Violência contra a mulher cresce em dia de jogos de futebol

Pesquisa do FBSP mostra que registros de agressão doméstica aumentam 28%
por
Carolina Nader
Gabriela Thier
Malu Malaquias
|
28/08/2026 - 12h

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) lançou, no dia 11 de agosto, a segunda edição do estudo Futebol e Violência contra a Mulher. O documento relaciona o esporte aos casos de violência doméstica. O estudo não enquadra a modalidade como causa, mas expõe, a partir dela, dinâmicas violentas e a normalização da agressividade masculina.

A análise da relação entre o calendário de algumas das principais competições de futebol – Campeonato Brasileiro (Série A), Copa Libertadores e Copa Sul-Americana – e a violência contra mulheres foi feita a partir de dados inéditos coletados de cinco capitais brasileiras (Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre), no período de 2023 a 2025.

Segundo o relatório, foram levados em conta um conjunto de variáveis de controle, como as condições ambientais de chuva e temperatura, os dias da semana, meses e anos. 

A pesquisa parte do princípio de que o futebol vai além da prática esportiva, uma vez que também é um ambiente de socialização, em sua maioria masculina. Nos estádios, os torcedores aprendem e reforçam a ideia do que é “ser homem”, por meio de atitudes como cânticos, xingamentos, territorialidade da torcida e disposição para o confronto. Nesse ambiente, alguns comportamentos são valorizados como “demonstrações de masculinidade”. O problema, de acordo com o documento, aparece quando essas características passam a ser associadas ao pensamento de que ser homem significa exercer controle e superioridade.

O relatório afirma que a masculinidade construída nesses espaços é relacional e hierárquica, a qual se afirma pela oposição a outros homens considerados “insuficientes” ou que não correspondem ao modelo masculino dominante. Por exemplo, a feminização do rival pode ser utilizada como forma de inferiorizá-lo. Assim, aquilo que é associado ao feminino ou à vulnerabilidade passa a ser colocado como algo inferior.

Ao utilizar a ideia de Rita Segato, antropóloga, feminista e escritora argentina, - de que existe uma espécie de “obrigação social” para que homens demonstrem continuamente virilidade, potência e controle perante outros homens - o estudo entende que os padrões de comportamento masculinos, muitas vezes, são socialmente construídos e reproduzidos. Os estádios são classificados como uma espécie de “currículo de masculinidade” - onde essas atitudes são aprendidas e hierarquizadas. 

De que modo isso se conecta à violência contra mulheres?

Essas ideias podem aparecer nas relações íntimas. Por esse motivo o futebol não é o “causador” das violências, mas pode funcionar como um contexto que intensifica comportamentos misóginos e machistas, presentes nas relações de poder que existem historicamente na sociedade. 

O relatório diz que o futebol pode funcionar como um “catalisador de dinâmicas patriarcais preexistentes”. A análise empírica realizada pelo FBSP reforça essa relação: nos dias de jogos, os registros de ameaça contra mulheres aumentaram 27,4%, enquanto os de lesão corporal dolosa decorrente de violência doméstica cresceram 28,8%. Entre mulheres de 15 a 29 anos, os aumentos chegam a aproximadamente 44% nos dois tipos de ocorrência. Levando em consideração o calendário de partidas da elite do futebol brasileiro, isso ocorre em, no mínimo, cinco dias da semana.

Além disso, existem outros fatores que potencializam as agressões, como as rivalidades, frustrações, álcool, apostas e as relações de gênero já desiguais. Em comparação com a primeira edição do estudo, publicada em 2022, quando os aumentos eram de 23,7% para ameaças e 20,8% para lesões, os dados atuais sugerem uma intensificação dessa associação e um crescimento proporcionalmente maior das agressões físicas, passando para 27,4% e 28,8%, respectivamente. 

Esse contexto pode ser mais destacado quando olhamos para mulheres que participam do ambiente esportivo, já que historicamente no Brasil há uma exclusão do público feminino. Legalmente, somente em 1983 a CND (Conselho Nacional de Desportos), antigo órgão responsável por todas as regulações da prática esportiva passou a permitir que o futebol feminino fosse praticado no país. A instituição, extinta em 1993, foi criada por Getúlio Vargas em 1941 e proibia mulheres de praticar esportes que não fossem da “natureza feminina” , atualmente extinto, 

Ainda assim, temos até os dias de hoje resquícios desta imagem do futebol diretamente relacionada a “dominância masculina”. Em entrevista para a AGEMT, Thaís Togneri, 35, ex-jogadora e professora de futebol, falou o quão recente são estas mudanças de cenário.

Thaís Togneri em seu trabalho como professora de futebol. Imagem: Reprodução/Instagram/@quadradoxuxa
Thaís Togneri em seu trabalho como professora de futebol. Foto: Reprodução/Instagram/@quadradoxuxa

“(Quando Comecei) Era muito comum ouvir que futebol não era para mulher. Como os homens sempre tiveram uma predominância muito grande nesse esporte [...] participei dos Jogos Regionais representando as cidades de Guararema e Poá. Cheguei a fazer um teste no Juventus, mas não passei. Na verdade, nunca cheguei a buscar de forma concreta uma carreira profissional como jogadora, muito porque, naquela época, as oportunidades para as mulheres eram ainda mais limitadas.”

O Futebol faz parte da vida de Thaís desde os oito anos de idade, sempre sendo evidente, mesmo que não diretamente, a diferença de tratamento que as meninas e mulheres do esporte recebem em relação aos meninos e homens. Elas acabam tendo que se provar serem merecedoras deste espaço bem mais do que o público masculino.

 “[...] acredito que isso acontece até hoje [...] para ocupar esse espaço, muitas vezes precisamos mostrar, através do nosso trabalho e da nossa capacidade, que também pertencemos a ele”, relata a professora.

Bets, álcool e o aumento dos fatores de risco

Nos últimos anos, as apostas esportivas online, conhecidas como “bets”, passaram a ocupar espaço central nesse universo, patrocinando campeonatos, clubes e transmissões. Embora o estudo do FBSP ressalte que o futebol não é responsável pela violência direta contra as mulheres, fatores ligados ao esporte, como o consumo de álcool e a expansão desse mercado, podem potencializar conflitos já existentes. 

Na pesquisa, segundo Juliana Brandão, pesquisadora e coordenadora de Gênero e Raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), situações como perdas financeiras, frustração com resultados esportivos e comportamentos impulsivos ligados ao jogo podem aumentar tensões dentro de casa, especialmente quando já têm contextos marcados por controle, agressividade e desigualdades de gênero. 

Além disso, a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) afirma que o álcool e um fator de risco associado a violência praticada por parceiros íntimos e a violência sexual, uma vez que pode reduzir o autocontrole e favorecer comportamentos agressivos.

Assim, especialistas defendem que tanto o consumo excessivo de bebidas alcoólicas como apostas, devem ser tratadas como temas de saúde pública e prevenção da violência, e não somente como questões individuais.

A responsabilidade de clubes, federações e torcidas

A participação dos clubes em minimizar essa cultura machista dentro do futebol existe. Thaís descreve uma grande evolução em comparação a quando ela estava começando e cita exemplos de grandes clubes, como o Corinthians. Hoje em dia, o time consegue lotar estádios com a equipe feminina, mas também nota essa presença nas categorias de base.

“Eu vejo isso também no meu trabalho. No ano passado, por exemplo, uma das minhas alunas foi para a categoria de base do Centro Olímpico, em São Paulo, e passou a ser direcionada para treinar e jogar com as meninas da base.”, afirma.

Porém o problema vai para além do campo e os números indicam necessidade de ação de todas as partes.

Diante do crescimento dos casos registrados em dias de jogos, o relatório argumenta que o combate às agressões contra mulheres precisa envolver todos os atores que fazem parte do universo do futebol.

Clubes e federações podem atuar na promoção de campanhas educativas, na divulgação de canais de denúncia e na implementação de protocolos de acolhimento às vítimas. Também podem investir em ações e formação voltadas a atletas profissionais e das categorias de base, abordando temas como respeito, igualdade de gênero e prevenção da violência. 

Algumas iniciativas recentes mostram como o futebol pode assumir esse papel de forma mais ativa. Em novembro de 2025, Corinthians e Botafogo realizaram uma ação conjunta de conscientização contra o feminicídio. Na partida entre as equipes, os uniformes trouxeram mensagens de conscientização, combinando as campanhas “Quem Matou?”, do Corinthians, e “Números Quebrados”, do Botafogo, com o objetivo de chamar a atenção para os altos índices de violência de gênero no país. Reforçando a avaliação de que clubes são agentes com capacidade de influenciar comportamentos e mobilizar seus torcedores, mostrando como campanhas de conscientização poderiam ocorrer com maior frequência no futebol brasileiro.

Acima, detalhe do uniforme do Corinthians com a mensagem da campanha “Quem matou?”. Abaixo, o número estilizado da campanha “Números Quebrados” inspirados em radiografias de mulheres vítimas de agressão, do Botafogo. Foto: Reprodução/ Instagram/ @corinthians/ @botafogo
Acima, detalhe do uniforme do Corinthians com a mensagem da campanha “Quem matou?”. Abaixo, o número estilizado da campanha “Números Quebrados” inspirados em radiografias de mulheres vítimas de agressão, do Botafogo. Foto: Reprodução/ Instagram/ @corinthians/ @botafogo

As torcidas, apontadas como parte fundamental da mudança cultural, também podem contribuir para o enfrentamento de discursos machistas e promover uma construção de uma cultura esportiva mais inclusiva, desvinculando a masculinidade de comportamentos agressivos e relações de dominação. 

A discussão ganha ainda mais relevância em um cenário no qual mulheres ocupam cada vez mais espaço nas arquibancadas e na prática esportiva, mas continuam convivendo com situações de assédio, discriminação e violência dentro e fora dos estádios.

O que pode ser feito?

Além de apresentar os resultados da pesquisa, o FBSP elaborou recomendações para enfrentar a violência contra a mulher associada aos contextos futebolísticos. Entre as principais medidas estão:

  • criação de postos permanentes de acolhimento e denúncia dentro dos estádios;
  • monitoramento mais rigoroso de casos de violência doméstica e do cumprimento de medidas protetivas;
  • desenvolvimento de programas educativos sobre masculinidades e igualdade de gênero;
  • criação de estratégias voltadas para os impactos do consumo abusivo de álcool e das apostas esportivas;
  • fortalecimento de iniciativas que tornem os estádios mais seguros e acolhedores para mulheres.

 

Os dados dessa pesquisa informam que a violência contra as mulheres vai além dos estádios e reflete desigualdades ainda presentes na sociedade. Nesse cenário, enfrentar o problema exige o compromisso de clubes, federações, torcidas, patrocinadores e do poder público para promover mudanças socioculturais e fortalecer a prevenção.

Para mulheres que vivenciam situações de violência, a denúncia é um passo fundamental para romper o ciclo de agressões. O canal nacional de atendimento à mulher é o Ligue 180, que funciona 24 horas por dia, de forma gratuita e sigilosa. Em casos de emergência ou risco imediato, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo telefone 190. Também é possível registrar ocorrência nas Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs) e buscar apoio em serviços especializados de proteção e acolhimento.