Poucas coisas são tão rápidas quanto foi o primeiro pronunciamento do presidente após ter perdido as eleições no segundo turno pro Lula. Todo mundo sintonizou no canal e esperou, por mais de uma hora e meia, a chegada do derrotado. Eu, por exemplo, fiquei analisando a quantidade de microfones que tinham naquela mesinha de acrílico e percebi que o logo do Metrópoles parece dois prédios. Também analisei quantos fotógrafos estavam com aquelas escadinhas portáteis para terem o melhor ângulo, além de quantas vezes o apresentador da TV repetia as informações sobre qualquer assunto - uma hora e meia é muito tempo pra nada, assim como 2 minutos e 5 segundos é nenhum tempo para muito.
Esperamos, esperamos, esperamos até que, no tempo de ir no banheiro, o presidente não só chegou, como se pronunciou e foi embora sem dar vestígios - um ninja do sumiço, um samurai do silêncio, um cavalheiro da derrota envergonhada.
Para a leitora ter noção da rapidez, listarei algumas coisas que demoram mais do que o discurso do Bolsonaro:
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Passar um café
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Se espreguiçar
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Pipoca de panela
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Macarrão instantâneo de copinho
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Esta crônica
Me decepciona a conduta de Paulo Guedes, o antigo empreendedor indomável que hoje se contenta com propostas quase omissas de tão pouco inovadoras. Quero o Guedes Foguete Privatizador de volta!
Achei, de fato, que as últimas condutas pouco libertárias de Guedes eram deslizes, mas depois dessa semana vejo que o espírito empreendedor dele sumiu. Vender praias inteiras, ministro? É esse o máximo de seu empreendedorismo neo liberal revolucionário? Normalmente não me envolvo com economia, mas agora vou fazer minha proposta que talvez desperte o Foguete.
Vender praias inteiras não é prático, ministro! Sugiro a venda de Kits Praia portáteis. Por que vender algo por inteiro se podemos fracioná-lo e lucrar mais?
Kits Praia serão revolucionários. Venderemos até o último grão de areia de todas as praias do Brasil; uma venda quase infinita! Virão em diferentes tamanhos do pequeno ao grande: Kit Praia estúdio 10m² na Faria Lima, Kit Praia casa com quintal em Alphaville e Kit Praia Itu. Os preços? Ah, esses variam de acordo com a qualidade da areia, da água e até os eventuais mini quiosques que tiverem dentro dos Kits. Será revolucionário!
Os brasileiros que moram nos EUA receberão seus Kits dados pessoalmente pelo Foguete em pessoa! Os brasileiros que moram em outros países receberão via Sedex, o Ministro se sente mais confortável indo aos EUA.
Enfim, vendam até o último grão de areia da última praia, isso sim vai democratizá-las ao povo. Isso porque não vamos pagar nada, só vender tudo!
Todo o ano voltamos à velha pergunta: “quem regula o poder de quem regula o poder?”, ou “quem regula aquele que regula?”, a pergunta mais famosa entre a direita anti-establishment, que, no final das contas, é quem regula o poder e quem regula o poder de quem regula o poder - agentes duplos!
Fiquei sabendo que essa discussão é uma das quais nem as Forças Armadas escapam. Essas, que querem fiscalizar a contagem dos votos, não querem ser, por sua vez, fiscalizadas pelo Tribunal de Contas da União… ah, a ironia.
Segue o diálogo:
- Queremos fiscalizar as urnas, truco!
- Queremos fiscalizar a fiscalização de vocês… seis!
- Pô, aí não né marreco…
Prevejo a entrada de uma terceira força fiscal - para fiscalizar a fiscalização da fiscalização - mas, a partir daí, não garanto que o carrossel termine. Eu, por exemplo, já mandei a redação contratar um revisor que revise as revisões que meu atual revisor faz nos meus textos… não confio nele. Agora, se ele contratar um revisor que revise seu revisor que eu contratei para revisar as suas revisões, teremos um problema.
Em reunião do Alto Comando:
- Presidente, a coisa tá feia: estamos sendo invadidos e precisamos de exatos 210 mísseis, aqueles que tanto custou negociar com os EUA
- Servem 189? 21 deles disparamos semana passada em homenagem à minha campanh… ao Bicentenário
- Mas presidente! Agora não temos nem mais um míssel para cada ano de independência, presidente!
- Cadete, quem te autorizou a ser anti independência?
Na reunião dos ministérios:
- Então vamos marcar esse churrasco!
- Já molhei o pão e acendi a churrasqueira!
- Gente, alguém sabe onde está o coração de Dom Pedro?
No velório:
- Aê Carlinhos! Como tá a família?
Na cúpula:
- Lira, já pensou em abandonar as fazendas e entrar em novos negócios imobiliários?
Na cópula:
- Imbroxável!
Tem coisas que a gente esquece… não é sempre que lembramos de reabastecer o bilhete único, de lavar a louça, colocar o despertador pra tocar… realmente existem coisas imemoráveis e tudo bem. Tem coisas que eu, inclusive, só lembro quando preciso - como, por exemplo, um guarda-chuva, que eu sempre levo na mochila em dias secos e o qual milagrosamente eu esqueço em casa quando chove. Tem coisas, também, que eu só lembro quando aparecem como: aniversários de antigos colegas de sala, grão de bico, casamentos, fãs de Legião Urbana, Capital Inicial, Jota Quest, Wesley Safadão, o Partido Novo, etc. Todas essas coisas têm algo em comum: eu sempre nego tê-las esquecido. Subitamente vejo algo do qual eu não havia me esquecido; subitamente está lá, no meio do debate o candidato milionário Felipe D’ávila e penso “ih, olha lá! O Felipinho privatizador!… confesso que não tinha esquecido de você”.
Como estamos em clima de sabatina, vou dar a minha versão da análise dos candidatos que foram ao debate. Simone Tebet mais me parece com uma nova Tabata Amaral - só que surpreendentemente mais liberal. Pelo menos, a antiga professora aparentemente apoia o randandan, já que dará 5 mil reais para estudantes de todo o Brasil para que consigam “pagar a entrada de uma moto (...)”. Soraya, a onça direitista, só não pisca mais por suas pálpebras ainda não terem sido privatizadas pelo candidato Felipe D’ávila e esse, por sua vez, só não resolveu a questão do assédio no país por não ter privatizado os corpos das mulheres - inclusive, ouvi dizer que, para ele, pessoas não binárias devem ser geridas por um regime público-privado, o meio termo do projeto neo-liberal.
Ciro Gomes, Bolsonaro e Lula foram os três que não me surpreenderam, então vou propor um jogo de adivinhação quem-é-quem: qual deles parece ter as mãos coladas uma na outra? Qual pareceu ter comido uma feijoada antes do debate? Qual deles começou calmo e deu piti?