O Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e o 13º salário vão ajudar os brasileiros a comprarem na Black Friday. Para muitos, será a chance de antecipar as compras de Natal gastando menos. A última sexta-feira de novembro é conhecida como o dia de maiores descontos no comércio. Aqui no Brasil essa prática tem ganhado força e deve quebrar recordes este ano.
“É uma data cada vez mais importante, a terceira maior para o varejo, ficando atrás do Natal e do Dia das mães”, diz Guilherme Dietze, assessor econômico da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP).
As festas de fim de ano trazem consigo um aumento na contratação de trabalhadores temporários. No estado de São Paulo, este crescimento deve ser de quase 8% em relação ao mesmo período do ano passado, o que resultará em 33 mil novos empregados, de acordo com a FecomercioSP. O desemprego tende a permanecer entre 12 e 13%, prevê Marcos Henrique do Espírito Santo, economista e professor de economia do Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU).
Ele comenta que medidas rápidas como contratos temporários não têm “fôlego” para melhorar o mercado de trabalho. “Por um lado, pode melhorar a vida de milhares de pessoas em um curto prazo, mas, no longo prazo, precisa-se pensar para além destas ocasiões pontuais, deve-se pensar em um plano de recuperação de emprego e de renda, para assim criar mais perspectivas para os empresários investirem”, completa.
A Black Friday veio para o Brasil em 2010, importada dos Estados Unidos. “Nos últimos três anos, excluindo a recessão, ela vem aumento bastante”, diz Espírito Santo. Uma evidência disso é a pesquisa realizada pela plataforma de comércio eletrônico ZOOM que constatou que, dos quatro mil entrevistados, 95% pretendem consumir algum produto na data e 59% poupam ao longo do ano para aproveitar os descontos oferecidos.
No começo, a maquiagem dos preços chamou a atenção dos consumidores. Black Fraude e Metade do Dobro foram alguns dos apelidos que a data ganhou. “Eu acho impossível eliminar essa maquiagem, pois alguns comerciantes encaram como estratégia de venda, mas ao longo dos anos a tendência é que vá diminuindo”, acrescenta o professor da FMU. A respeito disso, Dietze diz que “até o monitoramento dos preços acontecerem, houve uma descrença na data”.
O assessor da FecomercioSP conta que a expectativa para este ano é positiva, com mais gente empregada, inflação controlada, melhor condição de crédito e os empregos temporários.
Uma pesquisa realizada pelo Google em parceria com a consultoria Provokers mostrou que benefícios como condições especiais e cupons de desconto ganham relevância e atraem os consumidores para esta data. “A intenção de compra aumentou 58% para este ano, a inflação caiu muito rápido, o que dá uma aparência de crescimento na renda e no poder de consumo” afirma Espírito Santo. “O brasileiro olha para o valor da parcela, sendo muito mais disposto a usar o cartão de crédito”, acrescenta.
A pesquisa do Google e da Provokers indicou a previsão de gastos de R$ 1.330 por pessoa. Além disso, constatou que as vendas do comércio eletrônico irão se igualar às do varejo (lojas físicas). O assessor da FecomercioSP, no entanto, diz que está relação é distante. “O que pode acontecer é haver o mesmo crescimento nos dois segmentos. O varejo é superior ao eletrônico. O que vem ocorrendo é a ampliação do setor virtual, enquanto o físico já possui todos os aspectos desde vestuários, farmácias, supermercados e turismo”, completa.
O nome Black Friday surgiu nos anos 1900 na Filadélfia, EUA, onde o dia seguinte à Ação de Graças era considerado a sexta-feira do caos devido aos muitos congestionamentos nas ruas. Além disso, por inaugurar as compras natalinas, as lojas abriam mais cedo para atrair cada vez mais consumidores, tornando o termo popular em 1975.
Com o aumento da venda online, vale observar algumas dicas de como fugir de fraudes. Consulte a reputação da loja, pesquise avaliações em sites como Reclame Aqui e nas redes sociais das empresas; veja a lista de sites suspeitos do Procon-SP; suspeite de descontos muito grandes; não use wifi compartilhado; deixe seu antivírus ligado; verifique se o site é seguro e, por último, cuidado com promoções via e-mail, que frequentemente são falsas.
Pesquisa Global de Entretenimento e Mídia da consultoria PwC apontou que profissionais de marketing alocarão mais de 50% de seus orçamentos à publicidade digital até 2023, o que deve ultrapassar os gastos direcionados a mídias tradicionais. Somente a indústria de marketing de influencers deve valer até 2020 entre US$ 5 e 10 bilhões, de acordo com a agência norte-americana de marketing de influenciadores Mediakix, que também contabilizou o número de usuários cadastrados na rede social nos dias de hoje – dado não divulgado pelo Facebook, atual detentor do Instagram.
Com 1 bilhão de usuários, a plataforma é hoje o canal de mídia social mais importante estrategicamente para o marketing de influenciadores – pessoas que se tornaram famosas no mundo digital e exercem uma influência igual ou maior que personalidades da televisão, rádio e cinema. Neste mundo digital, anúncios não produzem o mesmo vínculo que os digital influencers são capazes ao testar um produto em uma live ou publicar uma foto mencionando o nome de uma marca de bolsa, camisa, tênis e joias. A personalização na hora de consumir torna esse setor cada vez mais lucrativo e complexo.
Considerados um novo “produto” pelo marketing, influenciadores foram classificados em categorias para que fossem mais bem entendidos. O número de seguidores em seus perfis, algo que pode influir na hora de fechar parcerias com marcas publicitárias, foi o método utilizado para a divisão e, de acordo com uma pesquisa feita em julho deste ano pela Squid, primeira empresa de marketing de influência no Brasil, nanos e microinfluenciadores – considerados especialistas – são os que produzem o maior número de engajamento dos seus seguidores.
E, conforme o coordenador de marketing da empresa, Lucas Lanzoni, é a familiaridade que garante essa maior conexão entre os dois. “Influenciadores menores têm uma conexão mais próxima com a sua comunidade. Esse sentimento de proximidade faz com que a sua base de seguidores se engaje muito mais com os conteúdos produzidos. É a familiaridade de saber que são aqueles influenciadores que estão criando aquele conteúdo, interagindo, respondendo comentários e não um assessor ou empresário.”, afirma.
Conciliando a rotina no Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região (TRT-2°Região) com a vida de produtor de eventos LGBTQ+ em São Paulo, o advogado Eraldo Azevedo já acumula 29,6 mil seguidores no Instagram. Muitos são da época em que ele usava o perfil para divulgar o seu “lifestyle”, como define, e a produção de looks que se destacavam na moda masculina em 2013. À época, as fotos lhe garantiram convites para o São Paulo Fashion Week (SPFW) e roupas em troca de publicidade, mas a vida no universo da moda também o apresentou às festas e after-parties, que se tornaram o seu foco principal ao longo dos anos. Hoje, o perfil do influencer, advogado e produtor é um guia de eventos LGBTQ+ na capital paulista.
Porém, sem se restringir a um único publico, Eraldo desenvolveu um padrão que agrada tanto às pessoas interessadas em moda quanto às que buscam dicas de baladas em São Paulo, combinação fundamental para gerar engajamento “O meu feed é organizado verticalmente, em três colunas. A primeira é de fotos pessoais e serve para quem vem da época do SPFW. A segunda coluna é de amigos e famílias, o que mostra minha vida pessoal às pessoas. A terceira e última coluna é só para flyers de eventos e festas que eu organizo. Dessa forma, quando publico uma foto com amigos, na quinta-feira, por exemplo, já estou chamando para o evento de sábado, quando publico a foto do evento.”, comenta. “É uma forma de trabalhar com o produto, que é a festa que eu estou divulgando.”
Este tipo de relação mais próxima entre quem divulga e quem compra tornou perfis pessoais o novo depósito de dinheiro de marcas dispostas a gastar valores expressivos em marketing digital. Com uma taxa de engajamento 203% maior que perfis de marca, os digital influencers têm altas garantia de retorno de investimento, conforme pesquisa da Altimeter, em 2019.
Hoje, a rede social que surgiu como um aplicativo para publicação de fotos em 2010 dispõe de ferramentas cada vez mais específicas e propícias para o mercado de engajamento. Ao publicar uma foto, é possível marcar o perfil oficial de cada item que compõe o look mostrado na imagem. Caso seja um perfil de empresa, a opção ‘etiqueta’, além de mostrar o preço e nome da peça, também pode levar o usuário direto à página de compra.
Em nove anos de existência, o poder mercadológico e de influência do Instagram é capaz de engajar o consumidor, no caso seguidor, de forma mais rápida e eficiente que a televisão. “A velocidade com que essas plataformas ganharam relevância e poder como meios de comunicação e marketing é impressionante.”, comenta Lanzoni.
A resposta para isso é: o poder do engajamento nesta rede social, que nada mais é do que a capacidade que aquele que está indicando ou vendendo algo tem de interagir com os seus seguidores a ponto de convertê-los e influenciá-los a tornar aquilo uma compra ou compartilhamento.
A capacidade de um influenciador em engajar pode ser medida pelo número de interações no perfil, como curtidas em fotos, visualizações na ferramenta stories, quantidade de comentários e até mesmo questionamentos sobre o produto.
Para Eraldo, o sucesso desse relacionamento está baseado na verdade. "Quando você vê uma marca na televisão e vê no Instagram, no perfil de alguém que você segue, funciona muito mais porque a mensagem é mais orgânica. A mensagem é: ‘se ele está usando é porque deve ser bom’ e traz muito mais proximidade, realidade e pessoalidade.” Porém, ele questiona até quando o Instagram, que não era para ser, mas virou uma plataforma de marketing, vai resistir a esse relacionamento.
Influenciadores são vendedores que devem acreditar naquilo que vendem e, mais do que isso, vincular seu nome a marcas que lhe oferecem dinheiro em troca de publicidade. Ao mesmo tempo, são pessoas que dependem de um relacionamento verdadeiro com os seus seguidores.
Porém, a longo prazo, isso é possível?
Há novos conteúdos tomando conta dos fones de ouvido dos internautas: os podcasts estão crescendo cada vez mais e se apropriando das plataformas digitais. Os programas comuns em redes de streaming estão tendo grande aumento de público e, por consequência, de anunciantes.
O ano de 2019 vem sendo considerado o ano dos podcasts. Segundo uma pesquisa do Ibope em parceria com a CBN e a Piauí, cerca de 50 milhões de internautas já ouviram pelo menos um programa, que equivale a 40% dos usuários de internet no Brasil. Os dados pesquisados demonstram os novos rumos que as narrativas radiofônicas estão tomando. Só no Brasil, são mais de 2 mil programas ativos, de acordo com a Associação Brasileira de Podcasts (ABPod). A plataforma de streaming Spotify calculou o crescimento da audiência em 330%.
Os novos programas de rádio se popularizaram por seguir um caminho mais voltado para o storytelling – prática de criar narrativas roteirizadas que marcam o ouvinte – e o número de ouvintes aumentou de acordo com o crescimento do acesso a smartphones. O consumo de telefones celulares inteligentes, assim como a melhora das conexões de internet, permitiu que os podcasts se difundissem, tanto na produção quanto no consumo.
A partir do crescimento de ouvintes, as plataformas digitais, como Spotify e Deezer, passaram a investir na criação de um espaço para os podcasts serem postados. É assim que começa a “golden era” dos novos programas de rádio. Somam-se a ela os anúncios feitos por empresas dentro do conteúdo dos programas, que vieram com força primeiramente no Instagram e agora se difundem para os áudios.
De acordo com o diretor da ABPod, André Jonathas, o interesse de empresas se dá pelo fato de o podcast ter “algumas características importantes que o diferencia: alta atenção e alta retenção do ouvinte”, como mostrou a ‘PodPesquisa’ 2018, realizada pela associação em parceria com a rádio CBN. No mesmo estudo, 63% dos entrevistados afirmaram ter adquirido algum produto ou serviço anunciado nos programas.
Para receber investimentos, os programas de áudio precisam atender a requisitos básicos, como ter credibilidade, atingir o público-alvo do cliente e trazer resultados. Segundo Jonathas, com a popularização dos podcasts esses requisitos passam a ser frequentes, dando abertura para que os investimentos cheguem aos produtores de conteúdo.
Nos Estados Unidos, os podcasts já são um fenômeno desde 2014. Na pesquisa de 2018, feita pelo Interactive Advertising Bureau (IAB), as receitas que a publicidade gerou nos programas foram de US$ 257,4 milhões, sendo que 46% dos usuários afirmaram que compraram de dois a dez produtos anunciados. No país, os anúncios na nova plataforma já demonstraram que dão certo, mas no Brasil ainda são um campo a ser explorado.
Os anúncios publicitários estão em crescimento, segundo Jonathas, mas já existem alguns formatos consolidados, como episódios ou séries patrocinadas. Eles podem acontecer de quatro formas diferentes: como spots de áudio, publicidades rápidas de 30 segundos no começo ou final do áudio, ou de forma testemunhal, gravadas durante o programa pelo locutor. Também podem ser temáticos, quando um episódio inteiro é feito com base em uma proposta do anunciante ou um programa do cliente, que é quando a marca produz o seu próprio conteúdo.
O Café Belgrado é um dos podcasts de basquete mais importantes do Brasil. Desde que começou, em setembro de 2017, o número de ouvintes mais do que dobrou. Guilherme Tadeu, um dos apresentadores, afirma que a medição do crescimento se dá pelo engajamento das redes sociais do programa. “De um ano para o outro, não chegou a triplicar, mas mais do que dobrou, em download, produção, redes sociais e comentários.”
Com um maior engajamento, o “Belgradão”, como foi apelidado, passou a receber alguns anunciantes em seus programas, e o principal recurso publicitário vem de um site de apostas estrangeiro. Os anúncios, normalmente, estão integrados aos temas do podcast. Tadeu conta que a publicidade contribui para que a produção de conteúdo melhore, já que a criação, a edição e a divulgação são feitas completamente de forma independente. Porém, apesar de os retornos financeiros estarem chegando depois de dois anos como podcaster, ele afirma que ainda não é o suficiente para se “viver disso”.
Em relação aos custos dos anúncios, André Jonathas afirma que no Brasil ainda não é possível ter um dado concreto, mas que “há uma percepção do aumento do interesse pela mídia e, naturalmente, as marcas estão investindo mais”. O diretor da ABPod ressalta que a publicidade não é a única forma de movimentar financeiramente a mídia auditiva. O apresentador do Café Belgrado corrobora a afirmação de Jonathas, ao declarar que grande parte da receita do programa se dá pelo financiamento coletivo, que é o apoio financeiro dos ouvintes. O podcast oferece uma programação especial para aqueles que contribuem, com conteúdo fechado para o público geral.
Além do financiamento, Tadeu acrescenta que, junto com os anúncios nos podcasts, casam-se “pacotes” com o engajamento do Instagram. Ele cita o exemplo de um dos anunciantes do programa, uma empresa italiana de relógios de madeira. “Geralmente a gente coloca um pacote, um bônus. Por exemplo, o relógio dava 10% de desconto pra quem usasse o cupom, e junta o pacote das redes sociais e o tempo no podcast”, explica.
Os dados incertos e as declarações de podcasters demonstram que o campo publicitário na nova era do rádio ainda tem muito chão para percorrer. Por fim, o diretor da ABPod diz que o mercado publicitário está acompanhando o crescimento dos podcasts como uma ótima oportunidade para negócios. “Não só para anunciar, mas para fazer o próprio podcast”, comenta.
Este é o caso da Disney, uma megacorporação que sabe investir em transmídia. Em 2019, lançou o podcast D23 Inside Disney, para comentar as novidades e conteúdos criados pela empresa. Em território nacional, a Fini, empresa de balas de gelatina, está fazendo algo semelhante. Líder no segmento em que atua, a instituição anunciou a criação do Finicast, um programa original da marca, em parceria com produtores de conteúdo de programas que abordam temas do universo da cultura pop.
O movimento feminista tem sido cada vez mais abraçado pelas mulheres que almejam libertar e desconstruir o pensamento da “mulher ideal”. Um conceito que dita como as mulheres devem se portar em sociedade. Em meio à grande repercussão do movimento, o mercado viu nesse nicho de pessoas que se identificavam com o feminismo uma chance de transformar o engajamento pela causa em lucro.
Gradualmente, marcas reconhecidas pelo público começaram a investir em produtos com dizeres, imagens ou objetos com a temática feminista, de empoderamento às mulheres. Renata Vasconcelos, a ex-gerente de uma das unidades da loja Renner, se considera feminista e conta: “Quando as peças chegaram e colocamos algumas delas nas vitrines, tivemos uma surpresa, o estoque ficou praticamente zerado em poucos dias”.
Ela diz que cerca de 80% do estoque das camisetas com temática voltada para as mulheres foi vendido em menos de duas semanas. “A loja em que trabalhava tinha um fluxo grande. Lembro de informar vários clientes que essas peças já tinham acabado quando perguntavam se havia o número delas."
Vasconcelos acompanhou o estopim do movimento chegar às lojas. “Não sei dizer até que ponto as pessoas compravam sabendo que aquele símbolo representa um movimento, ou que aquela frase faz parte de algo maior. Para mim tudo parecia muito falso”, lembra.
O conceito de “mulher ideal” colocou a mulher como um segmento altamente lucrativo. O público feminino é responsável por 96% das compras domésticas, e é constantemente exposto a propagandas feitas especificamente para ganhar essa clientela. O mercado mundial de produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos voltado para as mulheres movimentou em 2017 mais de US$ 72 bilhões.
A socióloga especializada em comportamento feminino Juliana Oliveira explica: “Esse comportamento consumista a que muitas mulheres são induzidas está profundamente enraizado no jeito como o mercado publicitário as enxerga e como fazem com que acreditem que precisam de um produto para se tornarem mulheres melhores, mais eficientes e mais bonitas”.
Quanto às coleções de produtos que miram o público que se identifica com o feminismo, a socióloga afirma: “As aparências valem mais do que o movimento em si. O que será que vale mais, usar uma camiseta escrita 'Mulheres são o máximo' ou de fato agir para empoderar mulheres ao seu redor?”.
“As influencers que estão por todas as redes sociais têm uma parcela de culpa, porque vendem o conceito feminista como um rótulo positivo e que não precisa ser 'alimentado', você só precisa se autointitular feminista para ser uma feminista, nada mais”, acrescenta Juliana.
Para a socióloga a transparência das empresas é fundamental para que o público crie confiança. “Para uma empresa, levantar uma bandeira pode ser primordial em certos momentos, mas isso precisa ser feito de acordo com o que a empresa está disposta a fazer para apoiar o que está divulgando.”
A estudante Marcela Santos, 21, que compra regularmente em lojas de departamento, conta: “Eu sou feminista, sei a importância do movimento para muitas mulheres. Não acho que uma loja ao fazer coleções “empoderadoras” esteja fazendo muito pela luta social, mas sim apenas para a empresa”.
“Acho que precisamos de mais marcas que se disponham não só a lucrar com o movimento, mas que realmente apoiem a luta e estejam junto com nós mulheres nos momentos de resistência”, afirma Marcela.
Um novo modelo no ramo alimentício está caindo no gosto dos paulistanos. Apelidados de ‘dark kitchen’ ou ‘cozinhas fantasmas’, diversos restaurantes estão surgindo sem mesa, cadeiras, garçons e nem mesmo um espaço para receber clientes. Localizados em endereços desconhecidos – que podem até ser um imóvel residencial –, dependem apenas dos aplicativos de entrega para estar em funcionamento.
Com maior popularidade entre os jovens, os locais mais frequentes para esses pedidos são o trabalho e o domicílio. É o caso da jornalista Maria Teresa Gândara, 25, que utiliza os serviço de delivery principalmente por conta da rapidez e praticidade que os aplicativos oferecem. Para a jovem, tornaram-se tão comuns os pedidos via entrega que o próprio aplicativo já mantém seus restaurantes preferidos em uma aba exclusiva de fácil acesso.
Fugindo da estrutura tradicional, com música ambiente, decoração e comida servida à mesa, os novos empreendedores romperam o conceito de estabelecimentos com serviço de atendimento, recebendo pedidos apenas via aplicativos especializados.
Um exemplo é o restaurante Entrega Vegana. Para o proprietário Paulo Enomoto, 32, a intermediação feita pelos aplicativos de entrega ajudou a alavancar as vendas. “A onda do delivery acaba sendo uma nova vertente para as vendas, mas existe um público que ainda busca uma experiência gastronômica e com uma hospitalidade bem pensada e, para mim, eles não se conflitam”, afirma Enomoto.
Para quem abre uma cozinha fantasma, um dos principais atrativos é a redução de custo em relação aos estabelecimentos com atendimento local. Ao subtrair os gastos com garçons e os altíssimos aluguéis nas zonas nobres de São Paulo, nota-se uma grande diferença no fechamento das contas ao final do mês.
Outro fator vantajoso para quem opta por esse modelo de restaurante é a menor preocupação com o tipo de salão alugado e a localização. Embora aplicativos de entrega ainda utilizem a região atual do usuário para encontrar estabelecimentos próximos, agora o empresário não precisa se preocupar com a fachada e muito menos com o espaço para o cliente, podendo estar localizado até mesmo em um apartamento, desde que equipado.
De acordo com o site ‘Cidade de São Paulo’, criado pela Secretaria Municipal de Turismo, existem em São Paulo mais de 20 mil restaurantes e 30 mil bares, oferecendo as mais variadas opções para o consumidor final.
Habitada por mais de 12 milhões de pessoas de acordo com dados do IBGE de 2018, a cidade de São Paulo recebe por ano quase 15 milhões de turistas, segundo o Observatório de Turismo e Eventos da Cidade de São Paulo (OTE) de 2014. A junção de quase 30 milhões de pessoas gera uma concentração de diferentes culturas, fator que ajuda na ampliação da oferta dos cardápios dos restaurantes paulistanos.
Ao contrário dos estabelecimentos fixos que determinam o tipo de comida que será servida aos clientes, os restaurantes virtuais têm a opção de experimentar diversas combinações em uma única cozinha, formando um maior leque de opções com custo reduzido, na medida em que dispensam gastos com estrutura.
Originárias da China, essas cozinhas valeram-se dos aplicativos de entrega de comida largamente utilizados no país. Somente em 2018, de acordo com a IResearch, a indústria do delivery movimentou mais de US$ 70 bilhões na China.
De acordo com a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), no Brasil esse novo mercado de pedidos via aplicativos de entrega movimenta cerca de R$ 1 bilhão por mês.
Um dos primeiros a investir no setor foi a multinacional americana Uber, ainda em 2017. Após expandir seu mercado para além do transporte de pessoas e criar a franquia Uber Eats, a empresa esteve envolvida na abertura de mais de quatro mil restaurantes virtuais.
As plataformas de entrega de comida online foram o degrau de apoio de muitas cozinhas fantasmas. Por conta de atrativos como cupons de desconto, anúncios via redes sociais e até a propaganda dentro dos aplicativos, os restaurantes têm nesse meio uma maior difusão entre os adeptos da prática.
A adequação do modelo ao setor foi tamanha que, recentemente, em agosto deste ano, a Ifood, startup brasileira de delivery, anunciou a marca de 20 milhões de pedidos por mês. Em junho, a empresa contabilizava cerca de 17,4 milhões de pedidos mensais. Com esse feito, a companhia registrou um crescimento de 15% em apenas dois meses.

Com mais de 100 mil estabelecimentos cadastrados em sua plataforma, de acordo com a própria startup, hoje a Ifood conta com mais de 72 mil entregadores parceiros em mais de 662 cidades brasileiras.
A estudante Giulia Trevizan, 21, é a personificação desse novo perfil de consumidor. Utilizando o aplicativo mais de seis vezes por semana, geralmente pede lanches e pizzas. Para a estudante, a facilidade e a diversidade de restaurantes disponíveis no aplicativo são dois fatores significativos para a migração de tantas pessoas para a categoria.
No entanto, tanto Trevizan quanto Gândara afirmam que as entregas, embora ofereçam comodidade, não substituem a experiência de ir a um estabelecimento. Para Gândara, “comer em casa é coisa para se fazer durante a semana e quando se está cansado, não te acrescenta nada”.