por
Dhara Yuki
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25/09/2026 - 12h

Eu costumava dizer que ia mais ao veterinário do que trabalhar presencial, mas desde que você se foi, me tornei mais presente no escritório. Não porque tenha escolhido estar lá, mas porque a vida passou a exigir presença mesmo quando eu ainda não sabia muito bem como estar de fato nela. Todos entenderam que eu precisava trabalhar em casa para poder cuidar de você, que sempre cuidou de mim, até mesmo quando mal conseguia me chamar. Agora, sem você, é preciso voltar a trabalhar, estudar, atravessar a cidade, chegar em casa e dormir para fazer tudo outra vez no dia seguinte.

Para algumas pessoas, voltar ao escritório significa perder tempo no trânsito, carregar uma bolsa pesada e passar o dia sentado em uma posição formal para não dar má impressão. Para mim, significa outra coisa. Significa voltar a cumprir uma rotina que tinha sido interrompida.

Depois de meses trabalhando em casa, percebi que sou capaz de acordar bem mais cedo para trabalhar, mas o corpo sente o cansaço no fim do dia. O cansaço que aparecia na sexta à tarde chega na quarta-feira de manhã, e mais dois dias ainda precisam ser cumpridos. A vida adulta não tem muita consideração pelo luto.

O cansaço de estar no escritório ainda não apareceu. Enquanto muitos querem escapar do presencial, para mim, é uma novidade que distrai a cabeça. Aquele lugar não me lembra o que eu tinha. É impossível ouvir aquela voz me chamando, que, na verdade, até hoje ouço, mesmo sabendo que é coisa da minha cabeça. A distração é boa, mas o fim do dia vai chegando e outra novidade aparece: a ansiedade.

Há anos que não sou ansiosa. Não posso nem dizer que sou curiosa. Quando dizem “amanhã eu te conto”, consigo dormir tranquilamente. E, quando todos sabem de algo e eu não, eu realmente não ligo. Mas agora, de repente, o peito fica pesado, a respiração mais rápida, os olhos ardem, e não é do ar-condicionado secando as lentes de contato, não é o sol batendo forte e não é a maquiagem escorrendo. É apenas ansiedade.

Vai chegando o final do dia e, sem motivo algum, sem nada estar acontecendo na minha vida, essa sensação ruim vem aparecendo. Cada passo parece maior. Se antes eu dava 30 passos para virar a esquina e chegar no portão do condomínio, agora parece que dou o dobro. Sinto a mão mais pesada para abrir o portão, a rampa parece mais íngreme e o barulho do elevador chegando está bem mais alto. E, chegando em casa, um alto silêncio absoluto.

Quando o trabalho acaba e depois a aula, nesse caminho para casa, nunca fui de ler ou assistir a algo. Minha companhia sempre foi apenas a música. Uma delas, sobre terem arruinado a vida da compositora, me fez lembrar da única ausência que nunca consegui imaginar ou me preparar para ter. A música não tem nada a ver com o que eu sinto, mas penso que prefiro que tivessem arruinado minha vida a ter perdido a razão dela.

Eu tinha um motivo todos os dias para levantar e trabalhar com algo de que não gosto, porque não sou boa, mas acabei caindo nessa área de paraquedas. Tinha também um motivo para voltar para casa, para reclamar do cansaço, para acordar no dia seguinte e começar tudo outra vez. Agora, a rotina continua, mas diferente.

A parte mais estranha do luto é descobrir que o mundo não para junto com você. Ainda é preciso seguir com as obrigações. Mas agora eu tenho que sair e fazer outras coisas, e isso me traz culpa, porque parece que antes estava aprisionada e agora posso fazer o que quiser. Mas eu trabalharia presencialmente todos os dias a não ter mais aquilo comigo, aquilo que me trazia uma felicidade capaz de superar qualquer acontecimento ruim nos meus dias presenciais.

por
Olívia De Melo
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23/09/2026 - 12h

 

Mais um dia paulistano
O céu nublado, as cortinas fechadas
Já passaram três Terminal Pirituba
Até agora espero o Barra Funda.

Mais um dia paulistano
Bato a cabeça na janela
Observo os prédios, cemitérios, pessoas
Quando vejo, já chegou a minha hora.

Mais um dia paulistano
O café me mantém em pé
Apesar de que, não fico muito parado
Ando para todos os lados
Do Largo do Arouche até a Rua do Ouvidor.

Vejo muitos retratos
Desde a dona de casa indo para o trabalho
Até aquele, que de trabalho não se escuta há muito tempo
Esses são como os fantasmas de São Paulo
Você os vê, mas faz de conta que não existem.

Lá pelo meio-dia, tudo fica um pouco diferente
O sol que se escondia, agora é ardente
Em São Paulo não tem lugar para se proteger
Seja do sol, da chuva ou do mundo.

Mais um dia paulistano
A tarde chega e me encontro ainda mais cansado do que de manhã
A luz vai se esvaindo
Tal qual o meu ânimo
Talvez uma cerveja melhore.

Às vezes, quando é sexta-feira
Até beiro a me arriscar
Na noite paulistana
Desço na estação Consolação
Procurando o bar mais fuleiro para me abrigar.

O Baixo Augusta não tem esse nome por coincidência
Lá é tudo embaixo dos panos
As putas, as drogas, os roubos
Por isso não entro de cabeça, antes da meia-noite me apresso para minha residência.

E assim se vai mais um cotidiano dia paulistano
Rápido, vasto e cansado.

por
Gabriela Thier
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26/06/2026 - 12h

Por volta das cinco e meia da manhã o sol ainda não tinha saído, mas era notável que a cidade já estava acordada (se é que tinha dormido), depois da correria matinal de levantar, passar o café, tomar o que dá e pegar um casaco, nos dirigimos para a estação.

Chegando lá as plataformas já estão cheias, quem não está com pressa tem a opção de descer em Guaianases e pegar um trem mais vazio (ou menos cheio) sentido centro, é isso que decidi fazer. Quando o trem está prestes a sair de Guaianases escutam-se gritos raivosos vindo da porta do outro lado, “gente não é nem sete horas! Pelo amor de Deus!”, a porta fecha, não consigo ver quem eram os estressados da vez, mas consigo ouvi-los:

“Foi porque ele não 'relô' na minha cara! Porque se tivesse relado na minha cara!...”

“É! Aposto que ele nunca viu a fúria de um baiano! Depois leva uma facada e não sabe o porquê.”

“Não, não tenho coragem de dar facada nos outros... mas um tiro eu dava!”

A viagem segue em silêncio até o Brás. Na escada rolante, sempre faço questão de olhar para trás e ver o formigueiro humano nas plataformas e sempre me pergunto “como cabe tanta gente?”

Já no segundo trem, o que chama minha atenção desta vez são risadas, elas vêm de duas senhorinhas no banco preferencial, contando casos de seus casamentos, elas tinham uma plateia para ouvi-las. Me virei até onde dava para prestar atenção na história depois de ouvir uma frase:

“...É porque eu não faço coisa pra ser presa, faço pra polícia rir”

“Meu Deus mulher.”

“Mas é! Num pode deixa o homem fazer qualquer coisa, da última vez eu escondi a dentadura dele no quarto e tranquei a porta, ele não conseguia comer aí chamou a polícia, o policial se acabou de rir!”

Os conselhos casamenteiros das senhorinhas entretiam tanto que nem me dei conta da lentidão do trem, até ele parar completamente. O silêncio permanece no vagão até a chegada do aviso do maquinista, relatando “problemas com uma pessoa na via”, todos os passageiros vaiam em uníssono:

“Alguém se matou.”

“De novo?”

“É, pra ta demorando assim.”

Por fim, o trem chega na Barra Funda, já passam das sete horas, eu subo no ônibus e entre muitos estudantes escuto duas meninas conversando alto, uma delas diz: “Tira essa mão de metrô de mim! Eu tenho nojo!”, por um momento eu quis esbarrar meu braço de CPTM nela de propósito, mas não fiz nada.

Depois de uns 20 ou 30 minutos, eu desço no meu ponto, e só agora o dia começou.

Comecei a escrever esse texto na pandemia, mas não terminei, estava na busca de contemplar minha incompletude
por
Manuela Amaral Silva
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13/06/2025 - 12h

A busca pela validação parece ser infinda. Alguns filósofos acreditam que, no estado de menor de idade, o homem é incapaz de dirigir a si mesmo, tornando-se assim dependente do governo dos outros - ou seja, não consegue exercer o pensamento crítico a nível de mudança, mas apenas se move pela trajetória do comodismo. Acho isso ainda pertinente nos dias atuais, e que nunca sairemos da menoridade enquanto dependermos dos outros para a nossa existência. Estamos nos autocondenando a uma vida cíclica e sem mudanças existenciais. As únicas mudanças que fazem diferença são as "notificações" que recebemos em nossos dispositivos de comunicação. 

O celular às vezes fica mudo, e eu também. Não sei se devo falar porque ainda não vi as notícias. Elas ainda não apareceram nas notificações do meu celular. Quero vê-las, explorar esse mundo digital e fugir do real; quero sumir em alguma conta com um user fake. E no final perceber que nunca foi real. Essa sociedade digital só existe no mundo irreal. Talvez um dia paremos de ver o mundo através da câmera do celular. Talvez eu esteja sendo pessimista por acreditar em minhas verdades, e tenho fé de que isso não permaneça como algo atemporal. Espero por mudança, mas que alguém se mova por mim. 

Um amor subjetivo nas redes sociais e a busca por idolatria de ambos os lados: onde querem mostrar um quê de superioridade pelas fotos e, ao mesmo tempo, querem ser tratados como iguais. Minha mãe tem depressão. Quando a vejo, às vezes fico deprimida também. Não entendo sua dor. Apenas a vejo. O afeto... sinto falta dele, apesar de sentir que ainda está aqui. Ele me recorda de sua existência às vezes da maneira mais dolorosa -- quando lembro-me de minha existência. "Esse amor que me fere é o mesmo que me cura, é o mesmo que possibilita", diz Adélia Prado e acrescenta: ponha cataplasma sobre as feridas". 

Bolsonaro faz discurso relâmpago!
por
Artur dos Santos
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01/11/2022 - 12h

Poucas coisas são tão rápidas quanto foi o primeiro pronunciamento do presidente após ter perdido as eleições no segundo turno pro Lula. Todo mundo sintonizou no canal e esperou, por mais de uma hora e meia, a chegada do derrotado. Eu, por exemplo, fiquei analisando a quantidade de microfones que tinham naquela mesinha de acrílico e percebi que o logo do Metrópoles parece dois prédios. Também analisei quantos fotógrafos estavam com aquelas escadinhas portáteis para terem o melhor ângulo, além de quantas vezes o apresentador da TV repetia as informações sobre qualquer assunto - uma hora e meia é muito tempo pra nada, assim como 2 minutos e 5 segundos é nenhum tempo para muito. 

Esperamos, esperamos, esperamos até que, no tempo de ir no banheiro, o presidente não só chegou, como se pronunciou e foi embora sem dar vestígios - um ninja do sumiço, um samurai do silêncio, um cavalheiro da derrota envergonhada. 

Para a leitora ter noção da rapidez, listarei algumas coisas que demoram mais do que o discurso do Bolsonaro: 

  1. Passar um café

  2. Se espreguiçar

  3. Pipoca de panela

  4. Macarrão instantâneo de copinho

  5. Esta crônica

Não vamos pagar nada, só vender tudo.
por
Artur dos Santos
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02/10/2022 - 12h

Me decepciona a conduta de Paulo Guedes, o antigo empreendedor indomável que hoje se contenta com propostas quase omissas de tão pouco inovadoras. Quero o Guedes Foguete Privatizador de volta! 

Achei, de fato, que as últimas condutas pouco libertárias de Guedes eram deslizes, mas depois dessa semana vejo que o espírito empreendedor dele sumiu. Vender praias inteiras, ministro? É esse o máximo de seu empreendedorismo neo liberal revolucionário? Normalmente não me envolvo com economia, mas agora vou fazer minha proposta que talvez desperte o Foguete. 

Vender praias inteiras não é prático, ministro! Sugiro a venda de Kits Praia portáteis. Por que vender algo por inteiro se podemos fracioná-lo e lucrar mais?

Kits Praia serão revolucionários. Venderemos até o último grão de areia de todas as praias do Brasil; uma venda quase infinita! Virão em diferentes tamanhos do pequeno ao grande: Kit Praia estúdio 10m² na Faria Lima, Kit Praia casa com quintal em Alphaville e Kit Praia Itu. Os preços? Ah, esses variam de acordo com a qualidade da areia, da água e até os eventuais mini quiosques que tiverem dentro dos Kits. Será revolucionário!

Os brasileiros que moram nos EUA receberão seus Kits dados pessoalmente pelo Foguete em pessoa! Os brasileiros que moram em outros países receberão via Sedex, o Ministro se sente mais confortável indo aos EUA.

Enfim, vendam até o último grão de areia da última praia, isso sim vai democratizá-las ao povo. Isso porque não vamos pagar nada, só vender tudo!

 

A cadeia da fiscalização ataca novamente. Quem fiscaliza quer ser fiscalizado?
por
Artur dos Santos
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26/09/2022 - 12h

Todo o ano voltamos à velha pergunta: “quem regula o poder de quem regula o poder?”, ou “quem regula aquele que regula?”, a pergunta mais famosa entre a direita anti-establishment, que, no final das contas, é quem regula o poder e quem regula o poder de quem regula o poder - agentes duplos!

Fiquei sabendo que essa discussão é uma das quais nem as Forças Armadas escapam. Essas, que querem fiscalizar a contagem dos votos, não querem ser, por sua vez, fiscalizadas pelo Tribunal de Contas da União… ah, a ironia.

Segue o diálogo:

- Queremos fiscalizar as urnas, truco!

- Queremos fiscalizar a fiscalização de vocês… seis!

- Pô, aí não né marreco…

Prevejo a entrada de uma terceira força fiscal - para fiscalizar a fiscalização da fiscalização - mas, a partir daí, não garanto que o carrossel termine. Eu, por exemplo, já mandei a redação contratar um revisor que revise as revisões que meu atual revisor faz nos meus textos… não confio nele. Agora, se ele contratar um revisor que revise seu revisor que eu contratei para revisar as suas revisões, teremos um problema.

 

Acompanhe a íntegra de frases ditas em reuniões oficias do presidente
por
Artur dos Santos
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22/09/2022 - 12h

Em reunião do Alto Comando:

 

- Presidente, a coisa tá feia: estamos sendo invadidos e precisamos de exatos 210 mísseis, aqueles que tanto custou negociar com os EUA

- Servem 189? 21 deles disparamos semana passada em homenagem à minha campanh… ao Bicentenário

- Mas presidente! Agora não temos nem mais um míssel para cada ano de independência, presidente!

- Cadete, quem te autorizou a ser anti independência?

 

Na reunião dos ministérios:

 

- Então vamos marcar esse churrasco!

- Já molhei o pão e acendi a churrasqueira!

- Gente, alguém sabe onde está o coração de Dom Pedro?

 

No velório:

 

- Aê Carlinhos! Como tá a família?

 

Na cúpula:

 

- Lira, já pensou em abandonar as fazendas e entrar em novos negócios imobiliários?

 

Na cópula:

 

- Imbroxável!

Vamos de Sabatina versão crônica; se preparem, não virem tchutchucas, e, se puderem, não privatizem tudo
por
Artur dos Santos
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01/09/2022 - 12h

Tem coisas que a gente esquece… não é sempre que lembramos de reabastecer o bilhete único, de lavar a louça, colocar o despertador pra tocar… realmente existem coisas imemoráveis e tudo bem. Tem coisas que eu, inclusive, só lembro quando preciso - como, por exemplo, um guarda-chuva, que eu sempre levo na mochila em dias secos e o qual milagrosamente eu esqueço em casa quando chove. Tem coisas, também, que eu só lembro quando aparecem como: aniversários de antigos colegas de sala, grão de bico, casamentos, fãs de Legião Urbana, Capital Inicial, Jota Quest, Wesley Safadão, o Partido Novo, etc. Todas essas coisas têm algo em comum: eu sempre nego tê-las esquecido. Subitamente vejo algo do qual eu não havia me esquecido; subitamente está lá, no  meio do debate o candidato milionário Felipe D’ávila e penso “ih, olha lá! O Felipinho privatizador!… confesso que não tinha esquecido de você”.

 

Como estamos em clima de sabatina, vou dar a minha versão da análise dos candidatos que foram ao debate. Simone Tebet mais me parece com uma nova Tabata Amaral - só que surpreendentemente mais liberal. Pelo menos, a antiga professora aparentemente apoia o randandan, já que dará 5 mil reais para estudantes de todo o Brasil para que consigam “pagar a entrada de uma moto (...)”. Soraya, a onça direitista, só não pisca mais por suas pálpebras ainda não terem sido privatizadas pelo candidato Felipe D’ávila e esse, por sua vez, só não resolveu a questão do assédio no país por não ter privatizado os corpos das mulheres - inclusive, ouvi dizer que, para ele, pessoas não binárias devem ser geridas por um regime público-privado, o meio termo do projeto neo-liberal.

 

Ciro Gomes, Bolsonaro e Lula foram os três que não me surpreenderam, então vou propor um jogo de adivinhação quem-é-quem: qual deles parece ter as mãos coladas uma na outra? Qual pareceu ter comido uma feijoada antes do debate? Qual deles começou calmo e deu piti?