Questões urbanas: a cidade como palco do esquecimento social

Com a pandemia, a metrópole está perdendo a sua função, e será preciso novas formas de convívio coletivo
por
Carlos Gonçalves
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04/06/2021 - 12h

     A cidade perdeu a sua praticidade, onde décadas atrás encontrávamos tudo o que precisávamos para ter qualidade de vida, agora se tornou uma estrutura sufocante, nos condenando a uma massa exausta, estressada e em busca da sobrevivência em um espaço carente de suporte social. O que realmente faz a cidade funcionar melhor? Uma coesão territorial ou uma fragmentação nivelada por classes? Uma cidade integrada ou segregada? A cidade em essência, é aglomeração. E deve ser movida por desejos coletivos.

     Com o avanço das décadas, vimos surgir na região central de São Paulo quarteirões vazios, onde andar a pé se tornou algo remoto, desconfortável. Mas o que fez gerar este desconforto? Diversos fatores: ausência de investimento político, falta de espaços públicos, estruturas para receber o morador, ausência de suporte social para os moradores de rua, tráfico de drogas e uma arquitetura agressiva. O centro urbano paulistano tornou-se uma “fábrica” esquecida a céu aberto, onde antes pulsava o crescimento econômico, hoje está estagnada e atrasada no tempo. Prova que demonstra este esquecimento é quando vemos o centro de São Paulo ser classificado como “antigo centro”; Oras, se é o antigo centro, então ficou no passado, o que vale hoje é o “novo centro”, que é moderno, organizado e que atrai os olhos dos turistas e investidores.

     O novo centro pode ser dividido em dois: o cultural (Consolação e Jardim Paulista) e o econômico (Faria Lima).  Já os bairros que compõe o antigo centro: Sé, Luz, Bom Retiro, Anhangabaú e Campos Elíseos, são os que sofrem com este esquecimento. São bairros que nos dias úteis possuem um alto fluxo de pedestres graças aos pequenos comércios e estações de metrô, porém, aos finais de semana as calçadas tornam-se desertas. Estarem desertas aos finais de semana significa que quem sai para passear pela cidade não se interessa mais pelo antigo centro. Graças aos efeitos de uma má gestão política, o centro se tornou um símbolo da feiura. Antônio Garcia, 47, é atendente em uma padaria no Anhangabaú, e relata como é trabalhar na região. “Eu gosto do centro, sempre tem opções pra o que eu quero. Mas já faz um tempo que ele (o centro) está muito sujo, muita gente largada por aí. O que a gente vê é as vezes a Prefeitura jogando água para tirar o grosso da sujeira da rua e é isso.” É preciso lembrar que nesta região há museus e teatros, mas por ter se tornado uma região carente e violenta, faz com quem quer frequentar estes ambientes use o carro como principal meio de condução, pois é uma forma de “proteção”. Sempre estacionando o veículo dentro do espaço cultural, evitando de ter que caminhar pelas ruas do bairro. “Eu sinto falta da época que o centro era mais bem cuidado, que podia sair por aí e aproveitar até de madrugada. Hoje eu venho pra cá, trabalho e volto pra casa, não me sinto muito feliz em passear por aqui não, está largado.”, diz Antônio.

     Infelizmente, não podemos mais depender unicamente do Estado como mediador para a resolução dos problemas urbanísticos, é necessário a busca por novos caminhos; dos quais um chama a atenção: o setor privado. Ao adotarmos regras nos projetos urbanos, o investidor que se interessou em construir em um espaço urbano, terá que investir uma parte do investimento em uma infraestrutura que seja usufruída por quem habita na região, fortalecendo-a. 

      Uma cidade manejada somente pelo poder econômico (empresas privadas, construtoras ou multinacionais), faz surgir uma cidade murada por milhares de prédios, o que resulta em uma cidade morta, cheia de sombras, hostil ao pedestre e como consequência, muito menos segura. Camila Martins, 35, é moradora e trabalha com vendas de roupas no bairro do Bom Retiro. “Para mim, a única vantagem daqui é que eu moro perto do trabalho, porque de resto. O aluguel até é razoável, , mas o apartamento não é bonito, não tem uma vista boa sabe? A janela só serve para entrar ar e um pouco de luz", declara Camila. O Parque da Luz, por exemplo, já fui algumas vezes,  é bonito, mas não me sinto tranquila lá, só vou acompanhada. Prefiro passear em outros lugares”, acrescenta.

     Precisamos entender que o poder econômico vê o território urbano como uma mercadoria, para ele é somente um espaço para a ação privada, do uso da terra, como meio para algo que lhe dê retorno. Outro fator que é comumente esquecido nos diálogos urbanos é sobre o estatuto da cidade. É preciso urgentemente incorporá-lo aos fins práticos.  Com uma possível revitalização do centro velho, o preço do m² da região subiria consideravelmente, e com o efeito da oferta e demanda imobiliária (novamente), estes terrenos teriam uma grande valorização. Temos que entender que tais propriedades, sejam elas públicas ou privadas, precisam ser usadas; elas precisam cumprir a sua função social do uso. Por quê? Porque o terreno em uma região urbana é um bem escasso, contingente, que precisa ser usado para alguma causa ou propósito; além de ser um direito social, pela liberdade do seu uso.

     É preciso compreender que as cidades não foram feitas para gerar pobreza, o seu propósito era o inverso. Em sua natureza, elas são polos de geração de riqueza, servem como uma nova oportunidade para quem vem de regiões carentes e terem uma nova oportunidade. Ou podemos reformular o seu conceito, e pensar na cidade moderna como um sistema econômico que é concentrador e cruel. Logo, pensando por essa perspectiva, a cidade se tornou uma máquina de concentração do capital, para um grupo específico. Se continuarmos deixando o poder econômico aplicar métodos como a contingência econômica, os preços imobiliários sofrerão aumentos abusivos, criando uma bolha imobiliária que poucos terão capacidade de ingressar, e que poderá explodir. Com essa imposição do mercado castigando a classe média, haverá uma tendência de inchar a pirâmide social para baixo. Por exemplo, já está começando um processo do retorno de moradores à bairros que ficam nas margens da nossa cidade, onde estes grupos ficarão isolados em fragmentos do território urbano, morando em lugares afastados ou perigosos; pois são os únicos lugares com um valor acessível para se pagar. Dificultando cada vez mais a chance de aquisição de um imóvel em regiões próximas onde há demanda de emprego; impedindo também que jovens profissionais consigam uma habitação com valores justos, tendo também que escolher por regiões mais afastadas ou irão optar em pagar aluguéis caríssimos (região oeste, por exemplo).

     Não vemos surgir um novo território feito de forma planejada; o que permanece é uma repetição contínua da fragmentação das classes sociais dentro da cidade. Para que surja um novo acontecimento urbano, ele não pode se dar em um espaço preenchido pela competitividade puramente comercial, é preciso voltar os olhos para quem vive no muro ao lado, dialogar com os moradores, ouvir as suas realidades, criando um elo, um novo sujeito. Ao aprofundar os processos de escuta territorial, o sujeito que vive no espaço urbano irá sentir-se parte do meio no qual vive. Criando um dispositivo de unir a sociologia com a economia, para assim planejar uma cidade justa para todos que nela vivem; formando uma nova cidade gerada por uma ordem equilibrada.

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