por
Gabriela Thier
|
26/06/2026 - 12h

Por volta das cinco e meia da manhã o sol ainda não tinha saído, mas era notável que a cidade já estava acordada (se é que tinha dormido), depois da correria matinal de levantar, passar o café, tomar o que dá e pegar um casaco, nos dirigimos para a estação.

Chegando lá as plataformas já estão cheias, quem não está com pressa tem a opção de descer em Guaianases e pegar um trem mais vazio (ou menos cheio) sentido centro, é isso que decidi fazer. Quando o trem está prestes a sair de Guaianases escutam-se gritos raivosos vindo da porta do outro lado, “gente não é nem sete horas! Pelo amor de Deus!”, a porta fecha, não consigo ver quem eram os estressados da vez, mas consigo ouvi-los:

“Foi porque ele não 'relô' na minha cara! Porque se tivesse relado na minha cara!...”

“É! Aposto que ele nunca viu a fúria de um baiano! Depois leva uma facada e não sabe o porquê.”

“Não, não tenho coragem de dar facada nos outros... mas um tiro eu dava!”

A viagem segue em silêncio até o Brás. Na escada rolante, sempre faço questão de olhar para trás e ver o formigueiro humano nas plataformas e sempre me pergunto “como cabe tanta gente?”

Já no segundo trem, o que chama minha atenção desta vez são risadas, elas vêm de duas senhorinhas no banco preferencial, contando casos de seus casamentos, elas tinham uma plateia para ouvi-las. Me virei até onde dava para prestar atenção na história depois de ouvir uma frase:

“...É porque eu não faço coisa pra ser presa, faço pra polícia rir”

“Meu Deus mulher.”

“Mas é! Num pode deixa o homem fazer qualquer coisa, da última vez eu escondi a dentadura dele no quarto e tranquei a porta, ele não conseguia comer aí chamou a polícia, o policial se acabou de rir!”

Os conselhos casamenteiros das senhorinhas entretiam tanto que nem me dei conta da lentidão do trem, até ele parar completamente. O silêncio permanece no vagão até a chegada do aviso do maquinista, relatando “problemas com uma pessoa na via”, todos os passageiros vaiam em uníssono:

“Alguém se matou.”

“De novo?”

“É, pra ta demorando assim.”

Por fim, o trem chega na Barra Funda, já passam das sete horas, eu subo no ônibus e entre muitos estudantes escuto duas meninas conversando alto, uma delas diz: “Tira essa mão de metrô de mim! Eu tenho nojo!”, por um momento eu quis esbarrar meu braço de CPTM nela de propósito, mas não fiz nada.

Depois de uns 20 ou 30 minutos, eu desço no meu ponto, e só agora o dia começou.

Comecei a escrever esse texto na pandemia, mas não terminei, estava na busca de contemplar minha incompletude
por
Manuela Amaral Silva
|
13/06/2025 - 12h

A busca pela validação parece ser infinda. Alguns filósofos acreditam que, no estado de menor de idade, o homem é incapaz de dirigir a si mesmo, tornando-se assim dependente do governo dos outros - ou seja, não consegue exercer o pensamento crítico a nível de mudança, mas apenas se move pela trajetória do comodismo. Acho isso ainda pertinente nos dias atuais, e que nunca sairemos da menoridade enquanto dependermos dos outros para a nossa existência. Estamos nos autocondenando a uma vida cíclica e sem mudanças existenciais. As únicas mudanças que fazem diferença são as "notificações" que recebemos em nossos dispositivos de comunicação. 

O celular às vezes fica mudo, e eu também. Não sei se devo falar porque ainda não vi as notícias. Elas ainda não apareceram nas notificações do meu celular. Quero vê-las, explorar esse mundo digital e fugir do real; quero sumir em alguma conta com um user fake. E no final perceber que nunca foi real. Essa sociedade digital só existe no mundo irreal. Talvez um dia paremos de ver o mundo através da câmera do celular. Talvez eu esteja sendo pessimista por acreditar em minhas verdades, e tenho fé de que isso não permaneça como algo atemporal. Espero por mudança, mas que alguém se mova por mim. 

Um amor subjetivo nas redes sociais e a busca por idolatria de ambos os lados: onde querem mostrar um quê de superioridade pelas fotos e, ao mesmo tempo, querem ser tratados como iguais. Minha mãe tem depressão. Quando a vejo, às vezes fico deprimida também. Não entendo sua dor. Apenas a vejo. O afeto... sinto falta dele, apesar de sentir que ainda está aqui. Ele me recorda de sua existência às vezes da maneira mais dolorosa -- quando lembro-me de minha existência. "Esse amor que me fere é o mesmo que me cura, é o mesmo que possibilita", diz Adélia Prado e acrescenta: ponha cataplasma sobre as feridas". 

Uma crônica sobre escolher seu próprio caminho todos os dias
por
Manuela Amaral
Natália Matvyenko
|
11/06/2025 - 12h

Laura escolheu seu nome. Aquele que veio ao mundo com ela, não lhe servia mais e pesava como roupa emprestada. Laura soava fácil, escorregava pela boca como algo que sempre foi dela. E assim ela se fez: Laura, de cabelos que já foram curtos e agora descem vermelhos pelos ombros, como fios de outono que nunca caem. Seu sorriso é frequente, mas não ingênuo. Carrega os cantos da boca para cima na maioria dos dias, como quem insiste em acreditar que a luz vale mais que a sombra ainda que às vezes duvide.

Entre os dedos, um cigarro; na mesa, uma xícara de café meio vazia. Quando nos encontramos, é assim: fumaça desenhando curvas no ar, o amargo do café na língua e ela, sempre ela, dizendo "venha ler o que estou escrevendo". Mas Laura quase nunca me deixa ler. Em vez disso, abre a boca e solta os pensamentos antes que eles cheguem ao papel. Fala de ideias que ainda estão se formando, de histórias que nascem tortas e que ela endireita com as mãos no ar, como quem amassa barro. Eu escuto, tentando acompanhar o fio invisível de sua lógica, enquanto o cigarro queima esquecido no cinzeiro.  

Ela ri alto, de uma risada que desafia qualquer melancolia. "Você tá bem?", pergunta, e eu minto às vezes, um "tudo ótimo" que ela desmonta com um olhar. Laura conhece as dores que a gente cala, porque carrega as dela sem disfarce: a transfobia que deixa marcas, o HIV que virou parte da história, mas não a definição dela. "Sou mais que um vírus", disse certa vez, enquanto acendia outro cigarro. "Sou mais que um corpo que o mundo quis decidir por mim".

Quero aprender com Laura. Não como quem estuda um livro, mas como quem observa o mar: sabendo que nunca se repete, que cada onda traz algo novo. Ela não é professora, mas ensina sem querer: sobre resistência, sobre a beleza que persiste mesmo quando o mundo insiste em negá-la. Suas histórias não são ficção, são memórias com as garras afiadas, e quando ela as conta, por um instante, vemos através dos seus olhos. E tudo fica mais claro: a vida, a luta, a coragem de existir apesar de.  Laura não pede pena, ela só quer viver, e isso a torna uma revolução inteira.

 

Comissão parlamentar de inquérito, ou comissão de personalidade Influente
por
Fernando Amaral, João Bueno e Pedro Banhara
|
09/06/2025 - 12h

No silêncio do Senado, o primeiro ato da CPI das Bets desenhou um cenário mais de novela do que de tribunal. Era novembro de 2024 quando o nome “Fernandin OIG” ecoou pelos corredores. O empresário acusado de divulgar o “jogo do tigrinho”, caça-níquel virtual que se infiltrou nas redes sociais, e que agora respira o ar pesado da suspeita de lavagem de dinheiro. Logo ao lado, nas cadeiras reservadas ao público, a relatora pôs em pauta influenciadores peças-chave da engrenagem: Deolane, Gkay, Jojo Todynho, Virgínia Fonseca, e perguntou, sem medo, se o brilho dos likes escondia uma sombra rentável. A plateia reagiu com risos nervosos, e por trás dos memes, pipocavam relatórios de prejuízo, promessas quebradas e ações que prometem endurecer a regulação. 
 
Na rampa do Senado em Brasília, o ar estava tenso. A névoa burocrática foi interrompida por um perfume doce, talvez de baunilha, talvez de marketing bem calculado. Virgínia Fonseca acabava de chegar. Não chegou vestida para depor, chegou vestida para convencer. O moletom oversized, preto e confortável, não era apenas uma peça de roupa: era uma mensagem. Estampada no peito, a imagem da filha. No punho, o inseparável copo Stanley lilás, símbolo da mãe influenciadora dos tempos líquidos. Calça jogger, tênis branco limpo como reputação de publicidade, e o cabelão loiro alinhado até demais para quem diz estar nervosa, talvez tenha achado que a tal bet, era aquela boneca de beleza irretocável. 

Assim que adentrou ao salão da CPI, ela rompeu o protocolo com a leveza de quem está acostumada a romper telas: foi cumprimentando um por um dos senadores com beijo no rosto. Beijo aqui, beijo ali. Como se estivesse chegando num aniversário infantil. Como se os parlamentares fossem tios de grupo de WhatsApp. Como se a formalidade do Senado coubesse em um story do Instagram. Era o gesto final para compor o personagem: o da boa mãe, da boa moça, da mulher real, que só quer trabalhar e proteger os seus. O figurino já dizia isso — mas o beijo no rosto selava o personagem: "não sou ameaça, sou afeto". 

Hoje, quem tem rasgado fotos de casamento não é o ciúme, nem o tédio: é o jogo. A advogada Mérces da Silva Nunes bem que tentou não se espantar, mas ano após ano, o escritório dela virou confessionário de promessas quebradas e dívidas feitas no escuro. Conta, em entrevista à AGEMT, que chega de tudo, esposa descobrindo que o marido pegou empréstimo no nome da sogra, marido surpreso com a fatura do cartão estourada pela parceira, e até falsificação de assinatura em silêncio, como quem falsifica a esperança. 

E não se trata só de dinheiro. Mérces diz que "o vício em apostas é um destruidor de tudo, do fim de semana em família à confiança que sustentava o teto". Quando o jogo entra, o diálogo sai pela porta da frente. A convivência, que já andava manca, tropeça de vez. E então resta o divórcio, mas nem isso vem sem cálculo: quem não jogou,  quem tentou segurar a casa de pé. No fim, a aposta mais alta foi feita no casamento. E foi perdida", conclui Mérces. 

“É isso, que Deus abençoe a nossa audiência, e bora pra cima!”, diz Virgínia Fonseca ao se apresentar no Senado. O “bora pra cima”. Aquela expressão que pode significar tudo e absolutamente nada. Ali, no plenário, soou como tentativa de blindagem moral, ou quem sabe um mantra da positividade automática. Como se a CPI fosse um unboxing a ser apresentado, mas que com fé, skincare e foco, daria tudo certo. 

No fundo, ela queria mostrar que estava tranquila, leve, inofensiva, quase maternal. Uma mulher multitarefas que entre um café com leite da filha e uma publi no feed, teve que passar ali rapidinho no Senado pra esclarecer umas coisinhas. Quase um favor. Mas CPI, meu amigo, não é uma sala de estar. Ou não deveria ser. 

Enquanto ela sorria e cruzava as pernas como quem espera o café da tarde, em Carapicuíba, na fila do ônibus Jardim Popular, linha mais lotada da cidade da Grande São Paulo, Antônio Cláudio dos Santos, 42 anos, pai de três filhos, estava na tentativa daquele animal listrado soltar a carta e duplicar seu salário. 

“Todos os meus colegas de trabalho jogam, uns ganham 100, 200 reais por dia. Um outro colega fez o salário em apenas um dia. Parecia fácil, eu fui colocando de 20 em 20, e na tentativa de recuperar o perdido, meu salário se foi” – Relata Antônio, após ter perdido o salário do mês em apostas. Mas se a convocação de Virgínia Fonseca ao Senado parecia coisa de filme, o comportamento dos senadores foi digno de uma sitcom de comédia.

Em vez de interrogatório sério, o que se viu parecia tietagem de fãs adolescentes com cantores pop. O senador Cleitinho, por exemplo, largou o papel de fiscal da República para pedir uma selfie com a influenciadora (foto), e não parou por aí: pediu também um vídeo para a esposa, rasgou elogios e, por pouco, não pediu um autógrafo no crachá. Já o senador Kajuru parecia mais interessado em ser convidado para o próximo churrasco na mansão da Virgínia do que em discutir a tal cláusula da “desgraça alheia”. 

Enquanto isso, a relatora Soraya Thronicke, com cara de quem queria desligar o wi-fi do Senado inteiro, tentava manter a compostura no meio da bagunça. A audiência, que deveria investigar um esquema de bilhões em apostas online, virou praticamente uma coletiva de imprensa pós-festa. E assim, entre risadinhas, selfies e elogios embaraçosos, a CPI foi virando o que muitos já suspeitavam: mais um show de vaidades. 

E o resultado disso? Bom, o Instagram respondeu rápido: Virgínia perdeu mais de 117 mil seguidores em dois dias. Mas nada que tire o sono de quem ainda tem 53,2 milhões de pessoas assistindo tudo de camarote. No fim das contas, ela saiu da CPI como entrou, maquiada, milionária e ainda influente. Porque no Brasil, até escândalo pode virar engajamento e virar 71% OFF em todo o site da Wepink. 

A cadeia da fiscalização ataca novamente. Quem fiscaliza quer ser fiscalizado?
por
Artur dos Santos
|
26/09/2022 - 12h

Todo o ano voltamos à velha pergunta: “quem regula o poder de quem regula o poder?”, ou “quem regula aquele que regula?”, a pergunta mais famosa entre a direita anti-establishment, que, no final das contas, é quem regula o poder e quem regula o poder de quem regula o poder - agentes duplos!

Fiquei sabendo que essa discussão é uma das quais nem as Forças Armadas escapam. Essas, que querem fiscalizar a contagem dos votos, não querem ser, por sua vez, fiscalizadas pelo Tribunal de Contas da União… ah, a ironia.

Segue o diálogo:

- Queremos fiscalizar as urnas, truco!

- Queremos fiscalizar a fiscalização de vocês… seis!

- Pô, aí não né marreco…

Prevejo a entrada de uma terceira força fiscal - para fiscalizar a fiscalização da fiscalização - mas, a partir daí, não garanto que o carrossel termine. Eu, por exemplo, já mandei a redação contratar um revisor que revise as revisões que meu atual revisor faz nos meus textos… não confio nele. Agora, se ele contratar um revisor que revise seu revisor que eu contratei para revisar as suas revisões, teremos um problema.

 

Acompanhe a íntegra de frases ditas em reuniões oficias do presidente
por
Artur dos Santos
|
22/09/2022 - 12h

Em reunião do Alto Comando:

 

- Presidente, a coisa tá feia: estamos sendo invadidos e precisamos de exatos 210 mísseis, aqueles que tanto custou negociar com os EUA

- Servem 189? 21 deles disparamos semana passada em homenagem à minha campanh… ao Bicentenário

- Mas presidente! Agora não temos nem mais um míssel para cada ano de independência, presidente!

- Cadete, quem te autorizou a ser anti independência?

 

Na reunião dos ministérios:

 

- Então vamos marcar esse churrasco!

- Já molhei o pão e acendi a churrasqueira!

- Gente, alguém sabe onde está o coração de Dom Pedro?

 

No velório:

 

- Aê Carlinhos! Como tá a família?

 

Na cúpula:

 

- Lira, já pensou em abandonar as fazendas e entrar em novos negócios imobiliários?

 

Na cópula:

 

- Imbroxável!

Vamos de Sabatina versão crônica; se preparem, não virem tchutchucas, e, se puderem, não privatizem tudo
por
Artur dos Santos
|
01/09/2022 - 12h

Tem coisas que a gente esquece… não é sempre que lembramos de reabastecer o bilhete único, de lavar a louça, colocar o despertador pra tocar… realmente existem coisas imemoráveis e tudo bem. Tem coisas que eu, inclusive, só lembro quando preciso - como, por exemplo, um guarda-chuva, que eu sempre levo na mochila em dias secos e o qual milagrosamente eu esqueço em casa quando chove. Tem coisas, também, que eu só lembro quando aparecem como: aniversários de antigos colegas de sala, grão de bico, casamentos, fãs de Legião Urbana, Capital Inicial, Jota Quest, Wesley Safadão, o Partido Novo, etc. Todas essas coisas têm algo em comum: eu sempre nego tê-las esquecido. Subitamente vejo algo do qual eu não havia me esquecido; subitamente está lá, no  meio do debate o candidato milionário Felipe D’ávila e penso “ih, olha lá! O Felipinho privatizador!… confesso que não tinha esquecido de você”.

 

Como estamos em clima de sabatina, vou dar a minha versão da análise dos candidatos que foram ao debate. Simone Tebet mais me parece com uma nova Tabata Amaral - só que surpreendentemente mais liberal. Pelo menos, a antiga professora aparentemente apoia o randandan, já que dará 5 mil reais para estudantes de todo o Brasil para que consigam “pagar a entrada de uma moto (...)”. Soraya, a onça direitista, só não pisca mais por suas pálpebras ainda não terem sido privatizadas pelo candidato Felipe D’ávila e esse, por sua vez, só não resolveu a questão do assédio no país por não ter privatizado os corpos das mulheres - inclusive, ouvi dizer que, para ele, pessoas não binárias devem ser geridas por um regime público-privado, o meio termo do projeto neo-liberal.

 

Ciro Gomes, Bolsonaro e Lula foram os três que não me surpreenderam, então vou propor um jogo de adivinhação quem-é-quem: qual deles parece ter as mãos coladas uma na outra? Qual pareceu ter comido uma feijoada antes do debate? Qual deles começou calmo e deu piti?

 

Virar jacaré é a mais nova figura de linguagem que constará nos vestibulares de todo o país
por
Artur dos Santos
|
23/08/2022 - 12h

Vestibulandos, se preparem: tenho péssimas notícias. Não, não é uma reforma do ensino médio, o esforço de fazê-los desaprender a escrever um texto para fazer “redações”, falta de merenda, falta de material, de estrutura ou mesmo de incentivo ao estudo - por essas injúrias você já passa e já se acostumou -, o assunto é sério. Descobri ontem que temos uma nova figura de linguagem; o presidente mesmo me anunciou. “Virar Jacaré” é a mais nova figura de linguagem da língua portuguesa, e, garanto, estará nas próximas provas que você enfrentará!

Chega de choro, vamos à análise. Primeiramente, de onde veio essa nova figura de linguagem? Claramente da junção do milenar folclore brasileiro que tanto teme a Cuca ao mais novo negacionismo que tanto teme a ciência, hora! Viu? Não é tão difícil. Em relação ao sentido, a situação pode ficar mais complicada…

O que quer dizer, afinal, essa nova figura de linguagem? Ainda estamos em período de análise, querido vestibulando, mas acho que encontraremos seu sentido dentre as linhas da covardia e do cinismo. 

De onde veio? Ah essa é uma boa pergunta. Não temos como dizer quando uma expressão surge dentro de uma língua, é como traçar o intraçável, pesquisar o impesquisável, mas, se eu tivesse que chutar, diria que veio da boca do atual presidente da república quando, em meio à pandemia, desmotivava a adesão da população à vacinação contra a Covid-19. Enfim, como disse, não dá para dizer exatamente.

Nenhuma análise gramatical está completa sem exemplos! Segue abaixo situações nas quais você poderá utilizar a nova figura de linguagem:

  1. Ao querer desincentivar a adesão de uma população ao programa nacional de vacinação:

“Se você virar jacaré, problema é seu”

  1. Durante uma redação:

“Outrossim, virará jacaré aquele que (...)” - note que eu, assim como você, utilizei erroneamente o terrível “Outrossim”.

  1. Em um debate:

“É indubitável que a moção em questão fez com que o excelentíssimo delegado tenha virado jacaré

  1. Se explicando em um diálogo no Jornal Nacional: “Eu usei uma figura de linguagem” “Figura de linguagem?” “Isso é parte da literatura portuguesa” “Virar jacaré?”

Por que estamos sós nesta multidão?
por
Fernanda Querne
|
21/08/2022 - 12h

Alguém sabe o quanto você está destruído? Alguém sabe quem te destruiu? Será que você realmente sabe quem te destruiu? As pessoas nos destroem ou nós permitimos que elas façam isso? Foi você que fez isso consigo? Não foi você? Tem certeza? Absoluta? Dói, não é? Essa dor passa? Será?  Essa dor é por falta ou excesso de amor? Mas amar não devia te encher de alegria? É normal a tristeza preencher o vazio da dor? Por que nos sentirmos vazios incomoda tanto? Já fomos felizes de verdade? Estamos felizes? Somos felizes? Qual é a razão de nos sentirmos incompletos até alcançar a felicidade absoluta? Seremos miseráveis até morrer? E em nome de que? Orgulho profissional? Estabilidade econômica? Vida pessoal?

 

Por que nos traumatizamos? Por que nos desentendemos? Por que esse ciclo nunca para? Como vou alcançar a minha felicidade absoluta assim? É normal brigar com tanta potência e/ou frequência? Por que comigo? Por que isso acontece só comigo? Será que é só comigo? Acontece com você? Mesmo? Não está dizendo isso só para me confortar, não é? Jura? Bom, como consertamos isso? Ou melhor, quem nos conserta? Depois de tanta destruição, temos conserto? Ou é melhor desistir de nós? Se não tem ninguém por nós, algo de bom acontecerá para nós? Nossa, não tem ninguém mesmo, né? Nossa, um silêncio, não acha? Essa solidão mata.