Reforma tributária prevê devolução de impostos para famílias cadastradas no CadÚnico
por
João Moura
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22/05/2026 - 12h

Para os brasileiros com baixa renda, cada compra no mercado carrega um peso invisível: o imposto embutido no preço dos alimentos, do sabão, do gás de cozinha. Um fardo silencioso que consome parte significativa de uma renda já escassa. A reforma tributária trouxe uma proposta para aliviar esse peso. A devolução de impostos prevista no novo sistema reacendeu o debate sobre o papel do cashback tributário no combate à desigualdade social. A ideia é devolver parte dos tributos pagos no consumo para famílias de baixa renda cadastradas no CadÚnico.

A economista Juliana Inhaz,, em entrevista à AGEMT, vê potencial na proposta, sobretudo pela promessa de simplificar o sistema tributário brasileiro e dar mais transparência aos impostos cobrados em produtos e serviços. "A reforma traz um sistema mais simples e mais transparente. As pessoas vão saber o quanto estão pagando de imposto, e isso pode fazer com que elas passem a prestar mais atenção nesse aspecto", afirma.

Hoje, poucos percebem. A falta de clareza sobre a carga tributária faz com que a maior parte dos brasileiros não note o quanto paga de imposto a cada ida ao supermercado. "Talvez a pessoa olhe para um produto simples e perceba que há um valor elevado de imposto embutido ali. Isso pode gerar uma conscientização maior sobre tributação e cidadania fiscal", diz Juliana.

O potencial existe. Mas os limites também. A especialista ressalta que o impacto da medida dependerá diretamente da forma como a política será implementada. "Se o modelo funcionar apenas como uma devolução proporcional ao consumo, famílias de baixa renda tendem a receber muito pouco, porque consomem menos", explica. A saída, segundo ela, está no desenho do sistema. Para que o cashback seja efetivamente redistributivo, parte dos tributos arrecadados de consumidores de maior renda precisaria ser revertida para as famílias mais vulneráveis. "O impacto pode ser favorável se houver redistribuição. Caso contrário, o efeito tende a ser pequeno", afirma.

Há ainda outro obstáculo, menos visível, mas igualmente concreto: o acesso digital. Muitos brasileiros ainda enfrentam dificuldades para navegar em plataformas governamentais e acessar benefícios financeiros. "Muita gente tem dificuldade para acessar sistemas digitais, fazer login e entender os processos necessários para solicitar benefícios como, por exemplo, acesso ao Gov.Br. Isso acaba afastando parte da população", avalia.

E mesmo que o acesso seja garantido, o cashback, sozinho, não resolve o que é estrutural. "O que realmente melhora a vida das famílias é aumento de renda, produtividade, qualificação profissional e crescimento econômico. Sem isso, mesmo com benefícios, o poder de compra continua comprometido", explica Juliana. Ainda assim, ela enxerga no novo modelo uma oportunidade além da devolução financeira: a de engajar o consumidor na fiscalização tributária e ampliar a formalização da economia. "Quando o consumidor entende que pode receber algum retorno, ele tende a exigir mais transparência nas transações. Isso ajuda a reduzir a informalidade e a evasão fiscal", conclui

Parcelados para sobreviver: como o endividamento virou rotina entre as famílias brasileiras
por
Eduarda Amaral
Wildner Félix
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22/05/2026 - 12h

No Brasil, parcelar deixou de ser uma escolha pontual. Virou rotina. Da compra do mercado ao remédio na farmácia, o crédito ocupa um espaço cada vez maior no orçamento das famílias e transforma a dívida em estratégia de sobrevivência. Atualmente, 80,2% das famílias brasileiras convivem com algum tipo de débito, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), o maior índice registrado desde 2010. O cartão de crédito é a principal modalidade de dívida, seguido pelos carnês de lojas. Confira os principais dados desta reportagem no nosso carrossel do Instagram. 

Grafico sobre as principais modalidades da dívida brasileira
Principais modalidade de dívida - Arte: Eduarda Amaral/Canva

Cerca de 29% das famílias estão inadimplentes, com contas atrasadas há mais de três meses, e 12% afirmam não ter condições de pagar esses débitos. Em um cenário de juros altos, renda baixa e aumento do custo de vida, o crédito deixou de ser acesso ao consumo supérfluo e passou a sustentar despesas básicas. 

A dívida no Brasil não nasce do desejo. Ela nasce da carência. O país terminou 2024 com quase 82 milhões de pessoas que não conseguiram pagar as contas em dia, o maior patamar desde 2012, segundo dados do Banco Central. Desde o encerramento da primeira fase do programa Desenrola, em julho de 2023, foram 9 milhões de novos inadimplentes e para boa parte dessas famílias, o endividamento não foi uma escolha impulsiva, mas um mecanismo de sobrevivência. 

"A dívida das famílias brasileiras tem caráter estrutural, baseada na má distribuição de renda e no monopólio das grandes redes na distribuição de alimentos e itens essenciais", afirma Paulo Romaro, professor de finanças da PUC-SP. "O crédito fácil não é a causa: é a solução disponível para as famílias de baixa renda. Quando os itens de primeira necessidade pesam no orçamento ou quando algum membro perde sua renda, o endividamento via crédito é a saída disponível.”

Essa engrenagem foi investigada de perto pelo geógrafo Kauê Lopes dos Santos, professor da Unicamp, entrevistado no episódio "Parcelados e endividados no Brasil" do podcast Café da Manhã. Em seu livro Parcelado: dinâmicas de consumo na periferia, resultado de 150 entrevistas em bairros como Brasilândia e Jardim Helena em São Paulo, argumenta que o crédito não é apenas um facilitador do consumo. É um modo de gerir a escassez. 

Enquanto o Estado e o mercado falham em oferecer saneamento e transporte de qualidade, as grandes redes de varejo são onipresentes. A compra parcelada se torna o motor de um ciclo que nunca se encerra: a publicidade estimula o desejo, a obsolescência dos produtos reduz seu tempo de vida e a sobreposição de parcelas compromete a renda de forma contínua, mês após mês. 

O geógrafo chama esse fenômeno de endividamento crônico. "Tudo aqui foi comprado parcelado", resumiu Maria do Carmo, uma de suas entrevistadas, que se orgulhava de uma TV de 43 polegadas mesmo vivendo em uma casa com marcas de umidade e rachaduras nas paredes, um retrato fiel da modernização do consumo que coexiste, sem contradição aparente, com a precariedade estrutural.

A ausência de educação financeira agrava o cenário, mas Romaro é preciso ao delimitar seu papel: "A população não consegue avaliar a situação em que vai se meter." Ainda assim, o economista ressalta que ela seria fundamental em um contexto diferente. "Se o indivíduo soubesse avaliar as opções de onde buscar os recursos necessários e mais adequados para a sua situação, seria muito bom", pondera, sobretudo diante de juros estratosféricos, como os do rotativo do cartão de crédito, que podem ultrapassar 400% ao ano.

Somam-se ainda as bets: "os jogos de azar em profusão viciam, causando um problema endêmico de saúde pública", aponta o professor. Os efeitos se espalham pela vida cotidiana. "Como pagar a mensalidade da escola do filho? Como pagar o aluguel em atraso? O impacto na saúde mental e nas relações é natural que aconteça." 

O endividamento no país tem um recorte racial claro. Pessoas pretas e pardas concentram os maiores índices de insegurança alimentar, moradia precária e informalidade. O rendimento médio dos negros é 40% inferior ao dos não negros diferença que persiste em 32% mesmo entre quem tem ensino superior, segundo o DIEESE. Quando a crise chega para essa parcela da população, o cartão de crédito passa a ser a última linha de defesa para colocar comida na mesa.

No entanto, esse recurso voltado para a baixa renda é também o mais caro, transformando o socorro emergencial em armadilha estrutural. Em Parcelado, o autor mostra que a população pobre e negra, antes excluída do consumo, está hoje subordinada ao capital financeiro. Essa inclusão, celebrada como conquista social, revelou seu lado sombrio nas periferias: a dívida chegou antes da infraestrutura e do saneamento, capturando uma demanda reprimida por décadas.

Com milhões de brasileiros negativados, o governo federal tem apostado em programas de renegociação de dívidas para conter a inadimplência e aliviar o orçamento doméstico. Entre as principais iniciativas recentes estão o Desenrola Brasil e a sua nova versão, o Desenrola 2.0, criados para fechar acordos de pagamentos e devolver o poder de compra à população.

Lançado em maio de 2026, o Desenrola 2.0 incentiva brasileiros com renda de até cinco salários mínimos e que possuem dívidas atrasadas entre 90 dias e dois anos. A medida oferece descontos de até 90% do valor total e permite o uso de até 20% do saldo do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para quitar débitos.

No entanto, para ter direito aos benefícios do programa, o participante não pode comprometer sua renda com apostas digitais pelo período de um ano, um alerta ao comportamento recente da população que tem intensificado o cenário de endividamento no país. 

Ainda assim, Kauê Lopes é direto sobre os limites da iniciativa e afirma que essas políticas têm caráter momentâneo e não resolvem a estrutura do endividamento crônico no Brasil. “Você pode até resolver uma circunstância particular num determinado momento, mas a tendência é que isso volte mais para frente”, explica.

O endividamento, portanto, não é um dado neutro: ele tem cor, endereço e nome. E enquanto o debate político se concentra em medidas paliativas, a raiz do problema permanece intacta. Para Romaro, o combate ao endividamento exige mais do que renegociação de dívidas ou educação financeira. Enquanto parte significativa da população permanecer próxima da linha da sobrevivência, o crédito continuará funcionando como extensão da renda. A saída, segundo ele, passa por distribuição de renda, empregos de melhor qualidade e políticas de desenvolvimento econômico.

Enquanto plataformas ultra-rápidas dominam o mercado, a manufatura tradicional enfrenta o desafio de sobreviver
por
Victória Miranda
Ana Julia Mira
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22/05/2026 - 12h

A ascensão da inteligência artificial (IA) redefiniu o varejo de moda, elevando o fast fashion ao patamar de 'ultra-rápido'. Marcas como a Shein lideram essa revolução ao utilizarem sistemas proprietários que decodificam tendências de redes sociais e comportamentos de influenciadores, transformando dados em coleções físicas em apenas cinco a sete dias. Diferente do modelo tradicional — baseado em  previsões sazonais e produções em massa — o machine learning (processo de usar dados e algoritmos para ensinar computadores a identificar padrões e tomar decisões) permite a fabricação de lotes precisos (100 a 200 unidades), o que minimiza o risco de estoques parados e garante um ajuste em tempo real à demanda. Esse ecossistema, que já diminui a relevância de gigantes tradicionais como a H&M e domina o consumo da Geração Z. Projetam movimentar US$ 388,5 bilhões (aproximadamente R$1,93 trilhão) até 2034. Esse predomínio econômico consolida um abismo em relação ao slow fashion, que luta para promover o consumo consciente em um cenário onde o algoritmo prioriza a gratificação instantânea e preços agressivos.

O descarte pode gerar um aumento para o consumidor na hora do pagamento
por
Júlio Antônio Poças Pinto
Gabriel Flores
Theo Fratucci
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21/05/2026 - 12h

Segundo pesquisa da "Food Agriculture Organization of the United Nations (FAO)", Organização para a Alimentação e a Agricultura, 28% das perdas/desperdícios de alimentos orgânicos acontecem no estágio de consumo (famílias, restaurantes etc.), que é o final da cadeia, quando viram lixo. Essa problemática do descarte de alimentos por conta do descuido com a matéria prima da comida, gera bastantes transtornos tanto do ponto de vista econômico como do social. O Brasil, por exemplo, descarta mais do que o necessário para neutralizar a insegurança alimentar no país.  O diretor da Embrapa no Tocantins, especialista no assunto, Roberto Manolio Valladão Flores, em entrevista à AGEMT, esclarece nosso entendimento sobre o lixo orgânico no Brasil. Assista aqui. 

Alta do petróleo afeta marcas que buscam estratégias para evitar o repasse imediato ao consumidor
por
Laura Petroucic
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21/05/2026 - 12h

Os conflitos no Oriente Médio vêm provocando impactos em diferentes setores da economia mundial, como combustíveis, alimentos e transporte. Um dos segmentos que muitas vezes fica de fora do debate é a indústria da moda. O aumento no preço do petróleo impacta diretamente toda a cadeia de produção têxtil em um mercado marcado pela inflação e pela dependência de importações. A designer Brenda Saad Santos Guimarães, em entrevista à AGEMT, comenta sobre os esforços de marcas para reduzir os impactos da alta nos custos de produção: “Sempre é possível definir estratégias antes de mudar o valor final, como entender o que pode ter um custo menor, características do produto que podem ser mais simples para que caiba no orçamento, número de peças produzidas, onde serão distribuídas ou até mesmo reduzir a margem de lucro no produto para manter a constância de vendas”, diz Brenda.

Justamente por causa dessas estratégias que, muitas vezes, esse aumento pode passar despercebido pelo consumidor final, ao menos em um primeiro momento. No caso do algodão, os conflitos afetam o combustível utilizado em máquinas agrícolas, o transporte de mercadorias, fertilizantes e até o funcionamento da indústria responsável por transformar a fibra em tecido. Já com as fibras sintéticas, como poliéster, nylon e acrílico, o impacto é ainda mais direto: esses materiais são derivados do petróleo. Segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), há relatos de aumentos de até 40% no poliéster desde o início do conflito. Além de matéria-prima mais cara, o setor também enfrenta dificuldades logísticas. Com o Estreito de Ormuz sendo uma das áreas mais instáveis e afetadas, rotas marítimas foram alteradas por questões de segurança, resultando em custos de frete elevados. Brenda nota que o aumento foi constante nos últimos anos. “Fatores como guerras, eleições ou altas repentinas de demanda por conta de tendências influenciam na porcentagem desse aumento”, explica. Para ela, a oscilação da economia global já faz parte da rotina da moda, principalmente em um mercado dependente de importações.

O impacto é ainda maior para pequenas marcas que não podem se dar ao luxo de cortar lucros para manter vendas. A designer destaca que a cadeia têxtil brasileira perdeu força nacionalmente, abrindo mais espaço para materiais importados, o que dificulta ainda mais produtores independentes. “Por exemplo, pedidos mínimos de certos materiais que às vezes são mais do que uma marca independente pode investir. Os planejamentos das marcas precisam trabalhar com antecedência e criar acordos que garantam precauções para situações como inflação absurda ou uma nova pandemia”, afirma.

Apesar das tentativas, o consumo de roupas tende a cair em períodos de inflação, que não é considerado essencial como alimentação ou transporte. Uma alternativa nestes momentos são as fast fashions de plataformas internacionais, como a SHEIN, chinesa, que são de pior qualidade mas dificultam a competição por preço. 
“É um momento de duas balanças, dois pesos. Tem muita coisa sendo produzida, muita coisa sendo consumida, aumento do preço de venda, instabilidade do preço de produção”, resume Brenda, que acredita que estamos em um momento de grande transformação em vários pilares da moda, e que só serão compreendidos em sua totalidade quando estivermos afastados disso. 
 

Para Rafael Bianchini, o desemprego e a pobreza, que já se encontravam em situação delicada, irão aumentar com a pandemia de Covid-19
por
Lincoln Oliveira de Castro
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06/05/2020 - 12h

O ano de 2020 começou diferente de qualquer outro do século 21. Com a chegada do novo coronavírus, o mundo já começa a sentir os efeitos do que promete ser a maior recessão desde, pelo menos, a Grande Depressão da década de 1930. Para alguns países, é um processo que se inicia agora; para outros, o agravamento de uma crise anterior à pandemia, cuja solução se torna ainda mais complicada. É o caso da Argentina.

A cada ano que passa, a situação do país fica mais difícil. Suas dívidas em empréstimos e títulos passam de US$ 100 bilhões. Já a dívida pública total do país soma US$ 311 bilhões, o que equivale a 90% do Produto Interno Bruto. Após a eclosão da Covid-19, a Argentina declarou default técnico, mais conhecido como "calote", com os credores locais, adiando o pagamento da sua dívida para 2021. 

Não bastasse o alto endividamento, nos últimos 40 anos a taxa de pobreza subiu de 4% para 40%. Estimativas do Instituto Nacional de Estatísticas (Indec) indicam que, em 2019, havia 15 milhões de pessoas na pobreza no país. Para piorar, a inflação chega a 50% ao ano. Este cenário, que tende a se agravar com a pandemia, dificulta ainda mais a busca de alternativas factíveis.

Em meio ao surto de Covid-19, gastar recursos com investimentos é considerado secundário. A única saída é levar dinheiro aos mais pobres através de programas sociais. A opinião é do economista e professor da Fundação Getúlio Vargas Rafael Bianchini, que acompanha a situação da Argentina há alguns anos.  "Neste momento, o que a Argentina tem a fazer é injetar dinheiro na população e focar nos mais pobres. Tentar preservar a situação mínima de dignidade para a base da pirâmide. Então, é renda básica universal para essas pessoas."

Apesar de ver a "injeção" de dinheiro nos mais pobres como a única medida que deve ser tomada no momento, Bianchini observa que algumas pessoas irão se beneficiar sem precisar. "É bem possível que neste momento não dê para ter critérios muito seletivos, porque você não tem como levar as pessoas para se cadastrar. Não tem como realizar critérios que os governos costumam fazer para selecionar beneficiários de programas sociais: é jogar dinheiro para todo mundo e admitir que alguns vão receber sem precisar. Paciência, é a vida", diz.

Recentemente, o presidente da Argentina, Alberto Fernández, atendendo às reivindicações das centrais sindicais, contribuiu para que a taxa de desemprego e, consequentemente, os índices de pobreza não aumentassem, ao decretar, no dia primeiro de abril, a proibição de demissões nos 60 dias seguintes, apenas permitindo demissões por justa causa. Mas não há quem se engane. Esta medida é apenas uma das muitas que devem ser tomadas daqui em diante.

Ainda no período da eleição, o atual presidente havia lançado o plano "Argentina contra a fome", inspirado no programa "Fome Zero", criado por Lula em 2003 e responsável por tirar o Brasil do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU), contribuindo para que a pobreza extrema diminuísse 75% entre 2001 e 2012, tornando-se referência internacional. O plano de Fernández, que visa erradicar a fome de 15 milhões de pessoas, ainda não saiu do papel. 

 

por
Virginia Mencarini
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06/05/2020 - 12h

A pandemia de Covid-19 vem afetando diversos setores da economia em todo o mundo. Um dos que mais têm sentido seus impactos é a indústria têxtil – e, por consequência, o mundo da moda. Hoje, mais do que nunca, os dois precisam encontrar caminhos alternativos para contornar essa situação da maneira mais consciente possível.

No Brasil, a indústria têxtil representa uma grande parcela da economia, tornando-se muito vulnerável em meio à pandemia. De acordo com dados divulgados pela Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção) e atualizados em dezembro de 2019, o setor faturou US$ 48,3 bilhões em 2018. Ainda no mesmo ano, foi o segundo maior gerador do primeiro emprego no Brasil, representou quase 17% dos empregos do país e é o quarto maior produtor de denim e malhas do mundo. A moda brasileira também dita sua presença entre as cinco maiores semanas de moda do mundo, responsabilidade carregada pela São Paulo Fashion Week.

Máquina de Tecelagem
Foto: site Mercado & Consumo

A relevância do setor é inegável, mas ainda assim vem enfrentando algumas dificuldades. Desde a crise de 2014 e 2015, quando o PIB brasileiro se retraiu em mais de 7%, a indústria têxtil vem oscilando no que diz respeito a vendas e receitas. Quanto à exportação (um de seus maiores pilares), a balança comercial se encontra desfavorável atualmente. Ainda segundo a Abit, entre janeiro e setembro de 2019, o Brasil registrou US$ 4,133 bilhões em importações, contra US$ 665 milhões em exportações.

Como se já não bastasse a lenta recuperação da economia brasileira, a pandemia do coronavírus impôs a quarentena a fim de diminuir casos e contágios. Em São Paulo, o governador João Doria determinou, entre outras medidas, o fechamento do comércio de bens e serviços considerados não essenciais para evitar aglomerações, o que foi acatado pelos empreendedores, e tem mantido o isolamento social desde 24 de março. De acordo com estimativa feita pela assessoria econômica da FecomercioSP, o consumo de bens chamados duráveis (carros, eletrodomésticos, móveis etc) e semiduráveis (roupas e calçados) tende a diminuir durante esse período.

Com isso, a equipe de economia da Abit realizou uma enquete com os empresários do setor têxtil e confecção para medir as consequências do vírus e as atitudes tomadas frente ao novo problema. Com uma amostra de 183 empresas, a pesquisa, realizada em março, relatou que 97% dos empresários já sentiram o efeito em seu processo produtivo e que 93% dos entrevistados estão tomando medidas preventivas em relação aos seus colaboradores: 62% adotaram férias coletivas, 30% recorreram ao home office, mas sem o consentimento do sindicato da categoria, e 22% apelaram para as demissões.

Algo igualmente inédito no cenário da indústria têxtil brasileira, como a paralisação geral, foi a urgência decretada pelo governo federal na produção de itens da rede têxtil relacionados à área médica, como máscaras, luvas e aventais. A Abit informa que todo o parque manufatureiro do setor está integralmente mobilizado para atender às demandas mais urgentes da Covid-19. O presidente da associação, Fernando Valente Pimentel, em matéria disponibilizada no site da entidade, reforçou: “Nesse sentido, nossa indústria, buscando superar os desafios presentes, está trabalhando, nos locais onde as fábricas podem funcionar, para converter seu processo de fabricação à produção de máscaras, aventais, abrigos e outros produtos, muitos dos quais vinham sendo importados, para atender às necessidades prementes geradas pela pandemia do novo coronavírus”.

 

Produção de máscara
Produção de máscaras pelo Grupo Lunelli / Foto: site Guia JeansWear

Essas mudanças, tanto na rotina da população quanto do mercado da moda, não só afetaram o Brasil, mas o mundo todo. A temporada das semanas de moda, que começou em Nova York em fevereiro deste ano, também sofreu o grande impacto do coronavírus. Para apresentar as novas coleções de luxo outono/inverno de 2021, os estilistas tiveram que se adaptar conforme a pandemia ia se alastrando e o evento acontecia.

           O tão esperado desfile de Giorgio Armani na Itália (epicentro do vírus na Europa) aconteceu, porém em um novo formato. De portas fechadas e sem público, as modelos exibiram as novas ideias e tendências Armani nas passarelas por meio de transmissões ao vivo em todas as plataformas digitais da marca. Para a jornalista brasileira e consultora de moda Lilian Pacce, essa é a oportunidade para uma maior reflexão: “Hoje em dia, fazer transmissão ao vivo de desfile é hiperviável. Qual é a real necessidade de você estar dentro daquele recinto, correr o risco de ficar doente? [...] Vamos questionar isso”, apelou em vídeo para o seu canal no YouTube. Outro destino da temporada, Paris, também foi marcado por dificuldades, e a parada final, São Paulo, não teve outro fim senão o cancelamento absoluto. Semanas de moda em Tóquio, Seul, Xangai e Pequim também compartilharam do mesmo desfecho.

Estilista Giorgio Armani e suas modelos em desfile fechado para público
Estilista Giorgio Armani e modelos em seu desfile fechado para o público / Foto: Stefano Guindani

Analisando os resultados econômicos da conturbada temporada outono/inverno 2021, o prejuízo foi alto. O coronavírus acabou ocupando os lugares nas primeiras filas dos desfiles principalmente da imprensa e compradores chineses, sempre muito assíduos, já que não embarcaram para ver de perto o inverno europeu. Segundo um estudo da consultoria Bain & Management, 35% de todas as compras de artigos de luxo realizadas em 2019 foram feitas por chineses que viajaram ao exterior, ou aconteceram na própria China. Ou seja, o impacto econômico da Covid-19 é nitidamente observado.

Pensando em como resolver todas essas questões trazidas pelo coronavírus e como proceder a partir desse momento, aqui no Brasil, a assessoria de comunicação da Confederação Nacional da Indústria (CNI) vem reunindo iniciativas do setor industrial para combater a Covid-19. Seu intuito é contribuir com a divulgação dessas ações, a fim de mostrar como as empresas estão tentando ajudar o país em meio a essa pandemia, e como estão contribuindo na conscientização da população para acatarem as medidas de proteção. A Agência CNI de Notícias é responsável por atualizar diariamente uma página exclusiva que centraliza todas as informações, notícias e posicionamentos das indústrias a respeito da Covid-19.

Uma das heranças deixadas pelo coronavírus, quando se trata do mercado varejista, é o muito provável boom do e-commerce. As compras online aos poucos já estavam ganhando seu espaço na vida dos consumidores brasileiros e estrangeiros, mas com o isolamento social (e até depois disso), esse comportamento só tende a aumentar. Plataformas de compra como o portal Shop2gether devem conquistar novos clientes, antes apreensivos com a nova maneira de aquisição. Em matéria na Vogue Brasil, Ana Isabel Carvalho Pinto, fundadora e diretora do portal, arriscou: “Quem tinha alguma resistência, deve passar a experimentar”.

Os desfiles live e online também fazem parte do legado da Covid-19, assim como uma maior reflexão sobre sustentabilidade (pauta e demanda que já estavam muito presentes na forma de consumir dos millenials e geração Z, antes mesmo da crise do vírus). Para o jornalista e colunista Bruno Astuto, essa nova ordem traz consigo uma onda de mudanças de hábitos e valores, “Não faz mais sentido, sobretudo depois da última e tensa temporada [outono/inverno 2021], viajar oito vezes por ano para Milão, Paris e Nova York. As empresas atacadistas deverão investir em novas tecnologias de realidade aumentada para criar a sensação mais próxima de uma experiência ao vivo”, disse em sua coluna na Vogue Brasil.

Consequências positivas estão por vir. No Brasil, no que diz respeito à indústria têxtil e de confecção, uma aposta na expansão do comércio exterior (e interno também) e seu faturamento se dá com o maior uso das plataformas digitais para compras e vendas online. Outro fator, e com grande potencial para viralizar, é a inovação das grandes marcas na forma de apresentar suas coleções. Diminuir gastos e prezar pela sustentabilidade e bom senso, ao minimizar as idas e vindas em todos os cantos do mundo várias vezes ao ano usufruindo das grandes tecnologias dispostas, também estão se tornando, cada vez mais, tendências muito desejadas.

A indústria brasileira de têxtil e confecção tem muito mais a agregar ao país e ao mundo de forma positiva do que já agrega, e, sabendo estudar as novas possibilidades, as chances de gerar ainda mais empregos, um maior faturamento e se estabilizar são altas. Sobre os contratempos enfrentados pelas semanas de moda na última temporada, há um anseio de mudança nesse mercado tão tradicional e estático (apesar das grandes inovações nas passarelas e vitrines), sem jamais perder sua autenticidade. Para Lilian Pacce, “isso [crise do coronavírus] pode ser muito disruptivo. Sem dúvida, a temporada de outono/inverno 2021 vai entrar para a história”. Uma nova ordem vem por aí.

 

Foto de capa: Manequins de máscaras em uma vitrine (Suíça, 31 de março) / site swissinfo.ch / Keystone

por
Rafaela Soares
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05/05/2020 - 12h

Em meio à quarentena e à recessão  provocadas pela rápida proliferação do coronavírus, o mercado floricultor do país já deixou de faturar R$ 297,7 milhões apenas entre os dias 14 e 28 de março, quando as medidas de isolamento social começaram a ser implantadas. Segundo o  Ibraflor (Instituto Brasileiro de Floricultura), o setor movimenta R$ 8,67 bilhões em toda a cadeia e gera mais de 1 milhão de empregos, sendo 210 mil diretos e 800 mil indiretos.

Após um bem-sucedido Dia Internacional da Mulher (8 de março), as previsões para o Dia das Mães (10 de maio) eram muito boas: “A situação mudou de uma hora para outra e o setor da floricultura foi atingido de maneira drástica”, comentou Kees Schoenmaker, presidente do Ibraflor, para o jornal Holambrense.

De acordo com o instituto, os prejuízos previstos para o mês de abril devem somar mais de R$ 669,8 milhões e a perda estimada para o Dia das Mães é de R$ 396,9 milhões.

Lucimeire Barbosa, uma das donas da Floricultura Marajoara,  no cemitério de Congonhas, conta que as vendas caíram cerca de 90% desde o início da quarentena. “Como o tempo dos enterros diminuiu, nem coroa de flores a gente tá vendendo direito”, diz Lucimeire. Ela acrescenta que não conhece nenhuma outra floricultura que tenha mantido as atividades neste período.

Em relação ao Dia das Mães, Lucimeire não tem expectativas de venda. “O Dia das Mães costuma ser muito bom, tanto pra quem vem ao cemitério presentear, como pra quem compra e vai pra casa. Se a quarentena continuar, do jeito que tá acho que a gente não vende nada. Ninguém vai querer sair”, afirma.

Em uma live feita no perfil do Canal Terraviva no Instagram, o diretor de marketing do Ibraflor, Renato Opitz, comentou sobre a maior apreensão do setor em relação ao Dia das Mães. "O volume da produção no Dia das Mães é muito grande, então ele dependia de toda uma cadeia logística de distribuição funcionando perfeitamente para poder escoar. A nossa principal preocupação agora é que essa cadeia funcione, ou seja, não adianta o próprio consumidor, próximo do Dia das Mães, querer o produto e não ter", disse.

Em 2019, o Dia das Mães deu um lucro de quase R$ 10 bilhões ao comércio, sendo a segunda data comemorativa  mais lucrativa para o setor. Diante disso, neste ano,  comparando os resultados da Páscoa com os do ano passado, muitos comerciantes chegaram a propor a mudança do Dia das Mães para o segundo domingo do mês de julho. O governador de São Paulo, João Doria, sugeriu que a data fosse celebrada em agosto.

A respeito de um possível adiamento, Opitz afirmou: "Da nossa parte, do setor de flores ornamentais, a gente é totalmente contra essa mudança por vários motivos, sendo o principal o fato de as flores já estarem plantadas para essa data, então os produtores não teriam onde escoar essa produção e depois, em julho, não teria flor, ou seja, agora vai sobrar e depois vai faltar".

O Ibraflor, junto a cooperativas de Holambra (SP), conhecida como a “cidade das flores”, formou um comitê de crise para monitorar os impactos causados pelo novo coronavírus e analisar o mercado para minimizar os prejuízos em meio às medidas do isolamento social, que fizeram com que festas e eventos fossem cancelados.

Além da criação do comitê, o instituto e as cooperativas lançaram no dia 17 de março uma campanha nas redes sociais intitulada “O poder das flores e das plantas – A flor é o alimento para a alma”, que tem por objetivo incentivar o consumo ao associar flores e plantas com o bem-estar e a geração de emoções, e não só como um artefato para embelezar um cômodo.

No portal Nação Agro, uma iniciativa do Canal Rural, o produtor rural e representante da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo na Ceagesp, Valdemar Koga, deu uma entrevista exclusiva e comentou: "O mercado realmente está com 60 a 70% de perdas, se não mais".

Sobre a situação dos produtores, Koga disse: "A produção será menor, então é possível que futuramente falte mercadoria. Aqueles que não têm condições de continuar com a produção vão parar, já que não têm reserva no caixa. Os médios e os grandes até têm uma reserva, mas não por muito tempo. E outra, se os pequenos produtores pegarem uma linha de crédito, um empréstimo pessoal, os juros seriam muito grandes".

Segundo o Canal Rural, no dia 9 de abril o Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou um plano de ajuda econômica a produtores rurais afetados pelo coronavírus e pela seca. A ajuda inclui prorrogações de pagamentos de dívidas e novas linhas de crédito.

por
Adriane Garotti
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05/05/2020 - 12h

Diante de crises econômicas, como a que o Brasil está enfrentando em decorrência da pandemia do novo coronavírus, a tendência é  que a desigualdade social fique ainda mais evidente. O principal ponto afetado pela disparidade econômica acaba sendo a área da saúde, principalmente a vida das pessoas que dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS). 

Em situações emergenciais, o papel do Estado é garantir que tanto os ricos quanto os pobres consigam se prevenir da forma mais justa possível. Entretanto, acaba se tornando impossível exigir adesão à quarentena de pessoas que vivem em condições precárias de saneamento básico, não têm possibilidade de fazer home office e moram em habitações apertadas e com aglomeração. 

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), prorrogou, no dia 17 de abril, a quarentena no estado. “Aqui nós não brigamos com a ciência, nós respeitamos a ciência”, disse Doria em pronunciamento. O estado já está em isolamento social desde 22 de março. 

A diretora-executiva da Oxfam Brasil, Katia Drager Maia, reforça que nem  todos os brasileiros podem seguir as orientações de isolamento feitas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). “Milhões de pessoas não têm a opção do chamado home office, tanto no que se refere ao tipo de trabalho quanto às condições logísticas residenciais. O necessário e importante isolamento social é totalmente diferente para quem tem condições de moradia adequadas e para quem não tem”, afirma.

Katia Drager Maia, diretora-executiva da Oxfam Brasil. (Reprodução: Jornal GGN)
Katia Drager Maia, diretora-executiva da Oxfam Brasil. (Reprodução: Jornal GGN)

 

A desigualdade social acaba se tornando algo comum aos olhos dos brasileiros e até mesmo sendo banalizada. É nos momentos de crises sanitárias, como esta pandemia mundial, que os menos favorecidos sofrem mais, e o principal motivo disso é a falta de direitos básicos de higiene e saúde. 

Segundo o DataSUS, sistema de informação do Sistema Único de Saúde,  houve uma queda de 2,5% no número de leitos disponíveis no estado de São Paulo nos últimos quatro anos. Em 2015, a média era de 109,5 mil leitos. Já em 2019 esse número caiu para 106,8 mil. Esses dados se referem aos leitos básicos e às Unidades de Terapia Intensiva (UTI), nos hospitais públicos e privados do estado. 

Com o crescimento acelerado dos casos de coronavírus, os hospitais acabam não suportando a demanda de atendimentos e, consequentemente, o sistema de saúde fica sobrecarregado. Dados da Rede Nossa São Paulo (RNSP) mostram que atualmente, em São Paulo, a proporção  é de 2,5 leitos para cada mil habitantes, o que é pouco, ainda mais no enfrentamento de uma pandemia.

Uma das soluções encontradas foi a construção dos hospitais de campanha. São dois na capital paulista, que têm por finalidade atender os pacientes infectados com baixa ou média complexidade. Um deles foi montado no Estádio do Pacaembu, disponibilizando 200 leitos. O outro foi erguido no Anhembi, com 887 leitos, dos quais 64 de Unidade de Terapia Intensiva.

Os números divulgados pela Prefeitura de São Paulo mostram que, até o dia 17 de abril, o bairro com mais mortes na capital paulista era a Brasilândia. O portal de notícias G1 divulgou que o bairro tinha então 89 casos confirmados de Covid-19 e 54 mortes. Já no Morumbi, bairro considerado de classe média alta, eram 297 casos confirmados e sete mortes.

Em meio a uma pandemia, cuja prevenção depende exclusivamente do isolamento social, os trabalhadores informais sentem ainda mais de perto os efeitos da crise econômica. Nesses momentos, os empregos mais vulneráveis e que pagam menos acabam demitindo seus funcionários, o que contribui para o agravamento da desigualdade social. Trabalhadores com carteira assinada também sofrem nessa crise, porém têm uma segurança econômica maior.

Diante da pressão da sociedade civil, economistas e parlamentares, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) sancionou o projeto de lei que visa ajudar os mais vulneráveis nesse momento de crise. A concessão de uma renda básica emergencial de R$ 600 durante a pandemia é uma das ações do governo com intuito de ajudar os mais afetados. 

“É fundamental que o governo priorize o atendimento econômico e social à população que está em situação de vulnerabilidade ou que pode vir a ficar, como consequência da crise provocada pelo coronavírus. A renda básica emergencial é um programa fundamental que precisa ser implementado com maior eficiência e por um período bem maior do que os três meses iniciais previstos”, afirma Katia Drager Maia.

Os efeitos econômicos da pandemia do coronavírus ainda vão ser vistos ao longo dos próximos anos. Maia prevê um aumento significativo nos índices de desigualdade no país nos próximos relatórios da Oxfam Brasil. “O Brasil já apresentava cerca de 40 milhões de pessoas no trabalho informal e esse número deverá aumentar. Os indicadores de renda também devem apresentar uma redução na renda da população, particularmente da base da pirâmide. Já existem análises que indicam que o país pode ter mais de 2 milhões de novos desempregados.”

Um caso muito comentado nas redes sociais foi o post da blogueira fitness Gabriela Pugliesi, cujo teste de Covid-19 apontou resultado positivo no início de março. Em uma postagem na rede social Instagram, ela escreveu: “Bastaram meia dúzia de dias para que o universo estabelecesse a igualdade social, que se dizia ser impossível novamente. O medo invadiu todos. Que isto sirva para nos darmos conta da vulnerabilidade do ser humano. Não se esqueçam, bastou meia dúzia de dias”, escreveu Pugliesi. O assunto teve uma repercussão negativa e a influenciadora apagou o post. 

A visão equivocada de que um vírus possa trazer à tona uma igualdade biológica humana é muito discutida nos dias de hoje, em meio ao enfrentamento da pandemia. Viver num país em desenvolvimento como o Brasil é uma experiência diária que permite enxergar como o mundo ainda sofre com a desigualdade total e não apenas no âmbito da saúde.

Imagem da capa: Casas de Paraisópolis e prédio no Morumbi, em São Paulo. (Reprodução: BBC Brasil)

por
Maria Fernanda Schwartsman
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05/05/2020 - 12h

Segunda-feira, 16 de março de 2020. Após uma alta de 4,55%, o valor do dólar supera os R$ 5 pela primeira vez na história. Desde então,  a moeda americana passa por altos e baixos em relação ao real, mas quase sempre se mantendo acima dos R$ 5. No dia 24 de abril, após o anúncio do ex-ministro Sérgio Moro (Justiça e Segurança Pública) de que estava deixando o governo, o dólar bateu um novo recorde e fechou a R$ 5,65. A alta acumulada ano chegou aos 35%, com a moeda fechando o mês de abril em R$ 5,43, sem previsão de queda para maio.

Embora influenciada pela instabilidade política, a disparada da moeda americana tem como razão principal a crise econômica provocada pela pandemia de Covid-19. De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Produto Interno Bruto (PIB) do planeta deve ter uma contração de 3% neste ano, a maior desde a Grande Depressão da década de 1930. Para o Brasil, o FMI espera uma queda de 5,3%, um recuo sem precedentes. A recessão será acompanhada de um aumento de quase três pontos percentuais na taxa de desemprego.    

Neste cenário negativo e repleto de incertezas, a alta do dólar tem a ver com o regime de câmbio flutuante que o país adota desde 1999. Por esse sistema, o valor das moedas é determinado pela oferta e pela demanda do mercado.  Neste momento, um movimento de fuga de capitais, no qual  muitos investidores liquidaram suas aplicações em busca de opções que consideram mais seguras, está fazendo o preço do dólar subir, como explica o economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central. 

Reprodução/Twitter
Reprodução/Twitter

Ou seja, muitas pessoas acabam por trocar investimentos menos seguros em solo brasileiro (retirando dinheiro da economia local) por outros no exterior que apresentam menor risco de perda. "É muita gente vendendo em reais e comprando dólares para poder aplicar lá fora, levando a uma alta significativa", afirma Schwartsman.

A retirada de dinheiro do mercado brasileiro também tem afetado a Bolsa de Valores, que tem  sofrido constantes quedas nos últimos tempos. O Ibovespa, principal indicador da Bolsa brasileira, costuma se comportar de maneira inversamente proporcional à cotação do dólar: enquanto um sobe, a tendência do outro é descer.

Enquanto isso, mesmo sendo um dos principais afetados pela Covid-19, os Estados Unidos vivem um movimento contrário. Enquanto o Brasil vê o capital sendo tirado de sua economia, os norte-americanos veem dinheiro sendo injetado, com muitas pessoas, de todo o mundo, comprando títulos de seu governo e sua moeda local.

Um dos principais receios quando o dólar sobe são os impactos na inflação, uma vez que os valores de produtos importados e exportados costumam ser ligados à  moeda americana. De acordo com Schwartsman, no entanto, esta não é uma preocupação muito importante no contexto atual. Isso porque, segundo ele, não parece estar havendo um grande repasse no preço destes produtos, o que deve, em alguma medida, ajudar na recuperação do atual cenário de crise.

Segundo o ex-diretor do Banco Central, com a atual cotação do dólar, o Brasil consegue exportar mais facilmente tudo o que é produzido localmente, mas tem dificuldade em importar, o que caracteriza um câmbio desalinhado. Considerando que tudo que é produzido na Brasil acaba ficando mais barato, a exportação deve ser facilitada, o que, para muitos economistas, pode levar à diminuição da concorrência de outros exportadores em relação aos produtos brasileiros.

Além disso, como a importação é dificultada devido ao câmbio, o mercado interno tem que adquirir produtos nacionais. Com isso, quando o ritmo de compras no país voltar ao normal, uma preferência maior deve ser dada aos produtos locais, de acordo com Schwartsman.

Com a velocidade com que o dólar está subindo, o grande medo  é de que a moeda americana atinja níveis estratosféricos  – ainda maiores do que já atingiu  – e nem mesmo os economistas chegam a um consenso sobre o que será do futuro. Alguns acreditam que a moeda possa atingir R$ 6 e outros creem que ficará abaixo de  R$ 5. Alexandre Schwartsman é um dos que acreditam na baixa: "Minha impressão  – é difícil fazer previsões neste momento  – é que me parece um pouco esticado o valor do dólar, na casa do R$ 5,20, R$ 5,30. É mais provável que ele caia do que suba". Segundo a edição de 4 de maio do Relatório Focus do Banco Central – que considera as estimativas de mais de 100 instituições do mercado financeiro – , o ponto médio das previsões para o dólar no fim do ano está em R$ 5.  

Schwartsman avalia que os movimentos do mercado  têm sido muito mais ditados pelo pânico do que por um raciocínio mais elaborado. Ou seja, com o retorno à situação normal, o patamar buscado pelo dólar deve ser inferior ao de hoje, inclusive abaixo de R$ 5. "Eu não ficaria espantado", diz.

Por ora, não há nada no âmbito econômico que o governo brasileiro possa fazer para reverter o atual quadro de instabilidade, no entendimento de Schwartsman, uma vez que as principais forças do que está acontecendo não vêm de dentro, mas sim de um movimento mundial causado pela pandemia. 

"As ações estão muito mais do lado de medidas de saúde pública, que podem mostrar um impacto menor da epidemia no Brasil", diz. 

Na visão do economista, o que deve ser feito, mas nem tanto para tentar uma valorização do real e consequente baixa do dólar, mas sim porque é "o absolutamente correto", é mostrar que o país tem estratégias para lidar com o vírus, algo que  o governo não tem mostrado, inclusive o presidente Jair Bolsonaro. 

Para Schwartsman, o quanto antes o Brasil tiver condições de abandonar a quarentena e o isolamento social, melhor vai ser para a  economia local.