
Em 2 de setembro, o México se tornou o primeiro país da América do Norte e o 41º país do mundo a proibir a fabricação, venda e importação de produtos testados em animais. Iniciado em 2019, pelo senador Ricardo Monreal Ávila, o texto teve apoio unânime dos 103 senadores, da organização Humane Society International do México e da organização não governamental, Te Protejo.
No Brasil o cenário é diferente, os testes em animais foram banidos em apenas oito estados, sendo eles Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Paraná, Pernambuco, Amazonas e Pará. E, no final do mês de abril, a produção em vídeo da campanha “Save Ralph”, focada em dezesseis países prioritários, realizada pela Instituição Humane Society International (HSI), viralizou nas redes sociais. O curta-metragem traz como enredo a “rotina” de um coelho cobaia, na voz do ator Rodrigo Santoro, cego de um olho e com um zumbido em uma das orelhas. Ele chama atenção pelo diálogo que desenvolve e tem como objetivo conscientizar as pessoas sobre a crueldade dos testes realizados em animais.
Com isso, o Instituto busca o apoio de Senadores para alterar a Lei nº 11.794/08, vedando a participação de animais de qualquer espécie em atividades voltadas à produção e desenvolvimento de produtos cosméticos, de higiene pessoal e perfumes.
O Brasil é o quarto país com o maior mercado de cosméticos do mundo, com 2.794 empresas registradas na Anvisa em 2018. 47,8% eram controlados por apenas cinco representantes: Natura & Co, Boticário, grupo Unilever, grupo L’Oreal e Colgate-Palmolive. Donas de muitas outras subsidiárias, estas grandes empresas espelham a forma como diversas outras marcas farão seu marketing e venderão seus produtos. Provocar mudanças neste vasto mercado que perpetua regras e uma já estabelecida clientela fiel, não é simples.
A viralização do curta trouxe à tona a discussão da real necessidade dos testes em produtos cosméticos. Fabiana de Castro, revendedora de produtos corporais veganos da Avatim, traz a reflexão sobre a necessidade de estudar e conhecer a produção e os testes, e ressalta “é triste sacrificar tantas vidas para um produto, que muitas vezes nem é tão útil assim.”

Dentre os diversos testes existentes há o Draize, criado em 1944. A modalidade de testes de irritação ocular consiste em medir a toxicidade aguda de substâncias, mantendo os animais conscientes, sem remédios para diminuir a dor e imóveis em uma estrutura. A substância a ser testada é introduzida na pálpebra inferior de um dos olhos do animal, causando uma forte queimação, irritação e dor. Em alguns casos essa aplicação acontece diversas vezes, com os animais sendo monitorados diariamente durante uma a três semanas para verificar o nível de irritação. Outra modalidade do teste é a exposição direta da pele do coelho. Para isso, todos os seus pelos são removidos com fita adesiva, o que retira também algumas camadas da pele, provocando dor, bolhas e sangramentos.
Em observações dos testes Draize descobriram que a chance de uma substância potencialmente perigosa passar no teste como segura, é praticamente nula – no máximo, 0,01%. Já a possibilidade das substâncias irritantes/suaves serem seguras fica entre 3,7% e 5,5%. Estas são etapas que podem ser evitadas, como afirma Camilla Guimarães, engenheira química e idealizadora da Gaia Cosméticos. Ela diz que não é mais caro produzir sem passar pelo processo da crueldade, os custos são os mesmos em todas as indústrias.
Grandes empresas já abandonaram os testes com animais. A Boticário, por exemplo, abandonou a prática em 2000 e luta para que os concorrentes façam o mesmo. Apesar disso, ainda não se tornou completamente vegana, tendo em 2019 apenas 30% de sua linha sem substâncias de origem animal. Na opinião da Fabiana, por mais que haja uma preocupação com a produção cruelty free dentro da Boticário, empresa na qual já trabalhou, sente que ainda há uma diferença entre empresas nacionais e os pequenos negócios.
Já a Natura não realiza mais os testes desde 2006 e afirma que 83% de todos os seus produtos são veganos. Em seu site a marca informa que “para garantir a eficácia e a segurança dos produtos, investe constantemente em ciência, inovação, tecnologia e métodos alternativos.” Mas há a necessidade de se tomar cuidado com essas declarações, pois empresas de grande porte costumam utilizar-se da terceirização. As contratadas nem sempre seguem as mesmas diretrizes.
A terceirização dos serviços facilita a produção de artigos de beleza e higiene pessoal, além de reduzir custos com matéria prima e mão de obra. A empresa contratada é responsável pelo registro e desenvolvimento do produto, ajustes de formulação, lote, teste de qualidade, distribuição e outros. A partir disso, o contratante pode escolher os ingredientes, as embalagens e o lote mínimo. Isso possibilita a criação de diversas fórmulas e o lançamento de uma marca no mercado sem a necessidade de montar uma fábrica. Em certos casos, como apontado pelo People for the Ethical Treatment of Animals (PETA), pode acontecer de a mesma empresa ter suas divisões com marcas que testam e não testam em animais.
Para quem adere ao cuidado e a proteção dos animais, existem mais opções além dos produtos Cruelty free. Também há os veganos e os naturais, que são muito parecidos. Produtos veganos, além de não utilizarem testes em animais durante a formulação, também não utilizam nenhum derivado animal em sua composição. Já os naturais utilizam plantas, grãos, extratos, tudo que vem da terra, mas nem sempre excluirão os testes em animais de sua agenda. Marcas que produzem esses tipos de produtos se preocupam e preservam o meio ambiente. Os produtos que são cruelty free, mas, que possuem derivados animais, acabam sendo comuns e não tão criticados, por não fazerem uma apologia ao sofrimento animal, apenas usufruem de seus derivados, como leite, por exemplo. Assim, optar pelos produtos veganos é apenas uma questão de escolha, sendo de impacto optar por marcas cruelty free, não perpetuando os testes que são cruéis, pouco eficazes e, em sua maioria, desnecessários.
A necessidade dos testes em animais, ainda, indica que as substâncias que serão usadas são muito fortes, envolvendo álcool e ácidos, que podem chegar a queimar a pele, como aponta de Castro, revendedora da Avatim, “utilizar ingredientes do dia-a-dia é uma das melhores opções, grãos, sementes, folhas não agridem a pele ou o cabelo da mesma forma que estes cosméticos fortíssimos produzidos pelas grandes indústrias”.
Porém, o fim dos testes não é uma verdade, não é possível simplesmente vender produtos com a possibilidade de reações nas pessoas, isso poderia causar doenças e mortes. Mas há opções de substituição dos animais, por peles 3D, projeto desenvolvido pelo grupo Boticário para substituir os testes de seus cosméticos nos animais.
É uma tecnologia inovadora que promete reproduzir fielmente a pele humana para a testagem dos produtos prontos e até mesmo dos ingredientes. É um método reconhecido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea). É possível criá-la a partir do material descartado de cirurgias plásticas, com o consentimento do paciente, essas partes retiradas são levadas para o laboratório e lá passa pelo processo de criação de todas as camadas necessárias. Para complementar os testes, uma tecnologia conhecida como Organs-on-Chips (Órgãos-em-chip) simula diversos órgãos. O chip responde de forma similar ao organismo quando em contato com as substâncias. Agindo em conjunto com a pele 3D, eles identificam, com mais eficácia, reações alérgicas decorrentes dos produtos testados.
Há também outra possibilidade apresentada por Guimarães, da Gaia Cosméticos, a testagem em humanos voluntários, em clínicas especializadas onde é possível que os cosméticos passem pelo mesmo processo de testagem, dentro das normas internacionais e seguindo as regras do Ministério da Saúde. O custo não é muito maior do que os testes em animais e dependendo da complexidade dos cosméticos, é possível ter respostas ainda mais rápidas e eficazes, além de entender de forma ainda mais prática como as reações acontecem em diversos tipos de peles.
A existência de testagens alternativas não significa o fim dessa prática. É preciso também anular as leis que permitem a testagem em animais e principalmente as que exigem esses testes, como é o caso da China, possuidora de um grande mercado consumidor. Para isso, é preciso ter o interesse do público em deixar de utilizar essas marcas, pondo fim no argumento de que os produtos naturais e cruelty free são sempre mais caros, uma verdade que já foi desmentida. É possível buscar informações em sites como da ONG Te Projeto ou Projeto Esperança Animal (PEA) para encontrar as marcas que seguem diretrizes cruelty free e veganas.
Por Enzo Munhoz Cury, Henrique Sales Barros e João Victor Capricho Scalzaretto
Parte da classe média entrou em home office ou em regime híbrido com a chegada da Covid-19 no Brasil e, mesmo assim, não possui tempo para cozinhar. As viagens estressantes de ônibus e metrô, assim como os trajetos cheios de trânsito para se dirigir e voltar do trabalho, deixaram de existir para muitos — mas de nada adiantou.
Sem tempo para preparar pratos capazes de dar energia para o corpo ao longo do dia, o delivery entrou em cena. Comparando os anos de 2019 com 2020, os gastos com comida por entrega nos três principais aplicativos do gênero no mercado brasileiro — Rappi, iFood e UberEats — cresceram quase 150%, segundo registros da startup de gestão financeira Mobills.
Dados coletados entre julho e agosto de 2020 pela Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) em pesquisa junto ao Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micros e Pequenas Empresas) vão na mesma linha. Antes da pandemia, 25% dos restaurantes, lanchonetes e correlatos usavam plataformas de delivery para fazer negócios. Depois da covid-19, o índice subiu para 72%.
“O número de pedidos no iFood já caminhava em crescimento gradativo, mas a pandemia trouxe um aumento bem significativo”, avalia Pedro Quilichini, analista pleno de insights e melhoria contínua do aplicativo. Para ele, o advento da crise sanitária fez com que as pessoas percebessem que fazer compras online “não é um bicho de sete cabeças”.
Mas para além da praticidade do delivery, há outra coisa que faz com que o modelo seja preferido quando comparado ao preparo alimentar nas cozinhas: as casas e, principalmente, os apartamentos, estão mais pequenos. Resultado: residências menores levam a copas menores — ou, como se convém chamar no mercado imobiliário: compactas.
Em 2019, 66% dos imóveis lançados na capital paulista possuíam menos de 45 m² — ou seja, eram compactos —, segundo dados do Secovi-SP, o sindicato do setor imobiliário de SP. O percentual estava muito acima da média histórica, de 25%, apontou Basílio Jafet, presidente da entidade, no balanço anual da associação, divulgado na época.

Da comunhão para a compactação
Uma das primeiras tentativas de explicar a compactação das cozinhas modernas é o conceito de kitchenette (não confundir com os “apartamentos kitnet”, embora tenham raízes semelhantes). Cunhado nos Estados Unidos no início do século passado, ele buscava descrever o fenômeno das cozinhas diminutas que, muitas vezes, se conectavam com as salas e outros cômodos das residências.
No Brasil, em 2004, em dissertação para a obtenção do grau de mestre em Arquitetura e Urbanismo pela UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), Glauce de Albuquerque identificou apartamentos em Natal que dificultavam atividades de preparo alimentar e circulação por possuírem a cozinha e a área de serviço conjugadas.
O objeto do estudo foi o Plano 100, importado nos anos 1990 dos grandes centros urbanos do sul do país e tocado por uma construtora privada no RN. O projeto consistia em oferecer apartamentos menores em um condomínio verticalizado, com vários edifícios, e que cabiam no bolso de uma classe média empobrecida, já que era possível financiá-los em até 100 meses — daí, o nome.
Enquanto usavam o fogão da cozinha, os residentes do Plano 100 não podiam lavar roupa pois havia o risco de cair sabão nas panelas. Cozinhar enquanto a roupa secava no varal era ainda mais inviável, já que poderia impregnar as roupas com cheiro de gordura. “Nos condomínios, a insatisfação com relação ao fato da cozinha ser conjugada à área de serviço foi bastante elevada”, constatou.
Em artigo publicado em 2007, o professor da USP (Universidade de São Paulo) Marcelo Tramontano notou que os apartamentos em São Paulo estavam ficando cada vez menores, com as salas e as cozinhas fundindo-se. Resultado: desencorajamento da preparação de pratos elaborados e de longo cozimento, o que levava a uma alteração nos hábitos alimentares do paulistano médio.
Crises econômicas frequentes e um aumento populacional constante fizeram com que mais clientes entrassem no mercado imobiliário, só que mais empobrecidos que em tempos de outrora. Com isso, segundo o arquiteto, as imobiliárias passaram a oferecer apartamentos menores e mais baratos, que cabiam melhor no bolso — processo este que, em Natal, levou à criação do Plano 100.
“A cozinha foi ficando cada vez mais retangular e menor, limitando-se, via de regra, a uma parede equipada em um cômodo diminuto: um novo corredor, ligando o hall de entrada à área de serviço. Ganhou, no entanto, tomadas suplementares, em vista da invasão dos novos eletrodomésticos capitaneados pelo estímulo publicitário ao super-equipamento”, explicou.
A constatação de Tramontano vai ao encontro com o que pensa Vivian Sábio, 43 anos, que tem uma relação próxima com o preparo alimentar, trabalhando na cozinha de uma rede de confeitarias em São Paulo. Para ela, as copas antigas eram ambientes de reunião familiar, enquanto as de hoje parecem servir unicamente para nutrir o corpo no menor tempo de preparo e consumo possível.
“Estamos quase nos alimentando de cápsulas de vitaminas, de aminoácidos”, pontua, também citando a questão dos eletrodomésticos. Não é por menos: com toda a tecnologia que possuem, eles incentivaram a industrialização e o processamento de alimentos como, por exemplo, bolos (é só bater a massa pronta no liquidificador) e lasanhas (que tal no microondas?), que ficaram mais práticos para se preparar.

Inaptidão e necessidade
Mateus Dias Vilela, doutor em Comunicação Social pela PUCRS (Pontíficia Universidade Católica de São Paulo) explica que, antes da pandemia, a classe média vivia muito tempo fora de casa, atarefada com trabalhos e outros afazeres da vida moderna, e não tinha tempo para cozinhar. A consequência disso, acrescenta, foi a crescente inaptidão para o preparo alimentar neste estrato social.
A questão pode ser entendida retomando os dados da Abrasel junto ao Sebrae sobre a entrada dos restaurantes no modelo de delivery: agora, os clientes desses locais estavam em apartamentos com cozinhas compactas e sem aptidão para desenvolver pratos capazes de fornecer "sustância" ao corpo ao longo do dia. A 'solução delivery' veio ao socorro desse público.
“Os programas de televisão sobre culinária e alta gastronomia também têm contribuído para um uso da cozinha menos social e mais individualizado, com foco na satisfação pessoal e na criação”, diz ele, que, em 2015, ao lado de Tauana Mariana Weinberg Jeffman, escreveu o artigo “A cozinha pós-moderna do MasterChef Brasil: Social TV e mídia que se propaga no Twitter”.
No estudo "Implicações da pandemia da covid-19 nos hábitos alimentares", publicado este ano pela nutricionista Sabrina Alves Durães ao lado de outras três pesquisadoras, é destacado um aspecto ainda mais negativo sobre o aumento do consumo de delivery durante a crise sanitária: a facilidade que se ganhou para comprar produtos de baixa qualidade, como alimentos de restaurantes fast food.
O consumo de alimentos provenientes desses locais aliado ao baixo nível de atividade física da população devido às políticas de isolamento social, acrescenta, pode desencadear em uma série de doenças, como obesidade, doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão etc. — e todas estas citadas colocam o indivíduo em um ou mais grupo de risco de agravamento da covid-19.
Tendo em vista o potencial de desenvolvimento de uma série de comorbidades entre a população, a nutricionista adverte sobre a necessidade de uma alimentação mais saudável. “Faça dos alimentos in natura e minimamente processados a base da sua alimentação. Consuma diariamente frutas, legumes, verduras, grãos, carnes e ovos. Beba bastante água e utilize óleo, sal e açúcar com moderação”, pede.
Como dica, Durães recomenda a consulta do "Guia Alimentar para a População Brasileira", elaborado pelo Ministério da Saúde, e do “Guia para uma Alimentação Saudável em Tempos de Covid-19”, da Asbran (Associação Brasileira de Nutrição), que fornecem orientações e nortes para uma alimentação mais saudável e menos dependente de terceiros ou da indústria.
“O guia (da Asbran) possui dicas de alimentação saudável na prática, com mudanças de hábitos, planejamento das refeições em casa, dicas para a realização das compras sem desperdícios, higienização segura dos alimentos, armazenamento, preparo e conservação durante a pandemia de covid-19”, acrescenta.
Junto com a pandemia de covid-19 o Brasil também está vivendo uma pandemia de fome, é isso que indica o inquérito nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, conduzido pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan). O estudo realizado em 2.180 domicílios nas cinco regiões do país, em áreas urbanas e rurais, entre 5 e 24 de dezembro de 2020, aponta que a insegurança alimentar grave afeta 19 milhões de brasileiros, ou seja 19 milhões de brasileiros estão passando fome, e que 43,4 milhões de brasileiros convivem com a insegurança alimentar, isso é, não contam com alimentos em quantidade suficiente para se alimentar adequadamente.
É perceptível que a combinação das crises econômica, política e sanitária provocou uma imensa redução da segurança alimentar em todo o Brasil, o inquérito mostra que voltamos aos patamares que não eram registrados desde 2004 e retornamos ao mapa da fome ao qual o Brasil avia sido excluído em 2013, quando a situação de fome da população havia caído para 4,2%, o nível mais baixo até então.
O Brasil tinha sido capaz de combater a fome até então com políticas públicas que combatiam à pobreza e à miséria. Mas o corte do auxílio emergência, de R$600 para R$ 300, que era concedido a 68 milhões de brasileiros pelo governo federal durante a pandemia de covid-19 contribuiu para chegarmos nesses números de fome. O inquérito mostra o aumento acentuado na proporção da insegurança alimentar leve em apenas dois anos, de 20,7% para 34,7%. Cerca de metade dos entrevistados pelo estudo relatam que houve, durante a pandemia, redução de renda familiar que consequentemente causou insegurança alimentar leve.
O inquérito também mostra que a pandemia acentuou desigualdades já existentes, os maiores afetados, segundo o estudo, são as regiões Nordeste e Norte, já que segundo os dados adquiridos os índices de insegurança alimentar estava acima dos 60% no Norte e dos 70% no Nordeste, enquanto o porcentual nacional é de 55,2%, e a fome foi registrada em 18,1% dos lares do Norte e em 13,8% do Nordeste.
A pandemia também acentuou desigualdades sociais, os dados mostram que a desigualdade de gênero e o racismo têm papel fundamental nessa realidade brasileira, já que o estudo aponta que 11,1% dos lares chefiados por mulheres os habitantes passam fome, contra 7,7% quando o chefe de família é um homem. Quando passamos para os dados de lares que pertencem a pessoas negras a fome estevava presente em 10,7%, mas entre lares de pessoas brancas o percentual foi de 7,5%.
O estudo da Rede Penssan aponta que a fome não está sozinha, ela anda junto com outras carências como a insegurança hídrica que também está presente nesses lares. Nas regiões Nordeste e Norte a porcentagem de insegurança hídrica chegou a 40,2% e 38,4%, o que é quase três vezes superior as porcentagens registradas nas demais regiões do Brasil. Esses dados são preocupantes quando lembramos que estamos vivendo uma pandemia de Covid-19 e a água é um fator fundamental para os cuidados de prevenção do vírus.
Apesar desse cenário assustador e da falta de políticas públicas governamentais, inúmeras organizações não governamentais estão realizando projetos para combater a fome que só vem crescendo no Brasil. Um dos projetos mais conhecidos e mais promovidos é a campanha “Tem Gente com Fome” promovida pela Coalizão Negra Por Direitos, em parceria com a Anistia Internacional, Oxfam Brasil, Redes da Maré, Ação Brasileira de Combate às Desigualdades, entre outras organizações da sociedade civil. O objetivo da campanha é realizar um financiamento coletivo para arrecadar fundos para ações emergenciais de enfrentamento à fome, à miséria e à violência na pandemia de Covid-19.
Os funcionários da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Os metrôs, ônibus e trens não pararam desde o início da pandemia, o que expõe a necessidade da categoria de motoristas, condutores, cobradores e outros funcionários do transporte público se vacinarem com prioridade. Embora os motoristas de ônibus ainda não tenham entrado na fila, os funcionários do metrô e CPTM, conseguiram.
Serão vacinadas 9.500 pessoas, incluindo todos os operadores de trens, independentemente da idade, e demais funcionários da operação, que lidam diretamente com o público, acima dos 47 anos. Entram ainda, os trabalhadores da operação das linhas 4-amarela e 5-lilás, que são privatizadas.
Em vídeo, Alexandre Baldy, secretário dos Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo, divulga que “estaremos vacinando trabalhadores das operações, aqueles que estão nas estações como operador, aqueles que estão como segurança e aqueles que estão para a limpeza, a higienização de todas as superfícies das pessoas que tocam a todo momento. Exclusivamente os que estão em contato com milhões de pessoas a cada dia estão sendo vacinados pelo Governo de São Paulo”.
A AGEMT conversou com o Altino Prazeres Jr, coordenador do Sindicato dos Metroviários de São Paulo e militante do PSTU. Perguntamos qual a visão dele sobre a vacinação para a categoria. Para ele, “O setor de transporte deveria ter sido incluído logo depois dos idosos e setores de saúde já que são grandes transmissores''. Ele acrescenta criticando a situação atual.
“Se o governo bolsonaro tivesse comprado as vacinas antes, e não fizesse campanha contra elas no seu início. E também, os próprios laboratórios, se não tivessem fazendo leilão da vacina, mas quebrassem a patente, a vacinação ocorreria de forma mais abrangente em todo o mundo."
Em sua opinião, “a velocidade da imunização está muito atrasada, descaso de todas as esferas governamentais”. Altino ressalta ainda que, “A ganância das grandes empresas e milionários está impedindo a sociedade de colocar um fim na pandemia. A falta de esforço está sendo o maior obstáculo para a imunização mais rápida e trazer ajuda para o maior número de pessoas possíveis”, conclui.

O Metrô já soma 22 mortes entre seus funcionários, além de cerca de 1.500 contaminados, segundo contagem do sindicato dos Metroviários, que convocou uma “greve sanitária”.
Prazeres traz também que, “Por mais que todos os trabalhadores sejam imunizados, ainda há o risco de serem infectados por diferentes mutações do vírus". O coordenador relata que tem ansiedade, pois gostaria que "ele e os colegas fossem vacinados mais rápidos”.
O relatório da Administração do Metrô divulgado, mostra que embora a pandemia tenha tirado passageiros nos primeiros meses da chegada do vírus ao Brasil, foram feitas quase 3 bilhões de viagens nos transportes públicos que passam pela capital, entre metrô (764 milhões), CPTM (505 milhões) e ônibus municipais (1,6 bilhão).
Prazeres ainda expõe, que a notícia deixou o sindicato contente, porém, frustrados por garantir a vacina apenas para os funcionários com idade a partir de 47 anos e o Governo do Estado de São Paulo não deu explicações ou informações para o sindicato, os trabalhadores e para os funcionários da área de segurança. “Há um desejo, mas ainda uma insatisfação, pois grande parte da categoria não vai ser vacinada no momento”.
Na pandemia, o metrô do Estado teve um prejuízo de cerca de R$1,7 bilhões devido à queda do número de passageiros, acarretando diminuições de vagões e trens em circulação pela capital. As linhas 1 – azul e 3 – vermelha sofreram uma retirada de 17% comparado com anos anteriores, enquanto a linha 2 – verde foi a mais atingida, com menos 29% de viagens diárias.
Fundada oficialmente em junho de 2010 na cidade de São Francisco, Estados Unidos, a Uber Technologies Inc. criou um novo nicho profissional, que inicialmente tinham a proposta de serem uma empresa de carros luxuosos, porém rapidamente notaram que compensaria absurdamente mais caso tornassem o negócio acessível à população como um todo – e sem dúvidas fizeram isso de forma esplêndida. Hoje distribuída pelo mundo todo, a empresa chegou ao Brasil em 2014 revolucionando completamente tudo o que conhecíamos que tangenciasse o quesito movimentar-se por meio de transporte particular.
Com preços mais baixos para os consumidores e com ganhos mais altos para quem dirigia, rapidamente caiu no gosto e no inventário popular como uma alternativa prática para passeios com a família, retornos de festas, ou mesmo o deslocamento para o trabalho diariamente, isso justificado por motivos como o preço do combustível, pelo fato de ter uma flexibilidade muito maior com relação aos horários do que os táxis, que antes possuíam todos os mecanismos até então criados, e quanto pela praticidade do carro vir até o passageiro, e não vice-versa. Apesar dos benefícios que eram exaltados mídia e mundo afora, a crise brasileira em 2015 começou a acentuar um processo que desencadeou na realidade que muitos motoristas vivem hoje em dia. Por ser um serviço de certa forma considerado simples e de fácil ingresso, muitas pessoas que perderam seus empregos na época recorreram ao aplicativo como uma saída rápida e eficaz para continuarem arcando com os custos mínimo de uma vida digna. Esse movimento de transição para os aplicativos foi crescendo cada vez mais entre os brasileiros que precisassem de um serviço, independente do motivo, e não foi diferente na crise advinda do Covid-19, onde milhares de brasileiros que perderam suas ocupações precisavam de alguma forma de sustento, elevando essa curva do contingente de motoristas ao limiar, o que trouxe à tona problemas que muitos enfrentam há anos completamente em silêncio.
Através de uma nota técnica publicada pelo Observatório Social da Covid-19 da UFMG, que analisou dados providos pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Covid-19 (Pnad-Covid) e de outras pesquisas realizadas em anos anteriores, em busca de padrões e/ou mudanças possíveis, realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é possível analisar o impacto dos aplicativos nos números de pessoas que já trabalhavam como motoristas e como essa taxa aumentou com o passar dos anos. A pesquisa nacional de 2011 afirma terem 614 mil condutores independentes para transporte particular no Brasil, número que se manteve estável até meados de 2015, época em que já eram registrados cerca de 643 mil motoristas na mesma condição. Após a chegada dos aplicativos e com o sucessivo boom da categoria, os números das pesquisas de 2019 e 2020 comprovam a existência de mais de 1,1 milhão de trabalhadores na área, ou seja, um aumento de mais de 500 mil novos membros.

Foto: Guilherme Campos
João Carvalho Antunes de Souza , motorista que deu depoimento à AGEMT, relata que iniciou seus serviços através do aplicativo após maio de 2020, mas não por prazer ou vontade própria. “Eu trabalhei em empresas grandes antes de “virar Uber”, mas cê sabe que tem coisa que a gente não escolhe, a gente precisa fazer para viver”. “A gente tá precisando trabalhar umas 10 a 12 horas por dia se quiser tirar um dinheiro no final do mês, e ainda mais agora que tem muita gente precisando de dinheiro, cada vez vem menos.”
Através das PNAD’s realizadas anualmente, é possível perceber a diferença bruta na carga horária semanal de outras profissões para aqueles que trabalham como motoristas. Bruno, outro motorista que aceitou depor, porém com seu nome e imagem velada, também aponta algumas questões cruciais dos riscos que corre todos os dias: “Antes eu fazia entre 2 mil até 2.500 por mês, agora eu preciso trabalhar o dobro para ganhar metade praticamente”. “Às vezes você tem que saber até onde pode ir, se vale à pena fazer tal corrida, porque se algo acontecer não vai ter ninguém preocupado em te socorrer, saca?”. Tendo em comparação o número de horas trabalhadas com a renda mensal final, o mínimo esperado era que atingisse ao menos o salário mínimo decretado pela legislação, porém a falta de vínculo com a empresa coloca em xeque as vidas desta classe, pois a necessidade de bater um valor mínimo para sobreviver faz com que pessoas como João, Bruno e outras milhares façam jornadas desgastantes todos os dias, sem a mínima segurança prevista pelos aplicativos que fornecem os pedidos, sem direitos trabalhistas ou sequer a certeza de que vão voltar para casa.

No início de 2019, em Londres, a suprema corte britânica decretou que motoristas da Uber teriam direitos como salário mínimo, descansos e intervalos entre corridas remuneradas, entre outros direitos trabalhistas. A empresa norte americana entretanto sempre alegou que se tratava somente de uma intermediária entre motoristas e passageiros, porém a decisão judicial foi contrária, entendendo que os motoristas estão em posição subordinada à Uber, sendo que a própria define o valor das corridas feitas, qual a tarifa cobrada mediante ao valor total, os termos previamente decretados pela Uber, penalizações e até possível suspensão do contrato dos motoristas caso hajam reclamações por parte dos passageiros, tudo isso sem que o motorista possua um mecanismo de diálogo para uma possível alteração ou algo que o valha. Tal decisão pode acabar reverberando e gerando outros movimentos ao redor do mundo, bem como aqui no Brasil, pois sem dúvidas as condições pré-impostas àqueles e àquelas que buscam nos aplicativos uma renda, seja ela extra ou única, são um tanto quanto irresponsáveis e preocupantes, ainda mais no período de pandemia, onde em um único dia estas pessoas que controlam os veículos se expõe agudamente ao vírus da Covid-19, mesmo com máscaras e outras proteções, pois o fluxo de pessoas é contínuo, circulam a cidade toda, e tristemente caso algo ocorra com qualquer um destes motoristas, ninguém se responsabilizará. A sobrevivência de muitos brasileiros depende exclusivamente desse dinheiro e não há opção de escolha para a grande maioria. O que nos resta é lutar pelos direitos que todos deveriam ter, pois não há dinheiro no mundo que valha mais que a vida de um ser humano.




