Uma análise sobre a passagem do físico e teórico alemão pelo Brasil e o apagamento das mulheres na ciência
por
Natália Matvyenko Maciel Almeida
Joana Grigório
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16/11/2025 - 12h

Em 1925, Albert Einstein desembarcou na américa do sul, na cidade do Rio de Janeiro, para uma sequência de palestras e nesse vídeo exploramos uma parte dos relatos escritos em seu diário e a falta de registros de pessoas racializadas e também de mulheres nas conferências.

Referências utilizadas para esse vídeo: 

1. Tolmasquim, Alfredo Tiomno. Einstein, o Viajante da Relatividade na América do Sul (2003)
Este livro oferece um olhar detalhado sobre a visita de Albert Einstein à América do Sul, incluindo sua passagem pelo Brasil. O autor explora a recepção do cientista e seu impacto no cenário científico da época.

2. Haag, Carlos. "Tropical Relativity" (2004)
Artigo publicado na revista Pesquisa FAPESP, que aborda os diários de viagem de Einstein na América do Sul, com destaque para suas observações sobre o Brasil e suas interações com a ciência local.

3. Moreira, Ildeu de Castro. Entrevista: Visita de Einstein ao Rio de Janeiro promoveu valorização da ciência pura (2025)
Entrevista com Ildeu de Castro Moreira, que discute o impacto da visita de Einstein ao Rio de Janeiro, enfatizando a valorização da ciência fundamental e os desdobramentos para a pesquisa no Brasil.

4. Fundação Oswaldo Cruz. Museu tem atrações em homenagem aos 100 anos da visita de Einstein (2025)
A Fundação Oswaldo Cruz celebra o centenário da visita de Einstein ao Brasil com exposições e atividades que relembram a importância histórica dessa passagem do cientista.

5. Observatório Nacional. 100 Anos de Einstein no Brasil (2025)
O Observatório Nacional comemora o centenário da visita de Einstein ao Brasil com uma série de palestras e reflexões sobre o impacto de sua passagem no campo científico brasileiro.

6. Rosenkranz, Ze'ev (org.). The Travel Diaries of Albert Einstein (2018)
Esta coletânea organiza os diários de viagem de Einstein, incluindo suas observações sobre diferentes regiões do mundo, com destaque para seus comentários sobre a América do Sul, e apresenta uma análise crítica sobre seus pontos de vista racializados.

7. Artigos de divulgação histórica sobre os diários de Einstein e racismo
Diversas publicações, como matérias da History.com e do The Guardian, discutem as anotações de Einstein sobre suas viagens à Ásia e outros lugares, destacando seus comentários sobre raça e cultura.

Nota de Checagem de Fatos
As informações sobre a visita de Einstein ao Brasil e seu impacto no país, incluindo o papel de Carlos Chagas e a análise dos diários de viagem, foram baseadas em fontes como Fiocruz, Observatório Nacional, e pesquisas de Ildeu de Castro Moreira. As reflexões sobre os comentários racializados de Einstein seguem a análise crítica adotada por estudiosos como Tolmasquim, Haag e Rosenkranz.

Releitura transmídia da estadia do físico no Rio de Janeiro em 1925
por |
03/11/2025 - 12h

Em maio de 1925, Albert Einstein visitou o Rio de Janeiro por uma semana hospedando-se no Hotel Glória, quarto 400. Apesar da recepção calorosa como celebridade, sua passagem foi um desastre cômico. A comitiva que o cercava não tinha um único físico ou matemático - apenas médicos, advogados, políticos e militares da elite social brasileira. No Clube de Engenharia, falou para uma plateia lotada que não entendia alemão nem suas ideias, em uma sala barulhenta e sem acústica. Na Academia de Ciências, teve que ouvir três discursos vazios em francês mal falado, incluindo um sobre "a influência da Relatividade na Biologia". O ápice foi quando o jurista Pontes de Miranda tentou desafiá-lo em alemão com considerações sobre metafísica e direito. Einstein levou de presente um papagaio que repetia "Data venia, Herr Einstein", lembrando-o sempre, com humor, da "ciência" dos doutores brasileiros.

“Einstein: visualize o impossível” é um projeto dos estudantes do quarto semestre de jornalismo da PUC-SP, da disciplina de jornalismo transmídia. O projeto aborda, de diferentes maneiras, uma releitura da icônica visita do físico ao Brasil em 1925. Todos os relatos estão em um site especial. Além de produções visuais e sonoras, o especial propõe uma narrativa em quadrinhos que conecta ciência, história e imaginação, tendo como cenário o Observatório Nacional (espaço que recebeu Albert Einstein). 

A produção contou com a colaboração de Bruno Matos, vice-diretor da Escola Estadual Professor Walter Ribas de Andrade. Já o vídeo “Os impactos de Albert Einstein na educação brasileira explicado por doguinhos” apresenta as contribuições das teorias do cientista para a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) a partir da entrevista com o professor de física Dediel Oliveira.  

Em “Diário do Einstein”, o leitor encontra coletânea de depoimentos em formato de diário sobre a passagem de Albert Einstein pelo Rio de Janeiro no ano de 1925, comentando ao longo de cada dia, pontos turísticos e palestras presenciadas por ele. No podcast "A carta que revolucionou a corrida armamentista", discute carta assinada pelo físico Albert Einstein em agosto de 1939, que alertava o presidente dos EUA, Franklin D.Roosevelt, sobre o potencial da Alemanha nazista em desenvolver uma bomba atômica.

O vídeo vertical “Einstein no Brasil” narra o encontro do físico com Carlos Chagas, marcando um momento científico crucial. A produção destaca a troca intelectual entre os dois grandes nomes da época. Por fim, é possível compreender uma sutil crítica sobre a omissão de um encontro com cientistas mulheres consagradas, como Bertha Lutz. Em “Einstein: uma análise de sua trajetória política”, as cartas de Einstein e seus discursos que expressavam preocupação com a violência e os conflitos no Oriente Médio são revisitadas. Nas declarações, o físico defende uma convivência justa entre judeus e árabes, e o projeto analisa como suas palavras ecoam no contexto atual da guerra entre Israel e Palestina, mostrando que o tempo passa, mas as perguntas sobre humanidade e coexistência continuam urgentes. 

Finalmente, o livro "Os Sonhos de Einstein", de Alan Lightman, pela Cia das Letras, apresenta uma série de sonhos imaginários que o jovem Albert Einstein teria tido enquanto desenvolvia a Teoria da Relatividade, em 1905. Em cada um deles, o tempo funciona de um jeito diferente, às vezes para, volta ou corre mais rápido e essas variações servem para refletir sobre a vida, as lembranças e as escolhas humanas. "Neste mundo, a textura do tempo parece ser pegajosa. Porções de cidades aderem a algum momento na história e não se soltam. Do mesmo modo, algumas pessoas ficam presas em algum ponto de suas vidas e não se libertam".
 

O uso excessivo do celular está moldando comportamentos e lucros empresariais das Big Techs
por
Julia Cesar Rangel
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27/10/2025 - 12h

Por Julia Cesar

 

O som começa suave, quase hipnótico. A vinheta colorida anuncia: “Cocomelon!”. Em segundos, os olhos se fixam na tela, o corpo se acalma e o mundo ao redor desaparece. Por trás dessa inocente animação infantil, há uma equipe bilionária que lucra com cada clique, cada minuto de atenção e cada vídeo que não para de rodar.

Nos últimos anos, o uso excessivo do celular tem preocupado especialistas, pais e educadores. Plataformas e canais, especialmente os voltados para o público infantil, estão sendo desenhados para capturar e reter o olhar humano o máximo possível. No caso das crianças, os efeitos são ainda mais intensos, já que seus cérebros ainda não estão totalmente formados para compreender o que é viciante e prejudicial.

A mãe Bianca Rangel, por exemplo, percebeu esse impacto em casa. O pequeno Gael, de 3 anos, começou a reconhecer a música do Cocomelon apenas pelo primeiro segundo de som. Ele largava qualquer brinquedo para correr até o celular. No início, Bianca achava a cena fofa, mas com o tempo notou que o filho ficava irritado e chateado quando o aparelho era desligado.

Preocupada, ela tentou limitar o tempo de tela, mas enfrentou forte resistência. Foi então que decidiu buscar orientação profissional e entendeu que substituir o tempo de tela por atividades com “dopamina boa” não era apenas uma escolha, e sim uma necessidade.

De acordo com a psicóloga Mayara Contim, formada pela USP e atualmente atuando na escola St. Nicholas, esse tipo de comportamento é resultado de mecanismos psicológicos cuidadosamente estudados pelas plataformas. Ela explica que não se trata apenas do Cocomelon: hoje, vídeos são planejados para ativar o sistema de recompensa do cérebro. As músicas, as cores e o ritmo acelerado são pensados para liberar dopamina, o hormônio ligado ao prazer imediato. Isso cria um ciclo de dependência semelhante ao que ocorre com jogos e redes sociais entre adultos e adolescentes.

A psicóloga ressalta que o problema não está apenas nas crianças. Segundo ela, os adultos também são vítimas desse design, já que as redes sociais funcionam com a mesma lógica de manter o usuário rolando infinitamente. No entanto, o impacto é mais grave nas crianças, pois seus cérebros ainda estão em desenvolvimento.

Um estudo recente da Common Sense Media apontou que, em média, crianças de até cinco anos passam quase três horas por dia em frente a telas. O dado assusta, mas reflete uma realidade cotidiana: celulares se tornaram babás digitais, distrações práticas para pais cansados e ferramentas de lucro para empresas que vendem publicidade a cada visualização.

Bianca admite que o uso do celular facilitava sua rotina. Enquanto o filho assistia aos vídeos, ela conseguia trabalhar ou realizar tarefas domésticas. Com o tempo, porém, percebeu que estava trocando momentos de qualidade com o filho por alguns minutos de silêncio.

Para Mayara Contim, o primeiro passo é não culpar os pais, e sim compreender o contexto. Ela destaca que vivemos em um mundo hiperconectado e que o caminho está na consciência e nos limites. O ideal, segundo a psicóloga, é que os pais assistam junto com as crianças, conversem sobre o conteúdo e ofereçam outras formas de estímulo — como brincadeiras, leitura e contato com a natureza.

Enquanto isso, a indústria continua explorando cada segundo de atenção possível. Canais como Cocomelon acumulam bilhões de visualizações e lucros altíssimos com publicidade, licenciamento e produtos derivados. O looping digital virou negócio, e nós, espectadores, nos tornamos o produto.

Mayara resume a lógica de forma direta: a atenção é a nova moeda. E, no fim, essa frase ecoa como um alerta — quanto mais tempo passamos presos às telas, mais alguém, do outro lado, está lucrando com isso.

O Brasil é pioneiro na criação de um medicamento que regenere a medula óssea de pacientes
por
manuela schenk scussiato
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03/11/2025 - 12h

Por Manuela Schenk

 

Não fora uma sexta-feira qualquer para Júlia. A caminho do ponto de ônibus para voltar para sua casa após um dia de aula na faculdade um motorista embriagado atropelou-a e fugiu sem prestar socorro que mudou sua vida para sempre quando tinha apenas 19 anos. Júlia teve lesões nas vértebras T8, T9 e T10 que a deixaram paraplégica depois de cinco dias em coma quando recebeu a notícia de que jamais andaria novamente.

Hoje Júlia tem 22 anos e teve que reaprender a viver. Coisas que jamais imaginou ter dificuldades agora são grandes conquistas, como quando conseguiu tomar banho sozinha pela primeira vez ou quando pode se deitar na própria cama sem auxílio. Escadas se tornaram rampas, seu restaurante favorito virou delivery, já que não possui acessibilidade para que ela consiga entrar na cadeira de rodas. As festas que frequentava semanalmente agora são eventos anuais, pois a locomoção dentro de uma balada é quase impossível para alguém que não consegue usar as próprias pernas.

No início se adaptar parecia impossível, noites mal dormidas quando chorava no travesseiro até seus olhos cederem. Depois de receber alta do hospital ela foi encaminhada para terapia, consultas três vezes por semana que depois de dois anos se tornaram duas. A fisioterapia que antes era uma tortura aos poucos se tornou um momento divertido.

Nos anos que se passaram Júlia conheceu mais pessoas na mesma situação que ela e de pouco a pouco sua nova vida se tornou mais tolerável, mas mesmo depois de quase 4 anos do acidente ela ainda tem dias ruins, sua autoestima nunca mais foi a mesma já que por muito tempo não conseguia se arrumar como antes. Júlia conta que o momento mais difícil da vida dela foi descobrir que seu caso não tinha cura. Sem possibilidade de tratamento ou cirurgia, uma menina que antes era ativa, amava se exercitar, sair com suas amigas, passear com sua cachorrinha, agora se vê forçada a reaprender a viver.   

É possível perceber as dificuldades que marcam a vida das pessoas que são afetadas pela paraplegia. Infelizmente muitos casos não são reversíveis, mas graças a estudos de um grupo da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), o mundo pode estar mais próximo de encontrar uma cura para uma deficiência que interrompe a vida de tantas pessoas.

A pesquisa, desenvolvida no Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, representa um marco para a medicina brasileira. O medicamento experimental chamado Polilaminina foi criado a partir de uma proteína natural da placenta humana, capaz de estimular a regeneração das células nervosas. Em estudos com animais, especialmente cães que haviam perdido os movimentos, o tratamento apresentou resultados impressionantes: alguns conseguiram voltar a andar mesmo após anos de paralisia. Esse avanço chamou a atenção da comunidade científica internacional e fez com que o Ministério da Saúde e a Anvisa classificassem o estudo como de prioridade absoluta no País.

A equipe liderada por Tatiana Sampaio começou o estudo da eficiência polilaminina para promover a regeneração de fibras nervosas/axônios e reconectar áreas lesadas da medula espinhal começou em 2007, embasado em outro estudo da faculdade que iniciou em 1998. São quase três décadas de trabalho árduo que trouxeram a equipe ao sucesso que é exposto para o mundo hoje, com seis dos oito pacientes humanos recuperando, parcial ou completamente, os movimentos que lhes foram tomados. 

Além dos testes clínicos em andamento, o projeto da UFRJ tem recebido apoio de instituições públicas e privadas, como o Laboratório Cristália, que colabora na etapa de desenvolvimento farmacêutico e produção em larga escala da substância. O próximo passo dos pesquisadores é a realização de estudos em uma quantidade maior de voluntários, o que permitirá avaliar com mais precisão a segurança e a eficácia do medicamento. Caso os resultados se confirmem, o Brasil poderá ser o primeiro país a oferecer um tratamento realmente regenerativo para lesões medulares, uma conquista inédita na história da ciência.

Para Júlia e milhares de pessoas que convivem com a paraplegia, essa descoberta reacende uma esperança que parecia perdida. Mesmo que o caminho até a cura ainda seja longo, cada passo da pesquisa representa uma vitória contra a limitação imposta pela lesão medular. A história de Júlia mostra a força de quem se reinventa diante da adversidade. O que a ciência da UFRJ faz agora é provar que o impossível pode estar mais perto do que se imagina. Aquilo que antes era apenas sonho, agora começa a ganhar forma nas mãos de pesquisadores brasileiros dedicados a devolver o movimento e com ele a liberdade a tantas vidas interrompidas.

Especialista alerta para riscos do uso acrítico de plataformas de IA na educação
por
Thomas Fernandez
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04/10/2025 - 12h

A inteligência artificial (IA) ganhou rapidamente espaço em diferentes setores da sociedade, e a educação não ficou de fora dessa tendência. Plataformas capazes de corrigir redações, recomendar atividades personalizadas e até mesmo substituir parte das tarefas do professor estão em alta.

A promessa, vendida por empresas de tecnologia e gestores entusiasmados, é de que a IA pode democratizar o ensino, personalizar a aprendizagem e aliviar a carga de trabalho docente. Não por acaso, de acordo com o Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (CETIC), sete em cada dez estudantes do Ensino Médio já utilizam ferramentas de IA generativa em trabalhos escolares, mas apenas 32% afirmam ter recebido orientação na escola sobre como usar esses recursos de forma pedagógica. 

Há quem veja nesse movimento um risco de precarização do trabalho dos professores, transformando a inovação em mais uma engrenagem de uma lógica de cortes de custos e desvalorização profissional. Afinal, a inteligência artificial na educação é realmente uma aliada do professor ou pode acabar sendo um instrumento de substituição e perda de direitos? 

Em entrevista à AGEMT, Pedro Maia, cientista de dados e pesquisador em ética e tecnologia, alerta para o risco de que a IA seja utilizada como justificativa para reduzir a presença e a importância dos professores. Para ele, é preciso estar atento à lógica de mercado que move grande parte das inovações tecnológicas aplicadas à educação: “O risco é que as escolas passem a enxergar a inteligência artificial não como apoio, mas como substituição. Se uma plataforma consegue corrigir automaticamente atividades e sugerir trilhas de estudo, a tentação de reduzir o quadro docente e cortar custos é enorme”, explica. 

Segundo Maia, isso poderia levar a uma precarização ainda maior do trabalho docente, em um cenário no qual professores já enfrentam baixos salários, excesso de carga horária e falta de condições adequadas de trabalho. “A promessa de eficiência pode esconder a intenção de enxugar gastos. É a lógica neoliberal aplicada à educação: menos investimento em pessoas, mais aposta em soluções padronizadas”, acrescenta.

Pedro Maia, cientista de dados.
Pedro Maia, cientista de dados. Foto: Arquivo Pessoal.

 

Maia também chama atenção para o risco de aprofundar desigualdades: “Nesse cenário, a IA não democratiza, mas acentua a exclusão. O aluno da periferia continua com menos oportunidades que o de elite, ainda que ambos usem supostamente a mesma tecnologia”. Esse alerta encontra respaldo nos números. Em 2023, 69% dos estudantes já conheciam a IA; em 2024, esse índice subiu para 80%, segundo levantamento nacional feito pela Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior (ABMES).

No entanto, nem todos têm acesso à mesma qualidade de ferramentas ou de acompanhamento pedagógico. Enquanto escolas privadas de ponta conseguem incorporar plataformas sofisticadas, parte da rede pública depende de versões limitadas, com pouco ou nenhum suporte docente.

Mesmo assim, o cenário não é apenas de resistência. Pesquisas feitas pela SEMESP (Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo), mostram que 74,8% dos professores acreditam que a IA pode ser aliada no processo de ensino, e 39,2% já utilizam a tecnologia regularmente em sala de aula. Esses dados revelam uma categoria dividida, mas que enxerga potencial na tecnologia quando aplicada como ferramenta de apoio, não como substituição. 

Além disso, iniciativas públicas começam a surgir. O governo federal, em parceria com a UNESCO e a Huawei, lançou o projeto “Open Schools” na Bahia e no Pará. Ambos locais foram escolhidos pela falta de infraestrutura educacional, conectividade e recursos tecnológicos. A iniciativa foca na formação de professores em competências digitais e uso de IA, além de investimentos em conectividade e infraestrutura. O objetivo é reduzir desigualdades e preparar a rede pública para essa transição.

A coexistência desses dois pontos de vista - o risco de precarização e a promessa de apoio pedagógico - evidencia o dilema atual: A IA pode ser tanto aliada quanto algoz, dependendo da forma como for implementada. Se o objetivo for cortar custos, há risco de enfraquecer a profissão docente. Mas se, por outro lado, houver investimento em formação, infraestrutura e regulação, ela pode abrir espaço para práticas pedagógicas mais ricas e inclusivas.

O que está em jogo, portanto, não é apenas a chegada de uma nova tecnologia, mas o modelo de educação que o país pretende construir. A questão central permanece: a inteligência artificial será um recurso a serviço de professores e alunos ou mais um instrumento de precarização do trabalho em nome da eficiência econômica?

Enquanto não há consenso, cresce a urgência em debater publicamente os rumos dessa transformação. O futuro da escola não depende apenas das máquinas, mas das escolhas políticas, sociais e econômicas que definirão como, para quem e com quais propósitos a tecnologia será utilizada.

O desafio de atender mulheres vítimas de violência ou em situação de vulnerabilidade cresce junto com o número de casos com a pandemia
por
Rafaela Correa de Freitas
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23/06/2020 - 12h

Foi aprovado pelo Senado, na quarta-feira dia 03 de junho, a emenda que dobra a pena dos crimes previstos na Lei Maria da Penha cometidos durante a pandemia, contudo, os casos também estão dobrando. Joseane Bernardes (Jô, como prefere ser chamada), coordenadora da casa Leste da ONG Bem Querer Mulher em São Paulo, diz que os telefonemas por ajuda durante a madrugada passaram de 4 para 12 depois do início da pandemia.

Heloisa Melillo e Jô, coordenadora geral do programa e coordenadora da Casa Leste, atualmente estão passando por um desafio para prestar ajuda às mulheres assistidas pela ONG Bem Querer Mulher. “Você atender mulher, qualquer lugar atende, mas você acolher a mulher humanamente é o diferencial.” Jô frisa que o atendimento humanizado é muito importante e que ele ajuda a mulher a denunciar e reconstruir sua vida, mas que é muito difícil fazer isso remotamente, portanto, mesmo com a quarentena, seu trabalho exige atendimento presencial e novas estratégias.

 

Site Bem Querer Mulher
Imagem retirada do site https://www.bemquerermulher.org.br

Durante as ligações, elas precisam saber um horário e um local que não gere suspeitas, “o isolamento tira a autonomia da mulher”, explica ela ao falar dos desafios de se atender uma vítima constantemente vigiada e presa com seu agressor. Em um caso recente, Joseane, com o apoio da gerente de uma UBS próxima, conseguiu encaminhamentos para o posto afim de atender a vítima, que já passava por acompanhamentos de remissão de um câncer em outra unidade, e foi assim que ela foi auxiliada no caminho para uma denúncia.

O Brasil registra, a cada 4 minutos, pelo menos um caso de agressão contra mulheres cometida por homens. Ainda assim, muitos outros não são registrados e chegam a serem apagados. Os 5 tipos de violência contra mulher - física, sexual, psicológica, moral e patrimonial - não acontecem somente dentro de casa. Cleone Santos, fundadora da ONG Mulheres da Luz, coletivo que busca promover a cidadania e garantia dos direitos humanos para mulheres em situação de prostituição, reforça isso; “Se fala de violência doméstica, mas não se fala da violência que outras mulheres sofrem, dessas que estão em situação de prostituição, e que sempre existiu.”

Site Mulheres da Luz
Imagem retirada do site https://www.mulheresdaluz.com.br

Localizada dentro do Parque da Luz, em São Paulo, a ONG fornece acolhimento, redes de conversa, terapia, apoio jurídico e outras formas de assistir as mulheres que a procuram. “Na época em que foi criada, tínhamos apenas a nossa solidariedade para oferecer à elas, então, a partir de pedidos, começamos a ter rodas de conversa sobre regulamentação, mas percebemos que só isso não satisfazia”, a partir daí, nasceram pautas sobre a criação de políticas públicas para essas mulheres.

Com a pandemia, Cleone precisa trabalhar de casa, mas a ONG não para. Houve dois casos de suspeita no espaço, mas foram descartados como não sendo Covid-19. Todas estão buscando se proteger na medida do possível, “a maioria delas, as mais velhas, que estão em extrema vulnerabilidade, estão se mantendo em casa”, sendo protegidas pela ONG com doações que envolvem cestas básicas, materiais de higiene, limpeza e máscaras. As que permanecem no parque, fazem o possível para se protegerem e dinamizar para que os parceiros façam o mesmo.

Algumas estão conseguindo gerar renda de forma diferente com a quarentena, os cursos ministrados pela ONG as ajudaram, e agora, vendem sabão em pedra, máscaras e produtos de higiene, que são divulgados pelo coletivo.

As ONGs Bem Querer Mulher e Mulheres da Luz aceitam doações e voluntários, para saber como ajudar, basta acessar: https://www.mulheresdaluz.com.br/ e http://www.bemquerermulher.org.br/site/

Familiares contam sobre casos do vírus na família.
por
Pedro Alcantara Da Silva Neto
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23/06/2020 - 12h

Pessoas que tratavam o vírus da Covid-19 como uma “gripezinha” são infectadas.

Lucas Lima Tozetti de 18 anos teve o tio e os primos infectados. A família de Lucas, para comemorar aniversários durante a pandemia, realizava chamadas de vídeo com todos os membros presentes. Em um desses aniversários Tozetti percebeu que havia uma certa aglomeração na casa de seu tio, com mais ou menos cinco pessoas.                                                                                                                           

“Eles desde o começo eram a favor da reabertura do comércio, não estavam respeitando a quarentena e estavam tratando aquilo como uma gripezinha.”

“Depois da cena do aniversário se passaram quatro dias e minha mãe me avisou que meu tio e meus dois primos tinham contraído o vírus. Isso de certa forma não me impactou, porque era algo que eu já imaginava.”                                                                                                                                   

Os familiares já estão melhores. Depois do susto passaram a respeitar o isolamento, e tentam conscientizar outras pessoas, pois elas podem não ter a mesma sorte que eles.

Gabriella Leticia Baraldi de 18 anos, teve uma pessoa muito próxima infectada. Baraldi sofreu um grande baque quando descobriu que um dos melhores amigos do seu pai tinha contraído o vírus.                                                                                                       

“Quando a gente descobriu, eu fiquei meio em choque! Primeiro porque ele é diabético, então ele é do grupo de risco. Segundo ele é como se fosse da família sabe? a gente via ele pelo menos uma vez por mês, nas festas ou nos eventos familiares.”                                                                                   

O amigo da família estava internado, porém teve melhoras significativas e voltou pra casa.

Beatriz Giovanna Kalenik de 19 anos, conta sobre sua tia de 54 anos que foi infectada respeitando a quarentena.                                                                                                            

“Eu fico triste, porque é uma das poucas pessoas que eu falo da família. Eu de verdade não entendo como isso aconteceu, ela só ia no mercado, protegida e morrendo de medo. O que me deixa mais apreensiva é que ela se cuidou e contraiu o vírus, isso só prova que ninguém está seguro.”

A tia de Kalenik segue em casa isolada, e quando precisa de algo a família faz.

Derek Cordeiro da Silva também de 18 anos ficou perplexo ao saber que todas as pessoas que moravam com seu melhor amigo foram infectadas pelo Covid-19 menos ele.                                                                                                                                                       

“Cara, eu fico muito triste por ele, porque imagina como deve ser f..., imagina todos seus familiares infectados? O pior de tudo isso, é que ele foi o único da família a não respeitar o isolamento. Quando ele recebeu essa notícia, ele estava passando uns dias na casa do primo. Em questão de uma semana vieram as bombas. Primeiro o avô, depois a mãe, em seguida o pai e por fim a irmã.” Ele relata que sempre está falando com o amigo.

“Olha, eu sempre falo com ele, tento consolar e dar um apoio, estou quase sendo um psicólogo”. O amigo de Derek continua na casa do primo, já a família segue em isolamento sem um sinal de melhora.     

 

por
Evelyn Fagundes de Lima e Maria Luiza da Costa Marinho
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15/05/2020 - 12h

 

Lado A

Lecionar: Entre dois mundos

“Já tenho um costume no uso de ferramentas tecnológicas, o que poder facilitar o meu dia a dia nesse momento de interação à distância” Bruno Almeida, professor de história, filosofia e sociologia, do colégio Objetivo, também atua como diretor da rede de cursos técnicos Paulo Freire. Quando dito que há diferenças mesmo quando a tempestade é a mesma, é isso que querem dizer.

O Brasil tem enfrentado a pouco mais de dois meses, uma pandemia que atingiu uma escala global e, feito os professores se reinventarem a cada dia “mas de uma maneira geral nos primeiros momentos eu tive certo estranhamento. Justamente por não ter o contato visual com meus alunos” as famosas caras de interrogação não são visíveis por meio da tela do computador, o que os deixa apreensivos com a qualidade da aula. Assim como muitos professores, Bruno teve que optar pelas aulas online para não deixar seus alunos sem conteúdo.  Ainda que haja mazelas, foi a alternativa encontrada fazendo os alunos transferirem suas dúvidas da sala para o computador “normalmente o professor quando está ensinando, ele fica sempre atento ao olhar dos alunos, e dessa forma a gente percebe se estão aprendendo ou não. Essa dinâmica é um pouco prejudicada no ensino a distância.”

Quando se perde a interação, para Bruno, perde-se um pouco do ensino. Ensinar também faz parte da socialização, coisa que está sendo proibido durante o distanciamento social, mas acima de tudo, tem muito a ver com humanidade, e as máquinas não estão prontas para isso “parece que a gente desaprendeu a dar aula, ou, aquele conteúdo. Porque muitas vezes nós estamos acostumados em transmitir informação através da lousa, ou slides. No processo de ensino a distancia você tem que reinventar esse caminho todo para alcançar seu aluno”.

Assim como Bruno, a professora de história de um colégio privado, diz estar tendo dificuldades para lecionar, mesmo sabendo que seus alunos possuem os recursos necessários para assistir as aulas, o tempo deles está cada vez mais ocioso e é difícil controlar a distração “dar aula à distância para criança é um desafio, a educação no nosso país não está preparada para isso” o planejamento está sendo feito semanalmente, coisa que antes, era organizada por bimestres “é muito uma forma de tentativa e erro” complementando a fala da professora, Bruno diz “A profissão já demandava bom tempo, hoje,   – isso é impressão minha, e compartilhada pelos meus colegas – estamos trabalhando três vezes mais.” Como professor, ele não vê outra saída “vejo de uma maneira positiva a continuidade do ensino à distância durante a pandemia”.

Enem: Até nas dificuldades tem ‘privilégios’

O Colégio Objetivo está entre os que possuem melhor desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) que por decisão do MEC continuará a acontecer este ano, nos dias 1 e 8 de novembro.  “O aluno que tem estrutura, o que tem acesso à banda larga acaba sendo favorecido por conta disso” foi levantada a discussão sobre a decisão do então ministro Abraham Weintraub, o vídeo de divulgação da prova fez uso de atores de classe média para expressar a importância de manter a prova, foi alvo de críticas por não atender a realidade da maioria dos brasileiros “não consigo concordar com nada que vem desse governo”.

O estudante Josué Guaita diz ser decepcionante ainda haver tantas diferenças sociais, e mesmo assim não darem a mínima para isso, quando entrado no mérito MEC e a mais nova propaganda. “Muito sem noção”, diz o garoto que está se preparando para o exame por intermédio de vídeo aulas e apostilas oferecidas pela plataforma Objetivo. “Eles falam como se todo mundo que vai fazer o ENEM tivesse recursos para se preparar”. O Exame Nacional do Ensino Médio é uma prova que abrange o território nacional, podendo usar a nota para universidades públicas e particulares. Bruno acompanha os dois mundos, dando aula em rede privada e sendo diretor na ETEC, ele percebe as diferenças nas dificuldades que os alunos estão tendo, e como à decisão de manter a prova pode prejudicar essa parcela da população “temos que ter a clareza de que nem todo aluno vai tem acesso a esse recurso”.

Fonte: Evelyn Fagundes
Fonte: Evelyn Fagundes

“Pensando na educação como ciência como alguém racional que trabalha na área da educação, e sabendo da realidade do aluno, quanto do privado, quanto do público. É uma atrocidade manter o ENEM” o professor de história e sociologia lembra-se da realidade do nosso país, e lamenta ter que discutir fatores que para ele, parecem óbvios. Josué acrescenta “a gente está no meio de uma pandemia, milhares de pessoas estão morrendo” já são mais de 13.993 mil mortes e 202.918 mil casos confirmados (15/05), de acordo com a secretária da saúde os números tendem a subir se o isolamento não for efetivado.

Suporte

“Nós já estávamos nos preparando para lançar uma plataforma online em 2020, então o projeto veio a calhar” as plataformas digitais servem para auxiliar os estudantes, são como mediadores entre professor e aluno. Desde sempre, as universidades tem contato com a via digital, assim como as escolas.

Sandra Regina da Costa trabalha como consultora em uma grande editora educacional do Brasil, localizada próximo a Avenida Paulista, SP. A editora cuida para que a escolas consigam chegar nos alunos “educação para todos” é o lema da empresa. “Conseguimos ver o desespero na voz das coordenadoras e diretoras. São escolas de grande e pequeno porte, desde bem localizadas até no interior de uma cidadezinha” todos os colégios são particulares, e basta serem parceiros para terem essa assessoria.

 

Lado B

Manifestações do dilema

No dia 16 de março de 2020, totalizavam-se 200 casos confirmados pela Covid-19 no Brasil, sendo 152 destes apenas no Estado de São Paulo. Neste mesmo dia, o governador do Estado, João Doria, em consonância com o Ministério da Saúde, decidiu por suspender as aulas da rede estadual e municipal de maneira gradativa e, além disso, sugeriu que as Universidades públicas e privadas iniciassem, similarmente, esta paralisação com o objetivo de evitar aglomerações.Fiquei com medo de perder o semestre” conta Gabriela Hernandes Barbosa, 19 anos, aluna do curso de Pedagogia na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). “Mas, estamos falando de pessoas, seres humanos. Nós podemos recuperar o semestre, as pessoas não”. A interrupção das aulas presenciais motivou muitas universidades a aderirem ao modal online. Universidades como PUC (Pontifícia Universidade Católica) e USP (Universidade de São Paulo) estão prosseguindo com o ensino à distância. No entanto, esta adesão está provocando diversas dificuldades para os estudantes de baixa renda que não possuem dispositivos como computador, notebook, smartphone ou até mesmo acesso à rede de internet banda larga. “Grande parte dos meus colegas de classe utiliza os computadores da própria faculdade por não ter acesso à internet em casa. Seria muito excludente se a Unifesp optasse por dar continuidade ao semestre”, esclarece a estudante de pedagogia. “Não tenho computador em casa. Não podem exigir que o aluno tenha computador em casa, é um absurdo. Ainda mais em um momento como esse em que pessoas estão precisando do auxílio do governo para comer, para comprar alimento"

 A estudante de pedagogia, residente da cidade de Guarulhos, mora com sua mãe Kely Cristina e com sua irmã Kauany Hernandes, de 10 anos. Kauany é aluna de escola pública e está no 5° ano do Ensino Fundamental. Desde o dia 27 de abril, quando as aulas estaduais reiniciaram, mas de maneira online, a menina vem apresentado à família dificuldades em lidar com a nova rotina. “A quantidade de conteúdo é impossível de acompanhar. Querem que a criança acompanhe a televisão, o aplicativo e o conteúdo que é passado pelo grupo no whatsapp ao mesmo tempo”, reclama Kely. O excesso de atividades escolares tem tomado não só a rotina da estudante, mas também de sua mãe e irmã. Numerosos são os dias em que a família termina os trabalhos e as atividades depois das nove ou dez horas da noite. A mãe das garotas trabalha como costureira e diz que apesar da pandemia está trabalhando com demanda normal. No entanto, ela revela que às vezes precisa interromper seu trabalho para ajudar a menina. “Hoje a professora passou vários exercícios no grupo do whatsapp e logo em seguida a aula da televisão começou. Tivemos que copiar as lições para que a Kauany pudesse assistir à aula. Tem sido complicado, mas estamos uma ajudando a outra”, completa Gabriela.

Além dessa defasagem provocada pela desorganização do ensino à distância, os alunos não estão recebendo aulas das disciplinas de Educação Física e Artística.Eu acho triste que a educação artística esteja sendo deixada de lado. A educação física é mesma situação. Mas, nesse caso, as crianças acabam ficando sedentárias, pois estão das 13h às 17h sentadas e assistindo televisão sem praticar nenhum tipo de exercício físico”. Outra situação preocupante apresentada pela família foi a falta de participação dos demais alunos da turma de Kauany no grupo do whatsapp, aplicativo pelo qual a professora da classe envia os conteúdos diários e tira dúvidas.No grupo são 33 alunos, mas apenas 8 são os que participam assiduamente das tarefas propostas. Sem falar daqueles que nem estão no grupo. Às vezes as crianças não tem celular ou o uso do celular dos pais é restrito. Ou, então, nem os pais sabem como encarar essa nova metodologia de ensino”

Quando perguntado sobre a relação dos alunos que não tem acesso aos dispositivos que lhes permitam o acompanhamento das aulas, o Secretário da Educação do Estado, Rossieli Soares afirmou: “Nenhum estudante será prejudicado ou ficará para trás”. Apesar de demonstrar empatia com alunos de baixa renda, é provável que não foi levado em consideração toda a problemática envolvida em aprovar um aluno para o próximo ano letivo sendo que este não demonstrou aprendizado sobre o conteúdo proposto.

A face dos bastidores

 Para quem está na linha de frente da educação a situação atual também não é nada fácil. Professores, mediadores, diretores e demais colaboradores da comunidade de ensino enfrentam complicações não só no campo técnico, mas também, no campo social: diariamente esses funcionários recebem relatos de pais que contam da impossibilidade do filho assistir às aulas. “Os pais de um aluno que estuda no segundo ano do Ensino Médio relataram que o filho não pode assistir, pois trabalha no horário em que as aulas são transmitidas na televisão” conta a mediadora de uma escola estadual Irani C. Correia. “Outro casal falou que são evangélicos e não tem televisão nem internet.” As aulas da rede estadual podem ser acompanhadas pela televisão no canal TV Educação 2.3 ou 2.2 e também pelo aplicativo CMSP (Centro de Mídias do Estado de São Paulo), mas cada série possui um horário específico para as aulas. Para as famílias mais carentes que sofrem com a falta da merenda escolar que era servida pela instituição aos alunos, o Governo disponibilizou um benefício. No entanto, para ter acesso a este auxílio o aluno precisa possuir inscrição do CadÚnico (Cadastro Único).

Dessa maneira, muitas famílias deixam de receber por não possuírem este registro burocrático. “Eu defendo a educação, mas, sinceramente esse modelo não é o mais desejado. Acho que muitos desses alunos irão sumir da escola quando retornarmos. Muitos adoram estudar e estão fazendo e dando seu melhor, já outros que apesar de disponibilizarem de recursos não estão fazendo nada, pois sabem que não serão prejudicados. Os professores estão usando o diário digital para ter a noção dos alunos que entraram no aplicativo através de seu RA (Registro do Aluno), mas ainda não sabemos”, confessa Irani. “Mas, apesar de tudo nós estamos unindo esforços. Muitos professores estão montando grupos nas redes sociais, principalmente com os terceiros anos, revisando atividades de matemática e português, respectivamente. Nossa escola também disponibilizou um e-mail para possíveis dúvidas dos alunos”.

Prejuízo desigual

Fonte: Evelyn Fagundes
Fonte: Evelyn Fagundes

Apesar da rotina desordenada e confusa dos alunos com a suspensão das aulas presenciais, a data de aplicação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) será mantida. Como justificativa, o Ministro da Educação Abraham Weintraub diz “Eu sei que o corona vírus atrapalha um pouco. Mas, atrapalha todo mundo. Como é uma competição, tá justo”. No entanto, a justiça afirmada por Weintraub não conduz com a realidade. Se as salas de aula das escolas particulares já são desiguais às salas das escolas públicas, a diferença é ainda maior nas salas das casas desses alunos. Ou seja, o aproveitamento e qualidade do ensino, consequentemente, serão distintos, logo, não há justiça. Pesquisas recentes realizadas pelo jornal NEXO apontam que apenas menos de 70% dos alunos de escolas estaduais possuem acesso aos computadores.

Além disso, esse estudo mostrou que entre os alunos que possuem acesso aos dispositivos, 35% compartilham com três ou mais pessoas. Ainda por cima, muitos jovens dividem o tempo de estudo com outros encargos: trabalho, cuidar de um irmão e também auxiliar nas tarefas domésticas. É o caso da estudante Vitória Manoela de Santana Almeida, 17, que conta que pelo excesso de tarefas externas ao estudo acaba por se desconcentrar. “É muito difícil estudar sozinha e manter o foco sem as aulas presenciais. Às vezes paro os estudos para cumprir uma tarefa que minha mãe pede e acabo me desconcentrando”. Aluna do terceiro ano do Ensino Médio em uma escola pública, Vitória iniciou os estudos no Cursinho Comunitário Cora Coralina, localizado no Bom Clima, bairro em Guarulhos. Assim como as demais instituições de ensino, o Cursinho também suspendeu as aulas, o que preocupa a estudante, uma vez em que não há indícios de uma possível alteração na data da prova. “Fico meio desesperada, começo a chorar por não estar evoluindo como os outros. O Governo precisa suspender o Enem”, protesta Vitória.

Os alunos que assistem às aulas pelo aplicativo, como é o caso da aluna, dispõem de um chat para depositar suas dúvidas sobre o conteúdo. Porém, vários estudantes dizem ser um método ineficaz, pois devido à existência de milhares de pessoas conectadas cria-se uma grande bagunça: muitos dos comentários não são questionamentos e as reais dúvidas não são lidas pelo professor que ministra a aula. Portanto, após o fim da aula muitos alunos permanecem confusos e cheios de incertezas sobre a matéria.

Visão Pedagógica

Em entrevista ao site UOL, Lucia Delagnello, diretora-presidente do CIEB (Centro de Inovação para a Educação Brasileira) disse que a maioria das secretarias estaduais de ensino do país não tem plataforma nem metodologia estabelecida para oferecer aulas remotas. A situação descrita por Delagnello é comprovada pela pedagoga Renata Bonifácio: “acredito que este método virtual não tenha eficácia, tanto no setor infantil, que é o setor que faço parte, tanto quanto no ensino fundamental e médio. É um processo que causa angústia não só no aluno, mas também nos professores e na equipe de gestão”, afirma Renata.

A pedagoga levanta a questão da desigualdade social como o maior impacto desse cenário de educação à distância, para ela a possibilidade da continuidade do ensino em casa depende da estrutura em que a família do aluno está inserida. “Os estudantes das escolas particulares têm o hábito de trabalhar em plataformas de sistema online, cada um tem o seu notebook em casa com rede de internet. É um contexto diferente dos alunos da educação pública, esses têm dois, três irmãos e apenas um computador em casa, ou quando tem. É complicado. Eu acredito que a desigualdade vai disparar se aprovações forem concedidas a alunos que não puderam aproveitar o ano letivo. Deve ser repensada a necessidade do prosseguimento dos 200 dias letivos”.

Muitos especialistas do campo educacional, tais como o educador Mozart Neves Ramos, afirmam que as escolas da rede pública apresentam modelos arcaicos, especificamente, modelos do século XIX, segundo a tese do escritor. Essa ideia se verifica na fala de Renata: “Infelizmente, nós não estamos preparados para a educação à distância, somos ainda acostumados com giz, lousa e professor falando, é isso que tem funcionado efetivamente na sala de aula”.

 

 

Fontes: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2020/04/05/como-a-pandemia-de-coronavirus-impacta-o-ensino-no-brasil.htm

 

por
Larissa Teixeira e Maria Clara Vieira
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28/02/2020 - 12h

Este podcast é sobre Deus. Mas não simplesmente aquela ideia de um ser onipresente, onipotente e onisciente vindo das três principais religiões monoteístas - o cristianismo, o judaísmo e o islamismo. Esta reportagem mostra quem ou o que é essa ideia nas suas mais variadas formas na vida dos paulistanos.

Você já se perguntou onde está Deus na cidade de São Paulo?

Apresentação: Maria Clara Vieira
Edição: Larissa Teixeira
Produção da reportagem: Larissa Teixeira e Maria Clara Vieira

Entrevistados:
Eulálio Figueira
Gabriel Siddartha
Guilherme Vona
Hernan Vilar
João Belmonte (Tody One)
Rafael Rodrigues
Tuanny Sufiatti

por
Yara Guerra, Humberto Tozze, Gabriel Damião e Vinicius Leite
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28/02/2020 - 12h