A circulação massiva de conteúdos manipulados por inteligência artificial amplia a desinformação, influencia a opinião pública e transforma o ambiente digital em uma extensão estratégica dos conflitos armados
por
João Pedro Beltrame, Lucas Leal
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25/03/2026 - 12h

Nas primeiras horas após o início dos bombardeios coordenados desde Estados Unidos e Israel contra o território iraniano, no fim de fevereiro de 2026, cenas de Tel Aviv em chamas, caças F-35 abatidos no céu de Teerã e crateras gigantes em bases militares inundaram as redes sociais. Nenhum desses conteúdos era real. Todos haviam sido fabricados com ferramentas de inteligência artificial generativas (IAG) e compartilhados por milhares de pessoas sem a devida checagem dos fatos. A organização iraniana de verificação de fatos, Factnameh, integrante da Rede Internacional de Verificação de Fatos (IFCN), classificou o conflito de 2024-2025 como a primeira guerra da IA, por ter sido o primeiro grande embate militar em que IAGs tiveram papel central na disputa por percepção pública. 

Antes desse período, a desinformação aparecia em formatos mais previsíveis. Agora, ela chega com rostos convincentes, vozes sintéticas e cenários de destruição que nunca aconteceram. A pesquisadora Rawan Damen, diretora-geral da Arab Reporters for Investigative Journalism, descreve o fenômeno com precisão. "Com a interrupção da internet no Irã e uma narrativa oficial rigidamente controlada nos países do Golfo, abriu-se um grave vácuo de notícias, que está sendo rapidamente preenchido por desinformação impulsionada por inteligência artificial.  É nesse vácuo que as fakes news encontram solo fértil para crescer", diz Damen.

Os efeitos desses vídeos não se restringem à confusão do público nas redes sociais. Para organismos internacionais, o fenômeno tem impacto direto sobre a segurança de civis. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha afirma que, em conflitos armados, a conectividade digital é simultaneamente vital e vulnerável. Ao mesmo tempo em que permite que civis encontrem rotas de fuga, hospitais e serviços essenciais, também amplia, em escala e velocidade inéditas, a circulação de conteúdos falsos ou manipulados.

“A desinformação pode ser compreendida como uma atualização da violência simbólica. "Hoje, mesmo com maior disponibilidade de câmeras e redes de informação, conseguir distorcer a realidade é um poder absurdo.” afirma Artur Ferreira, jornalista e mestre em Tecnologias da Inteligência e Design Digital, pela PUC-SP, sobre esses esses acontecimentos que fazem parte de um novo tipo de violência simbólica.

“É o desejo dos criadores desses conteúdos falsos de querer influenciar decisões militares, mas é difícil mensurar o quanto isso realmente impacta, seja por barreiras como o sigilo de Estado. Eles podem contribuir para um plano de fundo que futuramente vire algo catastrófico ", comentou sobre as postagens fakes.

Artur Ferreira, jornalista e mestre pela PUC-SP em tecnologias da Inteligência e Design Digital
Artur Ferreira, jornalista e mestre pela PUC-SP em tecnologias da Inteligência e Design Digital

Ferreira afirmou que não é uma tarefa simples quantificar o impacto direto dessas práticas. Elas contribuem para a formação de opinião popular que sustentam visões distorcidas da realidade, já que a opinião pública está construída diretamente ao consumo de informação. “E influenciar nossa percepção de mundo é o objetivo central desses grupos”, explicou Ferreira. 

As postagens falsas nas redes sociais, além de atenderem a interesses políticos, também funcionam como uma forma de gerar lucro. Conteúdos sobre guerras, com imagens catastróficas produzidas por IA, geram grande repercussão e acabam sendo monetizados devido ao alto engajamento, impulsionado por usuários que questionam se o material é real. As plataformas também tendem a lucrar com a circulação desses conteúdos virais. Despertam a curiosidade do público, levando muitas pessoas a recorrerem às redes sociais para tentar entender o conflito ou compartilhar informações. No entanto, esse movimento também contribui para a disseminação de conteúdos falsos ou imprecisos.

Imagens geradas por inteligência artificial— (fonte: BBC News)
Imagens de Tel Aviv em chamas gerada por IA — fonte: BBC News 

Esse vídeo, sem origem definida, foi repostado pelo portal Globe Eye News na plataforma X com milhares de visualizações e compartilhamentos em diferentes redes sociais. O post foi questionado por alguns usuários, que chegaram a perguntar ao chatbot de IA do X, o Grok, para perguntar se o vídeo era real ou falso. O chatbot insistiu com a resposta de que o vídeo gerado com IA era real. O post foi excluído posteriormente. 

A rede social, X, possui as notas da comunidade como ferramenta de colaboração, que permitem aos usuários ajudar a dar informações corretas em um post potencialmente falso. A nota só será exibida no post se um número suficiente de colaboradores concordarem que ela é útil.

 

Apesar de ações encabeçadas por Reino Unido, França e Alemanha, posição defensiva segue como empecilho a Trump e Netanyahu
por
Vítor Nhoatto
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25/03/2026 - 12h

No dia 28 de fevereiro, Estados Unidos e Israel deram início à operação “Fúria Épica”, bombardeando o Irã e matando o seu líder teocrático, Ali Khamenei. Desde então, a tensão no Oriente Médio só aumentou, com desdobramentos em países como Líbano, Iraque e Arábia Saudita, o que preocupa o mundo e principalmente líderes europeus.

As consequências do conflito entre Rússia e Ucrânia ainda perturbam a União Europeia, devido a proximidade geográfica e a crise no abastecimento de gás e óleo russo por exemplo. Israel e Palestina mais recentemente abalaram ainda mais a área de defesa, que recebeu um aumento de 98% nos gastos de 2024 para 2025, chegando a €392 bilhões segundo a Agência Europeia de Defesa (EDA).

Nesse sentido, as principais potências militares do bloco têm seguido uma linha cuidadosa e estratégica em relação à mais nova zona de guerra no Oriente. 

O primeiro líder  recebido no salão oval após o início do conflito foi Friedrich Merz, chanceler alemão, no dia 3 de março. No encontro com Donald Trump ele alegou que “estava na mesma página” em relação às intenções de “libertar” o Irã do regime teocrático que a Casa Branca defende derrubar. 

Em 1979 o país passou pela chamada Revolução Iraniana, que acabou com a monarquia imperialista na época. O levante popular foi celebrado e instituiu o islamismo como base politica, mas logo passou a ser visto como antidemocrático e prejudicial à influência do Ocidente na região. Disputas principalmente com a Arábia Saudita, aliado histórico dos Estados Unidos, pelo controle dos recursos dos países vizinhos vem causando tensões constantes. 

Alemanha

Justamente tais instabilidades preocupam o democrata Merz, que destacou ainda que o conflito “é muito prejudicial à economia, e que espera um fim o quanto antes possível”, se limitando a defender suas bases militares e aliados, e não contra-atacar ou retaliar o Irã, como solicitado pelos EUA. 

Para apaziguar os ânimos, a reunião seguiu para o aumento nos gastos com segurança que o bloco tem feito, aplaudidos pelo líder estadunidense. Alemanha e França representaram quase 50% dos €392 bilhões que o bloco injetou no último ano. 

No entanto, essa divergência na política internacional não é recente, e vem desagradando os europeus. Durante a Conferência para Segurança realizada anualmente em Munique, o chanceler criticou o temperamento imprevisível de Trump. “Uma profunda divisão se abriu entre a Europa e os Estados Unidos [...] nossa segurança não está mais garantida e a Europa precisa estar preparada para fazer sacrifícios”, defendeu Merz.

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Vice-presidente dos EUA, JD Vance, cumprimentou Merz e participou do encontro no salão oval no dia 3 de março com Trump - Foto: The White House  / Divulgação

O clima de hostilidade se intensificou principalmente após as ameaças dos Estados Unidos de anexar a Gronelândia em janeiro. A região autônoma sob defesa da Dinamarca, membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), foi interpretado como um ataque inesperado a um aliado, em que Trump alegou que até estaria disposto a usar a força em um primeiro momento para conquistar o controle do território 

Mais tarde na Suíça, durante o Fórum Econômico de Davos, Trump voltou atrás declarando que o uso da força não estava mais em cogitação. Mesmo assim, a confiança parece ter sido quebrada, e aliados históricos seguem criticando a política estadunidense e defendendo uma emancipação europeia no âmbito de defesa. 

França

O presidente francês Emmanuel Macron em 2 de março, dois dias após o início da guerra com o Irã, anunciou um plano francês de investimento massivo em defesa nuclear. “O que eu mais quero, como vocês já devem ter percebido, é que os europeus retomem o controle do seu próprio destino”, afirmou durante evento na base de submarinos nuclear “Ile Longue”.

Porém, além de demonstrar as articulações políticas visando as eleições presidenciais no país no ano que vem, a medida reforça o recado à Casa Branca. A tática de se armar nuclearmente é uma estratégia antiga de dissuasão, que visa prevenir conflitos ao demonstrar alto poder de defesa e ataque. Não à toa, o pronunciamento direto em relação ao Irã veio em seguida no dia seguinte. 

Em pronunciamento após ataque às bases militares inglesas no Chipre, Macron anunciou que estava se envolvendo no conflito “estritamente com uma postura de auto defesa e apoio à seus aliados”. Além de não autorizar o uso de suas bases pelos EUA e Israel atacarem o Irã, ele defendeu que os ataques “foram realizados fora do quadro do direito internacional, o que não podemos aprovar”. 

Na ocasião, foi anunciado que o porta-aviões Charles de Gaulle foi para a costa do Mediterrâneo em sinal de defesa e apoio ao Chipre, membro da União Europeia, e aliados históricos no Golfo. Alguns exemplos são o Catar, com quem tem desde 1994 um acordo bilateral de cooperação de defesa, e os Emirados Árabes Unidos, com medida parecida assinada em 1995.  

O líder francês pediu por um cessar-fogo também, caso contrário, levaria ao que ele categorizou como uma “escalada perigosa e um erro estratégico” dos Estados Unidos. 

Reino Unido

Nessa mesma linha, o Reino Unido chateou o presidente americano, como ele mesmo alegou em coletiva de imprensa. Durante o mesmo evento com o chanceler alemão, Trump lamentou não estar trabalhando com Winston Churchill, em referência ao apoio militar e ataques que o então primeiro-ministro inglês ordenou durante a segunda guerra mundial.

A declaração veio em relação ao “não” do atual líder britânico, Keir Starmer, ao pedido de Trump para usar a base militar na ilha de Diego Garcia para atacar o Irã e aliados mesmo antes da guerra, em 20 de fevereiro.

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“É meu dever julgar o que é do interesse nacional da Grã-Bretanha”, destacou Starmer ao parlamento britânico ao optar por não se envolver diretamente na guerra - Foto: UK Parliament / Reprodução

Em 2 de março, após o episódio mencionado com o Chipre, a autorização foi exclusiva para uso defensivo, proibindo o lançamento de mísseis para ataque.  

De lá para cá as tensões entre os aliados históricos se mantiveram altas, com Starmer declarando em uma sessão no parlamento britânico que ele: “não estava disposto a fazer no sábado (28 de fevereiro) o Reino Unido entrar em guerra, a menos que eu estivesse convencido de que havia uma base legal e um plano viável e bem elaborado”. 

Mesmo não fazendo mais parte da União Europeia (UE) desde 2016 com o Brexit, o Reino Unido tem se mostrado disposto a uma aproximação e cooperação maior com a Europa, em resposta à política dos EUA. São exemplos o suporte à Ucrânia em acordo à visão da UE, e a intenção de Macron em estreitar laços com o Reino Unido com seu plano nuclear de defesa.

Espanha

Ainda no salão oval com o líder alemão, a península ibérica foi o último ataque direto de Trump. Com uma linha ainda mais dura que as alegações direcionadas a Starmer, o presidente alegou que “cortaria as relações com a Espanha, um parceiro terrível, e que se quisesse poderia usar as bases espanholas”. 

Com isso, a resposta do primeiro-ministro Pedro Sanchez foi rápida e concisa: “A posição do governo espanhol pode ser resumida em três palavras: não à guerra”. 

No comunicado à imprensa com o objetivo de reafirmar o lado que o país escolhia, Sanchez classificou os ataques americanos-israelenses, e a guerra como um todo, como ilegais e desumanos. Ele se solidarizou aos países atacados como forma de retaliação pelo Irã, reforçando que não apoia o regime do país, mas que escolhia o lado da lei internacional e da paz acima de tudo.

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Protestos contra a guerra no Irã aconteceram na Espanha no último dia 14 em cidades como Sevilha e a capital Madrid - Foto: Greenpeace España / Divulgação

A expressão “não à guerra” foi escolhida por fazer alusão aos protestos internacionais contra o que ele classificou como “erro do passado”, a Guerra do Iraque em 2003. Na época o presidente George W. Bush, atacou o país sob a alegação de desenvolvimento de  armas de destruição em massa por Saddam Hussein.

Dois anos antes, o ataque de 11 de setembro assombrava a segurança dos EUA, mas constatou-se que o Iraque não tinha as armas usadas como pretexto, e que o interesse era nas reservas de petróleo do país. Em 2011 após milhares de protestos pelo mundo as tropas foram retiradas do território iraquiano, com um saldo de milhões de mortos, um cenário político violento e longe da democracia que Bush prometeu instaurar.  

Tudo isso para Sánchez deveria ser uma lição em relação ao Irã hoje, se mantendo firme na posição de ser contra esse “desastre” como enfatizou, exigindo um cessar-fogo.

Próximos passos

Próximo de completar um mês da guerra e novo líder no Irã, um acordo de paz segue fora do tabuleiro, pelo menos do lado de lá. O governo alemão endureceu o tom na quarta (18): "Washington não nos consultou e não considerou necessária a assistência europeia [...] Enquanto a guerra continuar, não participaremos dela", defendeu Merz no Bundestag, o parlamento alemão.

O chanceler fazia referência ao pedido de Trump por ajuda da OTAN para manter o Estreito de Ormuz aberto, fechado desde o início do conflito. Pela passagem passam muitos navios de produtos e principalmente petróleo, que apresenta mais de 40% de aumento no preço do barril do tipo Brent desde final de fevereiro, segundo a Business Inside. 

Na mesma linha, o presidente francês declarou que defender a lei internacional e promover a desescalada é o melhor caminho. “Não ouvi ninguém aqui expressar a vontade de entrar nesse conflito, muito pelo contrário”, enfatizou na Cúpula da UE realizada em Bruxelas no último dia 20.

Durante o evento, Ursula Von der Leyen, presidente do bloco, reforçou a necessidade de um cessar-fogo no conflito “extremamente perigoso para além da região”, além da proteção de civis e infraestrutura. Seu posicionamento continua na defesa e solidariedade aos aliados no Golfo, especialmente o Chipre, e que uma crise energética pode ocorrer se a guerra persistir.

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“É de extrema importância que se chegue a uma solução negociada para pôr fim às hostilidades”, voltou a defender Leyen no último dia 24 - Foto: The European Commission / Divulgação

Sobre essa preocupação, o primeiro-ministro inglês anunciou no dia 21 que os EUA poderiam usar as bases do país também para atacar, se distanciando dos parceiros europeus. Starmer defendeu que o foco se mantém defensivo, no entanto, caracterizando os bombardeios agora autorizados de suas instalações como auto-defesa, mirando alvos iranianos no Estreito de Ormuz. 

Na península ibérica, Sanchez ordenou na segunda-feira (23), através de suas redes sociais, que o estreito seja reaberto também, e a infraestrutura da região preservada. Por lá passam cerca de 20 milhões de barris por dia, um quinto do total, causando a maior interrupção de fornecimento do mundo segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). 

“Uma escalada ainda maior poderia desencadear uma crise energética de longo prazo para toda a humanidade”, defende o primeiro-ministro espanhol após lembrar o preço em vidas de uma guerra.
 

O país alega “divergências profundas”, mas pode enfrentar isolamento financeiro e científico
por
Anna Cândida Xavier
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23/03/2026 - 12h

Nesta terça-feira (17), o governo de Javier Milei formalizou a saída da Argentina da Organização Mundial de Saúde (OMS). A decisão havia sido anunciada em 5 de fevereiro de 2025, seguindo os passos dos Estados Unidos, que se retiraram da organização logo após a posse de Donald Trump. 

Milei fala em palanque
Presidente da Argentina busca soberania nacional ao sair da OMS. Fonte: Reprodução/@javiermilei

 

A saída do país da OMS foi anunciada pelo porta-voz da Casa Rosada, Manuel Adorni. O governo argentino afirmou que a decisão tem como objetivo “ordenar, atualizar e tornar mais transparentes estruturas e processos que, por anos, funcionaram com sobreposições, normas obsoletas e escassa supervisão”. 

De acordo com o jornal argentino "La Nación", o argumento oficial utilizado pelo governo argentino em fevereiro de 2025 foi o custo de ser membro do organismo, estimado em cerca de US$ 10 milhões por ano (cerca de R$ 58 milhões). Além disso, acrescentaram que é preciso considerar os gastos com salário, diárias e assessores do representante argentino na entidade.

A decisão também foi justificada pelo governo como uma resposta às “profundas divergências” com a OMS durante a gestão da pandemia de Covid-19 – declaração alinhada à da Casa Branca. O governo argentino alega que “as recomendações da OMS são ineficazes porque não são baseadas na ciência, mas em interesses políticos e estruturas burocráticas que resistem a revisar seus próprios erros”. Em 2025, no X, o presidente Javier Milei classificou a agência como “nefasta e o braço executor daquela que foi a maior experiência de controle social da história”. 

 

Declaração de Milei no X
Foto: Reprodução/@JMilei

Após a saída formal da Argentina, o Diretor-Geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, enfatizou que “a segurança sanitária exige universalidade” e que a decisão do governo Milei é prejudicial “tanto para a Argentina quanto para o resto do mundo”. Deixar a OMS pode elevar os custos para o acesso a vacinas e tratamentos, além de deixar o país mais vulnerável a crises de saúde sem o apoio técnico e financeiro da organização.

No entanto, o chanceler Pablo Quirino, em postagem no X afirmou que “a Argentina continuará a promover a cooperação internacional em saúde por meio de acordos bilaterais e fóruns regionais, preservando plenamente sua soberania e sua capacidade de tomar decisões sobre políticas de saúde”. A Argentina continua sendo membro da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), porém, Tedros deixou claro que as divergências do país com a OMS impactam sua relação com a OPAS. 

Declaração de Pablo Quirno no X
Foto: Reprodução/@pabloquirno

A Organização Mundial de Saúde, fundada em 1948, é responsável por coordenar esforços internacionais em saúde pública. Conta com 194 países membros e tem como missão promover a saúde e coordenar respostas a emergências globais de saúde. 

Um relatório do Conicet (Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas), principal instrumento de pesquisas científicas da Argentina, indica que a saída também poderá isolar o país da comunidade científica.

Essa postura da Argentina se alinha à decisão dos Estados Unidos, que também anunciou sua saída da organização no início de 2025. Mas, diferente dos EUA, a Argentina depende de colaboração internacional para seus programas de saúde.

Trump recebeu Milei na Casa Branca em outubro de 2025, reforçando a aliança entre os dois.
Trump recebeu Milei na Casa Branca em outubro de 2025, reforçando a aliança entre os dois. Fonte: Reprodução/@javiermilei

 

Ministro dos Esportes, Ahmad Donyamali, afirma que ataques inviabilizam a ida da seleção ao Mundial
por
Victória Miranda
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17/03/2026 - 12h

A participação do Irã na Copa do Mundo de 2026 está por um fio. Em uma declaração concedida à TV Estatal do país, na última quarta-feira (11), o Ministro dos Esportes iraniano, Ahmad Donyamali, afirmou que o país não possui condições de participar do torneio devido ao conflito militar contra os Estados Unidos e Israel.“Desde que este governo corrupto assassinou nosso líder, não há circunstâncias em que possamos participar da Copa do Mundo”, disse Donyamali.

Seleção iraniana foi a terceira a se classificar para a Copa do Mundo. Foto: Reprodução/Instagram/@teammellifootball
Seleção iraniana foi a terceira a se classificar para a Copa do Mundo. Foto: Reprodução/Instagram/@teammellifootball

O anúncio ocorre em um dos momentos mais instáveis da história recente do Oriente Médio. O Irã sofre bombardeios desde o dia 28 de fevereiro, iniciados pelos governos estadunidenses e israelenses com o objetivo de acabar com o programa nuclear do país e enfraquecer o regime teocrata xiita. Ofensiva que resultou na morte do líder supremo, Ali Khamenei.

Na quinta-feira (12), seu sucessor e filho, Mojtaba Khamenei, se pronunciou pela primeira vez como o novo Aiatolá. No discurso, ele lamentou a morte do pai e antecessor, pediu para países vizinhos fecharem bases americanas em seus territórios e que a população se mantenha unida e prometeu vingança pelos mortos na guerra.

No mesmo dia, o presidente estadunidense, Donald Trump, postou um comunicado em uma rede social, dizendo que a seleção do Oriente Médio será bem-vinda, mas aconselhou a equipe a não participar.

“A seleção iraniana de futebol é bem-vinda à Copa do Mundo, mas realmente não acredito que seja apropriado que estejam lá, para a própria segurança deles. Obrigado pela atenção neste assunto! Presidente DONALD J. TRUMP”, escreveu o líder na rede "Truth".

Declaração oficial de Trump. Foto: Reprodução/@realDonaldTrump

Declaração oficial de Trump. Foto: Reprodução/@realDonaldTrump

Em resposta à declaração de Trump, a seleção iraniana rebateu e disse que ninguém pode retirá-los da competição, já que se classificaram legitimamente."A Copa do Mundo é um evento histórico e internacional e seu órgão regulador é a Fifa – não qualquer indivíduo ou país. A seleção nacional do Irã, com sua força e uma série de vitórias decisivas conquistadas pelos bravos filhos do Irã, esteve entre as primeiras equipes a se classificar para este grande torneio. Certamente, ninguém pode excluir a seleção nacional do Irã da Copa do Mundo; o único país que poderia ser excluído é aquele que ostenta apenas o título de "anfitrião", mas não tem capacidade para garantir a segurança das equipes participantes deste evento global", disse o comunicado publicado no perfil oficial da seleção iraniana.

Classificação para a Copa do Mundo

O país garantiu vaga em sua quarta Copa do Mundo consecutiva após terminar na liderança isolada do Grupo A da terceira fase das Eliminatórias Asiáticas no ano passado. Após os sorteios dos jogos da competição, ele está no Grupo G com Bélgica, Egito e Nova Zelândia. Os três jogos estão previstos para acontecer justamente nos EUA, com duas partidas em Los Angeles, cidade que abriga a maior comunidade iraniana fora do Irã (cerca de 200 mil), e uma em Seattle.

O que acontece agora?

A Copa do Mundo da Fifa será disputada entre os dias 11 de junho a 19 de julho, nos Estados Unidos, México e Canadá. Caso a saída da seleção iraniana seja confirmada oficialmente, a Fifa decidirá o que deve ser feito.

Há menos de 90 dias do campeonato mundial, a participação do Irã é incerta. Foto: Pixabay
Há menos de 90 dias do campeonato mundial, a participação do Irã é incerta. Foto: Pixabay

 

Segundo o artigo 6.7 do regulamento da competição, caso alguma das equipes for retirada ou excluída da Copa do Mundo Fifa 26, a Fifa pode substituir o time em questão por outra associação. Sendo assim, uma alternativa seria manter o Grupo G com apenas três seleções, o que reduziria o número de jogos e mexeria com o calendário do torneio.

Outra possibilidade seria substituir o Irã por uma seleção vinda da repescagem intercontinental e abrir uma vaga extra no mata-mata classificatório. Nova Caledônia, Jamaica, Bolívia, Suriname, Congo e Iraque disputam duas vagas, e uma terceira equipe poderia herdar o lugar no Mundial. Uma terceira opção é o Iraque ficar com a vaga do Irã, e os Emirados Árabes Unidos herdarem a vaga asiática na repescagem. 

De acordo com as regras da FIFA, o país desistente pode ser punido com uma multa de pelo menos 250 mil francos suíços (aproximadamente R$ 1,6 milhão) caso abandone o torneio em até 30 dias antes do início. 

Se a desistência for oficializada a menos de 30 dias da estreia, o valor sobe para 500 mil francos suíços (R$ 3,2 milhões). O regulamento prevê ainda que a federação deverá reembolsar todos os valores recebidos para a preparação da equipe e contribuições relacionadas ao torneio. 

Além do prejuízo financeiro, o Comitê Disciplinar da FIFA pode aplicar sanções severas, como a exclusão de competições subsequentes da entidade. No entanto, o artigo 6.3 ressalta que, caso o abandono seja provocado por “casos de força maior reconhecidos pela FIFA” — como o atual cenário de guerra e ataques sofridos pelo país —, existe a possibilidade da seleção iraniana se livrar das punições.

Até o momento, a FIFA não se pronunciou sobre a possível desistência. Já o secretário geral da Confederação Asiática de Futebol (AFC), Windsor Paul John, afirmou na manhã desta segunda-feira (16), em entrevista coletiva na sede da Confederação em Kuala Lumpur, Malásia, que a seleção iraniana ainda planeja continuar na competição.

O secretário também destacou o desejo de ver a seleção em campo: "Esperamos que resolvam seus problemas e que possam participar da Copa do Mundo”.

Filósofo morre aos 96 anos e deixa um importante legado para a humanidade
por
Amanda Lemos
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16/03/2026 - 12h

Jürgen Habermas faleceu neste sábado (14) aos 96 anos em Starnberg, Alemanha, com causa da morte ainda não divulgada. Nascido em Düsseldorf, Alemanha, em 18 de junho de 1929, foi um filósofo e sociólogo, participante da tradição da teoria crítica e do pragmatismo. Ele foi membro da segunda geração da Escola de Frankfurt.

Habermas teve e ainda tem uma grande influência na Alemanha, principalmente na filosofia, na política e no modo como o país pensa a democracia e o espaço público no pós-guerra. Ele surge em 1962 com a publicação de sua primeira obra, “Mudança Estrutural da Esfera Pública”, onde defende espaços de diálogo sem controle estatal em um momento em que a Alemanha precisava refletir sobre o nazismo, reconstruir sua democracia e lidar com a culpa histórica, o autoritarismo e o silêncio social.

O filósofo influenciou debates políticos, universidades, imprensa e a formação da cidadania alemã com a ideia de que “A democracia só funciona de verdade quando as pessoas podem debater livremente em um espaço público aberto, crítico e racional.” O conceito de esfera pública, um espaço social de debate que ele criou e pregava, virou base para pensar a mídia, a opinião pública e a participação política. 

Habermas teve papel intelectual direto em debates nacionais sobre a constituição alemã e os direitos humanos. Ele defendia uma Alemanha democrática, constitucional e baseada no diálogo, não na força. O filósofo pregava que o país não podia esquecer o nazismo e defendeu a memória histórica crítica, impactando em políticas educacionais e debates públicos sobre culpa e responsabilidade coletiva. 

Na Alemanha atual ele ainda é referência em filosofia política, símbolo de intelectual público e citado em debates sobre democracia, mídia e extremismo. 

 

Fotografia em close-up de Jürgen Habermas, um homem idoso com cabelos brancos curtos e óculos de grau de armação fina. Ele veste um paletó de tweed marrom sobre uma camisa branca e gravata xadrez. Ele está com a mão direita levemente levantada em um gesto expressivo, como se estivesse explicando um conceito. O fundo está desfocado, sugerindo um ambiente de biblioteca ou escritório com estantes de livros.
Jürgen Habermas, um dos pensadores mais influentes do século XX e início do século XXI, da escola de Frankfurt - Foto: Instituto Humanitas Unisinos 

 

Habermas começou a focar nos estudos da comunicação em 1970. Para ele, a democracia depende de uma esfera pública forte, baseada na ação comunicativa, onde cidadãos livres discutem racionalmente os assuntos coletivos e constroem consensos legítimos. Ele defendia que comunicar é agir socialmente. Para ele, vai além da simples transmissão de mensagens, é a base da democracia, da política e da vida social.

Lançou cerca de 50 livros ao longo de sua carreira. Os mais importantes foram “Mudança Estrutural da Esfera Pública” (1962), “Teoria do Agir Comunicativo” (1981) e “Direito e Democracia” (1992). Seu último livro foi “Mais uma vez: Sobre a Europa”, lançado em 2019. 

 

 

A coligação de centro-direita conquistou a maioria das cadeiras no Parlamento, mas precisará fazer aliança para governar
por
Octávio Alves
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12/03/2024 - 12h
Luís Montenegro discursando
Líder da Aliança Democrática, Luís Montenegro, em discurso após as eleições portuguesas . Foto: Pedro Nunes/Reuters

 

Portugal elegeu, no último domingo (10), os deputados para a Assembleia da República, o Parlamento do país. A Aliança Democrática, coalizão de partidos de centro-direita, obteve a maior parte das cadeiras disponíveis (79) e superou a soberania do Partido Socialista (PS) que esteve à frente da Casa nos últimos nove anos. O PS conquistou 77 assentos nessas eleições.
Já foram contabilizados 99.01% dos votos, faltando apenas os votos do exterior que devem ser apurados até o fim da semana. 226 das 230 cadeiras já foram ocupadas. 

O partido de extrema-direita, Chega, liderado pelo político André Ventura conquistou 48 cadeiras. O resultado mostra uma ascensão da extrema-direita desde a última eleição, o número de deputados eleitos pela legenda quadruplicou neste ano. 

“Não sabemos ainda como é que esta noite ficará conhecida na história de Portugal, mas há um dado que já temos a certeza: esta é a noite em que acabou o bipartidarismo em Portugal”, disse Ventura após o resultado. 

Gráfico
Na última eleição o Chega, partido de extrema direita, tinha conquistado apenas 12 cadeiras. Fonte: Jornal Público Portugal/ Reprodução. 

As eleições legislativas estavam previstas, originalmente, para  2026, mas foram antecipadas após a renúncia do primeiro-ministro António Costa  (PS), acusado de corrupção pelo Ministério Público português. As acusações se mostraram infundadas uma semana depois e o MP veio a público dizer que o acusado não era o político socialista, mas um homônimo.

Como funciona as eleições em Portugal? 

O país vive sob um regime semipresidencialista. O presidente, Marcelo de Sousa, exerce a função de Chefe de Estado e governa juntamente com o primeiro-ministro.

Os votos são por partido e não por candidato, caso a legenda consiga eleger pelo menos 116 deputados ganha o controle do legislativo. Se isso não ocorrer, a sigla que conseguiu maior número de cadeiras  pode se agrupar com partidos menores até chegar no número mínimo de  assentos necessários. O primeiro-ministro poderá ser, inclusive, de um desses partidos. 

Os próximos passos

Os principais candidatos
Pedro Nuno Santos (PS), Luís Montenegro (PSD) e André Ventura (Chega) — Foto: Reuters

Como o Aliança Democrática, liderado por Luís Montenegro, não conseguiu o número de assentos necessários, a legenda precisará fazer alianças para governar.

O que pode se revelar um desafio, já que Montenegro havia mencionado que não faria alianças com o Chega e reiterou isso após o resultado: "Nunca faria a mim próprio, ao meu partido e à democracia portuguesa tamanha maldade que seria incumprir compromissos que assumi de forma tão clara” disse.

Por outro lado, Pedro Nuno Santos, líder do Partido Socialista disse que apesar de não impedir a constituição de um governo minoritário da AD, não irá contribuir para uma aliança entre as legendas:  "A AD que não conte com o PS para governar. Não é a nós que [os deputados da aliança] têm de pedir para suportar um governo [da AD]”, declarou. 

O líder do Chega, André Ventura, que se mostrou favorável à uma coligação de direita,  se manifestou sobre a recusa de Luís Montenegro à formação de uma aliança: " Só um líder e um partido muito irresponsáveis deixarão o PS governar quando temos na nossa mão a possibilidade de fazer um governo de mudança”. 

O presidente, Marcelo de Sousa, anunciou que irá convidar o líder do partido vencedor para tentar formar um governo. A consulta que teve início nesta terça-feira (12) se prolongará até 20 de março. Se até lá os partidos não apresentarem nenhuma aliança que garanta o número mínimo de assentos, o chefe de Estado pode convocar novas eleições. 

O direito ao aborto está na Carta Magna e passa a ser irreversível no país. França é o primeiro país a consolidar este direito.
por
Mohara Ogando Cherubin
Sônia Xavier
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08/03/2024 - 12h

 

A decisão de tornar o direito ao aborto constitucional foi tomada no ínicio dessa semana (4). A aprovação alcançou a maioria necessária de pelo menos três quintos dos votos dos parlamentares para que a Constituição de 1958 fosse revista e a lei de direito ao aborto incluída.

A inscrição “A lei determina as condições de que a mulher tenha a liberdade garantida de recorrer ao aborto” foi adicionada nesta sexta-feira (8), Dia Internacional da Mulher, no atrigo 34 da Constituição francesa em cerimônia ao ar livre em Paris. 

A decisão torna, agora, o direito ao aborto irreversível no país segundo Macron. Ainda durante seu discurso, o presidente anunciou que pretende lutar para que o direito se expanda pela União Europeia. 

Projeção na Torre Eiffel diz: Meu corpo minha escolha
Projeção  na Torre Eifel  diz: “Meu corpo, Minha Escolha” após votação na segunda-feira (4) para constitucionalização do aborto. Foto: Abdul Saboor/Reuters

 

Por que recorrer à constitucionalização do aborto?

O aborto é permitido na França desde 1975. A lei já teve seu texto alterado nove vezes, a última modificação, ocorrida em 2022, passou a permitir abortos até a 14ª semana de gravidez, financiados pelo sistema de seguridade social francês e sem necessidade de justificativas. 

A decisão de incluir o direito ao aborto na Constituição do país surgiu após a deliberação da Suprema Corte dos Estados Unidos de revogar o direito federal ao aborto, revertendo o julgamento de Roe v. Wade. A decisão da Corte norte-americana delegou a tribunais e autoridades estaduais o poder de restringir ou proteger o acesso das mulheres ao aborto legal. 

A advogada Juliana Tanno, explicou, em entrevista à AGEMT que “aquilo que é permitido perante a lei ainda pode ser questionável se violar os princípios e disposições da Constituição”. "A Constituição é a lei fundamental que define a estrutura do governo e os direitos fundamentais do cidadão, ou seja, é a lei suprema de um país", complementa. 

Mulheres segurando cartazes e faixas em manifestação a favor do aborto
Manifestação na França a favor da constitucionalização do aborto após decreto dos EUA. Foto: Reprodução/Reuters

 

Temendo que a França fosse influenciada por esse decreto dos Estados Unidos e pelo avanço da extrema-direita no país, feministas e políticos progressistas passaram a levantar a discussão a cerca da constitucionalização do aborto, com objetivo de assegurar o direito das mulheres de realizar o procedimento. Foram apresentados no Parlamento francês mais de cinco projetos de lei pela inclusão do direito na Carta Magna.

"Liberdade garantida" 

O projeto da presidente do La France Insoumise (LFI), Mathilde Panot, até então aprovado pela Assembleia Nacional no ano anterior, passou por alterações em seu texto em fevereiro de 2023. 

Através de ações de partidos de direita, o termo "direito" foi substituído por "liberdade" da mulher de realizar um aborto. Essa modificação no documento enfureceu os movimentos feministas do país, tendo em vista que o Governo francês poderia restringir o acesso ao procedimento com mais facilidade, pois a ação deixava de ser um direito.

O projeto de Panot demandaria novamente a aprovação da Assembleia, sem demais modificações, e por ser uma iniciativa do Parlamento, precisaria da validação de um referendo também. 

Após pressão dos movimentos feministas, o presidente Emmanuel Macron elaborou seu próprio texto, agora com o termo “liberdade garantida”. O projeto foi enviado ao Parlamento em outubro de 2023, a Assembleia Nacional aprovou em janeiro e o Senado no dia 18 de fevereiro. 

 

A luta pelo direito da mulher na França: um contexto histórico

A decisão de incluir o aborto na Constituição francesa é marcada por séculos de enfrentamento dos movimentos feministas. A busca por direitos iguais se inicia no século XV com a escritora Christine de Pizan, que defendia em suas obras os direitos das mulheres à educação, tal como a escrita e a independência feminina. 

Mais tarde, no século XVIII, a ativista Olímpia de Gouges proclamou na "Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã" que a mulher possuía direitos naturais idênticos aos dos homens e que, desse modo, tinha o direito de participar, direta ou indiretamente, da formulação das leis e da política em geral após a exclusão das mulheres da “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão” durante Revolução Francesa. 

Em 1949, Simone de Beauvoir publicou a obra "O Segundo Sexo", que aborda um novo modelo de pensamento sobre a mulher na sociedade, juntamente à definição de feminismo moderno a partir da opressão sofrida pela figura masculina.

Confusão entre mulheres e policiais em marcha pelo aborto na França em 1972
Manifestação a favor da legalização do aborto na França em 1972. Foto: Reprodução/ Getty Images

 

No ano de 1971 foi realizado o “Movimento das 343”, divulgado pelo Nouvel Observateur, no qual centenas de mulheres assinaram uma petição para legalizar o aborto no país e adimitiram já ter interrompido ilegalmente uma gestação. 

Em 1973, surgiu o MLAC (Movimento pela Liberalização do Aborto e da Contracepção) que reúne tanto as feministas quanto os membros da classe médica que passam a praticar aborto seguro, ainda que ilegal. Posteriormente, em 1974, a Ministra da Saúde e sobrevivente do Holocausto, Simone Veil, aprovou um projeto de lei que descriminalizou o método de aborto no país, e por fim, em 1975, a interrupção voluntária da gravidez foi legalizada perante a lei francesa. A Lei Veil representou um avanço da legislação sobre o aborto na França e um vitória após anos de luta dos movimentos feministas.

Entenda o que é, como surgiu e de que modo funciona o grupo islâmico responsável pela ofensiva no início de outubro de 2023
por
Luan Leão
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06/05/2024 - 12h

No dia 07 de outubro de 2023, integrantes do grupo Hamas realizaram uma ofensiva contra Israel, com uma incursão pelo sul do país. O resultado foi a morte de cerca de mil israelenses e outros 200 foram feitos reféns. Em resposta, a contraofensiva israelense - que já dura mais de seis meses - resultou na morte de mais de 30 mil palestinos, além de um cerco à Faixa de Gaza.

Para entender o conflito de décadas, a AGEMT preparou uma série especial de quatro reportagens sobre o conflito Palestina e Israel. Nesta reportagem você vai ver como surgiu o grupo Hamas, a influência política e o impacto na resistência Palestina. Além do Hamas, vamos falar sobre o Hezbollah, grupo que atua no sul do Líbano, também contrário a Israel.

Grupo Hamas tem atuação política na Palestina
Hamas surgiu na década de 1980, com atuação pelo bem-estar social.
Foto: Mohammed Abed/Getty Images

Hamas: resistência armada, política e bem-estar social

O grupo tem origem ideológica na Irmandade Muçulmana, maior e mais antiga organização islâmica do Egito, e surgiu no contexto da Primeira Intifada, em 1987. Fundado pelo Xeque Ahmed Yassin e Abdel Aziz al-Rantissi, Hamas é um acrônimo para Harakat al-Muqawama al-Islamiya (Movimento de Resistência Islâmica), e significa zelo. No seu emblema, o Hamas tem o Domo da Rocha de Jerusalém, bandeiras palestinas e o contorno de um Estado palestino, incluindo o território de Israel.

No estatuto da sua criação, o Hamas definiu o território da Palestina histórica, incluindo a atual Israel, como terra islâmica. Segundo o documento, o grupo também exclui a possibilidade de paz permanente com o Estado de Israel. Ainda pelo estatuto, o Hamas é acusado de antissemitismo, já que trechos atacam aos judeus enquanto povo. No documento, por exemplo, o grupo palestino se comprometia com a destruição do Estado de Israel.

Inicialmente, o Hamas pretendia se fortalecer em duas frentes: o braço armado contra Israel, com as Brigadas Izz al-Din al-Qassam (IQB), e a promoção de bem-estar social aos palestinos como uma espécie de entidade social com construção de escolas, hospitais, distribuição de comida e etc. Na fundação, o grupo não demonstrava interesse em manter um braço político, o que aconteceu anos mais tarde.


Dawah

Apesar da forte associação com a luta armada, o Hamas possui um braço de serviços sociais chamado Dawah. A atuação se dá, em sua maioria, na região da Faixa de Gaza, região de alta concentração populacional e bastante empobrecida. O Dawah atua na gestão de escolas, orfanatos, restaurantes populares e clubes esportivos. Assim como feito pela Irmandade Muçulmana no Egito, o Hamas entende que a assistência social está na religião e é parte da resistência.

Dawah, em tradução literal, significa “chamado de Deus”. Pela religião, este chamado obriga os fiéis a ajudar uns aos outros por meio de obras de caridade. Para entender a atuação do Dawah, em 1990, cerca de 85% do orçamento do Hamas foi destinado para assistência social. Já em 2000, 40% das instituições sociais divididas entre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, eram dirigidas pelo grupo.

Em 2005, a organização ajudava financeiramente cerca de 120 mil pessoas em Gaza. Dois anos depois, com apoio do Irã, o Dawah ofereceu um auxílio mensal de 100 dólares para 100 mil trabalhadores e 3 mil pescadores, impedidos de trabalhar por restrições de Israel à pesca. A concessão dos subsídios, no entanto, têm rigorosa avaliação de custo-benefício de como os beneficiados poderão apoiar o Hamas.


Brigadas Qassam

As brigadas Izz al-Din al-Qassam são o maior e mais organizado grupo armado palestino, mantendo atividades não apenas em Gaza, território em que hoje o Hamas atua, como também nos territórios ocupados na Cisjordânia. O braço militar foi fundado no começo da década de 1990, por Salah Shehadeh, morto por forças militares israelenses em um ataque aéreo em 2002. No início, se utilizou de diversos atentados suicidas para atacar Israel.

Em 1996, realizou uma série de atentados em ônibus, que culminou na morte de cerca de 60 israelenses. Os atentados foram uma resposta a morte de Yahya Ayyash, fabricante de bombas do Hamas, em 1995. A escalada de ataques do grupo foi tida como determinante para que o jovem político de direita Benjamin Netanyahu - contrários aos acordos de Oslo - fosse eleito primeiro-ministro de Israel, se distanciado das tratativas de paz na região e intensificando a expansão dos assentamentos israelenses e a repressão ao povo palestino.

O nome do braço militar é inspirado no combatente sírio Ezzedine Al-Qassam, que lutou contra colonizadores europeus durante o levante. Após ser expulso pelos franceses, assumiu a causa palestina, recorrendo à resistência armada contra judeus e colonizadores britânicos. Al-Qassam foi morto por autoridades britânicas em 1935, e acredita-se que a morte desencadeou a Revolta Árabe de 1936 a 1939. O atual comandante militar das Brigadas Qassam é Mohammed Deif, e o seu braço direito é Marwan Issa. 

Brigadas Qassam são responsáveis pelas ações militares do Hamas
Com cerca de 25 mil combatentes, a Brigada Qassam foi responsável pelo ataque de 07 de outubro.
Foto: Adel Hana/AP

De acordo com o CIA World Factbook - relatório das forças de inteligência dos Estados Unidos - estima-se que as Brigadas Qassam possuem entre 20 mil e 25 mil membros, um número não confirmado pelo grupo. O arsenal bélico do grupo não é publicamente conhecido, no entanto, os ataques são quase sempre realizados com granadas e foguetes improvisados.

Com a retirada das tropas israelenses de Gaza em 2005, o Hamas assumiu o controle político da região e desenvolveu a sua força militar. O Irã - potência militar da região - é tido, de maneira informal, como um financiador da evolução militar do grupo palestino. Recentemente o grupo também incorporou drones ao seu arsenal. Foi possível notar o uso dos equipamentos na ofensiva do último dia 07 de outubro.

Dados do Departamento de Estado dos Estados Unidos, em 2021, nos confrontos com Israel, as Brigadas Al-Qassam lançaram cerca de 4.400 foguetes. Os relatórios afirmam que o grupo palestino tem experiência com explosivos improvisados, e salientam que dependem de estratégia para os ataques. Além disso, o Hamas conta com uma poderosa estrutura de túneis que permite os combatentes se movimentarem sem serem detectados.


Massacre de Sabra e Chatila

Em 15 de setembro de 1982, a mando do então ministro da Defesa israelense, Ariel Sharon, o Tshal - força de defesa de Israel - cercou por inteiro o campo de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano. A ação foi uma resposta de Israel após um atentado de forças pró-Síria e pró-Palestina resultar na morte de cerca de 40 pessoas um dia antes. Sharon se reuniu com a milícia cristã-falange libanesa, para que invadissem o acampamento de refugiados.

Às 18h do dia 16 de setembro, cerca de 150 falangistas invadiram o campo de refugiados, armados com pistolas, facas e machados. A suposta missão do grupo era localizar guerrilheiros da Organização para a Libertação Palestina (OLP), mas não foi o que aconteceu. O grupo coordenou um massacre em sua maioria de mulheres, crianças e idosos.

A alegação do governo israelense, à época chefiado por Menachem Begin, era de que não sabiam o que se passava no acampamento. O jornal israelense Yedioth Ahronoth contradisse o governo e afirmou que oficiais israelenses sabiam sim do massacre. “Na quinta e na sexta-feira pela manhã, os ministros e funcionários (do governo de Israel) já sabiam da matança e nada fizeram para detê-la. O governo sabia desde a noite de quinta-feira e não moveu um dedo nem fez nada para evitá-la”, dizia o jornal. Além das mortes, os falangistas torturam e estupraram refugiados.

Os números de mortos no massacre não são exatos, mas números da Cruz Vermelha afirmam que pelo menos 2.400 pessoas morreram. O governo israelense foi pressionado a investigar e punir Ariel Sharon, no entanto, apenas o passou para a reserva.


Segunda Intifada

Em setembro de 2000, no dia 28 de setembro, o líder da oposição, Ariel Sharon, visitou a mesquita de Al-Aqsa escoltado por policiais e soldados israelenses fortemente armados. De acordo com o porta-voz do partido de Sharon, a visita foi para “demonstrar assim que, sob o governo do Likud, a Mesquita de Al-Aqsa permaneceria subjugada à soberania israelense”. A ação foi considerada uma afronta aos palestinos, que celebravam a memória dos dezoito anos do massacre de Sabra e Chatila, o mesmo em que Sharon foi responsabilizado pela conivência.

O resultado do descontentamento foi o segundo levante palestino contra Israel. A Segunda Intifada foi mais sangrenta que a Primeira, e durou de 2000 até 2005, quando foi declarado o cessar-fogo. Segundo o jornal israelense Haaretz, nos cinco anos de conflito, foram 3.300 mortes de palestinos e 1.330 mortes de israelenses.

Dentre as mortes, uma chamou a atenção do mundo. Em 30 de setembro, Muhammad Al-Durrah, de apenas 12 anos, foi assassinado por forças israelenses. Um vídeo registrou a criança com o seu pai, se abrigando de um tiroteio, o pai de Muhammad fazia sinais para que parassem os tiros. O cessar-fogo não aconteceu, e um dos disparos matou Muhammad Al-Durrah.


O Partido

Em 2004, o então primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, anunciou a intenção do governo de retirar as tropas e os colonos israelenses dos assentamentos - considerados ilegais pela Organização das Nações Unidas - na Faixa de Gaza. A saída de cerca de 8 mil colonos e o desmanche de 21 assentamentos aconteceu em agosto de 2005. Os militares israelenses saíram pouco mais de um mês depois, em 11 de setembro. A retirada das tropas marcou o fim de uma ocupação militar que durou 38 anos.

O Hamas organizou um desfile em Neve Dekalim, antiga capital dos colonos na Faixa de Gaza. Sem as tropas israelenses, a Palestina vivia uma situação inédita no território de Gaza, e a Autoridade Nacional Palestina (ANP) tinha um desafio pela frente. Mais da metade da população vivia abaixo da linha da pobreza e os movimentos armados - incluindo o Hamas - atraiam o apoio principalmente dos jovens.

Em 2006, com um resultado inédito, o Hamas derrotou o tradicional Fatah, de Abbas, e venceu as eleições para o legislativo palestino. Com a vitória do grupo, considerado terrorista por países como Estados Unidos, Israel, e blocos como a União Europeia, o então primeiro-ministro palestino, Ahmed Qorei, anunciou sua renúncia. A eleição foi acompanhada por observadores internacionais e considerada limpa, o resultado, no entanto, surpreendeu ao mundo.

Pelo resultado da eleição, o Hamas conquistou 76 dos 132 assentos do Conselho Legislativo Palestino, enquanto o Fatah alcançou apenas 43. Pouco depois do anúncio dos resultados, o presidente palestino, Mahmmoud Abbas - líder do Fatah e eleito pelo voto popular em janeiro de 2005-, disse em pronunciamento que continuaria com as negociações de paz com Israel. “Estou comprometido em implementar o programa para o qual vocês me elegeram no ano passado. É um programa baseado em negociações e um acordo pacífico com Israel”, disse Abbas em pronunciamento televisionado.

Sem ser reconhecido como governo, depois de conflitos internos, o Hamas expulsou o Fatah de Gaza, causando a divisão que conhecemos hoje. A Cisjordânia, que tem como capital Ramallah, segue sendo governada pela ANP, enquanto a Faixa de Gaza passou a ter o Hamas como representante político. Essa realidade, porém, trouxe uma série de bloqueios impostos por Israel e pelo Egito, que fazem fronteira com a região.


"O Fatah e o Hamas, eles se diferenciam por várias coisas, mas entre eles estavam numa disputa por corações e mentes e por uma agenda em conseguir popularidade e, lógico, conseguir apoio para as escolhas políticas que cada um fez", avalia Arturo Hartmann, pesquisador, doutor em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (UNESP, Unicamp e PUC-SP) e membro do Centro Internacional de Estudos Árabes e Islâmicos da Universidade Federal de Sergipe.

Hamas surpreendeu ao vencer eleições de 2006
Vitória eleitoral do Hamas, em 2006, aconteceu por descontentamento da população com ações de Israel no território Palestino. Foto: Mohammed Saleh/Reuters (2021)

"O Hamas vinha crescendo, obviamente, toda a ação dentro da Segunda Intifada e como você vendia as suas ações, a noção da defesa da luta anticolonial palestina, tinha a questão religiosa e moral. [...] Eles ganharam com 60%. Então, muita gente votou como um voto de protesto, pessoas que talvez não necessariamente fossem muito simpatizantes da agenda do Hamas, não em relação à resistência, mas em relação à questão do tecido social", analisa Hartmann. "Foi um voto no Hamas para algumas pessoas, mas para outras foi um plebiscito contra o processo de paz e contra a solução que não só as lideranças israelenses e palestinas, mas que a comunidade internacional tinha endossado", conclui o pesquisador.

Quando venceu as eleições, Khaled Meshaal era o líder político do Hamas. Considerado um dos fundadores do Hamas e integrante do gabinete político desde a criação, Meshaal foi escolhido como líder após a morte do xeque Ahmed Yassin, em 2004. Em 1997, o Mossad, serviço secreto de Israel, tentou assassinar Meshaal por envenenamento na Jordânia. Na ocasião, o rei jordaniano, Hussein bin Tal, e o presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, tiveram que convencer Benjamin Netanyahu, premiê israelense, a enviar o antídoto.

Khaled Meshaal, também conhecido como Abu Al-Walid, permaneceu como líder do gabinete político até 2017, quando foi substituído por Ismail Haniyeh. O escritório político do Hamas também conta com outras lideranças como Yahya Sinwar, criador do “Majd”, uma espécie de serviço de segurança interna do Hamas. O Majd evoluiu com o tempo e, de forma limitada, trabalha com rastreio dos serviços de inteligência israelense.

Sinwar foi preso três vezes e só foi libertado em 2011, após um acordo entre o governo de Israel e Hamas e Fatah, em uma troca pelo soldado Gilad Shalit. Na troca, mil prisioneiros foram soltos, dentre eles Sinwar. Em setembro de 2015, os Estados Unidos incluiu o político na lista “terroristas internacionais”.

Outra liderança do Hamas é Mahmoud Al-Zahar, formado em medicina geral pela Universidade Ain Shams, no Cairo, Egito. Al-Zahar exerceu suas funções em Gaza e na cidade de Khan Younis, mas foi demitido pelo governo israelense devido a suas posições políticas. Em 2003, as forças israelenses tentaram o assassinar com uma bomba de meia tonelada lançada de um avião F-16 sobre a sua casa, em Gaza. Al-Zahar teve ferimentos leves, mas seu filho mais velho morreu.

Com a vitória nas eleições de 2005, Zahar serviu como ministro das Relações Exteriores. Forte liderança intelectual, é autor do livro “O Problema da Nossa Sociedade Contemporânea… Um Estudo do Alcorão e Sem lugar sob o sol”. A publicação é tida como uma resposta ao livro “O Discurso político islâmico”, escrito por Benjamin Netanyahu.


Operação Al-Aqsa Flood

Em 06 de outubro de 1973, Egito e Síria conduziram uma ofensiva contra o Estado de Israel. O conflito ficou conhecido como a Guerra do Yom Kippur, em referência às comemorações do feriado judaico do dia do perdão - Yom Kippur, em hebraico. O feriado é o mais importante do calendário hebraico e o país estava paralisado para as celebrações.

O principal motivo da guerra foi a anexação de territórios sírios e egípcios por Israel durante a Guerra dos Seis Dias, em julho de 1967. A Guerra do Yom Kippur foi considerada o último grande conflito árabe-israelense. A ofensiva foi elaborada pelo presidente do Egito, Anwar Sadat, e Hafez Al-Assad, presidente da Síria. Ao todo, o conflito durou 18 dias e terminou na morte de 15 mil egípcios, 3.500 sírios e 2.600 israelenses.

No dia 07 de outubro de 2023,  exatos 50 anos e um dia depois do início da guerra do Yom Kippur, o Hamas fez uma ofensiva contra militares e civis no sul de Israel, eclodindo no conflito com mais mortes da história entre Palestina e Israel. A Operação Al-Aqsa Flood, ou dilúvio, se tornou o primeiro embate direto no território de Israel desde a primeira guerra árabe-israelense, em 1948. A ação coordenada pelo grupo islâmico entrou no território de Israel por mar, terra e ar, e foi considerada uma falha do sistema de defesa israelenses. “Este é o dia da maior batalha para acabar com a última ocupação da Terra”, afirmou Deif,  comandante das Brigadas Qassam. O grupo queria encorajar outras nações muçulmanas a se unir no ataque.

Horas após o ataque, o Primeiro-Ministro israelense, Benjamin Netanyahu, declarou guerra contra o Hamas. Essa foi a primeira vez que o Estado de Israel se colocou abertamente em guerra desde o conflito do Yom Kippur. Em resposta, os israelenses lançaram a Operação Espadas de Ferro.

O conflito atual já deixou 15.523 mortes do lado palestino, em Gaza, e 1.402 mortes do lado israelenses, além de cerca de 200 reféns que foram levados para o território da Faixa de Gaza. Apesar da surpresa pelo ataque, o decorrer do conflito mostrou o baixo potencial ofensivo do Hamas contra o Estado de Israel, que segue com os ataques e também com incursões por terra.


Ao norte volver

Na fronteira norte de Israel, região do sul do Líbano, outro grupo também desperta a atenção: o Hezbollah. Apesar de uma corrente religiosa diferente do Hamas - que é sunita - os grupos têm em comum o objetivo de combater o estado de Israel.

Com origem muçulmana xiita, o grupo teve sua primeira formação em 1982, sob o nome de Resistência Islâmica Libanesa. O surgimento do Hezbollah - que em árabe significa “Partido de Deus” - está associado à invasão israelense ao território libanês que aconteceu em dois momentos. O início em 1978 e, depois, com a incursão por terra, água e mar em 1982.


 

Hezbollah é parte do xadrez de tensões no Oriente Médio
Hezbollah conta com apoio de considerável parte da população libanesa.
Foto: Francisco Volpi/Getty Images

O grupo ganha o nome de Hezbollah em 1984, e se oficializa em 1985, com a divulgação de uma carta aberta com suas três ideias principais: combater tendências colonialistas, julgar membros da Falange - partido Libanês criado em 1936 - pelos crimes cometidos e estabelecer um estado muçulmano no Líbano.

A ligação entre o grupo e a causa Palestina data das origens do Hezbollah, como contextualiza Karime Cheaito, mestre em Estudos Estratégicos da Defesa e da Segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF), membro do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (GECI/PUC-SP) e pesquisadora de assuntos voltados ao Hezbollah e organizações armadas não-estatais.

“O principal objetivo do Hezbollah era a libertação das terras libanesas ocupadas, a retomada da soberania do Líbano e, neste documento (o manifesto de 1985), também ganha destaque a libertação de Jerusalém, sendo a causa Palestina central, então, desde a fundação da organização”, explica.

Em 1989, com o fim da guerra civil que havia começado em 1975, o Hezbollah passou a se organizar como um partido político, com o intuito de representar politicamente os xiitas, classe que, até então, era subrepresentada politicamente.

Os líderes do grupo foram, em grande parte, influenciados pelos ideais do aiatolá Khomeini - antigo líder supremo do Irã e idealizador da Revolução Iraniana em 1979. Os membros tiveram uma espécie de “formação” pela Guarda Revolucionária Iraniana. Assim como o Hamas, o Hezbollah é dividido entre atuação política, social e armada. O braço armado do grupo, por exemplo, é maior do que as Forças Armadas libanesas.

De acordo com o Departamento de Estado dos Estados Unidos, o Irã é responsável por financiar o Hezbollah com treinamentos, armamentos e explosivos. Em 2021, o líder do grupo, Sayyed Hassan Nasrallah, disse em uma entrevista que o braço militar do Hezbollah contava com cerca de 100 mil combatentes.

Apesar de alguns bombardeios na fronteira norte de Israel, não é possível afirmar que o Hezbollah entrou de fato no conflito. “Ainda não temos uma resposta oficial, nem uma indicação precisa. Tudo depende de como as negociações e decisões políticas vão se desdobrar. Até o momento, os atritos que tem se desenvolvido na região da fronteira entre Líbano-Israel são pontuais, geograficamente localizados e não tem caminhado para uma escalada”, analisa Cheaito.

Controverso e acusado de crimes de guerra, político americano pautou a política internacional dos Estados Unidos no século XX.
por
Artur Maciel Rodrigues
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04/12/2023 - 12h

 

(Kissinger em 2023, foto: Janek Skarzysnki/AFP)

 

Morreu aos 100 anos o diplomata estadunidense Henry Kissinger. A informação foi divulgada na quarta-feira (29) através de um comunicado da Kissinger Associates Inc. Ainda segundo a nota, o diplomata morreu em sua casa em Connecticut, nos Estados Unidos. Dono de um Nobel da Paz. Uma das principais personalidades internacionais do século 20, Kissinger é apontado por muitos como criminoso de guerra, pelas suas ações na Indochina e pelo seu apoio a ditaduras no mundo, em especial na América Latina. 

 

Refugiado de família judaica, Kissinger nasceu na Alemanha, em 1923, e se naturalizou estadunidense aos 20 anos. Durante sua juventude, participou do Exército americano na 84° infantaria, onde participou na Batalha das Ardenas, a última ofensiva do exercito nazista. Se tornou parte da corporação de contrainteligência, responsável por rastrear membros da Gestapo, uma espécie de polícia secreta do governo nazista. Na volta da guerra, iniciou sua carreira acadêmica estudando em Harvard, onde se tornou doutor e, posteriormente, professor da universidade.

 

Desde da década de 1960, Kissinger foi um importante consultor internacional do governo Americano. Em 1969, foi parte importante dos bombardeios no Camboja, e nos anos seguintes organizou a campanha de invasão ao país e os ataques ao Khmer Vermelho, seguidores do partido comunista que governou o país de 1975 até 1979. Os bombardeios deixaram cerca de 500 mil mortes e resultaram no genocídio da população do Camboja onde mais de dois milhões de pessoas morreram.

 

Durante a gestão de Richard Nixon, na década de 1970, o diplomata foi secretário de Estado e teve destaque na política de abertura diplomática da China. Kissinger também foi responsável pela mediação das tensões entre Israel e os países árabes vizinhos na Guerra do Yom Kippur. 

 

A relevância de Kissinger não diminuiu mesmo com a renúncia de Nixon. Até no atual governo Biden, o diplomata continuou sendo uma força da agenda política internacional do país. Em 2023, por exemplo, foi a Pequim para um encontro surpresa com o presidente chinês Xi Jinping. 

 

O ex-secretário sempre será lembrado na América Latina pela Operação Condor, que bancou as ditaduras nas Américas. A postura de Kissinger é bastante criticada, principalmente seu apoio à ditadura no Chile. Comandada por Augusto Pinochet, a ditadura começou com um golpe de estado - apoiado pelo serviço secreto americano - no presidente eleito Salvador Allende. Pinochet permaneceu no poder de 1973 até 1990, e o resultado foi mais de três mil mortes, milhares de torturados e cerca de 200 mil chilenos exilados. 

 

Outra atuação questionada foi o apoio estadunidense a Margaret Thatcher, Primeira-Ministra do Reino Unido, na disputa das Ilhas Malvinas, arquipélago localizado a 500 quilômetros da costa Argentina. Em 1982, ingleses e argentinos travaram uma guerra de dois meses pelo território, que terminou se mantendo sob poder dos britânicos. 

 

Sobre a Guerra do Vietnã, Kissinger disse em entrevista à jornalista italiana, Oriana Fallaci, que se tratava de: “Uma guerra inútil”. Foi justamente pelo cessar fogo desta guerra que o diplomata recebeu um prêmio Nobel da Paz, em 1976. A premiação foi em conjunto com Le Duc Tho, diplomata do Vietnã do Norte. No entanto, Duc Tho recusou o prêmio, na que é considerada umas das premiações mais controversas da história do Nobel da Paz. 

 

Em 2023, ano do seu centenário, Henry Kissinger seguiu concedendo entrevistas a jornais renomados sobre conflitos internacionais como Rússia e Ucrânia. No dia 11 de outubro, falou sobre a ofensiva entre Hamas e Israel. “Foi um ato de agressão aberto. O único objetivo foi mobilizar o mundo árabe contra Israel e seu histórico de negociações pacíficas”, disse Kissinger para o jornal Die Welt, subsidiário alemão da revista Insider.

 

A morte de Kissinger foi repercutida por figuras públicas e nas redes sociais. Em nota, o ex-presidente americano George W. Bush, o chamou de “uma das vozes mais fiáveis e mais ouvidas na política externa”. Vladimir Putin, presidente da Rússia, descreveu o diplomata como “visionário”. “Morreu um diplomata muito notável, um estadista sábio e visionário”, disse Putin. 

 

Nas redes sociais a comoção foi oposta. Uma das publicações que viralizaram foi um trecho do livro “A Cook’s Tour: Global Adventures in Extreme Cuisines” de Anthony Bourdain, escritor e documentarista. “Uma vez que você for no Camboja, você nunca mais vai parar de querer espancar Henry Kissinger até a morte com as próprias mãos”, escreveu Bourdain.  

Uma conta intitulada “Is Henry kissinger dead yet?” ( “Henry Kissinger está morto? - em tradução para o português) repostou a morte do diplomata, rendendo ao post 22 milhões de visualizações e quase meio milhão de curtidas.

Composto por performances e discursos gravados, evento não é mais o que se espera de uma premiação
por
Victória da Silva
Vitor Nhoatto
|
23/11/2023 - 12h

Estreando seu novo formato totalmente digital e acontecendo em nova data, o Billboard Music Awards 2023 consagrou neste domingo (19) artistas como Karol G, Drake e Taylor Swift. No entanto, formado por vídeos pré-gravados e sem  tapete vermelho ao vivo. A premiação foi marcada pela baixa repercussão midiática e desapontamento com o modelo adotado.

Tradicionalmente realizado nos Estados Unidos, desde 2011, anualmente em maio, o evento promovido pela revista Billboard este ano foi reagendado para substituir o American Music Awards (AMAs). A empresa Dick Clark Production, dona de ambas as premiações, realocou o AMAs para o ano de 2024, o que gerou certa estranheza dos espectadores desde o início.

Somado a isso e a configuração inédita de performances e discursos gravados, o público ainda foi surpreendido pela transmissão não televisionada do evento pela primeira vez, tendo ficado restrita ao site da Billboard. A lista de vencedores foi divulgada durante o evento. No entanto, os artistas já haviam sido informados semanas antes do programa, e já estavam com as estatuetas nos vídeos de agradecimento. 

Performances

Cantora americana Bebe Rexha durante uma performance da música I’m Good (Blue) com os braços abertos em um cenário escuro profundo com fumaça ao fundo e uma orquestra sinfônica. Ela está em frente a um microfone e veste um vestido preto com detalhes em prateado e luvas de renda preta e com um cabelo platinado liso.
Performance de Bebe Rexha da sua música "I'm Good (Blue)” feat. David Guetta. - Foto: Reprodução/Youtube

Abrind os trabalhos da noite de domingo, Karol G apresentou um medley das músicas ‘QLONA’, ‘Labios Mordidos’ e ‘OJOS FERRARI’. Gravada em Los Angeles, a performance da cantora colombiana contou com vários dançarinos e coreografia afiada em um palco coberto por água, sendo marcada por movimentos sensuais e belos efeitos no molhado cenário.

Mesmo com o ‘flop’ do evento, fãs de Mariah Carey conseguiram apreciar a performance da aclamada música natalina ‘All I Want For Christmas Is You’ que teve pela primeira vez uma apresentação em premiações. Além disso, a cantora foi homenageada pelo prêmio Billboard Chart Achievement, já que marcou a lista Hot 100 da Billboard em várias décadas diferentes, em especial com a canção de natal apresentada — que todo final de ano volta a aparecer na parada de sucesso norte-americana.

Com direito à orquestra sinfônica e efeitos cinematográficos, Bebe Rexha entregou uma performance impecável do seu estrondoso sucesso 'I'm Good (Blue)' em parceria com David Guetta. Em seguida, em um cenário diferente e com várias dançarinas, a cantora americana cantou o seu último lançamento em conjunto ao DJ, 'One In A Million', indicada ao Grammys 2024. 

Outro destaque foi a apresentação de Tate McRae com a música 'Greedy', que viralizou no TikTok recentemente e domina as paradas de sucesso do mundo todo. Gravada em um hotel em Los Angeles, a performance foi marcada pela intensa coreografia por parte de Tate e das dezenas de dançarinos.

Para a felicidade dos stays, o grupo sul-coreano Stray Kids apresentou as faixas “S-Class” e “LALALA” com uma performance coreografada, figurinos impactantes e vários dançarinos. Mesmo não sendo ao vivo, a apresentação foi um marco para os fãs do octeto e para o próprio grupo de K-pop, já que foi sua estreia no palco da Billboard Music Awards.

Sendo o maior vencedor da edição deste ano com 11 estatuetas no total, o cantor country Morgan Wallen também se apresentou. Envolvido em polêmicas com falas racistas em 2021, ele fechou a premiação cantando sua música em homenagem ao time de baseball Atlanta Braves intitulada '98 Braves'. 

Premiações

Cantora norte-americana Karol G em um vestido de látex quase transparente bem colado ao corpo com cabelo loiro molhado segurando um troféu do Billboard Music Awards na mão esquerda com o braço para baixo, e com um microfone na mão direita para cima ao comemorar a recepção do prêmio em um estúdio de gravação totalmente branco com luzes dando um efeito degradê levemente alaranjado
Karol G durante vídeo de agradecimento ao receber prêmios no BBMAs 2023. -  Foto: Gilbert Flores 

Mesmo com a informação de que os ganhadores da BBMAs haviam sido notificados com antecedência sobre seus prêmios e não com os gritos e reação do público, ainda houve a curiosidade de quais foram os principais vencedores. De várias partes do mundo, os ganhadores enviaram vídeos já com os troféus em mãos, muitos nos cenários de suas performances e com o mesmo look do tapete vermelho.

Nessa noite de domingo, Taylor Swift levou para casa 10 das 20 estatuetas que estava concorrendo, se igualando ao rapper Drake como artista com mais BBMAs, cada um com 39 no total. Ela faturou categorias como Melhor Artista e Melhor Música em Vendas com 'Anti-Hero'. Enquanto isso, o rapper norte-americano ganhou 5 das 14 indicações que teve, dentre elas Melhor Artista de Rap e Melhor Artista Masculino de Rap. 

Tendo sido o grande vencedor da noite, o cantor Morgan Wallen ganhou 11 categorias das 17 indicações que teve, incluindo: Melhor Artista Masculino, Melhor Álbum da Billboard 200 com ‘One Thing at a Time’ e ainda, Melhor Música Hot 100 e Melhor Música em Streaming com a canção “Last Night”.

Zach Bryan se destacou ganhando 4 prêmios, dentre eles Melhor Artista Novo e Melhor Álbum de Rock com “American Heartbreak”. Além disso, Karol G marcou presença além da performance ao faturar dois prêmios, sendo eles Melhor Artista Feminina Latina e Melhor Artista Latino de Turnê, enquanto Bebe Rexha junto a David Guetta levou em Melhor Música Dance/Eletrônica por I'm Good (Blue).

SZA ganhou 4 das 17 categorias em que havia sido indicada, incluindo Melhor Artista de R&B, Melhor Artista Feminina de R&B, Melhor Álbum de R&B com ‘SOS’ e Melhor Música de R&B com a faixa “Kill Bill”. The Weeknd também brilhou na edição deste ano, recebendo a estatueta de Melhor Artista Masculino de R&B.

No gospel, pela terceira vez consecutiva, Kanye West ganhou a categoria de Melhor Artista Gospel, causando um certo alvoroço nas redes sociais. O rapper competiu pela estatueta devido às suas composições de Hip-Hop Cristão presentes no álbum “Jesus is King” de 2019 e “Donda” de 2021. Como em todas as categorias da premiação, somente o desempenho em vendas e streams nas plataformas musicais é levado em consideração, não havendo votação aberta. 

Ganhando como Melhor Trilha Sonora, “Barbie: The Album” recebeu prestígio depois de todo o sucesso cinematográfico do filme de Greta Gerwig. Contando com artistas como Sam Smith, Dua Lipa, Tame Impala e Nicki Minaj, o trabalho também está indicado ao Grammys 2024.

Uma polêmica que repercutiu entre os kpoppers foi a nova categoria de Melhor Música de K-pop, que teve como ganhador o single “Seven” do cantor Jungkook em parceria com a rapper norte-americana Latto. No momento em que o prêmio foi anunciado, somente a imagem da cantora aparece, causando revolta nas armys que tanto admiram o compositor sul-coreano.

Abaixo a lista completa de vencedores das 71 categorias:

MELHOR ARTISTA
Drake
Luke Combs
Morgan Wallen
SZA
Taylor Swift (VENCEDORA)

ARTISTA REVELAÇÃO
Bailey Zimmerman
Ice Spice
Jelly Roll
Peso Pluma
Zach Bryan (VENCEDOR)

MELHOR ARTISTA MASCULINO
Drake
Luke Combs
Morgan Wallen (VENCEDOR)
The Weeknd
Zach Bryan

MELHOR ARTISTA FEMININA
Beyoncé
Miley Cyrus
Olivia Rodrigo
SZA
Taylor Swift (VENCEDORA)

MELHOR DUO/GRUPO
Eslabon Armado
Fifty Fifty
Fuerza Regida (VENCEDOR)
Grupo Frontera
Metallica

MELHOR ARTISTA BILLBOARD 200
Drake
Luke Combs
Morgan Wallen
SZA
Taylor Swift (VENCEDORA)

MELHOR COMPOSITOR HOT 100 [NOVA CATEGORIA]
Ashley Gorley
Jack Antonoff
SZA
Taylor Swift (VENCEDORA)
Zach Bryan

MELHOR PRODUTOR HOT 100 [NOVA CATEGORIA]
Jack Antonoff
Joey Moi (VENCEDOR)
Metro Boomin
Taylor Swift
Zach Bryan

MELHOR ARTISTA HOT 100
Drake
Luke Combs
Morgan Wallen (VENCEDOR)
SZA
Taylor Swift

MELHOR ARTISTA – STREAMING
Drake
Morgan Wallen (VENCEDOR)
SZA
Taylor Swift
Zach Bryan

MELHOR ARTISTA – VENDAS
Jason Aldean
Miley Cyrus
Morgan Wallen
Oliver Anthony Music
Taylor Swift (VENCEDORA)

MELHOR ARTISTA – RÁDIO
Miley Cyrus
Morgan Wallen
SZA
Taylor Swift (VENCEDORA)
The Weeknd

ARTISTA GLOBAL 200
Bad Bunny
Morgan Wallen
SZA
Taylor Swift (VENCEDORA)
The Weeknd

ARTISTA GLOBAL (EXCLUSIVO NOS EUA)
Bad Bunny
Ed Sheeran
NewJeans
Taylor Swift (VENCEDORA)
The Weeknd

MELHOR ARTISTA R&B
Beyoncé
Chris Brown
Rihanna
SZA (VENCEDORA)
The Weeknd

MELHOR ARTISTA R&B MASCULINO
Chris Brown
Miguel
The Weeknd (VENCEDOR)

MELHOR ARTISTA R&B FEMININA
Beyoncé
Rihanna
SZA (VENCEDORA)

MELHOR TURNÊ R&B
Beyoncé (VENCEDORA)

Bruno Mars
The Weeknd

MELHOR ARTISTA RAP
21 Savage
Drake (VENCEDOR)
Lil Baby
Metro Boomin
Travis Scott

MELHOR ARTISTA RAP MASCULINO
21 Savage
Drake (VENCEDOR)
Travis Scott

MELHOR ARTISTA RAP FEMININA
Doja Cat
Ice Spice
Nicki Minaj (VENCEDORA)

MELHOR TURNÊ RAP
50 Cent
Drake (VENCEDOR)
Snoop Dogg & Wiz Khalifa

MELHOR ARTISTA COUNTRY
Bailey Zimmerman
Luke Combs
Morgan Wallen (VENCEDOR)
Taylor Swift
Zach Bryan

MELHOR ARTISTA COUNTRY MASCULINO
Luke Combs
Morgan Wallen (VENCEDOR)
Zach Bryan

MELHOR ARTISTA COUNTRY FEMININA
Lainey Wilson
Megan Moroney
Taylor Swift (VENCEDORA)

MELHOR DUO/GRUPO COUNTRY
Old Dominion
Parmalee
Zac Brown Band (VENCEDOR)

MELHOR TURNÊ COUNTRY
George Strait
Luke Combs
Morgan Wallen (VENCEDOR)

MELHOR ARTISTA ROCK
Jelly Roll
Noah Kahan
Stephen Sanchez
Steve Lacy
Zach Bryan (VENCEDOR)

MELHOR DUO/GRUPO ROCK [NOVA CATEGORIA]
Arctic Monkeys (VENCEDOR)

Foo Fighters
Metallica

MELHOR TURNÊ ROCK
Coldplay (VENCEDOR)

Depeche Mode
Elton John

MELHOR ARTISTA LATINO
Bad Bunny (VENCEDOR)

Eslabon Armado
Fuerza Regida
Karol G
Peso Pluma

MELHOR ARTISTA LATINO MASCULINO
Bad Bunny (VENCEDOR)

Peso Pluma
Rauw Alejandro

MELHOR ARTISTA LATINA FEMININA
Karol G (VENCEDORA)

ROSALÍA
Shakira

MELHOR DUO/GRUPO LATINO
Eslabon Armado
Fuerza Regida (VENCEDOR)
Grupo Frontera

MELHOR TURNÊ LATINA
Daddy Yankee
Karol G (VENCEDORA)
RBD

MELHOR ARTISTA GLOBAL K-POP [NOVA CATEGORIA]
Jimin
NewJeans (VENCEDOR)
Stray Kids
TOMORROW X TOGETHER
TWICE

MELHOR TURNÊ K-POP [NOVA CATEGORIA]
BLACKPINK (VENCEDOR)

SUGA
TWICE

MELHOR ARTISTA AFROBEATS [NOVA CATEGORIA]
Burna Boy (VENCEDOR)

Libianca
Rema
Tems
Wizkid

MELHOR ARTISTA DANCE/ELETRÔNICA
Beyoncé (VENCEDORA)

Calvin Harris
David Guetta
Drake
Tiësto

MELHOR ARTISTA CRISTÃO
Brandon Lake
Elevation Worship
for KING & COUNTRY
Lauren Daigle (VENCEDORA)
Phil Wickham

MELHOR ARTISTA GOSPEL
CeCe Winans
Elevation Worship
Kanye West (VENCEDOR)
Kirk Franklin
Maverick City Music

ÁLBUM BILLBOARD 200
Drake & 21 Savage, Her Loss
Metro Boomin, HEROES & VILLAINS
Morgan Wallen, One Thing at a Time (VENCEDOR)
SZA, SOS
Taylor Swift, Midnights

MELHOR TRILHA SONORA
Barbie: The Album (VENCEDORA)

Pantera Negra: Wakanda para Sempre
ELVIS
Homem-Aranha Através do Aranhaverso
Top Gun: Maverick

MELHOR ÁLBUM R&B
Beyoncé, RENAISSANCE
Brent Faiyaz, WASTELAND
Drake, Honestly, Nevermind
Steve Lacy, Gemini Rights
SZA, SOS (VENCEDOR)

MELHOR ÁLBUM RAP
Drake & 21 Savage, Her Loss (VENCEDOR)

Future, I Never Liked You
Lil Baby, It’s Only Me
Metro Boomin, HEROES & VILLAINS
Travis Scott, UTOPIA

MELHOR ÁLBUM COUNTRY
Luke Combs, Gettin’ Old
Luke Combs, Growin’ Up
Morgan Wallen, One Thing at a Time (VENCEDOR)
Taylor Swift, Speak Now (Taylor’s Version)
Zach Bryan, American Heartbreak

MELHOR ÁLBUM ROCK
HARDY, the mockingbird & THE CROW
Jelly Roll, Whitsitt Chapel
Noah Kahan, Stick Season
Steve Lacy, Gemini Rights
Zach Bryan, American Heartbreak (VENCEDOR)

MELHOR ÁLBUM LATINO
Bad Bunny, Un Verano Sin Ti (VENCEDOR)

Eslabon Armado, DESVELADO
Ivan Cornejo, Dañado
Karol G, MAÑANA SERÁ BONITO
Peso Pluma, GÉNESIS

MELHOR ÁLBUM K-POP [NOVA CATEGORIA]
Jimin, FACE
NewJeans, 2nd EP ‘Get Up’
Stray Kids, 5-STAR (VENCEDOR)
TOMORROW X TOGETHER, The Name Chapter: TEMPTATION
TWICE, READY TO BE: 12th Mini Album

MELHOR ÁLBUM DANCE/ELETRÔNICO
Beyoncé, RENAISSANCE (VENCEDOR)

Drake, Honestly, Nevermind
ILLENIUM, ILLENIUM
Kim Petras, Feed the Beast
Tiësto, DRIVE

MELHOR ÁLBUM CRISTÃO
Anne Wilson, My Jesus (VENCEDOR)

Brandon Lake, House of Miracles
CAIN, Rise Up
Elevation Worship, LION
Lauren Daigle, Lauren Daigle

MELHOR ÁLBUM GOSPEL
Jonathan McReynolds, My Truth
Maverick City Music x Kirk Franklin, Kingdom Book One (VENCEDOR)
Tye Tribbett, All Things New
Whitney Houston, I Go to the Rock: The Gospel Music of Whitney Houston
Zacardi Cortez, Imprint (Live in Memphis)

MÚSICA HOT 100
Metro Boomin, The Weeknd & 21 Savage, “Creepin’”
Miley Cyrus, “Flowers”
Morgan Wallen, “Last Night” (VENCEDORA)
SZA, “Kill Bill”
Taylor Swift, “Anti-Hero”

MELHOR MÚSICA – STREAMING
Miley Cyrus, “Flowers”
Morgan Wallen, “Last Night” (VENCEDORA)
SZA, “Kill Bill”
Taylor Swift, “Anti-Hero”
Zach Bryan, “Something in the Orange”

MÚSICA MAIS VENDIDA
Jason Aldean, “Try That in a Small Town”
Jimin, ‘Like Crazy”
Miley Cyrus,“Flowers”
Oliver Anthony Music, “Rich Men North of Richmond”
Taylor Swift, “Anti-Hero” (VENCEDORA)

MELHOR MÚSICA – RÁDIO
Metro Boomin, The Weeknd & 21 Savage, “Creepin’”
Miley Cyrus, “Flowers” (VENCEDORA)
Rema & Selena Gomez, “Calm Down”
Taylor Swift, “Anti-Hero”
The Weeknd & Ariana Grande “Die for You”

MELHOR COLABORAÇÃO
David Guetta & Bebe Rexha, “I’m Good (Blue)”
Metro Boomin, The Weeknd & 21 Savage, “Creepin’” (VENCEDORA)
Rema & Selena Gomez, “Calm Down”
Sam Smith & Kim Petras, “Unholy”
The Weeknd & Ariana Grande, “Die for You”

MÚSICA GLOBAL 200
Miley Cyrus, “Flowers” (VENCEDORA)

Rema & Selena Gomez, “Calm Down”
SZA, “Kill Bill”
Taylor Swift, “Anti-Hero”
The Weeknd & Ariana Grande, “Die for You”

MÚSICA GLOBAL (EXCLUSIVO NOS EUA)
David Guetta & Bebe Rexha, “I’m Good (Blue)”
Harry Styles, “As It Was”
Miley Cyrus, “Flowers” (VENCEDORA)
Rema & Selena Gomez, “Calm Down”
The Weeknd & Ariana Grande, “Die for You”

MELHOR MÚSICA R&B
Metro Boomin, The Weeknd & 21 Savage, “Creepin’”
Miguel, “Sure Thing”
The Weeknd & Ariana Grande, “Die for You”
SZA, “Kill Bill” (VENCEDORA)
SZA, “Snooze”

MELHOR MÚSICA RAP
Coi Leray, “Players”
Drake & 21 Savage, “Rich Flex” (VENCEDORA)
Gunna, “fukumean”
Lil Durk ft. J. Cole, “All My Life”
Toosii, “Favorite Song”

MELHOR MÚSICA COUNTRY
Bailey Zimmerman, “Rock and a Hard Place”
Luke Combs, “Fast Car”
Morgan Wallen, “Last Night” (VENCEDORA)
Morgan Wallen, “You Proof”
Zach Bryan, “Something in the Orange”

MELHOR MÚSICA ROCK
Jelly Roll, “Need A Favor”
Stephen Sanchez, “Until I Found You”
Steve Lacy, “Bad Habit”
Zach Bryan ft. Kacey Musgraves, “I Remember Everything”
Zach Bryan, “Something in the Orange” (VENCEDORA)

MELHOR MÚSICA LATINA
Eslabon Armado x Peso Pluma, “Ella Baila Sola” (VENCEDORA)

Fuerza Regida x Grupo Frontera, “Bebe Dame”
Grupo Frontera x Bad Bunny, “un x100to”
Karol G & Shakira, “TQG”
Yng Lvcas x Peso Pluma, “La Bebe”

MELHOR MÚSICA K-POP [NOVA CATEGORIA]
Fifty Fifty, “Cupid”
Jimin, “Like Crazy”
Jungkook ft. Latto, “Seven” (VENCEDORA)
NewJeans, “Ditto”
NewJeans, “OMG”

MELHOR MÚSICA AFROBEATS [NOVA CATEGORIA]
Ayra Starr, “Rush”
Libianca, “People”
Oxlade, “KU LO SA”
Rema & Selena Gomez, “Calm Down” (VENCEDORA) 
Victony, Rema, & Tempoe ft. Don Toliver, “Soweto”

MELHOR MÚSICA DANCE/ELETRÔNICA
Bizarrap & Shakira, “Shakira: Bzrp Music Sessions, Vol. 53”
David Guetta, Anne-Marie & Coi Leray, “Baby Don’t Hurt Me”
David Guetta & Bebe Rexha, “I’m Good (Blue)” (VENCEDORA)
Elton John & Britney Spears, “Hold Me Closer”
Tiësto ft. Tate McRae, “10:35”

MELHOR MÚSICA CRISTÃ
Brandon Lake, “Gratitude” (VENCEDORA)
Chris Tomlin, “Holy Forever”
for KING & COUNTRY with Jordin Sparks, “Love Me Like I Am”
Lauren Daigle, “Thank God I Do”
Phil Wickham, “This Is Our God”

MELHOR MÚSICA GOSPEL
CeCe Winans, “Goodness of God” (VENCEDORA)

Crowder & Dante Bowe ft. Maverick City Music, “God Really Loves Us”
Elevation Worship ft. Chandler Moore & Tiffany Hudson, “More Than Able”
Maverick City Music & Kirk Franklin ft. Brandon Lake & Chandler Moore, “Fear is Not My Future”
Zacardi Cortez, “Lord Do It for Me (Live in Memphis)”