Redes sociais passam a integrar entretenimento e consumo, acelerando o avanço do social commerce no Brasil
por
Eduarda Amaral
Kaleo Ferreira
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28/03/2026 - 12h

O comércio eletrônico brasileiro vive uma nova fase impulsionada pelos marketplaces, plataformas que conectam vendedores e consumidores em um mesmo ambiente digital. Nos últimos anos, esse modelo se consolidou como um dos principais motores de e-commerce no país, concentrando grande parte das vendas online e ampliando o alcance de marcas e pequenos empreendedores. Se preferir, ouça esta matéria em áudio.

Em 2026 um novo formato ganha espaço, o social commerce, que integra redes sociais às vendas online, permitindo ao consumidor descobrir e comprar produtos sem sair da plataforma. Um exemplo desse movimento é o TikTok Shop, que transforma vídeos curtos e transmissões ao vivo em vitrines digitais. O modelo se apoia no conceito de discovery commerce, o consumo por descoberta. Diferente da lógica tradicional, em que o cliente busca o que quer comprar, aqui ele os encontra de forma espontânea enquanto consome conteúdo. Para o especialista Felipe Couto, cofundador técnico e engenheiro principal da Jodda.ia, plataforma que integra gestão de dados e performance no e-commerce, os marketplaces deixaram de ser meros intermediários para se tornarem provedores de infraestrutura. Ao oferecerem soluções de logística, publicidade e crédito, essas plataformas geraram um "efeito de rede, em que mais vendedores atraem mais consumidores, fortalecendo o ciclo", explica Couto.

Nesse cenário, o entretenimento passa a desempenhar um papel central na decisão de compra, permitindo que marcas e criadores apresentem produtos de forma mais orgânica e próxima do consumidor. Essa estratégia transforma a navegação nas redes em um ambiente de descoberta constante, no qual recomendações e o algoritmo influenciam diretamente o comportamento do consumidor. Os números confirmam o avanço do setor. De acordo com a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), o e-commerce brasileiro faturou R$ 235 bilhões em 2025, alta de 15% em relação ao ano anterior. O período encerrou com 94 milhões de compradores online e aumento de 5,8% no volume de pedidos, com projeções que indicam a manutenção desse ritmo em 2026.

Gráfico faturamento do e-commerce no Brasil de 2020 a 2025 de acordo com a ABComm
Evolução do faturamento do e-commerce no Brasil de 2020 a 2025 - Fonte: ABComm

Essa alta-performance tem nos marketplaces seu principal motor, somada ao fenômeno do live commerce. O modelo popularizado na China em plataformas como Taobao Live e Douyin (versão chinesa do TikTok), onde o setor já movimenta centenas de bilhões de dólares anualmente, ganha força no Brasil como uma das formas mais autênticas de exposição de produtos. Nas transmissões ao vivo, vendedores e criadores respondem a dúvidas em tempo real, estabelecendo uma relação de proximidade que transforma o micro-influenciador em peça estratégica desse ecossistema.

Couto cita empresas que encontraram nas plataformas um atalho para expansão. A Growth Supplements, por exemplo, que já registrava alto faturamento em seu site próprio, alcançou milhões de pedidos em apenas um mês após migrar para o Mercado Livre. Para ele, o movimento evidencia que "não é só o pequeno seller (vendedor) que depende disso, até empresas grandes usam marketplaces como canal estratégico de crescimento". Mas esse formato, no entanto, começa a ser desafiado por um novo concorrente. Com cerca de 90 milhões de usuários no Brasil, o TikTok Shop registrou um crescimento de 26 vezes na receita diária média em apenas cinco meses desde sua chegada ao país, em 2025. 

Montagem com interface do TikTok Shop e vídeos de promoção de produtos — Imagem: Eduarda Amaral/Canva
Montagem com interface do TikTok Shop e vídeos de promoção de produtos - Arte: Eduarda Amaral/Canva

Ao aproximar entretenimento, recomendação e compra em um único ambiente, o social commerce redefine a jornada do consumidor e abre novas frentes de monetização. Nesse modelo, o conteúdo se transforma em vitrine e o criador em mediador, consolidando uma etapa do varejo digital em que as fronteiras entre diversão e consumo são cada vez mais difusas. 

Essa transição para novos canais exige mais do que presença digital, exige inteligência sobre o próprio negócio. É justamente esse o desafio que Couto enfrenta no dia a dia com a Jodda.ia. Segundo ele, a maioria dos vendedores tomam decisões com base em dados históricos e intuição: sabem quanto venderam, mas não entendem por que venderam ou onde perderam margem. "Um vendedor que não tem essa base analítica estruturada vai tentar replicar o que faz no Mercado Livre e vai se frustrar, porque as métricas são diferentes", afirma. Para ele, ter clareza sobre o lucro é o que permite avaliar com segurança se um item faz sentido no TikTok Shop, onde o giro é acelerado pela viralidade.

Essa disputa, no entanto, não deve se consolidar como uma competição direta entre modelos. O cenário aponta para uma convergência entre marketplaces e social commerce, à medida que plataformas de venda incorporam elementos de conteúdo, enquanto redes sociais avançam na estrutura operacional. Para Couto, essa transformação já está em curso e reflete uma adaptação do varejo digital a um consumidor mais orientado por experiência e conveniência.

Nesse processo, o avanço do TikTok Shop como ameaça real ainda depende de fatores como logística e confiança no pós-venda, áreas em que players consolidados mantêm vantagem. “Se o TikTok Shop conseguir fechar essa lacuna, aí o jogo muda”, afirma Couto. A disputa deixa de ser apenas por preço ou variedade e passa a envolver experiência e eficiência. “O marketplace venceu pela infraestrutura; o TikTok Shop cresce pela atenção; e o próximo ciclo será vencido por quem conseguir unir atenção, operação e margem no mesmo sistema”, conclui.

Produtos utilizados por integrantes da casa vigiada têm vendas aumentadas
por
Mariane Beraldes
Thainá Brito
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27/03/2026 - 12h

O Big Brother Brasil 26 se tornou uma das edições mais comentadas do reality nos últimos anos, com forte impacto nas redes sociais. Segundo a Rede Globo, o programa já acumula milhões de interações nas plataformas digitais, o que tem impulsionado a demanda por produtos utilizados pelos participantes. A transmissão 24h amplia o contato do público com os confinados e os itens exibidos dentro da casa, o que tem aumentado o interesse dos consumidores por esses itens. O fenômeno também alcançou pequenos empreendedores, que registram crescimento nas vendas, impulsionado pela visibilidade no ambiente digital. 

Entre os impactados está a estudante Patrícia Carvalho, que afirma já ter adquirido mercadorias motivadas pelo programa. “Eu ainda não me arrependi de nenhuma compra que fiz por conta do BBB. Acredito que isso acontece porque consigo ver o resultado do produto. Se é um item de maquiagem, por exemplo, posso acompanhar como ele se comporta na pele e o acabamento que oferece”, diz Carvalho. 

De acordo com o relatório da McKinsey, empresa global de consultoria e gestão estratégica, recomendações e experiências compartilhadas entre consumidores podem influenciar entre 20% e 50% nas decisões de compra. A lógica se manifesta de forma indireta no BBB, ao acompanhar o cotidiano dos brothers, o público pode observar o uso contínuo dos produtos, o que tende a aumentar a confiança na hora da compra. 

Nas redes sociais, o engajamento é intenso, especialmente em itens de skincare, cabelo e acessórios. A participante Ana Paula Renault garantiu aos pequenos empreendedores maior visibilidade, aumento do faturamento e até esgotamento rápido de seus produtos. Em alguns casos, as parcerias já existiam antes da entrada da sister na casa, como ocorreu com os acessórios da marca “Nega Lora”, que registrou crescimento de 60% nas vendas no início de 2026.

Ana Paula Renault utilizando acessórios da marca Nega Lora Foto: Globo/Divulgação
Participante Ana Paula Renault utilizando acessórios da marca Nega Lora Foto: Globo/Divulgação


Além das parcerias, perfis nas redes sociais, como @closetdaanapaularenault, divulgam as peças usadas pela participante e aumentam a procura por outros itens de pequenos empreendedores, mesmo sem acordos comerciais formais. Quando um produto ganha visibilidade na mídia, há tendência de crescimento nas vendas devido à maior demanda. Uma pesquisa da Wake, em parceria com a Opinion Box, revelou que 56% dos consumidores afirmam que produtos virais aumentam sua intenção de compra. Porém, especialistas em mercado alertam que esse tipo de movimento nem sempre se traduz em consumo contínuo. 

Esse efeito gera picos imediatos, principalmente no ambiente digital, tende a diminuir após o fim do programa, que dura apenas três meses. Essa movimentação exige das marcas, especialmente as menores, estratégias de fidelização para manter o crescimento de vendas a longo prazo. Segundo Davidson Carvalho, mestre em Tecnologias da Inteligência e Design Digital (TIDD), pela PUC-SP, o comportamento do público nas redes tem sido marcado por volatilidade: “Tudo é instantâneo, não necessariamente você lembra do vídeo que você viu, ou da série que você assistiu. Isso é muito rápido, dinâmico e instantâneo. Quem quiser conversar com o público, precisa mudar. Hoje em dia a comunicação está muito mais focada nas emoções, no sentimento, no visual, do que no próprio conteúdo”, explica Carvalho. 

Para Patrícia, esse comportamento pode também estar ligado à percepção inicial dos consumidores: “Quando um produto é lançado e tem aquele hype em cima, ele nunca tem nenhum defeito. Passam os meses, começam a surgir pequenas imperfeições no produto, que talvez façam você questionar se vai querer comprar ele ou não”, afirma.

Mesmo com o aumento do preço do chocolate refletindo no bolso do consumidor, setor aposta na personalização e no apelo visual para atrair 4,2 milhões de novos compradores
por
Victória Miranda
Ana Julia Mira
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27/03/2026 - 12h

Todos os anos no feriado de Páscoa, os brasileiros se animam com os novos ovos de chocolate. Sejam os industrializados ou artesanais, dificilmente a data passa sem que seja adquirido ou ovo, feito em casa ou comprado. A expectativa do comércio varejista é de 10% no aumento das vendas em razão do comportamento brasileiro inclinado à presentear em datas comemorativas neste ano.

No entanto, a recente crise no mercado do cacau em anos anteriores ainda impactam os valores do chocolate nas prateleiras. De acordo com a analista da StoneX, Lucca Bezzon para o G1, mesmo com a queda do preço do cacau no campo, o ingrediente utilizado na fabricação dos produtos de páscoa foi comprado durante o auge da crise, momento em que os valores batiam recordes de aumento. Estes produtos mais consumidos na época do feriado foram impactados com cerca de 50% de variação de preço em 5 anos. 

Fonte: Bora Investir (B3)
Bora Investir (B3)

 O destaque de aumento vai para o chocolate em barra e bombom, que sofreram alterações de quase 25% nos preços. As mudanças são sentidas principalmente pelos pequenos empresários, que anualmente precisam se adaptar para produzirem de forma lucrativa. Isabella Martins, proprietária da confeitaria Doce Apetite, em Osvaldo Cruz (SP), diz ter tido que mudar os valores de seus produtos em razão da alta do chocolate. “Tiveram produtos que a gente teve que diminuir um pouco nossa margem de lucro para passar um preço melhor para o nosso cliente” disse Isabella, que produz ovos de páscoa para venda há 6 anos.

Mas mesmo com as dificuldades de lidar com as mudanças de preço, as tendências para a data comemorativa continuam surgindo. Algumas delas são: ovos em fatias, barras recheadas, mini ovos e kits degustação, sabores de ovos inusitados – que vão desde o bolo de coco gelado até pistache estilo Dubai, entre outras.

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Kit degustação 2026 produzido por Isabella. Foto: Reprodução/@doceapetite_cg

Para os produtores, o otimismo é justificado pelos números. Segundo uma pesquisa realizada pela Harald, marca de chocolates e coberturas, focada no mercado profissional, o período pode representar até 40% da receita anual para a maioria dos confeiteiros, sendo a principal comemoração do ano para mais de 65% desses empreendedores. Esse dado conversa diretamente com o levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e SPC Brasil, em parceria com a Offerwise, que aponta que 65% dos brasileiros pretendem comprar presentes este ano — um crescimento de 4,2 milhões de novos consumidores no mercado. Embora a indústria ainda detenha 56% da preferência, o setor artesanal já conquistou 40% das intenções de compra. O que explica essa transição para o feito à mão é a busca por maior qualidade e personalização. O gasto médio previsto é de R$253. 

A tendência do ovo em fatia é a mais forte. Viralizada nas redes sociais, como Tik Tok e Instagram, a proposta apresenta um ovo de chocolate dividido em até seis pedaços, cada um com um recheio diferente, apelando para o visual “instagramável” e a variedade de sabores. O que começou no ambiente artesanal rapidamente foi absorvido pela indústria: a Cacau Show lançou nesta semana uma edição limitada de 360g que combina três sabores da linha Dreams. O produto custa R$119,99 para clientes participantes do clube de fidelidade da marca.O movimento mostra que as grandes marcas estão atentas à agilidade dos pequenos confeiteiros em criar novos formatos. 

Cacau Show investe na maior tendência para a Páscoa deste ano
Cacau Show investe em maior tendência para a Páscoa deste ano. Foto: Divulgação/Cacau Show

Apesar da Páscoa ser celebrada em abril, para quem produz, o calendário começa muito antes. Como explica Isabella: "normalmente em janeiro, já começamos a estudar a questão dos insumos, forminhas etc, para já ir se preparando melhor e conseguir preços mais acessíveis”. No ano passado, por conta de uma mudança de espaço, a empreendedora registrou um faturamento de R$6 mil. Com um tíquete médio que varia entre R$40 e R$60 por cliente, o faturamento semanal gira em torno de mil reais.

Este ano, ela apostou na tendência do ovo em fatia: “a gente apostou por ser uma novidade muito boa”. Sendo assim, os produtos da loja variam de R$12 (mini ovinhos e coelhinhos) a R$130 (ovo em fatia). Mesmo com a diferença de preços, o fator decisivo para o cliente do setor artesanal vai além do valor na etiqueta. Segundo a confeiteira, há uma mudança na mentalidade: “Os clientes consideram muito o valor na questão da compra, mas eles também priorizam um pouco a experiência”.

Dario Durigan foi anunciado como novo ministro pelo governo na quinta-feira,19
por
Nícolas Beneton
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26/03/2026 - 12h

A corrida eleitoral de 2026 foi iniciada, o momento é de movimentações e definições nos cargos que serão vagos por cada candidato, principalmente nos ministérios. O exemplo mais significativo é a saída do ministro da fazenda, Fernando Haddad, para disputar o governo de São Paulo. A estratégia do PT nesse caso é bem clara: trazer um nome forte para disputar o governo contra o candidatoa à reeleição, o governador Tarcísio de Freitas. Outros nomes como o de Simone Tebet foram ventilados mas a escolha de Haddad foi definida. Dario Durigan, natural de Bebedouro, SP, tem 41 anos e assume o ministério da Economia, trazendo no currículo o trabalho para recomposição das receitas, aumentando os tributos que o governo anunciou nos últimos anos, além de articular a regulamentação da reforma tributária do consumo e no fechamento da renegociação da dívida dos estados.

Durigan foi consultor da Advocacia-Geral da União, entre 2017 e 2019, e atuou no setor privado em empresas como WhatsApp, como diretor de Políticas Públicas, faz parte da equipe de Haddad desde 2015, quando o ex-ministro era prefeito de São Paulo. Seu anúncio como substituto foi feito pelo presidente Lula em evento em São Paulo na noite do dia 19. "Queria cumprimentar o companheiro Dario Durigan (...)  Ele será o substituto do Haddad no Ministério da Fazenda a partir do anúncio do Haddad. Olha bem para a cara dele, que é dele que vocês vão cobrar muitas coisas", disse Lula. 

Na manhã do mesmo dia, a jornalista da Band e rádio BandNews, Juliana Rosa, comentarista de Economia, participou de uma entrevista coletiva com alunos de jornalismo da PUC-SP, como era um tema em voga, ela foi questionada muito rapidamente da sua opinião sobre a atuação de Fernando Haddad e a chegada de Durigan no comando da pasta. Ela também fez comentários sobre suas percepções em torno do governo Lula e como a população vem recebendo tudo isso.

Juliana Rosa em coletiva na PUC SP

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“O ministro Haddad colaborou muito, deu muita entrevista na Band, lá na Band News. Acho que a gente teve uma vantagem que foi conseguir fazer um debate qualificado, em muitos momentos. Mas, estamos de volta para aquela polarização, uma coisa que é bem crítica e começa a falar mais alto  do que o debate técnico, por isso é difícil a gente ter um debate qualificado no  Brasil", comenta Rosa, que enfatiza como é complicado entenderem críticas ao governo, sem parecer que você está falando mal, ou bem".

"A notícia de que Durigan assumiria o ministério foi um bom indicativo para o mercado, por não ser uma figura que gere surpresas, seu foco será priorizar as contas públicas, ainda mais em um ano eleitoral", afirma Erich Decat, analista político.

 

Valores de transferência do futebol brasileiro bate recorde duas vezes em 2026; cifras somam quase meio bilhão de reais
por
Vinícius Evangelista
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26/03/2026 - 12h

Estamos em março e o recorde de maior transferência da história do futebol brasileiro foi quebrado por duas vezes. Em 28 de janeiro, Lucas Paquetá foi contratado pelo Flamengo por 42 milhões de euros (aproximadamente R$ 260 milhões na cotação de 26 de março) vindo do West Ham United, da Inglaterra. O anúncio foi feito apenas 11 dias depois de Gerson ter se transferido do Zenit, da Rússia, para o Cruzeiro por 25 milhões de euros (cerca de R$ 176 milhões), sendo, até então, a contratação mais cara do futebol nacional.

A superação dos valores e quebras de recorde têm sido cada vez mais frequentes nas transações entre clubes do mundo inteiro e, em especial, no Brasil que tem as 13 contratações mais caras realizadas nos últimos cinco anos. “Os valores espantam, porém é uma tendência global, o mercado está inflacionado, não é uma exclusividade do futebol brasileiro.”, explica Gabriel Renan, cientista contábil e experiente no mercado financeiro. “Houve um aumento sistemático de direitos de transmissão, são valores muito robustos. É natural que, tendo mais dinheiro, você vai ter transações mais ousadas”, acrescenta Renan.

Ele afirma que os valores tendem a aumentar ainda mais, principalmente se os clubes se organizarem em uma liga independente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Atualmente, os clubes seguem discutindo a distribuição de valores e estão divididos em dois grupos: a Liga do Futebol Brasileiro (LIBRA) e a Liga Forte União (LFU). Se considerarmos os valores corrigidos pela inflação, Paquetá segue como o jogador mais caro, porém em segundo aparece Edmundo, contratado em 1999 pelo Vasco da Gama por 15 milhões de dólares pagos ao Fiorentina, da Itália, equivalente a R$ 24 milhões em valores da época e R$ 183,5 milhões nas cifras atuais, ficando a frente da quantia paga pela aquisição de Gerson.

“A gente tem que contextualizar, essa foi uma contratação de uma parceira do Vasco na época, a NationsBank, que injetou dinheiro no futebol”, afirmou. Ele explica ainda que isso era comum na época, usando de exemplo o Palmeiras e sua famosa parceria com a Parmalat e o Corinthians, com o extinto Banco Excel. “Não era algo que tinha relação com a sustentabilidade dos clubes, muito pelo contrário, as receitas eram tímidas e isso (contratações de alto valor) só era possível com capital externo”, disse.


No panorama internacional dos dias atuais, os números brasileiros ainda ficam atrás das maiores transações já registradas. Ainda seguem como as transferências mais caras do futebol mundial Neymar saindo do Barcelona, da Espanha para o francês Paris Saint-Germain, em 2017, por 222 milhões de euros (cerca de R$ 1,3 bilhões), e Kylian Mbappé, transferido em definitivo dentro do mesmo país, partindo do Monaco também para o PSG, por cerca de 180 milhões de euros (também mais de R$ 1 bilhão).

Ainda assim, a recente movimentação no Brasil indica uma convergência parcial, especialmente no esforço de clubes em repatriar jogadores em alta no futebol europeu, como foi o caso de Vitor Roque, que voltou ao Brasil em 2025 após atuar por duas temporadas no Barcelona, da Espanha. O palmeiras pagou 25,5 milhões de euros pelo atacante (cerca de R$ 153 milhões), sendo a terceira transferência mais cara em números absolutos e a sexta maior, quando considerada a correção inflacionária.

No mercado de transferências, o Brasil ainda se configura como país majoritariamente exportador, com suas maiores vendas envolvendo clubes europeus. A maior da história segue sendo a de Neymar, saindo do Santos, em sua primeira passagem, para o Barcelona, em 2013, por 88,4 milhões de euros (cerca de R$ 473 milhões). Na sequência, aparece a compra de Vitor Roque pelo Barcelona, por aproximadamente 74 milhões de euros (aproximadamente R$ 395 milhões) pagos ao Athletico Paranaense, e Endrick, vendido pelo Palmeiras ao Real Madrid por valores que podem chegar a 72 milhões de euros (cerca de R$ 385 milhões). Também figuram entre as maiores negociações Vinícius Júnior, do Flamengo para o Real Madrid, e Rodrygo, do Santos para o mesmo clube espanhol, ambos por 45 milhões de euros (cerca de R$ 241 milhões cada).

Outro ponto que acompanha a valorização das transferências é o crescimento dos salários no Brasil. Segundo levantamento do portal R7, ao menos seis jogadores que atuavam no país em 2025 recebiam mais de R$ 2 milhões mensais. De acordo com estudo realizado por FiscalData, esse valor corresponde a quase quatro vezes mais do que o mínimo necessário para estar entre os 0,1% mais ricos do país. Em contraste, a renda média da população é de R$ 3.613. “Proporcionalmente em receita, os clubes tendem a 70% de gasto em folha salarial, nos anos 90 também era isso, a proporcionalidade do gasto não mudou durante o tempo, a questão é que hoje os valores são muito maiores” , explicou Gabriel e ainda acrescentou que “estamos falando de clubes que faturam bilhões, é natural que os jogadores ganhem na casa dos milhões. 

Ainda segundo Renan, “jogador de futebol dos grandes clubes ganham muito e fazem parte da camada mais rica do país, isso é um fato. Mas se tem mais dinheiro rolando nesse negócio, nada mais justo do que ter a valorização dos principais artistas do espetáculo”.

 

Evento realizado nos dias 27 e 28 de junho reuniu grandes companhias do setor, autoridades, agricultores familiares
por
Ester Taragona
Nicolas Damazio
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05/07/2024 - 12h

Se autointitulando de ‘o maior evento de cultura agro do mundo’ o Global Agribusiness Forum, Festival, Food and Fun (GAFFFF), organizado pela Datagro, tradicional consultoria brasileira voltada ao agronegócio, reuniu em dois dias e em diversos ambientes do Allianz Parque o que poderiam ser eventos separados do setor.

 

De congresso com políticos e autoridades brasileiras e internacionais, à exposição de empresas, feira de pequenos produtores e até mega shows de sertanejo em um palco que dividia espaço com estandes e grelhas de fogo de chão.

 

Um pouco confuso? Provavelmente. O festival se propôs a concentrar propostas distintas, direcionadas para públicos distintos, se fiando no agro como elemento comum para unir todos eles.

 

Em uma plenária, no sétimo andar do complexo, foram realizados os painéis do fórum. A abertura oficial contou com falas do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), além dos diretores da empresa organizadora e de representantes do executivo estadual e federal, como o secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, Guilherme Piai Filizola, e do secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Roberto Perosa.

 

Único governador a comparecer, Eduardo Leite (PSDB-RS) participou do primeiro painel, mediado pelo ex-ministro Roberto Rodrigues, onde destrinchou as medidas e iniciativas promovidas por seu governo para a reconstrução do Rio Grande do Sul após o desastre climático que assolou o estado no mês de maio, com tempestades que transbordaram rios e devastaram cidades inteiras.

 

Durante sua fala, Leite adiantou, ainda, que no dia seguinte (28/6), o ministro da Secretaria Extraordinária de Apoio a Reconstrução do Rio Grande do Sul, Paulo Pimenta, anunciaria um novo repasse de recursos do Governo Federal ao Estado.

 

O governador alegou haver uma insatisfação do agronegócio gaúcho com o que foi oferecido de recursos até o momento. Segundo ele, 50 mil agricultores e 4 mil pecuaristas foram diretamente impactados pelos efeitos da tragédia.

 

Outra presença de destaque foi o comissário de agricultura da União Europeia Janusz Wojciechowski, que veio ao Brasil em meio a polêmicas em relação ao Green Deal, pacote de exigências do bloco para a compra de alimentos de países exportadores, como o Brasil.

Com vigência prevista para 1 de janeiro de 2025, o acordo é visto como draconiano por especialistas por estabelecer regras rígidas demais que, em muitas vezes, podem ser impossíveis de ser atendidas.

 

Em coletiva de imprensa antes do painel que participou, Wojciechowski destacou a importância dos agricultores brasileiros na tarefa de alimentar o mundo. Questionado sobre a possibilidade de uma eventual revisão do inicio do acordo, o comissário ponderou que por conta do recente processo eleitoral na União Europeia, é necessário aguardar alguns meses até que se possam se estabelecer expectativas.

 

Ele reforçou, ainda, que mais do que exigências rigorosas, é preciso que os produtores recebam suporte financeiro para que adotem praticas sustentáveis.

 

Alguns andares abaixo, onde costumam acontecer os jogos de futebol, foram montadas tendas onde diversos pequenos produtores divulgavam e vendiam suas produções. Queijos, embutidos, licores, orgânicos e hortaliças, entre outros produtos exibidos, eram, em grande parte, produzida no Estado de São Paulo. Além dos agricultores familiares e micro agroindustriais, empresas do setor expunham seus produtos em estandes ao redor.

 

Representando o F de Food, também na área do campo aconteceram os workshops de cortes de carne na Arena Fogo. O destaque ficou para uma área de fogo de chão, pratica de assar carnes tradicional na região Sul do Brasil, mas com um requinte tecnológico: ao invés de grelhas verticais e estáticas, as enormes costelas bovinas eram grelhadas em quatro grandes giroscópios que, ao se manter em constante movimento, redirecionavam a gordura da carne para o alimento, além de assá-la uniformemente.

 

Para completar a experiência, um grande palco, também no gramado, recebeu uma apresentação visual que remetia à Festa do Peão de Barretos, maior e mais importante rodeio do Brasil e shows de dupla sertaneja como Chitãozinho e Xororó na primeira noite e Jorge e Mateus na segunda, responsáveis por fechar a maratona de programação deste ‘agropallozza’.

Em decisão unânime, Comitê resiste à pressão do presidente Lula e mantém taxa em 10,50%
por
Sônia Xavier
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20/06/2024 - 12h

 

O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) decidiu, na última quarta-feira (19), pela manutenção da taxa básica de juros, a Selic, em 10,50% ao ano. 

O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, resistiu à pressão de Lula, que criticou duramente a cadência dada nas reduções, em entrevista  à Rádio CBN na véspera (18). 

De acordo com o presidente, Campos Neto tem lado político e trabalha para prejudicar o Brasil. 

"Temos uma situação que não necessita dessa taxa de juros. Que é uma taxa proibitiva de investimento no setor produtivo. É preciso baixar a taxa de juros compatível com a inflação. A inflação está controlada, vamos trabalhar em cima do real", acrescentou o chefe do Estado. 

O colegiado justificou a manutenção com base na persistência das pressões inflacionárias globais, uma maior resiliência na inflação de serviços, além da desaceleração da atividade econômica global mais acentuada do que a projetada.

Analisando esses fatores, somados à elevada incerteza sobre a flexibilização da política monetária nos Estados Unidos, o Comitê concluiu que "o cenário segue exigindo cautela por parte de países emergentes". 

Outro motivo destacado pelo Copom foi a elevação das projeções de inflação. Na semana anterior, a projeção do indicador dada pelo Boletim Focus do BC era de 3,90% para 2024. Na estimativa divulgada pelo Boletim, na última segunda-feira (17), o índice subiu para 3,96%.

 

Lula em entrevista à Rádio Veredinha, em Fortaleza (CE)
O presidente Lula critica decisão do Banco Central em entrevista à Rádio Veredinha de Fortaleza (CE). Foto: Reprodução/ Canal Gov. 

 

 

Depois do resultado, o presidente Lula voltou a se manifestar contra a manutenção da taxa. Em entrevista à Rádio Verdinha, de Fortaleza (CE), ele disse que a decisão só prejudica o povo brasileiro: “Quanto mais a gente pagar em juro, menos dinheiro a gente tem para investir aqui dentro", argumenta.

A Confederação Nacional das Indústrias (CNI) também se manifestou contrária à decisão do Copom, a qual considerou “inadequada” e “excessivamente conservadora”: “neste momento, a decisão só irá impor restrições adicionais à atividade econômica – com reflexos negativos sobre o emprego e a renda –, sem que o quadro inflacionário exija tamanho sacrifício.” 

O Comitê volta a se reunir em 45 dias para uma nova reunião sobre a taxa básica de juros, mas não sinalizou, no comunicado, se haverá cortes nos próximos encontros.

Entenda como a festa junina movimenta a economia brasileira
por
Annanda Deusdará
Helena Barra
|
20/06/2024 - 12h

Antes conhecida como festa joanina, a celebração que tinha referência a São João, teve seu nome alterado e passou a chamar-se festa junina, em referência ao mês de junho, em que ocorre. 

A origem da Festa Junina tem relação direta com as celebrações pagãs realizadas na Europa no solstício de verão, que tinham como objetivo homenagear os deuses da natureza e da fertilidade e afastar os maus espíritos das colheitas. Posteriormente, a festa foi incorporada pelo cristianismo e passou a fazer parte do calendário festivo do catolicismo.

A comemoração chegou ao Brasil com a colonização portuguesa e era realizada em homenagem a santos como São João e Santo Antônio. Atualmente, a Festa Junina possui caráter popular e é comemorada em todas as regiões do país, sendo associada a símbolos típicos de áreas rurais como o chapéu de palha e o vestido de “chita”.

Importância econômica

As festas juninas são responsáveis por impulsionar a economia através do aumento do turismo nacional, das decorações e da alimentação. Com isso, também geram empregos temporários, que atendem a grande demanda da época.

De acordo com dados do Ministério do Turismo as celebrações geraram, em 2023, uma receita de cerca de R$6 bilhões em todo o país, o que representa um aumento de 76% em relação à 2022, quando foram gerados mais de R$ 3,4 bilhões em retorno financeiro.

Neste ano, os dados oficiais do país ainda não foram divulgados, entretanto, alguns estudos como o do Centro de Inteligência da Economia do Turismo, que está ligado à Secretaria de Turismo e Viagens paulista, revelam uma estimativa de movimentação de R$318,8 milhões no período para o estado de São Paulo.

Para João Francisco dos Santos, vendedor de milho que tem como ponto de venda fixo a porta da universidade PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica), a celebração ocupa um lugar muito importante na sua vida financeira: “As festas juninas ajudam a gente a ganhar um dinheiro extra para sobreviver durante as férias, quando a faculdade fecha as portas”. 

Além disso, o grande número de eventos para os quais é chamado para participar faz com que mais pessoas tenham uma forma de sustento nesse período. "A gente sozinho não dá conta e acaba contratando até 10 pessoas a mais", comenta o vendedor, que trabalha com apenas mais um parceiro nos dias em que não há celebração.

As celebrações atraem turistas de diversas partes do Brasil, principalmente para cidades do Nordeste, que se destacam por manter tradições como as danças de quadrilhas, o forró e a culinária típica – gerando renda para comerciantes, artesãos e prestadores de serviços. É o que acontece em cidades e estados como Caruaru, Pernambuco,Campina Grande e Paraíba.

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Festa de Caruaru, edição de 2023/Reprodução: Asces- Unita (Centro Universitário Tabosa de Almeida)

Levantamentos feitos pelo Sebrae e pelo Jornal da Paraíba mostram como os governos municipais investiram na festa nos últimos anos. No período compreendido entre 2022 e 2023, a estimativa de injeção econômica das cidades de Caruaru e Campina Grande para o evento variou entre R$ 300 e R$ 400 milhões.

O turismo rodoviário também tem contribuído para essa movimentação econômica. Segundo a Associação Brasileira de Transporte Terrestre de Passageiros (Abrati), a movimentação prevista para o ano passado foi de mais de 300 mil passageiros transportados para os principais destinos que abrigam o evento no país.

Com relação ao setor de alimentos, os produtos juninos também sofrem com aumentos consecutivos, seja devido à entressafra (período entre o fim da colheita e início do plantio), à alta do dólar ou à própria inflação. 

Os festejos são impactados pela instabilidade econômica, e essa realidade não é algo recente.Em pesquisa realizada em 2023, pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV IBRE), os preços dos ingredientes utilizados no preparo dos principais pratos e quitutes tradicionais desse período aumentaram em média 11,41% nos últimos 12 meses. 

No mesmo período de alta dos produtos juninos, o IPCA-15, índice considerado uma prévia da inflação oficial, acumulou um aumento de 4,07%.

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Comidas típicas de Festas Juninas/Reprodução: Abode Stock 

Apesar de ganhar mais no período junino devido ao grande número de vendas, João conta que o milho fica mais caro devido ao aumento da procura, "[O preço] aumenta em média uns 70%. Quando chega junho, tudo que é de festa junina aumenta". 

Ele também comenta como é dividido o lucro, " Nós fazemos a festa e damos 30% para o local e os outros 70% ficam para nós", comenta o vendedor, que participa das comemorações desde 2008.

 

Importância Cultural 

Apesar da capital paulista não ser um dos principais destinos quando o assunto é festa junina, a época não passa despercebida na cidade. O destaque da cidade são as quermesses, que misturam às tradições nordestinas com a influência italiana na região, fazendo com que as mesas dos eventos misturem pinhão, quentão, pizza e focaccia.  

O destaque das celebrações em São Paulo também é percebido por quem trabalha nelas, como destaca João, “Agora está crescendo no Brasil inteiro, principalmente em São Paulo, a festa junina tem muita força”.

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Casal com roupas típicas de festa junina, se prepara para dançar quadrilha – Foto: Fabiano Pedro

 

No Brasil, a prática de soltura de balões, indicam o início das comemorações, com as fogueiras compondo o cenário. A festa conta com danças típicas, como as quadrilhas, que tem origem nas danças de salão na França e consistem basicamente numa bailada de casais caracterizados com as famosas vestimentas de caipira, ao som do forró. Outra característica marcante dessa festividade é a produção de comidas à base de milho e amendoim, também fazem parte da tradição,bebidas como quentão e vinho quente. Já as brincadeiras como a pescaria, tomba lata e saltar a fogueira, trazem a diversão para o evento e pessoas de todas as idades participam. 

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Brincadeira típica da festa junina “Tomba Lata” em escola - Foto: Reprodução/magicstareventos

Além de trazer divertimento a quem participa, as festas juninas também têm a função de preservar tradições, valorizar a cultura local e fortalecer os laços comunitários, socialmente e economicamente. 

A importância das comemorações vão além da economia, trazendo memórias afetivas para as pessoas. “Ela lembra muito a terra da gente, o lugar que a gente nasceu, porque lá rola muita festa junina", conta João, que é baiano de nascença e hoje vive em São Paulo.

Bom desempenho do setor de serviço pessoal e de comércio intensificaram crescimento do indicador
por
Beatriz Alencar
|
11/06/2024 - 12h


O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil cresceu 0,8% no primeiro trimestre de 2024, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) divulgados na última terça-feira (4).  

PIB
PIB cresce 0,8% no primeiro trimestre de 2024 | Foto: Agência Brasil

O PIB é o indicador utilizado para avaliar o crescimento econômico de um país. O aumento do índice, neste trimestre, sugere uma melhora na economia brasileira após dois períodos de estagnação. Segundo o pesquisador e economista Emerson Braz, “ter bons resultados no PIB indica que a economia está melhor e que a qualidade de vida das pessoas está melhorando”.

Colocando em valores, o PIB brasileiro produziu R$ 2,7 trilhões nesses três primeiros meses do ano. Os setores mais determinantes para o crescimento foram comércio e consumo das famílias. 

O setor de consumo impactou nos números porque, de acordo com o economista, “estamos com o mercado de trabalho aquecido e, com mais empregos, maior o nível de consumo das famílias”. 

Em relação ao mesmo período do ano passado, o setor de agropecuária apresentou queda da influência no PIB. Para Braz, um dos principais motivos para este recuo é a crise climática: “[Os desequilíbrios ambientais] impactaram bastante sobre a soja e o milho, commodities significativas para a pauta exportadora do agro”, pontua.

O setor industrial também apresentou queda em relação ao trimestre imediatamente anterior. Porém, “no último mês o estado puxou um bom resultado (+10,6%) [no mercado financeiro] guiado pelo setor da indústria de petróleo e derivados”, o que deverá influenciar nos próximos resultados do PIB, acredita Braz. 

Em 2023, a indústria extrativa cresceu 8,7%, sendo o segundo maior crescimento no ano referido.

Para o próximo trimestre de 2024, a tragédia que atingiu o Rio Grande do Sul poderá impactar o setor econômico devido a importância da região para a indústria de alimentos. O estado gaúcho é responsável por 70% da produção de grãos do país.

“Os olhos devem estar voltados para o setor de alimentos e seu impacto sobre a inflação, visto sua grande relevância no fornecimento para todo o país”, explicou Emerson.

Apesar disso, “o mercado financeiro tem estado de olho no risco fiscal, visto o receio do aumento das despesas do governo com medidas de recuperação”, acrescenta o pesquisador. 

Braz  ainda ressalta que, nesse momento, priorizar um acompanhamento “na condução da política monetária para um juro real menos danoso aliado ao mercado de trabalho em alta é o que ditará o ritmo do crescimento em 2024”.

Com o uso de moedas sociais, instituições bancárias populares da grande SP auxiliam no fortalecimento da economia local
por
Isabela Mendes Dos Santos
|
01/06/2024 - 12h

Em busca de um caminho para driblar a marginalização, comunidades periféricas da Grande São Paulo têm aderido às iniciativas de Economia Solidária, especificamente aos bancos comunitários de desenvolvimento, cujos principais objetivos giram em torno do fortalecimento da economia local e impulsionamento dos territórios em foco através do chamado microcrédito solidário.

Os bancos comunitários nasceram no Brasil, em 1998, em Fortaleza, no Ceará, através do Banco Palmas, criado do zero pela comunidade do bairro Conjunto Palmeiras. 

Foto da fachada do Banco Palmas, primeiro banco comunitário do Brasil. Reprodução: https://blog.acerto.com.br/informacoes-bancarias/banco-palmas/
Foto da fachada do Banco Palmas, primeiro banco comunitário do Brasil.
Reprodução: https://blog.acerto.com.br/informacoes-bancarias/banco-palmas/

Desde então, o país construiu aproximadamente 103 bancos comunitários de desenvolvimento, de acordo com o site do Instituto Bancos Palmas com dados da Rede Brasileira de Bancos Comunitários. Desses, 23 estão localizados na região sudeste, estando sete situados no estado de São Paulo. Apenas cinco, entretanto, estão associados à Rede Paulista de Bancos Comunitários, nascida durante a pandemia da covid-19 com o intuito de incentivar e garantir a resistência dessas instituições.

Em São Paulo, especificamente, essas iniciativas são provenientes da luta habitacional, que liderou o projeto intitulado “Moradia Solidária”, desenvolvido nos anos de 2007, 2008 e 2009 em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), através do Laboratório de Extensão (Labex) e da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP), contando com apoio da Secretaria Nacional de Economia Popular e Solidária (Senaes) vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

Assim surgiram os bancos Paulo Freire, na Cidade Tiradentes (ZL); Tonato, que fica em Carapicuíba; Cacimba, localizado em São Miguel Paulista (ZL); Padre Leo Commissari, situado em São Bernardo do Campo; e a Agência de Desenvolvimento Local "Sociedade Alternativa", no Jardim Taboão, próximo à divisa com Taboão da Serra. 

Esses cinco BCDs estão hoje associados à Rede Paulista, que é coordenada por Hamilton Rocha, sociólogo formado pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). De acordo com ele, o banco comunitário é, primeiramente, um movimento, um arranjo e uma tecnologia social que é feita com um processo determinado e de uma forma determinada que tem princípios muito concretos – mas é também um serviço financeiro que tem como objetivo a geração de trabalho e renda.

 

Mapa da área de ação dos BCDs em São Paulo. Fonte: Rede Brasileira de Bancos Comunitários. Elaboração própria.
Mapa da área de ação dos BCDs em São Paulo. Fonte: Rede Paulista de Bancos Comunitários. Elaboração própria.

A Rede da qual faz parte trabalha não só com a integração dos BCDs de São Paulo, mas também com qualquer grupo que tenha interesse em fundar seu próprio banco. Por isso, relatou, a entidade também ministra cursos de formação sobre como criar um banco comunitário e sobre outros temas envolvendo finanças solidárias. Até agora, foram seis edições do treinamento preparatório para a criação de um BCD — que costuma ter pelo menos duas turmas ao ano e duração média de sete meses, segundo Hamilton.

“Para mim foi importante fazer o curso porque com ele a gente conseguiu planejar melhor as atividades do banco e montar estratégias no bairro, levar com maior empenho o nosso trabalho na região. Recomendo o curso porque ele é muito explicativo, muito bom, vai mostrar como é a realidade de um banco comunitário”, afirma Dora Ferreira, uma das gestoras do banco Paulo Freire, em vídeo publicado no perfil da Rede Paulista nas redes sociais.

Ainda, um dos cursos mais recentes tem como foco a energia solar solidária para mulheres, que engloba benefícios tanto do ponto de vista econômico como de inclusão profissional da população feminina no setor. A adesão ao curso, conforme o sociólogo, surpreendeu os integrantes da Rede, já que mulheres de todo o Brasil e de diferentes agrupamentos da sociedade — como assentamentos, grupos universitários e comunidades quilombolas — participaram da programação.

“A gente identificou que, para gerar atividades econômicas com boa remuneração, que chamamos de valor agregado, ou seja, para que os salários e os preços sejam melhores, precisamos de capacitação profissional”, explicou. O foco, disse ele, é melhorar a qualidade de vida dos moradores. Por isso, o trabalho é feito com setores estratégicos, como luz solar, captação e tratamento de água, hortas comunitárias, farmácia viva, robótica, tecnologia da informação e games. “Ainda não podemos oferecer tudo isso, mas é a nossa estratégia de movimento como rede”, ressaltou Hamilton.

Atualmente, a Rede Paulista conta com uma parceria com o Instituto Federal de São Paulo (IFSP) para o oferecimento de cursos profissionalizantes para diferentes grupos comunitários. Em maio, foi realizado o primeiro encontro de formação nos territórios promovido pelo IFSP, que reuniu professores interessados e as comunidades que se inscreveram no projeto a fim de organizar as atividades de formação nos locais. A reunião contou com a participação de Ladislau Dowbor, economista e professor da PUC-SP, para uma conversa sobre a situação econômica do país e a importância dessa preparação, das atividades econômicas e das finanças solidárias nas comunidades.


Moedas sociais como agentes de transformação

Para além dos cursos de capacitação, os bancos comunitários dispõem de uma tecnologia essencial para o fortalecimento das economias locais: a moeda social. Ela funciona como uma “quermesse” de festa junina: o indivíduo troca seu dinheiro por fichas que são reconhecidas pelos comerciantes e, a partir de então, pode usá-las para adquirir itens nas vendas locais, estimulando suas atividades e contribuindo para a autonomia da região.

 

Mulher segurando cédulas da moeda social do banco União Sampaio. Reprodução: https://periferiaemmovimento.com.br/banco-comunitario-lanca-moeda-social-digital-no-campo-limpo/
Mulher segurando cédulas do banco União Sampaio, no Campo Limpo.
Reprodução: https://periferiaemmovimento.com.br/banco-comunitario-lanca-moeda-social-digital-no-campo-limpo/ 

A paridade cambial das moedas sociais de qualquer tipo é “um para um”, isto é, um Real (R$ 1) equivale a uma unidade monetária da moeda social emitida pelo banco comunitário local. Ao trocar o Real pela moeda social, o objetivo imediato é restringir seu uso para um território, fazendo com que os moradores gastem seu dinheiro apenas nele.

Caso um indivíduo troque a moeda social de seu banco pelo Real, há uma espécie de “penalização”, que consiste no pagamento de uma taxa pela retirada do dinheiro. De acordo com o líder da Rede, esta penalização funciona como um incentivo para que os moradores não comprem fora de seu território, incluindo os comerciantes. Segundo Hamilton, os bancos comunitários têm o poder de emissão de moeda social apenas num território determinado, delimitado a 65 mil pessoas.

Na tentativa de conectar com mais eficiência os indivíduos de cada comunidade às instituições bancárias locais, a Rede Brasileira de Bancos Comunitários desenvolveu um aplicativo móvel batizado de “e-dinheiro”, que concentra as transações financeiras feitas através dos bancos comunitários em todo o país, facilitando a atividade e fomentando os chamados Fundos Rotativos Solidários de cada grupo comunitário. 

Captura de tela do aplicativo virtual "e-dinheiro", usado para fazer pagamento em moedas sociais. Reprodução: https://www.institutobancopalmas.org/palmas-e-dinheiro/
Banner com captura de tela explicativa do app "e-dinheiro", usado para fazer pagamentos em moedas sociais. Reprodução: https://www.institutobancopalmas.org/palmas-e-dinheiro/


Funciona assim: 2% de todos os valores administrados na plataforma digital é retido para os fundos, que servem como uma espécie de “poupança comum”. Esse dinheiro é direcionado para o desenvolvimento dos territórios vinculados a cada banco comunitário, visando servir essencialmente às necessidades das pessoas que usufruem dessas instituições. É possível, por exemplo, reverter as quantias coletadas em alimentos para as famílias que precisam dentro da comunidade. 

Também é possível, com o dinheiro, organizar e oferecer cursos profissionalizantes para os moradores, com o custeio integral do maquinário e materiais necessários para tal. Investimentos que tragam, no geral, mais oportunidades e qualidade de vida para os habitantes locais podem ser “bancados” com os valores disponíveis nos fundos. Dentre as alternativas encontradas para fazer as finanças solidárias girarem nas comunidades paulistas, está a “e-lojinha”, que consiste numa loja virtual com produtos dos empreendedores locais que podem ser comprados online através da utilização de moedas sociais.

Para Henrique Pavan, doutor em Economia pela Universidade Federal do ABC (UFABC) e pesquisador do tema, o banco comunitário é feito de baixo para cima, isto é, pela aspiração popular. Sobre as taxas de juros para a concessão de microcrédito, ele afirma que, em São Paulo, essa política varia – enquanto alguns bancos comunitários cobram uma taxa mínima, outros não a cobram sobre o crédito para consumo, que é, na maior parte das vezes, utilizado para custear despesas com alimentação.

“Em suma, a questão dos bancos comunitários é tipicamente brasileira, resultado de uma periferização, uma exclusão, que faz as pessoas buscarem soluções populares com outras lógicas mais horizontais”, conclui Henrique.