O uso exacerbado de IA em trabalhos acadêmicos apresentam riscos cognitivos se não forem usados com ética
por
Chiara Abreu
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09/06/2026 - 12h

O avanço das inteligências artificiais (IA) tem provocado transformações profundas no cenário educacional, exigindo novas posturas tanto de instituições de ensino quanto de professores. Com a praticidade das IAs na criação de textos dissertativos, alunos tem enfrentado uma maior dificuldade na geração e organização de ideias. O uso excessivo tem contribuído para a falta de prática em alunos do ensino básico e superior. Da falta de concentração à compreensão de simples textos, a dificuldade dos alunos tem assustado os educadores, que encontram alunos cada vez menos preparados para dissertar sobre assuntos socialmente relevantes. A ferramenta apresenta um déficit cognitivo em usuários compulsivos, em que áreas como memória e pensamento crítico são severamente afetados.

Um estudo do MIT Media Lab, publicado em 2025, indica que o uso de inteligências artificiais pode ser relacionado com uma possível atrofia cognitiva. De acordo com Hugo Dória, Neurocirurgião, MD, PhD da Beneficência Portuguesa de São Paulo em entrevista à CNN, "O problema não é a inteligência artificial em si, mas o fenômeno chamado de cognitive offloading, ou terceirização cognitiva. Quando passamos a delegar funções essenciais, como pensar, estruturar ideias ou resolver problemas, o cérebro reduz seu nível de ativação nessas redes", explica.

O sistema de auto supervisionamento das IAs dificulta o auxílio do corpo docente aos alunos, já que eles têm encontrado uma dificuldade cada vez maior de detectar um texto produzido por IA, especialmente em teses e monografias. Ainda que existam programas que detectam plágio, especialmente em faculdades com mais recursos, a eficácia não é total.

Segundo Maria Eugênia D’Esposito, doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC-SP, em entrevista à AGEMT, "se eu colocar uma redação hoje, ela vai corrigir de um jeito. Se eu colocar a mesma redação para corrigir amanhã, ela vai corrigir de outro jeito". Essa volatilidade da tecnologia torna difícil assegurar com certeza que um trabalho não teve intervenção de IA. Mas ainda existem alguns padrões fáceis de detectar, como a aparência de uma `colcha de retalhos´, em que as ideias do texto não conversam entre si", preocupa-se Maria Eugênia.

Letramento em IA para os professores seriam uma possível solução, mas a maioria das escolas não utilizam esse recurso. D’Esposito explica que qualquer atividade ou curso extra deve ser, por lei, remunerado. Essa obrigação dificulta para as instituições a implementação das especializações. Por outro lado, muitas instituições optam por “convites”, que desobrigam a remuneração, o que diminui o interesse e procura. 

Entre a conexão e o excesso: impacto no sono, na saúde mental e nas relações sociais
por
Guilherme Romero
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02/06/2026 - 12h

 O celular tornou-se uma ferramenta indispensável no cotidiano, mas o  seu uso excessivo tem despertado preocupação entre especialistas. A crescente dependência de dispositivos móveis, desde crianças até idosos, têm impactado hábitos de sono, concentração, relações sociais e saúde mental. Inclusive, comportamentos como ansiedade e estresse estão cada vez mais comuns no dia a dia das pessoas por serem dependentes do celular.

 Nesse contexto, vamos entender como essa dependência se desenvolve e quais são seus impactos na vida das pessoas. Assista a conversa com o psicólogo André Vasconcellos, em entrevista à AGEMT.

Grupo de estudantes publicitários da Belas Artes cria evento sobre a pobreza menstrual
por
Pedro Timm
Gabriel Giannini
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29/05/2026 - 12h

A quantidade de mulheres com falta de acesso às necessidades básicas e conhecimento sobre a menstruação é enorme no país. O Projeto Fluxos surge para ajudar nessa causa. A iniciativa surgiu dentro da faculdade Belas Artes, em São Paulo, por sete estudantes que promoveu dia 30/5, no Buffet Piatto, em Interlagos (SP) um evento com palestras e ativações proporcionadas pela Fluxos e seus parceiros para que mulheres tenham um espaço para falar sobre a saúde e o corpo. Para saber mais sobre o projeto, acesse @somosfluxos no Instagram. A AGEMT acompanhou o evento. Escute!

 

Saiba mais em @somosfluxos no Instagram.

Como grandes empresas conseguiram reverter o declínio do tabagismo trazendo de volta hábitos antigos e viciando jovens em novos produtos
por
Julia Naspolini
Leticia Falaschi
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22/05/2026 - 12h

Os resultados da pesquisa preliminar da Vigitel divulgados no início de 2026, revelam que houve um aumento no número de fumantes no Brasil, que estava estagnado desde 2019. A proporção de adultos fumantes nas capitais brasileiras saltou de 9,3% em 2023 para 11,6% em 2024, um crescimento de 25% em apenas um ano. Especialistas apontam preocupação diante dos números, principalmente entre os mais jovens, que além de fumarem cigarros tradicionais, se tornaram viciados nos formatos eletrônicos. O aumento no número de fumantes do cigarro original, pode ser explicado pela diminuição de campanhas públicas contra o tabagismo. Juntamente a isso, o preço mínimo do produto no país, imposto pelo governo, ficou paralizado, ou seja sem nenhum reajuste, entre 2016 e 2024.

Além disso, os “pods”, “vapes” e “juuls”, apesar de serem oficialmente proibidos pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), conseguiram se popularizar e se espalhar entre diferentes faixas etárias de forma bem rápida,  influenciando bastante o aumento do número de fumantes no país. Segundo dados da Pesquisa Nacional da Saúde Escolar, entre 2019 e 2024, o uso dos eletrônicos subiu de 16,8% para 29,6%, entre adolescentes de 13 a 17 anos. A indústria desses dispositivos cresceu de forma desenfreada nos últimos 10 anos, no Brasil e no mundo, principalmente no cotidiano dos jovens. Por alegarem não conter as substâncias cancerígenas e a fuligem resultantes da combustão do fumo, evitariam riscos de câncer, doenças cardiovasculares e pulmonares.  A promessa era sedutora, mas a realidade é bem diferente.

Além de atrativos que parecem querer captar a atenção de jovens, como sabores artificiais, aparência compacta e tecnológica e propagandas chamativas, os fatores que mais alertam os especialistas é a composição e proporção química desses produtos. Quando os lucros começam a cair, os fabricantes se renovam para continuar vendendo, e ainda mais. Compactar a nicotina num dispositivo que não tem cheiro de fumaça parece mais palatável e mais aceitável. Mas será que eles são tão inovadores? O que os consumidores raramente sabem é que por trás das nuvens perfumadas havia os mesmos donos de sempre. A Altria, a maior fabricante de cigarros nos Estados Unidos, detentora das marcas Marlboro e Parliament, investiu US$12,8 bilhões na compra de 35% da Juul Labs, empresa que domina um terço do florescente mercado de cigarros eletrônicos do país. 

A resposta está no lucro. “Essas indústrias do cigarro convencional começaram a perceber que estavam perdendo dinheiro e compraram as indústrias do cigarro eletrônico”, explica a Dra.pneumologista Manuela Truiti, em entrevista à AGEMT. “O problema é que muitas vezes esses interesses econômicos avançam muito mais rápido do que as evidências científicas conseguem acompanhar. Então, enquanto a ciência ainda está estudando os impactos de longo prazo do vape, a indústria investe pesado em marketing, tecnologia e estratégias para ampliar o consumo, especialmente entre os jovens… quanto mais tempo eles conseguirem manter uma pessoa viciada, dependente da sua substância, mais dinheiro eles vão ganhar", ressalta Manuela. 

A estratégia é conhecida. “Durante décadas, no século passado, o cigarro com filtro e o cigarro light também foram vendidos como opções mais saudáveis… e depois a gente viu que isso não era verdade. Hoje muitos cigarros eletrônicos são divulgados com uma imagem de modernidade, redução de danos e até bem-estar, o que acaba diminuindo a percepção de risco, principalmente entre os jovens”, diz a médica. 

Trata-se de uma troca, e não de uma cura. Os especialistas são categóricos: “... trocar o cigarro branco por cigarro eletrônico? Não é parar de fumar… a pessoa só está transicionando de uma forma de tabagismo para outra”, afirma a Dra. “A gente tem estudos que avaliaram o uso do vape como uma ferramenta para cessar o uso do cigarro branco, e o que eles viram, acompanhando esses indivíduos depois de um ano, é que a maioria ainda estava usando vape”, diz. 

O que é avaliado é que o vape tende a intensificar a dependência comportamental, não apenas a química. “A pessoa continua mantendo a dependência e muitas vezes até aumenta a dependência de nicotina, porque os vapes têm concentrações altíssimas e também são usados ao longo do dia em situações ou locais em que o cigarro branco não seria usado nem tolerado”. 

Manuela ainda alerta para o perigo das substâncias tóxicas produzidas mesmo sem a combustão, como no cigarro tradicional: “O vapor que é formado pelo aquecimento do líquido possui dezenas de substâncias tóxicas e algumas cancerígenas já identificadas, fora a quantidade gigantesca de nicotina, que muitas vezes equivale a centenas de cigarros”. Estudos do INCA (Instituto Nacional do Câncer) indicam que o uso do dispositivo oferece riscos diretos como dependência, doenças respiratórias e cardiovasculares, e câncer, com toxicidade que pode ser tão prejudicial quanto a versão tradicional. 

Medidas contra o tabagismo

A Anvisa nunca permitiu a produção ou a comercialização dos cigarros eletrônicos no Brasil. Mas, os cigarros tradicionais são legalizados e facilmente encontrados em bancas, mercados e lojas de conveniência, por baixos valores. Em uma campanha contra o tabagismo, a Agência e o Ministério da Saúde anunciaram mudanças nesse valor. Desde 1 de maio, o preço mínimo do maço do cigarro subiu de R$6,50 para R$7,50, e até agosto deste ano, ainda haverá um aumento na taxação de impostos dele, levando o comerciante a subir mais o valor final. Essa medida do Ministério da Saúde, tenta diminuir a prática do tabagismo, eles defendem a elevação do custo como a forma mais eficiente de diminuir o hábito do fumo.

O problema é que às vezes, ao invés de abaixar o consumo do cigarro, o aumento no preço só estimula mais o mercado ilegal. Levando as pessoas a comprarem produtos sem fiscalização e de origem desconhecida, ao invés de um lugar de confiança. O professor de Economia da PUC-SP e Conselheiro do Conselho Federal de Economia, Claudemir Galvani, elucida a questão, "o mercado ilegal realmente pode ser beneficiado, sim, claro. Se aumenta o preço aqui e não aumenta lá, que não tem imposto, não paga imposto. E isso o governo, como é que ele resolve isso daqui? Pela polícia federal para ter o controle das fronteiras. Mas, é um estímulo a mais você correr o risco de comprar uma mercadoria, porque o preço ficou muito mais caro aqui, mas é uma forma que o governo tem também de usar o seu poder de polícia”.

Além do aumento do mercado ilegal e dos riscos disso, o professor ainda aponta que um fumante viciado, não deixa de comprar o produto de seu vício, por uma diferença de preço. "É o chamado bem de demanda inelástica, ou seja, é tão fundamental para a vida dele como alimentação, como a água. Então, para ele, vai impactar, sim, no sentido que ele vai continuar comprando e vai parar de comprar outras coisas que ele entende que seja menos necessária do que o cigarro”.

Esse questionamento da real efetividade desta medida para fumantes é colaborado pelo médico psiquiatra, Dr. Ivan Sérgio Petroucic, que aponta que “o dependente estabelecido pode migrar para marcas mais baratas, pode sacrificar necessidades básicas, ou migrar simplesmente para o mercado clandestino de contrabando”. Mas, essa norma de aumento no preço mínimo e dos impostos ainda pode ajudar a afastar os jovens do cigarro tradicional e pode ajudar a diminuir o número de novos fumantes. O aumento de preços, normalmente via aumento de impostos, tem o objetivo de prevenir que novos fumantes iniciem o árduo. Principalmente os jovens. Qualquer produto que você aumente o preço, na prática, você está reduzindo o acesso a ele”, complementa o Dr. Petroucic. 

“É necessário politizar o debate para discutir impactos sociais, ambientais e econômicos”, afirma coordenador pedagógico de Colégio de elite em São Paulo
por
Annick Borges
Davi Madi
Rafael Pessoa
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05/05/2026 - 12h

Com o avanço exponencial da tecnologia, popularizando e facilitando o uso de Inteligências Artificiais Generativas (IAGs) entre usuários de todas as idades, iniciam-se preocupações das instituições de ensino e do próprio estado de São Paulo em relação a estes sistemas. Por outro lado, pesquisas indicam que seu uso adequado e responsável pode trazer benefícios. Em fevereiro de 2025, a Secretaria de Governo Digital, juntamente com o Serpro, publicou uma cartilha de inteligência artificial generativa, com o intuito de explicar e abordar os riscos desta nova tecnologia. O texto, produzido em colaboração com diferentes órgãos públicos, traz como um dos riscos a “Criatividade Sintética”, resposta gerada a partir de invenções da IA por falta de informações sobre o tópico. 

A avaliação dialoga com a preocupação de Paulo Edson, professor de sociologia e coordenador pedagógico da Escola Nossa Senhora das Graças, popularmente conhecida como “Gracinha”, localizada no Itaim, que alerta: “a IA ainda inventa informações, inclusive referências que não existem. Ela ainda não tem este código de ética”. 

Para Edson, estes sistemas estão para a nossa sociedade como outras ferramentas tecnológicas estão para a história da humanidade, como instrumentos de auxílio. No entanto, seu uso deve ser embasado. “Ela pode facilitar os trabalhos, mas se você não tiver repertório, você não consegue formular prompts”, aponta. Sobre seu uso na didática escolar, o professor conclui: “Ela tem potencial, mas ela tem que ser avaliada, por cientistas e comitês de ética universitários”.

De acordo com pesquisa realizada em 2023 pela Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior (ABMES), em parceria com a empresa Educa Insights, cerca de 74% das instituições de ensino consideram muito importante o investimento em ferramentas de IA para a educação. Para o coordenador, a união entre escola e IA deve vir acoplada de  investimentos em uma educação que valoriza o repertório e o pensamento crítico. “Existe o risco de perder processos importantes do pensamento, como o esforço de interpretação e criação”, afirma.

Outros desafios na introdução do uso destes sistemas também foram apresentados no estudo da ABMES, tais como a falta de participação humana nas pesquisas e a possível dependência em tecnologias que podem falhar ou se tornarem ultrapassadas rapidamente. Diante desta avaliação, a cartilha do governo problematiza esta obsolescência e afirma que o impacto são decisões baseadas em informações incorretas ou desatualizadas.

Ilustração presente na Cartilha de Inteligência Artificial Generativa, com texto sobre "Alucinação e desinformação", seguido dos tópicos "Critividade Sintética: Na Ausência de dados confiáveis, a IA pode inventar informações, referências legais inexistentes ou interpretações incorretas" e "Obsolescência: O conhecimento da IA pode estar limitado à data do seu treinamento. em alguns casos, pode ignorar fatos novos, legislações recentes ou mudanças de contexto que ocorreram após essa data", seguido da observação "Impactos: decisões baseadas em informações incorretas ou desatualizadas".
Ilustração de alerta sobre riscos do uso irresponsável de IA, presente na Cartilha de Inteligência Artificial Generativa: Reprodução - gov.br 

 

Edson também colocou como medidas educacionais no Gracinha o aumento de exercícios manuscritos, leitura e por fim ensinar os alunos a usar o prompt (caixa de pergunta ou instrução enviada para IAG). Segundo ele, muitas vezes os estudantes têm dificuldade em fazer os pedidos de forma correta  o que resultam em respostas que não solucionam as dúvidas.  Apesar dos riscos apontados, os resultados do estudo da ABMES mostram que mais da metade das instituições consultadas consideram que a IA pode apresentar benefícios na rotina dos alunos. Dentre estes, são citadas a versatilidade de aprender a qualquer hora  ou lugar; o acesso diversificado a informações e a melhor eficiência na resolução de dúvidas e problemas.

Paulo Rota, coordenador do ensino médio no Gracinha e mestre em tecnologias na inteligência e design digital, em entrevista à AGEMT, acredita que ainda não alcançamos um uso satisfatório da inteligência artificial na educação, e acha que alguns professores ainda demonstram resistência em seu uso. Essa confiança das instituições está relacionada ao avanço contínuo da inteligência artificial generativa (IAG) no apoio aos estudos. A cada ano surgem sistemas mais refinados, práticos e eficazes, que auxiliam em processos de pesquisa e aprendizagem, o que amplia sua adoção como ferramenta educacional pelas escolas. Rota diz que não consegue pensar no ser humano sem dispositivos, mas ressalta: “tem uma contradição na IA e nas redes sociais. É uma coisa privatizada, e o controle da inteligência artificial e das big techs está na mão de algumas poucas empresas”.

Para Rota, a IA pode ser vista como ferramenta de auxílio externo ao estudante, e não deve ser ignorada. O coordenador do ensino médio ainda compara a visão diante da nova tecnologia com os princípios filosóficos de Aristóteles. “Para ele, o ser humano não podia ler livros. Deveríamos construir nossa opinião somente com base em nossa razão. Alguns professores que rejeitam a IA estão sendo aristotélico”, afirma. Ele ainda segue, ao afirmar que usar estas tecnologias é nossa natureza. “Somos como a aranha, e a IA é como nossa teia. Algo criado pelo ser humano, alheio, mas que devemos usar”. 

Com base na progressão do uso das IAGs entre estudantes e, a Secretaria de Gestão da Informação, Inovação e Avaliação de Políticas Educacionais (SEGAPE) produziu o “Referencial para Desenvolvimento e Uso Responsável de Inteligência Artificial”, em fevereiro deste ano. O documento trabalha através de princípios, diretrizes e recomendações que busquem orientar instituições de ensino à como utilizar sistemas de IA na educação. Assinado pelo Ministério da Educação, o referencial reúne diversos pontos que auxiliam a compreensão sobre como se pode usar a tecnologia como ferramenta para um aprendizado com inclusão e equidade, mantendo a ética e responsabilidade.

Dentre os tópicos, são destacados: a supervisão humana no acesso às IAGs pelos alunos, que devem ser orientados e acompanhados pelos professores; o combate às desigualdades, utilizando das ferramentas como promoção de um acesso à informação justo e não discriminatório; e a transparência diante dos dados apresentados, sempre esclarecendo a origem das informações e a checagem dos fatos. A conclusão do referencial afirma que o uso de IAGs e de pesquisa são uma possibilidade de auxílio no processo de aprendizado, contanto que o rigor de ensino, de checagem e presença do professor ao longo do uso se mantenham. “Ao reafirmar a centralidade do projeto pedagógico, a indispensabilidade da supervisão humana e a salvaguarda dos direitos fundamentais, busca-se promover o uso da inteligência artificial como instrumento de qualificação dos processos educacionais”, afirma o documento.

Coletivo Da Ponte Pra Cá e centros acadêmicos divulgam repúdio a mensagens de ódio disseminadas no perfil "Spotted PUC-SP", no Instagram
por
João Curi
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11/04/2024 - 12h

Quem paga a conta? Essa parece ser a pergunta-chave que abriu portas demais no principal campus da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em Perdizes. Desde as reivindicações por direitos a uma refeição gratuita no refeitório até o desconforto de apresentar, periodicamente, um grande volume de documentação para comprovar a baixa renda, estudantes bolsistas são alvo de posicionamentos agressivos de alguns estudantes.


Nos últimos anos, centros acadêmicos têm se preocupado mais com a condição social de estudantes contemplados por bolsas, sejam de natureza filantrópica (fomentada pela FUNDASP) ou por programas governamentais. Isso se dá pelo aumento de denúncias e reclamações desse mesmo público quanto ao tratamento recebido por outros estudantes (qualificados como “pagantes”), tanto presencialmente quanto online.


Segundo relatos, houve episódios de discriminação socioeconômica, conhecida como aporofobia, que tem confrontado a permanência de estudantes bolsistas na universidade. Embora não exista um coletivo com esta finalidade, nos últimos anos, o perfil de Instagram “Spotted PUC-SP” (@spottedpucsp) veiculou publicações que trouxeram à tona uma série de movimentos considerados elitistas, como a contestação do direito ao posicionamento de estudantes "não-pagantes" sobre decisões estruturais do campus.


A página, inclusive, já foi investigada, em setembro do ano passado, pelo jornal laboratorial da PUC-SP, o Contraponto, que trouxe à tona os ideais políticos do perfil desde seu surgimento até as recentes manifestações em favor de campanhas eleitorais de centros acadêmicos. Este ano, porém, a principal campanha defendida pela conta originalmente dedicada à paquera é a implementação de catracas no campus Perdizes.


Ainda que a discussão tenha se aquecido nas redes sociais, a pauta foi reclamada para debate entre as entidades competentes à decisão: a mantenedora FUNDASP, a Reitoria, coletivos estudantis e centros acadêmicos da PUC-SP. Mesmo assim, os esforços da página em reacender essa suposta reivindicação deram abertura, na verdade, a uma enxurrada de comentários ofensivos e caluniosos direcionados aos estudantes bolsistas.


Em consequência, entidades acadêmicas, lideradas pelo coletivo Da Ponte Pra Cá - Frente Organizada de Bolsistas, organizaram-se para apresentar materiais de denúncia e repúdio aos atos discriminatórios observados dentro e fora do campus. Na última terça-feira (9), 28 entidades acadêmicas e administrativas ligadas à universidade assinaram uma publicação conjunta de um vídeo-denúncia, acompanhado de um documento completo reunindo imagens comprobatórias e exigências à mantenedora, FUNDASP, por medidas efetivas em prol dos bolsistas.


Diante disso, o Centro Acadêmico Benevides Paixão, o Benê, trouxe a pauta à tona como uma de suas prioridades de gestão. "A situação é grave e requer cuidado e vigilância. Estamos em constante contato com o nosso corpo docente, coordenação e direção para tomarmos todas as ações possíveis", declara a entidade acadêmica, em nota exclusiva à AGEMT.


O dossiê acusa, principalmente, o Spotted PUC-SP por disseminar casos de roubo e demais ocorrências ligadas à criminalidade de forma irresponsável e suposta motivação política por detrás. De acordo com o texto, “o que fica sempre evidenciado é que aqueles que são relatados como suspeitos dessas atividades são sempre pessoas negras, reforçando novamente o estereótipo racista que permeia nossa sociedade, que associa criminalidade e violência a uma raça/cor”, aponta o documento.


Não obstante, a garantia do sigilo também deu vazão a um fluxo de informações desprovidas de checagem dos fatos ou comprovação da verdade em torno dos casos relatados, “muitas vezes de caráter aporofóbico e racista, causando, sem fundamento, um pânico generalizado na comunidade estudantil”, descreve o texto. Nessa direção, a página se tornou um dos principais hospedeiros de manifestações consideradas elitistas, segundo as denúncias coletadas.

 
Quando o alarme soa, dada a notoriedade de algumas discussões acaloradas pela dualidade de posicionamentos nos comentários, é comum que as publicações sejam removidas do perfil. Ainda assim, de acordo com os apontamentos da denúncia endossada pelo coletivo Da Ponte Pra Cá nas redes sociais, o movimento de cunho discriminatório se fez presente também em outros meios, como em grupos do aplicativo de mensagens Whatsapp.

 

''Não podemos ignorar a realidade de negligência e discriminação das demandas e das necessidades das pessoas pobres em uma universidade elitizada", declara o coletivo Da Ponte Pra Cá, em nota exclusiva à AGEMT. "A denúncia produzida e a mobilização dos estudantes bolsistas torna-se urgente e extremamente necessária diante de um cenário de descaso, como o da PUC-SP".

 

Afinal, quem paga a conta? Desde a segunda-feira, 15, até o momento de publicação desta reportagem, o perfil do Spotted PUC-SP está desativado. A AGEMT tentou contato com o administrador da conta, mas não teve retorno.

 

Nota da PUC-SP

A PUC-SP, na sua prática cotidiana, não compactua com discriminação de qualquer tipo. Essa questão figura no Estatuto e no Código de Ética da Universidade, que toda comunidade deve seguir.

A Instituição entende que qualquer pessoa que for testemunha ou alvo de um ato de discriminação deve procurar as autoridades competentes.

Afirmamos que a PUC-SP não tem nenhuma responsabilidade sobre o perfil privado e anônimo do Instagram @spottedpucsp.     

Assessoria de Comunicação Institucional (ACI)

Os frequentadores tem compromisso com o evento todas as semanas, onde paqueram e dançam
por
Bianca Athaide
Helena Cardoso
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21/11/2023 - 12h

Nos últimos cinco meses, a rotina de Tomaz Nobre às terças, quintas e sábados é a mesma: organizar e supervisionar o Baile da Terceira Idade, no Parque da Água Branca, localizado no bairro da Barra Funda, em São Paulo. Como coordenador do Instituto da Melhor Idade, – entidade que organiza os bailes semanalmente, mas também desenvolve outras atividades e cursos com os idosos – ele é o principal responsável por estruturar práticas que visam o bem-estar e procuram melhorar a qualidade de vida de pessoas acima dos 50 anos.

Os bailes da melhor idade no parque são bem conhecidos pela população, que sabe que o evento acontece de forma regrada à 20 anos. Cerca de 400 a 500 pessoas frequentam durante a semana, e mais de 800 nos finais de semana — que tem música ao vivo. Os homens, só podem entrar de calça social. As mulheres, estão bem arrumadas, com um vestido ou saia.

 

 

Os dois salões do galpão ficam lotados de casais dançando, alguns já formados antes e outros que se conheceram lá, além dos dançarinos solitários. Ao redor da pista, vários idosos ficam sentados. Talvez tímidos demais ou aguardando o convite de alguém. Do lado de fora cria-se uma atmosfera que chama a atenção dos que passam: pessoas abarrotadas observam o movimento lá de dentro com os rostos grudados nas grades das janelas. A banda toca um pouco de tudo: sertanejo, forró, samba, valsa e bolero são os ritmos favoritos do público animado, com dança da bandeirinha e um trenzinho das mulheres solteiras.

Atarefado, o coordenador anda de um lado para o outro durante todo o baile, com a missão de no final da tarde, ter entregado um bom resultado, com o desejo de manter o elevado patamar que o evento pede, visando o maior aproveitamento dos idosos: "A gente tem um público bem amplo para agradar. E exigente viu?" Tomaz brinca. 

O som dos alto falantes além de ecoar por grande parte das extremidades do parque, sendo possível ouvir de longe, evidencia que animação e vontade de viver não é algo característico apenas dos jovens.  Maria Ivone, de 65 anos, fica surpresa ao olhar pelo lado de fora: "É cheio! Eu não gosto de entrar não. Fico aqui do lado de fora balançando. Mas acho tão legal! Senhorinhas bem de mais idade, dançando! Bem melhor do que ficar numa cama de hospital, não é? Eu acho.", ela valoriza a organização do evento. 

baile ag branca
Idosos se divertem e tem mais qualidade de vida quando vão aos bailes - Foto: UOL [Creative Commons]

O baile também é o responsável pela formação de alguns casais. Um deles, Borges e Ana Mary, estão juntos há um ano e seis meses, graças ao evento semanal. "De uma forma descabida né? Porque a gente nunca espera, quando entra no ambiente, você não está esperando nada. De repente você senta no local e a pessoa dançando fica de olho em você. E assim estamos juntos até hoje, dançando.", conta o aposentado de 77 anos, embaixo da sombra das árvores que recobrem todo o parque e trazem um sentimento bucólico de cidade do interior para o meio da Avenida Matarazzo. 

O local de realização dos bailes são os antigos casarões de paredes amarelas e grandes portas de madeira característicos da São Paulo dos anos 1930. Hoje em dia, balançam com toda animação e juventude de uma geração que reinventa o conceito sobre novas chances de amar na terceira idade: "Aconteceu na minha idade, agora, aconteceu que a gente se conheceu e estamos nos amando muito.", exalta Ana Mary, no auge dos seus 85 anos esboçando um olhar com brilho jovial e carismático por trás de seus óculos de grau de lentes amareladas. 

Desvendando o preconceito contra gatos pretos, abordando questões sobre adoção responsável e a necessidade de enfrentar crenças infundadas.
por
Nicole Keller Lekitsch
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16/11/2023 - 12h

Os gatos pretos, muitas vezes, são vítimas de superstições e preconceitos que remontam a tempos antigos. Associados a crenças populares e mitos, esses felinos muitas vezes enfrentam discriminação baseada em superstição e ignorância.

No Egito, esses felinos eram tratados como divindades, mas com a ascensão do cristianismo na Europa, houve uma mudança de perspectiva. Símbolos pagãos, não associados ao Deus cristão, começaram a ser vistos de forma pejorativa e desfavorável por muitas pessoas.

Ao longo dos séculos, difundiu-se a crença de que gatos pretos eram manifestações de espíritos malignos, considerados amaldiçoados. Essa associação com a bruxaria resultou na estigmatização desses animais, sendo vistos como sinônimo de má sorte.

Infelizmente, o preconceito contra esses bichinhos reflete nas taxas de adoção. Lares e abrigos de adoção de animais relatam que os gatos pretos têm mais dificuldade em encontrar lares, em comparação aos seus colegas de pelagem mais clara.

Segundo dados da ONG brasileira Catland, dedicada ao resgate e adoção de gatos, aproximadamente 60% dos 300 animais a espera de um lar possuem pelos de tonalidade mais escura.

gato preto deitado

Diversas organizações e defensores dos direitos dos animais têm incentivado o lançamento de campanhas ao combate do estigma associado a esses felinos pretos, visando educar o público sobre a origem infundada dessas superstições, a fim de promover a aceitação de todos os gatos, independentemente de sua cor.

campanha dia mundial da conscientização pelo gato preto

Dia da Conscientização pelo gato preto. —Foto: Portal de educação Ambiental.

De acordo com uma entrevista dada ao G1, o Jornalista André Luis Rosa adotou recentemente o Simba, um gatinho preto, cheio de energia.

“Quando fui escolher o Simba, tinham inclusive outros gatinhos, brancos e rajados por exemplo. Só que o primeiro que saiu da caixinha foi ele e olhou com essa carinha e me apaixonei. A cor é o de menos, o que importa é o amor que ele dá”, conta.

Para ele, gato preto não dá azar, muito pelo contrário. “A única preocupação que dá, é essa unha dele, de arranhar uma roupa minha, um terno, uma blusa, enfim. Mas azar ele não dá não”, reforça o jornalista.

Jornalista André Luis com o seu gato preto

Amigo Pet: entenda a origem do preconceito contra gatos pretos e importância da adoção desses felinos. — Foto: Reprodução/TV Vanguarda

O estigma em relação aos gatos pretos persiste, fundamentado em tradições e mitos que atravessam o tempo. No entanto, podemos desafiar essas percepções arraigadas ao cultivar a compreensão e incentivar a adoção responsável. Reconhecer a singularidade de cada gato, independentemente da cor de sua pelagem, possibilita a construção de uma sociedade mais empática e justa para esses seres incríveis. A responsabilidade recai sobre cada um de nós para questionar e confrontar esses preconceitos, abrindo nossos corações e lares aos gatos pretos, contribuindo assim para quebrar o ciclo de discriminação.

ONG Alerta para rituais envolvendo gatos pretos em sextas feiras 13. — Vídeo: Youtube Diário do Litoral.

Como a exposição excessiva à telas tem afetado afeta o comportamento e a personalidade de crianças
por
FABIANA CAMINHA
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06/11/2023 - 12h

A presença constante das telas na vida da sociedade não gera nenhum espanto. No entanto, o uso excessivo de tablets, smartphones e computadores por crianças tem despertado a preocupação de médicos e especialistas. Essa tendência levanta questões sobre os riscos e desafios associados ao acesso irrestrito às telas, e revela o impacto do algoritmo no desenvolvimento dos jovens. A tecnologia trouxe facilidades que mudaram permanentemente o modo das pessoas agirem. Hoje, é impensável esperar até que uma música que você goste toque na rádio ou perder seu programa de TV favorito porque chegou em casa mais tarde do que o esperado. Tudo está disponível o tempo todo na palma das mãos, e isso nem sempre é bom. 

A tentativa e o erro, a descoberta e a exploração são fundamentais para a formação da personalidade do indivíduo. Mas a crescente personalização do conteúdo a partir da coleta de dados dos usuários mudou essa realidade, transformando inclusive o modus operandi de grandes empresas. Na primeira década do século 21, era comum que plataformas midiáticas como Instagram e Youtube tivessem um time de curadores. Essas pessoas buscavam por conteúdos originais e criativos para serem exibidos na plataforma como “Recomendados”. Mas, a curadoria dessas empresas hoje se dá de outro jeito. Ao invés de profissionais, são os algoritmos que escolhem qual conteúdo deverá ser beneficiado. O número de cliques e visualizações são os critérios usados. Hoje a quantidade se sobrepõe à qualidade. As recomendações algorítmicas das redes sociais agora desempenham o papel de explorar interesses e encontrar comunidades. Isso significa que as crianças de hoje talvez não estejam desenvolvendo a curiosidade e o pensamento crítico necessários para se tornarem adultos bem informados.

De acordo com a Dra. Deisy Mendes Porto, médica psiquiatra especialista em Infância e Adolescência, é fundamental estabelecer limites claros no que diz respeito ao uso de telas na primeira infância. Ela enfatiza que, especialmente durante os dois primeiros anos de vida, a exposição a telas deve ser evitada, pois o desenvolvimento nesse período é sensório-motor e depende da exploração sensorial do ambiente. Isso ajuda a melhorar as habilidades motoras e contribui para um desenvolvimento cognitivo e emocional saudável. “A partir dos dois anos de idade e ao longo da primeira infância, as crianças precisam de interação humana, exploração ativa, brincadeiras e afeto. O excesso de tempo gasto em frente às telas pode privá-las desse contato essencial, o que pode prejudicar seu desenvolvimento”, explica Deisy. 

À medida que o tempo livre e a imaginação das crianças se fundem cada vez mais com as redes sociais que consomem, é  fundamental entender que o acesso não regulamentado à Internet tem um custo. Por que os jovens se esforçariam para encontrar uma música de que gostem quando um algoritmo faz isso por eles? Por que correr o risco de explorar algo novo quando seus celulares enviam conteúdo interminável relacionado às coisas que já lhes interessam? Esse é um dos temas abordados em Infocracia: Digitalização e a crise da democracia, livro escrito pelo filósofo sul coreano Byung-Chul Han. Segundo o autor, hoje o signo dos detentores do poder não está ligado à posse dos meios de produção, mas ao acesso à informação, que é utilizada para a vigilância psicopolítica e a previsão do comportamento individual. Afinal, é o domínio da informação que realmente dita as regras do jogo hoje em dia, comandado pelas bigtechs (Google, Microsoft, Meta, Apple, Amazon).  Segundo Han, "é um novo tipo de totalitarismo. O vetor não é mais a ideologia, mas sim a operação algorítmica que a sustenta". 

 

Como notícias falsas são utilizadas na disputa de narrativas acerca da batalha entre Hamas e Israel
por
Marina Jonas
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06/11/2023 - 12h

Nunca foi tão simples ter acesso à informação quanto se tem hoje. Com as tecnologias em mãos e uma sociedade hiperconectada, as notícias se espalham com uma rapidez jamais vista antes. Nunca foi tão fácil estar bem informado; mas, também, nunca foi tão fácil ter acesso à desinformação. No momento atual, o mundo se encontra repleto de conflitos: entre eles, a guerra entre Hamas e Israel, a qual teve início no dia 7 de outubro, quando membros do grupo terrorista atacaram o território israelense, realizando a ação mais violenta já cometida em 50 anos no local. Milhares de mísseis foram disparados em direção a Israel e, em seguida, os extremistas invadiram o país por terra, água e ar através do sul - parte que faz fronteira com a Faixa de Gaza, região palestina controlada pela organização desde 2007. A operação deixou mais de 1.400 mortos, incluindo mulheres e crianças, além de terem sido sequestrados centenas de civis, levados então para Gaza como reféns, onde ainda estão detidos 240. O ataque sem precedentes originou uma série de bombardeios como resposta dos israelenses, dando origem à nova batalha no Oriente Médio e, junto a ela, uma outra disputa se trava: a informacional. 

São incontáveis as informações que circulam acerca da temática e que se espalham de forma incontrolável nas redes sociais, sendo muitas delas falsas ou mesmo descontextualizadas. Desde o começo do conflito, no entanto, as duas maiores agências independentes de checagem do país, Lupa e Aos Fatos, vêm conferindo a procedência das notícias que ganham destaque na internet. Confira a seguir exemplo de checagem já feita: “É falso que homem em foto com Lula é o chefe do Hamas”

Segundo apuração realizada pela equipe de verificação da Agência Lupa no dia 10 de outubro, “Publicação que circula nas redes sociais mostra uma fotografia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cumprimentando um homem que, segundo a legenda, seria o chefe do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas). É falso.” O que comprova a falta de veracidade da publicação é o fato do homem ao lado de Lula ser o presidente do Irã, Ebrahim Raisi, e não o chefe do Hamas, Ismail Haniyeh. Além disso, a foto foi tirada no dia 24 de agosto de 2023, em reunião bilateral entre os dois chefes de Estado na cidade de Joanesburgo, na África do Sul, logo após ter sido anunciada a entrada do Irã no Brics. Sendo assim, a imagem também foi utilizada fora de seu contexto original. 

Mas afinal, por que a desinformação vem proliferando de maneira tão veloz e eficaz diante do cenário atual? Em entrevista ao podcast O Assunto, do Portal G1, professor da Universidade da Virgínia (EUA), David Nemer explica que a guerra é um acontecimento emocional e a desinformação próspera com base na emoção, principalmente quando ela é negativa, como a raiva e o medo. Portanto, ele completa: “a desinformação geralmente vem carregada dessas emoções negativas, pois as pessoas tendem a engajar com esse tipo de conteúdo, ou seja, tendem a acreditar e a compartilhar mais facilmente. Isso é da natureza humana; sabendo disso, os algoritmos das redes sociais são desenvolvidos justamente para priorizar conteúdos sensacionalistas e que promovam essa comoção negativa, já que as pessoas teriam uma probabilidade maior de curtir, comentar e compartilhar tal conteúdo.” 

Dessa forma, as plataformas pouco se interessam se o que é publicado e repercutido dentro de suas fronteiras é verdade ou não. E, com a avalanche de informações que recebem diariamente, as pessoas não têm tempo para fazer esse discernimento, tornando-se muito mais propensas a acreditar em notícias falsas. Assim, quando assuntos difíceis e delicados, que envolvem diversos lados, chegam às mídias sociais, notícias tão difíceis e delicadas quanto passam a ser compartilhadas em níveis abundantes, gerando tanta comoção que, na maior parte das vezes, se esquece de conferir de onde vieram e por quais motivos foram publicadas da forma que foi feita; gerando, por fim, ondas de desinformação.