A ascensão das plataformas digitais como palco central da nova política e o desafio da polarização
por
Isabelle Maieru
Jalile Elias
Marcela Rocha
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27/11/2025 - 12h

 

A imagem conceitual representa a polarização política. FONTE: Shutterstock / Imagem Conceitual

O cenário político contemporâneo foi drasticamente redefinido pela ascensão das redes sociais. O que antes era um mero canal de comunicação secundário transformou-se no principal palco de debate, engajamento e, por vezes, de acirrada polarização. Líderes e figuras públicas, de todas as ideologias, utilizam plataformas como X (antigo Twitter), Instagram, Facebook e TikTok não apenas para disseminar informações, mas para construir narrativas, interagir diretamente com eleitores e moldar a opinião pública.

A Onipresença Digital: Vantagens e Riscos

A presença massiva de políticos nas redes oferece uma série de vantagens:

  • Acesso Direto: Permite uma comunicação sem intermediários com o eleitorado, humanizando a figura pública e criando um senso de proximidade.

  • Mobilização: Ferramenta poderosa para organizar movimentos, manifestações e campanhas de forma rápida e eficiente.

  • Quebra de Monopólio: Diminui a dependência da mídia tradicional, permitindo que políticos e partidos estabeleçam suas próprias agendas.

No entanto, essa "democratização" da comunicação não está isenta de riscos e desafios:

  • Polarização e Bolhas: Os algoritmos das redes tendem a criar "bolhas" de informação, reforçando crenças existentes e expondo os usuários a conteúdo que confirma seus vieses, o que contribui para a polarização.

  • Desinformação (Fake News): A velocidade de propagação e a falta de filtros rigorosos tornam as redes um terreno fértil para a disseminação de notícias falsas, boatos e manipulação de informações, com sérias consequências para o debate público e a democracia.

  • Discurso de Ódio: A anonimidade e a falta de moderação eficaz em algumas plataformas facilitam a proliferação de discursos de ódio, ataques pessoais e campanhas difamatórias.

Foto de uma tela de celular com vários ícones de redes sociais misturados. Fonte: Depositphotos / Mídia Social e Política

Estratégias Digitais em Constante Evolução

A "nova política" é inerentemente digital. Políticos e suas equipes investem pesadamente em estratégias de marketing digital, análise de dados e criação de conteúdo. O uso de memes, vídeos curtos e transmissões ao vivo (lives) são táticas comuns para viralizar mensagens e engajar diferentes faixas etárias.

Observa-se também a profissionalização das equipes digitais, com especialistas em análise de sentimentos, SEO (Search Engine Optimization) e gestão de crises online. A capacidade de responder rapidamente a eventos e narrativas em tempo real tornou-se um diferencial competitivo crucial.

O Futuro da Política e das Redes

O fenômeno dos políticos nas redes sociais é irreversível. O desafio para as democracias é encontrar mecanismos para regular e fiscalizar o ambiente digital sem cercear a liberdade de expressão, garantindo que as plataformas sirvam como ferramentas de fortalecimento do debate público e não de sua deterioração. A busca por um equilíbrio entre a liberdade, a responsabilidade e a moderação de conteúdo continuará a ser um dos temas centrais dos próximos anos, moldando não apenas a política, mas a própria sociedade.

 

Unanimidade da 1ª Turma confirma preventiva e abre caminho para execução imediata da pena de 27 anos
por
Isabelle Maieru
Jalile Elias
Marcela Rocha
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26/11/2025 - 12h

A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, por unanimidade, manter a prisão preventiva do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro. A decisão, referendada na segunda-feira (24), confirmou o decreto do ministro Alexandre de Moraes que converteu a prisão domiciliar do ex-presidente em preventiva no último sábado (22).

A manutenção da prisão ocorre no momento em que o processo final de condenação do ex-presidente na Ação Penal (AP) 2668 se aproxima do trânsito em julgado, permitindo que o ministro relator determine o início imediato do cumprimento da pena. Bolsonaro está detido na Superintendência da Polícia Federal (PF) em Brasília.

 

Ministro Alexandre de Moraes discursando na bancada. Fonte: STF (Supremo Tribunal Federal)

 

Argumentos da Corte e Motivação da Prisão Preventiva

A decisão unânime dos ministros da 1ª Turma (Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Cármen Lúcia e Cristiano Zanin) considerou que a prisão preventiva é imprescindível para garantir a ordem pública, assegurar a aplicação da lei penal e coibir o reiterado desrespeito às medidas cautelares impostas.

Os fatores centrais que motivaram a conversão da prisão domiciliar para preventiva são:

  1. Violação da Tornozeleira Eletrônica: A Polícia Federal apontou que o equipamento de monitoramento eletrônico foi violado intencionalmente pelo ex-presidente. Moraes classificou o ato como uma violação "dolosa e consciente", após o próprio Bolsonaro admitir ter usado um ferro de solda na tornozeleira, alegando ter agido sob "surto" e efeito de medicamentos.

  2. Risco de Fuga e Obstrução: O ministro relator citou o risco concreto de fuga, intensificado pela violação do equipamento e pela convocação pública para uma "vigília" em frente à residência de Bolsonaro, feita por um familiar. A Corte avaliou que essa mobilização poderia criar tumulto e facilitar uma eventual evasão.

 

Os Argumentos da Defesa

A defesa do ex-presidente apresentou recursos e pedidos que foram, em grande parte, rejeitados ou considerados prejudicados pela decretação da prisão preventiva.

  • Prisão Domiciliar Humanitária: O principal pleito da defesa foi a prisão domiciliar humanitária, citando o quadro de saúde frágil de Bolsonaro, que inclui gastrite, esofagite e crises de soluços. No entanto, o ministro Moraes considerou este pedido prejudicado com a prisão preventiva, embora tenha determinado o atendimento médico em regime de plantão na PF.

  • Contradições na Condenação: Nos recursos apresentados contra a condenação na AP 2668, a defesa alegou que a decisão foi baseada em provas frágeis e contradições no acórdão, e que o ex-presidente não teve participação direta nos atos que levaram à denúncia.

  • Inexistência de Risco: Advogados argumentaram que a prisão preventiva não se justificava, pois a situação já estava controlada pela prisão domiciliar, e Bolsonaro não representaria um risco iminente à sociedade.

Ex-presidente Jair Bolsonaro em evento público (imagem de arquivo). Fonte: Agência Brasil / EBC

 

A Condenação na Ação Penal 2668 e Execução da Pena

Jair Bolsonaro foi condenado pelo STF a 27 anos e 3 meses de prisão em regime inicial fechado, além de multa (124 dias-multa no valor de dois salários mínimos à época dos fatos), na Ação Penal (AP) 2668.

  • Crimes: O ex-presidente foi condenado, majoritariamente, por ser o líder da organização criminosa que articulou planos para impedir a posse do governo eleito em 2022, sendo réu pelos crimes de tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, tentativa de golpe de Estado, participação em organização criminosa armada, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado.

  • Trânsito em Julgado: O prazo para a defesa apresentar o último recurso contra a condenação encerrou-se nessa segunda-feira (24). Com isso, a Corte confirmou o trânsito em julgado para Bolsonaro.

  • Próximo Passo: O ministro Alexandre de Moraes está liberado para, a qualquer momento, determinar a expedição da guia de execução penal, documento que formaliza o início do cumprimento da pena em regime fechado. A sede da PF é apenas o local inicial da custódia, sendo o Complexo Penitenciário da Papuda, ou outra unidade compatível com sua condição de ex-presidente, o destino mais provável para o cumprimento da sentença.

Nova ferramenta deve integrar informações socioeconômicas relacionadas ao gênero
por
Marcela Rocha
Jalile Elias
Isabelle Maieru
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25/11/2025 - 12h
Foto: José Cruz/Agência Brasil
Ativistas participam da 5ª edição da CNPM. Foto: José Cruz/Agência Brasil

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A 5ª Conferência Nacional de Políticas para Mulheres (CNPM), ocorreu em Brasília entre os dias 29 de setembro e 1º de outubro. Durante o evento foi anunciada a plataforma DataMulheres, criada pelo governo federal através do Ministério das Mulheres.

Desenvolvida entre uma parceria do Observatório Brasil da Igualdade de Gênero e a Dataprev (empresa vinculada ao Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos), a tecnologia deve integrar informações de gênero e auxiliar procedimentos de pesquisas, observatórios, projetos e demais iniciativas de gestores públicos e instituições nacionais.

O encontro contou com a presença de 4 mil participantes de coletivos, movimentos sociais, deputadas, ministras e outras autoridades, além do oferecimento de palestras, redes de diálogo e stands para a exposição de livros e artesanatos produzidos por mulheres de todo o Brasil.

Na plenária final do evento foram aprovados o relatório de propostas para o novo Plano Nacional de Políticas para as Mulheres e 33 moções, com 98% dos votos favoráveis. O resultado quase unânime reflete a assertividade de diálogos previamente realizados nas instâncias municipais e estaduais.

Com o intuito de reconhecer a pluralidade das 100 milhões de mulheres que vivem no Brasil, o texto do relatório foi dividido em 15 temas, entre eles a questão do fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho, igualdade salarial, desigualdades econômicas e raciais, fortalecimento da participação política de mulheres, autonomia econômica e o enfrentamento à violência de gênero.

Durante o evento, a Ministra das Mulheres, Márcia Lopes, afirmou que “a luta não acaba nunca”, sendo necessário construir “não somente o Brasil, mas a América Latina, o Caribe, um mundo de paz”, para que as mulheres sejam livres e em que não haja nenhum tipo de violência contra elas.

Mudanças incluem teto para operadoras, repasse mais rápido e interoperabilidade
por
Antônio Bandeira e Fábio Pinheiro
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24/11/2025 - 12h

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou no dia 11 de novembro o decreto que moderniza as regras do vale-refeição e vale-alimentação dentro do Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT). As mudanças criam um teto para as taxas cobradas pelos operadores, reduzem prazos de repasse aos estabelecimentos e definem novas obrigações para empresas e bandeiras do setor.

Entenda as mudanças mais importantes:

Redução de taxa: O texto fixa limite de 3,6% para a taxa cobrada dos restaurantes e outros estabelecimentos. Atualmente, segundo o governo, esse percentual chega a 15% em alguns casos. As empresas terão 90 dias para se adequar à nova regra. O decreto também estabelece teto de 2% para a tarifa de intercâmbio e proíbe cobranças adicionais.

Interoperabilidade: Em até 360 dias, qualquer maquininha deverá aceitar cartões de todas as bandeiras. A medida, conforme o Ministério do Trabalho, amplia a concorrência e facilita o uso do benefício pelos trabalhadores e pelos estabelecimentos.

Prazo de repasse aos comerciantes: Os restaurantes e supermercados passarão a receber em até 15 dias após a transação. Antes das novas regras, o pagamento ocorria em cerca de 30 dias, podendo chegar a 60.

Legenda: Lula durante assinatura do novo regulamento do PAT - Foto/ Por: Ricardo Stuckert
Legenda: Lula durante assinatura do novo regulamento do PAT - Foto/ Por: Ricardo Stuckert

As regras incluem ainda a abertura dos chamados “arranjos fechados”. Empresas que atendem mais de 500 mil trabalhadores terão 180 dias para migrar para sistemas abertos. A mudança deve reduzir a concentração de mercado e permitir que mais credenciadoras participem do sistema.

Além disso, o decreto proíbe práticas consideradas abusivas, como deságios, descontos indiretos, bonificações e vantagens financeiras não relacionadas à alimentação.

De acordo com o governo, mais de 22 milhões de trabalhadores e cerca de 330 mil empresas cadastradas no PAT serão afetados. O valor do benefício não muda e segue exclusivo para compra de alimentos.

Para o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, o decreto corrige distorções que vinham sendo cobradas por restaurantes, mercados e padarias. Ele afirmou que o governo discutiu o tema por dois anos com empresas e representantes do setor, mas não houve consenso para um acordo.

O presidente da Associação Brasileira de Supermercados, João Galassi, disse que a medida aumenta a concorrência e deve melhorar o valor final disponível para o trabalhador. Segundo Galassi, a redução da intermediação permitirá que mais pequenos estabelecimentos aceitem os vales.

O decreto cria ainda um comitê gestor para acompanhar a implementação das novas regras, fiscalizar práticas abusivas e definir parâmetros técnicos para o funcionamento do sistema.

Congresso irá analisar nesta quinta-feira (27), os 63 vetos feitos pelo presidente Lula
por
CRISTIAN FRANCISCO BUONO COSTA
Antônio Bandeira de Melo Carvalho Valle
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24/11/2025 - 12h

A votação dos vetos ao novo marco do licenciamento ambiental virou um dos temas centrais da agenda do Congresso para novembro. Deputados e senadores se reúnem no dia 27 para decidir se mantêm ou derrubam os 63 trechos barrados pelo presidente Lula na lei sancionada em agosto. O resultado importa porque define até onde o país flexibiliza ou reforça o controle sobre atividades que causam impacto ambiental.

O licenciamento sempre foi o principal instrumento de fiscalização ambiental no Brasil. Ele estabelece quais estudos cada empreendimento precisa apresentar; quais riscos devem ser controlados e quais condicionantes precisam ser cumpridas. O processo costuma ser longo e heterogêneo entre estados, e por isso o Congresso discute há anos uma lei geral que dê mais previsibilidade.

A proposta aprovada em maio deste ano avançou justamente nessa direção: criou regras nacionais, previu modalidades mais simples — como a licença única (LAU) e a licença por adesão e compromisso (LAC) — e dispensou determinadas atividades do processo formal de licenciamento.

Os vetos do governo miraram pontos considerados sensíveis. O Planalto argumenta que alguns trechos ampliavam exageradamente as dispensas, reduziam a fiscalização e fragilizavam compromissos ambientais assumidos pelo país. A justificativa foi a mesma em outras áreas: garantir proteção ambiental sem abandonar a segurança jurídica para o setor produtivo. Entre os vetos estão dispositivos que tratavam da dispensa de licenciamento para obras de manutenção em estradas, linhas de transmissão e linhas férreas, e regras mais amplas para empreendimentos agropecuários.

Parlamentares contrários aos vetos dizem que as restrições prejudicam obras estruturantes e atrasam investimentos. Para eles, trechos barrados pelo Executivo traziam justamente o alívio burocrático que falta para modernizar o setor. O debate ganhou ainda mais força porque a lei entra em vigor em fevereiro de 2026 e o Congresso quer definir o texto final antes disso. Também pesa o cenário político: o tema aparece na agenda de eventos internacionais de clima, e o governo tenta apresentar avanços em governança ambiental.

A votação deve mostrar qual será o equilíbrio escolhido pelo Legislativo para os próximos anos. Manter os vetos significa reforçar o papel fiscalizador do licenciamento, enquanto derrubá-los abre espaço para uma lei mais permissiva, com processos mais rápidos e menos pontos de controle. Para estados, municípios, empreendedores e órgãos ambientais, o resultado define como novos projetos, como o de hidrelétricas, estradas, etc, serão avaliados a partir de 2026.

Em discurso aos seus apoiadores em Brasília, Bolsonaro faz menção golpista ao STF e ao ministro Luiz Fux
por
Letícia Coimbra
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07/09/2021 - 12h

No dia 7 de setembro, aniversário de 199 anos da independência do Brasil, manifestações incitadas pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) a fim de mostrar que ainda consegue mobilizar as ruas, tomam o país. Caravanas de várias regiões tem seu destino em Brasília e São Paulo, palco das manifestações com maior relevância. 

Pela manhã, Bolsonaro participou da cerimônia de hasteamento da bandeira, no Distrito Federal, acompanhado do ex-presidente Fernando Collor de Mello e alguns ministros, entre eles Onyx Lorenzoni (ministro do Trabalho), Paulo Guedes (ministro da Economia) e Braga Netto (ministro da Defesa). Em seguida, ele fez um discurso para os apoiadores na Esplanada dos Ministérios e depois segue para São Paulo, onde é esperado às 15:30.

 O presidente do Senado Federal, Rodrigo Pacheco, no entanto,  não compareceu à cerimônia com Bolsonaro. Arthur Lira, presidente da Câmara e Luiz Fux, presidente do STF, também não compareceram.

 Em sua conta no Twitter, Pacheco, que mantém um discurso ambíguo em relação ao presidente da república” escreveu, “Ao tempo em que se celebra o Dia da Independência, expressão forte da liberdade na cional, não deixemos de compreender nossa mais evidente dependência de algo que deve unir o Brasil: a absoluta defesa do Estado Democrático de Direito”.

Manifestação bolsonarista do dia 7 de setembro, em Brasília - Foto: Pedro Ladeira/ Folhapress
Manifestação Bolsonarista do dia 7 de setembro, em Brasília - Foto: Pedro Ladeira/ Folhapress

Já discursando na Esplanada, o Presidente da República alfinetou o STF e Fux: “Nós não mais aceitaremos que qualquer autoridade, usando a força do poder, passe por cima da nossa Consituição. Não mais aceitaremos qualquer medida, qualquer ação ou qualquer certeza que venha de fora das quatro linhas da Constituição. Também não podemos continuar aceitando que uma pessoa específica da região dos Três Poderes, continue barbarizando a nossa nação. Não podemos mais aceitar prisões políticas no nosso Brasil. Ou o chefe desse poder enquadra o seu [ministro], ou esse poder pode sofrer aquilo que nós não queremos. Porque nós valorizamos, reconhecemos o valor de cada poder da republica. Aqui na praça dos três poderes, juramos respeitar a Constituição. Quem age for a dela, se enquadra ou pede pra sair.”

Em outro momento,  Bolsonaro diz: “Indo para o encerramento, peço que me ouçam hoje por volta das das dezesseis horas lá na Paulista. Como chefe do executivo, seria mais fácil ficar em casa, mas como sempre disse ao longo de toda a minha vida de político, sempre estarei onde o povo estiver”, sendo intensamente ovacionado, e continua, “vou à São Paulo e retorno. Amanhã estarei com o Conselho da República, juntamente com os ministros. Para nós, juntamente com o presidente da Câmara, do Senado e do Supremo Tribunal Federal. Com essa fotografia de vocês, mostrar pra onde nós todos devemos ir.” 

Segundo apuração de Vinícius Sassine, repórter da Folha de São Paulo, Bolsonaristas agrediram jovens que consideraram “infiltrados” e foram chamados de “petistas”. 

Copos com fotos de Bolsonaro à venda em Brasília - Foto: Marcelo Rocha/ Folhapress
Copos com fotos de Bolsonaro à venda em Brasília - Foto: Marcelo Rocha/ Folhapress

Manifestantes bolsonaristas reunidos em Brasília pedem golpe, fazendo ataques ao Congresso e Supremo Tribunal Federal. No local, comerciantes também aproveitam para vender camisetas, bonés, bandeiras e copos com fotos de Bolsonaro.

O ato no Distrito Federal começou a se esvaziar gradualmente por volta de 12h20.

 

A história de irmãos baianos que abriram mão de sua liberdade por algo maior, a verdadeira democracia
por
Maria Luiza Costa
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07/07/2021 - 12h

Pensamentos de direita, pessoas intolerantes, milhares de vidas perdidas por conta de um governo negligente e radical, tudo isso soa muito comum aos nossos ouvidos. Vivemos isso todos os dias, e vivemos isso por um bom tempo. Nada é uma novidade, milhares de pessoas já tinham passado por isso décadas atrás, no que ficou conhecido como Ditadura Militar de 1964. 

Em diversos lugares do Brasil, muitas pessoas lutaram pelo país, dentre eles os irmãos Hildete e Sinval Galeão. Residentes de Feira de Santana, na Bahia, os dois sofreram com o governo militar, mas, mesmo assim continuaram fiéis aos seus pensamentos e ideais. Os dois sempre viveram juntos, Hildete sendo a mais velha, sempre cuidou do irmão e sempre foi muito presente em sua vida, tanto que ele a chamava de mãe.

No dia 31 de marco de 1964, o Brasil sofreu um golpe militar, que fez com que diversos pensamentos de direita fossem espalhados pelo país. No período entre 1964 e 1969, um total de dezessete atos institucionais foram emitidos, sendo essa uma das principais formas de dar mais poder para o Executivo, de justificar as ações dos militares e de dar um aparato judicial para legitimar à ditadura. Esses atos deram diversos poderes ao Estado, como por exemplo fazer diversas alterações na constituição e em diversas leis que existiam antes do golpe já não serviam de nada (AI-1), partidos políticos foram extintos (AI-2), e diversas outras coisas. 

Podemos dizer que o ato institucional que mais afetou a vida dos irmãos Galeão e de milhares de pessoas, foi o mais conhecido e autoritário de todos, o AI-5, no qual os meios de perseguição e repressão foram ampliados.  O militante Sinval sofreu de maneira absurda, foi torturado e os militares conseguiram sumir com ele, como relata sua irmã Hildete “Com os colegas, conseguimos localizar no CPOR o meu irmão, que se encontrava sumido. Foi terrível!!! Ele queimava de febre. Corpo todo de hematomas e feridas expostas. Sua mão direita com alguns dedos sem movimentos e de nada adiantou as cirurgias ao longo do tempo”. 

O militante teve que ir para a Europa, uma vez que mesmo depois de solto, continuou a ser perseguido por esse governo assassino. Foi para a antiga União Soviética, onde seu pensamento continuou se alinhar com pensamentos comunistas, e voltando para o Brasil, ajudou a fundar o Partido Comunista Brasileiro (PSB) de Feira de Santana. Sua irmã, afirma que sua volta foi muito difícil “Sinval foi para a Europa pois sabíamos que era um dos que estava destinado a ‘sumir’, como muitos descobertos agora através da Comissão da Verdade. Sua volta foi triste, mas jogou-se com o passar dos anos a estudar e dias e noites mergulhado em livros de história, política e economia, passou a morar comigo em 1974, foi e sempre será meu irmão-filho!”. 

O mesmo, após sua volta, também presidiu o PSDB, que cresceu com sua dedicação e competência, após a extinção do PCB na Bahia, candidatou-se a vereador, se formou em economia, sendo orador da turma, na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), dentre outras conquistas, e uma das principais, pode-se dizer que foi ser o coordenador da Comissão da Verdade, de Feira de Santana, no ano de 2013. Sendo seu último trabalho político. 

Esse foi, com certeza, um momento de desespero para toda a família, principalmente por ele não ter sido o único a sofrer da mão dos militares, Hildete Galeão também foi uma vítima, tanto de torturas quanto no seu ambiente de trabalho, que foi fechado pelo governo “[...] Além de pertencer ao grupo de Rádio Amadores prefixada como PY-6-ID, com essa bagagem além de eles sumirem com meu irmão, fecharam nossa estação de rádio e me botaram grávida de 2 meses, da minha segunda filha num camburão e me levaram para o Quartel General”.

Hildete Galeão (22), 1961, na sua formatura de Mecanografia.
Hildete Galeão (22), 1961, na sua formatura de Mecanografia.

O ano já é 2021, e muita coisa mudou, mas o que é notável, é que diversos ideais de extrema direita estão cada vez mais presentes em discursões. Muitas pessoas, principalmente, as que se encontram em posições de privilégio, continuam apoiando movimentos que só trouxeram preocupação e angústia nos outros, essas pessoas disseminam pensamentos que fortalecem ações negativas, como por exemplo apoiar uma nova ditadura militar aqui no Brasil, ou apoiar ideais extremistas, como o neonazismo e neofascismo. 

Podemos dizer que essas mesmas pessoas encontram outras em posição de poder, que só reforçam esses posicionamentos. Como por exemplo no nosso país, que no ano de 2018, uma grande parcela da sociedade viu no Presidente Bolsonaro, um reflexo de suas próprias convicções e princípios, assim botando para fora tudo o que sempre acreditaram.

Desde que foi eleito, o presidente da república disseminou palavras de ódio, teve diversas atitudes racistas e homofóbicas, e ainda tem o descaso e desrespeito de não esconder seu saudosismo ao golpe de 1964 e às atitudes absurdas dos militares. Como em 2016, que durante a votação pelo impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT), prestou homenagem ao Coronel Ustra, dizendo "Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”. Após esse terrível episódio, Bolsonaro ironizou torturas e ainda duvidou do que realmente aconteceu, e nos trouxe ao terror que o povo brasileiro está vivendo atualmente com a pandemia do COVID-19, fazendo com que o país atingisse a marca de 500.000 mortos no dia 19 de junho, por uma doença que já tem vacina. Um genocida no poder e milhões de apoiadores, nunca traria um resultado diferente do que vemos. 

Sinval Galeão, faleceu em 2017, mas com tudo que construiu em sua vida ainda é referência para diversas pessoas que o conheceram, sendo uma pessoa admirada por todos, ele não deixou seus ideais de lado, não esquecendo de quem ele era e tudo que passou. Seu querido amigo Riva Costa, que é professor de história, se inspira muito no militante. 

“Falar sobre Sinval, é fácil e apesar de ele ter sido sempre uma pessoa muito reservada, ele sempre conversava comigo, e o que sempre me admirou em nele foi essa simplicidade dele de fazer política, de ver no outro uma pessoa que precisa, ver no outro uma demanda, e esse legado que ele deixa, pelo menos para mim. Lembrando que ele foi perseguido, foi para a União Soviética, ele foi imprensado, literalmente falando, numa prensa de fumo e não deixou de lado os sues ideais e manteve a defesa do que ele achava que era certo”, diz ele. 

Carteira da União Nacional dos Estudantes de Sinval Galeão (40), logo após sua legalização.
Carteira da União Nacional dos Estudantes de Sinval Galeão (40), logo após sua legalização.

O militante recebeu diversas homenagens ainda em vida, no entanto a que mais o marcou ocorreu no dia 8 de maio de 2008, quando foi homenageado pela Câmara Municipal de Feira de Santana, com a comenda Cidadão Benemérito da Liberdade e da Justiça Social Deputado Francisco Pinto. Em seu discurso, continuou mostrando tudo que acreditava e toda sua trajetória política, desde criança. “Agradeço a essa casa e a todos que aqui estão pela prova de apoio e reconhecimento de meu trabalho. Mas, gostaria de registrar aqui e agora, que essa homenagem não foi só a mim, e sim a um ideal, a uma ideologia. Por isso quero estendê-la a todos companheiros com quem convivi e que não estão mais entre nós”, disse ele.

Nesse dia, ainda disse que sabe que não envergou a si mesmo, e que não envergonhou sua família. Tio, gostaria que soubesse o quanto nos dá orgulho, e digo isso no presente, porque o senhor pode não estar aqui fisicamente, mas seu legado e seus ensinamentos estarão eternamente conosco, o senhor é nossa maior inspiração em diversas pautas, então obrigada por ter sido esse ser iluminado que fez tudo que podia pelo povo brasileiro. Como seu querido amigo, Domingos Leonelli, publicou “Ele [Sinval] vai encontrar Hozannah e Chico Pinto e se transformar em mais uma estrela vermelha a iluminar o caminho da revolução na escuridão da noite”. 

Obrigada por tudo. 

 

 

 

por
Eduardo Lopes Machado - Fábio Henrique Martineli Pinheiro - Lucca Cavalheiro Ranzani - Lucas Malagone - Robson Lucas Rodrigues
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22/06/2021 - 12h

 

Nas últimas semanas o Brasil foi tomado por manifestações contra o governo federal em tom de indignação com diversas situações provocadas pelo governo Bolsonaro como a falta de vacinas, demarcação de terras indígenas, aumento do desemprego, aumento da fome entre outras pautas todas com o mesmo teor pedindo um basta a isso e pedindo o impeachment do atual presidente. Mas um fato marcou mais as manifestações, a cobertura da mídia.

Às manifestações do dia 29 de maio de 2020 foram praticamente apagadas da grande mídia com medo de um teor partidário e até de endossar repuldio ao atual governo, foram poucos os jornais e veículos que deram o destaque devido as manifestações, alguns nem capa deram e outros como o Jornal Nacional só foram dar destaque dois dias depois na segunda-feira dia 1 de junho.

Após essas decisões tomadas pelos telejornais brasileiros e pelos jornais de grande porte do país, que criaram essa insatisfação no povo, decidimos fazer uma pequena entrevista com o professor de Fundamentos Éticos do Jornalismo na PUC-SP, Marcos Luiz Cripa, trazendo perguntas sobre o papel da grande imprensa diante dessas manifestações:

           

Qual o principal motivo do apagão das mídias no dia 29 de maio?

Se você se refere especificamente à chamada “Grande Imprensa”, não vejo que tenha havido apagão. Historicamente a mídia oferece pouca ou nenhuma cobertura quando se trata de manifestações populares; aquelas que nascem diretamente dos movimentos sociais, como aconteceu em 29 de maio deste ano. Na década de 1980, parte dessa mesma imprensa ignorou por um período a existência do movimento conhecido como “Diretas Já”, que mobilizava milhares de pessoas em comícios nas principais capitais brasileiras. Em São Paulo, em 25 de janeiro de 1982, a TV Globo informou que 300 mil pessoas estiveram na Praça da Sé para “comemorar o aniversário de São Paulo”. Ou seja, negou o fato de existir manifestação em defesa de eleições diretas para presidente. Ocultar o fato ou informação é manipular a cobertura. O que aconteceu em 29 de maio, foi a tentativa de esconder um fato amplamente divulgado nas redes sociais. 

 

            Você acredita que existe diferença entre coberturas pró governo e contra governo?

O que tenho observado, principalmente nos telejornais das TVs Record, SBT e RedeTV, é a tentativa de negar ou dar pouca repercussão a fatos que prejudiquem a imagem do presidente Jair Bolsonaro. Ora reduzindo o espaço da notícia ora sequer dando a notícia. São comportamentos de emissoras alinhadas com o governo federal.

 

            Qual o perigo de não se dar o devido destaque as manifestações?

O perigo mais aparente é o de atentar contra a democracia. Negar informação a leitores, telespectadores e radiouvintes não é o papel de uma mídia responsável e ética. Barbosa Lima Sobrinho, jornalista e ex-presidente da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), afirmou certa vez que, o papel da imprensa é o de estar ao lado do povo.

 

Contudo, é possível perceber que essa tentativa de negar as notícias ou dar pouca repercussão, como disse Cripa, tem circunstâncias que podem ajudar a imagem de Jair Bolsonaro, tudo por conta dos alinhamentos das emissoras com o governo federal. Isso acaba afetando na luta contra o atual governo e repercutindo na quantidade de mortes por conta do vírus, e isso pode ser confirmado com a péssima notícia que o país recebeu neste domingo (20) de que chegamos aos 500 mil mortos e não temos ideia de onde isso pode acabar.

Após toda a situação que aconteceu e de muitas críticas voltadas para os jornais e telejornais, foi possível perceber a mudança de postura de alguns. Como exemplo separamos a capa do jornal O Estado de São Paulo, em que a esquerda seria no dia 30 de maio de 2021 e a da direita no dia 20 de junho:

               

Imagem: Reprodução/Internet

Outro exemplo de mudança de comportamento pôde ser notado no Jornal O Globo, com as capas feitas nos dias 30 de maio (esquerda) e outra no em 30 de junho (direita):

 

       

Imagem: Reprodução/Internet

         

Mudanças notórias na forma de noticiar tais atos, mudanças benignas, porém que não deveriam ter sido necessárias. O papel fundamental da grande mídia é informar o seu povo e isso é um contrato ético social, vai além de qualquer convicção política ou incentivo monetário. No momento em que o povo não tem noção da gravidade de sua situação ou muito menos tem conhecimento dos processos antropológicos e sociológicos que ocorrem na sociedade, a mídia se transforma não mais em um intermédio, mas sim em um órgão manipulador de verdades e vidas. A mudança só vem quando precisamos melhorar, e não noticiar as manifestações do dia 29 foi um erro mais que grave, não deveria ter ocorrido e que não se repita; que a ética reine sob a imprensa brasileira e que seu povo fique bem informado.