Na terça-feira (20), foi celebrada a 48ª edição do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos nas instalações do Tucarena, integrante do Teatro da Universidade Católica de São Paulo (TUCA). A cerimônia de premiação ocorreu após a 15ª Roda de Conversa com os vencedores da edição.
O Prêmio foi articulado e promovido em 1978 pelo Comitê Brasileiro de Anistia para homenagear o jornalista Vladimir Herzog, que foi torturado e assassinado durante a ditadura militar, e também para pautar a democracia e os direitos humanos.
Os temas das obras abordadas envolveram trabalho análogo à escravidão, violência policial nas periferias, fome, aborto e violência de gênero. Na roda de conversa, mediada por Aldo Quiroga, editor-chefe da TV Cultura e professor de Jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), e a também jornalista Angelina Nunes, os autores falaram sobre o processo de elaboração da pauta, da investigação e das entrevistas.
O Prêmio Especial Vladimir Herzog 2026 homenageou Jamil Chade, um dos jornalistas brasileiros mais relevantes no mundo. Chade tem notável carreira no jornalismo internacional e já percorreu mais de 70 países, cobrindo refugiados, crimes contra a humanidade e embates diplomáticos. Hoje, seu escritório está sediado em Genebra, na Suíça.
A memória de Paulo Caruso também foi homenageada pelo Prêmio Especial. Formado em arquitetura, Caruso se dedicou à caricatura como ferramenta crítica jornalística. Atuou nas redações do Pasquim e IstoÉ e foi o cronista visual do Roda Vida, da TV Cultura, por mais de três décadas. Paulo morreu em 2023, aos 73 anos.
Premiados
O vencedor Thiago Lucas ganhou o prêmio de arte com a sua obra “O inimigo mora em casa”. O cartunista usou do humor e dos desenhos para denunciar e alertar sobre a violência doméstica. Antonio Junião, menção honrosa da categoria, apresentou o trabalho “Outro jovem negro assassinado”, que pauta a violência letal do Estado. Embora os jornalistas trabalhem para diversos veículos, o prêmio foca no trabalho individual de cada um, premiando a pessoa e não os jornais, como comentou o professor Aldo Quiroga.
Tomaz Silva venceu o prêmio de fotografia com a imagem intitulada “Viúva se despede do marido morto na operação policial mais letal do Rio de Janeiro”. Registrada em outubro de 2025, no Complexo da Penha, a foto retrata o momento em que Fernanda da Silva Martins abraça o cadáver de seu marido, após megaoperação realizada pelas forças de segurança do Rio de Janeiro que deixou 122 mortos na comunidade e no Complexo do Alemão.
Eduardo Anizelli, menção honrosa da mesma categoria, também pautou os impactos da operação policial de outubro de 2025. A série fotográfica e projeto documental do fotojornalista mostram o momento em que os próprios moradores da comunidade se mobilizaram para transportar os corpos das vítimas até a Praça São Lucas, diante da ineficácia do socorro e da perícia oficial do Estado. “Eu mostrei explicitamente porque as pessoas precisam ver o que acontece”, declarou.
Em entrevista para a AGEMT, Eduardo afirmou que, quando estava in loco retratando a tragédia, sua câmera servia de escudo para conseguir trabalhar diante dos horrores, porém, ao chegar em casa e ser questionado pela sua esposa se estava tudo bem, ele afirmou ter passado mal de desgaste e choque dos acontecimentos que havia presenciado. Eduardo venceu neste ano o World Press Photo, um dos prêmios de fotografia mais renomados do mundo. “É um trabalho que, sinceramente, eu não me orgulho nem um pouco”, afirmou, emocionado.
Para a categoria de áudio, a vencedora foi Julia Dolce e sua equipe. Eles elaboraram o episódio “Palestina, da abundância à fome”, do podcast Prato Cheio, produzido pelo portal O Joio e o Trigo, que investiga como a expansão do conflito na Palestina afetou a alimentação, agricultura e recursos hídricos da população.
Na categoria de livro-reportagem, Ana Paula Araújo venceu com o seu livro, publicado pela Globo Livros, “Agressão”. Ela percorreu diversas regiões do Brasil para investigar as diferentes formas de violência de gênero e recolher relatos de vítimas, familiares, especialistas e os próprios agressores. “No momento que vivemos, muitos dos nossos direitos vêm sendo questionados. Há um grande ritmo de retrocesso e é um avanço o reconhecimento de que a violência contra a mulher constitui uma violação dos direitos humanos”, afirmou Araújo em entrevista à AGEMT. Ela também acrescentou que a violência e a agressão são problemas de toda a sociedade e devem ser pautados constantemente.
Na categoria áudio, a equipe de Natália Silva foi premiada pela matéria “Sala de espera: O aborto legal no Brasil sob uma nova ameaça”, da Rádio Novelo. A reportagem discute a garantia do aborto legal no Brasil em alguns casos, como o de violênica sexual e de risco à saúde da mãe. A jornalista, em entrevista para a AGEMT, descreveu o papel do jornalismo com a democracia e com os direitos das mulheres no Brasil. “Ter as ferramentas para descrever essa realidade e mostrar para as mulheres que elas não estão sozinhas, para mim é um jeito também de cumprir o meu papel, não só como jornalista, mas como mulher”, afirmou.