MODA NO BRASIL
A moda brasileira é um tema sensível, especialmente porque ainda enfrenta dificuldades para ser valorizada pelo próprio público. Como consequência de um processo histórico marcado pela colonização, o olhar dos brasileiros muitas vezes se voltam para referências externas, enquanto produções maravilhosas acontecem dentro do próprio país. Com a globalização e o acesso cada vez mais amplo a produtos e referências internacionais, isso se intensificou.
Um exemplo disso é o chamado “Brasil Core”, uma estética que ganhou força nas redes sociais a partir de conteúdos produzidos por usuários estrangeiros que celebravam elementos do estilo brasileiro, da nossa moda e do nosso modo de viver. A popularização dessa estética fez com que muitos brasileiros passassem a olhar para aquilo que já fazia parte do seu cotidiano sob uma nova perspectiva, percebendo que a nossa cultura também pode ser uma referência de estilo e de comportamento.
MONDEPARS E SUA IDENTIDADE
Sasha Meneghel faz parte de uma parcela de brasileiros que reconhece e acredita no potencial do próprio país. Filha de Xuxa, ela teve o privilégio de ingressar no mercado com maior visibilidade e oportunidades desde cedo. Ainda assim, está construindo sua própria trajetória na moda, uma formação que começou na Parsons School of Design, em Nova York, nos Estados Unidos, onde estudou Design de Moda. Além da diversidade cultural que caracteriza o Brasil, sua marca também incorpora um ponto de vista pessoal construído a partir de suas experiências e de sua formação no exterior. Essa combinação ajuda a compreender algumas das críticas direcionadas à Mondepars, especialmente em relação à forma como sua identidade é percebida dentro do cenário da moda brasileira.
A Mondepars é uma marca focada em alfaiataria e vem construindo sua imagem a cada desfile. O nome “Mondepars” é um neologismo criado por Sasha a partir da combinação de “monde”, palavra francesa para “mundo”, e “pars”, termo em latim que significa “parte”. A marca tem como prioridades a qualidade, a durabilidade e o caimento de suas peças.
As principais críticas à Mondepars dizem respeito justamente à maneira como a marca traduz sua brasilidade. Ao contrário de uma estética nacional mais facilmente reconhecível, marcada por cores vibrantes, estampas e referências visuais tropicais, a grife constrói sua identidade por meio de uma linguagem mais contida e autoral. Isso não a torna menos brasileira; pelo contrário, amplia a própria ideia do que pode ser entendido como moda brasileira. A questão, portanto, não está em identificar símbolos nacionais na roupa, mas em reconhecer que a brasilidade também pode existir em interpretações menos literais e mais particulares.
Essa escolha também parece refletir a maneira como Sasha se expressa por meio da moda. Existe uma preocupação em não transformar a identidade brasileira na coisa mais importante da marca. Até porque, é possível imaginar que o mesmo público que hoje questiona a falta de elementos considerados “brasileiros” também poderia criticar a marca caso ela utilizasse esses elementos de maneira estereotipada. A questão, portanto, não deveria ser se a Mondepars parece brasileira o suficiente, mas se existe espaço para diferentes interpretações do que significa criar moda brasileira.
A Mondepars também não busca atender ao mesmo público ou ocupar o mesmo espaço que marcas como a Farm Rio, outra marca brasileira consolidada no mercado da moda. Compará-las apenas pela nacionalidade deixa de lado justamente aquilo que torna cada uma delas diferente, que são as suas propostas, seus públicos e suas maneiras de interpretar o Brasil por meio da moda.
DE ALDA ATÉ SASHA
A relação de Sasha com a moda também está diretamente ligada à sua família. As icônicas roupas usadas por Xuxa foram criadas por sua mãe, Alda Meneghel, que teve um papel importante na construção da imagem da apresentadora. Esse legado chegou à terceira geração da família por meio de Sasha, que encontrou na avó uma de suas principais referências dentro da moda. Ao mesmo tempo, em entrevista ao Clichê Talks, Sasha afirma que sua maior inspiração é a própria mãe e conta que, muitas vezes, percebe referências de Xuxa surgindo naturalmente em seu próprio trabalho. Dessa forma, a moda aparece em sua trajetória não apenas como profissão, mas também como uma herança familiar que atravessa três gerações.
A história de Alda é o elemento central na construção do desfile. Sua trajetória foi marcada por diferentes vivências: foi mãe nova, perdeu o pai, conviveu com ciganos e chegou a passar um período em um convento, até conhecer Luiz Meneghel, com quem se casou. Esses momentos de sua vida foram transformados por Sasha em referências para a coleção. Entre os elementos presentes no desfile estão os palhaços, que fazem referência ao pai de Alda, como as gravatas, as calças abauladas e as ombreiras, que remetem a diferentes momentos de sua trajetória. A renda, as camisetas com gola de padre e as capas curtas aparecem como referência ao tempo que Alda esteve no convento.
O DESFILE
No início do desfile, a narrativa se constrói a partir de recordações da infância de Alda. A presença do palhaço faz referência às brincadeiras que ela tinha com o seu pai, Agenor, criando uma representação visual de uma memória que mais para frente seria interrompida pela morte dele. Essa relação entre infância, brincadeira e perda aparece não apenas na encenação, mas também nos próprios elementos das roupas.
As gravatas e as golas aparecem como recursos importantes ao longo da coleção, enquanto alguns sapatos remetem visualmente aos calçados associados à figura do palhaço. Esses elementos não parecem estar presentes apenas por uma questão estética, mas funcionam como pequenas referências à história de Alda, permitindo que acontecimentos de sua vida sejam transformados em detalhes dentro da coleção.
Outro elemento de destaque são as peças de madeira, especialmente alguns acessórios como luvas e gravatas. A utilização de materiais e formas pouco convencionais reforça o caráter experimental do desfile, mostrando que Sasha não está apenas reproduzindo literalmente a história de sua avó, mas representando a sua própria visão de moda.
Os blazers também se mostram protagonistas. As peças possuem uma construção marcante e um caimento que evidencia a experiência de Sasha com a alfaiataria. São momentos em que a coleção parece se afastar da representação literal da história para apresentar aquilo que a designer faz melhor: transformar suas referências pessoais em roupas estruturadas e contemporâneas.
Assim, os elementos do desfile funcionam em diferentes níveis. O palhaço, os sapatos, as gravatas, as golas e os acessórios carregam referências à memória da família, enquanto a alfaiataria e a construção das peças mostram a interpretação de Sasha sobre essa história. O resultado é uma coleção em que a memória familiar não aparece apenas como inspiração, mas como uma espécie de matéria-prima para a criação.
No final, a entrada da noiva funciona como um marco narrativo. Depois de acompanhar diferentes momentos da vida de Alda, o desfile chega ao casamento, representando uma mudança de fase. A figura da noiva, além de ser algo tradicional dentro da história da moda, ganha um significado específico dentro dessa narrativa familiar. Ela representa o início de uma nova etapa da vida e deixa a possibilidade de que os próximos acontecimentos depois do casamento sejam explorados em uma outra coleção
Dessa forma, o desfile pode ser entendido quase como uma biografia construída por meio da moda. Sasha transforma acontecimentos da vida de sua avó em imagens, materiais, silhuetas e referências, criando uma conexão entre três gerações de mulheres e suas diferentes relações com a criação, a roupa e a identidade.