Aos 80 anos, Luiz Inácio Lula da Silva chega à oitava disputa pela Presidência da República em busca de seu quarto mandato à frente do Executivo federal. Coordenadores de campanhas de deputados estaduais do PT de São Paulo ouvidos pela AGEMT afirmaram que a eleição de 2026 é considerada a mais importante da história da sigla. À reportagem, os petistas, que já ocuparam cargos na Executiva Estadual da sigla, relataram um sentimento positivo dentro do partido, mas também reconheceram que é o último pleito disputado por Lula. Nas próximas eleições, o PT deverá passar por um processo de renovação de lideranças, cujos nomes já serão testados nas urnas em 2026.
De líder sindical a presidente da República
A trajetória política de Lula teve início em 1969, quando ingressou no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Seis anos mais tarde, foi eleito presidente do sindicato com 92% dos votos e passou a representar cerca de 100 mil trabalhadores. Apesar das mobilizações estarem proibidas pelo regime militar, 170 mil metalúrgicos pararam o ABC paulista em março de 1979, sob a liderança de Lula. A repressão policial contra os grevistas e a escassa representatividade dos trabalhadores no Congresso Nacional impulsionaram a criação do PT no ano seguinte.
Em 1986, com a redemocratização em curso, Lula foi eleito o deputado federal mais votado do país para a Assembleia Constituinte. Na ocasião, o petista recebeu 651.753 mil votos. Após três anos, Lula disputou a Presidência da República pela primeira vez. No segundo turno, o metalúrgico recebeu 47% dos votos e foi derrotado por Fernando Collor, na época filiado ao PMDB, com 53%. Nos dois pleitos seguintes, Lula voltou a concorrer ao Executivo federal, mas foi derrotado por Fernando Henrique Cardoso (PSDB) em ambas as ocasiões.
Com cerca de 53 milhões de votos, Lula venceu a eleição de 2002 no segundo turno contra José Serra (PSDB). O primeiro mandato do petista foi marcado por políticas públicas de enfrentamento às desigualdades sociais, com a criação de programas como Bolsa Família, Prouni, FIES, Farmácia Popular, além da implementação do SAMU ao Sistema Único de Saúde, o SUS. Quatro anos mais tarde, Lula foi reeleito presidente do Brasil, após derrotar Geraldo Alckmin, hoje seu aliado e vice-presidente na chapa que disputa sua segunda reeleição.
A crise financeira de 2008 não prejudicou a aprovação do mandato do petista. O governo Lula II alcançou 87% de aprovação em dezembro de 2010, o maior índice de popularidade já registrado por um presidente. Àquela altura, Dilma Rousseff (PT), candidata apoiada por Lula, já havia vencido as eleições. Nos quatro anos que sucederam à vitória de Dilma, Lula esteve dedicado às tarefas internas do partido, até que, em março de 2014, o presidente voltou aos holofotes com a deflagração da Operação Lava Jato.
Em julho de 2017, o então juiz Sérgio Moro (PL-PR), hoje senador e candidato ao governo do Estado do Paraná, condenou Lula a nove anos e seis meses de prisão por lavagem de dinheiro e corrupção passiva. O presidente foi condenado por ocultar a propriedade de um triplex no Guarujá, que seria pagamento da empresa OAS (construtora Olivieri, Araújo e Suárez) por supostas vantagens em contratos com a Petrobrás. Seis meses depois, o Tribunal Regional Federal (TRF-Porto Alegre) aumentou a pena do presidente para 12 anos e um mês de prisão.
Em 7 de abril de 2018, Lula se entregou à Polícia Federal na Superintendência da Lapa, em São Paulo. No ano seguinte, o Supremo Tribunal Federal (STF) mudou o entendimento sobre prisão em segunda instância e determinou que o cumprimento da pena só pode ocorrer depois de esgotados todos os recursos. Lula cumpriu 580 dias de pena e foi solto em 8 de novembro de 2019. Após dois anos, a Suprema Corte anulou todas as condenações impostas por Moro.
Em 2022, Lula voltou a concorrer à Presidência. Organizou uma frente ampla contra o então presidente Jair Bolsonaro (PL), com Geraldo Alckmin na vice-presidência. Com a maior votação da história democrática do país, o petista foi eleito com mais de 60 milhões de votos. Seu terceiro mandato foi marcado pela retomada e expansão de programas sociais, além da articulação política internacional, em especial no que diz respeito às relações entre Brasil e os Estados Unidos de Donald Trump.
Diretrizes do plano de governo
O slogan “O Brasil pronto pra mais” define o plano de governo da oitava candidatura de Lula à presidência. Com o apoio das Federações Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV) e PSOL-Rede Sustentabilidade, o documento cita 13 propostas, que determinam eixos para um novo mandato e fazem referência às políticas já estabelecidas. As novas implementações buscam a democratização do orçamento público, defesa da soberania nacional e a ampliação de políticas públicas.
Democracia, participação social e modernização do Estado
A primeira diretriz prevê a ampliação da democracia participativa por meio da consolidação do Sistema de Participação Social, com a continuidade de conselhos, conferências nacionais e do orçamento participativo (Plano Plurianual - PPA). A modernização do Estado está relacionada como projeto visando reunir serviços públicos universais na plataforma Gov.br, bem como o avanço na regulação das redes sociais contra a desinformação. O programa também indica o combate ao atual sistema de emendas parlamentares e o orçamento secreto, para recuperar a eficiência de alocação de recursos públicos.
Combater as desigualdades
A proposta dá continuidade às ações governamentais já instauradas nos mandatos anteriores e determina novos planos de atuação. Além de defender a justiça tributária, valorização do salário-mínimo, transferência de renda, proteção social e pontuar a saída do Brasil do Mapa da Fome, o programa também reafirma o combate contra o racismo. Dando ênfase à 5º CONAPIR (Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial), realizada em 2025, o plano menciona o avanço na titulação de terras quilombolas e das cotas raciais no ensino superior e no serviço público.
Em relação às mulheres, foi mencionado o Pacto de Enfrentamento ao Feminicídio, criado em 2023 e relançado em 2026, após aumento da violência contra mulheres. O projeto prevê o envolvimento dos três poderes no combate ao machismo e a promoção do Comitê Interinstitucional de Gestão, para agilizar os requerimentos de medidas protetivas. O projeto ainda faz menção à criação do Ministério dos Povos Indígenas, à homologação de 20 terras, bem como à redução do garimpo ilegal em terras Yanomamis, que tem contado com maior fiscalização, após o governo Bolsonaro.
Proteger a vida com uma segurança pública mais eficiente e integrada
A segurança é tratada como responsabilidade do Estado e prioridade nacional. Foi pautada uma reforma constitucional a partir da PEC 18/2025, da Segurança Pública, enviada ao Congresso para revisar as atribuições dos entes federativos. Uma vez aprovada, será criado o Ministério da Segurança Pública. Para o sistema prisional, as metas contemplam a criação do Pacto Nacional de Execução Penal, o fortalecimento do sistema penitenciário e a reelaboração de um novo protocolo de classificação de presos. Também foi sugerida a presença das Forças Armadas na Amazônia, em colaboração com a OTCA (Organização do Tratado de Cooperação Amazônica), e o investimento em radares, drones e satélites contra desmatamento, mineração e crimes ambientais.
Garantir o direito à educação para transformar vidas e o país
O Compromisso Nacional Criança Alfabetizada superou a meta de 2025. O plano estipula, portanto, um novo objetivo: garantir que 80% das crianças sejam alfabetizadas na idade prevista. Projetos como Pé de Meia, expansão de creches, universalização de internet nas escolas e melhores condições para os educadores seriam ampliados. As metas da educação também indicam a retomada de investimentos em universidades federais e em programas como ProUni e FIES.
Fortalecer a saúde com equidade, inovação e soberania
A expansão das Unidades Básicas de Atendimento (UBS), de ambulâncias do SAMU e o Telessaúde, integração de prontuários via rede nacional, foram citados no projeto. O programa de governo também visa retomar a vacinação infantil e ampliar a cobertura contra a dengue e o HPV. Para a saúde mental, o objetivo é expandir os Centros de Atendimento Psicossocial. Já para a saúde da mulher, procura-se ampliar a área de atuação do programa “Dignidade Menstrual”, que atualmente fornece absorventes gratuitos.
Ampliar o acesso à cultura e ao esporte como vetores de transformação social
Essa proposta está voltada principalmente para a democratização do fomento cultural, em especial a desconcentração regional dos recursos das leis federais de incentivo, como a Lei Aldir Blanc e a Lei Rouanet, para fortalecer a diversidade cultural do país e prevê o retorno de projetos de fomento ao cinema nacional. O programa visa ampliar a Bolsa Atleta, mais dinheiro para mais esportistas brasileiros, assim como o apoio à realização da Copa do Mundo de Futebol Feminino em 2027.
Fortalecer o direito à cidade
Essa diretriz está voltada principalmente para a ampliação do programa “Minha Casa Minha Vida”, priorizando famílias de baixa renda e introduzindo uma nova faixa de renda para auxiliar a classe média. Novos mecanismos como a “Compra Assistida”, que permite a aquisição de imóveis prontos, também serão ampliados. O programa promete a retomada e conclusão de obras de infraestrutura, regularização fundiária e serviços públicos nas periferias pelo programa “Periferia Viva”, assim como o apoio à modernização do transporte público coletivo no país.
Promover uma economia mais sustentável, produtiva e digital, para todas e todos
O plano de governo Lula 3 dividiu o conceito de economia em cinco pilares: A retomada do crescimento e emprego, combate às desigualdades, controle da inflação com responsabilidade fiscal, neo-industrialização pautada na transformação e preservação ecológica e a reabertura do Brasil ao mundo. Além da manutenção do arcabouço fiscal e a meta de redução sustentada dos juros, com inflação sob controle, já citadas na atual gestão, o projeto visa dar continuidade da Nova Indústria Brasil (NIB), a criação de uma política dedicada a organização das cadeias produtivas dos minerais críticos e descarbonização da economia. Para o mundo digital o objetivo é apostar nos datacenters e supercomputadores nacionais, modelos de IA em português e a democratização do 5G em áreas rurais, reduzindo o déficit de fibra óptica.
O governo também aposta em reduzir as desigualdades entre as regiões do país. Um dos principais projetos é a criação do Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional, que visa substituir a “guerra fiscal” entre os estados por uma injeção de investimentos nas regiões mais pobres. Para micro e pequenas empresas, o plano prevê ampliar o acesso ao crédito e simplificar a burocracia. Citando o programa Pronampe, linha de crédito para pequenos negócios.
Segurança alimentar e produção agrícola
O programa ressalta que o Brasil saiu do Mapa da Fome pela segunda vez em 2025 e que hoje tem o menor percentual de pessoas em insegurança alimentar severa da história do país. O governo pretende manter os programas voltados para a produção e distribuição de alimentos, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Nesse sentido, promete a expansão do Plano Safra da Agricultura Familiar e do Pronaf, com linhas específicas de crédito voltadas para mulheres, jovens, transição agroecológica e reforma agrária. O programa indica a busca por fontes diversificadas de financiamento para o agronegócio e o financiamento de equipamentos para o aumento da produtividade. Entende que a produção agrícola deve estar aliada a um programa nacional de resiliência climática e ampliação do seguro rural contra riscos climáticos.
Ampliar a segurança energética e liderar a transição para uma economia de baixo carbono
Essa proposta visa avançar a segurança e a transição energética justa, combatendo a pobreza energética, garantindo a energia necessária para o desenvolvimento do país. Para tanto, o governo pretende investir na exploração de petróleo e gás com responsabilidade socioambiental, visando o aumento da capacidade de refino nacional. Além disso, o projeto indica a continuação da Política Nacional de Transição Energética (PNTE) elevando a participação das matrizes eólica e solar na geração elétrica.
Promover a sustentabilidade ambiental e climática
O projeto estabelece como meta atingir o desmatamento líquido zero até 2030, por meio da implementação de planos de controle e prevenção. Também promete o cumprimento da nova Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) para redução de emissões de gases de efeito estufa e atração de recursos para financiamento climático (Fundo Clima, Fundo Amazônia e TFFF). Além disso, o governo pretende seguir o Plano Clima, que orienta a política climática brasileira até 2035, com 8 planos de mitigação, 16 planos de adaptação e 5 estratégias transversais para ação climática.
Valorizar o trabalho em suas múltiplas formas
A proposta promete continuar com a política de valorização do salário-mínimo, assegurando o aumento real para o piso de remuneração todos os anos para recuperar o poder de compra dos trabalhadores. O projeto pretende integrar a oferta de crédito público, assistência técnica, incentivos fiscais e a política de compras governamentais a compromissos com a geração de empregos de qualidade. Além disso, o programa pretende criar um sistema de proteção e direitos laborais e previdenciários específicos para os trabalhadores sob regime de aplicativos e plataformas digitais.
Por fim, o projeto reafirma a posição contra a escala 6x1 e promete assegurar a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais sem redução salarial, assim como aprimorar a legislação trabalhista, alterando regras que induzem a precarização das condições de trabalho.
Defender a soberania nacional e o protagonismo internacional do Brasil
A última diretriz alinha a política externa e a defesa nacional como dimensões complementares de uma mesma estratégia voltada à proteção dos interesses do Brasil. O programa promete manter uma política externa universalista e ampliar os esforços de cooperação e negociação com todas as regiões do mundo, diversificando parcerias estratégicas, investindo em novos acordos comerciais e na abertura de novos mercados, de modo a continuar enfrentando agressões comerciais e a defender os interesses do país com base nas normas internacionais e no multilateralismo.
Por fim, pretende-se consolidar as relações com o Mercosul, assim como promover o fomento à cooperação integrada de segurança e desenvolvimento na Amazônia Legal (OTCA), e ampliação das parcerias no Atlântico Sul, América do Sul e no continente Africano. O projeto de governo inclui o empenho na reforma da arquitetura financeira global (FMI, Banco Mundial) e defesa da ampliação e democratização do Conselho de Segurança da ONU.