No primeiro capítulo do "Jornada Jornalística", Guilherme Tirelli, Hadass Leventhal e Júlia Zuin apresentam a história do Skate, desde o surgimento do "surfinho" até a ascensão do esporte rumo as Olimpíadas de Paris. Pedro Quadros, skatista de Lorena, também opina sobre a marginalização e a importância de nomes históricos na nova imagem que o skate transmite na contemporaneidade.
O episódio já pode ser acessado no Spotify pelo link https://open.spotify.com/show/4dC19J2CCYcmzJhTMKU9XB.
O skate como modalidade esportiva ganhou destaque esse ano, principalmente pela chegada nas Olimpíadas de Tóquio 2020. Porém, apesar de já ser reconhecido como esporte olímpico, o skate ainda sofre preconceito e é marginalizado por ser majoritariamente periférico. Segundo pesquisa do Datafolha, esse esporte é predominantemente praticado pela classe C, e, a partir dos dados da CBSk (Confederação Brasileira do Skate), nota-se que apenas 10% desses praticantes são mulheres. Apesar das análises, uma das skatistas que ganhou mais destaque, levando a medalha de prata para o Brasil nas Olimpíadas foi a jovem de 13 anos Rayssa Leal, que hoje sustenta a sua família através do esporte.
A fim de entender como funciona o incentivo ao skate, conversamos com o projeto social Skate Cidadão, localizado na cidade de São Carlos, no estado de São Paulo. Ao questionar sobre os apoiadores, a representante Patricia explica: “O Projeto conta com o apoio da Prefeitura, Unimed, Rotary Club de São Carlos e de algumas pessoas físicas. [...] Só em 2019 é que conseguimos aprovar o Projeto na Prefeitura através de emenda parlamentar”. No início da ONG, em 2017, Patricia revela que eles possuíam apenas 3 skates que eram revezados entre os alunos e quem os ajudava com a manutenção eram os próprios skatistas.
Apesar do apoio de algumas prefeituras em pequenos projetos como o do Skate Cidadão, os skatistas que sonham em seguir carreira profissional ainda sentem muita dificuldade. Conversamos com a skatista Kathleen Bernardino, de 20 anos, que compartilhou as dificuldades que sente na sua carreira: “Para os meus treinos eu necessito apenas do skate, que por sinal não é algo tão barato, e os tênis adequados [...]. Atualmente conto com duas marcas que me incentivam e me dão os materiais necessários para a prática do skate”. Kathleen é um dos casos que necessita do apoio privado para seguir em frente na sua carreira e, além disso, ela coloca a dificuldade da mulher nesse esporte: “No Brasil dá para contar nos dedos as mulheres que conseguem praticar o esporte profissionalmente, isso devido à marginalização do esporte e a invisibilidade das mulheres dentro deste cenário. Mesmo com a inserção do skate aos jogos olímpicos, a popularidade do esporte não tornou esse cenário um dos quais apoiam e incentivam as mulheres com os requisitos necessários para sua prática profissional”. A skatista explica que, não só pela tripla jornada de trabalho, mas também por ser um cenário predominantemente masculino, considerado “esporte para homens” que as mulheres sofrem ao tentar seguir carreira.
A vitória de Rayssa Leal no skate olímpico é apenas o começo de uma trajetória que essa modalidade tem a oferecer. Mais que esporte, o skate é um ato cultural, pois ele é resultado do que chamamos de cultura underground, como explica o pessoal do Projeto Skate Cidadão: “O skate é liberdade e, ao contrário de outras classes sociais, o skate pode afrontar o sistema. Sistema esse que muitas vezes condenou e reprimiu a prática de skate.”. Além disso, ele é uma ferramenta de educação a partir do momento em que tem o poder de mudar a vida dos cidadãos periféricos, traçar novas perspectivas e caminhos que inspiram e dão esperança a esses jovens. A inclusão do esporte nas Olimpíadas e as conquistas brasileiras já repercutiram o suficiente para o investimento no skate crescer, mas ainda não é o suficiente. Mais do que grandes marcas, que só visam lucrar e não se aprofundam na importância social do skate, esse esporte tem o potencial para ser um dos mais reconhecidos no país, basta um incentivo financeiro maior, por parte do governo.
Por Daniel Gateno e João Pedro Coelho
No dia 31 de maio, a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) anunciou que a Copa América seria realizada no Brasil. O comunicado oficial veio após a desistência de Colômbia e Argentina de sediar o torneio. Apesar de ter sido realizada em 2019, a competição estava prevista para ser disputada em 2020 em um novo formato. As dez seleções filiadas à Conmebol seriam separadas em dois grupos e cada uma dessas chaves seria disputada em um país, uma na Colômbia e outra na Argentina.
Desde 2007, a Copa América está prevista para ser realizada a cada quatro anos, sempre no ano posterior à Copa do Mundo. A determinação foi cumprida para as edições de 2011, disputada na Argentina, e 2015, jogada no Chile. Em 2016, a Conmebol decidiu fazer uma edição especial da competição em comemoração ao centenário do torneio, que seria realizada nos Estados Unidos, país cuja federação de futebol não é membro da Conmebol.
Em 2019, a Copa América voltou a ser realizada, dessa vez cumprindo o prazo de 4 anos após a sua edição ordinária, disputada em 2015. Mas, apesar disso, a Confederação Sul-Americana decidiu fazer outra edição em 2020 para que, a partir de então, a competição fosse disputada de maneira simultânea à Eurocopa, de quatro em quatro anos, sempre dois anos após a realização da Copa do Mundo. Isso fez com que, em um período em que deveriam ser realizadas apenas duas edições do torneio, as seleções se reunissem para disputá-lo quatro vezes.
Assim como outros torneios que seriam realizados em 2020, como a Eurocopa e os Jogos Olímpicos, a Copa América foi adiada para 2021 na expectativa de que a pandemia do coronavírus já tivesse sido controlada. Pelo contrário. A maioria dos países sul-americanos sofre com um ritmo lento na vacinação e um aumento no número de casos da doença.
Segundo dados da Universidade Johns Hopkins, a América Latina já passou da marca de um milhão de mortes em decorrência da Covid-19. No mês de maio, 31% das mortes causadas pela doença em todo o mundo foram na região. Além disso, a vacinação também caminha em um ritmo lento na maioria dos países latino-americanos, o que facilita o desenvolvimento de novas cepas do vírus e a formação de novas ondas de contágio.
Entre os países soberanos da América do Sul, apenas Chile e Uruguai aplicaram a primeira dose da vacina em mais de 50% de sua população. Atrás deles vêm a Argentina e o Brasil, com menos de 30% de seus residentes imunizados. Levando em conta apenas pessoas que receberam as duas doses, o Brasil imunizou pouco mais de 10% de seus cidadãos, enquanto Chile e Uruguai vacinaram, respectivamente, 47% e 33% de sua população.
Corrida pela organização
O evento, que seria organizado de maneira conjunta entre a Argentina e a Colômbia, teve que mudar às pressas de local. Os portenhos passam por um aumento de casos e mortes de coronavírus e declararam que não teriam condições de realizar um torneio desse porte. A Colômbia vive uma crise institucional, com grandes protestos populares e abriu mão de sediar o torneio antes mesmo da Argentina.
Com a desistência dos dois países, a Conmebol anunciou que o Brasil sediaria o torneio pela segunda vez consecutiva, após ter recebido a competição em 2019. O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, apoiou a iniciativa de forma imediata. Segundo ele, o país já realiza torneios nacionais e as equipes brasileiras participam de competições internacionais como a Libertadores e, por isso, não haveria problema algum em receber as delegações de outras nove seleções no país.
Por outro lado, o anúncio de que o evento seria realizado no Brasil levou diversos governadores, como os de Bahia, Pernambuco e São Paulo, a recusarem a realização de jogos do torneio em seus respectivos estados. Algumas gestões estaduais se mostraram favoráveis à Copa América, desde que protocolos rígidos de higiene fossem utilizados e que o evento não tivesse público.
“Nenhuma competição esportiva seria 100% segura no Brasil”, avalia Alexandre Naime Barbosa, infectologista e chefe do Departamento de Infectologia e radioterapia da UNESP/Faculdade de Medicina de Botucatu. “Não existe protocolo perfeito, ele é falho. Se apenas os critérios baseados na saúde fossem seguidos no país, não teríamos nenhum torneio nacional ou internacional no Brasil.”
Além dos problemas relacionados à pandemia, a logística da competição também foi afetada pelo fato de o Campeonato Brasileirão não ser paralisado durante a disputa da Copa América. Isso dificultou que os jogos do torneio continental fossem disputados em estádios onde equipes participantes do Brasileirão atuam. Após algumas negociações entre o governo federal, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), os estados e a Conmebol, as partes decidiram que o torneio seria realizado em cinco sedes: Arena Pantanal, em Cuiabá, Estádio Mané Garrincha, em Brasília, Estádio Olímpico, em Goiânia, e os estádios Nilton Santos e Maracanã, situados no Rio de Janeiro.
Em meio à polêmica sobre a disputa da Copa América no País e ao caos na organização do torneio, os jogadores da seleção brasileira e o técnico Tite mostraram estar insatisfeitos com a decisão de realizar a competição no país, mas confirmaram que iriam participar da copa.
O descontentamento dos jogadores e do técnico brasileiro, entretanto, causou um atrito entre eles e o então presidente da CBF, Rogério Caboclo. A faísca entre eles gerou até a possibilidade de demissão de Tite antes do início da Copa América, após matéria do jornalista André Rizek ter afirmado que Caboclo havia prometido ao presidente Bolsonaro, entusiasta da realização do torneio no Brasil, que substituiria o treinador da seleção por alguém cujas posições sobre a disputa da competição continental no país estivessem mais alinhadas às do governo federal.
Esse cenário nunca se concretizou. Não porque Caboclo tenha desistido da ideia, mas porque o Conselho de Ética da CBF o afastou da presidência após uma denúncia de assédio sexual contra ele ter sido feita por uma funcionária de entidade. Ao assumir o cargo de maneira interina, Antônio Carlos Nunes de Lima, conhecido como Coronel Nunes, afirmou que “em time que está ganhando não se mexe” ao ser questionado sobre a permanência de Tite no comando da seleção.
Protocolo
. Atualmente, em competições continentais, como a Libertadores e a Copa Sul-Americana, os jogadores e a comissão técnica de todas as equipes precisam ser testados antes dos jogos e as delegações precisam ficar confinadas nos hotéis antes e depois das partidas.
Para Barbosa, a maior preocupação de uma competição internacional é a possibilidade de transmissão da cepa P1, a chamada variante brasileira, que é tão contagiosa quanto a indiana. “O maior perigo é levar a variante P1 para fora, é uma dor de cabeça que ninguém quer comprar. O fato de o Brasil ser um País continental não ajuda em nada, por isso é um absurdo que competições nacionais estejam acontecendo normalmente sem bolhas.”
Segundo o infectologista e professor da UNESP, a bolha feita pela NBA, que permitiu o retorno do basquete nos Estados Unidos, seria a melhor forma de fazer uma retomada dos torneios. “Por mais que as bolhas tenham critérios sanitários mais rígidos, elas garantem a saúde dos atletas e a promoção dos eventos.”
Em abril, a Conmebol recebeu uma doação de 50 mil doses de vacina contra a Covid-19 produzidas pela farmacêutica chinesa Sinovac. A entidade tem como objetivo usar essas doses para vacinar os jogadores dos principais times da América do Sul e outros profissionais envolvidos na realização desses eventos.
A princípio, as doses também seriam usadas para vacinar jogadores convocados para a Copa América. Mas, devido à falta de antecedência para a definição da sede do torneio e dos protocolos para a realização da competição, não seria possível obter a imunização completa dos jogadores contra a Covid-19 antes do início do torneio, uma vez que a segunda dose das vacinas produzidas pela Sinovac devem ser administradas de 21 a 28 dias após a aplicação da primeira e a definição da sede aconteceu a menos de 15 dias do pontapé inicial da Copa América, marcado para 13 de junho.
O lote de vacinas chegou ao continente pela capital do Uruguai, Montevidéu, e seria distribuído para os demais países vizinhos. Segundo a legislação brasileira, a aquisição de imunizantes pela iniciativa privada não é permitida e, caso essas vacinas entrassem em solo brasileiro, deveriam ser doadas ao Ministério da Saúde para redirecionamento aos estados através do SUS (Sistema Único de Saúde).
Por isso, as equipes brasileiras que atuem em competições sul-americanas e queiram ser vacinadas devem viajar até a sede da Conmebol, localizada em Luque, no Paraguai, para receber as vacinas. Alguns times do país fizeram essa escolha, como o Atlético Goianiense, que aproveitou que foi ao Paraguai para enfrentar o Libertad e imunizou o elenco.
Entre as dez seleções participantes da Copa América, Paraguai, Chile, Bolívia, Venezuela, Uruguai e Equador já receberam pelo menos uma dose do imunizante da Sinovac. Toda a equipe de arbitragem prevista para atuar na competição também foi vacinada.
“A imunização dos atletas e de toda a comissão técnica das seleções deveria ser obrigatória”, declara o infectologista Alexandre Barbosa. “A principal questão da vacina é reduzir as chances de internação e morte. Elas não vão impedir transmissão, vão reduzir a chance da doença se desenvolver de forma grave, por isso, o fato de todos os envolvidos na Copa América terem que tomar a vacina é uma questão de redução de danos”, acrescenta.
De acordo com Barbosa, se a Conmebol tem 50 mil doses de vacina à sua disposição, a entidade deveria pensar em uma logística para que todas as seleções fossem imunizadas. “Com essa quantidade de doses, é possível vacinar todo mundo, esses protocolos foram pensados de maneira totalmente errada.”
No dia 8 de junho, em partida válida pela oitava rodada das Eliminatórias para a Copa do Mundo, a seleção brasileira viajou a Assunção para enfrentar o Paraguai , mas decidiu não tomar a vacina por conta da logística da segunda dose, uma vez que muitos jogadores não teriam como voltar ao país para completar a imunização.
“Primeiro, vamos tirar algumas ideias sobre o esporte”, aconselha Luciana Watanabe, lutadora de sumô, logo no início do episódio. Nessa edição, o podcast faz uma introdução sobre a luta de origem japonesa, explica os diversos rituais e a sua ligação com a religião xintoísta. Watanabe se destacou no esporte ao ser 15 vezes campeã brasileira de sumô e medalhista de prata nos Jogos Mundiais de 2013, tornando-se uma referência nacional. Atualmente, é professora da rede municipal de educação do município de Suzano, em São Paulo, onde atua através do projeto "Lutas como forma de educação", apresentando o esporte a crianças e membros da comunidade.
O episódio conta também com a participação do lutador Rui Júnior, 16 vezes campeão brasileiro de sumô, pentacampeão sul-americano e medalhista de bronze nos Jogos Mundiais de 2012 e 2015. Confira o episódio completo aqui.
Enzo Santos Simonato tem 19 anos, mora em Santo Amaro e corre atrás do sonho de se tornar um jogador profissional. Em 2019 jogando pelo Complexo Parque Santo Antônio, o jovem foi campeão da Taça das Favelas.
O torneio foi organizado pela Central Única das Favelas e contou com a participação de 2.880 jogadores/jogadoras das favelas de São Paulo. Ao todo, mais de 100 mil adolescentes participaram do campeonato.
O volante foi campeão da Taça das Favelas, em que atuou pela equipe do Parque Santo Antônio. Enzo fez um dos gols na vitória por 3 a 2 sobre a Favela 1010, e ainda foi um dos únicos jogadores que permaneceu em campo - mesmo machucado - após o time abrir 3x0 e o treinador trocar muitos jogadores.
A final foi transmitida pela Rede Globo, e foi disputada no Pacaembu, diante de um público com pouco mais de 36.000 pessoas.
Quando entrou no ramo do futebol, a sua maior expectativa era jogar profissionalmente. “Sempre foi um sonho ser jogador de futebol, e do meu pai também, que sempre me auxiliou e batalhou para me ajudar a chegar nesse sonho.”
No ano seguinte, após a Taça das Favelas, Enzo explica que sua situação ficou difícil por conta da pandemia, que o atrasou bastante profissionalmente. “Perdi dois anos muito importantes para mim. Hoje tenho 19 anos, e é meu último ano de base. E perder dois anos de base é muito complicado para um jogador de futebol.”
Com mais de 50 anos de existência, a Copa São Paulo de Futebol Júnior é a maior competição de base do país, e tem o objetivo de dar oportunidade para vários jovens atletas que têm o sonho de se tornar um jogador profissional.
O campeonato é organizado pela Federação Paulista de Futebol (FPF), e inclui centenas de clubes espalhados pelo Brasil e, eventualmente, clubes de outros países. Por conta da crise sanitária mundial, a Copinha foi cancelada por tempo indeterminado. É a primeira vez que a competição não é realizada desde sua criação.
Em nota assinada pelo presidente da FPF Reinaldo Carneiro Bastos, a entidade relembra a importância da Copa São Paulo para o futebol e a mobilização para organizar centenas de jogos, com a reunião de milhares de atletas de diversos times de todo o Brasil. “É justamente a grandeza da Copinha que nos fez refletir neste momento difícil de pandemia de Covid-19”.
“A partir de todas as informações colhidas e diante do cenário de pandemia, concluímos que mesmo um rigoroso protocolo de saúde não seria suficiente para garantir segurança a atletas, árbitros e demais profissionais envolvidos nos jogos, além da população das cidades-sede. E acima de qualquer compromisso está a vida. Assim a FPF comunica que tomou a dura decisão de suspender a realização da Copa São Paulo 2021”, diz a nota.
Ao falar do cancelamento, Enzo concorda que sua não realização talvez tenha sido a melhor escolha. “Iria jogar a Copinha esse ano, fiquei bastante chateado que não teria, mas também entendo, porque a competição reúne bastantes times, muitos jogadores. Hoje eu penso bem e foi melhor não ter.”
O volante também cita a importância da Rede Globo, que abriu muitas portas transmitindo e dando relevância para um evento fora do padrão. Ele também comenta que foi uma experiência muito bacana participar do Globo Esporte, com seus companheiros de time Geovanne (atleta profissional do Figueirense) e Victor Balotely (jogador de base do Internacional), e o jornalista Felipe Andreoli.
Diferente de seus companheiros, Enzo ainda não conseguiu se firmar em um clube. Após a competição o atleta sofreu uma lesão e acabou perdendo algumas chances. O jovem ainda está treinando, pensa em voltar a jogar e garante: “Oportunidades vão aparecer e estou me preparando para agarrá-las.”