Reforma tributária prevê devolução de impostos para famílias cadastradas no CadÚnico
por
João Moura
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22/05/2026 - 12h

Para os brasileiros com baixa renda, cada compra no mercado carrega um peso invisível: o imposto embutido no preço dos alimentos, do sabão, do gás de cozinha. Um fardo silencioso que consome parte significativa de uma renda já escassa. A reforma tributária trouxe uma proposta para aliviar esse peso. A devolução de impostos prevista no novo sistema reacendeu o debate sobre o papel do cashback tributário no combate à desigualdade social. A ideia é devolver parte dos tributos pagos no consumo para famílias de baixa renda cadastradas no CadÚnico.

A economista Juliana Inhaz,, em entrevista à AGEMT, vê potencial na proposta, sobretudo pela promessa de simplificar o sistema tributário brasileiro e dar mais transparência aos impostos cobrados em produtos e serviços. "A reforma traz um sistema mais simples e mais transparente. As pessoas vão saber o quanto estão pagando de imposto, e isso pode fazer com que elas passem a prestar mais atenção nesse aspecto", afirma.

Hoje, poucos percebem. A falta de clareza sobre a carga tributária faz com que a maior parte dos brasileiros não note o quanto paga de imposto a cada ida ao supermercado. "Talvez a pessoa olhe para um produto simples e perceba que há um valor elevado de imposto embutido ali. Isso pode gerar uma conscientização maior sobre tributação e cidadania fiscal", diz Juliana.

O potencial existe. Mas os limites também. A especialista ressalta que o impacto da medida dependerá diretamente da forma como a política será implementada. "Se o modelo funcionar apenas como uma devolução proporcional ao consumo, famílias de baixa renda tendem a receber muito pouco, porque consomem menos", explica. A saída, segundo ela, está no desenho do sistema. Para que o cashback seja efetivamente redistributivo, parte dos tributos arrecadados de consumidores de maior renda precisaria ser revertida para as famílias mais vulneráveis. "O impacto pode ser favorável se houver redistribuição. Caso contrário, o efeito tende a ser pequeno", afirma.

Há ainda outro obstáculo, menos visível, mas igualmente concreto: o acesso digital. Muitos brasileiros ainda enfrentam dificuldades para navegar em plataformas governamentais e acessar benefícios financeiros. "Muita gente tem dificuldade para acessar sistemas digitais, fazer login e entender os processos necessários para solicitar benefícios como, por exemplo, acesso ao Gov.Br. Isso acaba afastando parte da população", avalia.

E mesmo que o acesso seja garantido, o cashback, sozinho, não resolve o que é estrutural. "O que realmente melhora a vida das famílias é aumento de renda, produtividade, qualificação profissional e crescimento econômico. Sem isso, mesmo com benefícios, o poder de compra continua comprometido", explica Juliana. Ainda assim, ela enxerga no novo modelo uma oportunidade além da devolução financeira: a de engajar o consumidor na fiscalização tributária e ampliar a formalização da economia. "Quando o consumidor entende que pode receber algum retorno, ele tende a exigir mais transparência nas transações. Isso ajuda a reduzir a informalidade e a evasão fiscal", conclui

Parcelados para sobreviver: como o endividamento virou rotina entre as famílias brasileiras
por
Eduarda Amaral
Wildner Félix
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22/05/2026 - 12h

No Brasil, parcelar deixou de ser uma escolha pontual. Virou rotina. Da compra do mercado ao remédio na farmácia, o crédito ocupa um espaço cada vez maior no orçamento das famílias e transforma a dívida em estratégia de sobrevivência. Atualmente, 80,2% das famílias brasileiras convivem com algum tipo de débito, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), o maior índice registrado desde 2010. O cartão de crédito é a principal modalidade de dívida, seguido pelos carnês de lojas. Confira os principais dados desta reportagem no nosso carrossel do Instagram. 

Grafico sobre as principais modalidades da dívida brasileira
Principais modalidade de dívida - Arte: Eduarda Amaral/Canva

Cerca de 29% das famílias estão inadimplentes, com contas atrasadas há mais de três meses, e 12% afirmam não ter condições de pagar esses débitos. Em um cenário de juros altos, renda baixa e aumento do custo de vida, o crédito deixou de ser acesso ao consumo supérfluo e passou a sustentar despesas básicas. 

A dívida no Brasil não nasce do desejo. Ela nasce da carência. O país terminou 2024 com quase 82 milhões de pessoas que não conseguiram pagar as contas em dia, o maior patamar desde 2012, segundo dados do Banco Central. Desde o encerramento da primeira fase do programa Desenrola, em julho de 2023, foram 9 milhões de novos inadimplentes e para boa parte dessas famílias, o endividamento não foi uma escolha impulsiva, mas um mecanismo de sobrevivência. 

"A dívida das famílias brasileiras tem caráter estrutural, baseada na má distribuição de renda e no monopólio das grandes redes na distribuição de alimentos e itens essenciais", afirma Paulo Romaro, professor de finanças da PUC-SP. "O crédito fácil não é a causa: é a solução disponível para as famílias de baixa renda. Quando os itens de primeira necessidade pesam no orçamento ou quando algum membro perde sua renda, o endividamento via crédito é a saída disponível.”

Essa engrenagem foi investigada de perto pelo geógrafo Kauê Lopes dos Santos, professor da Unicamp, entrevistado no episódio "Parcelados e endividados no Brasil" do podcast Café da Manhã. Em seu livro Parcelado: dinâmicas de consumo na periferia, resultado de 150 entrevistas em bairros como Brasilândia e Jardim Helena em São Paulo, argumenta que o crédito não é apenas um facilitador do consumo. É um modo de gerir a escassez. 

Enquanto o Estado e o mercado falham em oferecer saneamento e transporte de qualidade, as grandes redes de varejo são onipresentes. A compra parcelada se torna o motor de um ciclo que nunca se encerra: a publicidade estimula o desejo, a obsolescência dos produtos reduz seu tempo de vida e a sobreposição de parcelas compromete a renda de forma contínua, mês após mês. 

O geógrafo chama esse fenômeno de endividamento crônico. "Tudo aqui foi comprado parcelado", resumiu Maria do Carmo, uma de suas entrevistadas, que se orgulhava de uma TV de 43 polegadas mesmo vivendo em uma casa com marcas de umidade e rachaduras nas paredes, um retrato fiel da modernização do consumo que coexiste, sem contradição aparente, com a precariedade estrutural.

A ausência de educação financeira agrava o cenário, mas Romaro é preciso ao delimitar seu papel: "A população não consegue avaliar a situação em que vai se meter." Ainda assim, o economista ressalta que ela seria fundamental em um contexto diferente. "Se o indivíduo soubesse avaliar as opções de onde buscar os recursos necessários e mais adequados para a sua situação, seria muito bom", pondera, sobretudo diante de juros estratosféricos, como os do rotativo do cartão de crédito, que podem ultrapassar 400% ao ano.

Somam-se ainda as bets: "os jogos de azar em profusão viciam, causando um problema endêmico de saúde pública", aponta o professor. Os efeitos se espalham pela vida cotidiana. "Como pagar a mensalidade da escola do filho? Como pagar o aluguel em atraso? O impacto na saúde mental e nas relações é natural que aconteça." 

O endividamento no país tem um recorte racial claro. Pessoas pretas e pardas concentram os maiores índices de insegurança alimentar, moradia precária e informalidade. O rendimento médio dos negros é 40% inferior ao dos não negros diferença que persiste em 32% mesmo entre quem tem ensino superior, segundo o DIEESE. Quando a crise chega para essa parcela da população, o cartão de crédito passa a ser a última linha de defesa para colocar comida na mesa.

No entanto, esse recurso voltado para a baixa renda é também o mais caro, transformando o socorro emergencial em armadilha estrutural. Em Parcelado, o autor mostra que a população pobre e negra, antes excluída do consumo, está hoje subordinada ao capital financeiro. Essa inclusão, celebrada como conquista social, revelou seu lado sombrio nas periferias: a dívida chegou antes da infraestrutura e do saneamento, capturando uma demanda reprimida por décadas.

Com milhões de brasileiros negativados, o governo federal tem apostado em programas de renegociação de dívidas para conter a inadimplência e aliviar o orçamento doméstico. Entre as principais iniciativas recentes estão o Desenrola Brasil e a sua nova versão, o Desenrola 2.0, criados para fechar acordos de pagamentos e devolver o poder de compra à população.

Lançado em maio de 2026, o Desenrola 2.0 incentiva brasileiros com renda de até cinco salários mínimos e que possuem dívidas atrasadas entre 90 dias e dois anos. A medida oferece descontos de até 90% do valor total e permite o uso de até 20% do saldo do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para quitar débitos.

No entanto, para ter direito aos benefícios do programa, o participante não pode comprometer sua renda com apostas digitais pelo período de um ano, um alerta ao comportamento recente da população que tem intensificado o cenário de endividamento no país. 

Ainda assim, Kauê Lopes é direto sobre os limites da iniciativa e afirma que essas políticas têm caráter momentâneo e não resolvem a estrutura do endividamento crônico no Brasil. “Você pode até resolver uma circunstância particular num determinado momento, mas a tendência é que isso volte mais para frente”, explica.

O endividamento, portanto, não é um dado neutro: ele tem cor, endereço e nome. E enquanto o debate político se concentra em medidas paliativas, a raiz do problema permanece intacta. Para Romaro, o combate ao endividamento exige mais do que renegociação de dívidas ou educação financeira. Enquanto parte significativa da população permanecer próxima da linha da sobrevivência, o crédito continuará funcionando como extensão da renda. A saída, segundo ele, passa por distribuição de renda, empregos de melhor qualidade e políticas de desenvolvimento econômico.

Enquanto plataformas ultra-rápidas dominam o mercado, a manufatura tradicional enfrenta o desafio de sobreviver
por
Victória Miranda
Ana Julia Mira
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22/05/2026 - 12h

A ascensão da inteligência artificial (IA) redefiniu o varejo de moda, elevando o fast fashion ao patamar de 'ultra-rápido'. Marcas como a Shein lideram essa revolução ao utilizarem sistemas proprietários que decodificam tendências de redes sociais e comportamentos de influenciadores, transformando dados em coleções físicas em apenas cinco a sete dias. Diferente do modelo tradicional — baseado em  previsões sazonais e produções em massa — o machine learning (processo de usar dados e algoritmos para ensinar computadores a identificar padrões e tomar decisões) permite a fabricação de lotes precisos (100 a 200 unidades), o que minimiza o risco de estoques parados e garante um ajuste em tempo real à demanda. Esse ecossistema, que já diminui a relevância de gigantes tradicionais como a H&M e domina o consumo da Geração Z. Projetam movimentar US$ 388,5 bilhões (aproximadamente R$1,93 trilhão) até 2034. Esse predomínio econômico consolida um abismo em relação ao slow fashion, que luta para promover o consumo consciente em um cenário onde o algoritmo prioriza a gratificação instantânea e preços agressivos.

O descarte pode gerar um aumento para o consumidor na hora do pagamento
por
Júlio Antônio Poças Pinto
Gabriel Flores
Theo Fratucci
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21/05/2026 - 12h

Segundo pesquisa da "Food Agriculture Organization of the United Nations (FAO)", Organização para a Alimentação e a Agricultura, 28% das perdas/desperdícios de alimentos orgânicos acontecem no estágio de consumo (famílias, restaurantes etc.), que é o final da cadeia, quando viram lixo. Essa problemática do descarte de alimentos por conta do descuido com a matéria prima da comida, gera bastantes transtornos tanto do ponto de vista econômico como do social. O Brasil, por exemplo, descarta mais do que o necessário para neutralizar a insegurança alimentar no país.  O diretor da Embrapa no Tocantins, especialista no assunto, Roberto Manolio Valladão Flores, em entrevista à AGEMT, esclarece nosso entendimento sobre o lixo orgânico no Brasil. Assista aqui. 

Alta do petróleo afeta marcas que buscam estratégias para evitar o repasse imediato ao consumidor
por
Laura Petroucic
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21/05/2026 - 12h

Os conflitos no Oriente Médio vêm provocando impactos em diferentes setores da economia mundial, como combustíveis, alimentos e transporte. Um dos segmentos que muitas vezes fica de fora do debate é a indústria da moda. O aumento no preço do petróleo impacta diretamente toda a cadeia de produção têxtil em um mercado marcado pela inflação e pela dependência de importações. A designer Brenda Saad Santos Guimarães, em entrevista à AGEMT, comenta sobre os esforços de marcas para reduzir os impactos da alta nos custos de produção: “Sempre é possível definir estratégias antes de mudar o valor final, como entender o que pode ter um custo menor, características do produto que podem ser mais simples para que caiba no orçamento, número de peças produzidas, onde serão distribuídas ou até mesmo reduzir a margem de lucro no produto para manter a constância de vendas”, diz Brenda.

Justamente por causa dessas estratégias que, muitas vezes, esse aumento pode passar despercebido pelo consumidor final, ao menos em um primeiro momento. No caso do algodão, os conflitos afetam o combustível utilizado em máquinas agrícolas, o transporte de mercadorias, fertilizantes e até o funcionamento da indústria responsável por transformar a fibra em tecido. Já com as fibras sintéticas, como poliéster, nylon e acrílico, o impacto é ainda mais direto: esses materiais são derivados do petróleo. Segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), há relatos de aumentos de até 40% no poliéster desde o início do conflito. Além de matéria-prima mais cara, o setor também enfrenta dificuldades logísticas. Com o Estreito de Ormuz sendo uma das áreas mais instáveis e afetadas, rotas marítimas foram alteradas por questões de segurança, resultando em custos de frete elevados. Brenda nota que o aumento foi constante nos últimos anos. “Fatores como guerras, eleições ou altas repentinas de demanda por conta de tendências influenciam na porcentagem desse aumento”, explica. Para ela, a oscilação da economia global já faz parte da rotina da moda, principalmente em um mercado dependente de importações.

O impacto é ainda maior para pequenas marcas que não podem se dar ao luxo de cortar lucros para manter vendas. A designer destaca que a cadeia têxtil brasileira perdeu força nacionalmente, abrindo mais espaço para materiais importados, o que dificulta ainda mais produtores independentes. “Por exemplo, pedidos mínimos de certos materiais que às vezes são mais do que uma marca independente pode investir. Os planejamentos das marcas precisam trabalhar com antecedência e criar acordos que garantam precauções para situações como inflação absurda ou uma nova pandemia”, afirma.

Apesar das tentativas, o consumo de roupas tende a cair em períodos de inflação, que não é considerado essencial como alimentação ou transporte. Uma alternativa nestes momentos são as fast fashions de plataformas internacionais, como a SHEIN, chinesa, que são de pior qualidade mas dificultam a competição por preço. 
“É um momento de duas balanças, dois pesos. Tem muita coisa sendo produzida, muita coisa sendo consumida, aumento do preço de venda, instabilidade do preço de produção”, resume Brenda, que acredita que estamos em um momento de grande transformação em vários pilares da moda, e que só serão compreendidos em sua totalidade quando estivermos afastados disso. 
 

Apesar dos exemplos ruins, Brasil segue estatizando setores sensíveis à população brasileira em contramão aos países desenvolvidos
por
Henrique Silva Rodrigues
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12/09/2025 - 12h

Por Henrique Rodrigues

 

A Enel, sigla para a empresa italiana Ente Nazionale per l'Energia Elettrica, assumiu a distribuição de energia elétrica a partir de 2018 após a compra da empresa AES Eletropaulo. Sete anos depois de assumir, a companhia gera revolta e insatisfação geral na população que recebe seus serviços e o caso expõe o perigo de um setor tão importante e essencial para a população brasileira estar à mercê de interesses privados. 

Um dos casos que mais afetou negativamente a imagem da Enel foi o apagão de 12 de outubro de 2024, no qual 2,1 milhão de clientes da concessionária ficaram sem eletricidade, situação a qual permaneceram vários cidadãos por seis dias, até a concessionária divulgar ter restabelecido a energia da maioria dos afetados. Mais recentemente, temporais neste ano causaram apagões em janeiro, com 150 mil imóveis afetados; e em abril, com 270 mil pessoas ficando desprovidas deste serviço. 

Em 21 de julho deste ano, a Controladoria-Geral da União (CGU) divulgou um relatório apontando graves falhas, tanto no comprimento do plano de contingência por parte da Enel, quanto na fiscalização por parte da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), dificultando a tomada eficaz de respostas aos apagões. É um padrão da companhia italiana defletir a culpa por não ser culpada pelas tempestades, ignorando o fato de que eles deveriam estar preparados para responder à altura em qualquer caso de emergência e que a principal causa de aborrecimento não são as quedas de energia em si, mas a demora para o reestabelecimento da energia. 

Muito dessa ineficiência pode ser explicada pelo corte no seu quadro de funcionários. Até os apagões de outubro do ano passado, foram reduzidos 51,55% de seus funcionários ao longo de 5 anos, comprometendo a sua capacidade de tomar medidas preventivas e de responder emergências com velocidade. Isso contrasta com os lucros bilionários da empresa, que mais que dobrou seu lucro líquido em 2023 para 3,44 bilhões de euros. Para a professora e pesquisadora em economia da PUC-SP e membro colaborador da Comissão Especial de Estudos de Direito e Economia da OAB-SP Cristina Helena Pinto de Melo, isto reflete a diferença entre a gestão do setor público e do setor privado. O primeiro tem como métrica de eficiência o serviço fornecido e a sua expansão de serviços, enquanto o segundo mensura pelo resultado do lucro. 

Outro fator importante é o fato de a Itália ter apresentado déficit fiscal nos últimos anos. Em 2023, o governo italiano apresentou o maior déficit da União Europeia, totalizando 7,4% do seu Produto Interno Bruto (PIB). Apesar de menor, o ano de 2024 também apresentou déficit, estimado em 3,4% de seu PIB. Os cortes de gastos na empresa, que conta com o governo italiano como acionista majoritário detendo 23,6% das ações, possuem, ainda por cima, a intenção de alcançar metas fiscais de um país estrangeiro. Cristina confirma que a empresa está exposta a riscos múltiplos, aumentando a sua vulnerabilidade. Considera que ela está exposta a riscos de crise econômica nos vários países (em que ela atua), o que implica também que mudanças cambiais abruptas podem mudar o resultado dessa empresa como crises políticas e/ou culturais. Então a internacionalização das empresas é sempre um grande desfio para os gestores, relata a professora e pesquisadora. Ela ainda complementa dizendo que é necessário ter planejamento estratégico alicerçado em instrumentos financeiros para proteger a empresa de variações nos preços dos ativos.

Segundo dados do relatório Reclaiming Public Services, que seria traduzido para Reivindicando Serviços Públicos em português, publicado pela Transnational Institute (TNI), aconteceram 835 remunicipalizações e 49 renacionalizações entre 2000 e 2017. Os governos que lideram a lista de recuperação dos serviços públicos neste período são a Alemanha, com 348 reestatizações; França, com 152; Estados Unidos, com 67; Reino Unido, com 65; e Espanha, com 56. 

A professora assiste com interesse a reestatização de setores que considera críticos do ponto de vista político e da constituição do tecido social. Segundo ela: “não se trata de eficiência econômica, mas de justiça, cidadania e de acesso a bens públicos essenciais. As explicações para esse movimento são menos econômicas e mais relacionadas a constituição da sociedade e de sua organização”. 

A economista explica que, no final dos anos 80 e início dos anos 90, nosso país rompeu com o modelo de desenvolvimento econômico alicerçado no estado como promotor do desenvolvimento. Ela acredita que os jornalistas tiveram um forte papel em imputar na percepção pública a ideia de que o estado é menos eficiente do que o setor privado na gestão destes recursos. “O estado está sempre exprimido por uma dívida pública que só cresce em função de uma taxa de juros muito elevada, coisa que a população enxerga pouco. Então, a imprensa, cotidianamente e com fontes nichadas, alimenta essa percepção do público de que o setor estatal é menos eficiente do que o privado”, declarou a professora sobre a sua percepção do motivo do país seguir um caminho diverso dos países desenvolvidos. 

O Fundo Monetário Internacional (FMI) teve forte influência nas ondas de privatização e no pensamento neoliberal inseridos no nosso país a partir da década de 90. Fundado na conferência de Breton Woods, em 1944, e iniciando suas atividades a partir de 1945, o fundo exige, em troca do empréstimo, medidas de austeridade fiscal, abertura e desregulamentação da economia, incluindo privatizações, e menor protecionismo. O Brasil recorreu ao FMI três vezes nos anos 90. Em 1990, para conter o desequilíbrio fiscal e a inflação no governo de Fernando Collor; em 1993, para ajudar a estabilizar a economia visando o lançamento do Plano Real durante o governo de Itamar Franco; e em 1998, para estabilizar a economia em uma crise financeira que assolou os países emergentes durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. 

Hoje, existe o Novo Banco de Desenvolvimento, dos BRICS, fundado em 2014 em Fortaleza, Ceará. Eles oferecem financiamentos que, segundo a pesquisadora, podem ser alocados em serviços públicos, sendo uma boa alternativa para que não se recorra ao Banco Mundial, o FMI e outras agências de fomento internacional, algumas delas fornecendo financiamento com venda casada, na qual você consegue o financiamento se fizer compras de empresas de determinados países. 

Mesmo após a Enel bater recordes de reclamações desde que assumiram a distribuição elétrica, inclusive, sendo a segunda mais reclamada na Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon) com apresentando 10.402 reclamações, lideradas pelas queixas de cobranças indevidas e abusivas, tanto a Sabesp, em 22 de julho de 2024, quanto as linhas de metrô da CPTM 11 Coral, 12 Safira e 13 Jade, em 28 de março deste ano, foram privatizadas pelo governo de Tarcísio de Freitas. Prova que nossa nação segue mais os discursos do que os exemplos de países desenvolvidos.

Com governo de viés soberanista e cooperação Sul-Sul, Burkina Faso rompe dependência do Ocidente e traça caminho próprio de crescimento
por
Pedro Bairon
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10/11/2025 - 12h

Por Pedro Bairon

 

Em 30 de setembro de 2022, Burkina Faso, no coração do Sahel africano, assistiu a uma nova virada política. O capitão Ibrahim Traoré, então com 34 anos, liderou um golpe militar que depôs o presidente de transição Paul-Henri Sandaogo Damiba ligado aos interesses políticos e econômicos franceses. Desde sua ascensão ao poder, Traoré tem reconfigurado o posicionamento do país no cenário internacional, adotando uma retórica e políticas de cunho nacionalista e desenvolvimentista, distanciando-se de antigas influências ocidentais. Aliado a isso, promoveu uma aproximação estratégica com Mali e Níger, unindo forças na chamada Aliança dos Estados do Sahel (AES), como parte de uma nova arquitetura de segurança coletiva e solidariedade regional, com forte ênfase em ideais pan-africanistas e na afirmação da soberania nacional.

O país africano, assim como tantos outros, passou por um processo de colonização extremamente violento, neste caso conduzido pela França. Antes conhecido como “Colônia do Alto Volta”, Burkina Faso sofreu a imposição de estruturas políticas e econômicas voltadas a servir os interesses europeus, com exploração intensiva de recursos e marginalização das populações locais. A presença colonial intensificou-se no final do século XIX e estendeu-se até 1960, quando, em meio à onda de independências africanas, o país conquistou formalmente a soberania.

A ruptura não significou de imediato a superação das dinâmicas neocoloniais. Nas décadas subsequentes, o país manteve relações assimétricas com antigas potências europeias e com os Estados Unidos, dependência que restringiu sua capacidade de formular políticas próprias de desenvolvimento. Foi nesse contexto que, em 1983, emergiu a liderança de Thomas Sankara, jovem capitão que assumiu o governo com um programa de transformação social profundo. Ele rebatizou o país como “Burkina Faso”, ou “Terra dos homens íntegros” implementou reformas em saúde, educação e reforma agrária, defendeu a emancipação das mulheres e tornou-se símbolo do pan africanismo e da resistência ao imperialismo, até ser deposto e assassinado em 1987. Décadas mais tarde, novas lideranças passaram a reivindicar esse legado. Desde 2022, sob Ibrahim Traoré, observa-se um esforço explícito para se apropriar da memória e das bandeiras de Sankara, reposicionando a narrativa nacional em torno da soberania e do fortalecimento do Estado.

Desde a ascensão de Ibrahim Traoré ao poder, Burkina Faso tem apresentado sinais consistentes de recuperação econômica e social, consolidando avanços em setores estratégicos e reconfigurando sua posição regional. Dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial revelam que o Produto Interno Bruto (PIB), que havia registrado crescimento modesto de 1,8% em 2022, avançou para 3,6% em 2023 e acelerou para 4,9% em 2024, impulsionado sobretudo pelos setores de serviços e agricultura, beneficiados pela melhora na segurança, condições climáticas favoráveis e políticas governamentais de incentivo ao setor agrícola.

A estabilidade de preços constitui outro indicativo relevante do desempenho econômico. A inflação anual, que atingiu 14,1% em 2022, caiu para 0,7% em 2023, segundo o Banco Mundial, refletindo maior previsibilidade para o consumo e a atividade econômica. Em 2024, a inflação subiu para 4,2%, sobretudo devido a aumentos nos preços dos alimentos, mas mantém-se dentro de um patamar controlado, compatível com uma economia em consolidação.

O rigor na gestão fiscal também se destaca neste contexto. O déficit fiscal, que representava 10,7% do PIB em 2022, reduziu-se para 6,7% em 2023 e atingiu 5,6% em 2024, resultado da combinação de controle disciplinado dos gastos públicos e incremento na arrecadação. Paralelamente, o déficit da conta corrente apresentou melhora, recuando de 8,0% do PIB em 2023 para 6,4% em 2024, impulsionado, em grande medida, pelo aumento das exportações de ouro. Segundo dados do Banco Nacional de Desenvolvimento dos BRICS, a política de nacionalização e refinamento do ouro, incluindo a construção da primeira refinaria nacional com capacidade para processar 400 kg por dia, representa uma estratégia clara de soberania econômica, reduzindo a dependência da exportação de minério bruto e ampliando a arrecadação estatal.

 

​​​​Arquivo : 08-05-2025 - Os presidentes Vladimir Putin e Ibrahim Traoré se encontram em Moscou para o Dia da Vitória na Praça Vermelha,
Arquivo : 08-05-2025 - Os presidentes Vladimir Putin e Ibrahim Traoré se encontram em Moscou para o Dia da Vitória na Praça Vermelha


O setor agrícola tem sido alvo de políticas intensivas que visam à autossuficiência alimentar e ao fortalecimento do setor primário. Foram distribuídos mais de 400 tratores aos agricultores, e em março de 2025 foi inaugurada a primeira fábrica estatal de laticínios, Faso Kosam, com planos de expansão. Essas ações refletem o compromisso do governo em atender às necessidades materiais da população, garantindo o abastecimento interno e fomentando a produção local.

A redução da pobreza extrema acompanha esse ciclo de crescimento e políticas públicas. O Banco Mundial registra uma diminuição de 3 pontos percentuais, para 23,2% em 2024, especialmente nas áreas rurais. Considerando o contexto histórico, a pobreza extrema havia recuado de 83% em 1990 para 27,7% em 2023, indicando uma trajetória de progresso que o governo de Traoré procura acelerar.

A segurança interna, condição indispensável para o desenvolvimento sustentável, também tem apresentado avanços notáveis. Segundo a AES, em agosto de 2025, Burkina Faso recuperou 72,7% de seu território do controle de grupos armados, que segundo o Ministério da Defesa de Burkina Faso, contavam com financiamento de lideranças ocidentais, contra 70,89% em dezembro de 2024. A retomada gradual da administração pública e a reabertura de atividades econômicas, como a mina de Bongo, contribuem para o restabelecimento da normalidade social e econômica, criando condições para a continuidade do crescimento e da redução da pobreza.

O conjunto dessas medidas está organizado dentro do Plano de Ação para o Desenvolvimento e Estabilização (PASD 2023-2025), que contempla um orçamento de 12,4 bilhões de dólares e prioriza combate ao terrorismo, resposta à crise humanitária e reconstrução do Estado. Segundo o Banco Nacional de Desenvolvimento dos BRICS: “o financiamento do plano combina recursos internos, subvenções e empréstimos estratégicos, demonstrando a busca do governo por autonomia financeira e estabilidade de longo prazo.”

Sob a liderança de Traoré, Burkina Faso constrói assim um cenário de recuperação econômica e social robusto, apoiado em políticas que articulam segurança, soberania econômica e desenvolvimento inclusivo, junto com pesados investimentos em infra-estrutura feitos pela China e Russia. A trajetória do país evidencia a importância de uma estratégia coordenada, capaz de integrar crescimento econômico, estabilidade de preços, controle fiscal e fortalecimento do setor primário, enquanto reafirma sua independência em relação às dinâmicas tradicionais de dependência financeira internacional.

Mesmo em um período relativamente curto, é possível observar transformações significativas na realidade de Burkina Faso, evidenciando avanços palpáveis tanto para a população quanto para a economia nacional. Essas mudanças refletem não apenas políticas públicas eficazes, mas também uma gestão comprometida com a soberania alimentar, a recuperação econômica e a melhoria das condições de vida da população.

Segundo dados do Banco Mundial, a taxa de extrema pobreza no país diminuiu para 23,2% em 2024, representando uma redução de 3 pontos percentuais em relação ao ano anterior. Esse declínio é particularmente notável nas áreas rurais, onde a implementação de programas agrícolas e a distribuição de recursos têm proporcionado um alívio significativo para as famílias mais vulneráveis. Além disso, a retomada das atividades econômicas locais, como feiras, mercados e pequenas produções rurais, tem permitido que milhares de burquenses retomem sua rotina produtiva e o acesso a bens essenciais, fortalecendo a economia comunitária, muito comum ao longo do regime de Sankara.

O professor e doutor em economia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Marcos Dantas ressalta que ás políticas nacionalistas norteadas por uma perspectiva pan-africana são fundamentais para um desenvolvimento das capacidades produtivas ao longo dos anos. Essas medidas adotadas por Traoré, evidenciam de maneira inequívoca a necessidade de  África se tornar um continente independente, livre das amarras neocoloniais. Além disso, o governo de Burkina Faso tem investido substancialmente em iniciativas para garantir a segurança alimentar. Em 2025, foi lançado um plano de US$ 981 milhões focado na produção local de alimentos, visando reduzir a dependência de ajuda externa. Esse investimento inclui a distribuição de sementes, fertilizantes e equipamentos agrícolas para os produtores locais, fortalecendo a capacidade do país de atender às suas próprias necessidades alimentares.

Essas ações refletem o compromisso do governo com o bem-estar da população e com o desenvolvimento sustentável do país. O presidente Ibrahim Traoré, reforçou essas políticas em um discurso recente na capital do país, afirmando que um povo só poderá dizer que de fato é independente quando a comida plantada em território nacional consiga alimentar sua própria população.  

Essa visão orienta as políticas implementadas que buscam não apenas resolver crises imediatas, mas também estabelecer as bases para um futuro próspero e autossuficiente para Burkina Faso, se desligando das amarras neocoloniais de muitas formas. Além de medidas práticas, o governo também demonstrou preocupação em nortear essa nova “independência” por um prisma simbólico. Recentemente, no dia 8 de setembro, Traoré retirou o francês das línguas oficiais do país aderindo formalmente a 4 idiomas locais, demonstrando que a preocupação, com o que o próprio chama de “retomada da honra”, não advém apenas do campo prático.

 

Indicador registrou crescimento da economia brasileira de 0,3% no segundo trimestre de 2025
por
Marcelo Barbosa
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20/08/2025 - 12h


O Banco Central (BC) divulgou nesta segunda-feira (18) os dados do IBC-BR (Índice de Atividade Econômica do Banco Central do Brasil) referentes ao mês de junho. Os números mostraram uma queda de 0,1% em relação a maio, mas o resultado do segundo trimestre de 2025 se manteve positivo, com um crescimento de 0,3%. O IBC-BR é um dos indicadores oficiais da economia brasileira. Ele faz uma estimativa de crescimento levando em conta três setores: agropecuária, indústria e serviços. O índice foi criado para trazer números frequentes sobre a atividade econômica do Brasil e tem influência sobre as decisões financeiras do país, servindo de auxílio para políticas monetárias, como a taxa de juros (Selic).

Por exemplo, quando a taxa de juros está em patamares elevados, isso reduz a atividade econômica, o que se reflete nos números do indicador. Por isso, atualmente, ele é lido pelo mercado como a "prévia do PIB".

 
 

Fachada do Banco Central do Brasil em Brasília — Foto: Marcello Casal/Agência Brasil
IBC-BR: agropecuária, indústria e serviços tem leve alta no segundo trimestre de 2025 (Marcello Casal Jr./ Agência Brasil)

 

 

Retração da economia

Após quatro meses seguidos de bons resultados, maio registrou a primeira retração do ano, de 0,7% em relação a abril. Em junho, a queda foi de 0,1%. De acordo com o professor de economia Renan Silva, do IBMEC Brasília, "a alta deu-se devido à Selic, que chegou ao patamar de 15%”. Ele explicou que "o que corrobora para essa questão da taxa de juros restritiva é o fato de que os indicadores de inflação vêm arrefecendo. No último relatório Focus, do Banco Central, o IPCA já registra uma inflação, em 2025, de 4,95%, ante os 5,30%, que as projeções vinham indicando”.

 

Os dados oficiais do Banco Central confirmam que a agropecuária foi o principal fator para a retração no trimestre, com uma diminuição de 3,1% no período. Por outro lado, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) aponta que o destaque de junho foi o aumento de 0,3% no volume do setor de serviços. A produção industrial teve um recuo de 0,1% no mês, e as vendas no varejo também frustraram as expectativas, recuando 0,1% em comparação a maio. Sob a óptica do professor, o tarifaço de Donald Trump pode trazer efeitos adversos e "provocar uma redução intensa no segundo semestre”.

 

Nos últimos 12 meses, os números ficaram em 3,9%, o que representa uma desaceleração em face ao mesmo período, que marcou uma alta de 4,04%.

 

Para o futuro, Silva acredita que a retração na atividade econômica pode influenciar o COPOM (Comitê de Política Monetária) - órgão responsável por estabelecer as diretrizes da política monetária - a iniciar um novo ciclo na queda dos juros. "Esse ciclo restritivo já teve efeito, o que gerou como resultado a redução na atividade econômica”, conclui. A retração de 0,6% no terceiro trimestre de 2023 havia sido a última queda do indicador antes dos recuos registrados neste ano.

Alimentação e bebidas têm deflação em relação ao mês anterior, enquanto habitação sofreu alta devido ao aumento da conta de luz
por
Marcelo Barbosa P.
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13/08/2025 - 12h

O IBGE divulgou nesta terça-feira (12) o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial da inflação do país. Os dados apontam que houve um aumento de 0,26% no mês de julho, uma leve alta em comparação com a taxa de 0,24% registrada em junho. No ano, o IPCA já acumula desaceleração de 3,26% e, nos últimos 12 meses, de 5,23%.

De acordo com o gestor de investimentos e especialista financeiro da WFlow, Guilherme Viveiros, a inflação surpreendeu positivamente. "O índice deste mês veio com o valor de 0,26%, enquanto o mercado via uma elevação de 0,36%". O mês de agosto também deve apresentar queda, com índices negativos o que, segundo Viveiros, "fez com que o mercado começasse a sondar uma possível queda dos juros ainda em 2025".

Entre os setores da economia que apresentaram deflação, ou seja, queda de preços, estão o grupo Alimentação e bebidas (-0,27%), Vestuário (-0,54%) e Comunicação (-0,09%). Em contrapartida, entre os maiores destaques da alta estão os grupos Habitação (0,91%) e Despesas Pessoais (0,76%). A alta do grupo Habitação foi impulsionada pela energia elétrica residencial, com variação de 3,04% - o maior impacto individual no índice do mês. Esse número se deve ao fato de que a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) confirmou a bandeira tarifária de agosto, que será a Vermelha patamar 2, a mais cara do sistema. Como consequência disso, haverá um acréscimo de R$ 7,87 para cada 100 kWh consumidos na conta de luz.

O grupo Transportes também teve aceleração, passando de 0,27% em junho para 0,35% em julho, impulsionado pela alta de 19,92% nas passagens aéreas. Por outro lado, os combustíveis tiveram uma queda de 0,64% no mês, com recuos no preço do etanol (-1,68%), do óleo diesel (-0,59%), da gasolina (-0,51%) e do gás veicular (-0,14%).

 Já o grupo Alimentação e bebidas, que tem o maior peso no IPCA, registrou baixa pelo segundo mês consecutivo. A queda em julho foi impulsionada pela alimentação no domicílio, que caiu 0,69% com destaque para redução nos preços da batata-inglesa (-20,27%), da cebola (-13,26%) e do arroz (-2,89%).

 

Reprodução: Tânia Rego/Agência Brasil | Pessoas andando em um mercado
Reprodução: Tânia Rêgo| Pessoas escolhem frutas em um mercado


Rafael Prado, economista e analista de macroeconomia da Go Associados, chama a atenção para o fato de que o valor da inflação deste mês ainda é elevado em relação à meta de 4,5% ao ano. Segundo ele, o resultado deste mês é prova de que a política monetária pode atuar de maneira enfática nos dados. "Quando nós olhamos para os números desagregados do IPCA, vemos que existem grupos, como Habitação que foi impactado pela energia elétrica, que influenciaram para o aumento de julho". Para ele, isso ressalta a importância de "continuar com uma política monetária restritiva, para que a inflação continue caindo e volte ao intervalo de tolerância."

Já o professor de economia João Gabriel Araújo, do Ibmec Brasília, destaca o efeito Trump na economia brasileira. Segundo ele, a guerra tarifária vai ser um dos fatores determinantes para a queda dos preços no Brasil. "Com o anúncio das medidas para o Brasil, especialmente a tarifa de 50% sobre as importações, os produtores nacionais aumentaram os estoques para o mercado interno, reflexo da diminuição das exportações para os Estados Unidos antes da implementação da tarifa e do consequente aumento da oferta de bens no mercado doméstico".

O cálculo do IPCA foi realizado a partir da comparação dos preços coletados entre 1 e 30 de julho de 2025 com os preços vigentes entre 30 de maio e 30 de junho de 2025. O IPCA abrange famílias com rendimento monetário de 1 a 40 salários-mínimos. Já o INPC, que considera famílias com rendimento de 1 a 5 salários-mínimos, teve alta de 0,21% em julho, com acumulado de 3,30% no ano.

A falta de renda fixa, escolaridade e educação financeira empurra jovens para ciclos longos de endividamento.
por
Maria Luiza Pinheiro Reining
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24/06/2025 - 12h

Entre boletos parcelados, cartões de crédito e ofertas de empréstimos rápidos, jovens brasileiros têm se tornado protagonistas de um fenômeno crescente: o superendividamento. Sem renda fixa, sem vínculo formal com instituições financeiras e com pouca ou nenhuma educação financeira, parte expressiva dessa população vê no crédito imediato uma resposta à sobrevivência, ainda que, a longo prazo, isso signifique um acúmulo impagável de dívidas.

A especialista em consumo e pesquisa de mercado, Eduarda Barreto, 27, chama atenção para a complexidade do problema. Para ela, não se trata apenas de comportamento individual, mas de um contexto social e estrutural. “Em 2022, uma pesquisa do Banco Central mostrou que 22% dos jovens entre 15 e 29 anos estavam fora da escola e do mercado de trabalho. Isso representa cerca de 11 milhões de jovens sem renda fixa ou escolaridade mínima para acessar melhores oportunidades”, afirma.

Eduarda Barreto em palestra na FEA-USP
Eduarda Barreto em palestra na FEA-USP 

Esse grupo, segundo Eduarda, é o mais vulnerável a modalidades de crédito como empréstimos emergenciais ou cartões pré-aprovados. Com pouco conhecimento sobre juros e condições, esses jovens recorrem ao que está disponível mesmo que isso signifique aceitar taxas elevadas e prazos inflexíveis. Ela explica que não se trata de crédito para investir, mas para sobreviver. Muitas vezes, o empréstimo serve para pagar contas básicas como luz, gás e alimentação.

Eduarda destaca que esse ciclo é agravado pela ausência de políticas públicas consistentes de educação financeira desde os primeiros anos escolares. Jovens que não estão inseridos no mercado de trabalho ou na escola muitas vezes não têm qualquer orientação sobre orçamento, crédito ou endividamento. O resultado é um cenário em que decisões são tomadas no impulso da necessidade, sem planejamento ou capacidade de negociação com bancos.

A falta de vínculo estável com instituições financeiras também pesa. Quem não tem um histórico com o banco dificilmente acessa linhas de crédito com melhores condições. Barreto observa que, mesmo com juros altos, muitos jovens aceitam a única oferta disponível, pois não têm tempo nem suporte para tomar uma decisão mais estratégica. Eles precisam do dinheiro de forma imediata.

Embora programas de renegociação de dívidas e feirões "limpa nome" tenham ganhado força nos últimos anos, Eduarda pondera que eles não atacam o problema na raiz. O superendividamento juvenil é reflexo direto de um sistema que oferece crédito sem oferecer estabilidade, informação ou perspectivas.