Jornalista compartilhou sua trajetória e respondeu perguntas de alunos de Jornalismo da PUC-SP
por
Thaís de Matos
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23/04/2026 - 12h

“Desde cedo, eu entendi que eu tinha uma função de fazer a ponte entre as pessoas que precisavam ser ouvidas e as elites”. Mais de uma vez, o papel de “fazer a ponte” foi frisado como um motor para Juliana Rosa, jornalista de economia há mais de 25 anos. Ela é comentarista da área na Band TV, Bandnews TV e rádios Bandnews e Bandeirantes desde 2021. 

Na labuta, Rosa recebe autoridades, economistas e empresários, com o intuito de compartilhar conhecimento de forma simples, a fim de contribuir para um debate qualificado no país. Antes do Grupo Bandeirantes de Comunicação, a jornalista atuou 20 anos como analista de economia na GloboNews. Ela começou a carreira em 1997 em uma rádio popular do Rio de Janeiro, a Rádio Tupi, indiretamente por influência do pai. Tanto ele quanto a mãe são pernambucanos, que vieram para o sudeste a fim de melhorar as condições de vida. 

“Eu via meu pai, que trabalhou em uma rádio até o final da vida. Eu cresci vendo meu pai, ia trabalhar com ele, às vezes porque minha mãe ainda não tinha chegado [do trabalho]. E uma coisa que eu continuei fazendo, que ele fazia, era todo dia parar na porta da rádio e ouvir as pessoas que estavam ali”, relembra Rosa. Ainda dando continuidade à história, Juliana diz que ouvir essas pessoa foi o que a fez escolher o Jornalismo.

juliana rosa e pollyana ferrari
Juliana Rosa ao lado da professora Pollyana Ferrari / Foto: Thaís de Matos

“As pessoas ficam até hoje em portas de rádios populares porque são invisíveis na sociedade. E você parar ali é uma questão de obrigação jornalística, porque são aquelas pessoas que vão te dizer por que você é jornalista. Elas vão falar que não têm remédio, lixo, saneamento básico, que não comem direito, têm trabalho… Então, certamente isso me moldou completamente. A gente fica achando que a economia está muito longe, mas por que tais pessoas não têm condições de melhorar de vida? Quais são as pautas econômicas que a gente precisa discutir para que essa realidade mude?”, reforça Rosa.

A partir desse questionamento, ano passado ela lançou o livro “De galinha a gavião: como impulsionar o voo da economia brasileira", que tem como objetivo traduzir o "economês" para quem não é especialista, mas quer entender os mecanismos que travam o crescimento do Brasil. Para escrever o livro, Juliana conversou com alguns dos maiores nomes de cada área. “Foi a partir desse incômodo interior que eu tive a minha vida inteira que eu tive a coragem de escrever esse livro como jornalista. Não sou economista, mas quis ouvir os grandes especialistas para dizer que do jeito que está, não dá para ficar”. O título da publicação faz uma analogia entre o “voo” da galinha e a economia brasileira: ambos crescem, mas logo caem – não se sustentam. 

Ainda nessa linha, Juliana critica os jargões do “economês” que tanto são reproduzidos, mas não são devidamente explicados. “O ‘economês’ tem uma função, que é perpetuar as desigualdades, continuar falando para quem já é iniciado. Então, em toda a minha vida, a questão de traduzir a linguagem sempre foi a marca da minha profissão. É um esforço de compreensão, se as pessoas não entendem como você está falando, a gente está falhando”. Mesmo atuando há tanto tempo na editoria econômica, a jornalista diz que até hoje é interrompida ou ignorada por entrevistados homens. Para ela, o preparo é importante para se fazer ser mais ouvida. “A gente tem uma desvantagem, porque a visão machista ainda é muito grande. Isso tem melhorado devagarinho, mas acho que a gente tem que se impor pela nossa competência e se dar o respeito. É duro, cansa, nosso esforço [de mulheres] normalmente é maior, mas não tem outro caminho”, desabafa.  

Tática de retaliação iraniana restringe o fluxo de petróleo apenas a "nações amigas", eleva o barril do Brent a US$104 e acende alerta sobre nova onda de inflação mundial
por
Juliana Bertini de Paula
Maria Eduarda Cepeda
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27/03/2026 - 12h
Desde o último dia 2 de março, o Estreito de Ormuz passou a operar sob fortes restrições impostas pelo Irã a embarcações consideradas “hostis”, impactando diretamente navios ligados aos Estados Unidos, Israel e países europeus. A passagem, que conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico, não está totalmente fechada, mas funciona de forma seletiva, com autorização caso a caso sob controle da Guarda Revolucionária iraniana (IRGC), o que reduziu drasticamente o fluxo marítimo na principal rota energética do mundo.

A atual crise geopolítica se intensificou após os bombardeios conduzidos por Estados Unidos e Israel contra alvos iranianos no dia 28 de fevereiro, ofensiva que resultou na morte do líder supremo Ali Khamenei. A confirmação oficial do óbito ocorreu no mesmo dia pela mídia estatal, desencadeando uma escalada militar que culminou na eleição do linha-dura Mojtaba Khamenei, filho de Ali, como novo líder supremo em 8 de março. Como resposta aos ataques, Teerã passou a restringir o tráfego no estreito e a realizar ataques pontuais a embarcações comerciais, ampliando o risco na área.

O impacto da crise atinge diretamente uma das principais artérias da economia global: cerca de 20% do petróleo mundial e uma parcela significativa do gás natural liquefeito (GNL) passam pelo estreito. Com a queda de 95% no fluxo de navios de carga registrada nas últimas semanas, os mercados de energia enfrentam forte volatilidade. O barril do petróleo tipo Brent ultrapassou a marca dos US$ 100 em diferentes momentos ao longo do mês. Para tentar conter a crise de desabastecimento, a Agência Internacional de Energia (AIE) já liberou 400 milhões de barris de suas reservas emergenciais e estuda uma nova intervenção.

Para a economista Luciana Massaguer, formada pela PUC-Campinas, os efeitos já são concretos e devem se intensificar. “O choque de inflação já é uma realidade. Não é mais uma expectativa e é irreversível, não só por causa do petróleo, mas também por causa da energia, que está mais cara na Europa e na Ásia”, afirma. Segundo ela, a resposta das autoridades monetárias tende a ser limitada: “A resposta dos bancos centrais, como Fed, BCE e Banco Central do Brasil, é complexa, pois aumentar os juros para combater a inflação pode acelerar a recessão, enquanto cortá-los pode inflar ainda mais os preços.”

A transformação da região em uma zona de alto risco militar também elevou os custos do transporte marítimo internacional. Seguradoras passaram a restringir cobertura para embarcações na área, enquanto companhias de navegação evitam a rota — o custo para transportar um barril de petróleo chegou a duplicar desde o início do conflito. Embora não haja uma paralisação total incontestável, o estrangulamento do tráfego já representa um gargalo histórico para o comércio internacional.

Os efeitos começam a se expandir para além do setor energético. O encarecimento do transporte e a instabilidade na região impactam o fluxo de insumos agrícolas, incluindo fertilizantes, em um momento sensível para o calendário de plantio em diversas partes do mundo. “O impacto chega antecipado porque o mercado antecipa tudo. Os fretes encarecem os preços na base e a falta de seguro na navegação naquela região está gerando escassez”, explica Massaguer. Ela destaca ainda que o maior risco está na cadeia alimentar global: “O que pode afetar mais é a segurança alimentar e a oferta de fertilizantes que precisam passar por lá.”

Apesar disso, a economista avalia que os impactos no Brasil tendem a ser mais moderados no curto prazo. “Aqui no Brasil não acho que teremos problemas de segurança alimentar no curto prazo porque temos estoque, mas voltamos para o problema da inflação”, afirma.

No campo diplomático e militar, o cenário sofreu uma reviravolta na terça-feira (31). O governo dos Estados Unidos, sob a presidência de Donald Trump, passou a avaliar a possibilidade de encerrar a guerra contra o Irã mesmo que o Estreito de Ormuz permaneça fechado. O Pentágono avalia que uma operação militar direta para reabrir a rota marítima prolongaria o conflito, optando agora por uma estratégia focada em enfraquecer a Marinha iraniana e pressionar aliados. Paralelamente, os esforços para formar uma coalizão internacional de proteção marítima continuam enfrentando adesão limitada.

Para economias altamente dependentes da importação de energia, as alternativas logísticas seguem restritas. Oleodutos na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos operam próximos da capacidade máxima, mas conseguem desviar apenas parte do volume que normalmente atravessa o estreito. Esse limite evidencia a dependência estrutural global de uma rota estratégica que segue operando sob forte instabilidade e com perspectivas incertas de reabertura total.

Na avaliação de Massaguer, o tempo será um fator determinante para a gravidade da crise. “A economia mundial aguenta essa ‘asfixia’ por um curto período, de um a três meses, sobrevivendo com estoques e rotas alternativas. A partir do quarto mês, o esgotamento dos estoques e o custo proibitivo da energia tornam uma recessão profunda quase inevitável”, conclui.

Aplicativos começam a mudar a relação dos fiéis brasileiros, gerando impacto nas cerimônias
por
Sofia Morelli
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24/03/2026 - 12h

A religiosidade está passando por um processo de digitalização, alterando práticas religiosas tradicionais e o alcance das instituições. Com a reconfiguração da crença no mundo contemporâneo, surgem preocupações sobre o que pode estar sendo perdido durante o processo. A facilidade de acesso e de ampliação é um atrativo, que para muitos fiéis pode instigar a devoção a sua devida fé, mas historicamente a religião privilegiava o esforço na devoção, o que mudou com as transmissões de missas, cultos e o impulso da comunicação digital, tornando-se uma fé mais individualizada. 

Localizada no bairro Itaim Bibi, em São Paulo, a igreja Metodista do Itaim Bibi (IMIB) recorre à transmissões online como forma de atrair mais fiéis e trazer inovação por meio de "apps da fé". “As transmissões acabam trazendo benefícios para a igreja, porque alcança mais jovens e hoje em dia e está difícil atraí-los. A gente só tem dois jovens que frequentam", diz a pastora Meire. Ela assumiu o cargo em fevereiro de 2026 e já implementou um programa de transmissão dos cultos, que são divulgadas, por enquanto, em um grupo de WhatsApp. Com 47 milhões de fiéis protestantes no Brasil, segundo pesquisa IBGE (2022), a fé atravessou séculos com uma estabilidade admirável, sofrendo apenas algumas mudanças do tempo. Os meios de comunicação digital não chegaram para desestabilizar, mas como um processo natural da contemporaneidade. Por exemplo, o compartilhamento do evangelho e a inserção da igreja no ambiente digital atravessa novas fronteiras, podendo se aproximar de adeptos a fé que não costumam seguir a doutrina tradicional. 

Em 2021, a Igreja Adventista no Brasil começou a explorar esses novos formatos digitais com recrutamentos de desenvolvedores, apostando que esse novo mundo seria benéfico para a ampliação da doutrina. Carlos Magalhães, diretor de marketing digital da instituição Adventista, em uma entrevista para o Instituto Humanitas Unisinos, diz: " Eu só uso aplicativos, lá tem tudo. Vejo o horário do pôr do sol e leio um texto para fazer a meditação. É bom para quando estou em viagem e não levei a Bíblia, por exemplo. Assim posso receber o sábado com oração", diz.

 “No final quem acaba acessando, nos aplicativos que algumas igreja já usam ou no nosso grupo mesmo, são só pessoas que já fazem parte da comunidade e querem sentir as palavras de Deus, mesmo à distância”, conta pastora Meire, mas a cautela deve estar sempre presente. O intuito deve ser a ampliação ao invés da substituição da profundidade espiritual por uma mentalidade imediatista. Essência e adaptação podem andar lado a lado com equilíbrio, com a exploração das tecnologias e o mantimento dos valores, sem acompanhar as exigências do nosso presente.

Missa de Domingo (22) na Igreja Metodista do Itaim Bibi.

 


 

Uma análise sobre a passagem do físico e teórico alemão pelo Brasil e o apagamento das mulheres na ciência
por
Natália Matvyenko Maciel Almeida
Joana Grigório
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16/11/2025 - 12h

Em 1925, Albert Einstein desembarcou na américa do sul, na cidade do Rio de Janeiro, para uma sequência de palestras e nesse vídeo exploramos uma parte dos relatos escritos em seu diário e a falta de registros de pessoas racializadas e também de mulheres nas conferências.

Referências utilizadas para esse vídeo: 

1. Tolmasquim, Alfredo Tiomno. Einstein, o Viajante da Relatividade na América do Sul (2003)
Este livro oferece um olhar detalhado sobre a visita de Albert Einstein à América do Sul, incluindo sua passagem pelo Brasil. O autor explora a recepção do cientista e seu impacto no cenário científico da época.

2. Haag, Carlos. "Tropical Relativity" (2004)
Artigo publicado na revista Pesquisa FAPESP, que aborda os diários de viagem de Einstein na América do Sul, com destaque para suas observações sobre o Brasil e suas interações com a ciência local.

3. Moreira, Ildeu de Castro. Entrevista: Visita de Einstein ao Rio de Janeiro promoveu valorização da ciência pura (2025)
Entrevista com Ildeu de Castro Moreira, que discute o impacto da visita de Einstein ao Rio de Janeiro, enfatizando a valorização da ciência fundamental e os desdobramentos para a pesquisa no Brasil.

4. Fundação Oswaldo Cruz. Museu tem atrações em homenagem aos 100 anos da visita de Einstein (2025)
A Fundação Oswaldo Cruz celebra o centenário da visita de Einstein ao Brasil com exposições e atividades que relembram a importância histórica dessa passagem do cientista.

5. Observatório Nacional. 100 Anos de Einstein no Brasil (2025)
O Observatório Nacional comemora o centenário da visita de Einstein ao Brasil com uma série de palestras e reflexões sobre o impacto de sua passagem no campo científico brasileiro.

6. Rosenkranz, Ze'ev (org.). The Travel Diaries of Albert Einstein (2018)
Esta coletânea organiza os diários de viagem de Einstein, incluindo suas observações sobre diferentes regiões do mundo, com destaque para seus comentários sobre a América do Sul, e apresenta uma análise crítica sobre seus pontos de vista racializados.

7. Artigos de divulgação histórica sobre os diários de Einstein e racismo
Diversas publicações, como matérias da History.com e do The Guardian, discutem as anotações de Einstein sobre suas viagens à Ásia e outros lugares, destacando seus comentários sobre raça e cultura.

Nota de Checagem de Fatos
As informações sobre a visita de Einstein ao Brasil e seu impacto no país, incluindo o papel de Carlos Chagas e a análise dos diários de viagem, foram baseadas em fontes como Fiocruz, Observatório Nacional, e pesquisas de Ildeu de Castro Moreira. As reflexões sobre os comentários racializados de Einstein seguem a análise crítica adotada por estudiosos como Tolmasquim, Haag e Rosenkranz.

Releitura transmídia da estadia do físico no Rio de Janeiro em 1925
por |
03/11/2025 - 12h

Em maio de 1925, Albert Einstein visitou o Rio de Janeiro por uma semana hospedando-se no Hotel Glória, quarto 400. Apesar da recepção calorosa como celebridade, sua passagem foi um desastre cômico. A comitiva que o cercava não tinha um único físico ou matemático - apenas médicos, advogados, políticos e militares da elite social brasileira. No Clube de Engenharia, falou para uma plateia lotada que não entendia alemão nem suas ideias, em uma sala barulhenta e sem acústica. Na Academia de Ciências, teve que ouvir três discursos vazios em francês mal falado, incluindo um sobre "a influência da Relatividade na Biologia". O ápice foi quando o jurista Pontes de Miranda tentou desafiá-lo em alemão com considerações sobre metafísica e direito. Einstein levou de presente um papagaio que repetia "Data venia, Herr Einstein", lembrando-o sempre, com humor, da "ciência" dos doutores brasileiros.

“Einstein: visualize o impossível” é um projeto dos estudantes do quarto semestre de jornalismo da PUC-SP, da disciplina de jornalismo transmídia. O projeto aborda, de diferentes maneiras, uma releitura da icônica visita do físico ao Brasil em 1925. Todos os relatos estão em um site especial. Além de produções visuais e sonoras, o especial propõe uma narrativa em quadrinhos que conecta ciência, história e imaginação, tendo como cenário o Observatório Nacional (espaço que recebeu Albert Einstein). 

A produção contou com a colaboração de Bruno Matos, vice-diretor da Escola Estadual Professor Walter Ribas de Andrade. Já o vídeo “Os impactos de Albert Einstein na educação brasileira explicado por doguinhos” apresenta as contribuições das teorias do cientista para a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) a partir da entrevista com o professor de física Dediel Oliveira.  

Em “Diário do Einstein”, o leitor encontra coletânea de depoimentos em formato de diário sobre a passagem de Albert Einstein pelo Rio de Janeiro no ano de 1925, comentando ao longo de cada dia, pontos turísticos e palestras presenciadas por ele. No podcast "A carta que revolucionou a corrida armamentista", discute carta assinada pelo físico Albert Einstein em agosto de 1939, que alertava o presidente dos EUA, Franklin D.Roosevelt, sobre o potencial da Alemanha nazista em desenvolver uma bomba atômica.

O vídeo vertical “Einstein no Brasil” narra o encontro do físico com Carlos Chagas, marcando um momento científico crucial. A produção destaca a troca intelectual entre os dois grandes nomes da época. Por fim, é possível compreender uma sutil crítica sobre a omissão de um encontro com cientistas mulheres consagradas, como Bertha Lutz. Em “Einstein: uma análise de sua trajetória política”, as cartas de Einstein e seus discursos que expressavam preocupação com a violência e os conflitos no Oriente Médio são revisitadas. Nas declarações, o físico defende uma convivência justa entre judeus e árabes, e o projeto analisa como suas palavras ecoam no contexto atual da guerra entre Israel e Palestina, mostrando que o tempo passa, mas as perguntas sobre humanidade e coexistência continuam urgentes. 

Finalmente, o livro "Os Sonhos de Einstein", de Alan Lightman, pela Cia das Letras, apresenta uma série de sonhos imaginários que o jovem Albert Einstein teria tido enquanto desenvolvia a Teoria da Relatividade, em 1905. Em cada um deles, o tempo funciona de um jeito diferente, às vezes para, volta ou corre mais rápido e essas variações servem para refletir sobre a vida, as lembranças e as escolhas humanas. "Neste mundo, a textura do tempo parece ser pegajosa. Porções de cidades aderem a algum momento na história e não se soltam. Do mesmo modo, algumas pessoas ficam presas em algum ponto de suas vidas e não se libertam".
 

por
Evelyn Fagundes de Lima e Maria Luiza da Costa Marinho
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15/05/2020 - 12h

 

Lado A

Lecionar: Entre dois mundos

“Já tenho um costume no uso de ferramentas tecnológicas, o que poder facilitar o meu dia a dia nesse momento de interação à distância” Bruno Almeida, professor de história, filosofia e sociologia, do colégio Objetivo, também atua como diretor da rede de cursos técnicos Paulo Freire. Quando dito que há diferenças mesmo quando a tempestade é a mesma, é isso que querem dizer.

O Brasil tem enfrentado a pouco mais de dois meses, uma pandemia que atingiu uma escala global e, feito os professores se reinventarem a cada dia “mas de uma maneira geral nos primeiros momentos eu tive certo estranhamento. Justamente por não ter o contato visual com meus alunos” as famosas caras de interrogação não são visíveis por meio da tela do computador, o que os deixa apreensivos com a qualidade da aula. Assim como muitos professores, Bruno teve que optar pelas aulas online para não deixar seus alunos sem conteúdo.  Ainda que haja mazelas, foi a alternativa encontrada fazendo os alunos transferirem suas dúvidas da sala para o computador “normalmente o professor quando está ensinando, ele fica sempre atento ao olhar dos alunos, e dessa forma a gente percebe se estão aprendendo ou não. Essa dinâmica é um pouco prejudicada no ensino a distância.”

Quando se perde a interação, para Bruno, perde-se um pouco do ensino. Ensinar também faz parte da socialização, coisa que está sendo proibido durante o distanciamento social, mas acima de tudo, tem muito a ver com humanidade, e as máquinas não estão prontas para isso “parece que a gente desaprendeu a dar aula, ou, aquele conteúdo. Porque muitas vezes nós estamos acostumados em transmitir informação através da lousa, ou slides. No processo de ensino a distancia você tem que reinventar esse caminho todo para alcançar seu aluno”.

Assim como Bruno, a professora de história de um colégio privado, diz estar tendo dificuldades para lecionar, mesmo sabendo que seus alunos possuem os recursos necessários para assistir as aulas, o tempo deles está cada vez mais ocioso e é difícil controlar a distração “dar aula à distância para criança é um desafio, a educação no nosso país não está preparada para isso” o planejamento está sendo feito semanalmente, coisa que antes, era organizada por bimestres “é muito uma forma de tentativa e erro” complementando a fala da professora, Bruno diz “A profissão já demandava bom tempo, hoje,   – isso é impressão minha, e compartilhada pelos meus colegas – estamos trabalhando três vezes mais.” Como professor, ele não vê outra saída “vejo de uma maneira positiva a continuidade do ensino à distância durante a pandemia”.

Enem: Até nas dificuldades tem ‘privilégios’

O Colégio Objetivo está entre os que possuem melhor desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) que por decisão do MEC continuará a acontecer este ano, nos dias 1 e 8 de novembro.  “O aluno que tem estrutura, o que tem acesso à banda larga acaba sendo favorecido por conta disso” foi levantada a discussão sobre a decisão do então ministro Abraham Weintraub, o vídeo de divulgação da prova fez uso de atores de classe média para expressar a importância de manter a prova, foi alvo de críticas por não atender a realidade da maioria dos brasileiros “não consigo concordar com nada que vem desse governo”.

O estudante Josué Guaita diz ser decepcionante ainda haver tantas diferenças sociais, e mesmo assim não darem a mínima para isso, quando entrado no mérito MEC e a mais nova propaganda. “Muito sem noção”, diz o garoto que está se preparando para o exame por intermédio de vídeo aulas e apostilas oferecidas pela plataforma Objetivo. “Eles falam como se todo mundo que vai fazer o ENEM tivesse recursos para se preparar”. O Exame Nacional do Ensino Médio é uma prova que abrange o território nacional, podendo usar a nota para universidades públicas e particulares. Bruno acompanha os dois mundos, dando aula em rede privada e sendo diretor na ETEC, ele percebe as diferenças nas dificuldades que os alunos estão tendo, e como à decisão de manter a prova pode prejudicar essa parcela da população “temos que ter a clareza de que nem todo aluno vai tem acesso a esse recurso”.

Fonte: Evelyn Fagundes
Fonte: Evelyn Fagundes

“Pensando na educação como ciência como alguém racional que trabalha na área da educação, e sabendo da realidade do aluno, quanto do privado, quanto do público. É uma atrocidade manter o ENEM” o professor de história e sociologia lembra-se da realidade do nosso país, e lamenta ter que discutir fatores que para ele, parecem óbvios. Josué acrescenta “a gente está no meio de uma pandemia, milhares de pessoas estão morrendo” já são mais de 13.993 mil mortes e 202.918 mil casos confirmados (15/05), de acordo com a secretária da saúde os números tendem a subir se o isolamento não for efetivado.

Suporte

“Nós já estávamos nos preparando para lançar uma plataforma online em 2020, então o projeto veio a calhar” as plataformas digitais servem para auxiliar os estudantes, são como mediadores entre professor e aluno. Desde sempre, as universidades tem contato com a via digital, assim como as escolas.

Sandra Regina da Costa trabalha como consultora em uma grande editora educacional do Brasil, localizada próximo a Avenida Paulista, SP. A editora cuida para que a escolas consigam chegar nos alunos “educação para todos” é o lema da empresa. “Conseguimos ver o desespero na voz das coordenadoras e diretoras. São escolas de grande e pequeno porte, desde bem localizadas até no interior de uma cidadezinha” todos os colégios são particulares, e basta serem parceiros para terem essa assessoria.

 

Lado B

Manifestações do dilema

No dia 16 de março de 2020, totalizavam-se 200 casos confirmados pela Covid-19 no Brasil, sendo 152 destes apenas no Estado de São Paulo. Neste mesmo dia, o governador do Estado, João Doria, em consonância com o Ministério da Saúde, decidiu por suspender as aulas da rede estadual e municipal de maneira gradativa e, além disso, sugeriu que as Universidades públicas e privadas iniciassem, similarmente, esta paralisação com o objetivo de evitar aglomerações.Fiquei com medo de perder o semestre” conta Gabriela Hernandes Barbosa, 19 anos, aluna do curso de Pedagogia na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). “Mas, estamos falando de pessoas, seres humanos. Nós podemos recuperar o semestre, as pessoas não”. A interrupção das aulas presenciais motivou muitas universidades a aderirem ao modal online. Universidades como PUC (Pontifícia Universidade Católica) e USP (Universidade de São Paulo) estão prosseguindo com o ensino à distância. No entanto, esta adesão está provocando diversas dificuldades para os estudantes de baixa renda que não possuem dispositivos como computador, notebook, smartphone ou até mesmo acesso à rede de internet banda larga. “Grande parte dos meus colegas de classe utiliza os computadores da própria faculdade por não ter acesso à internet em casa. Seria muito excludente se a Unifesp optasse por dar continuidade ao semestre”, esclarece a estudante de pedagogia. “Não tenho computador em casa. Não podem exigir que o aluno tenha computador em casa, é um absurdo. Ainda mais em um momento como esse em que pessoas estão precisando do auxílio do governo para comer, para comprar alimento"

 A estudante de pedagogia, residente da cidade de Guarulhos, mora com sua mãe Kely Cristina e com sua irmã Kauany Hernandes, de 10 anos. Kauany é aluna de escola pública e está no 5° ano do Ensino Fundamental. Desde o dia 27 de abril, quando as aulas estaduais reiniciaram, mas de maneira online, a menina vem apresentado à família dificuldades em lidar com a nova rotina. “A quantidade de conteúdo é impossível de acompanhar. Querem que a criança acompanhe a televisão, o aplicativo e o conteúdo que é passado pelo grupo no whatsapp ao mesmo tempo”, reclama Kely. O excesso de atividades escolares tem tomado não só a rotina da estudante, mas também de sua mãe e irmã. Numerosos são os dias em que a família termina os trabalhos e as atividades depois das nove ou dez horas da noite. A mãe das garotas trabalha como costureira e diz que apesar da pandemia está trabalhando com demanda normal. No entanto, ela revela que às vezes precisa interromper seu trabalho para ajudar a menina. “Hoje a professora passou vários exercícios no grupo do whatsapp e logo em seguida a aula da televisão começou. Tivemos que copiar as lições para que a Kauany pudesse assistir à aula. Tem sido complicado, mas estamos uma ajudando a outra”, completa Gabriela.

Além dessa defasagem provocada pela desorganização do ensino à distância, os alunos não estão recebendo aulas das disciplinas de Educação Física e Artística.Eu acho triste que a educação artística esteja sendo deixada de lado. A educação física é mesma situação. Mas, nesse caso, as crianças acabam ficando sedentárias, pois estão das 13h às 17h sentadas e assistindo televisão sem praticar nenhum tipo de exercício físico”. Outra situação preocupante apresentada pela família foi a falta de participação dos demais alunos da turma de Kauany no grupo do whatsapp, aplicativo pelo qual a professora da classe envia os conteúdos diários e tira dúvidas.No grupo são 33 alunos, mas apenas 8 são os que participam assiduamente das tarefas propostas. Sem falar daqueles que nem estão no grupo. Às vezes as crianças não tem celular ou o uso do celular dos pais é restrito. Ou, então, nem os pais sabem como encarar essa nova metodologia de ensino”

Quando perguntado sobre a relação dos alunos que não tem acesso aos dispositivos que lhes permitam o acompanhamento das aulas, o Secretário da Educação do Estado, Rossieli Soares afirmou: “Nenhum estudante será prejudicado ou ficará para trás”. Apesar de demonstrar empatia com alunos de baixa renda, é provável que não foi levado em consideração toda a problemática envolvida em aprovar um aluno para o próximo ano letivo sendo que este não demonstrou aprendizado sobre o conteúdo proposto.

A face dos bastidores

 Para quem está na linha de frente da educação a situação atual também não é nada fácil. Professores, mediadores, diretores e demais colaboradores da comunidade de ensino enfrentam complicações não só no campo técnico, mas também, no campo social: diariamente esses funcionários recebem relatos de pais que contam da impossibilidade do filho assistir às aulas. “Os pais de um aluno que estuda no segundo ano do Ensino Médio relataram que o filho não pode assistir, pois trabalha no horário em que as aulas são transmitidas na televisão” conta a mediadora de uma escola estadual Irani C. Correia. “Outro casal falou que são evangélicos e não tem televisão nem internet.” As aulas da rede estadual podem ser acompanhadas pela televisão no canal TV Educação 2.3 ou 2.2 e também pelo aplicativo CMSP (Centro de Mídias do Estado de São Paulo), mas cada série possui um horário específico para as aulas. Para as famílias mais carentes que sofrem com a falta da merenda escolar que era servida pela instituição aos alunos, o Governo disponibilizou um benefício. No entanto, para ter acesso a este auxílio o aluno precisa possuir inscrição do CadÚnico (Cadastro Único).

Dessa maneira, muitas famílias deixam de receber por não possuírem este registro burocrático. “Eu defendo a educação, mas, sinceramente esse modelo não é o mais desejado. Acho que muitos desses alunos irão sumir da escola quando retornarmos. Muitos adoram estudar e estão fazendo e dando seu melhor, já outros que apesar de disponibilizarem de recursos não estão fazendo nada, pois sabem que não serão prejudicados. Os professores estão usando o diário digital para ter a noção dos alunos que entraram no aplicativo através de seu RA (Registro do Aluno), mas ainda não sabemos”, confessa Irani. “Mas, apesar de tudo nós estamos unindo esforços. Muitos professores estão montando grupos nas redes sociais, principalmente com os terceiros anos, revisando atividades de matemática e português, respectivamente. Nossa escola também disponibilizou um e-mail para possíveis dúvidas dos alunos”.

Prejuízo desigual

Fonte: Evelyn Fagundes
Fonte: Evelyn Fagundes

Apesar da rotina desordenada e confusa dos alunos com a suspensão das aulas presenciais, a data de aplicação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) será mantida. Como justificativa, o Ministro da Educação Abraham Weintraub diz “Eu sei que o corona vírus atrapalha um pouco. Mas, atrapalha todo mundo. Como é uma competição, tá justo”. No entanto, a justiça afirmada por Weintraub não conduz com a realidade. Se as salas de aula das escolas particulares já são desiguais às salas das escolas públicas, a diferença é ainda maior nas salas das casas desses alunos. Ou seja, o aproveitamento e qualidade do ensino, consequentemente, serão distintos, logo, não há justiça. Pesquisas recentes realizadas pelo jornal NEXO apontam que apenas menos de 70% dos alunos de escolas estaduais possuem acesso aos computadores.

Além disso, esse estudo mostrou que entre os alunos que possuem acesso aos dispositivos, 35% compartilham com três ou mais pessoas. Ainda por cima, muitos jovens dividem o tempo de estudo com outros encargos: trabalho, cuidar de um irmão e também auxiliar nas tarefas domésticas. É o caso da estudante Vitória Manoela de Santana Almeida, 17, que conta que pelo excesso de tarefas externas ao estudo acaba por se desconcentrar. “É muito difícil estudar sozinha e manter o foco sem as aulas presenciais. Às vezes paro os estudos para cumprir uma tarefa que minha mãe pede e acabo me desconcentrando”. Aluna do terceiro ano do Ensino Médio em uma escola pública, Vitória iniciou os estudos no Cursinho Comunitário Cora Coralina, localizado no Bom Clima, bairro em Guarulhos. Assim como as demais instituições de ensino, o Cursinho também suspendeu as aulas, o que preocupa a estudante, uma vez em que não há indícios de uma possível alteração na data da prova. “Fico meio desesperada, começo a chorar por não estar evoluindo como os outros. O Governo precisa suspender o Enem”, protesta Vitória.

Os alunos que assistem às aulas pelo aplicativo, como é o caso da aluna, dispõem de um chat para depositar suas dúvidas sobre o conteúdo. Porém, vários estudantes dizem ser um método ineficaz, pois devido à existência de milhares de pessoas conectadas cria-se uma grande bagunça: muitos dos comentários não são questionamentos e as reais dúvidas não são lidas pelo professor que ministra a aula. Portanto, após o fim da aula muitos alunos permanecem confusos e cheios de incertezas sobre a matéria.

Visão Pedagógica

Em entrevista ao site UOL, Lucia Delagnello, diretora-presidente do CIEB (Centro de Inovação para a Educação Brasileira) disse que a maioria das secretarias estaduais de ensino do país não tem plataforma nem metodologia estabelecida para oferecer aulas remotas. A situação descrita por Delagnello é comprovada pela pedagoga Renata Bonifácio: “acredito que este método virtual não tenha eficácia, tanto no setor infantil, que é o setor que faço parte, tanto quanto no ensino fundamental e médio. É um processo que causa angústia não só no aluno, mas também nos professores e na equipe de gestão”, afirma Renata.

A pedagoga levanta a questão da desigualdade social como o maior impacto desse cenário de educação à distância, para ela a possibilidade da continuidade do ensino em casa depende da estrutura em que a família do aluno está inserida. “Os estudantes das escolas particulares têm o hábito de trabalhar em plataformas de sistema online, cada um tem o seu notebook em casa com rede de internet. É um contexto diferente dos alunos da educação pública, esses têm dois, três irmãos e apenas um computador em casa, ou quando tem. É complicado. Eu acredito que a desigualdade vai disparar se aprovações forem concedidas a alunos que não puderam aproveitar o ano letivo. Deve ser repensada a necessidade do prosseguimento dos 200 dias letivos”.

Muitos especialistas do campo educacional, tais como o educador Mozart Neves Ramos, afirmam que as escolas da rede pública apresentam modelos arcaicos, especificamente, modelos do século XIX, segundo a tese do escritor. Essa ideia se verifica na fala de Renata: “Infelizmente, nós não estamos preparados para a educação à distância, somos ainda acostumados com giz, lousa e professor falando, é isso que tem funcionado efetivamente na sala de aula”.

 

 

Fontes: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2020/04/05/como-a-pandemia-de-coronavirus-impacta-o-ensino-no-brasil.htm

 

por
Larissa Teixeira e Maria Clara Vieira
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28/02/2020 - 12h

Este podcast é sobre Deus. Mas não simplesmente aquela ideia de um ser onipresente, onipotente e onisciente vindo das três principais religiões monoteístas - o cristianismo, o judaísmo e o islamismo. Esta reportagem mostra quem ou o que é essa ideia nas suas mais variadas formas na vida dos paulistanos.

Você já se perguntou onde está Deus na cidade de São Paulo?

Apresentação: Maria Clara Vieira
Edição: Larissa Teixeira
Produção da reportagem: Larissa Teixeira e Maria Clara Vieira

Entrevistados:
Eulálio Figueira
Gabriel Siddartha
Guilherme Vona
Hernan Vilar
João Belmonte (Tody One)
Rafael Rodrigues
Tuanny Sufiatti

por
Yara Guerra, Humberto Tozze, Gabriel Damião e Vinicius Leite
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28/02/2020 - 12h

por
Fernanda Cui, João Pedro Calachi, Leonardo Castro, Luca Machado e Pedro Kipper
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28/02/2020 - 12h

O machismo do dia a dia é refletido nas diversas camadas da vida em sociedade - e a internet não estaria fora disso. Este podcast busca mostrar em quais situações ela ocorre, como uma vítima pode recorrer judicialmente e como isso se reflete psicologicamente na vida das envolvidas. Conheça também os projetos que ajudam mulheres a se prevenirem e lidarem com esse tipo de situação. 

por
Gabriel Solti Zorzetto, Bruno Verneque, Matheus Lopes Quirino e Vinicius Vieira
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28/02/2020 - 12h