Após uma década de “Body Positivity”, os tapetes vermelhos estão sendo ocupados com o mesmo padrão de beleza que juravam ter deixado de lado
por
Sofia Morelli Cordeiro
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09/06/2026 - 12h

Desde 2010, a promessa de inclusão se acendeu na indústria da moda, o culto pelos corpos magros ao extremo, muitas vezes chegando a níveis doentios, como o “heroin chic”,  parecia estar enterrado. O Plus-Size ganhou a atenção do público e das marcas e anunciou uma era do que podia constituir como padrão de beleza. Mas agora o mundo deu mais um retrocesso, com o aumento na procura por remédios emagrecimento, como Ozempic e Mounjaro e manequins estreitados novamente. Em entrevista à AGEMT, Mariana (nome fictício), estudante na PUC-SP, conversa sobre o uso há 1 mês de uma caneta emagrecedora, com acompanhamento de sua endocrinologista. “Acho que a gente acaba sempre em um lugar de insatisfação, com o corpo, a aparência. Esses remédios apareceram como um atalho para uma autoestima melhor, uma aceitação interna. Desde que eu comecei a tomar, eu perdi 8 kg em quatro semanas, e eu estou bem, saudável e mais feliz por estar perto da minha meta, sabe?”.

Os medicamentos à base de semaglutida e tirzepatida, Ozempic e Mounjaro, originalmente  foram desenvolvidos para tratar diabetes tipo 2, mas ao serem injetados, simulam hormônios intestinais que aumentam a saciedade e reduzem a fome, por isso acabaram nas mãos do público como uma forma eficiente e rápida para se alcançar a silhueta que a moda voltou a celebrar. Celebridades e influenciadores passaram a atribuir publicamente suas perdas de peso com a menção dessas “canetas” e o uso cosmético desses remédios ganhou um caráter quase banal.

O papel das passarelas nesse ciclo não pode ser subestimado, pois quando a moda celebra um tipo de corpo, ela dá impulso à um efeito cascata que atravessa campanhas publicitárias, redes sociais, conteúdos de beleza e atinge os espelhos de mulheres reais, que olham para esses medicamentos como seres milagrosos por darem a oportunidade de alcançarem o corpo ideal, o mesmo que desfila por suas telas. Foi na década de 1990 que surgiu o termo “Heroin Chic” para definir uma estética que crescia, corpos esquálidos, rostos ocos, olheiras profundas, ossos protuberantes, e dominava as passarelas e as revistas, com a “angel” (apelido das modelos da Victoria's Secret), tendo Kate Moss como pioneira.

O nome já dizia tudo: glamourização de uma aparência associada ao consumo de drogas e à autodestruição. Com o tempo, essa estética foi parcialmente despopularizada, ao menos no discurso público que queria aparentar dar atenção a formas saudáveis de emagrecer, com esporte e alimentação balanceada. Mas ela nunca sumiu de verdade. O desfile da Victoria's Secret era um símbolo central da ideia do “corpo perfeito” no início do século, que por anos teve um grande peso na imaginação da população sobre qual deveria ser a meta feminina. Quando as pessoas pediram uma extensão na visão de quem podia ser uma modelo, atravessando as ideias de curvas, idade e etnia, a marca sofreu.

Esse novo divisor de águas no meado de 2010, afetou audiências e eventualmente, por esses e outros problemas administrativos, o famoso desfile perdeu sua relevância a ponto de ser fechado. Mas em outubro de 2024, o desfile voltou, após seis anos de inatividade, com uma palavra-chave no press-release, “Body Positivity", e no ano seguinte, as propagandas continuavam com a mesma linha. Mas em 2025, assim como em 2024, havia cerca de sete modelos curvilíneas entre 52 modelos no total, com os tamanhos “ plus-size”, para as cabeças por trás desta marca, incluíndo 42-44 BR, que são menores do que o tamanho médio utilizado pelas norte-americanas, entre 16-18 US/50 - 52 BR, de acordo com Debora A.Christel e Susan C. Dunn em seu estudo de 2017, “International Journal of Fashion Design, Technology and Education”. Uma discrepância é revelada quando se compara esses números com o esperado para essas Angels, que devem permanecer entre os tamanhos 0-2 US, ou o 34 BR.

As peças de roupa são uma materialização do retorno da glorificação da magreza. Havia um roteiro bonito sendo construído, a abertura das portas da indústria da moda para todos que quiserem entrar, que acabaria com a ideia persistente de gordura como o maior mal contra as mulheres, mas com esse retorno, fica a dúvida se esse processo era visto, pelas grandes corporações, como uma transformação permanente nesse meio. Era um mundo que parecia à beira da morte para muitos, mas que se mantinha vivo no imaginário de muitas meninas que cresceram com esse padrão em suas telas, sendo alimentadas pelos detalhes que remetiam a essa ideia. “Eu sempre tive uma percepção meio distorcida do que é magreza, mas mais por conta dos filmes e séries que eu assistia quando pequena. Eu lembro da Britney Spears sendo considerada gorda numa apresentação, no começo dos anos 2000, saiu em tudo quanto é lugar a gordurinha que apareceu no jeans dele, era algo que deveria ser normal, mas  entrou nas cabeças das garotinhas assim”, conta Mariana.

O mundo das passarelas e tapetes vermelhos estarem fechando seus olhos e valorizando novamente essa ideia de magreza extrema, pode ser o combustível para o aumento de comportamentos, em relação a saúde, devastadores, como distúrbios alimentares, distorção imagética e oscilações de humor, além de reforçar uma abordagem de olhar para os corpos para uma nova geração de garotas mais jovens e suscetíveis a essas manipulações. 

Imagem de capa: Fonte: https://drconsulta.com/conteudo/mounjaro/ Imagem ilustrativa das canetas "emagrecedoras"

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Especialistas alertam que os prejuízos, que vão muito além das perdas financeiras, podem comprometer relações familiares
por
Renata Bittar
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08/06/2026 - 12h

As apostas online se tornaram parte da rotina de milhões de brasileiros, mas o crescimento acelerado das chamadas bets também tem levantado preocupações sobre seus impactos financeiros e psicológicos. Dados do Ministério da Saúde apontam aumento na procura por atendimento relacionado à dependência em jogos, enquanto especialistas alertam para os riscos da compulsão, do endividamento e da falsa percepção de ganhos fáceis. Em entrevista à AGEMT, o psicólogo Renan Afonso e a advogada e presidente da ANVINT, Tanila Savoy, explicam como funciona o mecanismo que pode levar ao vício em apostas, quais são os direitos dos consumidores e os limites da responsabilidade de empresas, influenciadores e plataformas digitais. Confira o podcast clicando aqui! Em caso de emergência, disque 188 para falar com o Centro de Valorização à Vida (CVV). 

 

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Navio de expedição saiu no início de abril do Ushuaia, na Argentina, com destino a Cabo Verde
por
Juliana Bertini de Paula
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26/05/2026 - 12h

Um surto causado por uma cepa rara do hantavírus, Andes, transmitida entre humanos, atingiu um navio de cruzeiro que partiu no dia primeiro de abril de Ushuaia, na Argentina. Atualmente, já são três as mortes registradas, sete casos confirmados e dois casos suspeitos entre os 149 passageiros. O destino final seria Cabo Verde, mas por conta do risco sanitário e a falta de estrutura, o navio seguiu para as Ilhas Canárias em Tenerife, após ficar três dias à deriva. 

Início do surto

Cinco dias após o embarque, um passageiro holandês apresentou os primeiros sintomas da hantavirose. Seis dias depois, em 11 de abril, ele faleceu a bordo. Devido às condições do cruzeiro, seu corpo só pôde ser retirado 13 dias depois, quando o navio atracou na remota ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul. 

Durante esse período, a esposa do passageiro também apresentou sintomas compatíveis com a doença e dois dias após o desembarque, a holandesa também faleceu, já na África do Sul.

Especialistas indicam que o "paciente zero" provavelmente contraiu o vírus ainda em solo argentino. O Prof. Marcos Vinicius da Silva, médico coordenador do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e consultor do Ministério da Saúde, explicou à AGEMT a dinâmica do evento: "A provável causa do surto foi algum dos passageiros durante um passeio, em terra, foi infectado com o Hantavírus Andes, transmitido por algum roedor silvestre e tenha levado e disseminado o vírus para os outros passageiros e tripulantes".

O que transforma o caso do navio em uma emergência de saúde pública global é a biologia da variante Andes. Embora a grande maioria das cepas de hantavírus demande a inalação de partículas de fezes ou urina de roedores contaminados, o vírus Andes possui a rara capacidade de ser transmitido com o contato próximo e prolongado de pessoa para pessoa. Ou seja, o ambiente fechado do cruzeiro funcionou como um acelerador para a propagação da doença. 

Cruzeiro de luxo MV Hondius em expedição polar. Foto: Divulgação/Oceanwide expeditions
Cruzeiro de luxo MV Hondius em expedição polar. Foto: Divulgação/Oceanwide expeditions

 

Evacuação e repatriação

Atracado em Tenerife, o MV Hondius concluiu a evacuação de passageiros e tripulantes. O último grupo, formado por seis passageiros e parte da tripulação, desembarcou no dia 11 de maio antes de seguirem para a Holanda, em voos organizados pelas autoridades holandesas. Após a operação, o navio deixou as Ilhas Canárias rumo aos Países Baixos, levando apenas uma equipe reduzida, além de profissionais de saúde, para passar por um processo de descontaminação e limpeza completa. 

Os viajantes já repatriados seguem em processo de quarentena em seus respectivos países. O protocolo está baseado no longo período em que o vírus pode permanecer "silencioso" no organismo. "As medidas de isolamento dos passageiros e tripulantes já foram tomadas, aguarda-se o período máximo de incubação da doença, que é de seis semanas, com observação médica e sanitária contínua dessas pessoas", esclarece o especialista.

 

A doença

A letalidade da infecção explica as decisões extremas de navegação. Originalmente com destino a Cabo Verde, o desembarque foi negado pelo país africano por conta da falta de infraestrutura local para o suporte médico de alta complexidade, exigido para conter a doença. Isso deixou a embarcação à deriva no oceano Atlântico até que a rota para a Espanha fosse aprovada.

A evolução dessa síndrome é frequentemente fulminante, exigindo intervenção imediata e equipamentos de biossegurança de nível máximo. "O quadro clínico se torna grave logo no início da doença e requer tratamento em unidade de terapia intensiva e com medidas de barreira para isolamento, diminuindo o risco de transmissão para os profissionais de saúde que atendem o paciente", explica ainda o Dr. Marcos Vinícius.

O alerta para a gravidade da hantavirose se dá, em grande parte, pela forma como os primeiros sinais aparecem, muitas vezes confundidos com outras infecções menos severas, antes de evoluírem rapidamente para uma emergência médica. Nos estágios iniciais, os infectados pela cepa Andes costumam apresentar sintomas semelhantes aos de uma forte gripe, como febre, calafrios, dores musculares intensas especialmente na região lombar, ombros e coxas), além de fadiga profunda, dores de cabeça, náuseas e vômitos. 

Imagem microscópica do vírus da hantavirose. Foto: Divulgação/CDC
Imagem microscópica do vírus da hantavirose. Foto: Divulgação/CDC

O cenário da doença, contudo, deteriora-se de forma abrupta na transição para a fase cardiopulmonar. Em questão de poucos dias ou até horas, o paciente passa a sofrer com tosse, falta de ar severa e acúmulo rápido de líquido nos pulmões (edema pulmonar). O quadro culmina em insuficiência respiratória e colapso do sistema cardiovascular. É essa progressão fulminante que justifica a necessidade crítica de leitos de UTI com suporte de vida avançado - o que motivou a busca desesperada do cruzeiro por um porto estruturado. 

 

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Demora no atendimento transforma a espera por saúde em sofrimento diário para milhões de brasileiros.
por
Alice Begnini
Lawanny Nasc
Rafaella Lalo
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21/05/2026 - 12h

O Brasil possui um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece diversos serviços gratuitos à população. Criado para garantir acesso universal à saúde, o sistema atende cerca de 76% dos brasileiros exclusivamente pela rede pública. Porém, as queixas sobre o longo tempo de espera aumentam diariamente, causando indignação em quem depende do atendimento.

Apesar dos avanços anunciados pelo governo federal, a realidade ainda é marcada pela demora. Dados do Ministério da Saúde mostram que, entre 2022 e 2024, o número de cirurgias eletivas realizadas pelo SUS aumentou 32%, chegando a 13,6 milhões em 2024, o maior número da história do sistema. O governo também ampliou o Programa Nacional de Redução das Filas, que recebeu R$ 1,2 bilhão em investimentos no último ano.

Além disso, programas como o “Mais Acesso a Especialistas” foram criados para diminuir o tempo de espera em áreas críticas, como cardiologia, oncologia e ortopedia. O SUS também é responsável por cerca de 85% dos transplantes realizados no Brasil e possui um dos maiores programas públicos de vacinação do mundo.

Em entrevista, o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto destaca que, apesar das dificuldades atuais, o SUS foi fundamental para melhorar as condições de vida da população brasileira nas últimas décadas. Segundo ele, avanços como o acesso à água tratada e melhorias na saúde do trabalhador contribuíram para o aumento da expectativa de vida no país.

Mas os números não conseguem medir o peso da espera.

“Não existe atendimento imediato em nenhum sistema de saúde do mundo”, ressalta Vecina. Para ele, o principal problema não está apenas na existência das filas, mas na maneira como elas são administradas. O médico critica a falta de integração entre estados e municípios e afirma que a má gestão das filas acaba aumentando ainda mais a demora no atendimento. “Nós não temos tido uma resposta mais efetiva do Estado”, disse.

Gonzalo também aponta falhas na integração entre municípios e estados. “As filas são muito mal administradas”, declarou. Segundo ele, pacientes entram em diferentes sistemas de regulação ao mesmo tempo e muitas vezes não cancelam consultas já marcadas, causando desperdício de vagas e aumento da demora.

Mas os dados ainda não mostram madrugadas em corredores de hospital, famílias implorando por exames ou pacientes vendo sintomas simples se transformarem em doenças graves. Também não mostram histórias como a de José Francisco da Silva.

Morador de Embu das Artes, na Grande São Paulo, José Francisco, de 62 anos, aposentado por invalidez e sem instrução, sofria de reumatismo reumatoide quando começou a passar mal e foi levado a uma unidade de saúde com pneumonia. Após ficar internado por apenas 24 horas, recebeu alta. No dia seguinte, piorou. A partir dali, começou uma rotina marcada por tentativas desesperadas de conseguir atendimento.

O quadro de pneumonia piorou com uma infecção urinária e depois evoluiu para sepse, uma infecção generalizada. Segundo a filha, Cleonice Reis, a família precisava insistir constantemente para que o estado de saúde do pai fosse atualizado na Central de Regulação de Oferta de Serviços de Saúde (CROSS), sistema responsável pela transferência de pacientes entre hospitais do estado. “A gente entrou em guerra para tentar salvar meu pai”, relata.

Após dias de espera, José conseguiu uma vaga no Hospital Geral de Guarulhos. Para chegar até lá, a família precisou recorrer a conhecidos e políticos para conseguir uma ambulância, já que o transporte não havia sido disponibilizado pelo SUS.

No novo hospital, o quadro clínico foi estabilizado. “Hospital maravilhoso, não tenho o que falar”, afirmou Reis. Ainda assim, a família enfrentou novas dificuldades para conseguir transporte com oxigênio e exames básicos. Segundo ela, o aparelho de tomografia da unidade onde o pai estava internado permanecia quebrado havia anos.

Poucos dias depois de voltar para casa, José passou mal novamente. Esposo, pai de duas filhas e avô de seis netos morreu no pronto socorro. “Nós familiares nos sentimos indignados. A gente paga nossos impostos e, quando precisa, fica à mercê”, disse.

Enquanto famílias enfrentam longos períodos de espera, profissionais da saúde também convivem com os impactos da superlotação. Aparecida do Amparo, enfermeira da Unidade de Pronto Atendimento do bairro Cohab II, em Carapicuíba, na região metropolitana de São Paulo, afirma que muitos pacientes chegam às UBSs com sintomas leves, mas acabam piorando devido à demora para conseguir especialistas. “Já tive contato com pacientes que, devido à demora, acabaram tendo a doença agravada, sem condições mais de fazer o tratamento”, explicou.

Ao analisar o impacto dessa realidade, Gonzalo Vecina afirma que a demora no SUS também revela desigualdades profundas do país. “A desigualdade é a grande doença da sociedade brasileira”, declarou. Para o médico, a saúde não pode ser analisada separadamente das condições de moradia, alimentação, trabalho e acesso básico à dignidade.

Mesmo diante das dificuldades, Aparecida afirma continuar acreditando no sistema público de saúde. “O que motiva a gente é saber que pode aliviar o sofrimento dos pacientes.”

Manifestação sobre saúde pública
Manifestação sobre a falta de gestão na saúde pública. Foto: Pexels.com

 

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Médicos poerão prescrever o medicamento para pacientes com mais de 10 anos
por
Vitória Teles
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30/04/2026 - 12h

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou na quarta-feira (22) o uso de canetas com o princípio ativo da Tirzepatida para crianças e adolescentes que possuem diabetes tipo 2. Antes, o uso só era possível para adultos diagnosticados com diabetes e para tratamentos contra obesidade. Agora, jovens a partir de 10 anos também poderão utilizar com prescrição médica. 

As canetas imitam um hormônio do corpo chamado Glucagon-like peptide-1 (GLP-1), que ajuda a controlar o açúcar no sangue, diminuir o apetite e retardar a digestão, levando à perda de peso. A decisão da Anvisa surgiu a partir de um grande índice de crianças que sofrem com obesidade e diabetes, já que o Brasil é quarto país no mundo com crianças e adolescentes, de 0 a 19 anos, com diabetes tipo 1, podendo evoluir para o tipo 2. No ranking dos países com mais pessoas que possuem essa condição, o Brasil é o sexto no mundo, segundo dados de 2025 da 11ª edição do Diabetes Atlas, divulgado pela Federação Internacional de Diabetes (IDF).

No ranking de casos de crianças com diabetes tipo 1, o Brasil fica atrás apenas de Índia, Estados Unidos e China. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
No ranking de casos de crianças com diabetes tipo 1, o Brasil fica atrás apenas de Índia, Estados Unidos e China. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Ao mesmo tempo que esse uso específico foi aprovado, a Anvisa também proibiu canetas irregulares vendidas pela internet, já que o orientado é apenas o uso com prescrição médica, além de aumentar a fiscalização e exigir regras mais rígidas para a manipulação.

Apesar de ser um caminho eficaz, que apresenta bons resultados, há também controvérsias. Partindo do ponto de vista socioeconômico, muitas famílias sofrem com diabetes tipo 2, em níveis avançados, e não possuem renda para investirem em tratamentos como as canetas emagrecedoras, que tem um valor bastante elevado no mercado, custando entre R$1.400 a R$2.400, podendo variar de acordo com a farmácia. 

Em entrevista à AGEMT, a nutricionista Juliane Pacheco, que atua no mercado nutricional há mais de 6 anos, enfatizou que a Tirzepatida possa sim ser uma boa alternativa para tratar dessa patologia, apesar do medicamento estar muito banalizado no Brasil para fins estéticos e não apenas para tratamento de obesidade. “Para as crianças, é essencial que a medicação seja utilizada apenas com indicação médica e tenha acompanhamento com uma equipe multidisciplinar”, comenta a profissional. 

Sobre os efeitos colaterais na vida das crianças, como náuseas, diarreias e vômitos, Juliane afirma que é necessário fazer a indicação com muita cautela e não banalizar o uso para todas as crianças e adolescentes. Segundo a profissional, a alimentação também é um caminho que traz bons resultados para o tratamento de diabetes, mas que também requer atenção e cuidado. “O que fará mais diferença é a presença dos pais durante todo o tratamento. No final, são eles que compram os alimentos para seus filhos e preparam as refeições, então se não tiver um cuidado, a diabetes não é tratada”, afirma.

 

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Um retrato de como esse vírus pode ter sofrido mutação será fundamental para pesquisas futuras
por
Ana Beatriz de Souza, Guilherme do Nascimento Tedesco Sanches, Giuliano Guimarães Formoso, Henrique Soto Lopes, Liana Ruiz
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02/07/2020 - 12h

 

Pesquisadoras da Universidade Federal de Santa Catarina divulgaram, na tarde desta quinta-feira, os resultados de uma pesquisa que identificou partículas do coronavírus, Sars-CoV-2, em duas amostras do esgoto de Florianópolis. Em entrevista coletiva, acompanhada de São Paulo pela Agemt, as professoras  Gislaine Fongaro (Laboratório de Virologia Aplicada – LVA/UFSC), Patrícia Hermes Stoco (Laboratório de Protozoologia/UFSC), e Maria Elisa Magri (Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental), autoras da pesquisa  "SARS-CoV-2 in human sewage in Santa Catarina, Brazil, November 2019" relataram a presença do vírus no material avaliado.

Por meio da análise do esgoto retroativo, isto é, congelado, o estudo concluiu que partículas do vírus já circulavam no país em 27 de novembro de 2019, dois meses antes do primeiro caso clínico ser apresentado no Brasil.

A hipótese para a chegada do vírus, segundo as pesquisadoras, é de que anteriormente já existiam casos no mundo que ainda não haviam sido identificados. “O vírus circulava antes mesmo de termos ciência de sua rotina em pacientes”, explicou Gislaine Fongaro.

Daiane Mayer/Estagiária de Fotografia da Agecom/UFSC
Foto: Daiane Mayer/Estagiária de Fotografia da Agecom/UFSC

Esse é o primeiro estudo realizado nas Américas em relação à pesquisa do esgoto retrospectivo. Estudos feitos anteriormente em Wuhan (China) e em Murcia (Espanha) comprovaram que o vírus já era encontrado no esgoto antes de haver casos confirmados de pessoas infectadas.

Segundo a pesquisadora Maria Elisa Magri, a prática de coleta de esgoto e análise é algo comum e corriqueiro nos estudos, “a gente faz muitas pesquisas com esgoto sanitário, na universidade inteira. Inclusive no nosso próprio departamento e no de engenharia química”. Ela ainda complementa que isso pode impactar na descoberta de uma presença de outras doenças antes mesmo do primeiro caso oficial nessas redes de esgoto.

Os resultados possibilitam a tentativa de sequenciar o genoma completo das partículas. As amostras chegam ao laboratório e, como o vírus está diluído em uma matriz ambiental que contém água e sedimentos, são concentradas para que as partículas virais sejam identificadas mais facilmente. Estas seguem para a extração do material genético e posteriormente faz-se o estudo para encontrar o genoma do vírus. “Com o sequenciamento, há a tendência de se fazer comparações com resultados anteriores para tentar encontrar a origem do vírus”, completa Gislaine.


Questionadas sobre a possibilidade de essas partículas virais contaminarem pessoas que possuem maior contato com esgoto a céu aberto e sem tratamento, Gislaine explicou que o vírus é envelopado e, portanto, mais sensível e suscetível à degradabilidade, por ser revestido por uma camada de gordura. Contudo, a pesquisadora ressalta que os teste realizados não conseguem indicar o grau de infecção do vírus, mas que “em termos gerais os vírus envelopados não têm longas durabilidades em esgoto sanitário”. 

Daiane Mayer/Estagiária de Fotografia da Agecom/UFSC
Foto: Daiane Mayer/Estagiária de Fotografia da Agecom/UFSC

Gislaine ressalta que a pesquisa é importante para entender possíveis alterações no vírus. “É importante conseguir esse estudo filogenético, que é um retrato de como esse vírus pode ter sofrido mutação. O quanto eles se assemelham e se diferem. E isso vai abrir portas para outros estudos também.

Aureo Moraes, chefe de gabinete da Reitoria da UFSC, elogiou o trabalho das pesquisadoras: “Parabéns, em nome do Reitor Ubaldo Balthazar, e de toda a Universidade, ao trabalho de tantos e tão dedicados profissionais, docentes, pesquisadores e pesquisadoras. Uma resposta inequívoca do quanto as Instituições Públicas têm se dedicado nas ações de combate à pandemia. A UFSC não está parada!!”

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Casos ficaram mais graves e especialistas apontam dificuldades para consultas presenciais e crise econômica como fatores a serem observados
por
Rafaela Reis Serra
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26/06/2020 - 12h

São Paulo  Os casos de doenças mentais pioraram neste período de isolamento segundo uma pesquisa feita pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Pessoas que antes da pandemia não apresentavam quadros psiquiátricos ou que já haviam recebido alta, foram em busca de ajuda médica especializada.

“Os pacientes ficaram mais graves, principalmente os que estavam começando a fazer tratamento. Pessoas que não tinham sintomas passaram a apresentá-los, porém não é a maioria.”, conta a psiquiatra Alice Baltar, 40.

Há o problema da contenção de gastos: as pessoas não estão indo às consultas e quando procuram ajuda, elas estão no extremo. “O aumento de novos casos não foi significativo, a ida aos médicos em geral diminuiu”, relata.

Psiquiatra Alice Baltar
A psiquiatra Alice Baltar faz consultas de sua casa


“Às pessoas com a vida social mais restrita, só o isolamento não é o problema. Já as mais ativas estão sofrendo de insônia. A maioria dos casos mais alarmantes são das pessoas que apresentam Transtorno do Pânico ou depressão e com outros problemas concomitantes.” A psiquiatra chega a atender um mesmo paciente mais de uma vez ao dia.

Baltar se sente sobrecarregada. Ela tem uma responsabilidade maior por conta dos casos e, além disso, agregou-se os serviços domésticos.

A psiquiatra também atende voluntariamente profissionais da saúde que estão atendendo a Covid-19. Alguns deles não apresentavam sintomas antes da pandemia e agora passaram a manifestar.

Psicóloga há vinte anos, a Dra. Maria Marta Silva, 51, auxilia seus pacientes para que possam encarar os limites que a pandemia lhes causou. A maioria deles estão em processo terapêutico há mais de doze meses e seus desempenhos têm sido satisfatórios. “Acredito que eles estão acostumados a olhar para si e ressignificar pensamentos e crenças desviantes.”

Para ela, por um lado não está sendo fácil, porque gosta da liberdade e do contato social. Em contrapartida, a psicóloga afirma estar muito bem e não deveria queixar-se: “p
ode parecer estranho, até porque temos o hábito de reclamar e pensar somente em coisas negativas e nunca no positivo. Seria injusta com o universo.”

Somente uma nova paciente precisou de ajuda psiquiátrica e outro voltou a ser medicado. “Todos somos humanos e carentes de sociedade. Está tudo bem!”, declara.

Segundo Silva, sua agenda sempre esteve cheia para a proposta de seu trabalho. Apenas quatro pacientes desistiram neste período e outros vieram a somar. Alguns optaram aguardar por uma possível desistência.


Embora não esteja atuando na linha de frente dos diversos trabalhos essenciais, ela auxilia os pacientes transmitindo leveza, técnicas de relaxamento e mostrando um pouco da realidade. Por tratar cinquenta pessoas por semana – desde médicos de grandes hospitais a motoristas de ônibus - ela precisa encontrar-se bem, para o ciclo continuar a funcionar, como também mantém um trabalho filantrópico todos os domingos de cunho religioso com os jovens.

Psicóloga Dra. Maria Marta Silva
A Dra. Maria Marta Silva na International Conference on Adolescent Medicine & Chile Psychology (Omics) - Acervo Pessoal


Para a estudante de psicologia do 7º semestre da PUC, Natália Gonçalves, 20, o momento atual a deixa apreensiva, pois não há perspectiva do futuro. “Eu tenho um pouco de esperança de que a psicologia clínica seja mais valorizada depois da pandemia, porque é um momento em que as pessoas estão percebendo que saúde mental é muito importante em todos os aspectos da vida.”

Ela espera que seus futuros colegas de profissão tenham percebido o quão urgente é o debate da elitização da psicoterapia. “Durante essa pandemia, surgiram muitas iniciativas de atendimento online gratuito, que deveriam existir há tempos, e se fez presente o debate sobre essa necessidade na área em que pretendo atuar: psicologia social.”

A respeito de dicas para este momento em que a população se encontra, Baltar aplica as recomendações da OMS para guerras e epidemias e incentiva as pessoas a fazerem uma rotina, atividades físicas, ter alimentação saudável e um sistema de Buddy – amigo para conversar. De acordo com Silva, as pessoas devem respeitar seus próprios limites, pensar nos próprios sonhos e fazer planejamentos realistas para esta fase.
“Acredito que algumas pessoas precisem estar mais próximas de si. Por isso temos a quarentena, um período para desacelerar.

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Em meio à pandemia Covid-19, pessoas se mobilizam para ajudar portadores de depressão através da tecnologia
por
Lincoln Oliveira de Castro
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25/06/2020 - 12h

No momento em que todos os holofotes estão virados para o coronavírus, outra doença, altamente letal é deixada de lado. Pelos números da Organização Mundial da Saúde, 300 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de um mal silencioso que pode levar à morte: a depressão.

             Normalmente, quando alguém fala que está em depressão, muitos acabam não levando a sério e tratam apenas como um momento de tristeza. Aí que as pessoas se enganam. Segundo a psicóloga Mariana Caciaccaro, Presidente da Associação de ex-alunos e famílias de terapia da PUC-SP, o humor deprimido é diferente de depressão, que é multifatorial.

            Silenciosa e traiçoeira, a doença possui três desencadeadores. O biológico, que é passado dos pais para os filhos, o sociológico, que vai desde a mudança brusca das condições financeiras até o bullying e o psicológico, que envolve traumas, ansiedade crônica, estresse crônico e outros distúrbios. No Brasil, já é considerada o “mal do século”, alcançando mais de 5,8% da população, taxa considerada acima da global(4,4%).

Visto que neste transtorno as pessoas se sentem solitárias e podem até cometer suicídio, é necessária uma atenção especial. É o que dizem os terapeutas. Para Valéria Meirelles, terapeuta formada em psicologia na PUC-SP: “É necessário ter muito cuidado, entender a história deles. O depressivo é atendido de duas a três vezes por semana, sempre acompanhado de um psiquiatra. O meu trabalho como terapeuta é mostrar à pessoa que ela ainda pode ser útil.”.

Além do trabalho terapêutico, existem plataformas online que também dão suporte às pessoas com estes problemas e atendem 24 horas por dia. É o caso do Centro de Valorização da Vida e o entre laços.

Com a chegada do novo coronavírus, a depressão passa por uma nova etapa. Não há mais aquele abraço, aquele beijo. Enquanto ficar em casa protege da pandemia, alerta para o aumento dos casos de depressão e, consequentemente, de suicídio. Neste intuito, a tecnologia vem se mostrando essencial na adoção de novas medidas.

Recentemente, André Fernandes, um pastor e influenciador digital, lançou um aplicativo para dar suporte online contra a depressão em tempos de COVID-19. O aplicativo que tem como objetivo atuar no combate à depressão, ansiedade e suicídio (segundo maior causador de mortes entre jovens entre 15 e 29 anos em todo mundo), dá suporte 24 horas por dia, sete dias por semana. Em entrevista ao portal UOL, o pastor disse o seguinte: “Em um momento em que todos se voltaram para o número de mortes causadas pela pandemia do COVID-19, não podemos esquecer que, comprovadamente, o suicídio causa mais mortes no mundo do que as guerras e epidemias. Além disso, precisamos pensar no consequente abalo emocional que situações como a que estamos vivendo nesses tempos [AQ1] podem gerar para a sociedade como um todo.”.

Seguindo a mesma linha do pastor e influenciador digital, outros também vêm demonstrando solidariedade e ajudando pessoas. No caso de Tomás Levy, estudante e atleta de remo do Sport Club Corinthians Paulista, a ideia foi criar um canal no instagram para contar um pouco de como lida com o preconceito por ser portador da síndrome de tourrete, doença que carrega desde os quatro anos: “Sempre tive muita vontade de gravar os vídeos, mas sempre tive muita vergonha. É muito vergonhoso sentir este preconceito, porém temos uma chave para desconstruí-lo e a minha foi essa, contando a minha história e ajudando as pessoas.”.

Para a psicóloga Valeria Meirelles, qualquer medida preventiva contra a depressão é valida: “Todas as medidas preventivas contra a depressão são importantes. Todo canal que dá voz a uma angústia é importante.”.

No entanto ela ressalta para os perigos das redes sociais:

“As redes sociais, por darem voz a essa angústia são muito boas, mas, ao mesmo tempo são muito ruins. Tem que ser muito criterioso com o que você lê e bloquear as pessoas que não te agradam.”.

            Ainda que existam pessoas se movimentando em prol de outras que necessitam, “fazendo o bem sem ver a quem”, falta muito para que a discussão sobre a depressão e o suicídio chegue ao nível ideal. É a opinião da psicóloga Mariana Cacciacaro: “Na faculdade de psicologia tem sido feito muito com relação a isso. Em Setembro, a PUC fez algumas discussões na semana do Setembro Amarelo, no entanto, neste período de pandemia, vemos que este assunto está chegando muito mais nos profissionais da área do que nos pacientes.”.

            Ela ressalta que para que a discussão chegue ao ideal, é indispensável um aumento da consciência pública: “Assim como a discussão do uso da camisinha, a depressão precisa ter um aumento de consciência pública. Isso precisa ser levado para pessoas de menor renda em maior número, e de uma maneira que todos entendam como funciona.”.

            A depressão não é brincadeira, quando uma pessoa fala que está com a doença, por mais que depois de dito não seja diagnosticado, ela merece toda a atenção e ajuda. Quando atinge o ponto extremo, leva as pessoas a se suicidarem. Por ano, segundo a Organização Pan-Americana de Saúde(OPAS) e a Organização Mundial de Saúde(OMS), mais de 800 mil pessoas tiram as suas vidas, ou seja, essa discussão precisa de mais debates, mais consciência pública e, principalmente, ser levada a sério.  


 

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Em meio à pandemia do coronavírus, estudantes relatam crises diárias e ansiedade; psicólogos destacam um grande desafio
por
Raphael Dafferner Teixeira
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23/06/2020 - 12h

Desde a declaração da quarentena por parte do governador de São Paulo, João Dória (PSDB), no dia 22 de março, as aulas presenciais foram paralisadas. Assim, em aulas EAD, os estudantes têm enfrentado diferentes dificuldades.

Foto João Fernando Cruz Fernandes

O estudante João Fernando Cruz Fernandes, 18, relatou que, o mês de abril, foi o pior de todos: “Nessa época, eu tive ao menos uma crise por dia”. O morador do bairro Parque Continental, zona oeste de São Paulo, acha que o vestibular que fará no final do ano tem sido um dos maiores responsáveis, além de não poder ver seus amigos, não sair de casa e ir à academia, atividades que faz com frequência. 

Fernandes considerou que este seu temor de não passar no vestibular, além da própria pressão que já está envolvida no processo, tem uma grande relação com seu relacionamento familiar: “Meu pai me bota muita pressão”.

Aliviado, se considera melhor psicologicamente em comparação com abril e maio. Sua última grande crise foi quando comemorava seu aniversário, dois dias antes da data na verdade, no dia 24 de maio, quando seus pais, irmãs e sua namorada fizeram uma “mini festa surpresa” para ele. Porém, Fernandes confessou que não conseguia sentir felicidade: “Eu não conseguia parar de chorar”.

Contudo, os já matriculados na universidade têm dificuldades completamente diferentes. Para Fernanda Malagrino Galvão, 18, estudante de psicologia na PUC-SP, os estudos não são um peso. Muito pelo contrário, têm ajudado muito: “Estou adorando estudar. Amo fazer os trabalhos”, afirmou entusiasmada. Porém reconhece seu privilégio de já estar em uma faculdade: “Se eu fosse prestar vestibular no fim do ano, eu não aguentaria”.

A estudante ainda considera que estudar psicologia em um momento em que a saúde mental é uma questão, tem a ajudado a levar melhor esse problema: “O que a gente está aprendendo tem tudo a ver com o que está acontecendo agora”.

Foto Fernanda Malagrino Galvão

Galvão está desde o dia 2 de abril na casa de sua família em São Sebastião, litoral Norte de São Paulo. A estudante da PUC se considera bem psicologicamente “minha saúde mental continua a mesma de antes da pandemia”, disse. A jovem está dividindo a casa com mais nove pessoas, atualmente, algo que a ajudou muito: “Estar com muitas pessoas ajuda muito, na verdade. Quando eu estava em São Paulo, eu sentia que a casa estava sempre vazia, eu me sentia mais sozinha”, e ainda completou: “Interagir com mais pessoas diminui um pouco esta angústia”.

Durante o mês de março, quando ainda estava em seu apartamento no Alto de Pinheiros, zona oeste de São Paulo, Galvão dizia se sentir muito angustiada. “Caminhava para um ‘cenário ruim’”, confessou.

Quando estava em São Paulo, a universitária disse que as notícias a afligiam “eu chorei lendo algumas”, desabafou.

Para a psicóloga que já trabalha há oito anos na Escola Vera Cruz, Maria Teresa Oliveira Lima, 57, os adolescentes, mais do que nunca, enfrentam um desafio enorme: “Já são mais de 80 dias! E 80 dias sem ver os amigos, ir à escola, sentir o vento no rosto, para os adolescentes, é muito tempo!”, disse. Porém, Oliveira ressalta a diferença entre cada um, dizendo que alguns respondem melhor que outros: “É um problema global, mas cada comunidade, cada pessoa é afetada pela pandemia de uma forma”.

Além disso, Oliveira ressaltou que os jovens são afetados de maneira diferente que os adultos, o que acaba tendo um impacto psicológico muito grande: “Justamente no momento em que estão ‘ganhando a cidade’ perdem o direito a Ela”.

Apesar das dificuldades, a psicóloga formada pela PUC-SP avalia que não teve um número maior de conversas com os alunos agora do que presencialmente, mas “com certeza elas incluíram temas novos”, e reiterou ainda a importância de os jovens terem alguém para desabafar com durante um momento como esse.

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por
Isabella Candido
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27/05/2020 - 12h

A nova rotina em meio à pandemia de Covid-19 não está sendo fácil  e aprender a lidar com isso tem sido um processo gradual. Mais do que a responsabilidade de se precaver para não atingir os mais vulneráveis, é preciso ter consciência para identificar situações que representam privilégios e reconhecer que a vulnerabilidade não está ligada somente à saúde das vítimas, mas às desigualdades em que  elas estão inseridas.

Quando se pensa que a primeira morte no Rio de Janeiro foi de uma empregada doméstica, cuja patroa, além de não considerar necessária uma dispensa remunerada para o isolamento, também não informou que poderia estar contaminada pelo vírus, fica evidente que  as complicações da doença têm endereço e alvo certo. Entretanto, tem sido comum  o discurso de que “estamos todos no mesmo barco”. Realmente, o vírus pode atingir a toda e qualquer pessoa. Mas a realidade é que ele vem sendo muito mais danoso para as pessoas de baixa renda e as comunidades em que vivem. As periferias do Brasil são as regiões mais vulneráveis nessa pandemia, onde os moradores vêm vivendo em situação de risco e fácil contaminação, sem as condições essenciais para cumprir as recomendações de higiene.  

Até agora, o distrito com maior número de mortes por Covid-19 ou por suspeita da doença na capital paulista é a Brasilândia. A região teve um total de 156 mortes contabilizadas pela prefeitura até o dia 16 de abril. No início do mês, eram 103 óbitos, mas nos últimos 15 dias houve um aumento de 53% no número. Uma média de 53,5 mortes por cada 100 mil habitantes. Apesar disso, pouco se ouve de medidas de assistência que possam ser realmente efetivas para a  população das favelas.

Moradores apontam o não cumprimento das medidas de preveão e isolamento como um fator para o agravamento da situação. Os famosos bailes de rua continuam sendo realizados, atraindo muitos jovens que, em outros momentos, também se reúnem com os amigosExistem comércios não essenciais funcionando normalmente e uma grande movimentação nas ruas. Outro fator influente é a desinformação. Boatos e fake news se disseminam enquanto informação de qualidade não chega para todos.

Embora haja casos de  desrespeito ao isolamento, a maioria das pessoas estão na rua por necessidade. Para muitos, é preciso ir para o corre para sobreviver a essa pandemia. Ninguém pode se dar ao luxo de parar. Se parar, não come, não paga aluguel, não compra remédio e nem vive. Quem anda  pelo bairro vê gente como se não houvesse isolamento algum. Os hospitais estão saturados e já atingiram sua capacidade máxima de atendimento. E, com isso, ter acesso à saúde está cada vez mais difícil.

Quando se tem uma casa bem estruturada e acabada, com mais de um cômodo, comida na mesa, brinquedos, aparelhos eletrônicos, uma boa rede de Wi-fi e uma TV com vários canais, cumprir à risca a medida de isolamento não é tão difícil assim. Mas como pedir para várias pessoas dividindo um único cômodo, sem conforto ou distração alguma, sem alimento e elementos básicos de higiene, ficarem em casa? Centenas de jornais estão noticiando o movimento nas favelas. Mas só quem vive na periferia sabe que muitas vezes é na rua que se encontra aquilo que deveria  ter em casa.

Enquanto as soluções propostas pelo governo não conversam com a realidade da periferia,  várias ONGs vêm fazendo um grande trabalho para dar auxílio a essas comunidades. Na Brasilândia, institutos como o Adê Ferreira e as ONGs Sou da paz e Amigos do Gordão estão realizando ações para evitar que se aumente ainda mais o contágio e ajudar as famílias afetadas pela Covid-19.

“Isolamento social, home office e álcool em gel têm sido importantes para impedir que o vírus se espalhe ainda mais. Mas a dificuldade é bem maior para quem não pode levar o expediente para dentro de casa, quem está sem recursos para compra de kit de higiene pessoal, ou quem precisa dividir um só cômodo com a família inteira”, afirmou Lucas Ferreira da Silva, diretor do Instituto Adê Ferreira.  

Em entrevista concedida à Agemt no dia 24 de abril, Silva contou  que grande parte da população da Brasilândia ainda estava à espera do auxílio emergencial anunciado pelo governo. Muitos não têm acesso à internet ou enfrentam dificuldades para lidar com ela, o que dificulta o processo, resultando na aglomeração nas portas das unidades da Caixa Econômica na região.

Ao passo que o Covid-19 avança nas periferias, aumentam também as internações e mortes da população negra. Dados do boletim epidemiológico do Ministério da Saúde divulgado no dia 18 de abril apontam que 54,8% dos óbitos registrados são de pessoas negras e pardas. É impossível se falar da relação da pandemia com a desigualdade social sem levar em consideração as questões raciais que são um elemento fundamental na pobreza da população.

Em um efeito sistêmico de séculos de discriminação e racismo, as pessoas negras são maioria da população de baixa renda e, consequentemente, as mais afetadas direta e indiretamente pelo vírus. Uma grande parcela não foi liberada de seu emprego ou é trabalhador informal, por isso se expõe para obter o sustento da família. Muitos vivem em condições precárias, com dificuldade no acesso à saúde pública e sem os recursos básicos para se prevenir do vírus.  

“Muita gente morrendo, pois os leitos dos hospitais próximos estão cheios. Se fôssemos esperar pelo setor privado ou pelo governo, mais vidas seriam perdidas.Temos que agradecer a iniciativa dos moradores que estão tomando a frente, buscando parcerias para entrega de cestas e materiais de higiene pessoal”, acrescentou Silva.

Diante do descaso do Estado e das circunstâncias em que a população das periferias do Brasil vem vivendo após a chegada do vírus, a pandemia tornou explícita a realidade genocida de um país marcado pela desigualdade de classe e raça. A pandemia, nas comunidades, não é uma luta contra um vírus, mas uma guerra, perdida, contra uma vulnerabilidade resultante de anos de negligência.  Fica claro, mais uma vez, e não para todos, quem pode morrer aqui.

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