Entenda as motivações da queda e seus impactos no país
por
Isabella Damião
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23/04/2026 - 12h

Na última terça-feira (14), a cotação do dólar alcançou o menor valor desde 2024, abaixo dos R$5,00. A mudança do cenário financeiro no Brasil se deu, sobretudo, como consequência das últimas negociações entre o governo dos Estados Unidos e do Irã, em guerra desde fevereiro de 2026.

O dólar comercial, ou a taxa de câmbio, corresponde ao valor do real em relação ao dólar e reflete, principalmente, a política internacional e a inflação de cada país. Desse modo, a oscilação das tentativas de acordo entre o governo estadunidense e iraniano torna arriscado o cenário americano em diversos setores da economia, principalmente no comércio de petróleo. Os dois países disputam o controle do Estreito de Ormuz, via marítima que entrega 20% do petróleo mundial. 

O enfraquecimento do dólar se deu mundialmente, e outras moedas como o peso chileno e o peso mexicano também se valorizaram nessa relação. “Quando o mercado passa a acreditar que o Federal Reserve [Sistema de Reserva Federal dos Estados Unidos] pode reduzir ou desacelerar o aperto monetário, o dólar tende a perder força frente a outras moedas, especialmente de países emergentes", explica a professora de Economia da PUC-SP, Cristina Helena Pinto de Mello. 

Em relação ao real, a economista pontua que o que o favorece são as altas taxas de juros, que atraem investimento de capital estrangeiro. Além disso, a balança comercial brasileira apresentou, entre janeiro e abril de 2026, um superávit de US$20,92 bilhões, 44,3% a mais do que o valor do mesmo período no ano anterior. Esses fatores contribuem para um fluxo positivo de capital no Brasil e valorizam o real. 

Gráfico - média diária de saldo
Gráfico: Secretária do Comércio Exterior/MDIC

 

Quanto aos efeitos da redução do dólar comercial, Cristina Helena não vê uma mudança a longo prazo na economia brasileira: embora existam boas indicações nesse cenário, como o controle da inflação, a oscilação da taxa de câmbio pode deixar o fluxo de capitais mais suscetível à juros. “O real tem se destacado entre moedas emergentes em alguns momentos recentes, mas isso não é um movimento isolado nem garantido. Isso é conjuntural e pode se inverter”, esclareceu. 

Influenciadora brasileira detalha a criação e o sucesso de seu body splash
por
Fernanda Dias
João Luiz Freitas
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30/03/2026 - 12h

Com 442 mil seguidores no Instagram, a influenciadora digital Lis Bella Andreazzi viu que seu público consumia muitos perfumes e teve a ideia de criar um produto com a sua cara. A parceria com a Ekomist, empresa que faz aromas para grandes marcas, foi o passo seguinte para tirar o plano do papel e lançar o  "Eighteen Seasons". Em entrevista à AGEMT ela detalha a estratégia de seu body splash e explica para o leitor o poder da influência digital sobre o consumo. 

A conversa revelou como criadores de conteúdo movem o mercado e fazem produtos esgotarem em poucas horas. Também contou sobre o processo de criação para garantir que o item faça parte da rotina de quem a segue.  Lis Bella entende o impacto de suas indicações no mundo digital e percebe que seu público confia muito no que ela usa no dia a dia. A influenciadora explica que nem todo produto vende com facilidade e o que importa é o alinhamento com o perfil de quem a acompanha. "Não é todo mundo que vai comprar? É quem se sentir atraído pelo produto, se divulgo maquiagem ou perfume, a chance de venda é maior", ressalta Lis Bella, que acrescenta: "as pessoas veem que ela usa o item de verdade e não apenas para uma propaganda". 

"Você ser uma influenciadora que passa essa confiança para o público, criando uma intimidade por meio de exemplos de sua rotina de cuidados com a pele gera muito engajamento". Segundo a influenciadora essa credibilidade está altamente ligada à escolha de não divulgar golpes ou casas de apostas, pois as marcas buscam influenciadores com boa reputação para parcerias de longo prazo. O nome "Eighteen Seasons" marca uma fase de transição na vida dela, pois o lançamento teve uma ativação estratégica em sua festa de 18 anos.

Além disso, ela chamou alguns de seus seguidores para estarem presentes nesse lançamento, reforçando a ideia de que ela preza pela proximidade ao público. A embalagem tem inspiração em produtos internacionais de sucesso e a marca atrai quem gosta de perfume e quem admira o estilo de Lis Bella.

Lis Bella Andreazzi - mulher segurando seu produto
Lis Bella Andreazzi na divulgação do seu produto "Eighteen Seasons". Fonte: divulgação. 

O mercado vê o surgimento de febres passageiras em alimentos e cosméticos, vários produtos viralizam e esgotam rapidamente. Exemplos recentes incluem o "morango do amor" e o "labubu". Esses itens mostram como um vídeo ou uma tendência pode criar uma demanda imediata e massiva. A velocidade com que esses produtos aparecem e desaparecem do mercado é um desafio para as marcas e um reflexo do consumo impulsionado pelas redes sociais.

A ideia de que um produto pode viralizar hoje e ser esquecido amanhã não é apenas percepção das redes sociais, mas já vem sendo discutida também no campo do marketing. Um estudo recente da Nanyang Business School, em Singapura, define esse cenário como “economia do momento”, em que marcas e consumidores passam a girar em torno de tendências rápidas, com picos de atenção que desaparecem em pouco tempo.

Na prática, o que se observa é um padrão recorrente. Um vídeo viraliza, o produto ganha visibilidade, a procura dispara e, em poucos dias, o interesse começa a cair. O ciclo é curto e, muitas vezes, substituído rapidamente por uma nova tendência. A influenciadora reforça, em entrevista, que a relação de confiança com o público acelera esse processo. Quando a indicação vem de alguém com quem o seguidor já se identifica, a decisão de compra tende a acontecer mais rápido, sem muita comparação ou planejamento. Ao mesmo tempo, o próprio estudo aponta um limite importante: chamar atenção não significa construir uma relação duradoura. Em um ambiente onde tudo é substituído rapidamente, ser visto não garante ser lembrado.

Andreazzi destaca que, nesse contexto, o timing se torna um dos fatores mais importantes. Participar de uma tendência no momento certo pode definir o alcance de um produto. Fora desse período, o interesse tende a cair rapidamente. Por fim, o eixo do comportamento do consumidor busca entender como essas dinâmicas afetam as escolhas. A repetição desse padrão indica um consumo mais impulsivo, influenciado pela urgência e pelo desejo de participar de algo coletivo. No entanto, esse comportamento nem sempre se traduz em fidelidade. A própria lógica da “economia do momento” sugere que o consumidor está sempre em busca do próximo viral. Segundo Andreazzi, a continuidade da relação depende menos do hype e mais da experiência real com o produto após a compra.

 

Bolhas de IAs e tensões geopolíticas afetam o valor final dos produtos eletrônicos
por
João Moura
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27/03/2026 - 12h

O consumidor brasileiro que planeja atualizar seus dispositivos eletrônicos nos próximos meses encontrará um cenário difícil. Segundo projeção da Gartner, empresa de consultoria no mercado de tecnologia, o preço dos computadores deve sofrer um reajuste de 17% em curto prazo. Ainda nessa análise, o mercado de PC’s deve sofrer uma retração de 10,4% em vendas. O aumento do preço é  impulsionado por uma combinação de fatores globais e decisões de política interna. O encarecimento de memórias RAM e unidades de armazenamento SSD, se transformou no principal vilão do orçamento doméstico e empresarial, agravando uma tendência de alta que se acumula desde o final de 2024.

O motivo principal dessa inflação está no crescimento do mercado de inteligência artificial (IA). A infraestrutura necessária para sustentar os modelos de linguagem (LLMs) e processamento de dados exige uma grande quantidade de hardware. Como resultado, as big techs estão direcionando seus investimentos para a construção e manutenção de data centers, consumindo a maior parte da produção mundial de semicondutores.

O apetite das gigantes da tecnologia acaba por "canibalizar" a oferta de produtos para o consumidor comum e pequenos varejistas. Um marco dessa mudança ocorreu em novembro de 2025, quando a Micron, uma das líderes globais do setor, anunciou o fim de sua linha de memórias padrão para consumidores, reajustando todo o seu portfólio para atender exclusivamente às demandas corporativas de alta escala. Para a economista e professora da PUC-SP, Leslie Denise Beloque, o momento exige cautela extra dos investidores e consumidores. “Temos uma imensa bolha no campo das big techs. Quer dizer que a valorização das ações dela na bolsa é extremamente grande, supondo que o desempenho delas na vida real também esteja. Isso fatalmente uma hora estoura, e todo mundo que tinha ação vai ver que isso era irreal, e perde dinheiro”, afirma Leslie.

Data centers dominam o mercado de memória RAM. Foto: wirestock/Freepick
Data centers dominam o mercado de memória RAM. Foto: wirestock/Freepick

Além da pressão de demanda, a oferta global de chips enfrenta problemas logísticos e diplomáticos. A guerra tarifária entre Estados Unidos e China impôs barreiras severas ao fluxo de recursos essenciais para a fabricação de microchips, afetando empresas cruciais como a TSMC e a Nvidia. A escalada de tensões entre os dois países também envolve restrições à exportação de tecnologias sensíveis e sanções comerciais estratégicas, especialmente no setor de semicondutores avançados.

Washington (EUA) tem ampliado o controle sobre o envio de equipamentos de litografia e chips de alto desempenho para empresas chinesas, enquanto Pequim responde com políticas de incentivo à produção doméstica e possíveis limitações na exportação de minerais críticos, como terras raras. Esse embate cria um ambiente de incerteza para toda a cadeia global de suprimentos, elevando custos, atrasando entregas e reduzindo a previsibilidade do mercado. No Brasil, o cenário é agravado pela questão tributária. A resolução Gecex 852, que entrou plenamente em vigor no início de  março de 2026, estabeleceu uma taxação de 12,6% sobre placas de vídeo, memórias RAM e placas-mãe. Embora o governo justifique a medida como uma forma de proteger a indústria nacional, que registrou um aumento de 33% na importação desses itens desde 2022, o impacto imediato é o desestímulo ao consumo.

Redes sociais passam a integrar entretenimento e consumo, acelerando o avanço do social commerce no Brasil
por
Eduarda Amaral
Kaleo Ferreira
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28/03/2026 - 12h

O comércio eletrônico brasileiro vive uma nova fase impulsionada pelos marketplaces, plataformas que conectam vendedores e consumidores em um mesmo ambiente digital. Nos últimos anos, esse modelo se consolidou como um dos principais motores de e-commerce no país, concentrando grande parte das vendas online e ampliando o alcance de marcas e pequenos empreendedores. Se preferir, ouça esta matéria em áudio.

Em 2026 um novo formato ganha espaço, o social commerce, que integra redes sociais às vendas online, permitindo ao consumidor descobrir e comprar produtos sem sair da plataforma. Um exemplo desse movimento é o TikTok Shop, que transforma vídeos curtos e transmissões ao vivo em vitrines digitais. O modelo se apoia no conceito de discovery commerce, o consumo por descoberta. Diferente da lógica tradicional, em que o cliente busca o que quer comprar, aqui ele os encontra de forma espontânea enquanto consome conteúdo. Para o especialista Felipe Couto, cofundador técnico e engenheiro principal da Jodda.ia, plataforma que integra gestão de dados e performance no e-commerce, os marketplaces deixaram de ser meros intermediários para se tornarem provedores de infraestrutura. Ao oferecerem soluções de logística, publicidade e crédito, essas plataformas geraram um "efeito de rede, em que mais vendedores atraem mais consumidores, fortalecendo o ciclo", explica Couto.

Nesse cenário, o entretenimento passa a desempenhar um papel central na decisão de compra, permitindo que marcas e criadores apresentem produtos de forma mais orgânica e próxima do consumidor. Essa estratégia transforma a navegação nas redes em um ambiente de descoberta constante, no qual recomendações e o algoritmo influenciam diretamente o comportamento do consumidor. Os números confirmam o avanço do setor. De acordo com a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), o e-commerce brasileiro faturou R$ 235 bilhões em 2025, alta de 15% em relação ao ano anterior. O período encerrou com 94 milhões de compradores online e aumento de 5,8% no volume de pedidos, com projeções que indicam a manutenção desse ritmo em 2026.

Gráfico faturamento do e-commerce no Brasil de 2020 a 2025 de acordo com a ABComm
Evolução do faturamento do e-commerce no Brasil de 2020 a 2025 - Fonte: ABComm

Essa alta-performance tem nos marketplaces seu principal motor, somada ao fenômeno do live commerce. O modelo popularizado na China em plataformas como Taobao Live e Douyin (versão chinesa do TikTok), onde o setor já movimenta centenas de bilhões de dólares anualmente, ganha força no Brasil como uma das formas mais autênticas de exposição de produtos. Nas transmissões ao vivo, vendedores e criadores respondem a dúvidas em tempo real, estabelecendo uma relação de proximidade que transforma o micro-influenciador em peça estratégica desse ecossistema.

Couto cita empresas que encontraram nas plataformas um atalho para expansão. A Growth Supplements, por exemplo, que já registrava alto faturamento em seu site próprio, alcançou milhões de pedidos em apenas um mês após migrar para o Mercado Livre. Para ele, o movimento evidencia que "não é só o pequeno seller (vendedor) que depende disso, até empresas grandes usam marketplaces como canal estratégico de crescimento". Mas esse formato, no entanto, começa a ser desafiado por um novo concorrente. Com cerca de 90 milhões de usuários no Brasil, o TikTok Shop registrou um crescimento de 26 vezes na receita diária média em apenas cinco meses desde sua chegada ao país, em 2025. 

Montagem com interface do TikTok Shop e vídeos de promoção de produtos — Imagem: Eduarda Amaral/Canva
Montagem com interface do TikTok Shop e vídeos de promoção de produtos - Arte: Eduarda Amaral/Canva

Ao aproximar entretenimento, recomendação e compra em um único ambiente, o social commerce redefine a jornada do consumidor e abre novas frentes de monetização. Nesse modelo, o conteúdo se transforma em vitrine e o criador em mediador, consolidando uma etapa do varejo digital em que as fronteiras entre diversão e consumo são cada vez mais difusas. 

Essa transição para novos canais exige mais do que presença digital, exige inteligência sobre o próprio negócio. É justamente esse o desafio que Couto enfrenta no dia a dia com a Jodda.ia. Segundo ele, a maioria dos vendedores tomam decisões com base em dados históricos e intuição: sabem quanto venderam, mas não entendem por que venderam ou onde perderam margem. "Um vendedor que não tem essa base analítica estruturada vai tentar replicar o que faz no Mercado Livre e vai se frustrar, porque as métricas são diferentes", afirma. Para ele, ter clareza sobre o lucro é o que permite avaliar com segurança se um item faz sentido no TikTok Shop, onde o giro é acelerado pela viralidade.

Essa disputa, no entanto, não deve se consolidar como uma competição direta entre modelos. O cenário aponta para uma convergência entre marketplaces e social commerce, à medida que plataformas de venda incorporam elementos de conteúdo, enquanto redes sociais avançam na estrutura operacional. Para Couto, essa transformação já está em curso e reflete uma adaptação do varejo digital a um consumidor mais orientado por experiência e conveniência.

Nesse processo, o avanço do TikTok Shop como ameaça real ainda depende de fatores como logística e confiança no pós-venda, áreas em que players consolidados mantêm vantagem. “Se o TikTok Shop conseguir fechar essa lacuna, aí o jogo muda”, afirma Couto. A disputa deixa de ser apenas por preço ou variedade e passa a envolver experiência e eficiência. “O marketplace venceu pela infraestrutura; o TikTok Shop cresce pela atenção; e o próximo ciclo será vencido por quem conseguir unir atenção, operação e margem no mesmo sistema”, conclui.

O que a crise gerada por Vorcaro conta sobre o letramento financeiro dos brasileiros
por
Leticia Falaschi
Anna Cândida Xavier
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27/03/2026 - 12h

O escândalo do banco Master tomou conta do noticiário brasileiro, promessas de rendimentos milagrosos, altas taxas de juros, ativos sem retaguarda e possível envolvimento de nomes importantes da política. A investigação da Polícia Federal estima que a crise do Master gerou R$50 bilhões em prejuízos generalizados, inclusive para investidores inexperientes que apostaram tudo o que tinham em uma cilada. Este caso deixa um alerta sobre a transformação do risco em produto e a expectativa em estratégia de mercado. Desde 2017, quando o empresário Daniel Vorcaro assumiu a presidência, o Banco Master apresentou um crescimento acelerado, baseado na emissão de Certificado de Depósito Bancários (CDB) com alto juros.

O CDB é um investimento de renda fixa emitido por bancos para captar dinheiro, ao investir, o cliente empresta dinheiro ao banco e recebe os juros. O Master oferecia uma rentabilidade muito superior à média de mercado, o que gerou uma captação expressiva e promessa de grandes retornos aos investidores. As operações eram complexas, de alto risco e pouco transparentes. A crise expõe não apenas uma falha financeira, mas um fenômeno social e comunicacional mais amplo, construído ao longo da última década no Brasil: a popularização do investimento em um ambiente mediado por linguagem simplificada, entretenimento e disputas de narrativa. Plataformas digitais, assessores e influenciadores passaram a traduzir o mercado financeiro em uma linguagem acessível, vendendo a ideia de que investir era simples e seguro. “As pessoas usam aquilo que é mais simples de acessar, que é a caderneta de poupança”, explica Cristina Helena Pinto, professora doutora em economia pela Fundação Getúlio Vargas.

Segundo ela, "o retorno monetário modesto deste tipo de investimento leva alguns à se arriscarem. Pessoas que têm baixo letramento financeiro, ou têm muita vontade de realizar rápido um ganho extraordinário”, caem, alerta Cristina. Nesse movimento, encontram um ecossistema financeiro pronto para oferecer soluções mais lucrativas, como CBD´s com juros muito altos.  Nesse percurso, muitos investidores se tornam vulneráveis a conteúdos que prometem ganhos rápidos, especialmente quando há muita vontade de realizar rápido um ganho extraordinário, o que se torna corriqueiro para boa parte da população.

É nesse ponto que a dimensão comunicacional se torna central. Segundo Davidson Carvalho, que defendeu mestrado na PUC-SP analisando o mercado financeiro para pequenos empreendedores, "há uma mudança estrutural na forma como o mercado financeiro se comunica: conteúdos sobre dinheiro passaram a adotar lógica de entretenimento, com ritmo acelerado, apelo visual e fragmentação". 

"O uso de memes e recursos visuais não é necessariamente um problema, como no caso do canal Me Poupe!, mas pode servir para “quebrar o ritmo racional do negócio”. O resultado é uma comunicação que privilegia engajamento em detrimento da profundidade", explica Carvalho. 

A economista Cristina Helena reforça essa ambiguidade ao apontar que, mesmo para quem possui conhecimento, há um conflito entre percepção de risco e confiança institucional: “olhava para aquilo e falava, está acima do que o mercado está pagando, tem alguma coisa de errado aqui”, mas, ao mesmo tempo, confiava que “dificilmente esse banco ia estar numa situação de risco tão elevado sem aparecer alguma coisa”. Essa confiança no sistema, combinada com a comunicação simplificada, contribuiu para diluir a percepção de risco entre investidores menos experientes.

Outro aspecto central é a disputa de narrativas entre instituições tradicionais e novos agentes comunicacionais. Como afirma Carvalho, “o banco não está isolado, não está conversando sozinho, pois compete diretamente com influenciadores que também se propõem a falar sobre educação financeira”, adverte. No entanto, há uma diferença de linguagem: enquanto instituições oferecem conteúdos mais técnicos, influenciadores alcançam grande audiência com formatos dinâmicos. 

Essa assimetria ajuda a explicar por que narrativas simplificadas têm maior alcance, mesmo quando menos completas. Nessa disputa por atenção, as instituições acabam por perder. “Os bancos também pensam em como decifrar a economia para o consumidor.” afirma Carvalho. 

Fundo Garantidor de Créditos (FGC)

Para a professora, a existência do (FGC) levou muitos investidores a acreditarem que estavam protegidos. Apesar dele garantir retorno para investimentos de até R$ 250 mil, muitas pessoas apostaram suas poucas fichas para além desse valor, confiando na segurança do CBD do Master. “O risco faz parte da estrutura do negócio de um banco, a diferença do caso Master são as fraudes, a emissão de ativos sem colateral, sem retaguarda” afirma Cristina. 

A crise do Master revela limites estruturais que vão além da comunicação. Carvalho destaca que muitos brasileiros simplesmente não têm tempo para se aprofundar: “um cara que está 12 horas numa moto, chega em casa e vai descansar, ele não vai fazer mais nada”, o que torna o consumo de informação rápida e superficial quase inevitável. Aí, a decisão de investimento deixa de ser apenas econômica e passa a ser mediada por cansaço, falta de tempo e excesso de estímulos", explica o mestre Carvalho. 

 

por
Letícia Assis
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31/10/2019 - 12h

Um novo modelo no ramo alimentício está caindo no gosto dos paulistanos. Apelidados de ‘dark kitchen’ ou ‘cozinhas fantasmas’, diversos restaurantes estão surgindo sem mesa, cadeiras, garçons e nem mesmo um espaço para receber clientes. Localizados em endereços desconhecidos – que podem até ser um imóvel residencial –, dependem apenas dos aplicativos de entrega para estar em funcionamento.

Com maior popularidade entre os jovens, os locais mais frequentes para esses pedidos são o trabalho e o domicílio. É o caso da jornalista Maria Teresa Gândara, 25, que utiliza os serviço de delivery principalmente por conta da rapidez e praticidade que os aplicativos oferecem. Para a jovem, tornaram-se tão comuns os pedidos via entrega que o próprio aplicativo já mantém seus restaurantes preferidos em uma aba exclusiva de fácil acesso. 

Fugindo da estrutura tradicional, com música ambiente, decoração e comida servida à mesa, os novos empreendedores romperam o conceito de estabelecimentos com serviço de atendimento, recebendo pedidos apenas via aplicativos especializados. 

Um exemplo é o restaurante Entrega Vegana. Para o proprietário Paulo Enomoto, 32, a intermediação feita pelos aplicativos de entrega ajudou a alavancar as vendas. “A onda do delivery acaba sendo uma nova vertente para as vendas, mas existe um público que ainda busca uma experiência gastronômica e com uma hospitalidade bem pensada e, para mim, eles não se conflitam”, afirma Enomoto. 

Restaurante Fasano, um dos mais conhecidos e caros da cidade de São Paulo ainda segue a estrutura tradicional. Localizado no Jardins.
Restaurante Fasano, com estrutura tradicional. Localizado no Jardins. Fonte: Divulgação/Fasano.

Para quem abre uma cozinha fantasma, um dos principais atrativos é a redução de custo em relação aos estabelecimentos com atendimento local. Ao subtrair os gastos com garçons e os altíssimos aluguéis nas zonas nobres de São Paulo, nota-se uma grande diferença no fechamento das contas ao final do mês. 

Outro fator vantajoso para quem opta por esse modelo de restaurante é a menor preocupação com o tipo de salão alugado e a localização. Embora aplicativos de entrega ainda utilizem a região atual do usuário para encontrar estabelecimentos próximos, agora o empresário não precisa se preocupar com a fachada e muito menos com o espaço para o cliente, podendo estar localizado até mesmo em um apartamento, desde que equipado. 

De acordo com o site ‘Cidade de São Paulo’, criado pela Secretaria Municipal de Turismo, existem em São Paulo mais de 20 mil restaurantes e 30 mil bares, oferecendo as mais variadas opções para o consumidor final.

Habitada por mais de 12 milhões de pessoas de acordo com dados do IBGE de 2018, a cidade de São Paulo recebe por ano quase 15 milhões de turistas, segundo o Observatório de Turismo e Eventos da Cidade de São Paulo (OTE) de 2014. A junção de quase 30 milhões de pessoas gera uma concentração de diferentes culturas, fator que ajuda na ampliação da oferta dos cardápios dos restaurantes paulistanos. 

'Restaurantes'fantasmas' possibilitam maior variação de cardápio. Fonte: Divulgação/Arably.
'Restaurantes'fantasmas' possibilitam maior variação de cardápio. Fonte: Divulgação/Arably.

Ao contrário dos estabelecimentos fixos que determinam o tipo de comida que será servida aos clientes, os restaurantes virtuais têm a opção de experimentar diversas combinações em uma única cozinha, formando um maior leque de opções com custo reduzido, na medida em que dispensam gastos com estrutura.

Originárias da China, essas cozinhas valeram-se dos aplicativos de entrega de comida largamente utilizados no país. Somente em 2018, de acordo com a IResearch, a indústria do delivery movimentou mais de US$ 70 bilhões na China.

De acordo com a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), no Brasil esse novo mercado de pedidos via aplicativos de entrega movimenta cerca de R$ 1 bilhão por mês.

Um dos primeiros a investir no setor foi a multinacional americana Uber, ainda em 2017. Após expandir seu mercado para além do transporte de pessoas e criar a franquia Uber Eats, a empresa esteve envolvida na abertura de mais de quatro mil restaurantes virtuais. 

As plataformas de entrega de comida online foram o degrau de apoio de muitas cozinhas fantasmas. Por conta de atrativos como cupons de desconto, anúncios via redes sociais e até a propaganda dentro dos aplicativos, os restaurantes têm nesse meio uma maior difusão entre os adeptos da prática. 

A adequação do modelo ao setor foi tamanha que, recentemente, em agosto deste ano, a Ifood, startup brasileira de delivery, anunciou a marca de 20 milhões de pedidos por mês. Em junho, a empresa contabilizava cerca de 17,4 milhões de pedidos mensais. Com esse feito, a companhia registrou um crescimento de 15% em apenas dois meses.

Gigante Ifood conta com mais de 72 mil entregadores. Fonte: Divulgação/Ifood

Com mais de 100 mil estabelecimentos cadastrados em sua plataforma, de acordo com a própria startup, hoje a Ifood conta com mais de 72 mil entregadores parceiros em mais de 662 cidades brasileiras. 

A estudante Giulia Trevizan, 21, é a personificação desse novo perfil de consumidor. Utilizando o aplicativo mais de seis vezes por semana, geralmente pede lanches e pizzas. Para a estudante, a facilidade e a diversidade de restaurantes disponíveis no aplicativo são dois fatores significativos para a migração de tantas pessoas para a categoria. 

No entanto, tanto Trevizan quanto Gândara afirmam que as entregas, embora ofereçam comodidade, não substituem a experiência de ir a um estabelecimento. Para Gândara, “comer em casa é coisa para se fazer durante a semana e quando se está cansado, não te acrescenta nada”.

por
Carolina Faita Baptista
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31/10/2019 - 12h

Nos últimos anos tornou-se cada vez mais comum ouvir falar de intolerância ou alergia a alguns alimentos, principalmente ao glúten. E quem possui essa restrição alimentar sabe como a busca por produtos pode ser desgastante. Além da preocupação com alimentos industrializados, as opções oferecidas ainda são escassas e geralmente caras. Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), 1% da população mundial sofre com a intolerância permanente ao glúten, a chamada doença celíaca.

 Essa doença é uma reação autoimune às proteínas encontradas no trigo, cevada e centeio, ou seja, o sistema imunológico identifica o alimento, que para a maioria das outras pessoas seria inofensivo, como uma ameaça. Indivíduos diagnosticados com ela sofrem danos intestinais e, se não for identificada e gerenciada corretamente, a doença pode levar ao câncer. O único tratamento é uma alimentação sem glúten por toda a vida.

Aninha Rodrigues, nutricionista e dona do perfil @meusegredinho, criado em 2013 para contar sobre sua vida sem glúten, hoje conta com mais de 50 mil seguidores no Instagram. Descobriu ser celíaca em 2012, aos 33 anos. Ela conta sobre a dificuldade que tinha há sete anos de encontrar produtos para celíacos. Hoje já temos gôndolas especiais na maioria dos mercados, e há uma oferta bem maior de produtos, inclusive com melhor qualidade. Acredito que aconteceu por uma evolução do mercado, tanto pelo crescimento da demanda pela popularização da dieta sem glúten, da onda saudável e fitness, ascensão do lowcarb, quanto pela maior disseminação de informações sobre as desordens relacionadas ao glúten.

Manter uma dieta especial como essa não é barato. Um estudo de 2018 no Reino Unido mostrou que alguns itens sem glúten custam, em média, 159% a mais do que os convencionais. Os produtos sem glúten substitutos variam. Encontramos pães pelo dobro do preço dos tradicionais ou até mesmo por quatro vezes mais. Mas é uma produção menor, que demanda mais ingredientes, mais cuidados, laudos e certificações que têm custo elevado, além de muitas vezes os produtos mais caros serem importados e por isso têm toda a carga de impostos e tramitação incluídos no valor final, diz Aninha.

Porém, esse mercado vem crescendo cada vez pela moda dos regimes sem glúten. Dados da consultoria internacional Euromonitor mostram que este setor deve ter uma expansão de 35% a 40% nos próximos três anos. Os produtos glúten-free existem para atender ao público celíaco, mas ganharam e conquistaram consumidores que não possuem a doença, mas que buscam uma alimentação natural e mais saudável. Há o entendimento de que a ausência de glúten ou lactose torna um produto light ou fit.

A arquiteta Luciana de Oliveira tem uma filha celíaca há mais de cinco anos e aprendeu a fazer produtos sem glúten, por meio de cursos e workshops. Ela conta que, nesse período, as opções de alimentos seguros para sua filha aumentaram significativamente. Vêm crescendo cada vez mais, pela procura por uma alimentação mais ‘saudável’ e dietas isentas de glúten, açúcar e lactose, diz. Luciana acredita que essa demanda torna o mercado mais atraente aos investidores, beneficiando quem tem a restrição a esses alimentos.

Referindo-se à experiência de sua filha, Luciana também fala sobre os desafios de quem sofre esse tipo de alergia alimentar, que abrangem a mudança de hábitos, de cardápio e a aceitação pela sociedade. A maior dificuldade que vejo é quando ela sai de casa, pois há sempre a dúvida de comer na rua algo que seja em primeiro lugar seguro, pois os lugares na maioria das vezes não estão preparados para atender pessoas com restrições alimentícias. Mas, também, é a visão das pessoas sobre a situação dela que é difícil, pois acham que é frescura, e não veem que realmente é uma questão de vida ou morte.”

Investir nesse nicho é uma boa opção para os empreendedores e também facilitará a vida de celíacos em todo o país. Mesmo sendo um grupo restrito, é fundamental para essas pessoas encontrar alimentos para elas comerem bem e de forma saudável, sem a necessidade de uma mudança tão radical de uma hora para outra, realidade que os celíacos enfrentam hoje no Brasil.

por
Leonardo Pratt
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31/10/2019 - 12h

O pão é um dos alimentos mais consumidos no mundo, e no Brasil não poderia ser diferente. Ele está presente quase que diariamente nas mesas dos brasileiros, nas mais diversas formas, tamanhos e sabores – até por isso, influencia nas finanças dos consumidores. E, por ser um dos produtos mais conhecidos do mundo, acabou ganhando o seu próprio dia: 16 de outubro. A data foi escolhida pela União Internacional de Padeiros e Afins, em 2000, e é uma homenagem ao dia de fundação da FAO, Organização para Alimentação e Agricultura da ONU.

O pão no Brasil tem como principal ingrediente o trigo, mesmo podendo ser feito à base de diversos outros grãos. E, por conta justamente do preço do trigo, padarias de todo o país registram variações no preço do seu produto mais importante. "No ano passado, vendíamos o pão na faixa dos R$ 10 e hoje já estamos vendendo a R$ 12,90, devido à farinha [de trigo], que ficou mais cara", afirma Rosinha Carneiro, encarregada de pães na Padaria Maria dos Pães, em Osasco.

O Brasil importa muito este grão. Somente neste ano, até setembro, quase 5 milhões de toneladas já foram trazidas. A Argentina é, de longe, o país que mais exporta trigo para o Brasil, representando cerca de 85,5% do total, segundo a Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo). Paraguai, em segundo lugar, e Uruguai, em terceiro, também aparecem com um certo destaque nas importações deste grão.

A panificação é responsável por 55% do uso de todo o trigo no país, produzido ou importado. Não por acaso, o setor está presente em todos os municípios do Brasil. Como resultado, a produção de pães emprega, atualmente, mais de 920 mil pessoas diretamente e mais 1,6 milhão indiretamente. Os dados são da Associação Brasileira da Indústria de Panificação e Confeitaria (Abip). São mais de 70 mil padarias e confeitarias em todo o país, sendo 95% delas micro ou pequenas empresas familiares. Mas em todas elas o grande destaque é o pão francês.

"Pão francês é o carro-chefe da padaria. É o primeiro produto que vai para a mesa do cliente", afirma Almir Rogério, padeiro do Supermercado Sorocaba, em Osasco. Mas, mesmo sendo muito importante, o consumo deste produto está em queda.

A Abip mostra que o volume de pães franceses vendidos está diminuindo desde 2015. Entre 2017 e 2018, foi registrada a maior queda do período: 4,61%. Até por isso, as padarias têm sido obrigadas a oferecer mais produtos aos consumidores, como salgados, doces e, claro, outro tipos de pães.

Mesmo em queda, os pães franceses são os principais produtos entre os mais de 5,6 milhões de panificados produzidos anualmente. É o que garante José Batista de Oliveira, presidente da Abip. "Apesar do nome, o pãozinho francês é coisa muito nossa. Ele é a cara do Brasil e o principal produto das nossas padarias, representando, sozinho, 45% da venda de pães no país. E não é para menos, quem não tem uma lembrança gostosa, um momento especial ou uma memória afetiva que envolva um pão quentinho, o cheiro de café recém-passado e os amigos ou a família reunidos? É ele quem está nas mesas dos brasileiros há décadas, e cada um tem um jeito de comer pão francês”, afirma Oliveira.

Para o presidente da Abip, pão francês é coisa séria e não somente um "alimento do dia a dia". Citando a ABNT NBR 16170, norma técnica de qualidade e classificação publicada em 24 de abril de 2013, ele explica como deve ser um pão francês ideal: "Tem um tom dourado, uma textura crocante por fora, e um miolo com toque aveludado, bem macio e sem buracos. Nosso legítimo pãozinho tem apenas uma pestana, que é aquele corte na parte superior, bem fina, e uma certa elasticidade, ou seja, quando damos a famosa ‘apertadinha’ conseguimos comer, numa mesma mordida, tanto o miolo macio quanto a casca crocante".

Atualmente, o pão francês enfrenta uma concorrência maior nas padarias, com mais opções para quem quer fugir do tradicional. Mas isso não preocupa a Abip, justamente por o pão francês ainda representar a maior fatia dos produtos panificados. E uma maior busca por pães de fermentação natural ou pães artesanais é vista de com bons olhos.

"A procura por alimentos da linha fitness aumentou nos últimos anos, mas não há indícios de que isso afete diretamente a procura pelo tradicional pão francês", diz Isabela Abalen, assessora de imprensa da Abip. "Neste caso, os pães de fermentação natural entram como mais uma opção para o consumidor, e não como substituto do tipo francês. Tanto que o faturamento do pão francês no primeiro semestre de 2019 teve um aumento na sua média final de 4,24% em relação ao mesmo período no ano passado, com a média puxada para cima por aquelas empresas que mostraram bom retorno a partir dos investimentos em melhoria de processos e de qualidade do pão".

por
João Pedro Freitas
|
31/10/2019 - 12h

Por João Pedro Freitas


Um projeto de lei de autoria do deputado Pedro Paulo (DEM-RJ)
promete pôr fim à crise financeira do futebol brasileiro, incentivando
clubes a se transformarem em sociedades anônimas (S/A), com
ações negociadas na bolsa de valores. A proposta ainda precisa ser
aprovada pela Câmara dos Deputados.

Vale lembrar que atualmente nada impede um clube de futebol de
deixar o modelo de associação e virar empresa limitada ou
sociedade anônima, porém os impostos, que são parciais ou
inexistentes para associações sem fins lucrativos, passariam a ser
cobrados integralmente dos clubes que assumirem a condição de
companhias. Como forma de forçar a migração dos clubes para a estrutura
empresarial, o deputado pretende aplicar impostos sobre
associações sem fins lucrativos como se fossem empresas
limitadas ou S/A.

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Créditos: FalaGalo

As dívidas fiscais não poderiam ser incluídas em processos de
recuperação judicial. Neste caso, Pedro Paulo pretende aliviar a
situação dos clubes com um percentual superior de reduções. Enquanto o Programa de Modernização da Gestão e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro (Profut) permitiu o abatimento de até 40% dos juros sobre as dívidas, a proposta do deputado aumentaria este percentual para 50%. Em contrapartida, os clubes que aderirem a este refinanciamento por meio de suas empresas precisariam pagar cinco parcelas de forma antecipada, o
equivalente a 15% da dívida consolidada por meio do refinanciamento. O deputado propõe um alongamento de 20 anos, mesmo prazo do Profut, para que os clubes consigam quitar os impostos não pagos.

A Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados fez a análise
da contabilidade de 19 times da Série A, em 2018, e alguns casos
são mais dramáticos. Santos e Chapecoense, por exemplo, jamais
conseguiriam pagar seus passivos, enquanto o Cruzeiro levaria
mais de 200 anos. O Botafogo vem logo em seguida com 34 anos
para quitar o que deve. O estudo conclui que, apesar das dívidas, o
mercado de futebol no Brasil é bastante promissor aos investidores.
Tanto pela receita líquida dos clubes analisados quanto pela
rentabilidade positiva de metade deles.

Na Europa este modelo já é aplicado há mais tempo, e conta com
alguns resultados ótimos e outros catastróficos, tornando o tema
polêmico. Vários times são empresas e têm ações no mercado,
como Manchester United, Arsenal, Juventus, Lazio e Inter de Milão,
e todos estão bem financeiramente. Porém, existem alguns casos
que deram muito errado e resultaram até em falências, como os dos
tradicionais Parma (Itália) e Rangers (Escócia).


No Brasil, o principal exemplo de sociedade anônima até o
momento é o Figueirense e o resultado foi considerado desastroso,
deixando dirigentes de outros clubes literalmente com o pé atrás.
Em agosto de 2017, os catarinenses começaram a parceria com a
empresa Elephant, que prometia mudar o clube de patamar. No
entanto, depois de dois anos o contrato foi rompido, já que os
investidores não cumpriram o acordo. O período ficou marcado por
salários atrasados, descaso com as categorias de base e o W.O.
diante do Cuiabá, que deixou o clube na lanterna da Série B do
Brasileiro.

O advogado esportivo Aldo Kurle diz que, quando uma empresa ou
um investidor descumprir um acordo, as sanções recairão sobre os administradores. “Já existem previsões de penalidades disciplinares, mas não têm sido aplicadas com a devida seriedade”,
afirma.

Da elite nacional, apenas os dirigentes de Athletico-PR, Botafogo e
CSA enxergam o projeto com bons olhos. Mas na segunda divisão
a proposta atrai quase metade dos 20 clubes. América-MG,
Coritiba, Guarani e São Bento encomendaram estudos de
viabilidade para avaliar a migração. Botafogo-SP, Red Bull
Bragantino e Londrina, por sua vez, já se tornaram empresas.
A maioria dos clubes considerados "grandes" já se posicionou a
respeito do tema por meio de seus dirigentes e discordou do projeto
por conta da equiparação tributária entre as associações sem fins
lucrativos e empresas.

O Flamengo, um dos únicos clubes do Brasil
a fazer ajustes fiscais e com as contas em dia, discorda do projeto
em três pontos importantes: carga de impostos, a liberação de
recursos de apostas apenas para quem se tornar clube-empresa e
a criação de um fundo para ajudar quem estiver com dificuldades
financeiras. Na contramão do rubro-negro, o Botafogo, afundado em
dívidas, aderiu ao projeto e está em busca de investidores para
transformar-se em sociedade anônima a partir do ano que vem.

O economista e ex-presidente do Palmeiras Luiz Gonzaga Belluzzo
não vê problema em clubes virarem empresas, mas não concorda
com a forma como a questão vem sendo conduzida. “Não tenho
nada contra os clubes virarem empresas, acho válido terem a
liberdade, pois é opção de cada um, mas este projeto de lei está
obrigando todos a virarem empresas. É um absurdo cobrar de
associações sem fins lucrativos o mesmo que se cobra de
companhias”, diz Beluzzo, acrescentando que as instituições podem
ficar reféns de “aventureiros”.
Já Kurle tem outra visão e se mostra favorável ao projeto de lei.
“Entendo que há a necessidade de profissionalização dos clubes.
Atualmente, na figura de associações sem fins lucrativos, os
dirigentes não têm responsabilidade pelos danos causados ao clube
durante sua administração”, argumenta.

por
Raul Vitor
|
31/10/2019 - 12h

O número recorde de 9 milhões de microempreendedores individuais (MEIs) que o Brasil atingiu este ano indica uma forte atração pelo setor, mas não significa que a situação do microempreendedor tenha melhorado no país.

A opinião é do engenheiro e professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP Paulo Feldmann, ex-presidente do Conselho da Pequena Empresa da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo.

“Microempreendedor individual não é empreendedor. A palavra cria essa função, mas na realidade o MEI continua sendo um trabalhador informal”, avalia Feldmann. Para o professor, o conceito de empreendedor no Brasil está vinculado à pessoa que abre uma pequena empresa ou uma microempresa, diferente de boa parte do mundo.

“Empreendedor, em outros países, está vinculado à pessoa que traz uma inovação para o mercado, que cria um produto novo. No Brasil, o responsável pela abertura de uma franquia, por exemplo, é tido como empreendedor, mas, na verdade, é um empresário”, afirma.

Segundo Feldmann, o Brasil é um dos piores países do mundo em proteção e incentivo às pequenas empresas. “Em qualquer país do mundo a pequena empresa tem várias vantagens, como financiamentos especiais e pagamento de impostos reduzidos. O Brasil não tem a mentalidade de apoiar o pequeno empreendedor.”

O professor sustenta que a pequena empresa é uma importante fonte de empregos para o país. De acordo com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), os pequenos negócios representam cerca de 99% das empresas do país.

 O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), elaborado pelo Ministério do Trabalho e Emprego, aponta que 75% das vagas criadas em setembro deste ano foram geradas por micro e pequenas empresas. Feldmann relaciona esse aumento ao crescente número de motoristas e entregadores de aplicativo, mas alerta para as condições precárias de trabalho.

“O número de motoristas de aplicativo dobrou em dois anos. Em sua maioria, são trabalhos precários, sem direito algum. É uma ilusão o sentimento de não haver patrão, de que possuem um horário flexível. A maioria ganha mal e não possui direito nenhum”, completa.

“Em outros países há um direito ou garantia mínima para essas pessoas, mas no Brasil não tem nada”, diz. Em setembro deste ano, o Senado da Califórnia aprovou uma lei que obriga empresas de transporte privado urbano, como a Uber, a reconhecer os motoristas que utilizam a plataforma como seus empregados.

Edson Braga, 58 anos, escolheu trabalhar como motorista no Uber após tentativas frustradas de se realocar no mercado de trabalho de origem. “Troquei de profissão quando o setor imobiliário estagnou. Trabalhava como corretor de imóveis na Praia Grande, litoral paulista. Tentei me realocar na minha antiga profissão, onde supervisionava cartas de crédito, mas não obtive sucesso”, conta Edson, que está há três meses no aplicativo.