Tucarena sedia 48ª Prêmio Vladimir Herzog

A premiação debate os direitos humanos e anistia e trata o papel político do jornalismo
por
Isabella Damião
Lara Manasseh
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03/11/2026 - 12h

Na terça-feira (20), foi celebrada a 48ª edição do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos nas instalações do Tucarena, integrante do Teatro da Universidade Católica de São Paulo (TUCA). A cerimônia de premiação ocorreu após a 15ª Roda de Conversa com os vencedores da edição. 

O Prêmio foi articulado e promovido em 1978 pelo Comitê Brasileiro de Anistia para homenagear o jornalista Vladimir Herzog, que foi torturado e assassinado durante a ditadura militar, e também para pautar a democracia e os direitos humanos. 

Os temas das obras abordadas envolveram trabalho análogo à escravidão, violência policial nas periferias, fome, aborto e violência de gênero. Na roda de conversa, mediada por Aldo Quiroga, editor-chefe da TV Cultura e professor de Jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), e a também jornalista Angelina Nunes, os autores falaram sobre o processo de elaboração da pauta, da investigação e das entrevistas. 

O Prêmio Especial Vladimir Herzog 2026 homenageou Jamil Chade, um dos jornalistas brasileiros mais relevantes no mundo. Chade tem notável carreira no jornalismo internacional e já percorreu mais de 70 países, cobrindo refugiados, crimes contra a humanidade e embates diplomáticos. Hoje, seu escritório está sediado em Genebra, na Suíça.

Jamil Chade emocionado no púlpito do prêmio, no meio de seu discurso de agradecimento
Jamil Chade recebe o Prêmio Especial Vladimir Herzog. Foto: Beatriz Manocchio/AGEMT.

A memória de Paulo Caruso também foi homenageada pelo Prêmio Especial. Formado em arquitetura, Caruso se dedicou à caricatura como ferramenta crítica jornalística. Atuou nas redações do Pasquim e IstoÉ e foi o cronista visual do Roda Vida, da TV Cultura, por mais de três décadas. Paulo morreu em 2023, aos 73 anos. 

Premiados

O vencedor Thiago Lucas ganhou o prêmio de arte com a sua obra “O inimigo mora em casa”. O cartunista usou do humor e dos desenhos para denunciar e alertar sobre a violência doméstica. Antonio Junião, menção honrosa da categoria, apresentou o trabalho “Outro jovem negro assassinado”, que pauta a violência letal do Estado. Embora os jornalistas trabalhem para diversos veículos, o prêmio foca no trabalho individual de cada um, premiando a pessoa e não os jornais, como comentou o professor Aldo Quiroga.

Tomaz Silva venceu o prêmio de fotografia com a imagem intitulada “Viúva se despede do marido morto na operação policial mais letal do Rio de Janeiro”. Registrada em outubro de 2025, no Complexo da Penha, a foto retrata o momento em que Fernanda da Silva Martins abraça o cadáver de seu marido, após megaoperação realizada pelas forças de segurança do Rio de Janeiro que deixou 122 mortos na comunidade e no Complexo do Alemão. 

 

Viúva chora ao se despedir de marido morto.
Imagem vencedora da categoria de fotografia do 48º Prêmio Vladimir Herzog, “Viúva se despede do marido morto na operação policial mais letal do Rio de Janeiro”. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil-EBC.  

Eduardo Anizelli, menção honrosa da mesma categoria, também pautou os impactos da operação policial de outubro de 2025. A série fotográfica e projeto documental do fotojornalista mostram o momento em que os próprios moradores da comunidade se mobilizaram para transportar os corpos das vítimas até a Praça São Lucas, diante da ineficácia do socorro e da perícia oficial do Estado. “Eu mostrei explicitamente porque as pessoas precisam ver o que acontece”, declarou.  

Em entrevista para a AGEMT, Eduardo afirmou que, quando estava in loco retratando a tragédia, sua câmera servia de escudo para conseguir trabalhar diante dos horrores, porém, ao chegar em casa e ser questionado pela sua esposa se estava tudo bem, ele afirmou ter passado mal de desgaste e choque dos acontecimentos que havia presenciado. Eduardo venceu neste ano o World Press Photo, um dos prêmios de fotografia mais renomados do mundo. “É um trabalho que, sinceramente, eu não me orgulho nem um pouco”, afirmou, emocionado. 

Para a categoria de áudio, a vencedora foi Julia Dolce e sua equipe. Eles elaboraram o episódio “Palestina, da abundância à fome”, do podcast Prato Cheio, produzido pelo portal O Joio e o Trigo, que investiga como a expansão do conflito na Palestina afetou a alimentação, agricultura e recursos hídricos da população. 

Na categoria de livro-reportagem, Ana Paula Araújo venceu com o seu livro, publicado pela Globo Livros, “Agressão”. Ela percorreu diversas regiões do Brasil para investigar as diferentes formas de violência de gênero e recolher relatos de vítimas, familiares, especialistas e os próprios agressores. “No momento que vivemos, muitos dos nossos direitos vêm sendo questionados. Há um grande ritmo de retrocesso e é um avanço o reconhecimento de que a violência contra a mulher constitui uma violação dos direitos humanos”, afirmou Araújo em entrevista à AGEMT. Ela também acrescentou que a violência e a agressão são problemas de toda a sociedade e devem ser pautados constantemente. 

Na categoria áudio, a equipe de Natália Silva foi premiada pela matéria “Sala de espera: O aborto legal no Brasil sob uma nova ameaça”, da Rádio Novelo. A reportagem discute a garantia do aborto legal no Brasil em alguns casos, como o de violênica sexual e de risco à saúde da mãe. A jornalista, em entrevista para a AGEMT, descreveu o papel do jornalismo com a democracia e com os direitos das mulheres no Brasil. “Ter as ferramentas para descrever essa realidade e mostrar para as mulheres que elas não estão sozinhas, para mim é um jeito também de cumprir o meu papel, não só como jornalista, mas como mulher”, afirmou. 

Vencedores do prêmio reunidos.
Vencedores e Menções Honrosas do 48º Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Foto: Beatriz Manocchio/AGEMT.