Jornalista compartilhou sua trajetória e respondeu perguntas de alunos de Jornalismo da PUC-SP
por
Thaís de Matos
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23/04/2026 - 12h

“Desde cedo, eu entendi que eu tinha uma função de fazer a ponte entre as pessoas que precisavam ser ouvidas e as elites”. Mais de uma vez, o papel de “fazer a ponte” foi frisado como um motor para Juliana Rosa, jornalista de economia há mais de 25 anos. Ela é comentarista da área na Band TV, Bandnews TV e rádios Bandnews e Bandeirantes desde 2021. 

Na labuta, Rosa recebe autoridades, economistas e empresários, com o intuito de compartilhar conhecimento de forma simples, a fim de contribuir para um debate qualificado no país. Antes do Grupo Bandeirantes de Comunicação, a jornalista atuou 20 anos como analista de economia na GloboNews. Ela começou a carreira em 1997 em uma rádio popular do Rio de Janeiro, a Rádio Tupi, indiretamente por influência do pai. Tanto ele quanto a mãe são pernambucanos, que vieram para o sudeste a fim de melhorar as condições de vida. 

“Eu via meu pai, que trabalhou em uma rádio até o final da vida. Eu cresci vendo meu pai, ia trabalhar com ele, às vezes porque minha mãe ainda não tinha chegado [do trabalho]. E uma coisa que eu continuei fazendo, que ele fazia, era todo dia parar na porta da rádio e ouvir as pessoas que estavam ali”, relembra Rosa. Ainda dando continuidade à história, Juliana diz que ouvir essas pessoa foi o que a fez escolher o Jornalismo.

juliana rosa e pollyana ferrari
Juliana Rosa ao lado da professora Pollyana Ferrari / Foto: Thaís de Matos

“As pessoas ficam até hoje em portas de rádios populares porque são invisíveis na sociedade. E você parar ali é uma questão de obrigação jornalística, porque são aquelas pessoas que vão te dizer por que você é jornalista. Elas vão falar que não têm remédio, lixo, saneamento básico, que não comem direito, têm trabalho… Então, certamente isso me moldou completamente. A gente fica achando que a economia está muito longe, mas por que tais pessoas não têm condições de melhorar de vida? Quais são as pautas econômicas que a gente precisa discutir para que essa realidade mude?”, reforça Rosa.

A partir desse questionamento, ano passado ela lançou o livro “De galinha a gavião: como impulsionar o voo da economia brasileira", que tem como objetivo traduzir o "economês" para quem não é especialista, mas quer entender os mecanismos que travam o crescimento do Brasil. Para escrever o livro, Juliana conversou com alguns dos maiores nomes de cada área. “Foi a partir desse incômodo interior que eu tive a minha vida inteira que eu tive a coragem de escrever esse livro como jornalista. Não sou economista, mas quis ouvir os grandes especialistas para dizer que do jeito que está, não dá para ficar”. O título da publicação faz uma analogia entre o “voo” da galinha e a economia brasileira: ambos crescem, mas logo caem – não se sustentam. 

Ainda nessa linha, Juliana critica os jargões do “economês” que tanto são reproduzidos, mas não são devidamente explicados. “O ‘economês’ tem uma função, que é perpetuar as desigualdades, continuar falando para quem já é iniciado. Então, em toda a minha vida, a questão de traduzir a linguagem sempre foi a marca da minha profissão. É um esforço de compreensão, se as pessoas não entendem como você está falando, a gente está falhando”. Mesmo atuando há tanto tempo na editoria econômica, a jornalista diz que até hoje é interrompida ou ignorada por entrevistados homens. Para ela, o preparo é importante para se fazer ser mais ouvida. “A gente tem uma desvantagem, porque a visão machista ainda é muito grande. Isso tem melhorado devagarinho, mas acho que a gente tem que se impor pela nossa competência e se dar o respeito. É duro, cansa, nosso esforço [de mulheres] normalmente é maior, mas não tem outro caminho”, desabafa.  

Tática de retaliação iraniana restringe o fluxo de petróleo apenas a "nações amigas", eleva o barril do Brent a US$104 e acende alerta sobre nova onda de inflação mundial
por
Juliana Bertini de Paula
Maria Eduarda Cepeda
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27/03/2026 - 12h
Desde o último dia 2 de março, o Estreito de Ormuz passou a operar sob fortes restrições impostas pelo Irã a embarcações consideradas “hostis”, impactando diretamente navios ligados aos Estados Unidos, Israel e países europeus. A passagem, que conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico, não está totalmente fechada, mas funciona de forma seletiva, com autorização caso a caso sob controle da Guarda Revolucionária iraniana (IRGC), o que reduziu drasticamente o fluxo marítimo na principal rota energética do mundo.

A atual crise geopolítica se intensificou após os bombardeios conduzidos por Estados Unidos e Israel contra alvos iranianos no dia 28 de fevereiro, ofensiva que resultou na morte do líder supremo Ali Khamenei. A confirmação oficial do óbito ocorreu no mesmo dia pela mídia estatal, desencadeando uma escalada militar que culminou na eleição do linha-dura Mojtaba Khamenei, filho de Ali, como novo líder supremo em 8 de março. Como resposta aos ataques, Teerã passou a restringir o tráfego no estreito e a realizar ataques pontuais a embarcações comerciais, ampliando o risco na área.

O impacto da crise atinge diretamente uma das principais artérias da economia global: cerca de 20% do petróleo mundial e uma parcela significativa do gás natural liquefeito (GNL) passam pelo estreito. Com a queda de 95% no fluxo de navios de carga registrada nas últimas semanas, os mercados de energia enfrentam forte volatilidade. O barril do petróleo tipo Brent ultrapassou a marca dos US$ 100 em diferentes momentos ao longo do mês. Para tentar conter a crise de desabastecimento, a Agência Internacional de Energia (AIE) já liberou 400 milhões de barris de suas reservas emergenciais e estuda uma nova intervenção.

Para a economista Luciana Massaguer, formada pela PUC-Campinas, os efeitos já são concretos e devem se intensificar. “O choque de inflação já é uma realidade. Não é mais uma expectativa e é irreversível, não só por causa do petróleo, mas também por causa da energia, que está mais cara na Europa e na Ásia”, afirma. Segundo ela, a resposta das autoridades monetárias tende a ser limitada: “A resposta dos bancos centrais, como Fed, BCE e Banco Central do Brasil, é complexa, pois aumentar os juros para combater a inflação pode acelerar a recessão, enquanto cortá-los pode inflar ainda mais os preços.”

A transformação da região em uma zona de alto risco militar também elevou os custos do transporte marítimo internacional. Seguradoras passaram a restringir cobertura para embarcações na área, enquanto companhias de navegação evitam a rota — o custo para transportar um barril de petróleo chegou a duplicar desde o início do conflito. Embora não haja uma paralisação total incontestável, o estrangulamento do tráfego já representa um gargalo histórico para o comércio internacional.

Os efeitos começam a se expandir para além do setor energético. O encarecimento do transporte e a instabilidade na região impactam o fluxo de insumos agrícolas, incluindo fertilizantes, em um momento sensível para o calendário de plantio em diversas partes do mundo. “O impacto chega antecipado porque o mercado antecipa tudo. Os fretes encarecem os preços na base e a falta de seguro na navegação naquela região está gerando escassez”, explica Massaguer. Ela destaca ainda que o maior risco está na cadeia alimentar global: “O que pode afetar mais é a segurança alimentar e a oferta de fertilizantes que precisam passar por lá.”

Apesar disso, a economista avalia que os impactos no Brasil tendem a ser mais moderados no curto prazo. “Aqui no Brasil não acho que teremos problemas de segurança alimentar no curto prazo porque temos estoque, mas voltamos para o problema da inflação”, afirma.

No campo diplomático e militar, o cenário sofreu uma reviravolta na terça-feira (31). O governo dos Estados Unidos, sob a presidência de Donald Trump, passou a avaliar a possibilidade de encerrar a guerra contra o Irã mesmo que o Estreito de Ormuz permaneça fechado. O Pentágono avalia que uma operação militar direta para reabrir a rota marítima prolongaria o conflito, optando agora por uma estratégia focada em enfraquecer a Marinha iraniana e pressionar aliados. Paralelamente, os esforços para formar uma coalizão internacional de proteção marítima continuam enfrentando adesão limitada.

Para economias altamente dependentes da importação de energia, as alternativas logísticas seguem restritas. Oleodutos na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos operam próximos da capacidade máxima, mas conseguem desviar apenas parte do volume que normalmente atravessa o estreito. Esse limite evidencia a dependência estrutural global de uma rota estratégica que segue operando sob forte instabilidade e com perspectivas incertas de reabertura total.

Na avaliação de Massaguer, o tempo será um fator determinante para a gravidade da crise. “A economia mundial aguenta essa ‘asfixia’ por um curto período, de um a três meses, sobrevivendo com estoques e rotas alternativas. A partir do quarto mês, o esgotamento dos estoques e o custo proibitivo da energia tornam uma recessão profunda quase inevitável”, conclui.

Aplicativos começam a mudar a relação dos fiéis brasileiros, gerando impacto nas cerimônias
por
Sofia Morelli
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24/03/2026 - 12h

A religiosidade está passando por um processo de digitalização, alterando práticas religiosas tradicionais e o alcance das instituições. Com a reconfiguração da crença no mundo contemporâneo, surgem preocupações sobre o que pode estar sendo perdido durante o processo. A facilidade de acesso e de ampliação é um atrativo, que para muitos fiéis pode instigar a devoção a sua devida fé, mas historicamente a religião privilegiava o esforço na devoção, o que mudou com as transmissões de missas, cultos e o impulso da comunicação digital, tornando-se uma fé mais individualizada. 

Localizada no bairro Itaim Bibi, em São Paulo, a igreja Metodista do Itaim Bibi (IMIB) recorre à transmissões online como forma de atrair mais fiéis e trazer inovação por meio de "apps da fé". “As transmissões acabam trazendo benefícios para a igreja, porque alcança mais jovens e hoje em dia e está difícil atraí-los. A gente só tem dois jovens que frequentam", diz a pastora Meire. Ela assumiu o cargo em fevereiro de 2026 e já implementou um programa de transmissão dos cultos, que são divulgadas, por enquanto, em um grupo de WhatsApp. Com 47 milhões de fiéis protestantes no Brasil, segundo pesquisa IBGE (2022), a fé atravessou séculos com uma estabilidade admirável, sofrendo apenas algumas mudanças do tempo. Os meios de comunicação digital não chegaram para desestabilizar, mas como um processo natural da contemporaneidade. Por exemplo, o compartilhamento do evangelho e a inserção da igreja no ambiente digital atravessa novas fronteiras, podendo se aproximar de adeptos a fé que não costumam seguir a doutrina tradicional. 

Em 2021, a Igreja Adventista no Brasil começou a explorar esses novos formatos digitais com recrutamentos de desenvolvedores, apostando que esse novo mundo seria benéfico para a ampliação da doutrina. Carlos Magalhães, diretor de marketing digital da instituição Adventista, em uma entrevista para o Instituto Humanitas Unisinos, diz: " Eu só uso aplicativos, lá tem tudo. Vejo o horário do pôr do sol e leio um texto para fazer a meditação. É bom para quando estou em viagem e não levei a Bíblia, por exemplo. Assim posso receber o sábado com oração", diz.

 “No final quem acaba acessando, nos aplicativos que algumas igreja já usam ou no nosso grupo mesmo, são só pessoas que já fazem parte da comunidade e querem sentir as palavras de Deus, mesmo à distância”, conta pastora Meire, mas a cautela deve estar sempre presente. O intuito deve ser a ampliação ao invés da substituição da profundidade espiritual por uma mentalidade imediatista. Essência e adaptação podem andar lado a lado com equilíbrio, com a exploração das tecnologias e o mantimento dos valores, sem acompanhar as exigências do nosso presente.

Missa de Domingo (22) na Igreja Metodista do Itaim Bibi.

 


 

Uma análise sobre a passagem do físico e teórico alemão pelo Brasil e o apagamento das mulheres na ciência
por
Natália Matvyenko Maciel Almeida
Joana Grigório
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16/11/2025 - 12h

Em 1925, Albert Einstein desembarcou na américa do sul, na cidade do Rio de Janeiro, para uma sequência de palestras e nesse vídeo exploramos uma parte dos relatos escritos em seu diário e a falta de registros de pessoas racializadas e também de mulheres nas conferências.

Referências utilizadas para esse vídeo: 

1. Tolmasquim, Alfredo Tiomno. Einstein, o Viajante da Relatividade na América do Sul (2003)
Este livro oferece um olhar detalhado sobre a visita de Albert Einstein à América do Sul, incluindo sua passagem pelo Brasil. O autor explora a recepção do cientista e seu impacto no cenário científico da época.

2. Haag, Carlos. "Tropical Relativity" (2004)
Artigo publicado na revista Pesquisa FAPESP, que aborda os diários de viagem de Einstein na América do Sul, com destaque para suas observações sobre o Brasil e suas interações com a ciência local.

3. Moreira, Ildeu de Castro. Entrevista: Visita de Einstein ao Rio de Janeiro promoveu valorização da ciência pura (2025)
Entrevista com Ildeu de Castro Moreira, que discute o impacto da visita de Einstein ao Rio de Janeiro, enfatizando a valorização da ciência fundamental e os desdobramentos para a pesquisa no Brasil.

4. Fundação Oswaldo Cruz. Museu tem atrações em homenagem aos 100 anos da visita de Einstein (2025)
A Fundação Oswaldo Cruz celebra o centenário da visita de Einstein ao Brasil com exposições e atividades que relembram a importância histórica dessa passagem do cientista.

5. Observatório Nacional. 100 Anos de Einstein no Brasil (2025)
O Observatório Nacional comemora o centenário da visita de Einstein ao Brasil com uma série de palestras e reflexões sobre o impacto de sua passagem no campo científico brasileiro.

6. Rosenkranz, Ze'ev (org.). The Travel Diaries of Albert Einstein (2018)
Esta coletânea organiza os diários de viagem de Einstein, incluindo suas observações sobre diferentes regiões do mundo, com destaque para seus comentários sobre a América do Sul, e apresenta uma análise crítica sobre seus pontos de vista racializados.

7. Artigos de divulgação histórica sobre os diários de Einstein e racismo
Diversas publicações, como matérias da History.com e do The Guardian, discutem as anotações de Einstein sobre suas viagens à Ásia e outros lugares, destacando seus comentários sobre raça e cultura.

Nota de Checagem de Fatos
As informações sobre a visita de Einstein ao Brasil e seu impacto no país, incluindo o papel de Carlos Chagas e a análise dos diários de viagem, foram baseadas em fontes como Fiocruz, Observatório Nacional, e pesquisas de Ildeu de Castro Moreira. As reflexões sobre os comentários racializados de Einstein seguem a análise crítica adotada por estudiosos como Tolmasquim, Haag e Rosenkranz.

Releitura transmídia da estadia do físico no Rio de Janeiro em 1925
por |
03/11/2025 - 12h

Em maio de 1925, Albert Einstein visitou o Rio de Janeiro por uma semana hospedando-se no Hotel Glória, quarto 400. Apesar da recepção calorosa como celebridade, sua passagem foi um desastre cômico. A comitiva que o cercava não tinha um único físico ou matemático - apenas médicos, advogados, políticos e militares da elite social brasileira. No Clube de Engenharia, falou para uma plateia lotada que não entendia alemão nem suas ideias, em uma sala barulhenta e sem acústica. Na Academia de Ciências, teve que ouvir três discursos vazios em francês mal falado, incluindo um sobre "a influência da Relatividade na Biologia". O ápice foi quando o jurista Pontes de Miranda tentou desafiá-lo em alemão com considerações sobre metafísica e direito. Einstein levou de presente um papagaio que repetia "Data venia, Herr Einstein", lembrando-o sempre, com humor, da "ciência" dos doutores brasileiros.

“Einstein: visualize o impossível” é um projeto dos estudantes do quarto semestre de jornalismo da PUC-SP, da disciplina de jornalismo transmídia. O projeto aborda, de diferentes maneiras, uma releitura da icônica visita do físico ao Brasil em 1925. Todos os relatos estão em um site especial. Além de produções visuais e sonoras, o especial propõe uma narrativa em quadrinhos que conecta ciência, história e imaginação, tendo como cenário o Observatório Nacional (espaço que recebeu Albert Einstein). 

A produção contou com a colaboração de Bruno Matos, vice-diretor da Escola Estadual Professor Walter Ribas de Andrade. Já o vídeo “Os impactos de Albert Einstein na educação brasileira explicado por doguinhos” apresenta as contribuições das teorias do cientista para a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) a partir da entrevista com o professor de física Dediel Oliveira.  

Em “Diário do Einstein”, o leitor encontra coletânea de depoimentos em formato de diário sobre a passagem de Albert Einstein pelo Rio de Janeiro no ano de 1925, comentando ao longo de cada dia, pontos turísticos e palestras presenciadas por ele. No podcast "A carta que revolucionou a corrida armamentista", discute carta assinada pelo físico Albert Einstein em agosto de 1939, que alertava o presidente dos EUA, Franklin D.Roosevelt, sobre o potencial da Alemanha nazista em desenvolver uma bomba atômica.

O vídeo vertical “Einstein no Brasil” narra o encontro do físico com Carlos Chagas, marcando um momento científico crucial. A produção destaca a troca intelectual entre os dois grandes nomes da época. Por fim, é possível compreender uma sutil crítica sobre a omissão de um encontro com cientistas mulheres consagradas, como Bertha Lutz. Em “Einstein: uma análise de sua trajetória política”, as cartas de Einstein e seus discursos que expressavam preocupação com a violência e os conflitos no Oriente Médio são revisitadas. Nas declarações, o físico defende uma convivência justa entre judeus e árabes, e o projeto analisa como suas palavras ecoam no contexto atual da guerra entre Israel e Palestina, mostrando que o tempo passa, mas as perguntas sobre humanidade e coexistência continuam urgentes. 

Finalmente, o livro "Os Sonhos de Einstein", de Alan Lightman, pela Cia das Letras, apresenta uma série de sonhos imaginários que o jovem Albert Einstein teria tido enquanto desenvolvia a Teoria da Relatividade, em 1905. Em cada um deles, o tempo funciona de um jeito diferente, às vezes para, volta ou corre mais rápido e essas variações servem para refletir sobre a vida, as lembranças e as escolhas humanas. "Neste mundo, a textura do tempo parece ser pegajosa. Porções de cidades aderem a algum momento na história e não se soltam. Do mesmo modo, algumas pessoas ficam presas em algum ponto de suas vidas e não se libertam".
 

Montadora alemã denunciava trabalhadores “subversivos” para a polícia
por
Matheus Almeida
Anderson Santos
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29/04/2024 - 12h

Em 2024 completamos 60 anos do início da Ditadura Militar Brasileira. Durante os 21 anos que permaneceu no poder, o governo praticou abusos de poder e crimes contra sua própria população. Porém a violência não foi apenas estatal, visto que existiram empresas que colaboraram com o regime ditatorial. Uma delas é a atual segunda maior montadora de carros no mundo, a Volkswagen. 

Durante os anos de repressão a empresa trabalhou em conjunto com os órgãos de segurança pública, mantendo um controle ideológico dos seus funcionários e denunciando aqueles que apresentam qualquer atividade considerada “subversiva”. Um exemplo foi a demissão do eletricista José Miguel, despedido por distribuir um jornal entre os trabalhadores, além disso suas informações pessoais foram entregues à polícia. Não só informações eram entregues como os empregados também, sendo permitido prisões ilegais dentro das fábricas. Henrich Plagge foi um deles. Preso dentro do local onde trabalhava, Plagge foi levado ao DOPS e ficou encarcerado por cerca de três meses, submetido a torturas. O verdadeiro paradeiro dele foi ocultado, no dia da prisão, um gerente da fábrica foi a casa de Henrich e contou para sua esposa, Neide, que ele havia viajado a trabalho. 

Os operários que tinham contato com sindicatos eram classificados como “indesejáveis” e colocados nas chamadas “Listas Negras”, documentos com nome e endereço dos observados. As pessoas presentes nessa lista eram proibidas de serem empregadas em outras empresas e principalmente cargos de gerência e chefia. Outras companhias também contribuíram com essa lista, porém foi a Volkswagen quem mais registrou funcionários, 73. 

Em 2015, dez centrais sindicais e outras entidades civis entraram com uma representação no Ministério Público contra a Volkswagen, com base em levantamentos feitos pela Comissão Nacional da Verdade, onde foi apontada coparticipação da empresa alemã em repressões realizadas durante o regime militar. O MP iniciou negociações para a assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta com a montadora em 2018, procurando um acordo para recompor danos causados às vítimas da repressão. Em 2020, mesmo com contradições, ambas as partes chegaram a um acordo com a empresa tendo que pagar R$36 milhões para ex-trabalhadores de suas fábricas que foram perseguidos durante o período. Isso livrou a Volkswagen de possíveis processos judiciais. 

O Ministério Público Federal (MPF) em 31 de março de 2021, divulgou o relatório final sobre a investigação da participação da Volkswagen na ditadura militar no Brasil (1964-1985), apontando que a montadora alemã se aliou de maneira autônoma ao regime e participou de diversos atos de repressão política. O relatório do MPF aponta que, apesar de não existirem provas que ligam a empresa alemã ao começo do Golpe, ela esteve presente no apoio a sua manutenção e obteve benefícios financeiros e de privação de direitos. Friedrich Schultz-Wenk, presidente da Volks em 1964, era ex-filiado ao partido nazista e demonstrava apoio aos militares em ações contra membros e apoiadores de partidos de esquerda.

Lucio Bellentani
Lúcio Bellentani, ex-funcionário da empresa - Foto: Lucas Lacaz Ruiz/Folhapress

Segundo o relatório, a Volkswagen por meio do seu Departamento de Segurança Industrial, delatava os seus trabalhadores aos órgãos de repressão do regime e prisões foram efetuadas dentro das fábricas. Lúcio Bellentani, ex-funcionário da Volks, declarou à Comissão da Verdade de São Paulo: “na hora em que cheguei à sala de segurança da Volkswagen, já começou a tortura, já comecei a apanhar ali, comecei a levar tapa, soco” 

Bellentani também disse em entrevista ao Brasil de Fato que ainda sofre com as consequências psicológicas. "Eu passei a ser uma testemunha viva do ocorrido dentro da fábrica. Eu fui preso lá, comecei a ser torturado lá. Foram 48 dias de pancadaria e tortura, não tinha dia nem hora. O problema é a sequela psicológica. Quem paga o pato é a minha esposa. Principalmente nesse período que estou dando bastante depoimento, tem noite que eu sonho que estou brigando". 

A Volkswagen também esteve presente em mobilizações para enfrentar as greves dos metalúrgicos que ocorreram entre 1979 e 1980 demonstrando, segundo o relatório, que ela "agiu para criminalizar as lideranças sindicais, colaborando com a polícia política para reprimir o movimento". 

A mostra reúne obras de presos políticos, projeto realizado pelo coletivo “Mulheres Possíveis” e acervo de resistência LGBT durante a Ditadura Militar
por
Ana Julia Bertolaccini
Raissa Santos Cerqueira
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28/04/2024 - 12h

“Toda obra de arte precisa ser exposta, principalmente sobre um período tão sombrio da nossa história, tão triste, tão horroroso e que a gente não pode deixar de falar sobre", afirma Alberto Iszlaji Júnior, professor de história graduado pela PUC-SP durante visita à exposição “Sol Fulgurante: Arquivos de Vida e Resistência”. A parceria da Pinacoteca com o Memorial da Resistência reúne obras feitas por presos políticos durante o golpe militar que partem da Coleção Alípio Freire, doada ao Memorial em 2023, e ficará em cartaz até 18 de agosto na Pina Estação, com entrada gratuita aos sábados.

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(Obra “Fantasmas da Esperança” de Marcela Cantuária - 2018/Foto: Ana Julia Bertolaccini)

“Sempre que eu trago os alunos aqui (no Memorial), o objetivo é que eles reflitam sobre a luta pela liberdade e pelo estado democrático de direito que temos hoje”, afirma, em entrevista à AGEMT, Ronaldo Silva, professor de história e filosofia que levou seus alunos para uma visita ao local.

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(Entrada da Exposição/Foto: Ana Julia Bertolaccini)

A exposição se divide em três partes, sendo a primeira delas um conjunto de pinturas, colagens e outros tipos de arte, produzidas em presídios da cidade de São Paulo nos anos 1970, como Carandiru, Tiradentes e o Presídio Militar Romão Gomes (Barro Branco). A segunda seção, parte de um projeto artístico realizado pelo coletivo “Mulheres Possíveis”, concluído em 2019, composto por desenhos e cartas descritivas desenvolvidas por mulheres em situação de cárcere na Penitenciária Feminina da Capital.

A última parte é destinada ao Acervo Bajubá, com arquivos que registram as memórias de resistência da comunidade LGBT+ durante o período militar. “A gente não pode esquecer que entre os anos 1960 e os anos 1970, a liberdade dos corpos era muito latente, lá fora principalmente, e essas influências entravam aqui (no Brasil) apesar da ditadura, então tinha muita resistência.”, afirma Alberto.

Muitas das obras são da autoria do jornalista Alípio Freire (In Memorian), preso político encarcerado e torturado no presídio Tiradentes, e tem destinatários identificados, pois eram enviadas como cartas para parentes, amigos e conhecidos. O jornalista, escritor e artista plástico detido pelo regime militar aos 23 anos, passou cinco anos prisioneiro devido ao seu envolvimento com a militância contra a ditadura. “O Brasil nessa época tinha uma Lei de Segurança Nacional que prendia elementos subversivos e aí a definição de elemento subversivo era qualquer coisa.” Explica Alberto à AGEMT.

“Uma pessoa que estivesse andando na rua e fizesse alguma crítica a um militar poderia ser presa como elemento subversivo, assim como algum membro da luta armada.” Adiciona o professor. Alípio e todos os presos políticos detidos pelos militares entre 64 e 85 eram considerados elementos subversivos ao regime. 
“Na minha opinião, acho que a arte é uma forma de você resistir a alguma coisa, geralmente. E o estar preso naquelas condições, daquela forma é muito difícil você resistir, então encontrar na arte algum lugar pra resistência é fundamental.” Afirma Alberto.

Todas as obras expostas pela Pinacoteca foram produzidas por presos políticos encarcerados em diversos presídios de São Paulo, algumas das obras também foram produzidas por presos ainda no DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). As produções se divergem entre pinturas explícitas que fazem referências claras à ditadura e pinturas mais poéticas que passam uma mensagem mais simbólica e menos explícita. “Pode ser tanto um recado que você está dando para o seu torturador mesmo que seja de forma não tão explícita assim porque você também não quer que isso seja algum tipo tipo de censura, seja atrapalhado de alguma forma; ou pode ser pura e simplesmente expressão de uma pessoa que está presa durante a ditadura”, opina o professor. 

O projeto artístico desenvolvido pelo coletivo “Mulheres Possíveis” traz a discussão sobre o sistema carcerário atual brasileiro e sua relação com o passado opressor e violento dos anos de chumbo. Para Alberto: “Boa parte da situação carcerária que a gente tem hoje, falando de problemas, falando sobre crime organizado principalmente, vem da ditadura. É um resquício dela” e, acrescenta: "o que a gente vê hoje da situação carcerária, da pessoa ser presa tendo um delito pequeno e entrando no sistema carcerário, não conseguir mais deixá-lo, de alguma forma é também um resquício disso.” completa. 

“O Brasil não olha para sua população carcerária de forma adequada, o Brasil teme, e parece que é um temor de discutir o assunto, é como se estivesse ‘defendendo bandido’ quando na verdade não". A área da exposição reservada à memória das resistências LGBT+ durante o período conta com revistas e jornais produzidos com foco na comunidade, usando principalmente capas do jornal “O Lampião da Esquina”, que foi o primeiro jornal de circulação nacional feito “por” e “para” homossexuais. Ele circulou entre abril de 1978 e julho de 1981 surgindo dentro do contexto de imprensa alternativa da época. Os itens foram reunidos pelo acervo Bajubá, um projeto comunitário que se dedica ao registro de memórias das comunidades LGBT+ brasileiras. Eles também reúnem  uma coleção de itens que registram a diversidade sexual e a pluralidade de expressões e identidades de gênero no Brasil. O Bajubá colabora com exposições, capacitações e projetos de produção, mediação e circulação de narrativas sobre as histórias de pessoas LGBT+ no território nacional.

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(Jornais que pertencem ao Acervo Bajubá/Foto: Ana Julia Bertolaccini)

 

Pinturas, Esculturas, Cerâmica e outros segmentos artísticos compõem Feira que acontece aos domingos em frente ao Parque Trianon
por
Ana Julia Bertolaccini
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26/04/2024 - 12h

A Feira de Arte, Artesanato e Cultura acontece todo domingo das 09:00 às 17:00 na Avenida Paulista, em frente ao Parque Siqueira Campos, conhecido como Parque Trianon. Cerca de 126 expositores se dividem entre as Artes Plásticas, o Artesanato, a Gastronomia e a Floricultura.

 

Os artistas e artesãos que apresentam, vendem e produzem seus trabalhos não se limitam ao local da feira. Composições feitas de crochê, acrílico, material reciclável e muitos outros elementos podem ser encontradas ao longo da Avenida, nas calçadas e na rua, que é restrita para a circulação de automóveis aos domingos das 09:00 às 16:00.

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(Santinhos de cerâmica sendo esculpidos pelas mãos de uma artesã/foto: Ana Julia Bertolaccini)
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(Esculturas de cerâmica finalizadas e expostas na Avenida Paulista/Foto: Ana Julia Bertolaccini)
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(Neide e suas esculturas e itens feitos em acrílico, expostos na feira do Trianon/ Foto: Ana Julia Bertolaccini)
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(Cláudia e sua barraca de artesanato sustentável, feito com garrafas pet, cápsulas de café e latas de alumínio/Foto: Ana Julia Bertolaccini)
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(Item de decoração feito de garrafa pet e lacre de latinha/Foto: Ana Julia Bertolaccini)
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(Everson na produção de suas esculturas feitas com Fibra de Vidro/Foto: Ana Julia Bertolaccini)
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(Esculturas de Girafas feitas com fibra de vidro/Foto: Ana Julia Bertolaccini)
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(Pinturas sobre tela expostas na Avenida/Foto: Ana Julia Bertolaccini)
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(Xohã, Artista Indígena Pataxó/Foto: Ana Julia Bertolaccini)
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(Arte indígena exposta na Avenida Paulista/Foto: Ana Julia Bertolaccini)
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(Feira de antiguidades do Masp/Foto: Ana Julia Bertolaccini)
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(Zilda e seus bonecos feitos de crochê/Foto: Ana Julia Bertolaccini)

 

Em exibição até o final de abril, a exposição aborda a construção do samba brasileiro a partir da resistência negra
por
Mohara Ogando Cherubin
Julia da Justa Berkovitz
Giulia Fontes Dadamo
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16/04/2024 - 12h

Com acervo de 380 itens, o Instituto Moreira Salles (IMS) conta a história da comunidade de negros, ciganos e imigrantes judeus e italianos que se alojaram na Zona Portuária do Rio de Janeiro. Conheça na exposição “Pequenas Áfricas: o Rio que o samba inventou" (até 21 de abril de 2024) como esse grupo foi importante para a formação da cultura, a música e a diversidade religiosa brasileira como conhecemos hoje. 

“Pequenas Áfricas: o Rio que o samba inventou" celebra a criação do samba para além do significado de apenas um ritmo musical, ela resgata suas origens, significados e principais figuras. Pixinguinha, Dona Ivone Lara, Clementina de Jesus e Cartola e as Tias são apenas alguns dos personagens que são evidenciados na amostra.  Além disso, o surgimento das escolas de samba nos subúrbios cariocas é ressignificado como uma forma de luta por direitos e cidadania.

Saiba mais sobre a exposição por meio do link

A atriz contou sobre sua preparação para a protagonista no filme ‘’Domingo À Noite’’, com estreia marcada para esta quinta-feira (04)
por
Giovanna Montanhan
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03/04/2024 - 12h

O drama “Domingo À Noite” narra a história do casal formado por Margot (Marieta Severo) e Antônio (Zé Carlos Machado), uma atriz renomada e um escritor famoso, portador de Alzheimer avançado. Durante a pré-estreia que aconteceu na terça-feira (26), Marieta Severo, em entrevista para a AGEMT, revelou como se encontrou dentro do papel: “Busquei enxergar o personagem, enxergar a ficção fora da minha vida”.

O longa começa quando Margot descobre que, além do marido, ela também é portadora de Alzheimer, enfrentando uma batalha contra a própria sanidade e a família. Com roteiro de Bruno Gonzalez e direção de André Bushatsky, o filme também conta com Natália Lage, Johnnas Oliva, Hugo Bonemer, Karen Coelho, Bárbara Santos e Isio Ghelman no elenco. 

Por sua atuação em Domingo À Noite, Marieta recebeu o prêmio na categoria de Melhor Atriz no Madrid Film Awards, em 2023. O cineasta André Bushatsky revelou, também em entrevista, que a inspiração do longa veio do filme norte-americano ‘Álbum de Família’ (2013).

A protagonista contou sobre a experiência de encarnar a própria profissão dentro das telas, ”O fato dela [Margot] ser uma atriz, é claro que é mais próximo a mim. Mas eu tentei fazer essa mulher, esse ser humano, com todas as características dela, com todas as vivências, com todas as emoções, com coisas que são pertinentes à vida dela”.

A dualidade da personagem, segundo ela, veio de ’’construir essa Margot, essa mulher específica, [...], ela é também uma atriz, com as características dela, com os problemas dela, com o que ela está enfrentando, com a vida dela, é esse ser humano específico. E é atrás disso que eu vou”.

Aproveitando a deixa de sua resposta, Marieta, quando perguntada sobre a fusão entre si e a personagem, confessou que não tentou trazer a personagem para perto em momento algum. 

“Eu não me baseei em ninguém, mas me baseei nela [Margot]. Em todos os elementos, você fica realmente ‘catando’, ‘cavucando’ como um minerador em uma gruta tentando buscar o ouro. É o que a gente fica fazendo’’, disse Marieta, sobre as inspirações para o papel, e complementou: “Buscar meu ouro em cada palavra que eu tenho ali (...) eu gosto das palavras, eu me alimento das palavras, eu vivo das palavras’’.

Marieta finalizou a entrevista afirmando que o roteiro é o seu norte, e que destrincha as palavras e seus significados no texto, com o intuito de angariar o máximo de bagagem que conseguir para, então, moldar não só esse trabalho, mas todos os outros que já fez.