muito tempo. O projeto de restauração da capela foi aprovado em 2011, mas só foi iniciado no final de 2023. Esse novo projeto prevê muitas mudanças tanto no interior quanto no exterior do prédio e também visa construir o Memorial dos Aflitos, que tem como objetivo se tornar um centro cultural e um espaço em que os remanescentes humanos sejam guardados de maneira correta. 

Os fiéis se movimentam pelo restauro da capela desde 2018 quando um sobrado ao lado foi demolido fazendo surgir novas rachaduras no prédio. Diante do ocorrido os frequentadores da capela se uniram e fundaram a Unamca (União dos Amigos da Capela dos Aflitos) a fim de pressionar o poder público para que enfim dessem andamento no projeto de restauração. A proprietária do terreno ao lado pretendia construir ali um centro comercial, mas irregularidades no obra foram denunciadas pela Unamca e por possuir valor arqueológico o Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo) e o Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) exigiram que o local fosse fechado para estudo; que revelou nove ossadas que estavam enterradas ali. 

A Unamca também se esforça para manter a memória do local viva e realiza diversos eventos na região tais como: a Festa do Chaguinhas, a Festa de São Benedito e a Festa de Santo Antônio do Categeró. Eles também disponibilizam palestras e oficinas que incentivam a educação e o reconhecimento sobre a resistência negra e indígena do bairro. 

Antes de ser fechada para reforma o horário de funcionamento da capela era das 09:00 às 16:00 e recebia fiéis, pesquisadores e visitantes de diferentes lugares. “A capela é importante pra gente porque ela guarda e preserva a nossa história, aquela que não está nos livros” afirma Sandra “Toda vez que a gente vem aqui e conta essa história, a gente tá revivendo aquele tempo e tá dizendo: A história presente é importante, mas história passada também é importante porque a gente tem que saber de onde a gente veio.” 

Foto 6
Foto : Raissa Santos Cerqueira/AGEMT
Foto 7
Foto: Maria Elisa Tauil/AGEMT

 

O podcast é uma conversa com a diretora de cinema Tatiana Lohmann, sobre a aprovação da cota de tela para o cinema
por
Annanda Deusdará
Maria Luisa Lisboa
|
03/06/2024 - 12h

O podcast é uma conversa com a diretora de cinema Tatiana Lohmann, sobre a aprovação da cota de tela para o cinema e qual o impacto dessa medida para o setor audiovisual brasileiro. Além da nova lei, o papo também aborda a importância que o governo atual e o anterior deram para cinema. Ouça aqui:

Créditos: Entrevistada - Tatiana Lohmann -

Repórter- Maria Luisa Lisboa

Roteiro - Annanda Deusdará e Maria Luisa Lisboa 

Edição - Annanda Deusdará 

Imagem - Divulgação Ancine