Todo o ano voltamos à velha pergunta: “quem regula o poder de quem regula o poder?”, ou “quem regula aquele que regula?”, a pergunta mais famosa entre a direita anti-establishment, que, no final das contas, é quem regula o poder e quem regula o poder de quem regula o poder - agentes duplos!
Fiquei sabendo que essa discussão é uma das quais nem as Forças Armadas escapam. Essas, que querem fiscalizar a contagem dos votos, não querem ser, por sua vez, fiscalizadas pelo Tribunal de Contas da União… ah, a ironia.
Segue o diálogo:
- Queremos fiscalizar as urnas, truco!
- Queremos fiscalizar a fiscalização de vocês… seis!
- Pô, aí não né marreco…
Prevejo a entrada de uma terceira força fiscal - para fiscalizar a fiscalização da fiscalização - mas, a partir daí, não garanto que o carrossel termine. Eu, por exemplo, já mandei a redação contratar um revisor que revise as revisões que meu atual revisor faz nos meus textos… não confio nele. Agora, se ele contratar um revisor que revise seu revisor que eu contratei para revisar as suas revisões, teremos um problema.
Em reunião do Alto Comando:
- Presidente, a coisa tá feia: estamos sendo invadidos e precisamos de exatos 210 mísseis, aqueles que tanto custou negociar com os EUA
- Servem 189? 21 deles disparamos semana passada em homenagem à minha campanh… ao Bicentenário
- Mas presidente! Agora não temos nem mais um míssel para cada ano de independência, presidente!
- Cadete, quem te autorizou a ser anti independência?
Na reunião dos ministérios:
- Então vamos marcar esse churrasco!
- Já molhei o pão e acendi a churrasqueira!
- Gente, alguém sabe onde está o coração de Dom Pedro?
No velório:
- Aê Carlinhos! Como tá a família?
Na cúpula:
- Lira, já pensou em abandonar as fazendas e entrar em novos negócios imobiliários?
Na cópula:
- Imbroxável!
Tem coisas que a gente esquece… não é sempre que lembramos de reabastecer o bilhete único, de lavar a louça, colocar o despertador pra tocar… realmente existem coisas imemoráveis e tudo bem. Tem coisas que eu, inclusive, só lembro quando preciso - como, por exemplo, um guarda-chuva, que eu sempre levo na mochila em dias secos e o qual milagrosamente eu esqueço em casa quando chove. Tem coisas, também, que eu só lembro quando aparecem como: aniversários de antigos colegas de sala, grão de bico, casamentos, fãs de Legião Urbana, Capital Inicial, Jota Quest, Wesley Safadão, o Partido Novo, etc. Todas essas coisas têm algo em comum: eu sempre nego tê-las esquecido. Subitamente vejo algo do qual eu não havia me esquecido; subitamente está lá, no meio do debate o candidato milionário Felipe D’ávila e penso “ih, olha lá! O Felipinho privatizador!… confesso que não tinha esquecido de você”.
Como estamos em clima de sabatina, vou dar a minha versão da análise dos candidatos que foram ao debate. Simone Tebet mais me parece com uma nova Tabata Amaral - só que surpreendentemente mais liberal. Pelo menos, a antiga professora aparentemente apoia o randandan, já que dará 5 mil reais para estudantes de todo o Brasil para que consigam “pagar a entrada de uma moto (...)”. Soraya, a onça direitista, só não pisca mais por suas pálpebras ainda não terem sido privatizadas pelo candidato Felipe D’ávila e esse, por sua vez, só não resolveu a questão do assédio no país por não ter privatizado os corpos das mulheres - inclusive, ouvi dizer que, para ele, pessoas não binárias devem ser geridas por um regime público-privado, o meio termo do projeto neo-liberal.
Ciro Gomes, Bolsonaro e Lula foram os três que não me surpreenderam, então vou propor um jogo de adivinhação quem-é-quem: qual deles parece ter as mãos coladas uma na outra? Qual pareceu ter comido uma feijoada antes do debate? Qual deles começou calmo e deu piti?
Vestibulandos, se preparem: tenho péssimas notícias. Não, não é uma reforma do ensino médio, o esforço de fazê-los desaprender a escrever um texto para fazer “redações”, falta de merenda, falta de material, de estrutura ou mesmo de incentivo ao estudo - por essas injúrias você já passa e já se acostumou -, o assunto é sério. Descobri ontem que temos uma nova figura de linguagem; o presidente mesmo me anunciou. “Virar Jacaré” é a mais nova figura de linguagem da língua portuguesa, e, garanto, estará nas próximas provas que você enfrentará!
Chega de choro, vamos à análise. Primeiramente, de onde veio essa nova figura de linguagem? Claramente da junção do milenar folclore brasileiro que tanto teme a Cuca ao mais novo negacionismo que tanto teme a ciência, hora! Viu? Não é tão difícil. Em relação ao sentido, a situação pode ficar mais complicada…
O que quer dizer, afinal, essa nova figura de linguagem? Ainda estamos em período de análise, querido vestibulando, mas acho que encontraremos seu sentido dentre as linhas da covardia e do cinismo.
De onde veio? Ah essa é uma boa pergunta. Não temos como dizer quando uma expressão surge dentro de uma língua, é como traçar o intraçável, pesquisar o impesquisável, mas, se eu tivesse que chutar, diria que veio da boca do atual presidente da república quando, em meio à pandemia, desmotivava a adesão da população à vacinação contra a Covid-19. Enfim, como disse, não dá para dizer exatamente.
Nenhuma análise gramatical está completa sem exemplos! Segue abaixo situações nas quais você poderá utilizar a nova figura de linguagem:
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Ao querer desincentivar a adesão de uma população ao programa nacional de vacinação:
“Se você virar jacaré, problema é seu”
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Durante uma redação:
“Outrossim, virará jacaré aquele que (...)” - note que eu, assim como você, utilizei erroneamente o terrível “Outrossim”.
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Em um debate:
“É indubitável que a moção em questão fez com que o excelentíssimo delegado tenha virado jacaré”
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Se explicando em um diálogo no Jornal Nacional: “Eu usei uma figura de linguagem” “Figura de linguagem?” “Isso é parte da literatura portuguesa” “Virar jacaré?”
Alguém sabe o quanto você está destruído? Alguém sabe quem te destruiu? Será que você realmente sabe quem te destruiu? As pessoas nos destroem ou nós permitimos que elas façam isso? Foi você que fez isso consigo? Não foi você? Tem certeza? Absoluta? Dói, não é? Essa dor passa? Será? Essa dor é por falta ou excesso de amor? Mas amar não devia te encher de alegria? É normal a tristeza preencher o vazio da dor? Por que nos sentirmos vazios incomoda tanto? Já fomos felizes de verdade? Estamos felizes? Somos felizes? Qual é a razão de nos sentirmos incompletos até alcançar a felicidade absoluta? Seremos miseráveis até morrer? E em nome de que? Orgulho profissional? Estabilidade econômica? Vida pessoal?
Por que nos traumatizamos? Por que nos desentendemos? Por que esse ciclo nunca para? Como vou alcançar a minha felicidade absoluta assim? É normal brigar com tanta potência e/ou frequência? Por que comigo? Por que isso acontece só comigo? Será que é só comigo? Acontece com você? Mesmo? Não está dizendo isso só para me confortar, não é? Jura? Bom, como consertamos isso? Ou melhor, quem nos conserta? Depois de tanta destruição, temos conserto? Ou é melhor desistir de nós? Se não tem ninguém por nós, algo de bom acontecerá para nós? Nossa, não tem ninguém mesmo, né? Nossa, um silêncio, não acha? Essa solidão mata.