No último final de semana, aconteceu o Grande Prêmio da Áustria, conhecido pela predominância da torcida laranja de Max Verstappen, mas também por ser a casa da sua equipe, a Red Bull.
O holandês fez a pole no classificatório da sexta-feira, que era válida para a corrida do domingo. Charles Leclerc (Ferrari) completou a primeira fila e seu companheiro de equipe Carlos Sainz foi o terceiro mais rápido.
SÁBADO É DIA DE SPRINT
No começo do dia, no Shootout, o treino qualificatório para a corrida rápida no sábado, Verstappen foi o mais rápido novamente, seguido por seu companheiro de equipe, Sérgio Pérez – essa dupla se manteve nas duas primeiras colocações durante a corrida Sprint, que aconteceu em seguida, garantindo oito e sete pontos, respectivamente. Mesmo com uma disputa na primeira volta, o holandês ganhou com 21 segundos de vantagem, em uma prova de apenas 24 voltas
A surpresa no classificatório ficou por conta de Nico Hülkenberg (Haas), que fez o quarto tempo mais rápido, mas terminou a corrida em sexto. Além dele, também pontuaram Carlos Sainz (Ferrari), – que ficou com a terceira colocação – Lance Stroll e Fernando Alonso, da Aston Martin, Esteban Ocon (Alpine) e George Russell (Mercedes).
DOMINGO AUSTRIACO: PARTE UM
Tal qual um cliché, Max Verstappen garantiu mais uma vitória e consequentemente um ponto alto em seu currículo: o piloto se tornou o quinto maior vencedor da história da Fórmula 1. Além deste marco, o holandês também conquistou o posto de piloto com mais triunfos no GP da Áustria após seu quarto troféu.
Seu primeiro lugar foi conquistado após uma tênue disputa logo no início da corrida com Charles Leclerc, da Ferrari, que apesar de derrotado facilmente por Verstappen, se manteve firme na segunda posição e subiu ao pódio pela segunda vez em 2023.
O domingo também foi satisfatório para o outro piloto da Red Bull, Sergio Pérez, que após uma não tão boa classificação na sexta (30), pulou 12 posições, da 15º para a 3ª colocação. Já para Mercedes, o fim de semana não proporcionou bons resultados: Lewis Hamilton protagonizou junto do chefe de equipe, Toto Wolff, um desentendimento por rádio. Ao reclamar das punições que estava prestes a receber sobre ultrapassar os limites da pista e sobre as condições do carro, o piloto inglês foi interrompido pelo chefe da equipe: “Lewis, o carro está ruim, nós sabemos. Por favor, pilote!”. O acontecimento só serviu para trazer mais especulações sobre a longa novela de renovação do contrato de Hamilton com a equipe. Momento depois, Toto afirmou à imprensa que o episódio não teria sido nada demais e não interferia nas negociações. A Mercedes não terminou o fim de semana bem colocada: George Russell cruzou a linha de chegada em 7º, seguido por Lewis Hamilton em 8º.
Vale destacar o bom desempenho de Lando Norris neste fim de semana. Depois de melhorias no seu carro, MCL60, para o GP da Áustria, o piloto britânico terminou a corrida na 5ª posição em contraste com o atual ritmo de corrida da McLaren, que teve como melhor posição no ano o 6º lugar no GP da Austrália.
DOMINGO AUSTRIACO: PARTE DOIS
Após inúmeras punições tardias, o GP da Áustria só teve seu final realmente concretizado horas depois da cerimônia de encerramento. A Federação Internacional de Automobilismo (FIA) puniu 8 pilotos do grid, depois de longas investigações de ultrapassagens dos limites da pista. Os principais prejudicados foram Carlos Sainz, Lewis Hamilton e Pierre Gasly, todos com 10s, acrescentados aos seus tempos. Mas o que mais chocou foi a punição de 30s para Esteban Ocon, da Alpine. O pódio foi mantido.
A ação da FIA trouxe revolta nas redes sociais. Muitos questionaram quais parâmetros a entidade – que deveria zelar pelo esporte ao invés de expô-lo ao ridículo - utilizou para penalizar os pilotos.
Os pilotos voltam ao grid no próximo final de semana, para o tradicional circuito de Silverstone, na Inglaterra – sede da maior parte das equipes e país natal de alguns pilotos.
O Japão é um país do continente asiático e, apesar de não estar entre os maiores países do mundo em extensão geográfica, está entre os mais populosos. Apenas a região metropolitana de Tóquio, capital do país, conta com mais de 13 milhões de pessoas, já o país como todo, contabiliza mais de 120 milhões.
O Japão utiliza o sistema parlamentarista, e o primeiro-ministro é Yoshihide Suga. Ele assumiu o cargo em setembro de 2020, sucedendo Shinzo Abe. Como líder do Partido Liberal Democrático (PLD), Suga exerce o papel de chefe de governo e é responsável por liderar o Japão em questões políticas, econômicas e sociais, além de representar o país em negociações internacionais.
A cultura do país é muito rica e diversificada, marcada pela variedade culinária, tanto que a ONU (Organização das Nações Unidas) a reconhece como um Patrimônio Imaterial Cultural. Fora isso, o país também é marcado por apresentar um forte desenvolvimento em educação, tendo um dos maiores índices de educação do mundo com 99% da população alfabetizada, segundo dados do Census Bureau.
Histórico em Copas do Mundo
A seleção japonesa, também apelidada de as "nadeshiko" - derivado do termo "yamato nadeshiko", que significa o protótipo de beleza feminina japonesa -, participou de todas as edições da Copa do Mundo desde o início da competição, em 1991. Em 2011, as nipônicas tiveram a sua melhor campanha, ao conquistar o título de campeãs diante da forte seleção dos Estados Unidos em uma emocionante disputa de pênaltis. Naquela edição, a equipe japonesa integrou o grupo B junto a Inglaterra, México e Nova Zelândia, e se classificou como segundo colocado, tendo duas vitórias e uma derrota. A primeira colocada do grupo foi a Inglaterra, com duas vitórias e um empate.
Na fase eliminatória, a seleção venceu a Alemanha pelo placar de 1 a 0. Nas semifinais saíram com a vitória por 3 a 1 diante da seleção da Suécia. No duelo da grande final, contra os Estado Unidos, com um empate no tempo regular, foram campeãs após se sairem melhor na disputa de pênaltis por 3 a 1.
O título se tornou algo marcante e emblemático para o país, já que meses antes o país tinha sido assolado por um desastre natural sem precedentes. Em 11 de março daquele ano, ocorreu o Grande Terremoto do Japão Oriental, o pior desastre natural já visto em sua história. O terremoto causou enormes danos, destruiu lares e famílias, deixando uma profunda cicatriz no país. O Japão enfrentou a difícil tarefa de reconstruir a região afetada, lidar com usinas nucleares danificadas e enfrentar a crise energética resultante da tragédia.
Pelas circunstâncias, as jogadoras japonesas chegaram a pensar sobre a não participação na Copa do Mundo. Destemidas, as atletas estiveram à altura do desafio e decidiram entregar tudo que tinham para alcançar a melhor atuação e fazer por merecer o título, em homenagem as pessoas que foram afetadas pelo desastre.
Eliminatórias da Copa
A seleção foi uma das primeiras equipes a conquistar vaga na Copa. A equipe conquistou o feito em janeiro de 2022, em partida válida pela Copa da Ásia. O Japão garantiu vaga ao golear a Tailândia por 7 a 0, com destaque para Yuika Sagasawa, autora de quatro gols. Miyazawa, Sumida e Ueki fecharam o placar. Pelo torneio, a seleção avançou até as semifinais, sendo derrotada para a China, que mais tarde se tornou campeã diante da Coreia do Sul.
Estilo de jogo e os destaques da equipe
O time comandado pela treinadora Asako Takakura, joga tradicionalmente em um 5-4-1 ou também em um 5-3-2 em vista dos jogos mais recentes da equipe, como foi utilizado nas últimas competições como a She Believes Cup e a Copa da Ásia.
A Espanha, ou Reino da Espanha, é um país europeu localizado na Península Ibérica, a leste de Portugal, e tem como capital a cidade de Madri. O território espanhol apresenta climas continental e mediterrâneo, sendo atravessado por uma cadeia montanhosa chamada de Sistema Central. Com uma população de mais de 45 milhões de habitantes, a Espanha representa um importante centro cultural europeu. Além disso, sua economia é a sexta maior da Europa, com destaque para as atividades turísticas, o comércio e a indústria de transformação.
E as mulheres no futebol ?
As mulheres organizaram suas primeiras equipes de futebol no país em 1914, no entanto, esse crescimento foi freado durante a ditadura franquista (1939-1975), ocasião em que algumas modalidades como o futebol, o rugby, o atletismo de competição e os esportes de combate, foram contraindicado para mulheres. O motivo exposto era que as modalidades foram consideradas, pelo discurso médico, como algo prejudicial à biologia feminina.
Tal discurso declinou apenas no final da década de 1960, durante a distensão do período ditatorial e abertura da liberdade de imprensa. Acompanhando um movimento mundial de retomada do futebol de mulheres, em 1971, se realizou o primeiro campeonato da Espanha de futebol feminino, com quatro equipes, denominado de Copa Fuengirola Costa Del Sol. A partir de 1980, o futebol feminino foi incluído na Federação Espanhola de Futebol.
Nos últimos anos, a Espanha tem assistido a recordes de público nos jogos femininos, embalados pelas equipes do Atlético de Madrid, Barcelona e Real Madrid. A Liga F recebe esse nome por ainda não ter patrocínio oficial da competição, e tirando as equipes já citadas, as outras 13 equipes recebem pouco ou nenhum investimento.
A Espanha não tem a melhor jogadora/equipe do mundo, ainda não tem resultados expressivos, mas, mesmo assim, tem muito a nos ensinar enquanto organização do futebol feminino, a valorização das categorias de base é um ponto forte das espanholas, proporcionando frutos promissores para o futuro da seleção.
Virada de chave
A primeira vez que a Espanha se classificou para a Copa do Mundo foi somente em 2015, foi a partir deste feito que a federação realmente começou a se comprometer com o futebol feminino e as jogadoras começaram a ser profissionais. Houve um crescimento exponencial das equipes em termos físicos, de recursos e principalmente de investimento financeiro.
No início de 2020, as jogadoras da primeira divisão feminina fecharam um acordo histórico em toda a liga que garantia a todas as jogadoras de futebol um salário anual.O salário mínimo da jogadora em tempo integral acordado para uma semana de 40 horas foi de € 16.000 (cerca de R$ 86.000) e para uma semana de meio período de 30 horas € 12.000 (R$ 64.000), com ambos incluindo licença maternidade, pagamento por lesão, férias remuneradas e um acordo de televisão com patrocínio principal da empresa de energia renovável, a Iberdrola.
Com o acordo finalmente garantido, as jogadoras da primeira divisão começaram a dedicar exclusivamente suas vidas profissionais ao futebol.
Na prancheta
O estilo de jogo das Rojas tem semelhanças com a seleção masculina que dominou o futebol mundial e europeu entre 2008 e 2012, com uma grande quantidade de jogadores do Barcelona conquistador de Pep Guardiola. Nove jogadoras da atual equipe feminina do Barcelona foram convocadas para o elenco de 23 jogadoras para a Euro 2022, e seis foram titulares na partida de abertura da equipe.
Assim como o Barça de Guardiola e a seleção espanhola da época, o estilo desta seleção trabalha com o famoso “tic-taca”, retendo a posse de bola e procurando com calma o momento certo para agredir seus adversários.
A equipe é comandada pelo técnico Jorge Vilda, nomeado depois de comandar as equipes sub-17 e sub-19 femininas em vários títulos do Campeonato da Europa e muitas das jogadoras que desempenharam um papel fundamental no sucesso dessas equipes são agora peças integrantes da Seleção. Com Vilda, a equipe espanhola conseguiu o extraordinário feito de sete vitórias e um empate, marcando 48 gols e sofrendo apenas um durante as eliminatórias da Euro de 2022.
Entretanto, o clima com o treinador não é dos melhores. Depois da disputa da Eurocopa Feminina, cuja seleção caiu nas semis, as capitãs espanholas e várias jogadoras pediram a Jorge Vilda que se afastasse para tentar dar um ar fresco à equipe para a Copa do Mundo de 2023. O elenco, com a grande maioria das jogadoras apoiando esta causa, considera que a equipe espanhola sofre de um impasse com os métodos e decisões do treinador nos últimos jogos.
De acordo com o jornal "Marca", o presidente da RFEF, Luis Rubiales, recebeu um e-mail de cada uma das 15 jogadoras (Ainhoa Moraza, Patri Guijarro, Leila Ouahabi, Lucía García, Mapi León, Ona Batlle, Laia Aleixandri, Claudia Pina, Aitana Bonmatí, Andrea Pereira, Mariona Caldentey, Sandra Paños, Lola Gallardo, Nerea Eizaguirre y Amaiur Sarriegi), informando que estavam lesionadas e pedindo para não serem convocadas para os jogos da seleção.
No comando da seleção espanhola há sete anos, Jorge Vilda, que tem contrato até 2024, não conquistou nenhum título com a equipe, mesmo tendo um elenco qualificado e favorito em diversas competições. A Espanha garantiu seu lugar na Copa do Mundo Feminina de 2023 depois de somar o máximo de pontos em seus oito jogos de qualificação. Diante disso, a diretoria espanhola decidiu manter seu técnico.
Estreladas
O elenco está recheado de craques, dentre elas, a artilheira de todos os tempos, Jenni Hermoso, com o inteligência para vencer sozinha qualquer jogo e a meio campista Alexia Putellas que deu um show de futebol na final da Champions League deste ano.
Putellas e Hermoso ficaram em primeiro e segundo, respectivamente, na classificação da Bola de Ouro, em 2021. Além disso, Aitana Bonmati e Patri Guijarro formam o coração do meio campo da Academia do Barça.
A projeção para a competição é uma caixa de surpresas. Apesar do clima do elenco estar conturbado, as atletas apresentaram bons resultados nas últimas competições. Entretanto, uma Copa do Mundo é um campeonato grandioso e as Rojas não tem a experiência das seleções tradicionais, o time pode surpreender, mas certamente terá que extrair seu melhor para ganhar a competição.
A Costa Rica é um país localizado na América Central banhado por suas belas praias do mar do Caribe. Conta com pouco mais de 5 milhões de habitantes espalhados por seu território de 51.179 km². Sua capital, San José, se encontra no coração do país, rodeada de montanhas, vegetação tropical e de um belo litoral caribenho.
A República da Costa Rica possui um sistema presidencialista, a nação ocupa hoje 17º posição no índice de democracia, no ranking elaborado pela revista The Economist em 2021, sendo considerada o segundo país mais democrático da América Latina, atrás apenas do Uruguai.
Os costarriquenhos foram considerados o povo mais feliz do mundo de acordo com o World Database of Happiness em 2020, possuindo indicadores elevados em educação e saúde. Um fato curioso é que o país aboliu seu exército em 1948, dando início a uma forte política de pacifismo que rendeu até um Nobel da paz ao ex-presidente Óscar Arias, por mediar o acordo de paz entre os vizinhos El Salvador e Nicarágua.
Las Ticas outra vez
A seleção costarriquenha vem para a sua 2ª participação na Copa do Mundo Feminina, sendo sua primeira na edição do Canadá, em 2015, quando parou na fase de grupos, com 2 empates e 1 derrota, sendo essa para a seleção brasileira por 1 a 0.
As ‘La Ticas’, como são conhecidas por seus torcedores, conquistaram a vaga para o mundial após ficar em 4º lugar no campeonato classificatório da Concacaf.
8 anos de projeto
A Equipe é comandada por Amelia Valverde, técnica mais jovem desta Copa, mesmo com 36 anos, a treinadora também vem para o seu segundo mundial. Assumiu o papel de comandante da sua seleção às vésperas da Copa do Mundo de 2015, mas desde 2011 integra o corpo técnico da Costa Rica. Colecionando trabalhos em seleções de base até a principal, Valverde é a cara do projeto de futebol do país.
Apesar da conquista da vaga na copa, a seleção costarriquenha não obteve bons resultados em 2023. Com 5 jogos no ano, as ‘La Ticas’ ainda não venceram, foram 3 Derrotas e 2 empates.
Com um meio-campo recheado de estrelas, a equipe de Amelia é escalada em um 4-2-3-1, com um ataque que consegue ser criativo em triangulações mesmo enfrentando grandes equipes. A grande dor de cabeça para a treinadora deve ser a defesa, são 9 gols sofridos nos últimos 5 jogos.
A juventude e a experiência
A seleção da Costa Rica vive o fenômeno de encontro entre duas gerações. A geração precursora de Shirley Cruz – bicampeã da Champions feminina – já com 37 anos, passa o bastão para jogadoras mais jovens, que viveram juntas em uma forte seleção de base e estarão na sua primeira Copa do Mundo, como a atacante Priscila Chinchilla.
Chinchilla é o símbolo dessa nova geração costarriquenha. A atacante de 21 atua pelo Glasgow City, atual campeão da Liga Escocesa. Na temporada, marcou 14 gols e deu 7 assistências. No ano passado foi eleita a melhor jogadora da temporada no campeonato escocês.
Outro destaque é Raquel Rodríguez, que traz consigo a experiência de ter marcado o primeiro gol da história do seu país na Copa do Mundo em 2015. A meia-atacante do Portland Thorns ainda tem a juventude de 29 anos. “Rocky” Rodríguez recentemente chegou à marca de 100 jogos pela seleção costarriquenha, sendo a capitã e referência para o elenco.
A Costa Rica estreia na Copa do mundo de 2023 contra a Espanha, no dia 21 de julho, pelo grupo C. A seleção caribenha ainda enfrentará Japão e Zâmbia na busca pela classificação.
14 de junho de 2023. 8 horas da manhã. Dependências do centenário Santa Marina Atlético Clube. Data, horário e local determinados pela justiça para mais um episódio da batalha judicial entre a agremiação e a multinacional francesa Saint-Gobain. A empresa e o Santa Marina AC estão em conflito na busca do direito de posse do espaço desde 2007. Um ato em defesa do clube foi imediatamente convocado pela comunidade Santa Marina para o momento da ação judicial.
Naquela manhã fria e chuvosa em São Paulo, os representantes da corporação se reuniram com os membros envolvidos na defesa do clube dentro da sala de troféus e, após cerca de uma hora, foi firmada a desocupação. Entre as pessoas reunidas, estavam o presidente do Santa Marina AC, Francisco Ingegnere, e sua irmã, Rose Ingegnere, juntos ao advogado da agremiação, Caio Marcelo Dias e de Kelseny Medeiros, assessora da Deputada Federal Erika Hilton (PSOL-SP), autora do projeto de lei que requer o tombamento do local como patrimônio histórico-cultural.
Ao final da reunião, Dias anunciou que o mandado seria cumprido pacificamente e “todos os bens do clube farão parte de um catálogo, que daqui de dentro não sairá um grão de areia”. Segundo o advogado, a Saint-Gobain se comprometeu a zelar pela integridade do espaço e do acervo ali presente. Rose demonstrou não confiar na promessa, e teme descuido com as instalações do clube e com os cachorros que ali viviam. “Não vão cuidar. Será que vão cuidar? Será? Eu duvido”, disse.
Além do choro de tristeza dos membros da comunidade, houve gritos fervorosos de “palhaçada, ein”, “vergonha” e “não vamo ‘para’”, intercalados com outras duras críticas dos pais, professores e demais admiradores do clube ali mobilizados direcionadas aos representantes da multinacional. “Lamentável. Empresa francesa destruindo a história do futebol brasileiro. Viva a várzea! Resistência!”, gritou um deles. Emocionado, Chiquinho prometeu: “Nós vamos reverter isso aí”.
“A gente podia continuar com as atividades aqui, porque enquanto não sair a decisão do Ministério Público, eles não vão poder fazer nada, eles não vão poder mexer. Então o que incomoda eles da gente ficar aqui. Sabe? Continuar com as atividades. A gente nunca pediu nada pra eles, a gente vive aqui dos colaboradores. A gente nunca bateu na porta deles pra pedir dinheiro”, desabafou Rose. De acordo com ela, mais de 140 crianças ficarão desamparadas.
“Nós já tinha um clube muito maior, e 'ficamo' (sic) com esse pedacinho, e ainda eles quer tirar. Uma firma que é só dinheiro”, lamenta o presidente da SMAC
Francisco Ingegnere está à frente do clube desde 1989 e sua irmã, Rose, desempenha funções administrativas no local há 20 anos. Juntos, cuidam do Santa Marina AC, que está localizado em uma área avaliada em cerca de R$86 milhões. A região ocupada pela agremiação corresponde a 4% do espaço dividido com a corporação. Nos primórdios da história da localidade, o terreno era cedido pelos proprietários da fábrica, que chegavam a incentivar as práticas esportivas, segundo membros mais antigos da comunidade.
No início do século XX, os clubes de várzea chegam para compor a história de São Paulo como espaços de convivência e acolhimento. Os indesejados pela elite de então, reuniam-se para praticar esportes e gozar de momentos de lazer. Juntos, naquele cenário de transformações urbanas na capital paulista, os “varzeanos” desenvolveram novas formas de sociabilidade: a inclusão dos excluídos. O Sport Club Corinthians Paulista, fundado em 1910, foi o primeiro time varzeano a atravessar as fronteiras da segregação entre a várzea e a prática elitista do esporte, ganhando o Campeonato Paulista - organizado pela Liga Paulista de Foot-ball, criada por Charles Miller, em 1914.
O SMAC é um dos clubes esportivos mais antigos em atividade no Brasil. Há mais de 100 anos, a agremiação tem sua história intrinsecamente ligada à da cidade de São Paulo e do futebol brasileiro. Assim como o Corinthians, o Santa Marina Atlético Clube foi fundado pela classe trabalhadora e promoveu mudanças históricas na sociedade ao seu redor. Funcionários da antiga Vidraria Santa Marina e os moradores da vila operária, em 1913, fundaram o que, hoje, é símbolo de resistência do futebol de várzea ante a chegada da especulação imobiliária.
Já a Saint-Gobain, outro lado da moeda dessa disputa pelo terreno na Água Branca - bairro da Zona Oeste de São Paulo - chegou na década de 1930 em solo brasileiro. Segundo a empresa, em seu site oficial, “a história do Grupo no Brasil tem sido marcada por novas aquisições, fusões, expansão e conquista de novos mercados”. De acordo com o website, o grupo possui o propósito de “ajudar a construir um mundo mais justo, sustentável, aberto e acolhedor”.
Em nota à Agência Maurício Tragtenberg (AGEMT), quando questionada sobre o compromisso de cuidar das instalações do SMAC - assumidos na reunião - e sobre uma possível compensação aos alunos de futsal que tiveram suas aulas gratuitas suspensas por conta da reintegração, a multinacional afirmou que vai cumprir o acordo. “O acervo do Clube está em segurança junto a um fiel depositário e que será preservado. A empresa aguarda definição das autoridades do município e do Estado de São Paulo quanto ao tombamento do patrimônio cultural e histórico”, diz a nota. E pontua que está realizando estudos para "as possibilidades de uso do terreno”.
Apesar de assumirem aguardar as decisões sobre o tombamento do espaço, não tivemos respostas quando indagamos se há, por parte da organização, entendimento de que o clube promovia ações de acolhimento e justiça social importantes para a comunidade paulistana. (A nota da Saint-Gobain, na íntegra, está disponível no final desta reportagem)
Em 2007, após investidas por parte da multinacional, o Santa Marina AC assinou um contrato de comodato - empréstimo do terreno - válido por dez anos. Vencido esse prazo, dois processos simultâneos passaram a tramitar na justiça: usucapião (aquisição por tempo de uso) e reintegração de posse (em nome da multinacional).
Em 2021, com ajuda de profissionais do Museu do Futebol, a administração chegou a empacotar os troféus para desocupação do espaço que havia sido determinada pela justiça, mas uma liminar - aos 45 do segundo tempo - suspendeu a ação. Agora, dois anos depois, o mesmo não aconteceu. A deputada Erika Hilton chegou a solicitar a suspensão da reintegração, mas dessa vez, o clube precisou fechar as portas.
“É bem triste a ideia de que o juiz entende que preservar esse patrimônio é só preservar o acervo, e não as atividades, que são o principal elo que gerou esse patrimônio”, lamenta Medeiros
Em paralelo aos processos já citados, há um Projeto de Lei, de 2021, que defende o tombamento do Santa Marina Atlético Clube como patrimônio cultural material da cidade de São Paulo. Erika Hilton, autora do PL, não pôde estar presente na data marcada para desocupação; mas sua assessora, Kelseny Medeiros, representou a deputada e comentou sobre o assunto. “A última etapa dessa briga judicial foi a estratégia criada pelos coletivos que acompanham o Santa Marina de mover essa discussão da posse pra questão do patrimônio cultural, porque é um patrimônio cultural. Esse é o valor do Santa Marina”, disse Medeiros sobre a argumentação usada na ação.
“Foi isso que foi construído, junto com a promotoria aqui, do Ministério Público de São Paulo, e levado por meio de uma ação civil-pública pra um novo juiz, pra que ele protegesse esse patrimônio pra além da definição da posse”, completa. Ela acompanha o caso desde 2021, ano em que a deputada Hilton entrou na defesa do clube.
“É um clube que carrega, além de tudo, muita memória, muita história. E, definitivamente, é mais que quadros e troféus, é sobre as pessoas que cuidam e usam dele todos os dias”, explica Medeiros. “Esse patrimônio, ele só existe porque existiam pessoas aqui pra cuidar dele. Pessoas que utilizavam isso aqui, que faziam disso uma segunda casa, uma comunidade mesmo”, finaliza a assessora, enquanto aponta para as fotos que representam a memória preservada no local, que tem sua integridade ameaçada com o despejo.
Na conta do Instagram @santamarina.doc é possível conferir o curta-metragem que conta um pouco da história do clube e de sua briga na justiça para que siga resistindo como um dos poucos clubes de várzea centenários do Brasil.
A historiadora do esporte Aira Bonfim e o jornalista Juca Kfouri são algumas das personalidades presentes no curta. A conta na rede social também reúne links de reportagens sobre a briga judicial e busca atrair e mobilizar ainda mais defensores da memória afetiva paulistana.
Confira, na íntegra, a nota do Grupo Saint-Gobain à AGEMT:
“A Saint-Gobain sempre esteve disponível e aberta ao diálogo com o Santa Marina Atlético Clube (SMAC) a fim de encontrarem, em comum acordo, a melhor solução para ambas as partes em relação ao imóvel localizado na Avenida Santa Marina, nº 443/833/883, em São Paulo (SP).
Ao longo de todos os anos foram oferecidas várias alternativas, inclusive o uso do imóvel por meio de um contrato de comodato, que acabou por expirar em 2019. E, embora tenha recebido o parecer judicial favorável confirmando a posse do imóvel, e que ainda permitia a retomada do espaço então ocupado pelo SMAC, a Saint-Gobain buscou mais uma vez o diálogo.
Junto ao Ministério Público e às lideranças do Clube, a Saint-Gobain propôs um novo acordo em 2021, que garantiria a permanência do SMAC no local, como tem ocorrido nos últimos anos. Infelizmente os representantes do Clube se mostraram irredutíveis, e declararam que não estão abertos a essa alternativa, demandando outras ações que estão fora do tema em questão.
O processo seguiu seu curso e, no mês de abril de 2023, após vários recursos terem sido rejeitados em diversas instâncias judiciais, o Poder Judiciário determinou o cumprimento da ordem de reintegração da Saint-Gobain na posse à área ocupada pelo SMAC, cumprida no dia 14 de junho de 2023, com anuência e acompanhamento do Ministério Público.
A Saint-Gobain reitera que o acervo do Clube está em segurança junto a um fiel depositário e que será preservado. A empresa aguarda definição das autoridades do município e do Estado de São Paulo quanto ao tombamento do patrimônio cultural e histórico. A Saint-Gobain está realizando estudos para as possibilidades de uso do terreno.
O Grupo Saint-Gobain, que atua há mais de 80 anos no Brasil e trabalha continuamente para o desenvolvimento do setor da construção no país, é pautado nos princípios de responsabilidade social e ambiental, e reitera seu empenho para a melhor solução possível”.