A experiência de João Pedro mostra como tecnologias assistivas ampliam as possibilidades de mobilidade de pessoas com deficiência física.
por
Dhara Yuki
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26/10/2026 - 12h

Por Dhara Yuki

 

Para João Pedro sair de casa exige pensar além do destino. Antes de atravessar a porta é preciso considerar o caminho, a distância, o tempo que ficará em pé e os recursos que poderá precisar para chegar ao lugar desejado. Dependendo do compromisso, a escolha pode ser uma órtese, uma muleta ou uma cadeira de rodas. A decisão não é apenas sobre como se locomover, mas sobre qual equipamento oferecerá melhores condições para enfrentar o percurso.

Diagnosticado ainda durante a gestação com mielomeningocele, uma má-formação congênita da coluna vertebral, João teve contato com a tecnologia médica antes mesmo de nascer. Durante os exames de pré-natal, sua mãe descobriu a condição e soube que existia a possibilidade de uma cirurgia para corrigir a má-formação ainda dentro do útero. O procedimento, que envolve a abertura do útero para operar a coluna do feto e depois reposicioná-lo, foi uma das primeiras possibilidades de intervenção médica relacionadas à sua condição. Uma das complicações associadas à mielomeningocele é a hidrocefalia, caracterizada pelo acúmulo de líquido nos ventrículos cerebrais. Logo após o nascimento, João passou por uma cirurgia para tratar o problema e recebeu uma válvula que permitia drenar o excesso de líquido. O dispositivo, entretanto, exigia acompanhamento médico e poderia precisar ser substituído ao longo da vida. A possibilidade de depender de um equipamento por tempo indeterminado fez parte de sua história desde o começo. Anos depois, uma nova intervenção médica mudaria essa relação com a tecnologia.

Quando tinha dois anos, a mãe de João descobriu o Hospital Sarah Kubitschek, em Minas Gerais, uma instituição especializada em reabilitação. Lá, ele iniciou um tratamento direcionado às necessidades de pessoas com a mesma deficiência e passou a utilizar órteses de polipropileno, dispositivos que auxiliam a sustentação e o movimento das pernas, e esse acompanhamento durou dez anos. A órtese se tornou parte de sua rotina e permitiu que ele desenvolvesse sua mobilidade com o auxílio do equipamento. Entretanto, conforme crescia, as limitações do material começaram a aparecer. Por volta dos 12 anos, a equipe que o acompanhava informou que as órteses utilizadas até então não seriam mais suficientes para suportar seu peso. Era necessário encontrar outra alternativa.

A busca levou João à Ottobock, uma empresa especializada em soluções de tecnologia assistiva, entre elas órteses e próteses. A alternativa encontrada utilizava fibra de carbono, um material que permite produzir dispositivos leves e resistentes. Porém, o custo representava um obstáculo. Os equipamentos eram caros, e conseguir acesso a uma tecnologia mais adequada às suas necessidades não dependia apenas de sua existência. Na mesma época, João decidiu procurar uma cadeira de rodas motorizada. Embora conseguisse andar com o auxílio da órtese, percorrer longas distâncias provocava cansaço. A cadeira poderia facilitar esses deslocamentos, mas, para adquiri-la, foi necessário organizar uma vaquinha com a ajuda de amigos e familiares.

No entanto, a cadeira não correspondeu às expectativas, pois pesava aproximadamente 70 quilos, sendo difícil transportá-la, e as condições das ruas de Santo André tornavam a locomoção ainda mais complicada. A tecnologia havia sido pensada para facilitar seus deslocamentos, mas o peso do equipamento e as características do espaço urbano acabaram gerando novas dificuldades. A experiência evidencia uma contradição presente no cotidiano de muitas pessoas com deficiência, um dispositivo pode oferecer determinada solução sem necessariamente resolver os problemas encontrados no ambiente em que será utilizado. Não basta que um equipamento permita o deslocamento se o peso, o transporte ou as condições das calçadas dificultam sua utilização.

Aos 15 anos, João enfrentou outro episódio que mudaria sua relação com os recursos médicos. As dores de cabeça se tornaram intensas e não melhoraram nem com o uso de fortes analgésicos. Ao procurar um neurologista, recebeu a orientação de que a válvula implantada após o nascimento deveria ser substituída, mesmo sem estar completamente obstruída, porém outra possibilidade foi levantada, segundo João, o médico havia desenvolvido uma técnica cirúrgica que permitiria tratar a hidrocefalia sem a necessidade de manter a válvula. O procedimento foi realizado fora do convênio porque não oferecia cobertura, e teve o resultado esperado. Desde então, João não precisou mais utilizar o dispositivo. A cirurgia representou uma grande mudança, um recurso que havia acompanhado sua história desde os primeiros dias de vida deixou de ser necessário. O avanço médico não se limitou a substituir um equipamento antigo por outro, mas possibilitou uma nova condição de tratamento. O acesso, porém, teve um custo. A ausência de cobertura pelo convênio fez com que o procedimento dependesse de recursos particulares, revelando que a existência de uma tecnologia não significa que ela esteja disponível para todos que poderiam se beneficiar dela.

Na mesma fase, João conseguiu adquirir uma órtese de fibra de carbono. O equipamento permaneceu com ele por aproximadamente seis anos, período em que o dispositivo acompanhou seu crescimento e suas necessidades. Agora, ele se prepara para trocá-lo por um modelo mais recente, desenvolvido para corrigir melhor sua marcha e oferecer menor peso. A evolução das órteses mostra como a tecnologia assistiva não se resume à criação de um equipamento. Os dispositivos também passam por aperfeiçoamentos que podem modificar sua eficiência, seu conforto e a forma como se integram à rotina de quem os utiliza. Para João, a troca representa a possibilidade de contar com um recurso mais adequado às necessidades atuais, depois de anos utilizando o mesmo equipamento.

A cadeira de rodas também ganhou uma nova versão. Durante um intercâmbio na Itália, João passou os primeiros 15 dias acompanhado da mãe para compreender como seria sua rotina no país e avaliar as dificuldades de deslocamento. Percebeu que não conseguiria percorrer todos os trajetos apenas com a órtese. Dessa vez, encontrou uma cadeira mais leve, compacta e acessível financeiramente. O modelo atual pesa 27 quilos, dobra-se como um carrinho de bebê e custou menos da metade do preço da primeira cadeira motorizada que havia adquirido.

Hoje, João alterna os recursos de acordo com a necessidade. Nos dias em que precisa comparecer presencialmente a compromissos que exigem permanecer muito tempo em pé, utiliza a cadeira de rodas. Para ir à faculdade, quando considera o percurso viável, prefere a órtese e a muleta. A escolha também depende das condições do caminho. Em ruas irregulares ou em trajetos nos quais precisa ter maior controle dos movimentos, a cadeira pode ser menos prática do que a muleta. O equipamento mais avançado, portanto, não é necessariamente o mais adequado em todas as situações. A autonomia está também na possibilidade de escolher o recurso que melhor responde às necessidades de cada deslocamento.

Dentro de casa, a rotina é diferente. João utiliza um assento fixo durante o banho por causa da dificuldade para permanecer em pé por muito tempo, mas fora isso, sua casa não conta com adaptações específicas para sua condição, inclusive, consegue subir e descer escadas, mas algumas tarefas mais simples, como levar um copo ou um prato da pia até a mesa, exigem atenção para evitar desequilíbrios. A tecnologia, nesse contexto, não elimina todas as dificuldades. Mesmo com os equipamentos que utiliza, existem situações em que a organização dos espaços e as características do ambiente interferem diretamente em sua autonomia.

A mesma questão aparece quando João vai à faculdade. A instituição realiza a chamada por meio do sistema da catraca, mas a entrada principal não oferece acessibilidade. Para conseguir entrar, ele precisa utilizar o portão dos fundos, que permite a passagem, mas não conta com o sistema de registro de presença. A solução encontrada pela instituição para registrar presença aos alunos não contempla todos da mesma maneira. O problema não está na capacidade de João de frequentar as aulas, mas na ausência de uma estrutura que permita que ele acesse o espaço e cumpra os procedimentos institucionais nas mesmas condições que os demais estudantes. Segundo ele, mesmo após uma reforma na faculdade, a questão permaneceu sem solução. Essa situação diz que a acessibilidade não depende exclusivamente de equipamentos individuais ou de avanços na medicina, mas também de planejamento dos espaços coletivos e dos serviços utilizados diariamente.

A autonomia de João se estende ainda à direção de veículos. Desde 2023, ele tem carteira de habilitação e pode dirigir, mas precisa utilizar um carro adaptado. Como não consegue acionar os pedais convencionais da maneira habitual, o veículo possui uma haste que permite acelerar e frear manualmente e um pomo giratório instalado no volante que facilita as manobras com apenas uma das mãos. O carro também precisa ter câmbio automático, já que o sistema de adaptação utilizado não funciona com embreagem convencional.

Da cirurgia realizada ainda na infância aos equipamentos utilizados para andar e dirigir, a tecnologia atravessa diferentes etapas da vida de João. Em alguns momentos, aparece como uma intervenção médica capaz de modificar um tratamento, em outros, como um dispositivo que facilita um trajeto ou permite realizar uma atividade cotidiana. Mas sua experiência também mostra que a autonomia não depende apenas do desenvolvimento de novos recursos. O preço dos equipamentos, a cobertura dos procedimentos médicos, as condições das ruas e a acessibilidade das instituições interferem diretamente nos benefícios que essas tecnologias podem oferecer.

Para João, sair de casa sem nenhum dispositivo de auxílio não é uma possibilidade viável. Em seus deslocamentos, órtese, muleta e cadeira de rodas cumprem funções diferentes, escolhidas de acordo com o percurso e o tempo que precisará permanecer em movimento. O desenvolvimento de equipamentos mais leves, resistentes e funcionais amplia as possibilidades de mobilidade, mas não transforma automaticamente os espaços em ambientes acessíveis. Quando uma cadeira de rodas encontra dificuldades nas ruas ou um estudante precisa utilizar uma entrada alternativa para chegar à faculdade, fica evidente que a inovação tecnológica e a inclusão não avançam necessariamente no mesmo ritmo. A história de João revela duas dimensões de uma mesma questão, a importância de tecnologias que respondam às necessidades das pessoas com deficiência e a necessidade de ambientes preparados para que elas possam utilizá-las. Afinal, não basta desenvolver equipamentos capazes de ampliar a autonomia se os caminhos que levam à universidade, ao trabalho e aos demais espaços da vida cotidiana continuam impondo barreiras.

 

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Franquia de games do lendário skatista da Califórnia trouxe o universo do esporte para os holofotes ao longo das décadas
por
Ivo Leite
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23/10/2026 - 12h

 

Jogar videogame é uma atividade que pode inspirar e fazer sonhar, seja para ser jogador de futebol com títulos como FIFA e PES, por exemplo, ou skatista. Vários jovens começaram a se prestar atenção no universo das quatro rodinhas por meio de um amigo ou por si só. Mas, será que houve algo a mais que despertasse esse interesse?

Em 29 de Setembro de 1999, o jogo Tony Hawk Pro Skater, do skatista californiano Tony Hawk, chegou ao mercado para o console Playstation. O game foi um pontapé inicial para o surgimento de uma franquia de sucesso que vendeu mais de 350 mil cópias só nos três primeiros meses daquele ano. 

Versão do jogo para PC. Foto Ivo Leite/AGEMT
 Versão do jogo para PC. Foto Ivo Leite/AGEMT

 

Criada em parceria com a Activision, uma das maiores e mais influentes distribuidoras de jogos eletrônicos do mundo, a franquia ficou famosa por sua jogabilidade arcade rápida. Após grande êxito com o Playstation, o game foi para outros consoles como o Nintendo 64, Game Boy Color, Dreamcast e N-Gage.

As variações foram sendo criadas com a essência do jogo original. Tony Hawk Pro Skater Underground é um exemplo dessas sequências, dentre outras que surgiram. Houve alguns experimentos como em Tony Hawk Ride que, diferente de seus antecessores, usava um periférico físico em formato de skate como controle. 

 

Por conta do acessório, o jogo custava US$119,90, o dobro de um game comum na época - Reprodução/Mercado Livre
Por conta do acessório, o jogo custava US$119,90 - o dobro de um game comum na época Foto: Reprodução/ anúncio Mercado Livre 

Em 2020, a franquia foi remasterizada com gráficos hiper modernos, lançando o Tony Hawk 1 + 2, premiado como melhor jogo de esporte em eventos como o The Game Awards e o D.I.C.E. Awards. E em 2025, a coletânea Pro Skater 3 + 4 veio ao mercado para concretizar a volta do título.

“Cresci jogando e isso certamente me influenciou a me aventurar sobre quatro rodinhas”, afirma o gamer e skatista Felipe Dias, de 23 anos, que atualmente deseja se formar no curso de Design de Games. “Quero sempre me lembrar de como me apaixonei pelo esporte”, finaliza Dias.

 

Manobras e pistas com dinâmica real . Foto Ivo Leite/AGEMT
Manobras e pistas com dinâmica real Foto: Ivo Leite/AGEMT

 

Um dos pontos  altos da série de jogos Tony Hawk está nas trilhas sonoras marcantes. Gerações de apaixonados por grandes bandas ouviram e se lembram de pelo menos uma música presente nos jogos. A lista compõe diversos estilos musicais como hardcore, punk rock, hip-hop, ska punk e metal. Destaque para “No Cigar”, do Millencolin; “Guerrilla Radio” do Rage Against the Machine e “Superman”do Goldfinger. 

Nesse tempo, o skate se tornou um esporte de grande expressão chegando a compor até os Jogos Olímpicos, a partir de 2020. E a ascensão de sua prática também pode ser avaliada pela influência de jogos digitais como o Tony Hawk Pro Skater. 

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Uma mudança na mentalidade corporativista do brasileiro está atrelada à luta pela redução de horas trabalhadas
por
Clara Dell'Armelina
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19/05/2026 - 12h

O debate sobre o fim da escala 6x1 ganhou um maior fôlego nos últimos dias após a Câmara dos Deputados confirmar para 26 de maio deste ano a votação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que reduz a jornada semanal de trabalho e amplia o descanso dos trabalhadores brasileiros. A medida pode impactar cerca de 16 milhões de trabalhadores que atualmente atuam no modelo de seis dias de trabalho para apenas um de repouso. O avanço da proposta ocorre em meio à pressão popular, com apoio de centrais sindicais e resistência de parte do empresariado, e corrida eleitoral.

Foram reacendidas as discussões entre empresários, trabalhadores e especialistas sobre produtividade, saúde mental e reorganização do mercado de trabalho. Para a economista e CEO da DS Estratégia de Educação e Inteligência Financeira, Dirlene Silva, em entrevista à AGEMT, o debate vai além das planilhas econômicas e exige uma mudança estrutural na forma como o trabalho é pensado no Brasil, “essa transição exige mais do que um ajuste de escala, ela exige mudança de modelo de gestão e de mentalidade”, afirma.

Dirlene Silva: Economista e mestre em Gestão e Negócios, é fundadora e CEO da DS Estratégia de Educação e Inteligência Financeira.
Dirlene Silva (Foto: Fábio Chialastri)

Segundo Dirlene, experiências internacionais em países como Islândia e Reino Unido mostraram que jornadas reduzidas podem manter, ou até mesmo chegar a elevar, a produtividade quando acompanhadas de reorganização dos processos internos, “esses países demostraram que o ganho vem da reorganização do trabalho, não da redução pura e simples de horas. Na prática, as empresas precisam atuar nas frentes de revisão de processos, gestão por resultados, redistribuição de jornadas e mudança de mentalidade”, explica Silva, que sugere que devem especialmente procurar buscar uma transformação da cultura corporativa, abandonando a lógica de que longas jornadas representam maior eficiência e reconhecendo que descanso e bem-estar também impactam diretamente a produtividade do trabalhador. “A economia é, sobretudo, sobre pessoas. E pessoas não produzem de forma linear ao longo de horas extensas”, diz ela.

O aumento de receita registrado em empresas que adotaram jornadas reduzidas está ligado diretamente ao ganho de eficiência operacional e ao bem-estar dos trabalhadores. Experiências internacionais reforçam essa lógica de que menos horas de trabalho podem significar mais foco, menos retrabalho e melhor aproveitamento do tempo. Em 2019, a filial japonesa da Microsoft registrou aumento de quase 40% na produtividade após implementar uma semana de quatro dias de trabalho, além de reduzir gastos com energia e reuniões mais longas. Para Dirlene, empresas que cuidam das pessoas conseguem maior consistência na entrega de resultados. “Seres humanos precisam de descanso para produzirem melhor”, afirma.

Prédio da Microsoft - Imagem: Tang Yan Song/Shutterstock
Microsoft - Imagem: Tang Yan Song/Shutterstock

Falar sobre o adoecimento físico e mental dos trabalhadores é também falar sobre os impactos econômicos para empresas e para o próprio Estado, especialmente nas áreas de saúde pública e previdência. “Ao longo de mais de 30 anos no corporativo, vi muitas pessoas adoecerem e até morrerem por excesso de trabalho”, relata. Para Dirlene, jornadas menores favorecem equilíbrio emocional, melhora na tomada de decisão e redução do adoecimento mental. “Economia não acontece só na planilha, acontece também no comportamento. E comportamento melhora quando as condições melhoram”, explica.

Toda essa discussão também expõe desigualdades históricas do mercado de trabalho brasileiro, os trabalhadores submetidos às jornadas mais longas geralmente ocupam cargos menos valorizados e recebem salários menores. “Não é a quantidade de horas que determina o nível de renda, mas o tipo de trabalho, o nível de qualificação e a posição ocupada na estrutura produtiva”, afirma.

A CEO ainda aponta que, no Brasil, a cultura da hora extra muitas vezes se transforma em complemento salarial, refletindo baixos salários estruturais, “ainda convivemos com um cenário em que trabalhar mais horas não significa, necessariamente, ganhar mais”. Uma pesquisa da Catho reforça esse cenário apontando que 60,7% dos trabalhadores brasileiros fazem horas extras regularmente e, segundo o levantamento, muitas empresas ampliam a carga de trabalho dos funcionários como estratégia para aumentar a produtividade, algo que contribui para a normalização das jornadas extensas no mercado de trabalho do Brasil.

Gráfico da pesquisa da Catho
(Foto: Reprodução/Catho)

Dirlene acredita que a principal barreira para a aprovação definitiva da medida ainda é cultural, ela diz que ainda “existe uma lógica muito antiga baseada em controle de jornada, não em produtividade”. Ela defende que o país precisa compreender que desenvolvimento econômico sustentável depende diretamente das condições de vida dos trabalhadores pois “não existe desenvolvimento sustentável com pessoas adoecendo para sustentar o sistema”, conclui.

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Em meio ao envelhecimento de cada indivíduo, uma vida digna é garantida para todos. E deveria ser assim, mas a realidade de muitos é contraditória.
por
Alice Begnini
Rafaella Lalo
Heloá Hurtado
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09/04/2026 - 12h

Por trás de peles enrugadas, histórias invisíveis que não são contadas nas visitas, que por vezes nem se quer existem, um capítulo que não é mostrado nas fotos de família. Os corredores são silenciosos, com rotinas organizadas e uma saudade sem tamanho: A família. Abraços, ligações e o próprio calor humano se tornam ausentes, aquela presença de quem fez parte da história, não está mais ali. Os olhares esperançosos entre as portas, esperando a entrada de alguém que talvez não venha mais.

A carência, não é apenas algo físico, ela se torna algo estrutural. O dia que era marcado por encontros, passa a ser marcado por rotinas rígidas, silenciosas, que nem sempre são sinônimos de paz. As datas comemorativas, nem sequer existem, não são compartilhadas. Mesmo com profissionais dedicados e capazes, há um espaço que nenhuma instituição irá suprir, onde o abandono familiar se instala.

Pensando nesse sentido, observa-se que a superlotação piora a realidade. O espaço acolhedor se torna insuficiente perante a grande demanda, idosos começam a dividir quartos, rotinas e além de tudo suas histórias. Aquela atmosfera que indica transmitir cuidado, afeto e tranquilidade, torna- se hostil, provocando uma crise emocional, social e humana.

Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) registraram um grande aumento na população idosa entre 2010 e 2022, além de apontar que o número de idosos que residem em abrigos cresceu 65% em 10 anos.

Profissional auxiliando a mobilidade de um idoso que necessita de cuidados.
Idosos representam cerca de 15% da população. Foto:pixabay.

Segundo Flávia Damião, enfermeira, que atua no Lar Sant’Ana Residencial: “É muito comum a ocorrência de abandono, mesmo em residências de famílias com boas condições financeiras.” A afirmação da enfermeira evidencia que o abandono familiar perpassa a saúde mental e física dos idosos.

Há cinco anos atuando na área, Damião presencia o cotidiano e os desafios desse ambiente. No lugar onde trabalha, residem cerca de 100 idosos que estão inseridos em atividades de dança, exercício físico e fisioterapia. Segundo ela, essas práticas contribuem diretamente para a saúde mental e favorecem a socialização entre eles.

Contudo, o cuidado profissional não ocupa todas as faltas. “Apesar das condições, eles ainda são muito carinhosos “, afirma. Ao falar sobre o afastamento familiar, ela é clara: “É comum, inclusive em um residencial de alto padrão. “Eles sentem muito. Ela não sabe mais quem eu sou, mas eu sei quem ela é”. Aponta um relato presenciado pela enfermeira.

A força desse abandono é complexa e afeta a saúde física e mental. Entretanto, não é pontuado um único motivo para esse afastamento familiar, a falta de tempo, rotina de trabalho intenso, dificuldade em lidar com os cuidados e até mesmo o desespero emocional. Cada caso tem o peso de sua história, de suas vivências. “Eu não sei o passado deles, nem como era a convivência com a família. Eu não sei quem ele foi, eu sei o que ele é aqui”, aponta Flávia.

A psicóloga Normal Richter, explica que a solidão pode gerar ou piorar um quadro de saúde. “Quando estão em estado de lucidez, é comum que sintam raiva, tristeza e sentimentos que intensificam a impressão de abandono e ingratidão por parte da família.

Porém, nem sempre é assim dentro dessas casas. Ailton Luiz, filho de uma ex-residente dessas casas de repouso, aponta uma vivência diferente. Ailton acompanhou de perto o tempo que sua mãe esteve dentro desse ambiente e afirma o cuidado recebido. “Eles tinham bastante assistência. O cuidado era 24 horas, não só físico, mas com relação aos medicamentos também. Segundo ele, existia um cuidado com o bem-estar. “Eles passeavam com ela nos espaços da casa, conversavam, não deixavam ela parada, isso fazia a diferença.”

Idosos fazendo atividades em conjunto.
Pessoas da terceira idade que praticam atividades regulares tem até 30% menos risco de ter doenças como a depressão. Foto:@larsantanaresidencial.

O relato dele, aponta que, se existissem estruturas próprias e adequadas, profissionais prontos e investimentos para os medicamentos as residências poderiam sim cumprir seu objetivo, mas essa não é a realidade de muitos.

Flávia Damião relembra algumas situações delicadas em instituições públicas. “Os quartos estavam tão cheios que não tinha como passar. Em muitos casos, os idosos chegam por resgates, retirados de situações de extrema vulnerabilidade.”

A forma precária vai além da estrutura em si, em algumas instituições há ausência de medicamentos, fraldas e até mesmo itens de higiene básica. Por diversas vezes campanhas e organizações dos próprios funcionários arrecadam os itens necessários e se propõem para buscar vagas em outras casas que não estão superlotadas. É um apoio improvisado, que acaba mantendo de maneira básica aquele ambiente, por meio de iniciativas individuais ou coletivas do que propriamente de uma ação do poder público.

Flávia afirma que o cuidado emocional não pode ser sistematizado. “Trabalhar com idoso é um grande desafio”. Destaca que esse tipo de trabalho exige sim preparo, mas acima de tudo sensibilidade perante as histórias marcadas muitas vezes, pela própria ausência.

A enfermeira ainda conclui, “Gostaria que esse público fosse mais olhado. Que não precisassem ser abrigados em casas de níveis precários. Que todos pudessem ter um envelhecimento digno”.

Diante desse cenário, a superlotação e o afastamento familiar dos idosos apontam mais falhas estruturais, demonstram a forma com que a sociedade tem lidado com o envelhecimento. Provocada não apenas pela falta de recursos, mas também pela falta de vínculo, comprometimento e responsabilidade.

Desse modo, comportamentos que afetam a dignidade dos idosos violam e desrespeitam os direitos pregados pelo Estatuto da Pessoa Idosa, que prezam pela segurança e cuidado absoluto, protegendo de qualquer negligência, discriminação, violência e crueldade. 

Entretanto, com o aumento do envelhecimento populacional, o vínculo afetivo se destaca em meios de prevenção contra a decadência da saúde mental e física dos idosos, entregando para a sociedade conscientização das obrigações que são implementadas sobre os cuidados e responsabilidades sobre pessoas idosas. Por trás de um corpo que não tem a mesma agilidade de antes e uma mente que hoje não é tão lúcida, existem histórias que um dia foram momentos importantes e fizeram parte da trajetória de vida de alguém. Cabe à comunidade honrar essa história e lembrá-los de sua importância dentro do espaço onde vivem, reafirmando que eles são seres humanos e merecem respeito e qualidade de vida digna.

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Trajetória de Paulo Ignez revela a luta, persistência e um amor inabalável pelo desenho.
por
Victória Ignez
Isadora Cobra
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13/11/2025 - 12h

  

A primeira memória que Paulo Lemes Ignez Jr. guarda de si mesmo é ele desenhando. O papel, o lápis e o silêncio curioso da infância nunca foram passatempo, eram destino. Aos 8 anos, já imitava o pai, copiando cada linha com a urgência de quem sabia, mesmo sem saber, que a arte seria seu caminho. E foi. 

Fotografia de Paulo Ignez Junior
Acervo Pessoal: Paulo Ignez Junior

Hoje, aos 42 anos, Paulo é um dos nomes mais respeitados do mercado de animação e games, com mais de 23 anos de carreira. Atuou como Animador e Character Designer em produções nacionais e internacionais, como o filme “A Princesa e o Sapo” (Disney Feature Animation), os curtas “Eu Juro que Vi” (MultiRio) e o game “Chef Squad” (Eldorado Studios). Há 15 anos também ministra cursos sendo 13 deles na ICS, formando artistas que hoje vivem do que ele ensinou. Atualmente, trabalha como supervisor de animação em dois grandes estúdios e dedica parte de seus dias à carreira autoral como artista visual. 

Mas o caminho até aqui nunca foi linear. Nunca foi fácil. Nunca foi garantido. 

Paulo nasceu em 1983, cresceu entre mudanças, escolas diferentes e amigos que, por coincidência ou destino, também desenhavam. Uma sincronia que, hoje, ele entende como combustível. As referências vinham de todo lugar: animes, quadrinhos de super-heróis e revistas sobre games e animação. Assim a paixão dele por esse mundo foi crescendo. 

Aos 15, era impossível e injusto pedir que ele seguisse qualquer outro caminho. Começou a trabalhar cedo, entrou em uma escola de animação sem ter dinheiro para continuar pagando, foi nessa mesma instituição que conseguiu o primeiro emprego, porque o diretor da escola também tinha um estúdio de animação chamado HGN Produções e então surgiu a oportunidade de começar como estagiário, ele conta que ganhava “bem pouco”, mas seu talento falou primeiro, o diretor jogou no mercado, onde Paulo cresceu estúdio após estúdio, quadro após quadro. 

Paulo sempre teve vontade de trabalhar para fora do país, e durante os trabalhos no Brasil, conheceu um profissional de animação que trabalhou para produções da Disney. Ele conta que, no estúdio esse produtor, havia os livros dos filmes da Disney, como eram feitos, e tinha fitas de videocassete que mostravam os estúdios, o make-off dos filmes. Foi então que Paulo teve uma virada de chave e se programou para morar no Canadá. Seu objetivo era aprimorar seu inglês e se especializar ainda mais no seu trabalho. 

Ele sempre soube o que era capaz de fazer, o mundo ao redor é que demorou a perceber.  

No início, o desafio era ser levado a sério. Jovem demais, rápido de menos, eficiente de mais em um ambiente que testava seus limites diariamente. Aprendeu a se comunicar, a trabalhar em equipe, a entregar rápido, a lidar com pressões que quebram muitos no começo. Mais tarde, quando virou supervisor com pouco mais de 20 anos, sentiu a resistência de profissionais mais velhos que não o viam como autoridade. Era um menino em um cargo de adulto, mas ele persistiu. Foi ganhando confiança, velocidade, precisão. Foi deixando de ser promessa para se tornar referência. 

Paulo trabalhou na equipe brasileira que animou cenas de “A Princesa e o Sapo”, da Disney. Remotamente, mas com padrão internacional e supervisores exigentes. Foi selecionado para cenas complexas, revisou trabalhos de outros artistas, coordenou uma pequena equipe. Diz que foi um dos trabalhos mais cansativos da vida e um dos mais marcantes. Visitou o estúdio da Disney. Viu de perto aqueles que admirou por anos. Confirmou que conseguia ocupar esse espaço.  

Para ele, o mercado de animação no Brasil anda “em passos de formiga”. Falta investimento governamental, as políticas de incentivo oscilam e a maioria dos melhores artistas do país trabalha para fora como ele. Paulo não romantiza o setor, sabe que não é do governo que virá o reconhecimento, e sim da própria força de cada artista. 

Ainda assim, vê valor no que muitos produzem com poucos recursos, e acredita que artistas não podem depender do que nunca veio de forma consistente. 

Paulo não se vê como alguém que “transforma o mundo”, mas sabe que seu trabalho influencia principalmente crianças. Ao mesmo tempo, é crítico do conteúdo que chega ao público infantil, afirmando que a maioria dos desenhos e games consumidos hoje têm mais potência negativa do que positiva. Para ele, o filtro dos pais é essencial. E lembra algo importante: quem realmente molda a sociedade são as narrativas mais realistas, filmes, séries, histórias que tratam do humano. A animação, segundo ele, toca mais as crianças, mas não define culturas inteiras. 

O dia de Paulo começa cedo e termina tarde. Supervisiona equipes, revisa desenhos, faz correções, participa de reuniões com diretores internacionais e, à noite, dá aula até as 22h30. Quando sobra tempo e quase nunca sobra, ele relaxa desenhando para si, andando de patins ou tocando violão. Também mergulha em estudos de filosofia, religiões comparadas e mitologia. Esse é o espaço onde respira. 

O pai que viu o artista nascer 

Paulo Tadeu Ignez, pai, acompanhou tudo desde o primeiro traço. “Desde sempre. Começou com uns 8 anos, quando ele me via desenhando.” Ele não só viu, apoiou, pagou cursos, incentivou o que podia. Hoje, fala com orgulho: “Ele ensinou muita gente. Imagine quantas pessoas vivem de desenho porque aprenderam com ele. Na comunidade artística, ele é conhecido como mestre.” Mas também revela saudades: “Ele se tornou um pouco antissocial, sempre focado no trabalho dele, prioriza os estudos.” Nos próximos anos, Paulo, o filho, quer expandir o trabalho autoral, criar uma marca própria, produzir pinturas, ilustrações, fine art, talvez expor em galerias. Também quer manter o ensino vivo formando mais artistas, como quem devolve ao mundo aquilo que recebeu. Ele sabe que o Brasil talvez nunca dê o reconhecimento que sua área merece. Mas também sabe que o mundo reconhece e isso basta. Porque, no fim, Paulo continua sendo o menino que desenhava para mostrar às pessoas. Agora, a diferença é que o mundo inteiro olha de volta.

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Desigualdade social afeta a educação de estudantes de acordo com o tipo de instituição que frequentam
por
João Victor Rubio Tiusso, Juliana de Mello Carrara e Marcelo Ferreira Victorio
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14/06/2021 - 12h

Com o agravamento da pandemia e o caos do ensino remoto, ampliou-se a diferença entre o ensino público e privado. É evidente a existência de um contraste entre qualidade de ensino, infraestrutura, métodos, organização das aulas e a cobrança de rendimento dos alunos de acordo com o tipo de instituição observada. 

As instituições privadas investiram no uso de plataformas de aula online, enquanto as públicas se viram obrigadas a paralisar suas atividades por falta de verba. De acordo com o professor de português da rede pública e particular, Murillo Marques, “o acesso às aulas online, está com uma defasagem enorme, pois os alunos não estão absorvendo o conteúdo". Segundo ele,  mesmo assim as instituições estão cobrando mais trabalhos e provas: "Os locais de estudo em suas casas não são apropriados, não é silencioso e é cheio de distrações.” 

A desigualdade social sempre marcou estudantes brasileiros e se agravou no ensino remoto no período da pandemia da Covid-19. As aulas em EaD exigindo a disponibilidade de diversos equipamentos eletrônicos, geralmente muito caros e, portanto, inacessíveis para a maior parte da população, e conexão com a internet. Porém, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 4,3 milhões de alunos não possuem acesso à internet, por isso são privados de acompanhar as aulas online, aumentando a disparidade entre os estudantes de classe média e os de classes menos favorecidas. 

Há uma diferença entre os alunos das duas instituições: “O estudante da rede pública, muitas vezes está preocupado com o que irá comer no dia, tem que conciliar trabalho e o estudo. Muitos não veem uma boa perspectiva de um futuro melhor, abandonando assim, os estudos.” afirma Murillo. “Já o aluno do particular, entra na escola com seu caminho trilhado: passar na universidade. Há exceções, claro, mas a grande parte já entra em um ritmo que pode ser cobrado firmemente em relação ao conteúdo.”  

            A Secretaria Municipal de Educação de São Paulo liberou em 2021, a quantia de 28 milhões de reais do Programa de Transferência de Recursos Financeiros (PTRF) para o financiamento das atividades educacionais, reformas e a compra de artigos de higiene para o combate a Covid-19. Em entrevista, Solange Silva Jacinto, professora de artes da rede pública afirma que “está na hora de os governantes entenderem que as crianças não são o apenas o futuro, elas também são o presente, assim as políticas públicas precisam ser investidas na educação, para a construção de uma sociedade melhor.”

Apesar de haver muitos profissionais competentes na área, a falta de incentivo e de infraestrutura de qualidade no ensino público fizeram com que boa parte dos setores da sociedade brasileira vissem os professores e coordenadores a partir de uma ótica negativa. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Índice Global de Status de Professores, o Brasil é a nação onde profissionais da educação possuem menos prestígio, mesmo trabalhando em uma média de 48 horas semanais, enquanto nos demais países a média geral é de 39 horas.  Uma pesquisa feita pelo IBGE diz que 48% dos professores não recomendam a profissão para outras pessoas, sendo os principais motivos a baixa remuneração e a não valorização da profissão.

Essa desvalorização faz com que os professores se sintam desmotivados e desacreditados com a própria carreira. Consequentemente, cada vez menos funcionários entram para a rede pública, que por sua vez acabou se tornando desatualizada e sucateada, com os alunos vendo pouca utilidade prática na educação. Solange conta que “a falta de investimento do Estado gera uma grande desmotivação entre os alunos, pois eles não têm uma perspectiva de um futuro melhor, não sabem o porquê de estarem estudando, e se aquilo não vai ser um diferencial na vida deles.”

A falta de democratização do ensino também afeta no ingresso dos estudantes na vida universitária, como mostra uma pesquisa feita com 97 estudantes da PUC-SP dos cursos de Direito, Jornalismo e Publicidade: 51% das pessoas são vindas do ensino privado, com a renda maior que R$ 5.500  (equivalente a 5 salários mínimos); enquanto 21%, são provenientes do ensino público, com renda média de 2200 reais (2 salários mínimos) e ingressaram na faculdade através de programas de bolsas governamentais como o ProUni e Fies.

      A democratização do ensino está ocorrendo por meio dos clubes de leituras nas lajes de comunidades, da infinidade de professores voluntários presentes diariamente nas mídias sociais e na distribuição gratuita de material escolar e livros didáticos. A democratização do ensino depende de uma experiência sistemática que possa ajudar os alunos a se expressarem bem, a se comunicar de diversas formas, a desenvolverem o gosto pelo estudo, a dominarem o saber escolar, ajudá-los na formação de sua personalidade social, na sua organização enquanto coletividade. Isto é, a democratização do ensino depende de um projeto de escola democrática.

 

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Jornalista no ramo literário, Gabriela Mayer participa de entrevista coletiva com os alunos da PUC-SP e fala sobre seu projeto “Põe na Estante”, um clube do livro no formato de podcast
por
Giulia Palumbo
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01/06/2021 - 12h

Gabriela Mayer é apresentadora e repórter especial da BandNews FM; Apresentadora do podcast Elas com Elas; Sócia-fundadora da Rádio Guarda-Chuva e apresentadora do podcast literário Põe na Estante. No mês de maio, ela concedeu entrevista para estudantes de jornalismo da PUC-SP, na qual falou sobre sua carreira e também de sua produção independente do Põe na Estante. 

Intermediada pelo professor e apresentador da TV Cultura Aldo Quiroga, a entrevista tinha uma proposta simples em que cada aluno participante teria a oportunidade de fazer uma pergunta. No geral, o “bate-papo” foi muito límpido.  A jornalista é uma leitora sagaz, como ela própria se intitula e acredita que o poder da literatura é  transformador. 

O que te motivou a estudar jornalismo?

Bom, o jornalismo não foi minha primeira opção de curso. Eu estava entre direito e jornalismo, mas na hora de preencher minha ficha no vestibular, acabei escolhendo  ele. Mas, no meio do curso encontrei muito sentido no jornalismo em cada aspecto da minha vida e hoje entendo que não foi apenas uma escolha para preencher uma ficha. Eu vejo um poder transformador no jornalismo, ainda que isso seja um pouco idealista, eu o vejo como um pilar muito importante na democracia. 

Como é feita a produção do Põe na Estante?

Ele é dividido em temporadas temáticas e eu planejo com antecedência para o entrevistado ter o seu tempo de leitura e análise da obra. Elas também variam pois em algumas eu escolho os livros ora o entrevistado, mas sempre com alguns critérios pois é muito difícil fazer essa escolha, juro! Mas elas também seguem algumas lógicas com questões atuais e também conversando entre si. 

Você acha que falta a inclusão do jornalismo literário dentro da grade jornalística uma vez  que, não temos muitas opções de veículos que abordam esse estilo?

Falta dinheiro,rs. Não é toda redação que consegue manter um repórter trabalhando na mesma história por meses, o que é um mega privilégio,- se dedicar todo esse tempo para uma única apuração -. Eu nunca vivi isso. Faço muitas coisas ao mesmo tempo e não consigo nem imaginar o que é você ter tempo para se dedicar a uma apuração. Se eu tivesse, acho que ficaria até confusa. Mas em geral, tem demanda, o que não tem é verba.

Qual sua opinião sobre a possível tributação dos livros?

Eu acho um assinte. Os livros são isentos no Brasil por uma proposta do Jorge Amado, que era deputado na época, numa tentativa de estímulo à leitura pois o brasil é um país que lê muito pouco  e quando você pára e analisa o que as pessoas estão lendo, é perceptível o espaço restrito que a literatura tem no Brasil. Então, taxar os livros sob o argumento de que só os ricos lêem e por isso é razoável taxá-los, é um descalabro completo. Até porque, se formos taxar tudo aquilo que só os ricos possuem acesso, podemos taxar grandes fortunas, o que com certeza será mais eficiente. Os livros são muito potentes. Uma sociedade leitora por completo, consegue entender as entrelinhas, ter uma amplitude de mundo, conhecer outros mundos, contar histórias,  ser dono de suas próprias palavras…

Em sua opinião, que papel a cultura desenvolve em nossa sociedade?

Bom, a importância da cultura é a importância da sobrevivência. Cultura é o que nos faz humanos. No que a gente está vivendo neste momento de pandemia, se não tivéssemos a cultura estaríamos completamente enlouquecidos. Além disso, a cultura tem o papel de nos conectar, por vários motivos, pois a cultura seja ela no livro ou não, ela conta uma história. A arte é aquilo que colocamos para fora e isso é uma forma de comunicação. No fundo, eu acredito que é pela comunicação que a gente vive pois ela permite nossas interações. Ou seja, é algo tão potente que eu me conecto com você sem ao menos te conhecer. 

Qual foi a matéria mais importante de sua vida?

Brumadinho! Essa foi a cobertura mais importante que já fiz em minha vida. Foi importante tanto para minha vida pessoal quanto para minha carreira. Por mais que eu não publique, continuo acompanhando o caso. Não foi uma matéria tranquila e relembrar também não é. Eu cabei tendo um envolvimento emocional muito grande na cobertura de Brumadinho. Quando isso acontece, há um desafio extra. Eu não acredito em um jornalismo frio e distante, mas a carga de emoção pode nublar sua capacidade de narrar a história, dessa forma, acaba sendo mais difícil trabalhar. 

Sua carreira começou na televisão e depois migrou para a rádio. Existe algo que você sente falta?

Olha, quando eu fui fazer rádio, eu ouvia muito das pessoas que rádio é apaixonante. Hoje, eu sou uma dessas pessoas. O rádio tem potência, agilidade e proximidade, que são encantadoras. Por outro lado, eu sempre fui muito apegada à imagem. Sou uma pessoa muito visual. A construção de histórias com imagens sempre fizeram muito sentido pra mim. Talvez seja isso o que mais sinto falta da televisão como plataforma.

Até agora, qual foi seu maior desafio nas rádios?

A linguagem da televisão é totalmente diferente da rádio e essa foi minha principal dificuldade. Porque é outro jeito de contar histórias, então eu tive que aprender a descrever muito bem, uma vez que não usamos imagens. Além disso, a apresentação na rádio é mais freestyle, diferente da  televisão, que é algo mais roteirizado. Ou seja, você precisa ter uma  capacidade de improviso, o que eu não tinha quando comecei. Inclusive, chorava todos os dias quando cheguei porque pensei que não ia conseguir,  mas hoje deu certo. 

E como foi sua volta à televisão, continuando na rádio? 

Foi excelente. Voltei muito melhor por ter adquirido os hábitos da rádio como o improviso. E lógico, aprendi muito com os meus colegas.  

Como você lida com sua exposição, uma vez que está em posição de destaque?

Eu lido mal. Sou muito suscetível aos comentários. tem gente que consegue não se importar, mas eu não consigo.  Uma vez na Tv Cultura um telespectador disse que eu não deveria apresentar o jornal e muito menos ficar de pé pois o meu corpo não era adequado para ser apresentadora de televisão. Isso me deixou arrasada porque eu  tenho uma relação muito difícil com o meu corpo.  Era um comentário sobre isso, mas me abalou. Meus colegas homens, não recebem críticas sobre seus corpos, apenas sobre o conteúdo, já os meus, estão sempre atrelados ao fato de eu ser mulher.

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Bichinhos trazem carinho e diminuem a solidão no isolamento
por
Iris Martins Oliveira de Freitas
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01/06/2021 - 12h

Em período de isolamento social, a procura por um pet se tornou significativa. Para suprir a solidão e animar a monótona vida em uma pandemia, muitos optaram por adotar um animalzinho. Confira a matéria clicando AQUI. (se preferir, habilite as legendas clicando na própria opção do YouTube).

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“O que me incomoda mais é ser reduzida à imagem” diz a jornalista
por
Paula Moraes
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26/05/2021 - 12h

A jornalista e radialista Gabriela Mayer (33), expressa que mesmo com tantos anos de exposição pela mídia, ainda tem dificuldade em lidar com os comentários negativos dos telespectadores. 

Ao longo de sua carreira na televisão, onde trabalhou na TV Gazeta, na Record News e na TV Cultura, Mayer via a diferença de comentários do público sobre ela e os apresentadores homens. Ela percebia que, para ela, os comentários eram mais direcionados à sua aparência do que a sua postura como apresentadora, enquanto para os seus colegas homens os comentários vinham, em sua maioria, sobre sua postura como apresentadores.

A partir de 2017, passou a trabalhar como radialista na BandNews FM. Mesmo sem ser vista, os comentários enviados por aplicativos de mensagem pelos ouvintes são diferentes dos que seus colegas homens recebem. É comum colocarem em dúvida as informações apresentadas por ela, mesmo quando cita fontes seguras de informação.

Para Mayer é muito difícil toda essa exposição e diferença de tratamento, ela sente que para o publico é mais fácil, por ela ser mulher, criticá-la com comentários relacionados ao corpo do que criticas ao seu trabalho, e que o mesmo nunca vai ser replicado com seus colegas homens. 

A jornalista confessa que lida mal com os comentários que recebe em relação ao seu corpo, visto que é muito insegura. Mesmo assim,  ela mantém o hábito de responder comentários que mandam tanto no número da rádio como em seu Instagram, mas reconhece que essa prática não lhe faz bem.

Também tem dificuldade de perceber a linha tênue entre um elogio ao seu trabalho e um flerte. “O que me incomoda mais é ser reduzida à imagem, eu acho legal que me considerem bonita, mas eu não estou em algum lugar por causa disso”.

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A curtos passos, a discussão trazida pela campanha “Save Ralph” começa a mostrar sua eficácia
por
Ana Carolina Cesar Sousa, Livia Veiga Andrade, Mikael Resende, Thais Mollo Leoni, Victória Toral de Oliveira
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24/09/2021 - 12h
Salve o Ralph / Humane Society International
                      Figura 1: Salve o Ralph / Humane Society International

 

Em 2 de setembro, o México se tornou o primeiro país da América do Norte e o 41º país do mundo a proibir a fabricação, venda e importação de produtos testados em animais. Iniciado em 2019, pelo senador Ricardo Monreal Ávila, o texto teve apoio unânime dos 103 senadores, da organização Humane Society International do México e da organização não governamental, Te Protejo.

No Brasil o cenário é diferente, os testes em animais foram banidos em apenas oito estados, sendo eles Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Paraná, Pernambuco, Amazonas e Pará. E, no final do mês de abril, a produção em vídeo da campanha “Save Ralph”, focada em dezesseis países prioritários, realizada pela Instituição Humane Society International (HSI), viralizou nas redes sociais. O curta-metragem traz como enredo a “rotina” de um coelho cobaia, na voz do ator Rodrigo Santoro, cego de um olho e com um zumbido em uma das orelhas. Ele  chama atenção pelo diálogo que desenvolve e tem como objetivo conscientizar as pessoas sobre a crueldade dos testes realizados em animais.

Com isso, o Instituto busca o apoio de Senadores para alterar a Lei nº 11.794/08, vedando a participação de animais de qualquer espécie em atividades voltadas à produção e desenvolvimento de produtos cosméticos, de higiene pessoal e perfumes.

O Brasil é o quarto país com o maior mercado de cosméticos do mundo, com 2.794 empresas registradas na Anvisa em 2018. 47,8% eram controlados por apenas cinco representantes: Natura & Co, Boticário, grupo Unilever, grupo L’Oreal e Colgate-Palmolive. Donas de muitas outras subsidiárias, estas grandes empresas espelham a forma como diversas outras marcas farão seu marketing e venderão seus produtos. Provocar mudanças neste vasto mercado que perpetua regras e uma já estabelecida clientela fiel, não é simples.

A viralização do curta trouxe à tona a discussão da real necessidade dos testes em produtos cosméticos. Fabiana de Castro, revendedora de produtos corporais veganos da Avatim, traz a reflexão sobre a necessidade de estudar e conhecer a produção e os testes, e ressalta “é triste sacrificar tantas vidas para um produto, que muitas vezes nem é tão útil assim.” 

Figura 1: Divulgação Humane Society Internacional
Figura 2: Divulgação Humane Society Internacional

Dentre os diversos testes existentes há o Draize, criado em 1944. A modalidade de testes de irritação ocular consiste em medir a toxicidade aguda de substâncias, mantendo os animais conscientes, sem remédios para diminuir a dor e imóveis em uma estrutura. A substância a ser testada é introduzida na pálpebra inferior de um dos olhos do animal, causando uma forte queimação, irritação e dor. Em alguns casos essa aplicação acontece diversas vezes, com os animais sendo monitorados diariamente durante uma a três semanas para verificar o nível de irritação. Outra modalidade do teste é a exposição direta da pele do coelho. Para isso, todos os seus pelos são removidos com fita adesiva, o que retira também algumas camadas da pele, provocando dor, bolhas e sangramentos.

Em observações dos testes Draize descobriram que a chance de uma substância potencialmente perigosa passar no teste como segura, é praticamente nula – no máximo, 0,01%. Já a possibilidade das substâncias irritantes/suaves serem seguras fica entre 3,7% e 5,5%. Estas são etapas que podem ser evitadas, como afirma Camilla Guimarães, engenheira química e idealizadora da Gaia Cosméticos. Ela diz que não é mais caro produzir sem passar pelo processo da crueldade, os custos são os mesmos em todas as indústrias. 

Grandes empresas já abandonaram os testes com animais. A Boticário, por exemplo, abandonou a prática em 2000 e luta para que os concorrentes façam o mesmo. Apesar disso, ainda não se tornou completamente vegana, tendo em 2019 apenas 30% de sua linha sem substâncias de origem animal. Na opinião da Fabiana, por mais que haja uma preocupação com a produção cruelty free dentro da Boticário, empresa na qual já trabalhou, sente que ainda há uma diferença entre empresas nacionais e os pequenos negócios.

Já a Natura não realiza mais os testes desde 2006 e afirma que 83% de todos os seus produtos são veganos. Em seu site a marca informa que “para garantir a eficácia e a segurança dos produtos, investe constantemente em ciência, inovação, tecnologia e métodos alternativos.” Mas há a necessidade de se tomar cuidado com essas declarações, pois empresas de grande porte costumam utilizar-se da terceirização. As contratadas nem sempre seguem as mesmas diretrizes.

A terceirização dos serviços facilita  a produção de artigos de beleza e higiene pessoal, além de reduzir custos com matéria prima e mão de obra. A empresa contratada é responsável pelo registro e desenvolvimento do produto, ajustes de formulação, lote, teste de qualidade, distribuição e outros. A partir disso, o contratante pode escolher os ingredientes, as embalagens e o lote mínimo. Isso possibilita a criação de diversas fórmulas e o lançamento de uma marca no mercado sem a necessidade de montar uma fábrica. Em certos casos, como apontado pelo  People for the Ethical Treatment of Animals (PETA), pode acontecer de a mesma empresa ter suas divisões com marcas que testam e não testam em animais.

Para quem adere ao cuidado e a proteção dos animais, existem mais opções além dos produtos Cruelty free. Também há os veganos e os naturais, que são muito parecidos. Produtos veganos, além de não utilizarem testes em animais durante a formulação, também não utilizam nenhum derivado animal em sua composição. Já os naturais utilizam plantas, grãos, extratos, tudo que vem da terra, mas nem sempre excluirão os testes em animais de sua agenda. Marcas que produzem esses tipos de produtos se preocupam e preservam o meio ambiente. Os produtos que são cruelty free, mas, que possuem derivados animais, acabam sendo comuns e não tão criticados, por não fazerem uma apologia ao sofrimento animal, apenas usufruem de seus derivados, como leite, por exemplo. Assim, optar pelos produtos veganos é apenas uma questão de escolha, sendo de impacto optar por marcas cruelty free, não perpetuando os testes que são cruéis, pouco eficazes e, em sua maioria, desnecessários.

A necessidade dos testes em animais, ainda, indica que as substâncias que serão usadas são muito fortes, envolvendo álcool e ácidos, que podem chegar a queimar a pele, como aponta de Castro, revendedora da Avatim, “utilizar ingredientes do dia-a-dia é uma das melhores opções, grãos, sementes, folhas não agridem a pele ou o cabelo da mesma forma que estes cosméticos fortíssimos produzidos pelas grandes indústrias”.

Porém, o fim dos testes não é uma verdade, não é possível simplesmente vender produtos com a possibilidade de reações nas pessoas, isso poderia causar doenças e mortes. Mas há opções de substituição dos animais, por peles 3D, projeto desenvolvido pelo grupo Boticário para substituir os testes de seus cosméticos nos animais.

É uma tecnologia inovadora que promete reproduzir fielmente a pele humana para a testagem dos produtos prontos e até mesmo dos ingredientes. É um método reconhecido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea). É possível criá-la a partir do material descartado de cirurgias plásticas, com o consentimento do paciente, essas partes retiradas são levadas para o laboratório e lá passa pelo processo de criação de todas as camadas necessárias. Para complementar os testes, uma tecnologia conhecida como Organs-on-Chips (Órgãos-em-chip) simula diversos órgãos. O chip responde de forma similar ao organismo quando em contato com as substâncias. Agindo em conjunto com a pele 3D, eles identificam, com mais eficácia, reações alérgicas decorrentes dos produtos testados.

Há também outra possibilidade apresentada por Guimarães, da Gaia Cosméticos, a testagem em humanos voluntários, em clínicas especializadas onde é possível que os cosméticos passem pelo mesmo processo de testagem, dentro das normas internacionais e seguindo as regras do Ministério da Saúde. O custo não é muito maior do que os testes em animais e dependendo da complexidade dos cosméticos, é possível ter respostas ainda mais rápidas e eficazes, além de entender de forma ainda mais prática como as reações acontecem em diversos tipos de peles. 

A existência de testagens alternativas não significa o fim dessa prática. É preciso também anular as leis que permitem a testagem em animais e principalmente as que exigem esses testes, como é o caso da China, possuidora de um grande mercado consumidor. Para isso, é preciso ter o interesse do público em deixar de utilizar essas marcas, pondo fim no argumento de que os produtos naturais e cruelty free são sempre mais caros, uma verdade que já foi desmentida. É possível buscar informações em sites como da ONG Te Projeto ou Projeto Esperança Animal (PEA) para encontrar as marcas que seguem diretrizes cruelty free e veganas.

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